12 dezembro 2011

COMENTÁRIO DE BOB FERNANDES SOBRE O 'ENSURDECEDOR SILÊNCIO' DA MÍDIA SOBRE O LIVRO 'A PRIVATARIA TUCANA' - Rosangela Basso


Sete ministros da presidente Dilma já caíram. sempre em razão de denúncias de corrupção ou tráfico de influência. Em todos os casos, a mídia cumpriu seu papel. Investigou e manchetou. Impiedosamente. A oposição botou a boca no trombone, como lhe cabe fazer. Mas desde sexta-feira o que se ouve é um 

Estrondoso Silêncio. 

Sexta-feira chegou às livrarias "A privataria tucana". 

De autoria do jornalista Amaury Ribeiro Jr, o livro trata de um milionário esquema de lavagem de dinheiro. Dinheiro que seria fruto de operações desde a época em que, no governo Fernando Henrique, o Brasil privatizou seu setor de telefonia.

O livro tem 340 páginas: 112 páginas são documentos. Documentos confidencias da CPI do Banestado, documentos obtidos em juntas comercias, e em paraísos fiscais. Personagens centrais do livro são o ex-diretor do Banco do Brasil, Ricardo Sérgio de OIiveira, e José Serra. Serra e alguns dos seus familiares. 

Também na sexta-feira, a revista Carta Capital chegou às bancas com o mesmo tema: o livro de Amaury. Na sexta a revista Terra Magazine entrevistou Amaury, no sábado o jornal da Gazeta informou, as redes sociais debatem desde então. E é só. Nenhuma notícia nos telejornais, jornais, na chamada Grande Mídia. Só um silêncio ensurdecedor. 

Se murmura que faltaria credibilidade a Amaury Ribeiro. Isso por ele ter sido indiciado pela Polícia Federal. Há um ano, sob acusação de espionar Serra e sua família. Em seu livro, Amaury diz que investigava, isso sim, era a espionagem no ninho tucano. Da campanha de Serra contra Aécio Neves.

Perguntas: alguém invocou credibilidade do Sombra, aquele que recebia e pagava e levou à queda do governador Arruda? E quando Roberto Jefferson denunciou o chamado mensalão? Os motivos que o levaram à denúncia, a sua carreira até então, silenciaram o noticiário? Não. E nem deveriam silenciar.O policial João Dias, que recebia dinheiro como confessou, há pouco levou à queda do ministro dos Esportes, Orlando Silva. O policial fez a denúncia dizendo ter um vídeo onde entregava dinheiro para o ministro ou os seus. O vídeo não existe. Mas o noticiário seguiu, fatos surgiram e o ministro caiu. 
E Paulo Lacerda? O íntegro, o competentíssimo, honesto delegado que refundou a Polícia Federal? Lacerda deixou a Abin, foi para o exílio em Portugal por conta de um grampo eletrônico que nunca existiu. Mas que serviu para começar a matar a operação Satiagraha. Aquela que prendeu Daniel Dantas. Dantas que também está no livro.

Os citados no livro A Privataria Tucana seguem em silêncio. A mídia, sempre pronta para investigar e manchetar, segue em silêncio. Um silêncio estrondoso. Se continuar assim, um silêncio profundamente revelador.

Extraído do Blog Maria da Penha Neles de Rosangela  Basso

AMAURY DESAFIA OS PRIVATAS DA MÍDIA - Altamiro Borges

Na entrevista aos blogueiros na noite de sexta-feira (9), o jornalista Amaury Ribeiro Jr., autor do livro “A privataria tucana”, não escondeu a sua bronca contra os barões da mídia. No ano passado, em plena guerra eleitoral, ele foi alvo do linchamento da velha imprensa, que o acusou de quebra de sigilo fiscal e de fabricar dossiês contra os chefões do PSDB. Agora, eufórico, ele dá o troco!

Logo na primeira resposta às dezenas de perguntas feitas em mais de duas horas de conversa ao vivo (via tuitcam), ele criticou os privatas da mídia, que bancaram as privatizações no reinado de FHC e esconderam os seus crimes – lavagem de dinheiro, paraísos fiscais, enriquecimento de pessoas ligadas a José Serra e outras tramóias, “no maior assalto ao patrimônio público brasileiro”.

Provas contra veículos e “calunistas”

Durante a entrevista, Amaury fez várias denúncias contra veículos e “calunistas” da mídia. Garantiu ter documentos que comprovam o envolvimento na privataria de jornalões e emissoras de televisão. “Na venda da Light, a dívida milionária da Rede Globo sumiu”. Entre outros alvos, ele desafiou abertamente o pitbull da Veja, revelando os seus laços “empresariais” com chefões do tucanato.

A leitura do livro “A privataria tucana” indica que o jornalista – que já recebeu um tiro por causa das suas reportagens e ganhou inúmeros prêmios – não está blefando. Ele se exalta quando fala das suas investigações, mas não é bravateiro. A obra, com 343 páginas, apresenta dezenas de documentos oficiais comprovando a roubalheira das privatizações. Não tem adjetivos, mas provas concretas, irrefutáveis!

O “ético” José Serra 

Há mais de dez anos que Amaury investiga as conexões entre a onda privatizante e a abertura de contas nos paraísos fiscais do Caribe – “onde se lava mais branco não somente o ‘dinheiro sujo da corrupção’, mas também o do narcotráfico, do contrabando de armas e do terrorismo”. Esse trabalho, quase insano, é que lhe permitiu chegar aos endereços de vários chefões tucanos.

O livro comprova, com farta documentação, as sinistras movimentações financeiras de Verônica Serra, filha do “ético” candidato do PSDB, e as de seu marido, Alexandre Bourgeois. Mostra como eles seguiram as trilhas criminosas do ex-tesoureiro de Serra e eminência parda das privatizações, Ricardo Sérgio de Oliveira. Descreve ainda as ligações perigosas com o banqueiro Daniel Dantas. 

Abalos no império midiático

O livro é demolidor, devastador! Não é para menos que já se cogita a abertura de uma CPI para apurar os crimes da privataria e que as lideranças dos movimentos sociais já discutem a idéia de se convocar uma “marcha contra a corrupção tucana”. Não é para menos que a mídia venal não dá uma linha sobre o livro, que vendeu mais de 15 mil exemplares em menos de 48 horas. 

Amaury Ribeiro está agitado, elétrico. Ele tem muito para falar e escrever. “Não tenho medo de nada”. Os barões da mídia que se cuidem! Um escândalo abalou o império do Rupert Murdoch no Reino Unido. O livro “A privataria tucana” também pode servir para desvendar os segredos da mídia nativa, as suas ligações com os assaltantes do patrimônio público e com a lavagem de dinheiro nos paraísos fiscais.

Extraído do Blog do Miro de Altamiro Borges

O ESCÂNDALO DO SÉCULO - Luciano Martins Costa

O livro do jornalista Amaury Ribeiro Jr, intitulado A privataria tucana, publicado pela Geração Editorial na coleção “História Agora”, está produzindo um estranho fenômeno na imprensa brasileira: provoca um dos mais intensos debates nas redes sociais, mobilizando um número espantoso de jornalistas, e não parece sensibilizar a chamada grande imprensa.

O autor promete, na capa, entregar os documentos sobre o que chama de “o maior assalto ao patrimônio público brasileiro”. Anuncia ainda relatar “a fantástica viagem das fortunas tucanas até o paraíso fiscal das Ilhas Virgens Britânicas”. E promete revelar a história “de como o PT sabotou o PT na campanha de Dilma Rousseff”.

Ex-repórter do Globo, originalmente dedicado ao tema dos direitos humanos, Ribeiro Jr. ganhou notoriedade no ano passado ao ser acusado de violar o sigilo da comunicação de personagens da política ao investigar as fonte de um suposto esquema de espionagem que teria como alvo o então governador mineiro Aécio Neves. Trabalhava, então, no jornal Estado de Minas, que apoiava claramente as pretensões de Neves de vir a disputar a candidatura do PSDB à Presidência da República em 2010.

Os bastidores dessa história apontam para o ex-governador paulista José Serra como suposto mandante da espionagem contra Aécio Neves, seu adversário até o último momento na disputa interna para decidir quem enfrentaria Dilma Rousseff nas urnas.

“Outro ninho”

Informações que transitaram pelas redes sociais no domingo (11/12) dão conta de que Serra tentou comprar todo o estoque de A privataria tucana colocado à venda na Livraria Cultura, em São Paulo, e que teria disparado telefonemas para as redações das principais empresas de comunicação do país.

Intervindo em um grupo de conversações formado basicamente por jornalistas, o editor Luiz Fernando Emediato, sócio da Geração Editorial, afirmou que foram vendidos 15 mil exemplares em apenas um dia, no lançamento ocorrido na sexta-feira (9). Outros 15 mil exemplares estavam a caminho, impressos em plantão especial para serem entregues às livrarias na segunda, dia 12, juntamente com o lançamento da versão digital.

Aos seus amigos do PSDB, Emediato recomendou cautela e a leitura cuidadosa da obra, afirmando que o trabalho de Amaury Ribeiro Jr. não é “dossiê de aloprado, não é vingança, não é denúncia vazia, não é sensacionalismo. É jornalismo”.

O editor indicou ainda aos leitores que procurassem informações no blog do deputado Brizola Neto (PDT-RJ), no qual, segundo ele, estariam as pistas de “outro ninho offshore na rua Bernardino de Campos, no bairro do Paraíso, em São Paulo. A investigação agora chega na família do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Vamos ver onde isso vai parar”, concluiu.

O Titanic da política

A julgar pelo volume e a densidade das denúncias, pode-se afirmar que, sendo verdadeira a história contada por Amaury Ribeiro Jr, trata-se do mais espetacular trabalho de investigação jornalística produzido no Brasil nas últimas décadas. Foram doze anos de apuração e depurações. A se confirmar a autenticidade dos documentos apresentados, pode-se apostar nessa como a obra de uma vida. A hipótese de completa insanidade do autor e do editor seria a única possibilidade de se tratar de uma falsificação.

Confirmado seu conteúdo, o livro representa o epitáfio na carreira política do ex-governador José Serra e um desafio para o futuro de seus aliados até agora incondicionais na chamada grande imprensa.

O editor garante que são 334 páginas de teor explosivo, escancarando o que teria sido a articulação de uma quadrilha altamente especializada em torno do processo das privatizações levadas a efeito durante os dois governos de Fernando Henrique Cardoso. Os documentos envolvem o banqueiro Daniel Dantas, a família de José Serra e alguns personagens de sua confiança.

Não apenas pelo que contém, mas também pelos movimentos iniciais que lhe deram origem, o livro representa uma fratura sem remédio na cúpula do PSDB e deve causar mudanças profundas no jogo político-partidário.

“Privataria”, a expressão tomada emprestada do termo que o colunista Elio Gaspari costuma aplicar para os chamados malfeitos nas operações de venda do patrimônio público, ganha agora um sentido muito mais claro – e chocante.

Os sites dos principais jornais do país praticamente ignoraram o assunto. Mas portais importantes como o Terra Magazine entrevistaram o autor. O tema é capa da revista Carta Capital, e não há como os jornais considerados de circulação nacional deixarem a história na gaveta. Mesmo que seus editores demonstrem eventuais falhas na apuração de Amaury Ribeiro Jr., o fenômeno da mobilização nas redes sociais exige um posicionamento das principais redações.

Se a carreira de Serra parece ter se chocado contra o iceberg do jornalismo investigativo, a imprensa precisa correr imediatamente para um bote salva-vidas. Ou vai afundar junto com ele.

Extraído do sítio Observatório da Imprensa

A FALA DE AMAURY, O LIVRO E A CPI - Rodrigo Viana

Participei da tuitcam com Amaury Ribeiro Jr, na última sexta-feira.* O autor (que é também jornalista) estava um pouco exaltado no início do bate-bapo. Cheguei a pensar: a editora deveria ter preparado melhor isso, com um formato mais organizado, combinado com o Amaury como se portar. Depois, percebi que isso era fruto de minha cabeça “viciada” de TV.

Aquilo não era um programa de TV. Era um papo na internet. Amaury se mostrou como é: ele fala meio enrolado (como sabem todos os que convivem com ele), exalta-se facilmente, parece perder-se na miudeza dos fatos, mas de repente engata um raciocnio complicado sobre o sistema de lavagem de dinheiro – que conhece profundamente. E revela a grandiosidade da investigação que conduziu. O Amaury é assim! A tuitcam serviu para mostrá-lo como é, sem retoques.

E é preciso entender o que o Amaury passou ano passado. A imprensa tentou trucidá-lo, transformá-lo num bandido. Ele, que tinha trabalhado nas principais redações do país, foi transformado no pivô de um história que o serrismo e seus parceiros da mídia usaram pra tentar virar a eleição.

Por isso, quando abri a conversa perguntando pro Amaury “quem é mais importante nessa história, Ricardo Sergio ou Serra?”, ele respondeu: “a imprensa, a mídia”.

O resultado das mais de duas horas de convesa com o Amaury foi um volume brutal de informações – que deve ter deixado ainda mais gente com vontade de ler o já famoso “A Privataria Tucana”.

Ainda durante a tuitcam, soubemos da capa da “Veja” – com a denúncia contra petistas de Minas (oh, santa coincidência) que teriam encomendado arapongagens contra tucanos (pobrezinhos). Essa é a “Veja”. A capa foi o primeiro tiro de Serra no contra-ataque ao livro do Amaury.

O curioso é que, no bate-papo com os blogueiros Amaury tinha avisado que essa é uma prática do serrismo: quando se sente acuado, cria uma situação para desviar o foco das atenções; costuma acusar os adversarios daquilo que faz. Por isso, Serra (que segundo Amaury usa e abusa dos dossiês) passou várias semanas na campanha de 2010 acusando os adversários de prepararem dossiê contra ele. O contra-ataque na “Veja” parece seguir essa linha.

Nas próximas semanas, podemos esperar: campanhas de desqualificaçãos (mini dossiês contra Amaury e outros que tiveram a coragem de ajudar a preparar esse livro histórico), ataques contra setores do PT e contra o aecismo (que Serra acredita estar por trás de Amaury), mas também muitas novidades a partir do que o livro mostrou.


Outro desdobramento: as reações no Congresso. O PT reagiu de forma um pouco discreta. Mas há vozes dissonantes (também em outros partidos) clamando por uma “CPI da Privataria”. Essa seria uma grande bandeira: CPI da Privataria!

Importante também seria algum parlamentar chamar Amaury e Ricardo Sérgio (além de Verônica Serra e Verônica Dantas) para depois no Congresso.

*Participaram da tuitcam, além desse escrevinhador: Azenha e Conceição (“VioMundo”), Emediato (dono da Geração, editora que lançou o livro), Fernando Brito (“Tijolaço”), Luiz (“Minas sem Censura”), Maringoni (“CartaMaior”), Miro (“Blog do Miro”), Luiz (“Minas Sem Censura”) Nassif (Blog do Nassif), Rovai (“Blog do Rovai” e revista “Forum”).

Extraído do Blog Escrevinhador de Rodrigo Viana

A PRIVATARIA TUCANA - Jorge Furtado

Terminei de ler o extraordinário trabalho jornalístico de Amaury Ribeiro Jr., “A Privataria Tucana”, (Geração Editorial), o livro mais importante do ano. Para quem acompanha a vida política do país através de alguns blogs e da revista Carta Capital, não há grandes novidades além dos documentos que comprovam o que já se sabia: a privatização no Brasil, comandada pelo governo tucano, foi a maior roubalheira da história da república. O grande mérito do livro de Amaury é a síntese que faz da rapinagem, e a base factual de suas afirmações, amparadas em documentos, todos públicos. Como bom jornalista, Amaury economiza nos adjetivos e esbanja conhecimento sobre o seu tema: o mundo dos crimes financeiros.

A reportagem de Amaury esclarece em detalhes como os protagonistas da privataria tucana enriqueceram saqueando o país. De um lado, no governo, vendendo o patrimônio público a preço de banana. Do outro, no mercado, comprando as empresas e garantindo vida mansa aos netos. Entre as duas pontas, os lavadores de dinheiro, suas conexões com a mídia e com o mundo político.

Os personagens principais da maracutaia, fartamente documentada, são gente do alto tucanato: Ricardo Sérgio de Oliveira (senhor dos caminhos das offshores caribenhas, usadas pela turma para esquentar o dinheiro), Gregório Marin Preciado (sócio de José Serra), Alexandre Bourgeois (genro de José Serra), a filha de Serra, Verônica (cuja offshore caribenha, em sociedade com Verônica Dantas, lavou pelo menos 5 milhões de dólares), o próprio José Serra e o indefectível Daniel Dantas. Mas o livro tem também informações comprometedoras sobre o comportamento de petistas (Ruy Falcão e Antonio Palocci), sobre Ricardo Teixeira e sobre vários jornalistas.

A quadrilha de privatas tucanos movimentou cerca de 2,5 bilhões de dólares, há propinas comprovadas de 20 milhões de dólares, dinheiro que não cabe em malas ou cuecas. O livro revela também o indiciamento de Verônica Serra por quebra de sigilo de 60 milhões de brasileiros e traz provas documentais de sua sociedade com Verônica Dantas, irmã de Daniel Dantas, do Banco Opportunity, numa offshore caribenha.

Alguns destaques do livro:

As imagens do Citco Building, em Tortola, Ilhas Virgens britânicas, gavetas recheadas de empresas offshore, "a grande lavanderia", pág. 43.

Sobre a pechincha da venda da Vale, na pág. 70.

Sobre o grande sucesso "No limite da irresponsabilidade", na voz de Ricardo Sérgio., pág. 73.

Sobre o MTB Bank e sua turma de correntistas, empresários, traficantes e políticos de várias tendências, e a pizza gigante de dois sabores (meio petista, meio tucana) da CPI do Banestado, pág. 75.

Como a privatização tucana fez o governo (com o seu, meu dinheiro), pagar aos compradores do patrimônio público, pág.171.

Como Daniel Dantas (de olho no fundo Previ, comandado pelo governo) usou sua imprensa para ameaçar José Serra, pág. 183.

A divertida sopa-de-nomes das empresas offshore, massarocas intencionais para despistar a polícia do dinheiro do crime, pág. 188.

Os grandes personagens do sub-mundo da política, arapongas que trabalham a quem pague mais, pág. 245.

Um perfeito resumo do que realmente aconteceu na noite dos aloprados, no Hotel Ibis, em São Paulo, pág. 282. 

Um retrato completo do modus operandi da mídia pró-serra na eleição de 2010, a partir da pág. 295.

Outro resumo perfeito, do caso Lunus, quando a arapongagem serrista detonou a candidatura de Roseana Sarney, pág. 314.

Sobre para-jornalistas que acabam entregando suas fontes e sobre fontes que confiam em para-jornalistas, pág. 325.

O índice remissivo e a quantidade de dados que o livro de Amaury apresenta já o tornaria uma peça obrigatória na biblioteca de quem pretende entender o Brasil. Mas "A Privataria Tucana" também lança um constrangedor holofote sobre a grande imprensa brasileira, gritantemente pró-serra, que é cúmplice, ao menos por omissão, da roubalheira que tornou o país mais pobre e alguns ricos ainda mais ricos. 

Imagine você o que esta imprensa – que gasta dúzias de manchetes e longos programas de debate na televisão numa tapioca de 8 reais ou em calúnias proferidas por criminosos conhecidos - diria se um filho de Lula, Dilma ou qualquer petista fosse réu em processo criminal de quebra de sigilo bancário. Segundo o livro de Amaury (e os documentos que ele traz) a filha de José Serra é ré em processo criminal por quebra de sigilo bancário. (p. 278) 

O ensurdecedor silêncio dos grandes jornais e programas jornalísticos sobre o livro “A privataria tucana” é um daqueles momentos que nos faz sentir vergonha pelo outro. A imprensa, que não perde a chance - com razão - de exigir liberdade para informar, emudece quando a verdade contraria seus interesses empresariais e/ou o bom humor de seus grandes anunciantes. Onde estão as manchetes escandalosas, as charges de humor duvidoso, os editoriais inflamados sobre a moralidade pública? Afinal, cadê o moralista que estava aqui?

* Alô revisão, alô Geração Editorial!

Nas páginas 326 e 327 há uma repetição de parágrafos: "Tanto Pimentel quanto Lanzeta passaram a receber telefonemas... (até) ... exigia entrevistas". Dá para corrigir na próxima edição.

** Neste vídeo, uma entrevista de duas horas com Amaury Ribeiro Jr, sobre o livro. Não o conhecia. Ele é um simpático (e está evidentemente exausto) jornalista, gordo, bastante suado, traz a camisa para fora da calça e exalta-se com facilidade. Parece ser muito inteligente, pensa mais rápido do que consegue falar e, por isso, gagueja bastante e tem dificuldades para terminar uma frase. Mas às vezes engrena e mostra que conhece muito bem o assunto do seu livro, o crime de lavagem de dinheiro. O camera-man é um desastre mas a entrevista é imperdível.


Extraído do blog de Jorge Furtado

A MAIS FIEL - Fábio Jammal

Se a maior torcida no Brasil não está em Pernambuco, é lá que está a mais presente. Nos dois últimos anos, nenhum time do país levou mais fãs aos estádios do que o Santa Cruz. Detalhe: o time do Recife só disputou a primeira divisão nacional em duas oportunidades neste século, em 2001 e 2006, quando iniciou um inédito trirrebaixamento – indo parar na Série D, criada em 2009. Depois de amargar as três últimas temporadas na quarta divisão, no ano que vem o Santinha estará de volta à Série C. Mas, mesmo sem saber o que é subir um degrau nas divisões de acesso do futebol durante tanto tempo, foi em 2010 e 2011 o campeão brasileiro de público, com médias de 40 mil torcedores por partida.

No jogo que asseguraria o acesso, o time teve apoio de 60 mil torcedores (foto: © Bobby Fabisak/Folhapress)
Assim, o Tricolor do Recife, se não tem a maior torcida do Brasil, ninguém pode negar: tem a mais apaixonada. E se mostrou fiel mesmo vivendo um verdadeiro inferno. Compareceu, empurrou o time, enfrentou a gozação dos rivais Sport e Náutico e começou a dar a volta por cima. Já no primeiro semestre, venceu o estadual em cima do Sport. Agora vitorioso da Série D, matematicamente o clube começará 2012 podendo sonhar com o retorno à elite em 2014, ano de seu centenário.

A cada queda, o Santa Cruz colocou mais torcedores nas arquibancadas. Em 2006, quando a equipe estava na primeira divisão, a média de público era de 10.578 pessoas por partida. Este ano, registrou 40.514. No jogo em que asseguraria o acesso, por exemplo, 60 mil tricolores foram ao Estádio Arruda ver Santa Cruz x Treze da Paraíba, em 16 de outubro.

“Foi um dos dias mais felizes da minha vida”, decreta o vigilante João Inácio da Silva, de 52 anos. E já sonha alto: “Mas o Santinha ainda não está no lugar dele, que é a primeira divisão. Meu time é grande, o mais querido de Pernambuco e um dos maiores do Brasil. O acesso aliviou um pouco a nossa tortura, mas ainda temos de voltar à Série A”.

João conta que nunca mais quer passar pela tristeza que viveu nos últimos anos. Três quedas consecutivas é algo para lá de dramático. “É como perder um ente querido.” Mas o primeiro passo foi dado. “Agora é trabalhar com seriedade, dentro e fora de campo, para voltarmos à elite do futebol brasileiro”, discursa João, desde sempre vigilante.

A jornalista Fabiana Coelho, quando pequena, era levada ao Arruda pelo pai, um tricolor aficionado que sonhava em ter um filho. Como a vida lhe deu três meninas, levava-as para assistir a todos os jogos mesmo assim. Hoje, aos 37 anos, Fabiana leva ao estádio o marido e os filhos, Anaís, de 9 anos, e João Pedro, 5. “Fui a vida inteira ao campo. Quando o João Pedro nasceu, os enfeites na maternidade eram todos do Santa Cruz: ‘Nasceu um tricolor’. A primeira foto é com a roupa do time. As crianças vão com a gente ao campo desde pequenas”, conta Fabiana, para quem a torcida do Santa Cruz é uma extensão da família.

Fanático pelo Tricolor, o técnico em informática Antônio Carlos Freire, o Cajá, só começou a frequentar o estádio depois que se apaixonou por Fabiana, e não parou mais. “É ela quem me leva. Afinal, é ela quem dirige lá em casa”, diz, sem cerimônias. “Sempre vou ao Arruda e viajo muito para acompanhar o Santa Cruz fora de casa. Assim, também reforçamos os números de outros clubes quando jogamos no campo adversário. Na partida contra o Alecrim pela Série D deste ano, por exemplo, colocamos 16 mil torcedores no estádio deles, em Natal (RN). A renda deu para quitar duas folhas de pagamentos da equipe adversária”, ressalta, com orgulho.

Orgulho, aliás, é o que não falta aos torcedores do Santa Cruz. Afinal de contas, ser campeão de público entre os 100 times que disputam as quatro divisões do Campeonato Brasileiro não é para qualquer clube. “A torcida fez com que o time sobrevivesse. Tenho certeza que nem o Sport nem o Náutico resistiriam se vivessem o que o Santa enfrentou”, afirma Cajá. E, se ele considera “inexplicável” o sentimento que move tanta gente, Fabiana arrisca uma explicação: “Quando a equipe começou a cair, o torcedor passou a ir mais ao estádio e despertou a atenção da imprensa. A cada notícia que era publicada, a torcida queria encher mais e mais o estádio. Além disso, a internet e as redes sociais ajudaram na convocação: sempre tem alguém lançando um desafio para colocarmos mais gente no estádio, e a torcida corresponde”.
O mais querido

Os shows da torcida do Santinha fizeram até os rivais se renderem, segundo pesquisa publicada em 2 de novembro por uma faculdade do Recife (Fafire). Para 49,17% dos rubro-negros do Sport, o Tricolor tem a torcida mais querida. Já os alvirrubros do Náutico foram ainda mais firmes: 65,82% admitiram os tricolores como os mais apaixonados do estado. Os torcedores do Santinha já sabiam disso, quando apelidaram o time de “O Mais Querido”. E, sem falsa modéstia, 90,61% deles votaram em si.

Mas o leonino Marcos Paulo Lima, de 25 anos, enumera razões “científicas” para contestar a pesquisa. “A torcida do Sport é maior e mais apaixonada. Mas o Santa Cruz vende ingressos mais baratos e no seu estádio cabe mais gente. Senão, o Sport colocaria mais torcedores no campo. Temos muito mais sócios, que ajudam de verdade no dia a dia do clube. E tem outra coisa: o time está na quarta e última divisão, ou seja, seus jogos não passam em nenhuma TV. Se o torcedor quiser ver, tem de ir ao estádio”, justifica Marcos Paulo, que se autointitula o típico torcedor chato do Sport.

O jovem diz que “arretou” muito a torcida do Santa Cruz nesse período difícil. “Fiquei muito triste com o acesso do time à série C. Para mim, quanto pior, melhor”, tripudia. Chato, Marcos Paulo garante que já perdeu amigos, mas nunca as piadas, nem a compostura. “Já perdi amizades por causa das brincadeiras. Mas nunca fui de violência.”

Mais polido, o bancário Adeílton Rego Filho, 49, também é o típico torcedor do seu time, o Náutico. O clube tem maior rivalidade com o Sport, o que pode ter aliviado a tortura dos tricolores com uma certa solidariedade alvirrubra. “A torcida do Santa já sofreu o que tinha de sofrer. Eu torço pro Náutico, mas torço para Pernambuco, e gostaria que os três times estivessem na primeira divisão”, afirma. Ele reconhece que a torcida do Náutico é menor que as do Sport e Santa Cruz, mas diz que em termos de paixão todas são iguais. “Todo mundo ama seu time com todo o coração. Agora, a tradição dos tricolores de comparecer ao estádio sempre foi maior. O Santa é considerado um time de massa e sua torcida é mais concentrada no Recife, o que ajuda a encher o estádio”, avalia.

Extraído do sítio Rede Brasil Atual

CONSTRUÇÃO CIVIL TEM EMPREGO RECORDE, MAS INFORMALIDADE SUPERA - Evelyn Pedrozo

De janeiro a outubro, foram registrados 3,14 milhões de empregos com carteira assinada. Mais 4,7 milhões estão na informalidade.

De acordo com a Federação Nacional dos Trabalhadores na Indústrias da Construção Pesada existe a necessidade de se preocupar com o aumento de acidentes de trabalhos (Foto: Arquivo Agência Brasil)
O setor de construção civil está em crescimento no país, por conta não apenas das grandes obras esportivas, da Copa 2014 e das Olimpíadas de 2016, mas também pelas de infraestrura previstas no Plano de Aceleração do Crescimento (PAC). O ano de 2011 registra, de janeiro a outubro, 3.144.102 empregos com carteira assinada, subdivididos em 1.602.446 no Sudeste; 661.513 no Nordeste; 438.696 no Sul; 248.079 no Centro-Oeste e 193.368 no Norte. O total representa recorde de emprego na categoria, segundo a Federação Nacional dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Pesada (Fenatracop). A perspectiva de geração de emprego para 2012 é melhor ainda dos que as 314 mil contratações de 2011 (janeiro a outubro).

Para a federação, apesar dos avanços, é impossível deixar de se preocupar com o aumento dos acidentes de trabalho e da informalidade. "Para os 3,1 milhoes registrados temos mais 4,7 milhões na informalidade, desprotegidos", explica.

Segundo o presidente da entidade, Wimar Gomes dos Santos, as indústrias da construção civil, especialmente da construção pesada, não mostram muita preocupação com a crise internacional. O setor anunciou que projeta crescimento de 4,8% para 2011 e de 5,2% para 2012", disse.

A projeção de crescimento é baseada no aumento do crédito imobiliário neste ano, entre 30% e 40%. "O programa Minha Casa, Minha Vida ainda terá milhares de unidades a serem entregues e também temos as obras de infraestrutura da Copa e das Olimpíadas, que devem ser aceleradas no ano de 2012", exemplificou Santos.

Para o sindicalista, o crescimento da luta dos trabalhadores da construção, principalmente da construção pesada e da montagem industrial, acompanha o desempenho da indústria. "Todos os acordos coletivos na construção pesada tiveram a recuperação da inflação e mais ganhos reais entre 1,3% e 6,29%."

Os pisos salariais dos ajudantes e serventes não qualificados também ficaram acima das
médias históricas da categoria. "No ano passado, o piso era balizado pelo salário mínimo (R$ 545), mas em 2011, por conta de greves, negociações e mobilizações em todo o pais o menor piso conquistado foi de R$ 560 em Mato Grosso e o maior, de R$ 968, em São Paulo.

O menor piso negociado para pedreiro ou oficial foi de R$ 728 em Mato Grosso e o maior, de R$ 1.179,90, no Rio de Janeiro

Em relação aos salários, Santos frisa que é preciso combater a desigualdade entre as regiões do pais. "Temos de aumentar os salários dos trabalhadores do Norte e Nordeste, que ganham em torno de 38% dos do Sul e Sudeste.


Extraído do sítio Rede Brasil Atual

CHINA TERÁ MAIOR ABERTURA AO EXTERIOR, DIZ PRESIDENTE HU JINTAO

O presidente chinês, Hu Jintao, disse que o país vai continuar persistindo no caminho de reformas e abertura. A afirmação foi feita hoje (11) pela manhã no Grande Palácio do Povo, durante o fórum de alto nível sobre o 10º aniversário da integração da China na OMC. A estratégia de abertura será mais ativa e ampliada para novas áreas e haverá um aperfeiçoamento nos processos, para que sejam mais adapdáveis a uma economia voltada ao exterior. Ele recordou a trajetória do país ao longo dos dez anos na entidade:

"Após a adesão à OMC, a China tem persistido no cumprimento de seus deveres, além de gozar seus direitos. As conquistas próprias sempre se combinam com o desenvolvimento mundial. O país converteu os desafios em oportunidades e participou da cooperação e competição internacionais em uma envergadura maior e em um nível mais alto."

A China, apesar de ter passado por 30 anos de desenvolvimento rápido, continua sendo o maior país em desenvolvimento, com desafios econômicos e sociais pela frente. Sobre a nova realidade, o presidente chinês acredita em uma abertura mais ativa para todo o mundo.

"Vamos dar o mesmo peso à importação e à exportação e tratar como uma das prioridades, a ampliação ativa da importação, a fim de promover o equilíbrio de receita e despesa internacional. Vamos também aprimorar as políticas de incentivo e reduzir os custos de importação."

O secretário-geral da Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e Desenvolvimento, Pascal Lamy, congratulou os dez anos da China na OMC e disse acreditar que a experiência chinesa vai inspirar outros países em desenvolvimento.

Extraído do sítio CRI Online - Rádio Internacional da China

CONSIDERAÇÕES SOBRE A MÍDIA DE MERCADO - Mário Augusto Jakobskind

Na Argentina, a mídia de mercado vem sendo questionada. Por lá, embora as entidades que reúnem o grande patronato midiático digam o contrário, a legislação sobre os meios de comunicação, aprovada pelo Congresso depois de muita discussão pela sociedade vem sendo posta em prática.


O tema é abrangente e desperta o interesse de todos os setores da sociedade, principalmente dos movimentos populares. A Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) esperneia com o fato de na Argentina prevalecer a liberdade de imprensa e não a liberdade de empresa.

Os argentinos estão atentos, tanto assim que no próximo dia 22, ou seja, na antevéspera do Natal, em plena histórica Praça de Maio, está marcado julgamento ético e político do maior conglomerado de comunicação da Argentina - o Grupo Clarín.

A iniciativa é da Associação Mães da Praça de Maio com o objetivo de informar sobre a investigação que se está fazendo sobre o diário Clarín, a Rádio Mitre, o canal de TV a cabo TN, o Canal 13, a Cablevisión e a empresa que fabrica o papel para os jornais, a Papel Prensa. O grupo Clarin, que controla mais de 300 meios de comunicação e empreendimentos a ele pertencentes, se julgava proprietário da verdade e dificilmente era questionado.

O julgamento será simbólico e está sintonizado exatamente com a legislação dos Meios de Comunicação. Hebe de Bonafini, presidente das Mães de Maio, não faz por menos ao afirmar que"vamos fazer um julgamento ético e político ao Grupo Clarín, que rouba crianças, verdades e esperanças”.

Podem estar certos, vem chumbo grosso dos jornalões destas bandas contra Cristina Kirchner e todos os setores que questionam a liberdade de empresa. Vão pintar horrores e dizer que o país vizinho está à beira do caos na economia e assim sucessivamente.

É claro que o ideal seria que a Justiça cuidasse do julgamento, mas como isso neste momento é praticamente impossível, as Mães da Praça de Maio decidiram tomar a iniciativa.

Os grandes conglomerados midiáticos, seja na Argentina ou no Brasil imaginam estar acima do bem e do mal. Clarin ou outro veículo qualquer conta uma mentira, manipula e devido ao poder que manejam o país inteiro é “informado” a respeito. A mentira acaba virando verdade.

E o pior de toda esta história é que muitas vezes Clarin, Globo e outros órgãos de imprensa do gênero apresentam os fatos, ou se preferem a verdade deles, e nem são questionadas. Mas quando o questionamento acontece esses veículos tentam incutir na opinião pública que estão sendo vítimas de restrições à liberdade de expressão.

O que está acontecendo na Argentina é importante ser acompanhado no Brasil, aonde o tema vem sendo debatido e a reação é muito semelhante. Os barões da mídia fazem até seminários para fazer denúncias totalmente infundadas segundo as quais a liberdade de imprensa corre perigo etc e tal. É que esta gente teme o contraditório e na falta de argumentos saem com mentiras visando enganar os incautos. 

Da mesma forma que chegou atrasada a criação da Comissão da Verdade, mas antes tarde do que nunca, o debate em torno da legislação midiática também veio atrasado. Mas veio, felizmente. Os big-shots midiáticos não querem mudar nada do que aí está, nem sequer algum aprimoramento. 

Podem imaginar, por exemplo, se por aqui as diversas mídias, públicas, privadas, estatais e dos movimentos sociais tivessem o mesmo espaço e não prevalecer o predomínio quase absoluto do setor privado? Pois é, na Argentina, a lei dos Meios de Comunicação determina exatamente a paridade dos espaços midiáticos: 33% para a mídia privada, 33% para a estatal e outros 33 para a mídia comunitária. E isso, covenhamos, é mais democrático do que o domínio absoluto da mídia privada. 

Já que estamos tentando refletir sobre os meios de comunicação vale mencionar também a cobertura jornalística de fatos relacionados com a violência urbana, tema debatido em seminário realizado na Associação Brasileira de Imprensa (ABI) com o título “jornalista no meio do tiroteio”. 

Essa cobertura precisa ser mais bem analisada e profundamente debatida. Para começar, o próprio termo “segurança pública” é questionável, mas aí caberia nova discussão mais aprofundada. Que segurança e para que setores? Esta segurança está mesmo voltada para os cidadãos contribuintes ou apenas para parcelas mais abastadas da população, enquanto nas áreas de baixo poder aquisitivo nas grandes cidades brasileiras os moradores são na prática vítimas da própria insegurança com os caveirões pregando ódio e acirrando preconceitos?

Vale a pena expor os profissionais da imprensa da forma como vem acontecendo nos últimos tempos em nome sabe-se lá de que e que na prática estimula a corrida desenfreada atrás da audiência, corrida que tem como objetivo, não propriamente servir à população, mas estimular o lucro fácil?

Os lamentáveis episódios que provocaram as mortes, por exemplo, do repórter Tim Lopes, em junho de 2002, e, recentemente do cinegrafista Gelson Domingos da Silva devem servir de objeto de reflexão.

No caso de Tim, o primeiro ganhador de um Prêmio Esso na categoria de telejornalismo por uma reportagem sobre Feira de Drogas, não poderia ter retornado seis meses depois ao mesmo local, Favela Cruzeiro, onde tinha feito a reportagem premiada. Ainda mais pelo fato de sua imagem ter sido apresentada em vários telejornais da TV Globo.

No caso de Gelson, o empregador, a TV Bandeirantes, assinava a sua carteira profissional não como cinegrafista, mas como operador de câmara. E isso com o objetivo de reduzir o salário do profissional. Lamentável esta faceta do capitalismo selvagem que como se observa tem também reflexos no jornalismo.


Extraído do sítio Direto da Redação

DECISÕES SOBRE OBRAS DE INFRAESTRUTURA PARA COPA SÃO TOMADAS SEM PARTICIPAÇÃO SOCIAL, DIZ RELATÓRIO - Daniel Mello

São Paulo – As decisões sobre as obras de infraestrutura para a Copa de 2014 e as Olimpíadas de 2016 têm deixado a sociedade de fora das discussões, segundo o dossiê Megaeventos e Violações de Direitos Humanos no Brasil. O documento divulgado hoje (12) aponta ainda que “a ausência de participação e de mecanismos de controle social é também revelada nas decisões arbitrárias relativas a obras milionárias, opções por soluções mais caras e intervenções na cidade direcionadas a eixos de valorização imobiliária e 'limpeza social'”.

Mapa do VLT de Brasília
Como exemplo dos problemas causados por esse modelo, cita o veículo leve sobre trilhos (VLT) planejado para ser construído em Brasília. Segundo o documento, apesar de a capital federal apresentar deficiências em relação ao transporte coletivo, principalmente nas áreas periféricas e mais populosas da cidade, foi feita uma opção que não contempla essas questões. “A decisão pelos investimentos no VLT implica altos investimentos conectando o aeroporto à região nobre da cidade, na área mais bem servida por linhas de ônibus, metrô, táxis”.

O relatório destaca que alguns empreendimentos atendem mais aos interesses de pequenos grupos do que de grandes parcelas da população. “As grandes obras viárias apresentam fortes indícios de direcionamento para interesses imobiliários em detrimento das demandas sociais”, ressalta o texto.

A situação decorre, segundo o dossiê, de um processo de definição de investimentos baseado na urgência e que ouve apenas as empresas privadas para a negociação dos projetos. “A situação extrema revela um conjunto de decisões tomadas para a definição de investimentos estruturais na cidade sem qualquer participação da população, sem audiências públicas, e sem estudos previstos em lei.”

Entre os estudos que não estão sendo feitos, o levantamento destaca os de impacto ambiental. O trabalho aponta a criação do Grupo de Trabalho Meio Ambiente como forma de facilitar os processos de licitação para os megaeventos. “Apesar dessa 'flexibilização', as prefeituras não abrem mão de burlar a legislação ambiental”, assinala o documento, ao acrescentar que há um uso indiscriminado do relatório ambiental simplificado (RAS) pelas administrações municipais, “desconhecendo de maneira grosseira os impactos sociais e ambientais”.

Segundo o dossiê, o "atropelo" dos procedimentos muitas vezes é justificado com base em compromissos com entidades privadas como o Comitê Olímpico Internacional (COI) e a Federação Internacional de Futebol (Fifa). “Apoiado em uma noção pervertida de 'interesse público', o Estado brasileiro tem sistematicamente se recusado a estabelecer processos de diálogo horizontal com os grupos sociais e comunidades ameaçados [pelas obras de infraestrutura]”.

Extraído do sítio da Agência Brasil

"OS ÍNDIOS NUNCA FORAM ATRASADOS" - Joana Tavares

Carlos Walter Porto Gonçalves critica visão eurocêntrica de “modernidade” e “atraso” e indica a importância da resistência indígena e camponesa
O professor Carlos Walter Porto Gonçalves vem dedicando suas análises sobre a Pátria Grande, a América Latina. Um antigo defensor das lutas indígenas e camponesas e ex-assessor de Chico Mendes, ele diz que não faz sentido querer um ambiente sem gente nem um desenvolvimento para as pessoas sem cuidar necessariamente do ambiente. Corrobora com a filosofia do ex-líder sindical e ambientalista, assassinado em 1988: “Não há defesa da floresta sem os povos da floresta”. E também se inclui na filosofia do ecossocialismo, como a união das lutas contra a devastação e o capitalismo. Nesta entrevista, ele fala sobre a América Latina e a posição arrogante do Brasil, critica o projeto e a visão da modernidade e defende a força da luta e das ideias indígenas.

Por que há tanto desconhecimento no Brasil em relação à América Latina?

Carlos Walter Porto Gonçalves – A história do processo colonial, o fato de o Brasil ter sido colonizado por Portugal e a maioria dos países pela Espanha, implica certas diferenças. Nosso continente foi marcado por presenças coloniais diversas, como a inglesa, francesa, holandesa, e ainda há países que são colônias mesmo hoje, como a Guiana Francesa. Mas não é só isso. Parece que a nossa dificuldade de nos aproximar do resto da América Latina e do Caribe não é uma questão de língua – com certo esforço a gente acaba se entendendo –, mas o processo de independência diferenciado. O Brasil não seguiu a ideia do “inventar ou errar” – uma expressão de Simón Rodríguez – dos outros países, que tentaram inventar um regime republicano, diferente do regime monárquico que reinava nas metrópoles colonizadoras. O Brasil foi o único que fez a independência e se manteve como império, inclusive com uma monarquia, com uma casa real. E achava que por ser uma monarquia era superior às “repúblicas de caudilho” da América Latina, expressão que continua a ser usada hoje pelas elites brasileiras e pela mídia. E de certa forma os países de colonização hispânica são obrigados a conhecer um pouco mais uma história que lhes é comum, haja visto que muitos países surgiram se emancipando de outros, como a Colômbia da Venezuela. A história deles tem que se remeter uma à outra. A história do Brasil em face de nossos vizinhos é mais desconfortável, por ter se apropriado de territórios que, a rigor, eram de outros países. Cabe também falar que a maior parte das elites formadas na América Latina continuou preocupada em se integrar com as elites europeias e dos países imperialistas para continuar exportando seus diversos produtos.

Qual o sentido político do termo “América Latina”?

O termo “América Latina” foi usado pela primeira vez por um poeta colombiano, José María Caicedo, num poema chamado “As duas Américas”, em 1854. Ele usou essa expressão com clara posição de tensão em relação à América anglo- saxônica. Ele estava muito impactado pelo que havia acontecido, numa data que todos nós deveríamos ter sempre em mente: 1845- 1848, que é o período da guerra dos EUA contra o México. Quando os EUA fizeram a independência eram apenas as 13 colônias situadas a leste. Todas as terras do Texas até a Califórnia – com todos aqueles nomes em espanhol – foram tomadas do México. De certa forma, o Caicedo dá continuidade ao que Simón Bolívar tinha percebido nos anos de 1820 em função da posição norte-americana em relação ao Haiti, o primeiro país do mundo a abolir a escravidão. O que faz os Estados Unidos? Junto com a França, faz pressão para que o Haiti pague por cada escravo que tinha se tornado livre, o que faz com que o país fique sufocado em dívidas. E Simón Bolívar, que recebeu armas dos revolucionários haitianos para fazer os processos de libertação da América Latina, percebe que a doutrina de Monroe, “América para os americanos”, era para os americanos do norte, para os estadunidenses. Percebeu isso em 1823 e denunciou imediatamente, convocando uma integração entre os países, entre iguais, não uma integração subordinada. Ele usava a expressão “Pátria Grande”, a América integrada; ele dizia que tínhamos uma “pátria chica” – Brasil, Venezuela etc. – mas também a Pátria Grande. Então, a expressão “América Latina” tem um significado muito forte, porque abriga o caráter anti-imperialista, antagoniza com a América anglo-saxônica. Mas ao lado do seu caráter emancipatório, Caicedo não estava livre de um certo eurocentrismo. A expressão ‘latina’ ignora todo o patrimônio civilizatório que aqui existe e que não é de origem latina, como os quéchuas, os aimarás, os tupiguarinis, os maias.

Qual o papel dos países latinoamericanos no mercado mundial?

A demanda de matérias-primas em países como a China faz com que o Brasil e outros países da América Latina passem por um processo de reprimarização da sua pauta de exportações. E as pessoas estão vendo isso como uma vantagem! Para os capitalistas com visão de curto prazo é bom, porque estão ganhando dinheiro. Na verdade, isso é uma nova fase de um processo que tem 500 anos. Sempre fomos exportadores de produtos primários ou manufaturas. Há um mito de que estamos vivendo um processo de modernização tecnológica, com o agronegócio e seus equipamentos modernos. É um mito porque o Brasil no século 16 já exportava manufaturados, como o açúcar. Nossa história é muito colonizada, contamos a história como os europeus nos contaram. Inclusive europeus que nos são caros, como Marx. Marx conta a história da revolução industrial a partir da Europa, mas as primeiras manufaturas, os engenhos de açúcar, estavam no Brasil, no Haiti, em Cuba. Nós já éramos modernos tecnologicamente, mas uma tecnologia colocada aqui não para nos servir, mas para nos explorar. A rigor, um trator e computador fazendo plantio direto hoje é o equivalente ao que fazíamos no século 16, com tecnologia de ponta. Que ideologia é essa da “modernidade” que achamos que veio para nos salvar? A modernidade sempre nos fez ser o que somos. A gente não consegue se desprender da ideologia eurocêntrica da modernidade e acabamos propondo como solução o que é parte do problema.

O que são os megaprojetos de infraestrutura colocados para o continente hoje?

Há muitos projetos de infraestrutura em curso. Na América Central, há um projeto de integração física, que é o Plano Puebla Panamá, hoje rebatizado como Plano Mesoamérica. E temos a Iirsa, Iniciativa de Integração da Infraestrutura Regional Sul-Americana, proposta numa reunião convocada pelo Fernando Henrique Cardoso no ano 2000. É um grande projeto de portos, aeroportos, estradas, uma rede de comunicação, que torna o espaço geográfico mais fluido e diminui o tempo socialmente necessário para a produção. Essas obras estão sendo feitas a partir de uma proposta das elites, feita pelo capital. No caso do Brasil, feitas com a presença muito incisiva do BNDES, que tem mais dinheiro que o Banco Mundial para investir. Esses investimentos já estão trazendo problemas, no Equador, na Bolívia, na Argentina.

O Brasil tem uma postura imperialista em relação aos outros países da América Latina?

A estratégia brasileira não é antagônica com a estratégia norte-americana. A burguesia brasileira sabe manejar muito bem o Estado quando lhe é conveniente. Sabe manejar o BNDES para os seus interesses, usar os recursos. As grandes empresas de engenharia civil do Brasil estão presentes em todos os países da América Latina. O complexo de poder envolvido no agrobusiness é um belíssimo exemplo: é um complexo de aliança política entre as burguesias brasileiras articuladíssimas com a burguesia internacional, que estão se beneficiando dessas estruturas. É uma burguesia associada ao imperialismo americano, mas que tem um projeto próprio ao mesmo tempo. A ideia de subimperialismo de Ruy Mauro Marini me parece correta. A diplomacia brasileira não usa o termo “América Latina”, diz “América do Sul”, quer dizer, está preocupada com a integração física para exportar. Estamos fazendo com nossos povos aquilo que sempre fizemos desde o período colonial.

Como esse projeto impacta as populações indígenas e camponesas?

Quem está se revelando os maiores antagonistas desse projeto são as populações indígenas, camponesas e afro-latino- americanas. Elas que estão sendo expulsas de suas terras. A Iirsa diz claramente que os projetos vão se expandir para áreas de vazios demográficos. A Amazônia não é vazia. Não é à toa que o imperialismo diz que os indígenas são os novos comunistas. São áreas cujas populações historicamente sempre viveram com a Pachamama. Os índios sequer têm um nome para a “natureza”, porque significaria pensar o homem como fora da natureza. A Pachamama não é a natureza, é a origem de tudo, de todas as energias, todos nós fazemos parte dela. Eles não são antropocêntricos, não vivem na matriz da racionalidade que vem da Europa, que hoje é parte da crise. Se há 50 anos as forças hegemônicas podiam passar um trator por cima dessas comunidades, hoje essas populações conseguem se mobilizar e encontram eco para suas denúncias. O próprio capitalismo não sabe o que fazer com essas áreas. Tem um setor novo do capitalismo que é o da biotecnologia, que depende de informação do geoplasma. Para esse capitalismo, a diversidade biológica é um valor, ele se confronta com o capitalismo predador que quer derrubar a mata para entrar com gado na Amazônia. Hoje, o capitalismo tem dentro de si um confronto sobre o que fazer com essas regiões. Nessa brecha de dúvida sobre o modelo que vai imperar, abriu-se um espaço para que as populações indígenas encontrassem uma possibilidade maior de falar. Antes havia um consenso, inclusive entre a esquerda, com raríssimas exceções, que achava que tinha que passar o trator. Era uma noção eurocêntrica de “moderno” e “atraso”. Os índios nunca foram atrasados, eles sempre viveram seu próprio tempo. Para nós é fundamental fazer a crítica não só ao capitalismo, mas à mentalidade colonial, à colonialidade do saber e do poder. A discussão dessas populações que estão sendo atingidas é fundamental. A própria ideia de uma Via Campesina só é possível na medida em que essas populações adquirem uma centralidade muito mais importante nos dias de hoje; o campesinato e aquilo que o Darcy Ribeiro chamava de indigenato, um campesinato etnicamente diferenciado. Estamos vivendo uma crise do capitalismo e ao mesmo tempo uma crise de padrão civilizatório. E, nesse sentido, até setores de esquerda, que embarcaram numa visão desenvolvimentista, não perceberam que na verdade existem múltiplas forças produtivas que se desenvolveram por populações outras. Já havia uma sofisticada metalurgia entre as populações originárias de nuestra América, uma sofi sticada agricultura, arquitetura, como Machu Pichu. Os indígenas, sabe-se lá como, conseguiram preservar muitas das coisas desse período, conseguiram manter sua identidade própria. Esses povos têm algo a nos ensinar. Temos que ter a humildade de ver como, depois de 500 anos, eles ainda resistem com essa força. Eles estão mais vivos do que nunca.

* Carlos Walter Porto-Gonçalves é doutor em Geografia e professor do Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal Fluminense (UFF). Foi presidente da Associação dos Geógrafos Brasileiros (1998-2000). É Membro do Grupo de Assessores do Mestrado em Educação Ambiental da Universidade Autônoma da Cidade do México (Unam). Ganhador do Prêmio Chico Mendes em Ciência e Tecnologia em 2004 e do Prêmio Casa de las Américas (Ensaio Histórico-social) em 2008, é autor de diversos artigos e livros publicados em revistas científicas nacionais e internacionais.


Extraído do sítio Outras Mídias