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12 março 2013

O COLAPSO DE SUA TEOLOGIA: RAZÃO MAIOR DA RENÚNCIA DE BENTO XVI? - Leonardo Boff

É sempre arriscado nomear um teólogo para a função de Papa.

Ele pode fazer de sua teologia particular, a teologia universal da Igreja e impô-la a todo o mundo. Suspeito que esse foi o caso de Bento XVI, primeiramente enquanto Cardeal, nomeado Prefeito da Congregação da Doutrina da Fé (ex-Inquisição) e depois Papa. Tal fato não goza de legitimidade e se transforma em fonte de condenações injustas. Efetivamente condenou mais cem teólogos e teólogas por não se enquadrarem em sua leitura teológica da Igreja e do mundo.

Razões de saúde e o sentimento de impotência face à gravidade da crise na Igreja, o levaram a renunciar. Mas não só. No texto de sua renúncia dá conta da "diminuição de vigor do corpo e do espírito"e de "sua incapacidade" de enfrentar as questões que dificultavam o exercício de sua missão. Por detrás desta formulação, estimo que se oculta a razão mais profunda de sua renúncia: a percepção do colapso de sua teologia e do fracasso do modelo de Igreja que quis implementar. Uma monarquia absolutista não é tão absoluta a ponto de dobrar a inércia de envelhecidas estruturas curiais.

As teses centrais de sua teologia sempre foram problemáticas para a comunidade teológica. Três delas acabaram refutadas pelos fatos: o conceito de Igreja como "pequeno mundo reconciliado"; a Cidade dos Homens só ganha valor diante de Deus passando pela mediação da Cidade de Deus; e o famoso "subsistit" que significa: só na Igreja Católica subsiste a verdadeira Igreja de Cristo; todas as demais "igrejas' não podem ser designadas igrejas. Esta compreensão estreita de uma inteligência aguda mas refém de si mesma, não tinha a força intrínseca suficiente e a adesão para ser implementada. Bento XVI teria reconhecido o colapso e coerentemente renunciado? Há razões para esta hipótese.

O Papa emérito teve em Santo Agostinho seu mestre e inspirarador, objeto aliás de algumas conversas pessoais com ele. De Agostinho assumiu a perspectiva de base, começando com sua exdrúxula teoria do pecado original (se transmite pelo ato sexual da geração). Isso faz com que toda a humanidade seja uma "massa condenada". Mas dentro dela, Deus por Cristo, instaurou uma célula salvadora, representada pela Igreja. Ela é "um pequeno mundo reconciliado" que tem a representação (Vertretung) do resto da humanidade perdida. Não é necessário que tenha muitos membros. Basta poucos, contanto que sejam puros e santos. Ratzinger incorporou esta visão. Completou-a com a seguinte reflexão: a Igreja é constituída por Cristo e os Doze Apóstolos. Por isso é apostólica. Ela é apenas este pequeno grupo. Desconsidera os discípulos, as mulheres e as massas que seguiam Jesus. Para ele não contam. São atingidas pela representação (Vertretung) que "o pequeno mundo reconciliado" assume. Esse modelo eclesiológico não dá conta do vasto mundo globalizado. Quis então fazer da Europa "o mundo reconciliado" para reconquistar a humanidade. Fracassou porque o projeto não foi assumido por ninguém e até posto a ridículo.

A segunda tese tirada também de Santo Agostinho é sua leitura da história: o confronto entre a Cidade de Deus e a Cidade dos Homens. Na Cidade de Deus está a graça e a salvação: ela é o único pedágio que dá acesso à salvação. A Cidade dos Homens é construída pelo esforço humano. Mas como já é contaminado, todo o seu humanismo e demais valores, não conseguem salvar porque por que não passaram pela mediação da Cidade de Deus (Igreja). Por isso que ela é eivada de relativismos. Consequentemente o Card. Ratzinger condena duramente a teologia da libertação porque esta buscava a libertação pelos pobres mesmos, feitos sujeitos autônomos de sua história. Mas como não se articula com a Cidade de Deus e sua célula, a Igreja, é insuficiente e vã.

A terceira é uma interpretação pessoal que dá do Concílio Vaticano II quando fala da Igreja de Cristo. A primeira elaboração conciliar dizia que a Igreja Católica é a Igreja de Cristo. As discussões, visando o ecumenismo, substituíram o é pelo subsiste para dar lugar a que outras Igrejas cristãs, a seu modo, realizassem também a Igreja de Cristo. Essa interpretação sustentada na minha tese doutoral, mereceu uma explícita condenação do Card. Ratzinger no seu famoso documento Dominus Jesus (2000). Afirma que susbsiste vem de "subsistência" que só pode ser uma e se dá na Igreja Católica. As demais "igrejas" possuem "somente" elementos eclesiais. Esse "somente" é um acréscimo arbitrário que fez ao texto oficial do Concílio. Tanto eu quanto outros notáveis teólogos mostramos que este sentido essencialista não existe no latim. O sentido é sempre concreto: "ganhar corpo", "realizar-se objetivamente". Esse era o "sensus Patrum" o sentido dos Padres conciliares.

Estas três teses centrais foram refutadas pelos fatos: dentro do "pequeno mundo reconciliado" há demasiados pedófilos até entre cardeais e ladrões de dinheiros do Banco Vaticano. A segunda, de que a Cidade dos Homens não tem densidade salvadora diante de Deus, labora num equívoco ao restringir a ação da Cidade de Deus apenas ao campo da Igreja. Dentro da Cidade dos Homens, se encontra também a Cidade de Deus, não sob a forma de consciência religiosa mas sob a forma de ética e de valores humanitários. O Concílio Vaticano II garantiu a autonomia das realidades terrestres (outro nome para secularização) que tem valor independentemente da Igreja. Contam para Deus. A Cidade de Deus (Igreja) se realiza pela fé explícita, pela celebração e pelos sacramentos. A Cidade dos Homens pela ética e pela política.

A terceira de que somente a Igreja Católica é a única e exclusiva Igreja de Cristo e ainda mais, que fora dela não há salvação, tese medieval ressuscitada pelo Card. Ratzinger, foi simplesmente ignorada como ofensiva às demais Igrejas. Ao invés do "fora da Igreja não há salvação" se introduziu no discurso dos Papas e dos teólogos "o universal oferecimento da salvação a todos os seres humanos e ao mundo".

Nutro a séria suspeita de que, tal fracasso e colapso de seu edifício teológico, lhe tirou "o necessário vigor do corpo e do espírito" a ponto de, como confessa "sentir incapacidade" de exercer seu ministério. Cativo de sua própria teologia, não lhe restou outra alternativa senão honestamente renunciar.

Extraído de sítio Diário Liberdade

04 março 2013

A ESCOLHA DO NOVO PAPA


Há estimados 1,2 bilhão de católicos romanos no mundo, segundo dados do Vaticano. Mais de 40% dos católicos do mundo estão na América Latina, mas é a África que registrou o maior aumento no número de seguidores do catolicismo nos últimos anos.

A América Latina abriga 483 milhões de católicos e quatro dos dez países com a maior população católica.

O Brasil é o país com maior número de católicos, com mais de 150 milhões de católicos, ou 12,5% de todos os fiéis da religião, segundo a Enciclopédia Cristã Mundial (há, no entanto, estimativas de que essa quantidade seja menor: o Censo do IBGE calcula o número de católicos do Brasil em 123 milhões; e o centro americano Pew, em 134 milhões).

Na Europa, a Itália é que tem a maior quantidade de católicos: 57 milhões. Na África, esse posto fica com a República Democrática do Congo, com quase 36 milhões de seguidores do catolicismo.
Rumo ao sul

Desde 1970, o catolicismo avançou rumo ao sul: a proporção de católicos vivendo na Europa declinou, enquanto a África vivenciou um aumento de católicos: de 45 milhões, em 1970, para 176 milhões, em 2012.

Na Ásia o catolicismo também aumentou, e o continente abriga hoje cerca de 12% da população católica do mundo, o que equivale a 137 milhões de pessoas.


Cardeais eleitores

A eleição que vai definir o novo papa contará com a participação de 115 cardeais eleitores.Sessenta e sete deles foram nomeados por Bento 16, e 60 deles são europeus - 21 deles, italianos.

Há também 19 latino-americanos, 14 americanos, 11 africanos, dez asiáticos e um cardeal da Oceania entre os eleitores.

Dez deles foram identificados por analistas como favoritos - incluindo três europeus -, mas especula-se que o novo pontífice possa vir da América Latina ou da África.



Extraído do sítio BBC Brasil

02 março 2013

É O FIM DE UM MUNDO? - Mino Carta

Quinhentos degraus, se não me engano, separam o chão de São Pedro do terraço circular que cerca a cúspide da cúpula de Michelangelo. Galguei-os aos 8 anos de idade conduzido por minha avó paterna, Adele, romana de Roma. Escalada audaciosa e jamais repetida, e lá do alto me pareceu contemplar o Universo.

Santa Maria del Fiore. A cúpula mais bela, sem ostentação e jactância. Foto: Cosmo Condina /Tips /Photononstop /AFP

À de São Pedro prefiro a cúpula de Santa Maria del Fiore, em Florença, obra de Filippo Brunelleschi, remonta aos começos do século XV e é a primeira erguida pelo homem. Esta me ficou na memória na mocidade, e minha emoção foi puramente estética. Já não cursava o primário no colégio das Marcelinas, as boas freiras com suas toucas graciosas a despeito dos acabamentos em renda negra.

Estudei no colégio das Marcelinas porque meu pai, anticlerical convicto, via ali um reduto antifascista. E era, clara e corajosamente. Não obrigavam os alunos a participar nas manhãs de -sábado dos desfiles organizados em praça pública, a reunirem uma patética garotada de uniforme não bélico, belicoso. E, em pleno vigor das leis raciais que mancomunaram Mussolini a Hitler, abrigavam meninos e meninas judeus em classes mistas, isentando-os das aulas de catecismo, quando iam ao jardim para brincar entre as árvores. Para minha inveja.

Não duvidava, então, a despeito da ojeriza irreversível ao catecismo, da condição do papa na qualidade de vigário do Altíssimo. Meu pai permitia-se insinuar brandas dúvidas, sem êxito. Eu mostrava talento para coroinha e voltava miradas luzidias na direção de uma coleguinha judia de olhos amendoados e sobrenome Avigdor.

A respeito do papa, como númeno e como fenômeno, tenho lido até a fartura nos últimos tempos e não nego que haja razões para tanto. Ocorre, porém, que Bento XVI não é, na minha visão, aquele que os analistas pretendem. Trata-se de um ancião alquebrado, envelhecido apressadamente no mister, e isso é inegável. Que a imponência dos problemas a enfrentar o tenha levado à renúncia é admissível, e até provável. Certo é que apareceu o homem comum, frágil e impotente, obviamente incapaz de representar o Criador, como supunha eu ao encarar o Universo do alto de São Pedro.

A renúncia de Ratzinger, empedernido, irredutível conservador, não é um sinal inesperado de modernidade, é a confissão da derrota, pessoal e da anacrônica monarquia por direito divino que se mantém impávida desde a oficialização do cristianismo como religião de Estado pelo imperador Constantino, pouco além do ano 300 d.C.

Cada vez mais entregue a Terra à prepotência das oligarquias do poder pelo poder, e de tudo que as favorece, não deixará de haver empenho fervoroso em perpetuar o quanto aí está -para ver como fica. Mais ou menos como se dá no enfrentamento da crise econômica que abala a humanidade em peso. Em vez de combater quem a provoca, as soluções postas em prática visam a lhe facilitar a vida. Em lugar de produzir bens, ou saber e conhecimento, multiplicam-se mentiras grosseiras e grana para poucos, empulhações vulgares (como a arte contemporânea, insisto neste ponto, como sinal da imbecilização do planeta) e os privilégios dos emires, autênticos ou recém-construídos.

Bento XVI desistiu de sua habitual arrogância, que o conduziu intocada até o papado, e entregou os pontos. Aplastado, deu as pancadas de praxe no tablado. Ganha um futuro em sossego, sem exclusão dos pés metidos em pantufas marrons. Prada, é o caso de apostar. Espero que o assaltem os pesadelos noites adentro, e mesmo ao longo do dia. No mais, não vou arregalar os olhos se o futuro papa for igual a Ratzinger na confirmação da insustentável medievalidade da Igreja Católica Apostólica Romana.

Reveste-se o momento da força avassaladora e imponderável dos símbolos, manifestada inclusive na capacidade de anexar situações aparentemente diversas, de aprisioná-las em um único contexto, atadas à circunstância, agrilhoadas sem perceber, vítimas do destino fatídico. Estaríamos diante de mais uma encruzilhada global? Não se trataria do fim do mundo, mas do fim de um mundo, e talvez seja aprazível figurar na assistência. Quem resiste, perderia. Ou ganharia, para ser ainda poder dentro dele, largo tempo de sombra espessa.

Extraído do sítio CartaCapital

01 março 2013

ELEIÇÕES DE PONTÍFICES. AS TRADIÇÕES DO CONCLAVE - Frei Betto


No próximo conclave, os cardeais eleitores serão 61 europeus, 19 latino-americanos (dos quais 5 brasileiros), 14 norte-americanos, 11 africanos, 10 asiáticos e 1 da Oceania. O candidato eleito papa deve ter pelo menos 2/3 dos votos.

Esses números podem variar, dependendo da data de abertura do conclave. O cardeal alemão Walter Kasper, por exemplo, completa 80 anos a 5 de março. A Itália é o país com o maior número de eleitores, 21 cardeais.

A data do início do conclave é importante, porque a Semana Santa deste ano começa a 24 de março, dia da missa do Domingo de Ramos, seguida pela festa da Páscoa, a 31 de março.

Para se ter um novo papa antes do período litúrgico mais solene do calendário da Igreja, ele teria que ser empossado a 17 de março, devido à tradição de celebrar a missa de entronação em um domingo. Dado o prazo apertado, as especulações dão conta de que a votação teria início por volta de 10 de março.

Uma vez eleito, o novo papa deverá escolher um novo nome. Essa tradição data de 533, quando um padre chamado Mercúrio foi eleito bispo de Roma. Por se considerar que Mercúrio era um nome pagão, inadequado a um papa, ele adotou João II. Até então os papas eram simplesmente chamados por seu nome de batismo.

Bento XVI mereceu, em 2005, uma eleição rapidíssima, apenas 24 horas após o início do conclave, depois de quatro escrutínios.

No século XX, o conclave mais breve foi o que elegeu Pio XII, a 2 de março de 1939. Durou também 24 horas e três escrutínios. O mais longo elegeu Pio XI, a 6 de fevereiro de 1922, só decidido após quatro dias e 14 escrutínios.

João Paulo II, que dirigiu a Igreja Católica ao longo de 26 anos e cinco meses, foi eleito em 48 horas e oito escrutínios, a 16 de outubro de 1978. Precedeu-o João Paulo I, eleito em 24 horas e quatro escrutínios.

O pontificado mais longo da história da Igreja, à exceção do apóstolo Pedro, foi o papa Pio XI, que governou a Igreja de 1846 a 1878 – 31 anos, sete meses e 17 dias.

O primeiro conclave do século XX elegeu Pio X, hoje canonizado, em agosto de 1903, após quatro dias de votações. Também cotado como "papável”, o cardeal Mariano Rampolla, que fora secretário de Estado do papa Leão XIII, teve sua eleição vetada pelo imperador da Áustria, Francisco José I, que como monarca católico tinha o direito de intervir no conclave. Rampolla foi punido por sua política de respaldo às aspirações eslavas que fermentavam nos Balcãs. Foi a última intromissão explícita do poder civil numa eleição papal.

Pio X foi sucedido por Bento XV, eleito a 3 de setembro de 1914, após três dias e dez escrutínios. Ratzinger adotou o nome de Bento XVI em homenagem ao pastor disposto a buscar a paz durante o período em que a Europa se encarniçava na Primeira Grande Guerra. Foi sucedido por Pio XI em 1922.

João XXIII, eleito aos 77 anos, a 28 de outubro de 1958, após três dias de conclave e dez escrutínios, ocupou o papado por apenas cinco anos e promoveu uma verdadeira revolução na Igreja Católica ao convocar, de surpresa, o Concílio Vaticano II.

O período mais longo com o trono de Pedro vazio durou três anos, sete meses e um dia, entre 26 de outubro de 304 (morte do papa Marcelino) e 27 de maio de 308 (eleição do papa Marcelo I).

O costume de trancar os cardeais-eleitores "com chaves” (conclave) teve início na cidade italiana de Viterbo, em 1271. O papa Clemente IV havia morrido em 1268, e passados quase três anos nada de os 17 cardeais elegerem o sucessor. O povo de Viterbo, para apressar a decisão, retirou o telhado do local em que os prelados se reuniam e obrigou-os a se alimentar apenas de pão e água. Logo foi eleito Gregório X, que normatizou o enclausuramento do colégio cardinalício.

Agora o isolamento dos cardeais visa a evitar intromissão do poder civil e vazamento dos debates que precedem os escrutínios. Porém, com as atuais tecnologias de captação de som à distância, não é improvável uma escuta remota do conclave.

* Frei Betto é escritor, autor de "A arte de semear estrelas” (Rocco), entre outros livros. http://www.freibetto.org/- twitter:@freibetto.

Extraído do sítio Adital

O MELANCÓLICO FIM DO PONTIFICADO DE BENTO XVI - Ricardo Kotscho


Deixando para o próximo papa uma igreja dividida e um balaio de problemas, que vão dos escândalos de pedofilia abafados por cardeais, a negócios escusos flagrados no Banco do Vaticano e o roubo de documentos pessoais que se tornaram públicos, Bento 16 encerrou nesta quinta-feira (28) os oito anos de seu melancólico pontificado.

No ritual do "beija-mão" do qual participaram cerca de cem cardeais, o ainda papa Bento 16 resumiu assim seu trabalho como chefe da Igreja Católica: "Nesses oito anos, vivemos com fé momentos belíssimos de luz radiosa no caminho da igreja, junto a momentos em que algumas nuvens se adensaram no céu".

Como tem feito em todas as suas aparições públicas desde que anunciou a sua renúncia em meio ao Carnaval, Bento 16 não explicou quais foram os momentos de luz nem a que nuvens ele se refere, "em que o Senhor parecia estar adormecido", como disse no dia anterior em sua derradeira aparição pública na praça de São Pedro, diante de 150 mil fiéis.

O fato é que ele passou suas últimas semanas no trono de São Pedro se queixando das dificuldades que enfrentou na vida de papa, não vendo a hora de se retirar para o palácio de Castel Gandolfo, onde passará os próximos dois meses, enquanto não são concluídas as reformas do convento que escolheu para morar dentro do Vaticano.

Ficam para trás três encíclicas, quatro exortações apostólicas, a nomeação de 83 cardeais e 53 viagens, mais da metade dentro da Itália _ nada que tenha mudado os rumos da igreja, mas apenas reafirmado velhos dogmas.

"Prometo minha incondicional obediência e reverência ao futuro papa", disse Bento 16, ao final do encontro com os cardeais reunidos para lhe dar adeus na Sala Clementina, em seu último dia de um papado que não deixará saudades. Melhor assim.

Afinal, pela primeira vez em mais de dois mil anos de história, teremos um papa e um ex-papa convivendo na minúscula Cidade do Vaticano.

Vida que segue.

Extraído do blog Balaio do Kotscho

BENTO XVI ENCERRA PAPADO, MAS NÃO DEIXARÁ VATICANO - Bernd Riegert


O trono papal está vazio e, quando for novamente ocupado, abrirá um capítulo raro na História da Igreja, que passará a ter dois Pontífices. Ratzinger, agora Papa Emérito, optou pela reclusão, mas em território vaticano.

Como se referir a uma pessoa que, por livre e espontânea vontade, deixou o posto de Bispo de Roma e Papa? A resposta não é fácil, afinal, teologicamente falando, ele foi apontado por Deus. Assim, mesmo após sua aposentadoria, Bento 16 ainda poderá ser chamado de Santo Pai ou Vossa Santidade, além de, como confirmou o Vaticano, manter o título de Papa Emérito.

Emérito é um título comum para outros membros da Igreja afastados de suas funções. Em sua última audiência geral, Bento 16 disse que o título de Papa fica para sempre. "Não há retorno à vida privada. A minha decisão de desistir do exercício ativo do ministério não pode ser revogada. Não vou voltar a uma vida de viagens, reuniões, recepções e conferências. Não vou abandonar a cruz, mas vou tomar um novo caminho ao lado do Senhor crucificado," afirmou.

Nome Bento permanece

Aos 85 anos, Joseph Ratzinger continuará a usar o nome Bento. Porém, seu irmão mais velho declarou em entrevista que, em seu círculo privado, pode sempre se dirigir a ele como Joseph. Mesmo dentro do clero no Vaticano, há críticas em relação a essa decisão.

"Como vai ser quando um novo papa for escolhido? Teremos um papa titular e outro, afastado, mas também intitulado papa?", questionam os críticos da decisão do Vaticano.

Celestino 5º, que renunciou há cerca de 600 anos, voltou a usar seu hábito beneditino e seu antigo nome. A Igreja já teve, ainda, que lidar com diversas situações. Em certo momento de divisões, na Idade Média, chegou a haver três papas simultaneamente.

Procissão noturna dos fiéis no Vaticano
Bento 16 era, até esta quinta-feira (28/02), o governante absoluto do Vaticano. O menor Estado do mundo é visto de acordo com as leis internacionais como uma monarquia absolutista eletiva, na qual o Papa é também chefe de Estado, do Legislativo e do Judiciário. Em outras palavras, ele pode decidir as regras de sua renúncia e o que vai acontecer depois dela. Foi ele mesmo, por exemplo, que autorizou sua aposentadoria.

Sem o sapato vermelho

O Vaticano diz que Bento 16 vai continuar usando a batina branca. Segundo o código da Igreja, a cor é trajada apenas pelo Papa. Portanto, no futuro, haverá duas pessoas usando branco no Vaticano. A diferença estará nos sapatos, já que Bento 16 não terá nos pés mais os famosos sapatos vermelhos.

De acordo com Federico Lombardi, porta-voz do Vaticano, o Papa passará a usar os sapatos marrons que ganhou durante uma viagem ao México. "Eles são extremamente confortáveis", disse o assessor, que explicou que Ratzinger continuará a usar o anel de ouro com o símbolo do poder papal.

Bento 16, disse Lombardi, deixará o pontifício de maneira digna e estará ligado canonicamente ao gabinete do futuro Papa.

Os famosos sapatos vermelhos do Papa
Quando na ativa, o Papa não recebia salário. E, uma vez longe do cargo, Bento 16 não terá também qualquer ajuda de custo ou aposentadoria. Ele determinou que as coisas continuem como antes, ou seja: será sustentado pela Igreja, que lhe proporciona habitação, cobre sua despesas médicas e custos das quatro feiras que cuidam de sua casa.

Além disso, o arcebispo Georg Gänswein continuará sendo seu secretário. As despesas de viagem não deverão mais ser cobertas. O Vaticano diz que o Papa quer viver no pequeno monastério Mater Ecclesiae, nos jardins do Vaticano. Dificilmente, ele deve deixar a clausura ou os portões do Vaticano. Georg Gänswein é também prefeito da Casa Pontifícia, ou seja, ele auxiliará o novo Papa na organização da sua agenda e marcará audiências. Ele funcionará como uma ligação entre o Papa em atividade e o Papa aposentado. Não está claro se os dois Pontífices vão se encontrar. O protocolo tem que ser estabelecido, já que ambos viverão no Vaticano.

Orar e escrever

Um retorno à Baviera não está nos planos de Bento 16, disse Hubert Wolf, historiador da Igreja em entrevista ao jornal Westdeutsche Allgemeine Zeitung. Ele poderia, por exemplo, viver com o irmão em Regensburg. Mas lá, diz o historiador, "ele não estaria em um santuário".

Por esse motivo, o Papa teria escolhido a reclusão no Vaticano. O historiador acredita que o Papa emérito deve passar muito tempo orando e deve também escrever. "Ele se coloca sob a autoridade de seu sucessor. Ele vai fazer o que deveria ter feito anos atrás, se aposentar e voltar a escrever livros", afirma.

Antes de Bento XVI se retirar em sua clausura no Vaticano, ele ainda vai passar um tempo na residência de verão em Castel Gandolfo, comuna pertencente ao Vaticano nos arredores de Roma. Assim ele não interfere na escolha do próximo Papa e tem seu retiro no campo.

Papa Bento XVI e Georg Gänswein em Castel Gandolfo
Os membros da Guarda Suíça e seus coloridos uniformes deixaram a segurança do Papa nesta quinta-feira e passarão a cuidar do futuro Papa. Policiais regulares olharão por Bento 16, que tecnicamente não deixou o Estado do Vaticano. Ele foi de helicóptero para Castel Gandolfo, território vaticano, depois de sua última aparição pública na Praça de São Pedro.

O Papa Bento XVI deve manter sua conta no Twitter. Ainda não é certo se ele continuará a usá-la, informou o Vaticano. Sua conta (@pontifex) tem atualmente mais de 1,6 milhão de seguidores.

Extraído do sítio Deutsche Welle

AS FINANÇAS SECRETAS E CAÓTICAS DA IGREJA CATÓLICA - Marcelo Justo

A investigação por lavagem de dinheiro do Banco do Vaticano, as indenizações pelos escândalos sexuais e o número decrescente de fieis e doações são alguns dos problemas que o próximo pontífice herdará. Em entrevista à Carta Maior, o jornalista Jason Berry, fala sobre as finanças secretas da Igreja Católica, tema que foi objeto de sua investigação nos últimos 25 anos. Essa história, segundo ele, remonta à guerra fria e à massiva injeção de dinheiro da CIA no Vaticano para neutralizar a ameaça do Partido Comunista Italiano. A reportagem é de Marcelo Justo.


Londres - O Papa Bento XVI abandona o barco em meio a sérios problemas financeiros. A investigação por lavagem de dinheiro do Banco do Vaticano, as indenizações pelos escândalos sexuais e o número decrescente de fieis e doações são alguns dos problemas que o próximo pontífice herdará. Ninguém sabe exatamente quanto gasta a Igreja Católica em nível mundial, mas segundo uma investigação da revista inglesa The Economist, publicada no ano passado com base em dados de 2010, a cifra rondaria os 170 bilhões de dólares. Em um livro sobre as finanças secretas da Igreja Católica, o jornalista Jason Berry, que investigou o tema nos últimos 25 anos, afirma que a estrutura financeira da igreja é “caótica” e “opaca”.

Em entrevista à Carta Maior, Berry falou das dificuldades econômicas do Vaticano que, para ele, remetem à guerra fria e à massiva injeção de dinheiro da CIA no Vaticano para neutralizar a ameaça do Partido Comunista Italiano, então o mais poderoso da Europa ocidental.

Carta Maior: Como é a estrutura financeira da Igreja Católica em nível mundial?

Jason Berry: A Igreja Católica é muito hierárquica, monárquica eu diria, com o Papa como líder e dioceses dirigidas por arcebispos e bispos em todo o globo. Mas, em virtude de seu próprio tamanho, é internamente caótica e ingovernável. Cada bispo trabalha em sua diocese como se estivesse comandando um principado.

CM: O que sabemos de concreto sobre a riqueza do Vaticano?

JB: Há uma absoluta opacidade nas contas. Quando o vaticano declara suas rendas e gastos anuais não inclui o Instituto para as Obras de Religião, o IOR, mais popularmente conhecido como o Banco do Vaticano, cujos fundos são estimados em cerca de 2 bilhões de dólares. O IOR tem sido administrado em um clima de absoluta falta de transparência, o que o converteu em um veículo perfeito para o trânsito de todo tipo de fundos. Mas agora, com a investigação do Banco Central da Itália sobre lavagem de dinheiro, isso está mudando.

CM: Segundo algumas informações, o Vaticano tem interesses em uma empresa de espaguete, no setor financeiro, aviação, propriedades e uma companhia cinematográfica. Diz-se, inclusive, que controla entre 7 e 10% da economia italiana. Mas, dada a opacidade de suas contas, até onde é possível confirmar essas informações?

JB: Há informação disponível a instituições que nos permite saber onde está o dinheiro do Vaticano. Na Itália, o Vaticano investiu muito no Banco de Roma, que foi fundamental na reconstrução da Itália depois do “Risorgimento” no século XIX. Também tem negócios na área dos transportes públicos. A isso deve-se somar propriedades na própria Itália, na Europa e nos Estados Unidos. O Vaticano chegou a ser um dos proprietários do edifício Watergate, do famoso escândalo que provocou a renúncia de Richard Nixon. O grande tema hoje em dia é averiguar até onde prestou serviços a clientes que o utilizam como um banco “off shore”.

CM: Que impacto econômico os escândalos sexuais tiveram nas finanças da igreja?

JB: Nos Estados Unidos esse impacto foi muito forte. As dioceses e ordens religiosas pagaram mais de dois bilhões de dólares. Em muitas cidades tiveram que fechar igrejas. Los Angeles, Chicago e Boston, três das mais importantes arquidioceses, tiveram um rombo médio de 90 milhões de dólares em seus fundos de pensão.

CM: Em seu livro “Vows of Silence” você fala do fundador dos Legionários de Cristo, o mexicano Marcial Maciel que chegou a controlar um império de 650 milhões de dólares e contou com a proteção do Papa João Paulo II, apesar das denúncias de abusos sexuais. Maciel teve fortes vínculos com o governo de Pinochet no Chile e com os governos da América Central. Há alguma figura equivalente na igreja de hoje?

JB: Maciel foi o mais bem sucedido coletor que a igreja teve. Começou no final dos anos 40 buscando apoio de milionários católicos no México, Venezuela e Espanha durante a perseguição dos padres no México e pouco depois da guerra civil espanhola. Com este dinheiro, Maciel formou sua própria base de poder em Roma e se converteu no porta-voz do setor mais conservador e militante da igreja. Assim como fez com Franco, se vinculou muito com Pinochet no Chile. Nos Estados Unidos o próprio diretor da CIA durante os anos Reagan, William Casey, fez uma doação de centenas de milhares de dólares aos legionários. Maciel comportava-se como um político que viajava pelo mundo arrecadando fundos para fazer avançar a causa do catolicismo conservador e a agenda política conservadora. Mas a verdade era que toda sua ideologia encobria um delinquente sexual com poderosos contatos.

Apesar de ter sido acusado de abusar de seminaristas, o Vaticano não o investigou até 2004, a pedido do cardeal Ratzinger, quando João Paulo II estava morrendo. Graças a isso sabemos que teve filhos com duas mulheres no México e que manteve ambos os lares com dinheiro da Legião de Cristo. O escândalo é que o Vaticano demorou tanto para investigá-lo e deixou que ele se transformasse em um Frankenstein. Não há hoje uma figura equivalente no que diz respeito à arrecadação de fundos.

CM: Há uma longa história de escândalos nas finanças do Vaticano. Nos anos 80 houve o escândalo do Banco Ambrosiano e seu presidente, Roberto Calvi, que apareceu enforcado debaixo da ponte de Blackfriars em Londres. Calvi tinha fortes vínculos com o então presidente do Banco do Vaticano, o arcebispo estadunidense Paul Marcinkus. Há uma continuidade entre esses escândalos e os atuais problemas do banco?

JB: Creio que na realidade é preciso retroagir à Segunda Guerra Mundial quando a CIA começou a transferir grandes somas para o Banco do Vaticano. Em 1948, foi a primeira eleição na qual o Partido Comunista italiano, convertido no mais importante da Europa, buscava o poder. Neste momento houve uma grande campanha nos Estados Unidos, patrocinada pelo governo, da qual participou Frank Sinatra, para financiar a democracia cristã. Este foi o começo da história do dinheiro que círculos dos serviços de inteligência estadunidenses para o Vaticano. Uma geração depois, com Roberto Calvi e Marcinkus, o banco havia se convertido em uma via muito lucrativa para a passagem de dinheiro. No final dos anos 80, o banco teve que pagar uma multa de 250 milhões de dólares. Já ali o banco funcionava como uma “off shore” para seus clientes privilegiados. Mas ainda falta muito por documentar sobre essa história.

* Tradução: Marco Aurélio Weissheimer.

Extraído do sítio Carta Maior

27 fevereiro 2013

PAPA RECONHECE MOMENTOS DIFÍCEIS DURANTE SEU PONTIFICADO


Na Praça de São Pedro, Bento 16 faz última aparição pública frente a milhares de fiéis e afirma que "Deus não deixará afundar" a Igreja, mesmo em "águas agitadas".

O papa Bento 16, de 85 anos, fez sua última aparição pública como líder máximo da Igreja Católica nesta quarta-feira (27/02), na Praça de São Pedro, no Vaticano, diante de uma multidão de fiéis vindos de várias partes do mundo.

Em seu pronunciamento durante a audiência geral, o Papa reconheceu que houve turbulências durante os seus oito anos de pontificado, mas afirmou que "Deus não deixará afundar" a Igreja, mesmo em "águas agitadas".

"Houve momentos difíceis, durante os quais as águas estavam agitadas e o vento era contrário, como em toda a história da Igreja, e em que o Senhor parecia dormir. Mas sempre soube que a barca da Igreja não é minha, não é nossa, mas é a barca de Deus e ele não a deixará afundar", sublinhou.

Mais de cem mil pessoas compareceram à última grande aparição pública de Bento 16, que foi transferida para a Praça de São Pedro devido ao grande afluxo de fiéis. Antes do pronunciamento, o Papa percorreu a praça no Papamóvel. Bento 16 despediu-se com calma dos presentes, abençoando crianças e procurando contato com os peregrinos. Os fiéis balançaram cartazes de agradecimento e bandeiras. Diversos cardeais participaram da cerimônia.

Último aceno

Milhares de pessoas despedem-se do Papa
O Papa agradeceu a todos aqueles que demonstraram respeito e compreensão no último 11 de fevereiro, por ocasião do anúncio de sua renúncia. Ele afirmou ter tomado a decisão "com serenidade" e tendo em vista o bem-estar da Igreja. "Dei este passo com plena consciência da sua gravidade e excepcionalidade, mas também com grande serenidade de alma", afirmou.

Bento 16 deixa o comando da Igreja Católica na noite desta quinta-feira. Ele será então levado de helicóptero para a residência papal de verão do Vaticano, em Castel Gandolfo, nos arredores de Roma. A última ação pública de Bento 16 será um aceno de despedida, por volta de 17h30 desta quinta-feira, aos fiéis da diocese de Albano, a partir da residência em Castel Gandolfo.

Vaticano planeja era pós-Bento 16

Enquanto isso, o Vaticano se prepara para a escolha do próximo pontífice. Na próxima semana, a assembleia de cardeais irá se reunir, em preparação para a eleição do próximo Papa, em março, afirmou o porta-voz Federico Lombardi.

Há especulações de que o próximo líder religioso católico poderá ser um não europeu. "Posso bem imaginar que venha agora um Papa de outro continente. Somos uma Igreja do mundo", afirmou o arcebispo de Freiburg, Robert Zolltisch, presidente da Conferência dos Bispos da Alemanha.

Extraído do sítio Deutsche Welle

23 fevereiro 2013

LOBBY GAY NO VATICANO PODE TER LEVADO PAPA A ABDICAR - Gianni Carta

No momento de sua iminente despedida, voltam à tona os escândalos que marcaram o pontificado de Bento XVI. De acordo com o diário italiano de centro-esquerda La Repubblica, no dia 17 de dezembro de 2012, quando deitou os olhos sobre o dossiê elaborado por três cardeais octogenários incumbidos de investigar o chamado caso Vatileaks – o escrutínio de documentos papais –, Bento XVI tomou a decisão de que renunciaria.

Foto: Stefano Rellandini/ Reuters/ LatinStock

Em miúdos, o relatório de 300 páginas se baseia no não cumprimento de dois mandamentos, o sexto e o sétimo. O sexto mandamento proíbe o adultério, mas, como esse ato não é realizável no mundo dos prelados, fala-se em proibição da pederastia.

Por sua vez, o sétimo mandamento refere-se a casos de corrupção, também identificados pelos cardeais liderados pelo espanhol Julián Herranz. Os outros dois cardeais, responsáveis pela investigação realizada entre abril e dezembro do ano passado, são o italiano Salvatore De Giorgi e o eslovaco Jozef Tomko.

Segundo o inquérito, baseado em entrevistas com dezenas de bispos, cardeais e laicos, uma série de sacerdotes da Santa Sé teriam pecado, e, até prova em contrário, esses graves pecados poderão se transformar em delitos.

O quadro piora quando o La Repubblica revela o seguinte: oficiais do Vaticano teriam, por conta de suas atividades mundanas, sofrido “influências externas” de laicos.

Tradução: os oficiais do Vaticano estão sendo chantageados.

O escândalo, contudo, não pode ser visto como um complô de um diário de centro-esquerda, visto que o Corriere della Sera, prestigiado diário de centro-direita, também reportou sobre a gravidade do dossiê em 11 de fevereiro, data em que Bento XVI anunciou sua renúncia.

Difícil mesmo é saber se esse último escândalo foi, de fato, a gota d’água para o atual Papa.

Federico Lombardi, porta-voz da Santa Sé, revelou que não haverá “nem desmentidos, nem comentários” sobre as “informações e opiniões” feitas pela imprensa às vésperas da resignação de Bento XVI.

O La Repubblica, é verdade, pode deixar o leitor por vezes perplexo. Por exemplo, diz que esta foi a primeira vez que a palavra “homossexualidade” foi pronunciada nos aposentos de Bento XVI.

O diário revela que os cardeais identificaram villas, saunas, e residências usados por um arcebispo italiano com seus amantes.

No entanto, casos gays não são novidades no Vaticano – e é difícil acreditar que a palavra “homossexualidade” nunca tenha sido citada pelo atual Papa. Angelo Balducci, um dos Cavalheiros de Sua Santidade, não foi afastado do cargo em 2010 porque tinha várias relações com homens, inclusive com o nigeriano Chinedu Thomas Ethiem, cantor de capela da basílica de São Pedro?

Bento XVI, diga-se, não permite gays ativos a estudar para o sacerdócio. Seria, portanto, interessante saber os termos utilizados pelo Papa ao tratar o caso Balducci.

A corrupção no relatório dos cardeais também parece endêmica, inclusive no Instituto para as Obras de Religião (IOR), o banco do Vaticano. Ettore Gotti Tedeschi, ex-presidente do IOR, foi despedido em maio de 2011. Seu crime: tentava, há mais de dois anos, limpar as finanças da Igreja. Tedeschi, que após sua demissão temia ser assassinado, escreveu um documento oficial para que sua luta fosse continuada pelo seu sucessor. O cargo deixado por Tedeschi só foi preenchido nove meses mais tarde…

E, é claro, são numerosos os casos de pedofilia não resolvidos – e vítimas, por tabela, não conseguem processar padres culpados.

Devido “à idade avançada”, Bento XVI renunciará dia 28 de fevereiro. Até a Páscoa um novo Papa deverá ser escolhido. Ele terá de lidar com o dossiê de 300 páginas sobre os podres da Igreja que talvez tenham levado Bento XVI a abdicar.

Extraído do sítio CartaCapital

22 fevereiro 2013

OS SEGREDOS DE SÃO PEDRO QUE TIRARAM AS FORÇAS AO PAPA - Mario Sommossa

O Papa Bento XVI. EPA

Ver um homem velho, fatigado e em sofrimento suscita sempre um sentimento de compaixão. A imagem de João Paulo II nos seus últimos dias de Pontificado tocava profundamente a sensibilidade até dos anticlericais mais empedernidos. O atual Bispo de Roma também se apresentava cansado e frágil na sua última aparição pública e os motivos oficiais da sua demissão até podem ser totalmente verossímeis.

Todavia, isso constituiu qualquer coisa absolutamente revolucionária relativamente à longa tradição da Igreja. Antes dele, só Celestino V se demitiu voluntariamente da Cadeira Pontifícia tendo, precisamente por isso, sido acusado por Dante de cobardia.

Sem contar que, se a tradição católica exige que o Papa assuma com o seu cargo uma certa santidade, uma renúncia irá torná-lo demasiado humano, a ele e ao seu posto.

O Papa anterior chegou a dizer, relativamente ao cargo assumido, que “se é pai da Igreja para toda a vida” quer se queira ou não, e se portou de forma correspondente, até porque “Cristo não desceu da cruz”.

A decisão de Bento XVI, no entanto, por mais compreensível que seja do ponto de vista humano, é por si só um fato de consequências graves e no futuro se saberá até que ponto o prestígio e a santidade do Papado serão os mesmos ou se serão afetados.

Mas é precisamente o inédito da situação que nos obriga, a contragosto, a formular outras possíveis hipóteses sobre as razões para um ato tão incomum. Hipóteses que, sejam verdadeiras ou falsas, dificilmente terão alguma confirmação no futuro, tal como nunca se soube como e de que doença morreu João Paulo I.

O Vaticano sempre foi conhecido pela sua extrema capacidade em salvaguardar os seus segredos e a sua extraterritorialidade ajuda-o até nos casos mais delicados como, por exemplo, o do múltiplo assassinato do comandante da Guarda Suíça, da sua mulher e do jovem soldado que ocorreu há poucos anos.

São duas as hipóteses que nos vêm à nossa mente. A primeira está ligada às ações empreendidas pelo Papa Ratzinger antes da sua ascensão ao trono papal. Joseph Ratzinger foi o maior responsável pelo manto de silêncio que cobriu os numerosos casos de padres pedófilos que, na maior parte das vezes, não puderam ser perseguidos pela justiça civil e que, em processos internos da Igreja, tiveram quase sempre uma pena máxima: o simples afastamento da paróquia onde os crimes tinham sido praticados e o envio para outro cargo ou lugar. E se alguém, na posse de novas provas, puder chamar o atual Papa à responsabilidade? Ou implicá-lo diretamente nesses atos?

Quer se tenha tratado de um recado que lhe tenha sido endereçado, ou apenas de uma informação preventiva de um “serviço” qualquer, um escândalo que pudesse envolver um cargo tão alto da instituição teria um tal impacto que poderia mesmo ser “mortal” para toda a Igreja. Se uma hipótese semelhante fosse real, então seriam vistas sob uma outra luz as palavras de que a sua “renúncia” possa ter sido justificada pelo “bem da Igreja”.

A segunda possibilidade tem a ver com o recente escândalo que envolveu o mordomo pessoal do Papa e as guerras internas nas altas esferas do Vaticano. Um relatório confidencial a esse respeito tinha sido entregue nas mãos do Pontífice, enquanto vozes inimigas ligavam estes fatos aos conflitos que abrangiam também o Banco do Vaticano (IOR). Ainda que, em relação a este último, as disputas entre os Prelados eminentes fossem do domínio público, foi uma surpresa o imediato afastamento de Gotti Tedeschi e as dificuldades, ainda relevantes, para a nomeação de um novo diretor-geral, adiada mês após mês. E se o conflito se tornou de tal forma grave que chegou a abranger o detentor do elevado cargo? Isso seria um outro possível motivo para a resignação, neste caso já não tão “voluntária”.

Não vale a pena alguém dizer que a ideia da renúncia já estivesse na cabeça do Papa há alguns meses, pois a própria insistência repetida no tema faz lembrar “excusatio non petita” (“desculpas não pedidas”).

É óbvio que se trata só de hipóteses e não temos nenhum elemento concreto para poder dizer que se está perante mais do que simples ilações. Mas a raridade desse ato, quando comparado com dois séculos de história da Igreja do Vaticano e o hábito desde sempre de guardar segredos nos poucos metros quadrados de terra, não nos podem garantir que as razões oficialmente anunciadas sejam necessariamente a única verdade possível.

Extraído do sítio Voz da Rússia

20 fevereiro 2013

"LA STAMPA" REVELA PROBLEMAS DE SAÚDE DE BENTO XVI

Papa Bento XVI Fotografia © Kai Pfaffenbach - Reuters

A tensão irregular do Papa já não lhe permite andar de avião, quase não vê da vista esquerda e fica cansado muito rapidamente. As revelações são de Marco Tosatti, especialista em assuntos do Vaticano.

Os problemas de saúde de Bento XVI agravaram-se nos últimos anos e agora os seus médicos não aconselham viagens de avião, revelou esta quarta-feira ao jornal italiano "La Stampa" Marco Tosatti, especialista em assuntos do Vaticano, explicando assim a resignação do Sumo Pontífice.

"Reli as minhas notas dos últimos anos sobre a saúde do Papa, depoimentos que recolhi dos seus familiares e que prometi não revelar enquanto Bento XVI ocupasse o cargo, mas agora a sua resignação libertou-me desse compromisso", explicou.

Há dois anos que o Papa "não consegue dormir à noite, mas recusa tomar tranquilizantes", escreve o jornalista, que revela assim porque é que o Papa parece sempre tão cansado.

O médico pessoal do Papa indicou que Joseph Ratzinger pode continuar as suas atividades com a condição de "manter a sua tensão sob controlo". Segundo Marco Tosatti, "neste momento o principal problema de Bento XVI é a sua tensão irregular e por isso os médicos alertaram para se ter muita atenção a isso, aconselhando o Papa a passar o menos tempo possível a bordo de aviões".

"Foi dito ao Papa que a sua presença nas Jornadas Mundiais da Juventude, no Rio de Janeiro (prevista para 23 a 28 de julho de 2013) devia ser cancelada por motivos de saúde", disse Tosatti. O jornalista revela ainda que Bento XVI "quase não vê do olho esquerdo" e que nas suas viagens, quando dorme fora do Vaticano, "cai da cama muitas vezes quando esta é muito pequena". Segundo Marco Tosatti, o Papa "fica cansado muito rapidamente e tem uma enorme dificuldade em se levantar de manhã, chegando a dormir nove horas seguidas quando tem a agenda muito preenchida".

Tosatti afirma que Bento XVI tem vindo a sofrer de "uma deterioração progressiva do seu estado de saúde e da sua energia", o que, afirma, "justifica plenamente a sua decisão de resignar".

Extraído do sítio Diário de Notícias


14 fevereiro 2013

CAPITALISMO GLOBAL BUSCA UM NOVO "PAPADO" - Saul Leblon


Passados cinco anos de implosão da ordem neoliberal, o sistema capitalista está longe de dizer 'habemus papam'. 

Entre a austeridade imposta à Europa e a liquidez contracíclica dos EUA, seus cardeais ora parecem hesitar, ora ganhar tempo. 

Nesta 4ª feira (13), os dois lados da crise transatlântica convergiram para um meio fio que os elucida mais que todas as palavras e aparências. 

A ideia é criar um grande 'nafta' europeu/norte-americano, 'equivalente à metade da produção mundial' (leia a reportagem de nosso correspondente em Londres, Marcelo Justo).

Labirínticos acordos de eliminação recíproca de tarifas e outras formas dissimuladas de protecionismo (legislações sanitárias, por exemplo) terão que ser vencidos para o desfecho da crise redundar nessa imensa 'pátria grande dos livres mercados'.

A bandeira motivacional é defender ambas as margens do avanço implacável da concorrência chinesa.

Do ponto de vista social significa algo do tipo: façamos com o emprego, a indústria, a agricultura e os serviços aquilo que a concorrência oriental faria de qualquer jeito. 

O relevante nesse aceno do consistório conservador é o fato de dobrar a aposta na mesma lógica que jogou a humanidade na pior crise desde os anos 30.

O papel reservado a governos e Estados no processo é o de sempre. E estrito: desregular, desbastar, escalpelar direitos, abrir espaços, pavimentar as free ways para o livre fluxo dos capitais e negócios. 

E seja o que Deus quiser.

O combustível da corrida é o apetite canibal dos capitais, aguçado pela dieta da crise. Fusões e aquisições pipocam diariamente nos quatro cantos do planeta. O canibalismo é induzido pelas inovações tecnológicas assadas em fogo alto nos laboratórios das corporações, que tem escala e capital para isso.

De novo: 'e seja o que Deus quiser'.

Externalidades como o custo adicional em pobreza e desigualdade, ademais da soberania dos povos, ficam a cargo do poder de ajuste e convencimento dos respectivos centuriões locais.

Aécios Neves estão, como sempre estiveram, disponíveis nas mais remotas latitudes. 

Sua caixa de ressonância midiática, idem. 

Há poucos dias a banca europeia fechou a conta de seu desempenho em 2012: 55 mil demissões. 

A pátria sem fronteiras dos acionistas aplaudiu.

Ajustes e aplausos equivalentes ocorrem em todas as áreas e nos diferentes pontos cardeais do planeta, mediante a exibição de números equivalentes.

A república dos dividendos gostaria que algo parecido acontecesse com a Petrobrás no Brasil. Cortes; redução drástica de conteúdo nacional nas encomendas; bombeamento maciço de óleo para exportação; zero de novas refinarias. E por aí afora.

Um feérico exercício de musculatura está em marcha urbi et orbi.

Dele emergirá o novo papado. A nova ordem pós-crise.

Não a dos cardeais europeus da fé ortodoxa; nem a dos discursos bonitos do cardeal Obama. 

Mas a das corporações globais embaladas em acirrada disputa pelo controle dos mercados no pós-crise. 

O efeito em cadeia dessa recomposição de massa muscular é imaginável.

Contrapor-se à modelagem unilateral do futuro requer alguns ingredientes estratégicos. 

Facilita muito dispor de um mercado interno de massa, assim como de uma base industrial capaz de competir por um naco do século 21. Aeticulaçoes regionais , como a do Mercosul e a da Unasul, idem.

Mas nada acontecerá sem um imperativo de desassombro político insubstituível: restituir algum nível de comando do Estado sobre a economia e o mercado.

A extensão dessa ordenação pública depende da equação política de cada sociedade

É o que o Brasil de Dilma, a Argentina, de Cristina, a Venezuela de Chávez e Maduro, a Bolívia e o Uruguai tentam implementar, de acordo com o acumulo de forças interno caso a caso.

Não é fácil.

Estados egressos de décadas de desmonte neoliberal não foram suficientemente regenerados.

Mesmo por que não se trata simplesmente de reeditar o estatismo autoritário.

É preciso ir além.

E criar espaços de socialização do planejamento público, possibilidade concreta sinalizada pelas conferências setoriais, realizadas no governo Lula.

Na realidade concreta, porém, improvisa-se. 

Da mão para a boca; na tentativa de manter a cabeça fora d'água. E resgatar alguma capacidade de comando sobre o destino econômico e social.

Avanços e hesitações compõem a norma nessa corrida.

Um episódio resume todos os demais.

O governo Dilma acaba de redefinir a margem de retorno dos projetos de infraestrutura oferecidos à iniciativa privada.

O capital privado tem caixa e interesse em investir e o país necessita, visceralmente, desse investimento complexo de longo prazo. 

O governo Dilma reajustou a taxa de retorno original considerada baixa pelo mercado. 

Não renunciou à prerrogativa de planejar o país e definir os projetos prioritários a serem implementadas, ademais de fixar o seu prazo, a qualidade e a taxa de retorno correspondente.

Mas cedeu um percentual maior na remuneração do investimento.

Poderia ter feito diferente?

Poderia, em tese.

Por exemplo, ter confiscado o caixa ocioso das empresas com uma brutal taxação sobre a aplicação financeira.

Em teoria. 

Na prática, a equação política permitiu outra solução: previamente o espaço de fuga do capital ocioso foi comprimido cortando-se significativamente a taxa de juros que serviria de abrigo confortável e seguro à liquidez e ao curto prazo. 

O saldo é quase o mesmo, a um custo futuro maior de tarifa pública; a fricção política, menor.

Ambas as escolhas refletem os ares do mundo.

Vive-se uma corrida contra o tempo. 

O governo Dilma não escapa ao tique-taque implacável dos ponteiros.

Ou o país desencadeia um novo ciclo de investimentos pesado com algum grau de racionalidade pública - o maior possível; ou a lógica selvagem das grandes corporações acabará modelando o futuro brasileiro no pós-crise.

A esquizofrenia midiática que acusa Dilma ora de intervencionista, ora de privatizante 'à la FHC', abstrai as variáveis estratégicas em jogo. Omite as implicações sociais distintas entre um desfecho e outro.

Na verdade, o papado de sua preferência é conhecido.

Abortado por Lula na primeira tentativa, quem sabe o país não pega o segundo bonde da 'nova grande nafta', preconizada pelos EUA e a UE como saída para a crise?

É esse o jogo de forças do consistório em marcha. 

Diante dele os países em desenvolvimento tem que articular a sua melhor resistência, no menor tempo possível.

Ou serão asfixiados pela fumaça que anunciar o 'habemus papam' do novo ciclo.

Extraído do sítio Carta Maior