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18 fevereiro 2013

AVIÕES DRONE JÁ MATARAM MILHARES, MAS OBAMA NÃO ESTÁ NEM AÍ - Amy Goodman


Relatórios da Agência de Jornalismo Investigativo Britânica (BIJ, na sigla em inglês) mostram que "no mínimo 2.629 pessoas foram mortas até agora por ataques de drones da CIA no Paquistão". Apesar disso, o presidente Barack Obama decidiu indicar John Brennan, um defensor dos drones e das técnicas de tortura, para o comando da agência de inteligência. A análise é de Amy Goodman, do Democracy Now

John Brennan e John Kiriakou trabalharam juntos anos atrás, mas suas carreiras divergiram dramaticamente. Brennan está agora no caminho para assumir a direção da CIA, enquanto Kiriakou está no da prisão. O destino de cada um foi e está sendo ajustado pela assim chamada "guerra ao terror", que provocou condenações ao redor do globo durante a gestão do presidente George W. Bush.

É verdade que o presidente Barack Obama renomeou, em vão, esta guerra como "operações de contingência no além-mar", mas, ao invés de reduzir as práticas de ódio características de seu predecessor, Obama as aumentou. 

A promoção de Brennan e a acusação de Kiriakou demonstram como os recentes excessos do governo americano não são aberrações transitórias, mas a criação de uma assustadora nova "normalidade", em que ataques de drones (aviões não-tripulados), vigilância ilegal, assassinato e detenção indefinida são conduzidos por arrogância e impunidade, protegidos pelo mistério e fora do alcance da lei.

John Kiriakou passou 14 anos como analista e oficial da CIA. Em 2002, levou seu grupo até Abu Zubaydah, acusado de ser membro de grande importância da Al Qaeda. Kiriakou foi o primeiro a confirmar publicamente o uso de simulação de afogamento pela CIA, numa entrevista com Brian Ross, da ABC, em 2007. 

Ele contou: "Naquela época, eu sentia que a simulação de afogamento era algo que precisávamos fazer... Eu acho que mudei de ideia, e penso que essas simulações são coisas que não devíamos cogitar". Kiriakou ainda disse que tais "técnicas aprimoradas de interrogação" são imorais, e teria declinado o convite para ser treinado para usá-las.

Desde a entrevista, tornou-se público que Zubaydah foi "afogado" pelo menos 83 vezes, e como resultado não houve nenhuma informação útil. O suspeito permanece preso em Guantanamo, sem acusações. 

Por sua vez, Kiriakou logo vai começar a cumprir seus 30 meses de prisão, mas não por trazer à tona tais simulações de afogamento. Ele foi condenado por expor o nome de um interrogador oficial da CIA para um jornalista, com informações que o próprio interrogador postou num website disponível publicamente. 

Enquanto isso, John Brennan, conselheiro de contra-terrorismo há tempos de Obama, espera a confirmação do Senado para se tornar o novo diretor da CIA. Eu perguntei recentemente para Kiriakou o que pensava sobre Brennan. Respondeu ele:

"Eu conheço John Brennan desde 1990. Trabalhei duas vezes diretamente para ele, e acho que ele é uma terrível escolha para liderar a agência. Penso que está na hora de a CIA superar a feiúra do regime pós 11 de Setembro, e precisamos de alguém que vá respeitar a Constituição e que não se conforme ao legado da tortura. Acho que a indicação de Brennan pelo presidente Obama passa a mensagem errada para todos os americanos".

Obama já tinha considerado Brennan para o cargo em 2008. Brennan, então, retirou sua nomeação, sob uma chuva de críticas pelo suporte que deu à era Bush em políticas de tortura, quando esteve em várias posições de importância na inteligência, incluindo a chefia do Centro Nacional Contra-Terrorismo (NCC, na sigla em inglês).

Quanta diferença quatro anos fazem. Com a morte de Osama Bin Laden para mostrar ao público, Obama se vê imune às críticas feitas ao contra-terrorismo. John Brennan é posto como responsável pela notória "lista de mortes" que Obama acredita ter tido o direito de executar a qualquer momento, em qualquer lugar do planeta, como parte de suas "operações de contingência". 

Isto inclui a morte de cidadãos americanos, sem nenhuma acusação, julgamento ou sequer processo. Ataques de drones é uma maneira como esses assassinatos são feitos. Anwar al-Awlaki, cidadão americano, foi morto no Iemêm por um ataque de avião não-tripulado, e então, duas semanas depois, seu filho de 16 anos, Abdulrahman al-Awlaki, foi morto da mesma maneira.

Eu perguntei ao coronel Lawrence Wilkerson, que serviu como chefe de departamento do secretário de Estado na gestão de Colin Powell, de 2002 a 2005, sobre o que ele achava de Brennan, e ele me disse: 

"O que está acontecendo com estes ataques de drones pelo mundo afora está, hoje, na minha opinião, tão mal desenvolvida quanto muitas das coisas que nós condenamos, agora sabendo de suas consequências, no governo de George W. Bush. Estamos criando mais inimigos do que matando, estamos violando leis internacionais. Estamos até mesmo matando cidadãos americanos sem processos devidos e termos um procurador-geral que diz que o processo devido não inclui necessariamente um processo legal. Estas são palavras realmente assustadoras".

Enquanto Kiriakou vai parar para a prisão por revelar um nome, a Agência de Jornalismo Investigativo Britânica (BIJ, na sigla em inglês) está lançando um projeto chamado "Naming the Dead" ("Dando nome aos Mortos", em tradução livre), esperando assim "identificar quanto for possível aqueles que morreram nos ataques americanos de drones no Paquistão, entre civis ou militares". 

Os relatórios da BIJ mostram que "no mínimo 2.629 pessoas foram mortas até agora por ataques de drones da CIA no Paquistão". John Brennan deveria responder sobre cada um deles.

Extraído do sítio Carta Maior

02 fevereiro 2013

ENTREVISTA COM ASSANGE: "É BOM QUE OS GOVERNOS TENHAM MEDO DAS PESSOAS" - Jamil Chade


LONDRES – A Internet está se transformando no maior instrumento de vigilância já criado e a liberdade que ela representa estaria seriamente ameaçada. A avaliação é de Julian Assange, criador do Wikileaks e que, há sete meses, vive na embaixada do Equador em Londres. Para ele, a web redefiniu as relações de poder no mundo, se transformou no “sistema nervoso central hoje das sociedades” e chega a ser mais determinante que armas. O problema, segundo ele, é que esse poder está agora se virando contra as populações.

O australiano recebeu a reportagem do Estado para uma entrevista sobre seu livro “Cypherpunks, Liberdade e o Futuro da Internet”, que está sendo lançado no Brasil nesta semana pela Boitempo Editorial.

Apesar de aparentar relaxado, não escondia a palidez de sete meses dentro de um escritório. Em junho de 2012, ele optou por pedir asilo ao Equador, diante de sua iminente deportação para a Suécia, onde é acusado de assédio sexual. Segundo ele, sua decisão de pedir refúgio ao governo de Quito tem como meta evitar sua extradição da Suécia para os EUA, onde seria julgado pela difusão de documentos secretos. O Equador lhe concedeu asilo. Mas a polícia britânica indicou que, assim que ele pisar para fora da embaixada em direção ao aeroporto, seria detido. O resultado tem sido um confinamento sem data para acabar.

Mas essa situação não o deixou menos polêmico. Segundo ele, ao colocar informações em redes sociais, internautas pelo mundo estão fazendo um trabalho de graça para a CIA. “Hoje, o Google sabe mais sobre você que sua mãe”, disse. “Esse é o maior roubo da história”.

Assange ainda defendeu seu anfitrião, o presidente equatoriano Rafael Correa, diante de sua ação contra jornais no Equador e que chegou a ser criticado pela ONU.

Sobre o futuro do Wikileaks, Assange já prometeu que, em 2013, um milhão de novos documentos serão publicados. Ao Estado, ele garantiu: “haverá muita coisa sobre o Brasil”. Ao aparecer para a entrevista, Assange vestia uma camisa da seleção brasileira, num claro esforço de criar simpatia no Brasil e numa operação de imagem cuidadosamente trabalhada.

Eis os principais trechos da entrevista e as fotos de Joao Castelo Branco, as primeiras publicadas por um jornal brasileiro desde que o australiano pediu asilo ao Equador. 

Chade – A Internet é o símbolo da emancipação para muitos e foi apresentada como a maior revolução já feita. Mas agora o sr. traz a ideia de que há uma contra-ofensiva a isso tudo. O sr. considera que a Internet está em uma encruzilhada ?

Assange – Diferentes tecnologias produzem mais poder para estruturas existentes ou indivíduos e isso tem sido a história do desenvolvimento tecnológico, ao ponto que podemos ver a história da civilização humana como a história do desenvolvimento de diferentes armas de diferentes tipos. Por exemplo, quando rifles, que podiam ser obtidos por pequenos grupos, eram as armas dominantes em seu dia, ou navios de guerra ou bombas atômicas. E isso define a relação de poder entre diferentes grupos de pessoas pelo mundo. Desde 1945, a relação entre as superpotências dominantes tem sido definida por quem tem acesso às armas atômicas. Mas o que ocorre agora é que Internet é tão significativa que está começando a redefinir as relações de força que antes eram definidas pelos diferentes sistemas de armas que um país tinha. Isso porque todas as sociedades que tem qualquer desenvolvimento tecnológico, que são as sociedades influentes, se fundiram totalmente com a Internet. Portanto, não há uma separação entre o que nós pensamos normalmente que é uma sociedade, indivíduos, burocracia, estados e internet. A internet é o alicerce da sociedade, suas artérias, os nervos e está conectando os estados por cima das fronteiras. A Internet é um centro, se não for o centro, da nossa sociedade. Ela está envolvida na forma que uma sociedade se comunica consigo mesmo, como se comunica entre elas. Não é só simplesmente um sistema de armas ou fonte energia. Não é certo pensar como se fosse o sangue da sociedade. É o sistema nervoso central da socidade. Portanto, se há um problema na Internet, há um problema com o sistema nervoso da sociedade. Agora, víamos antes a internet como uma força liberatadora, que garantia às pessoas que não tinham informação com informação e, mais importante ainda, com conhecimento. Conhecimento é poder. Outras coisas tambem são poder. Mas ela deu muito poder a pessoas que antes não tinham poder. E não apenas mudou a relação entre os que tem poder e aquelas que não tem, dando conhecimento àqueles que não tinham conhecimento. Mas também fez todo o sistema funcionar de forma mais inteligente. Todos passaram a poder tomar decisões mais inteligentes e puderam passar a cooperar de forma mais inteligente. Agindo contrário a essa força está a vigilância em massa criada por parte do estado.

Chade – De que forma estaria ocorrendo essa vigilância em massa?

Assange – As sociedades se fundiram com a internet, diante do fato de que comunicações entre os indivíduos ocorrem pela Internet, os sistemas de telefone estão na Internet, bancos e transações usam a Internet. Estamos colocando nossos pensamentos mais íntimos na Internet, detalhes de comunicações e mesmo entre marido e muher, nossa posição geográfica. Enfim, tudo está sendo exposto na Internet. Isso signifca que grupos que estão envolvidos em vigilância em massa tem conseguido realizar uma transferencia em massa de conhecimento em sua direção. Os grupos que já tinham muito conhecimento agora tem mais. Esse é o maior roubo que de fato já ocorreu na história. Essa transferência de conhecido, de todas as comunicações interceptadas para agências nacionais de segurança e seus amigos corporativos. A tecnologia está sendo desenvolvida para essa vigilância em massa está sendo vendida por empresas de países, como a França, que vendeu um sistema de vigilância para o regime de Kadafi. Na África do Sul, há um sistema desenhado para gravar de forma permanente todas as ligações que entram e saem do país e as estocam por apenas US$ 10 milhões por ano. Está ficando muito barato. A população mundial dobra a cada 20 anos. O custo de vigilância está caindo pela metade a cada 18 meses.

Chade – Mas, justamente o sr. citou Kadafi. Muito acreditam que a Primavera Árabe só ocorreu graças à Internet. Não teria sido esse o caso?

Assange – Há uma série de histórias tradicionais de um longo trabalho de ativistas, de sindicatos e até de clubes de futebol que tiveram um papel importante na Tunísia e no Egito, os Ultras. O que é realmente novo? Bom, algumas coisas: o ativismo pan-arábico é algo novo e potenciado pela web. Diferentes ativistas em diferentes países se conectaram entre si pela web, trocando dicas, identificando quem era bem e quem era mau. O movimento dos Ultras vieram da Itália para os clubes da Tunísia e Egito. Como? Pela Internet. E então há o Wikileaks, jogando muita informação e essa informação então foi atacada pelo regime na Tunísia e depois pelo Egito. Mas também sendo disseminada pelo Egito e Tunisia. Mais importante ainda, essa informação foi disseminada para fora desses países, a tal ponto que ficou difícil para os Estados Unidos e Europa defenderem seus tradicionais aliados.

Chade – O sr. aponta para o poder de redes como Facebook e Google. Confesso que não tenho certeza que Mark Zuckerberg (criador do Facebook) pensou nisso tudo quando estava criando o site. Como é que se tornaram tão poderosos e como é que são, como o sr. diz, usados contra civis?

Assange – Google, essencialmente, sabe o que você estava pensando. E sabe também (o que vc pensou) no passado. Porque quando você tem algum pensando sobre algo, quer saber algum detalhe, você busca no Google. Sites que tem Google Adds, que na verdade são todos os sites, registram sua visita. Portanto, Google sabe todos os sites que você visitou, tudo o que você buscou, se você usou gmail ou email. Então ele te conhece melhor que você mesmo. Um exemplo: você sabe o que você buscou há dois dias, há três meses? Não. Mas o Google sabe. Google conhece você melhor que sua mãe. Claro, mas alguém pode dizer: Google só quer vender publicidade. Portanto, quem se importa que eles estejam fazendo isso. Mas, na realidade, todas as agências de inteligência americana e de aplicação da lei tem acesso ao material do Google. Eles acessaram isso em nosso caso.

Chade – Como fizeram isso?

Assange – Eles usaram instrumentos como cartas da agência de segurança nacional e mandados para buscar os dados de email das pessoas envolvidas em nossa organização. Isso saiu do Google, da conta do Twitter, onde pessoas entraram para acompanhar a nossa conta. No caso do Facebook, é algo impressionante. As pessoas simplesmente estão fazendo bilhões de centenas de horas de trabalho gratuíto para a CIA. Colocando na rede todos seus amigos, suas relações com eles, seus parentes, relatando o que estão fazendo, dizendo que vi aquela pessoa naquela festa, aquela pessoa naquela loja. É um incrível instrumento de controle. Países como a Islândia tem uma penetração do Facebbok de 88%. Mesmo que você não esteja no Facebook, você pode ter certeza que teu irmão está e está relatando sobre você, ou sua namorada está relatando sobre você. Não há como escapar. Agora, quando uma organização como Facebook diz que as pessoas querem fazer isso…

Chade – Claro, essa é justamente a minha questão: como o sr. explica que pessoas de diferentes culturas e religiões estão dispostas a revelar suas vidas diante da web?

Assange – Claro, sobre o que é que você está paranoico. Você pode dizer: bom, estou fazendo isso de forma voluntária e é mais importante estabelecer conexões sociais que se preocupar com um aparato de um estado totalitário. O problema é que isso não é verdade. As pessoas dizem que querem compartilhar algo apenas com meus amigos e amigos de meus amigos, mas não com meus amigos e com a CIA. É uma decepção o que está ocorrendo. As pessoas estão sendo enganadas em desenvolver essa atividade.

Chade – Entendo esse ponto claramente. Mas estamos vendo também censura na China, no Irã e em Cuba, países que parecem estar de fato mais temerosos da Internet. Isso não mostraria que a web é mais ameaçadora para esses regimes que para os civis?

Assange – Acho que você não pode generalizar “esses regimes”. Temos de olhar cada um deles de forma apropriada. Pessoas censuram por um motivo. Censuram porque tem medo, ou porque querem ter mais poder. Normalmente, eles querem manter seu poder. Porque o Irã censura? Bom, porque teme que pessoas dentro do Irã sejam influenciadas por material em persa publicado fora do Irã. E quem publica isso? Bom, alguns são de dissidentes genuínos. Mas também há empresas de fachada, criadas pelos israelenses, pelos Estados Unidos. Isso é um fato. Inclusive pela BBC em Persa. Denunciamos essas empresas de fachada no Wikileaks e suas estruturas de financiamento, e mesmo empresas israelenses. Agora, é algo saudável que governos estejam temerosos do que as pessoas pensam. Estranhamente, é um sinal otimista que a China, com toda sua censura e vigilância, está com medo ainda do que sua população pense. Por exemplo, a China baniu o Wikileaks em 2007. Pelo que sabemos, foi o primeiro país a banir. Temos tido uma espécie de guerra para superar o firewall chinês. De alguma forma, é um sintoma positivo. 

Chade – Porque? Esse raciocínio não vai contra seu princípio de liberdade no fluxo de informação?

Assange – Sim. Mas é um bom sintoma. Em um país onde as relações estão tão fiscalizadas e a vigilância está enraizada que o poder não precisa se preocupar com o que as pessoas pensam, esse é o maior problema.


Chade – Voltando à questão da liberdade do fluxo de informação. Wikileaks teve um imenso impacto em alguns países. Mas há quem ainda questione: bem, os documentos foram obtidos de forma ilegal. Qual sua avaliação sobre esse argumento de que, por eles terem sido obtidos de forma ilegal, não são informações legítimas?

Assange – Generais não definem a lei. Ou pelo menos não deveriam. Se falamos da situação americana, há toda uma série de leis se queremos falar de legislação e foi perfeitamente legal.

Chade – A obtenção dos documentos ?

Assange – Sim, a forma que foram obtidos. Militares americanos não tem direitos na lei americana de encobrir crimes. De fato, isso é algo explícito. Não se pode usar apenas a classificação de documentos para manter um crime sigiloso. Mas também podemos dizer: quem é que fez a lei ? Obviamente são os interesses militares. Nós, como editores, temos de levar essas leis à sério? Nós não levamos elas a sério. Quer dizer, é um conflito em relação a onde você estabelece uma linha. Muito foi dito sobre isso e muito do que foi dito está filosoficamente falido. Há uma forma simples de entender. Não é Deus que estipula essa fronteira para todos nós. Diferentes organismos tem diferentes responsabilidades. As vezes, entidades policiais tem a responsabilidade de manter algo secreto. Uma investigação sobre a Máfia, deve ser mantida em sigilo. Outras organizações, como editores e jornais, tem a responsabilidade perante o público, que é de publicar informação que ajude o público a decidir e entender o mundo. Essas diferentes responsabilidades não devem ser contaminadas uma pela outra.

Chade – Trazendo esse debate para a América Latina, como o sr. avalia o comportamento de governos diante da Internet e da imprensa em geral ?

Assange – É bem variado e tem vários problemas. Acho que, comparado com o resto do mundo, comparado com Europa, EUA, Sudeste Asiático, a região está bastante bem.

Chade – Alguns dos críticos apontam para o fato de que o presidente (do Equador) Rafael Correa ataca a imprensa. Como o sr. se sente sobre isso, e porque escolheu essa embaixada (do Equador) para vir ?

Assange – Pelo amor de Deus. Eles deveriam ser atacados com muita frequência. A primeira responsabilidade da imprensa e em primeiro codigo de ética é acuracy. Tudo começa com você precisando dizer a verdade. Essa precisa ser a primeira coisa. E também ser representativa. Não é porque sua organização é de propriedade de alguma família. Há um grande problema na América Latina com a concentração na mídia. Ainda que, se há seis famílias que controlam 70% da imprensa no Brasil, o problema é muito pior em vários países. Na Suécia, 60% da imprensa é controlado por uma editora. Na Austrália é muito pior, 60% também da imprensa escrita é controlada por Murdoch. Portanto, quando falamos em liberdade de expressão, temos de incluir a liberdade de distribuição, uma distribuição adequada e uma das coisas mais importantes que a Internet nos deu é a liberdade na prática de distribuição, se as pessoas estão interessadas no assunto. Não quer dizer que você pode levar algo a um milhão de pessoas com publicidade. Mas você pode montar um blog e, se as pessoas já estão interessados, podem ler.

Chade – Uma pergunta pessoal. Para alguns, o sr. é um herói, outros dizem que é um criminoso, uma ameaça internacional, outros dizem que o sr. é um ativista. Em suas próprias palavras, quem é o sr. ?

Assange – Sou apenas um cara. Todos nós vivemos só uma vez. Todos temos responsabilidades de viver nossas vidas de acordo com nossos princípios e não disperdiçá-las. Eu só estou tentando fazer isso. Não acho que é necessário que me defina. Na verdade, quando as pessoas se definem, na maioria das vezes estão mentindo. Mas, no lugar disso, devem olhar as ações de uma pessoa e ver se elas são consistentes no longo prazo. 

Chade – Porque é que o sr. evita ir à Suécia (onde a Justiça o busca por acusações de assédio sexual) ?

Assange – Porque eu seria extraditado aos EUA.

Chade – Por qual motivo exatamente ?

Assange – O EUA tem um procedimento contra minha pessoa e contra Wikileaks pelos últimos dois anos. O governo diz em seus próprios documentos internos que a investigação é de um tamanho e natureza “sem precedentes”, citando uma investigação “de todo o governo” americano. É algo sério e que envolve mais de uma dúzia de agências.

Chade – Quais são os próximos passos para o Wikileaks ? O sr. anunciou que vai publicar cerca de um milhão de documentos em 2013. Algo sobre o Brasil?

Assange – Sim. Publicaremos muito sobre o Brasil neste ano. Um material muito interessante.


* Jamil Chade é correspondente do jornal O Estado de São Paulo na Europa desde 2000. Foi premiado como o melhor correspondente brasileiro no exterior em 2011, pela entidade Comunique-se. Com passagem por 67 países e mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Genebra, Chade foi presidente da Associação de Correspondentes Estrangeiros na Suíça entre 2003 e 2005 e tem dois livros publicados. «O Mundo Não é Plano» (2010) foi finalista do Prêmio Jabuti, categoria reportagem. Na Suíça, o livro venceu o prêmio Nicolas Bouvier. Em 2011, publicou “Rousseff”.

Extraído do sítio O Estado de S. Paulo

09 janeiro 2013

2013 E ALÉM: GUERRAS DE DRONES E UM APOCALIPSE ANUNCIADO - Tom Engelhardt


Pense nisso como uma fórmula simples: Se você foi contratado (e bem pago) para proteger o que for, você vai estar congenitamente mal equipado para imaginar o que quer que seja. E ainda, o desejo não apenas de conhecer os contornos do futuro, mas de implantar sua bandeira nesse futuro, tem mantido a Comunidade de Inteligência (CI) americana em seus domínios desde meados da década de 1990. Essa foi a primeira vez que ocorreu para alguns em Washington, que o poder dos EUA pode ser capaz de controlar quase tudo que valha a pena globalmente por, se não uma eternidade, então por tempo suficiente para tornar o futuro uma propriedade Americana.

Desde então, de anos em anos o Conselho Nacional de Inteligência, o ‘centro de análises estratégicas a longo-prazo’ da CI planeja produzir um documento lançado em série chamado Tendências Globais [a se consolidarem nos anos seguintes]. A última edição, lançada a tempo para o segundo mandato de Barack Obama, é a Tendências Globais 2030. Algo totalmente previsível sobre isso: é maior e mais elaborada que a edição Tendências Globais 2025. E aqui vai uma previsão que, por mais difícil que seja acertar algo sobre o futuro, tem 99,9% de chance de estar correta: quando o Tendências Globais 2035 for lançado, será ainda maior e mais elaborado. Vai custar mais caro e ainda, como seu antecessor, será evasivo, restringindo qualquer possibilidade levemente ousada, como uma porta de alçapão para fugir de qualquer previsão que talvez não funcione.

Nada disso deveria ser surpreendente. Nos últimos anos, com um orçamento coletivo de 75 bilhões de dólares, a CI, labirinto historicamente inédito de 17 agências de inteligência e equipamentos, tem sido uma das indústrias de Washington com maior crescimento. Em troca de financiamento quase ilimitado e uma expansão de mais de uma década de duração dos seus poderes, foi prometida uma coisa para o povo americano: a segurança, especialmente em relação ao terrorismo. Como parte de um complexo de segurança nacional que se beneficiou enormemente de um bloqueio do país e criação de um estado de guerra permanente pós 11 de setembro, também sofre com a clássica doença burocrática.

Portanto, ninguém deveria ficar chocado ao descobrir que suas investidas em um futuro produtor de ansiedade, que começou relativamente modesto em 1997, transformaram-se em operações cada vez mais maciças. Nesta quinta iteração da série, os autores deram origem a livro que representa um hino do futuro e seus perigos.

[Na edição Tendências Globais 2030] Você vai ler muito sobre os problemas de recursos e das guerras de recursos potenciais, mas não sobre os empresários que utilizam o poder para esmagar seus possíveis concorrentes no mundo corporativo. A única crise que ameaça o bem-estar do planeta, a mudança climática, embora seja certamente discutida de passagem, está ainda mergulhada nos fundamentos, e ao que parece, em 2030 não vai ter sido atingida ainda.

Para isso, eles reuniram grupos de “especialistas" em universidades americanas (demais para serem contadas), consultaram muitos acadêmicos individuais (demais para citar os nomes) apesar de páginas de agradecimentos, e fizeram "reuniões sobre o projeto inicial em cerca de 20 países." Em outras palavras, um esforço monumental foi feito para preparar o futuro e tranquilizar Washington que, enquanto um "relativo declínio econômico em face dos estados em ascensão é inevitável", as próximas décadas ainda podem revelar uma brincadeira americana (mesmo que compartilhada, em certa medida, com a China e essas potências emergentes).

Frack é o novo Crack

Tendo crescido a um tamanho exorbitante, as "tendências" no título do projeto não estavam mais sendo vagas o suficiente. Em vez disso, a linguagem da Tendências Globais 2030 tem inflado à altura das suas grandes pretensões. Atualmente para determinar o futuro para políticos americanos, são necessárias Megatendências ("Fortalecimento Individual", "Difusão do Poder"), Viradores de Jogo ("Economia Global propensa a crises”, “lacunas de governo", "Potencial para o aumento da violência"), Cisnes Negros ("pandemia grave", "Mudanças Climáticas muito mais rápidas", "Um Irã reformado"), e Mudanças Tectônicas ("O crescimento da classe média global", "O envelhecimento sem precedentes e generalizado"), para não falar de Mundos Potenciais ou cenários futuristas de ficção em que essas Megatendências, esses Viradores de Jogo, Cisnes negros, e Mudanças Tectônicas se misturam e se combinam em futuros possíveis.

Fora disto, o que exatamente os especialistas da Inteligência Americana, os representantes da última superpotência global remanescente, concluíram? Aqui vai o meu resumo parcial: que devemos esperar o surgimento de nada além do que já não sabemos; que várias versões do presente conhecível podem ser precisamente projetadas para o futuro; que muita coisa depende do que acontece com maior Estado da Terra (com a China beliscando seus calcanhares) - Se, isto é, com a sua "preponderância em todas as áreas, na maioria das dimensões do poder, seja ‘duro’ ou ‘suave’”, os EUA continuarão a ser um benevolente "provedor de segurança global" ou "polícia global" de estabilidade planetária ou - catástrofe das catástrofes - puxar sobre si mesmo, criando uma América-fortaleza-decadente; que a verdadeira crise americana pode ser uma redução dos gastos militares; que as probabilidades indicam que a economia global, com mais de um bilhão de novos "consumidores de classe média", poderia ser um pouco melhor ou pior; que o Irã pode (ou não) construir armas nucleares; que os conflitos globais poderiam aumentar um pouco (com ênfase nas guerras por recursos naturais) - ou diminuir; que o Estado nacional poderia aumentar seu poder atual ou perdê-lo para os órgãos não governamentais e "cidades inteligentes", e assim por diante.

Há, no entanto, alguns tópicos que parecem ter desaparecido na versão de nosso mundo futuro feita pelo Conselho Nacional de Inteligência. Você não vai, por exemplo, encontrar estas palavras enfatizadas no Global Trends 2030: empresas - elas parecem não ter papel importante no mundo do futuro; depressão – sim, “recessão” ou até mesmo “colapso”, mas nunca “depressão global”, nem mesmo quando os EUA são comparados ao grande poder imperial do planeta, ao século 19 britânico, e uma era em que depressões eram comuns (uma possível “grande depressão” só é mencionada com um “pouca probabilidade”); imperial – uma vez que são o único...errr... grande você-sabe-o-que de esquerda, que não é uma palavra apropriada para o mundo de 2030; revolução – oh, teve uma dessas em 1848 e pode ser mencionada, mas apesar do fato de que o mundo foi convulsionada por revoltas inesperadas e movimentos imprevistos nos últimos anos, em 2030, a revolução é inimaginável; capitalismo - não precisa sequer dizer isso em um mundo em que não existe nada além disso, e usar essa palavra poderia implicar que em 2030 um outro sistema de qualquer tipo poderia surgir e desafiá-lo, o que é, claro, inconcebível; Armas nucleares israelenses - por que exibir o arsenal nuclear israelense, o qual realmente existe e assumidamente estará lá em 2030, quando você pode se concentrar no fabuloso cisne negro do Irã e seu (ainda) inexistente arsenal nuclear.

Finalmente base militar -, sem dúvida, um termo perfeitamente aceitável para a CI nas Tendências Globais 2040, uma vez que os chineses estabelecerão algumas delas no exterior. Enquanto isso, em um mundo em que os EUA ainda têm cerca de 1.000 bases espalhadas, não há razão em trazer o assunto à tona ou em discutir o destino historicamente sem precedentes das ocupações americanas pelo planeta. Nem em Tendências Globais 2030 você vai encontrar uma consideração séria do poderio militar americano ou da propensão de Washington nos últimos anos não para garantir a estabilidade, mas garantindo instabilidade, desordem e caos em terras distantes.

Você vai encontrar uma seção sobre drones - aviões não tripulados -, mas não sobre nossas guerras de drones e como elas podem terminar em 2030. (Outro conjunto de palavras agora proibido associados a essas guerras são assassinato, assassinato seletivo, lista de mortes.) Você vai encontrar a Primavera Árabe sendo discutida de passagem, mas não Primavera da Índia. (Você sabe, a que ocorreu em 2023, em que a juventude saliente de uma nação com expectativas crescentes encontrarou-se com a frustração econômica). 

Você vai ler muito sobre os problemas dos recursos naturais e das guerras de recursos potenciais, mas não sobre mas não sobre os empresários que utilizam o poder para esmagar seus possíveis concorrentes no mundo corporativo no cenário global. A única crise que ameaça o bem-estar do planeta, a mudança climática, embora seja certamente discutida de passagem, está ainda mergulhada nos fundamentos, e ao que parece, em 2030 não vai ter sido atingida ainda. (Assumidamente, nenhum dos encontros do grupo CI foram realizados no árido sudoeste dos EUA, no Centro-Oeste assolado pela seca, ou na costa Jersey desde que o furacão Sandy a atingiu.).

Você vai notar que a única coisa que faz nossos futurólogos de inteligência pular de alegria e lhes causa o equivalente a um êxtase de drogas é o fraturamento hidráulico para obtenção de gás, ou fracking, ao qual sempre voltam de novo e de novo. Eu não estou brincando. Para eles, frack é o novo crack e se este documento (deus nos acuda!) fosse transformado em um filme, ele poderia ser chamado de Frack para o Futuro. Sim, na maioria dos seus cenários futuros, fracking, liberando toda aquela "energia extrema", torna os EUA independente de energia, um exportador de gás natural, e praticamente garante que 2030 será mais uma vez um ano americano! Yippee!

Democracia do Tempo

Acima de tudo, os analistas do Conselho Nacional de Inteligência conseguiram em grande parte banir o único aspecto mais essencial, inevitável, e estimulante do futuro: surpresa. Isso diz muito mais sobre o mundo Washington que os autores habitam do que sobre o que pode acontecer em 2030. Mas antes de eu chegar a esse ponto, me dê apenas um segundo para eu me dar uns tapinhas nas costas.

Afinal, eu te fiz um favor enorme. Eu realmente li as Tendências Globais 2030, desde a página número dois, da carta “Caro leitor” do presidente e o "sumário executivo" do relatório além de suas 136 páginas com colunas duplas, e até mesmo os seus agradecimentos intermináveis. E deixe-me assegurá-lo, isso é colocado por pessoas perfeitamente inteligentes e tem algumas pepitas de coisas interessantes nele. A equipe montada até tentou escrever pedaços de ficção futurista e pelo menos um desses trechos, uma análise "marxista" "atualizada" para o século XXI, tem um valor de entretenimento aceitável.

No final, porém, o documento, como o CI em si, é um artefato exagerado das próprias limitações e medos de Washington. Também é tediosamente, devastadoramente maçante e repetitivo, com gráficos elaborados sobre o que você acabou de ler como se fosse simplesmente muito pesado para informá-lo em parágrafos. É exatamente o tipo de coisa que nenhum coletivo burocrático deveria ser autorizado a infligir ao grande desconhecido, e que ninguém acostumado com H.G. Wells, Arthur Clarke, Isaac Asimov, Ray Bradbury, Philip Dick, Ursula le Guin, George Orwell, William Gibson , ou Suzanne Collins, deveria ter de suportar.

E, no entanto, a estranheza deste projeto, historicamente falando, deve chamar sua atenção. Pare por um momento e pense sobre o tempo e o estado. Estados têm tido tradicionalmente um desejo de controlar o passado (algumas vezes trabalhando duro para ganhar um monopólio sobre a escrita da história). E - nenhuma surpresa aqui - a maioria dos estados tem o desejo de controlar o presente. Mas o futuro? O futuro é a democracia do tempo. Nenhum governo pode prendê-lo. Nenhum militar pode invadi-lo. Nenhuma agência de inteligência pode inserir seus agentes no mesmo.

É por isso que a série de tendências globais que originalmente surgiu do mundo cada vez mais auto-confiante da "única superpotência" tem um certo fascínio. Ela representa uma incursão do estado único para o futuro, uma tentativa singular para encurralar e possuí-lo. Certa vez, o futuro distante foi a província de pensadores utópicos ou distópicos, escritores de Pulp Fiction, excêntricos, visionários, mesmo loucos, mas não os serviços de inteligência do governo. Olhando para o que era, no seu auge, uma aventura com estranha emoção individual imaginativa, independente se você estivesse lendo Edward Bellamy ou Charlotte Perkins Gilman, Yevgeny Zamyatin ou HG Wells, George Orwell ou Aldous Huxley.

Isso foi, é claro, antes de o Pentágono começar a planejar o arsenal de 2020, 2035 e 2050, antes da guerra virar nuclear e assim, com a exceção de duas cidades em 1945, só poderia ser "travada" em ideias através de cenário futurista na escrita. Foi antes de os líderes da única superpotência serem tão dominados pela arrogância a ponto de começaram a suspeitar que o futuro, como o presente, pode realmente ser deles.

E ainda assim o futuro é, e continua sendo, de todos, sempre. Até que isso realmente venha a acontecer, o seu palpite é tão bom quanto o da CIA ou a do CNI. Provavelmente melhor. Eles podem, de fato, ser os piores candidatos possíveis para escrever sobre o futuro. Mesmo quando conhecem que o castigo contra eles - como previsto no Tendências Globais 2030, a sua incapacidade de abandonar "continuidades" para "descontinuidades e crises" - isso não importa.

Como um retrato do poder americano, se mostrou incrivelmente cego, surdo e mudo em um mundo rugindo em direção a 2030 e forneceu ao resto de nós a definição funcional do grupo de pessoas que têm a menor probabilidade de oferecer segurança em longo prazo aos americanos.

Eles simplesmente não conseguem pensar fora da caixa. Eles não se atrevem a surpreender-se nem ao menos dar ao futuro a sua surpresa natural, ainda que – palpite próprio - o nosso mundo esteja cada vez mais cheio dessas descontinuidades. A ascensão da China, o colapso do Lehman Brothers, a Primavera Árabe, a erupção de Tea Party e do Movimento Occuppy, mesmo o mais ínfimo dos “alçapões inesperados” da história - como Paula Broadwell ao derrubar o "maior" general da América - são conceitualmente muito além deles. A surpresa é um veneno para eles. Preferem empalmar algumas cartas e jogar a partir do fim do baralho, em vez de reconhecer que o futuro não pertence a eles.

Apocalipse Quando?

Os primeiros anos da era George W. Bush revelaram-se visionários, se não loucos. Foi quando Washington abriu um buraco nos redutos de petróleo do planeta e pode ter iniciado a Primavera Árabe. Mais recentemente, a formulação de políticas tem sido firmemente restaurada para uma administração de gestores, e a imaginação imperial norte-americana, tal como era, começou a atrofiar. Tendências Globais 2030 reflete aquela realidade “toda Americana”, por isso é menos provável entrar no futuro, do que ganhar um tour pelos corredores sem ar da mente coletiva de Washington assim que 2013 começar. 

É claro, o futuro é uma coisa incrivelmente complicada para guiar alguém. Veja a China, por exemplo. Ninguém diria que seu crescimento não é um fato de importância histórica mundial. Ainda assim, eu acho que seria justo dizer que, desde o início do século XIX até o final do século XX, um indivíduo que previu com precisão a próxima bizarra e espetacular torção no caminho da China para o futuro, teria sido humilhado em qualquer sala cheia de especialistas: o colapso da China imperial, a ascensão improvável de movimento comunista de Mao Zedong sob o caos da invasão e da guerra civil, ou - o mais improvável de todos - a criação pelo Partido Comunista da China, depois de uma década de radicalismo surpreendente e extremismo, de uma potência sem precedentes capitalista (programado, como Tendências Globais 2030 aponta, para passar os EUA como a principal economia do mundo até 2030, se não antes).

Então, por que alguém deveria imaginar que, se tratando da China, as tendências atuais poderiam simplesmente ser extrapolados no futuro? E ainda assim por diante para a gente da Tendências Globais 2030, que projetam uma série mais ousada do que o habitual de cenários para o país, que vão desde a cooperação com os EUA em harmonia regional hegemônica de crescente nacionalismo e "aventureirismo" no exterior (uma improbabilidade extrema, como se vê) a um "colapso" econômico, cenário de que choca a economia global.

Ainda assim, vamos examinar um fato importante da história chinesa, que os analistas do Conselho Nacional de Inteligência ignoram (embora os líderes chineses estejam profundamente conscientes disso ou não teriam se mexido para suprimir a seita Falun Gong ou, mais recentemente, um culto cristão do apocalipse maia). Sob estresse, a China tem uma tradição única revolucionária. Por pelo menos alguns milhares de anos, em tempos ruins rebeliões camponesas enormes, muitas vezes alimentadas por cultos religiosos sincréticos, têm abandonado o interior chinês para ameaçar a país: os Turbantes Amarelos, os Lótus Brancos, o Taiping de meados do século XIX e, mais recentemente, o próprio movimento de Mao, entre outros. 

Já hoje, em tempos economicamente otimistas, a China tem dezenas de milhares de "incidentes de massa", cidadãos protestam contra fábricas poluidoras, camponeses assumem o controle de aldeias locais, e assim por diante. Se a economia chinesa já obtém um grande sucesso entre agora e 2030, em meio à crescente corrupção econômica e crescente desigualdade, quem sabe o que pode realmente acontecer?

Com a mais rara das exceções, no entanto, os autores do Global Trends 2030 desprezam o choque do futuro para "cisnes negros forasteiros", como uma pandemia que poderia matar milhões de pessoas ou tempestades solares geomagnéticas que podem nocautear sistemas de satélite e a rede elétrica global. Caso contrário, quando se trata de um mundo verdadeiramente disjuntivo, para melhor ou pior, esqueça as Tendências Globais 2030.

Eu não acho que eu sou anormal e ainda consigo imaginar coisas piores do que eles parecem capazes de descrever, sem sequer piscar, começando com uma grande depressão em ampla escala, que seria um tapa na cara mundial. De fato, se você temum modo de pensar apocalíptico, tudo que você precisa fazer é olhar para as informações que eles fornecem - algumas das quais seus analistas consideram uma boa notícia - e é fácil compreender o mundo verdadeiramente extremo que podemos estar entrando.

Eles nos dizem, por exemplo, que "o mundo consumiu mais alimentos do que produziu em sete dos últimos oito anos" (uma tendência que esperamos que venha a ser revertida pela modificação genética de culturas alimentares); que a água está acabando ("Até 2030, quase metade da população mundial viverá em áreas com severa escassez de água"); que a demanda por energia vai aumentar em cerca de 50% nos próximos 15 a 20 anos, e que os gases de efeito estufa, entrando na atmosfera como se não houvesse amanhã, deverão dobrar até meados do século.

Por sua estimativa, em 2030 haverá 8,3 bilhões de onívoros chocalhando ao redor do planeta e mais de um bilhão de pessoas, possivelmente dois bilhões, deverão entrar em alguma versão abissalmente degradada da "classe média". Isto é, haverá mais motoristas de carro, mais comedores de carne, mais compradores de produtos.

Adicione ainda o bônus da mudança climática - e o "sucesso" do fracking em nos manter em uma dieta de combustíveis fósseis durante as próximas décadas - e me diga se você também não consegue imaginar o cenário apocalíptico e algumas surpresas chocantes também.

Desejos no Shopping Mundial

Pense nas Tendências Globais 2030 como um retrato de uma Comunidade de Inteligência (e dos acadêmicos parasitas que trabalham com eles) envelhecida e obesa, incapaz de ver o mundo como ele é, e muito menos como poderia ser. O Conselho Nacional de Inteligência evidentemente nunca conheceu um apocalíptico ou um sonhador que não quisessem evitar. Seus motores e pessoas influentes aparentemente nunca consideraram montar um grupo de escritores de ficção científica, e em todas as suas viagens eles nunca pararam, evidentemente, no Uruguai e fizeram uma visita ao radical escritor Eduardo Galeano, ou até mesmo consultou o seu livro de 1998 De Pernas Pro Ar - A Escola do Mundo ao Avesso.

Em um certo ponto, discutindo o consumismo global - e lembre-se que este foi o ano após o lançamento do primeiro relatório Tendências Globais - ele escreveu:

"A sociedade de consumo é uma armadilha. Aqueles que estão no controle fingem ignorância, mas qualquer pessoa com olhos em sua cabeça pode ver que a grande maioria das pessoas, necessariamente, deve consumir pouco, muito pouco, ou nada, a fim de salvar o pouco de natureza que nos resta. A injustiça social não é um erro a ser corrigido, nem é um defeito a ser superado, é um requisito essencial do sistema. O mundo natural não é capaz de suportar um shopping do tamanho do planeta... [Se] todos nós consumíssemos como aqueles que estão espremendo a terra à secura, não teríamos mais mundo.” .

Com as potências emergentes do "Sul" e do “Oriente", agora vamos ter a chance de ver com nossos próprios olhos, talvez em 2030, o quão preciso Galeano pode ter sido sobre o destino deste cada vez mais lotado, com recursos cada vez mais pressionados, mais quente e cada vez mais tumultuado planeta que vivemos. Podemos aprender de perto e pessoalmente exatamente o que significa adicionar um ou dois bilhões de pessoas extras aos “consumidores de classe média” em tal momento. Até lá, talvez nós seremos capazes de fazer a nossa escolha a partir de extremidades de todos os tipos, que vão desde episódios antigos como revolução ou fascismo até os novos que não podemos sequer imaginar hoje. 

Mas não leia Tendências Globais 2030 para descobrir sobre isso. Afinal, o pesadelo de todo burocrata é a surpresa. Nós não vamos gastar 75 bilhões de dólares em "inteligência" e desistir do que uma vez foram os clássicos direitos e liberdades americanas para encontrar um monte de surpresas perturbadoras. Não é de se admirar que o pessoal do Conselho não pode suportar a imaginar uma gama mais ampla do que pode estar por vir. A bolha de Washington é muito confortável, e o resto demasiadamente assustador. Eles podem estar vivendo às custas de nosso medo, mas não se engane nem por um segundo, eles estão com medo também, ou eles jamais poderiam produzir um documento como Tendências Globais 2030.

Como um retrato do poder americano, se mostrou incrivelmente cego, surdo e mudo em um mundo rugindo em direção a 2030 e forneceu ao resto de nós a definição funcional do grupo de pessoas que têm a menor probabilidade de oferecer segurança em longo prazo aos americanos.

Resuma tudo isso, e você terá um único e demasiadamente claro desejo de Ano Novo da Comunidade de Inteligência dos EUA: por favor, por favor, por favor, faça 2013, 2014, 2015 ... e 2030 não serem muito diferentes de 2012!

Extraído do sítio Carta Maior

06 janeiro 2013

DOCUMENTOS REVELAM MILHÕES DE DÓLARES EM FINANCIAMENTO DOS EUA A MEIOS E JORNALISTAS VENEZUELANOS - Eva Golinger


Os documentos evidenciam que mais de 150 jornalistas foram capacitados e treinados pelas agências estadunidenses e 25 páginas web foram financiadas na Venezuela com o dinheiro estrangeiro. Documentos recentemente desclassificados do Departamento de Estado dos Estados Unidos através da Lei de Acesso à Informação (FOIA, por suas siglas em inglês) evidenciam mais de 4 milhões de dólares em financiamento a meios e jornalistas venezuelanos durante os últimos anos.

O financiamento tem sido canalizado diretamente do Departamento de Estado através de três entidades públicas estadunidenses: a Fundação Panamericana para o Desenvolvimento (PADF, por suas siglas em inglês), Freedom House e pela Agência de Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos (Usaid).

Em uma tosca tentativa de esconder suas ações, o Departamento de Estado censurou a maioria dos nomes das organizações e dos jornalistas recebendo esses fundos multimilionários. No entanto, um documento datado de julho de 2008 deixou sem censura os nomes das principais organizações venezuelanas recebendo os fundos: Espaço Público e Instituto de Imprensa e Sociedade (IPYS).

Espaço Público e IPYS são as entidades que figuram como as encarregadas de coordenar a distribuição dos fundos e os projetos do Departamento de Estado com os meios de comunicação privados e jornalistas venezuelanos.

Os documentos evidenciam que a PADF, o FUPAD, em espanhol, implementou programas na Venezuela dedicados à "promoção da liberdade dos meios e das instituições democráticas", além de cursos de formação para jornalistas e o desenvolvimento de novos meios na Internet devido ao que considera as "constantes ameaças contra a liberdade de expressão" e "o clima de intimidação e censura contra os jornalistas e meios".

Financiamento a páginas web anti Chávez

Um dos programas da Fupad, pelo qual recebeu 699.996 dólares do Departamento de Estado, em 2007, foi dedicado ao "desenvolvimento dos meios independentes na Venezuela" e para o jornalismo "via tecnologias inovadoras". Os documentos evidenciam que mais de 150 jornalistas foram capacitados e treinados pelas agências estadunidenses e 25 páginas web foram financiadas na Venezuela com dinheiro estrangeiro. Espaço Público e IPYS foram os principais executores desse projeto em âmbito nacional, que também incluiu a outorga de "prêmios" de 25 mil dólares a vários jornalistas.

Durante os últimos dois anos, aconteceu uma verdadeira proliferação de páginas web, blogs e membros do Twitter e do Facebook na Venezuela que utilizam esses meios para promover mensagens contra o governo venezuelano e o presidente Chávez e que tentam distorcer e manipular a realidade sobre o que acontece no país.

Outros programas manejados pelo Departamento de Estado selecionaram jovens venezuelanos para receber treinamento e capacitação no uso dessas tecnologias e para criar o que chamam uma "rede de ciberdissidentes" na Venezuela.

Por exemplo, em abril deste ano, o Instituto George W. Bush, juntamente com a organização estadunidense Freedom House convocou um encontro de "ativistas pela liberdade e pelos direitos humanos" e "especialistas em Internet" para analisar o "movimento global de ciberdissidentes". Ao encontro, que foi realizado em Dallas, Texas, foi convidado Rodrigo Diamanti, da organização Futuro Presente da Venezuela.

No ano passado, durante os dias 15 e 16 de outubro, a Cidade do México foi a sede da II Cúpula da Aliança de Movimentos Juvenis ("AYM", por suas siglas em inglês). Patrocinado pelo Departamento de Estado, o evento contou com a participação da Secretária De Estado Hillary Clinton e vários "delegados" convidados pela diplomacia estadunidense, incluindo aos venezuelanos Yon Goicochea (da organização venezuelana Primero Justicia); o dirigente da organização Venezuela de Primera, Rafael Delgado; e a ex-dirigente estudantil Geraldine Álvarez, agora membro da Fundação Futuro Presente, organização criada por Yon Goicochea com financiamento do Instituto Cato, dos EUA.

Junto a representantes das agências de Washington, como Freedom House, o Instituto Republicano Internacional, o Banco Mundial e o Departamento de Estado, os jovens convidados receberam cursos de "capacitação e formação" dos funcionários estadunidenses e dos criadores de tecnologias como Twitter, Facebook, MySpace, Flicker e Youtube.

Financiamento a Universidades

Os documentos desclassificados também revelam um financiamento de 716.346 dólares via organização estadunidense Freedom House, em 2008, para um projeto de 18 meses dedicado a "fortalecer os meios independentes na Venezuela". Esse financiamento através da Freedom House também resultou na criação de "um centro de recursos para jornalistas" em uma universidade venezuelana não especificada no relatório. Segundo o documento oficial, "O centro desenvolverá uma rádio comunitária, uma página web e cursos de formação", todos financiados pelas agências de Washington.

Outros 706.998 dólares canalizados pela Fupad foram destinados para "promover a liberdade de expressão na Venezuela", através de um projeto de 2 anos orientado ao jornalismo investigativo e "às novas tecnologias", como Twitter, Internet, Facebook e Youtube, entre outras. "Especificamente, a Fupad e seu sócio local capacitarão e apoiarão [a jornalistas, meios e ONGs] no uso das novas tecnologias midiáticas em várias regiões da Venezuela".

"A Fupad conduzirá cursos de formação sobre os conceitos do jornalismo investigativo e os métodos para fortalecer a qualidade da informação independente disponível na Venezuela. Esses cursos serão desenvolvidos e incorporados no currículo universitário".

Outro documento evidencia que três universidades venezuelanas, a Universidade Central da Venezuela, a Universidade Metropolitana e a Universidade Santa Maria, incorporaram cursos sobre jornalismo de pós-graduação e em nível universitário em seus planos de estudos, financiados pela Fupad e pelo Departamento de Estado. Essas três universidades têm sido os focos principais dos movimentos estudantis antichavistas durante os últimos três anos.

Sendo o principal canal dos fundos do Departamento de Estado aos meios privados e jornais na Venezuela, a Fupad também recebeu 545.804 dólares para um programa intitulado "Venezuela: As vozes do futuro". Esse projeto, que durou um ano, foi dedicado a "desenvolver uma nova geração de jornalistas independentes através do uso das novas tecnologias". Também a Fupad financiou vários blogs, jornais, rádios e televisões em regiões por todo o país para assegurar a publicação dos artigos e transmissões dos "participantes" do programa.

A Usaid e a Fupad

Mais fundos foram distribuídos através do escritório da Usaid em Caracas, que maneja um orçamento anual entre 5 a 7 milhões de dólares. Esses milhões de dólares fazem parte dos 40 a 50 milhões de dólares que anualmente as agências estadunidenses, europeias e canadenses estão dando aos setores antichavistas na Venezuela.

A Fundação Panamericana para o Desenvolvimento está ativa na Venezuela desde 2005, sendo uma das principais contratistas da Usaid no país sulamericano. A Fupad é uma entidade criada pelo Departamento de Estado em 1962, e é "filiada" à organização de Estados Americanos (OEA). A Fupad implementou programas financiados pela Usaid, pelo Departamento de Estado e outros financiadores internacionais para "promover a democracia" e "fortalecer a sociedade civil" na América Latina e Caribe.

Atualmente, a Fupad maneja programas através da Usaid com fundos acima de 100 milhões de dólares na Colômbia, como parte do Plano Colômbia, financiando "iniciativas" na zona indígena em El Alto; e leva 10 anos trabalhando em Cuba, de forma "clandestina", para fomentar uma "sociedade civil independente" para "acelerar uma transição à democracia".

Na Venezuela, a Fupad tem trabalhado para "fortalecer os grupos locais da sociedade civil". Segundo um dos documentos desclassificados, a Fupad "tem sido um dos poucos grupos internacionais que tem podido outorgar financiamento significativo e assistência técnica a ONGs venezuelanas".

Os "sócios" venezuelanos

Espaço Público é uma associação civil venezuelana dirigida pelo jornalista venezuelano Carlos Correa. Apesar de que em sua página web (www.espaciopublic.org) destaca que a organização é "independente e autônoma de organizações internacionais ou de governos", os documentos do Departamento de Estado evidenciam que recebe um financiamento multimilionário do governo dos Estados Unidos. E tal como esses documentos revelam, as agências estadunidenses, como a Fupad, não somente financiam grupos como Espaço Público, mas os consideram como seus "sócios" e desde Washington lhes enviam materiais, linhas de ação e diretrizes que são aplicadas na Venezuela, e exercem um controle sobre suas operações para assegurar que cumprem com a agenda dos Estados Unidos.

O Instituto de Imprensa e Sociedade (IPYS) é nada mais do que um porta-voz de Washington, criado e financiado pelo National Endowment for Democracy (NED) e por outras entidades conectadas com o Departamento de Estado. Seu diretor na Venezuela é o jornalista Ewald Sharfenberg, conhecido opositor do governo de Hugo Chávez. IPYS é membro da agrupação Intercâmbio Internacional de Livre Expressão (IFEX), financiado pelo Departamento de Estado e é parte da Rede de Repórteres Sem Fronteiras (RSF), organização francesa financiada pela NED, pelo Instituto Republicano Internacional (IRI) e pelo Comitê para a Assistência para uma Cuba Livre.

Ver os documentos em:

* Eva Golinger é advogada venezuelano-estadunidense.

** Artigo publicado originalmente no sítio Adital.

Extraído do sítio Prensa Latina  

05 janeiro 2013

PLANO PARA MATAR PRESIDENTE DO EQUADOR ESTÁ NA AGENDA DA CIA, REVELA DOSSIÊ

Rafael Correa é candidato à reeleição no Equador e concentra o maior apoio popular entre os demais candidatos

O jornalista chileno Patricio Mery alertou às autoridades equatorianas, nesta sexta-feira, para um plano da Agência Central de Inteligência norte-americana (CIA, na sigla em inglês) para assassinar o presidente do Equador, Rafael Correa. A medida seria em retaliação ao fechamento de uma base dos EUA naquele país, que existiu até 2009, e por dar asilo ao jornalista australiano Julian Assange, diretor do sítio WikiLeaks, na internet.

O repórter apresentou suas pesquisas ao ministro das Relações Exteriores do Equador, Ricardo Patiño, e promoveu uma conferência com jornalistas nesta capital. À agência latino-americana de notícias Andes, Mery revelou detalhes do trabalho de apuração realizado ao longo dos últimos cinco anos.

Sua pesquisa abre várias frentes de investigação e detalha as relações de autoridades chilenas com a CIA. Ele organizou um roteiro que se repete em vários países da região. A agência norte-americana, com o apoio de autoridades do governo chileno, promove a entrada de drogas produzidas no Equador, cerca de 200 quilos de cocaína por mês, a fim de gerar dinheiro sujo: chega no Chile segue para a Europa e os Estados Unidos. Do dinheiro gerado, uma parte permanece no Chile “e me disseram as fontes que este dinheiro é destinado a desestabilizar o governo do presidente Correa”, afirma o jornalista.

Mery comprova as informações passadas ao governo equatoriano com uma denúncia, feita no Chile, pelo inspetor Fernando Ulloa, após reunião com ministro do Interior da época, Rodrigo Hinzpeter, ao qual apresentou um dossiê com todos os fatos e nomes dos líderes do PDIs (Polícia de Investigações, na sigla em espanhol) envolvidos com o tráfico de drogas, incluindo Luis Carreno, “que aponto como um agente da CIA e que agora trabalha como inspetor área de Arica e integra o alto comando do PDI. Após a denúncia, a única medida tomada foi afastar o denunciante, Fernando Ulloa, de suas funções.

A apuração do jornalista começou quando ele suspeitou da corrupção nos meadros policiais de seu país e um agente da Agência Nacional de Inteligência (ANI) confirmou-lhe que a droga serviria para abastecer financeiramente um plano de desestabilização do presidente Correa, por dois motivos: o líder equatoriano havia fechado a base de Manta e concedido asilo a Julian Assange, que pode ser condenado a morte se for extraditado de Londres, onde se encontra, para os EUA, por vazar informações de segurança nacional sobre os norte-americanos. A partir dessa perspectiva Correa tornou-se também um alvo da CIA. A agência, com base em Langley, no Estado da Virgínia, atua em paralelo ao governo dos EUA e aplica suas próprias regras nas ações daquele país em território estrangeiro.

No relatório entregue ao governo equatoriano, Mery afirma que algumas fontes lhe permitiram revelar seus nomes:

– Minhas fontes são: Hector Guzman, Fernando Ulloa, um terceiro membro da Polícia de Investigações que prefiro não revelar ainda seu nome porque sua vida está em perigo no Chile e há uma quarta fonte, que é o agente da ANI. Reúno também documentos histórico e fatos devidamente checados, como a reunião com o ministro Rodrigo Hinzpeter, que atualmente é o ministro da Defesa no meu país – relatou.

O ministro Hinzpeter esteve envolvido em quatro “armações” no Chile: no primeiro caso, que o liga diretamente com a CIA, um paquistanês chamado Saif Khan é chamado à embaixada dos EUA e dizem que vão lhe arranjar um emprego. Eles o deixaram trancado em um quarto e, ato seguinte, entra Grupo de Operações Especiais da Polícia (OGPE, na sigla chilena) e o levam preso.

– O homem não sabia de nada, é paquistanês e espero que saiba falar Inglês. Ele é acusado de ter traços de TNT (explosivos), ou seja, como se tivesse entrado com uma bomba na embaixada. A operação foi coordenada por um agente da CIA chamado Stanley Stoy, que ordena à polícia de investigações para que faça uma incursão na casa de Saif Khan, o que é irônico, porque a Polícia Nacional não pode receber ordens de um policial estrangeiro. Em seguida, descobriu-se que o jovem Saif Khan não tinha nada a ver com o que o estavam acusando, mas a parafernália serviu para mostrar como o país auxilia os EUA na luta contra o terrorismo no mundo. No Chile, temos um quadro onde podemos ver que as autoridades mais altas estão ligadas à CIA e à extrema-direita norte-americana – disse.

Um outro escândalo denunciado a Portiño mostra que Rubén Ballesteros, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), foi o juiz que participou dos conselhos de guerra da ditadura de Augusto Pinochet e ordenou o fuzilamento de prisioneiros.

– Ele é acusado de violação dos Direitos Humanos e mantém ligações estreitas com a direita dos EUA – acusa o jornalista.

Ainda segundo o relatório de Mary, Sabas Chahuán, procurador-geral da República (PGR), quem deve investigar os crimes no país, “tem uma relação estreita com o FBI através de um acordo firmado com os EUA, depois da prisão de Saif Khan”. De acordo com documentos apresentandos pelo jornalista, com base na prisão arbitrária foi criado um programa chamado LEO, o qual permite que os norte-americanos obtenham qualquer informação acerca dos cidadãos chilenos.

– E tudo o que o FBI sabe, a CIA sabe também – presume.

Chahuán teria recebido ordens da Embaixada dos EUA no Chile para criar essas “armações”, denuncia Mary.

– Com tudo o que eu disse, mais o que disseram as fontes e provam os documentos e fatos, há uma estrutura que nos permite dizer que a CIA coordena as políticas daquele país com o exterior – garantiu.

Drogas contra o socialismo

As ligações entre a CIA e o governo chileno, segundo as denúncias, permitem que a agência norte-americana monitore a situação política no pais vizinho. No Equador, o presidente é socialista e tem um dos mais altos índices de aprovação popular.

– Nossas fontes afirmam que a droga traficada para fora do Chile destina-se a desestabilizar ou até matar o presidente Correa. Por quê? Porque quando um presidente passa em um mês de 60% de aprovação pública para 80%, de acordo com pesquisas divulgadas nesta quinta-feira, e reúne todas as condições para vencer as eleição no Equador, a única maneira de tirá-lo do caminho é por meio de um assassinato – afirmou.

Embora não acuse diretamente o governo do presidente Barack Obama de participar do plano para matar um colega sul-americano, “parece uma atitude muito suspeita da CIA e temos as provas que definem as relações entre a CIA e o governo do meu país. O presidente Sebastián Piñera é filho de José Piñera, que foi embaixador do Chile nos Estados Unidos. Ele também é irmão de José Piñera, que foi ministro do (ditador Augusto) Pinochet”.

Em 1980, lembrou, “o presidente Piñera faliu o Banco de Talca. Ele era gerente e promoveu um imenso desfalque. Devia estar preso. Nada foi investigado sobre a participação da CIA neste episódio, mas a informação que temos é que o presidente Piñera foi retirado do país por quase um ano, para que não precisasse enfrentar a Justiça. O pai do presidente sempre teve laços estreitos com os EUA e com a CIA”.

– Temos agora todos os elementos que mostram pelo menos 90% de possibilidade da existência de um processo de desestabilização permanente contra o presidente Correa, por ele fechar a base de Manta e dar asilo a Julian Assange. Mas isso, na realidade, não é uma questão política, e sim, comercial, porque a CIA tráfica de drogas, e faz isso através do PDI chileno, e você diz um nome, Luis Carreno, quando se chega ao bolso de um empresário, um empreendedor, mesmo ilegal, ele fica chateado e busca vingança – esclarece.

Mery acredita que haja um esquema em que CIA desestabiliza os governos, uma semana antes de tomarem posse.

– Foi o caso do presidente Salvador Allende. Eles mataram o comandante-em-chefe, René Schneider. Este crime foi perpetrado pela CIA, segundo telegramas revelados, nos quais há uma conversa entre Richard Nixon e Henry Kissinger, que assume total responsabilidade pela morte de Schneider – disse Mery à agência de notícias.

Mídia corrompida

No relatório do jornalista consta também a entrega de US$ 3 milhões ao jornal El Mercurio, do empresário Agustín Edwards Eastman, como pagamento pela cobertura favorável às “armações” realizadas pela agência de inteligência norte-americana.

– Durante a ditadura, o jornal disse que não havia desaparecidos, negou que os direitos humanos tenham sido violados e agora, todos os dias publica notas e matérias contra os presidentes Correa e Hugo Chávez, da Venezuela – constata.

Mery também aponta o fato de o ex-chefe do PDI, Arturo Herrera estar ligado a um caso de pedofilia, como um cliente de uma rede de exploração sexual infantil.

– Posteriormente, ele foi nomeado vice-chefe da Interpol. Como uma pessoa acaba de ser acusado de pedofilia e assume como vice-diretor da Interpol? – questiona.

Herrera, segundo o dossiê entregue ao governo equatoriano, “foi contratado para desestabilizar o governo de Hugo Chávez. Como fez isso? Armando uma série de histórias para vincular Chávez às FARC. Em seguida, ligam Correa às Farc para, finalmente, envolver o Partido Comunista do Chile, especialmente Guillermo Teillier e Lautaro Carmona, os deputados chilenos que disseram ter ligações com membros das FARC. Esse é o mesmo roteiro utilizado na Venezuela, Equador e Chile”.

Mery convidado pelo ministro Ricardo Patiño, em uma visita oficial, para a entrega do relatório.

– O que ele vai fazer com essa informação é uma atribuição do governo equatoriano. Eu confio no julgamento do chanceler. Depois de nos conhecermos, ele lançou uma nota no Twitter para dar maior peso ao que lhe havia dito. Então, eu entendo que é uma questão sensível e levada a sério – concluiu.

Extraído do sítio Correio do Brasil