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13 fevereiro 2013

PORTUGAL FECHOU 2012 COM MAIS DE 923 MIL PESSOAS DESEMPREGADAS - Gilberto Costa


Lisboa – O Instituto Nacional de Estatística (INE) de Portugal contabiliza que o país fechou 2012 com 923,2 mil pessoas desempregadas, uma taxa de 16,9%. O número de desempregados relativo aos meses de outubro a dezembro é 1,1 ponto percentual superior ao do trimestre anterior e 2,9 pontos percentuais em relação ao mesmo período de 2011.

De acordo com o INE, o aumento da população desempregada se deu “essencialmente” na faixa etária dos 25 aos 44 anos, com escolaridade básica (12 anos de estudo) e egressas da indústria, construção civil, companhias de energia e de água. A taxa de desemprego é ligeiramente maior entre as mulheres (17,1% de desempregadas e 16,8% desempregados).

Segundo o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, o desemprego está “muito elevado” e é “socialmente muito doloroso”. Ele reconhece que a falta de trabalho “é a situação talvez mais dramática” que o país vive no processo de reajustamento econômico.

Portugal sofre com a crise econômica na zona do euro e por causa da perda de confiança no mercado financeiro internacional. Por causa disso, mantém um programa acordado com o Fundo Monetário Internacional; o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia para equilibrar as finanças do país.

As medidas adotadas para zerar os déficits fiscais e de transações correntes de Portugal acabaram por enxugar o crédito disponível no país (fundamental para setores com o da construção) e também afetam os gastos sociais (inclusive o seguro-desemprego).

O dado do desemprego divulgado hoje é mais um indicador da recessão econômica. Em 2012, a economia encolheu 3% e deverá continuar diminuindo este ano. Conforme projeção do Banco de Portugal, o banco central do país, o Produto Interno Bruto (PIB) entre 2009 e o fim de 2013 deve registrar queda de 7,4%.

Extraído do sítio Agência Brasil

02 fevereiro 2013

PORTUGAL ANSEIA PELA RECUPERAÇÃO ECONÔMICA - Ralf Bosen


Com seu retorno ao mercado de capitais, Portugal deu um exemplo positivo. O governo ganhou novo impulso e pretende arrecadar dinheiro com atividades criativas. Mas falta confiança aos jovens portugueses.

Quando os sons melancólicos do fado ecoam, os portugueses costumam sonhar com dias melhores. Nos últimos anos, os acordes menores dessa música os têm ajudado a suportar a falta de perspectiva da crise financeira. Desde que Portugal retornou com sucesso ao mercado de capitais, no final de janeiro, há um pouco mais de motivos para esperança.

Pela primeira vez desde a perda de confiança por parte dos credores, o governo em Lisboa pôde emitir, novamente, títulos da dívida com resgate em até cinco anos. Somente com vencimentos bem mais prolongados pode-se testar se os mercados de capitais confiam no país. E é isso que parece estar ocorrendo. A demanda superou significativamente a soma desejada de 2,5 bilhões de euros.

Os lances vieram principalmente do exterior. Dessa forma, não só os maltratados cofres estatais foram um pouco aliviados, como, acima de tudo, os portugueses receberam um importante impulso psicológico no combate à crise financeira.

Hans-Joachim Böhmer, da AHK em Lisboa
"A colocação bem-sucedida dos títulos públicos portugueses, na atual fase e com esse sucesso, superou as expectativas, isso está sendo visto aqui como um grande êxito da política de consolidação do governo português", disse Hans-Joachim Böhmer, da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Alemã (AHK, na sigla em alemão), em Lisboa.

Em conversa com a Deutsche Welle, ele acrescentou que o objetivo original era voltar ao mercado somente em setembro deste ano. "A decisão foi antecipada em praticamente seis meses, e se constatou que os papéis tiveram boa colocação no mercado."

Alívio em Bruxelas

O fato valeu um elogio de Berlim. O 1° Fórum Portugal-Alemanha, realizado na última semana em Lisboa, procurou ampliar o intercâmbio entre os dois países. Na ocasião, o ministro alemão do Exterior, Guido Westerwelle, parabenizou o governo português, explicando que "as notícias do mercado financeiro para Portugal são bastante encorajadoras".

Olli Rehn defende vantagens para Portugal e Irlanda
Também em Bruxelas essa nova dinâmica foi recebida com alívio. O comissário europeu de Assuntos Monetários, Olli Rehn, defendeu que Portugal e a Irlanda – o outro país-modelo da zona do euro em crise – paguem seus empréstimos de emergência após o prazo combinado. Depois que foram concedidas à Grécia condições mais favoráveis, os dois países também querem ser beneficiados.

Segundo Rehn, não seria apenas no interesse dos dois países, "mas também de toda a União Europeia que a Irlanda e Portugal possam se refinanciar novamente através do mercado de capitais." Essa questão, no entanto, só será decidida na cúpula da UE, em março próximo.

Ainda no fundo da crise

Em maio de 2011, Portugal recebeu um empréstimo de emergência da União Europeia (UE) e do Fundo Monetário Internacional (FMI) no valor de 78 bilhões de euros. Em contrapartida, Lisboa se comprometeu a implementar duras medidas de austeridade econômica e reformas para sanear o orçamento público e impulsionar sua economia.

Até o fim do ano, o país deverá reduzir seu deficit orçamentário para 4,5% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional. Hans-Joachim Böhmer, da AHK em Lisboa, disse esperar um aumento de impostos neste ano, "para que se mantenha a previsão de deficit orçamentário nos moldes acordados com a Troica". Deve-se, portanto, olhar para os dois aspectos da atual dinâmica, ressaltou Böhmer: "Por um lado, o fato positivo de Portugal poder voltar ao mercado de capitais; por outro, para os fardos das reformas e das medidas de austeridade financeira, que a população está sentindo fortemente".

As modestas previsões de crescimento econômico para este ano e o número crescente de pessoas emigrando do país mostram a fragilidade da economia portuguesa. Particularmente os jovens vislumbram um futuro sombrio. Devido a uma taxa global de desemprego de quase 16% – e quase 39% entre os jovens –, muitos procuram a sorte no exterior.

Hans-Joachim Böhmer confirma: aqueles que não veem em Portugal as chances de que necessitam, procuram oportunidades em outros países, "e não somente nos lusófonos como Angola". No ano passado, por volta de 6 mil trabalhadores portugueses foram para a Alemanha. "No ano anterior, esse número foi uns 15% menor", comenta Böhmer.

Jovens protestam contra medidas de austeridade em Lisboa
Entre os que querem deixar o país, está a jovem Helena Vieira, de 20 anos. "Eu já pensei muito em sair daqui, à procura de uma vida melhor." Ela trabalhava como cozinheira no Algarve, em meio expediente e a quatro euros por hora, chegando ao fim do mês com cerca de 500 euros. Há algumas semanas, mesmo isso chegou ao fim. Havia pouca clientela e o restaurante teve de fechar. Agora, Helena está se mudando para a antiga colônia portuguesa Angola. Se antes a força de trabalho vinha de lá, agora é o contrário.

Helena Vieira está convencida de que esse é o caminho certo. "Eu vejo que os jovens estão indo embora. E só fica aqui quem não tem nenhuma chance lá fora, por ser velho demais." Ela não é a única: há já algum tempo, longas filas se formam diante da embaixada angolana em Lisboa, toda terça e quinta-feira.

Formas criativas de arrecadar fundos

Helena Vieira quer emigrar para Angola
Visando melhorar a situação, o governo português vem tentando meios incomuns para reforçar os cofres públicos. Um deles é atrair imigrantes ricos, que tragam capital novo. Nesse sentido, em outubro passado foi aprovada uma lei que facilita a obtenção do passaporte português para os empresários estrangeiros dispostos a investir grandes somas no país.

Organizações portuguesas de direitos humanos criticam a nova lei. Segundo elas, enquanto se procura atrair investidores que pouco fazem pelo país, os imigrantes simples, que perderam seus empregos devido à crise, são deixados à própria sorte.

De qualquer forma, até agora tem sido modesta a demanda pelo assim chamado Visto Dourado. Realmente, é pouco provável que os empresários acorram a Portugal devido ao fado ou às chances de investimento: se há interesse, é antes pelo fato de um visto de residência permanente em Portugal proporcionar, automaticamente, o direito de permanência em todos os países da União Europeia.

Extraído do sítio Deutsche Welle

30 janeiro 2013

O FUTURO ESCREVE-SE EM MANDARIM - Luís Ribeiro, Thiago Mourão e Lorena Amazonas


Um em cada quatro jovens portugueses está desempregado. Para conseguirem trabalho, não hesitam em emigrar. Alemão, russo, chinês ou árabe são as línguas que aprendem antes de partir: eis o mapa das novas terras prometidas.

Num momento como este, nenhuma empresa portuguesa contrata um especialista em programação robótica. O receio de Gonçalo Gomes, 30 anos, logo se transformou numa dolorosa certeza, a cada novo currículo enviado e invariavelmente ignorado. Para piorar a situação, também a sua mulher, Marta, enfermeira, de 25 anos, não conseguia mais do que uns trabalhos precários e a meio tempo, numa clínica ou noutra.

“Decidimos abrir os nossos horizontes e enviar currículos para o estrangeiro. E, em junho, tivemos excelente feedback de empresas alemãs. O único problema é que exigiam que soubéssemos falar a língua.” Em setembro, Gonçalo e Marta entraram para um curso intensivo na DUAL, o departamento de qualificação profissional da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Alemão, em Lisboa.

“Temos tido muitas solicitações de empresas germânicas para profissionais de diferentes áreas”, diz Elísio Silva, gestor da DUAL. “Na maior parte das profissões, é indispensável conhecer a língua, pelo que será sempre uma boa aposta aprender alemão.” Nada disto significa que o inglês está a perder importância. Ser fluente na língua universal, no entanto, não diferencia um candidato dos outros. Além disso, na maior parte das profissões é obrigatório dominar o idioma do país.
Uma língua muito procurada

Com o país em crise profunda e a apresentar taxas de desemprego recorde (sobretudo entre os jovens, quase 40% entre os que têm menos de 25 anos), muitos portugueses já se aperceberam da importância crescente de alguns países, na economia internacional. Uns no centro da Europa, como a Alemanha, que continua a crescer em contracorrente, e outros bem mais longe. Nos últimos anos, o aumento da procura de cursos de russo, árabe e mandarim mostram bem de onde vem o poderio económico.

Sem surpresas, atendendo ao crescimento imparável da China, o mandarim é o que tem atraído mais atenções.

Nos últimos anos, surgiram em Portugal vários cursos de mandarim. Entre os mais populares, destacam-se as aulas para crianças, procuradas por pais especialmente preocupados com o futuro dos filhos.

A China não é só futuro – a sua pujança em todos os setores da economia é já uma realidade. E, apesar de o inglês ser ensinado nas escolas daquele país, a falta de prática dos chineses e, acima de tudo, as diferenças culturais obrigam os forasteiros a aprenderem algumas noções básicas de mandarim.

“Quando sabem que falamos mandarim, os chineses ficam agradavelmente surpreendidos”, assegura Sara Veiga Silva, 21 anos e com um diploma em Estudos Asiáticos, além de um curso de mandarim do Instituto Confúcio. A China é a potência económica do momento, mas não está sozinha. Nos últimos anos, com a economia nacional congelada, as empresas lusas têm seguido o rasto do dinheiro dos países árabes que, por sua vez, acolhem de braços abertos o nosso know how nas mais diversas áreas.

“Já há uma centena de empresas nacionais e seis ou sete mil trabalhadores portugueses espalhados pelos países árabes, que são dos mercados mais vivos, atualmente”, adianta Allaoua Karim Bouabdellah, secretário-geral da Câmara de Comércio e Indústria Árabe-Portuguesa. “Mas saber inglês ou francês não é suficiente. Muitos empresários árabes dominam apenas a sua própria língua, e é muito mais fácil fazer negócios quando nos exprimimos na língua do cliente.” No meio da letargia empresarial do País, os portugueses parecem despertos para este cenário, indica António Dias Farinha, professor catedrático e diretor do Instituto de Estudos Árabes e Islâmicos da Faculdade de Letras de Lisboa. “Só na minha Universidade, temos mais de cem alunos a aprender árabe, e existem muitos mais cursos, aqui e noutras cidades.”

Na mira está a emigração

Após vários anos a ser ignorada, também a língua de Tolstoi e Dostoievski ganha cada vez mais adeptos – a Rússia encontra-se em ascensão económica, sustentada pelas suas reservas energéticas, de que a Europa do Norte e Centro dependem.

“Há três anos, começou a notar-se um maior interesse pela língua. Temos, atualmente, mais de duzentas inscrições nos dois semestres de russo”, sublinha Rita Marnoto, diretora do Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Os objetivos dos alunos passam, aqui e ali, pela perspetiva de conseguir emprego na área da tradução e em empresas russas a trabalhar em Portugal. Mas a emigração é outra das finalidades de muitos estudantes.

Portugal está na moda, entre a classe russa mais rica. Muitos moscovitas de carteiras recheadas fazem férias no nosso país, em detrimento de outros destinos de praia (Grécia, Egito, Espanha), precisamente por ser mais caro – dessa forma, mostram aos amigos a sua saúde financeira. Por outro lado, a comunidade de Leste, russófona, que vive em Portugal, ainda é um mercado para algumas profissões, mesmo que a maioria desses imigrantes fale português.

Nem sempre a solução está do outro lado do planeta ou da Europa. Logo a seguir a Espanha, numa crise quase tão profunda como a nossa, existe um país de finanças aparentemente saudáveis. Assim pensou Joana Rodrigues, 23 anos, licenciada em engenharia biomédica. “Como quero ir trabalhar para fora e o inglês não é suficiente, decidi melhorar o meu francês”, explica.

A quantidade de países europeus em que o francês é o idioma oficial influenciou a sua decisão. “Além de França, temos a Bélgica, o Luxemburgo e a Suíça”, enumera Joana. A França pode não ter o elã económico da Rússia, do Golfo Pérsico ou da China, mas sempre fica mais perto de casa.

Extraído do sítio Press Europ

25 janeiro 2013

COM DESEMPREGO EM ALTA, BRASILEIROS COMEÇAM A DEIXAR PORTUGAL - Antonio Netto


A crise financeira que assola o país europeu e a boa fase econômica do Brasil influenciam na hora de tomar a decisão. Só em 2011, total de brasileiros que deixou Portugal supera em quase 8 mil o número dos que chegaram.

Os brasileiros são a maior comunidade estrangeira em Portugal. De acordo com dados do Serviço de Estrangeiros e Fronteira (SEF), órgão português responsável pela política de imigração, são mais de 111 mil brasileiros legalizados, o que representa 25% da população imigrante.

No entanto, considerando apenas os números de 2011, o saldo entre os que chegaram ao país e os que saíram mostra uma clara tendência: o total de brasileiros em Portugal diminuiu em quase 8 mil.

Segundo relatório do SEF, o número geral de imigrantes residentes está em queda desde 2010 e isso "poderá configurar uma nova tendência", que pode ser explicada pela "alteração de processos migratórios e efeitos da atual crise econômica e financeira".

Para Carlos Vianna, presidente da Casa do Brasil de Lisboa, apesar de ainda não haver números oficiais sobre a imigração em 2012, essa tendência se confirma, considerando a experiência da associação no apoio aos imigrantes. "A população imigrante brasileira vai cair bem mais em 2012 e 2013. Não tenha dúvida disso", afirma.

Portugal tem a terceira maior taxa de desemprego da Europa, de 16,3% em novembro de 2012, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), ficando atrás apenas da Espanha (26,6%) e da Grécia (26%).

"A crise econômica levou mais de 100 mil portugueses a saírem de Portugal. Se os portugueses jovens, com boa formação acadêmica, estão saindo aos magotes, que dirá os imigrantes. A economia brasileira está mais aquecida, há pleno emprego e, portanto, a situação está melhor hoje do que quando muitos deixaram o Brasil", diz Vianna.

Qualificação não é sinônimo de emprego

Gabriela volta ao Brasil levando o marido espanhol junto

A publicitária brasileira Gabriela Nogueira migrou para Portugal em meados da década de 90. Nessa época, a economia do Brasil enfrentava a hiperinflação e mais uma mudança de moeda. "Eu achava que teria mais chances de um futuro certo morando fora do Brasil. Portugal começava a mostrar a influência da entrada no mercado europeu e podia-se ver o país crescer, evoluir e mudar", conta.

Mas, no final de 2012, após 17 anos no exterior, a publicitária resolveu voltar para o Brasil. "Voltei para São Paulo. Aqui se trabalha muito, mas a oferta cultural é rica e hoje a cidade está como Lisboa quando eu cheguei. Em Portugal e em outros países europeus, o mercado de trabalho está tão fechado que qualificação não é sinônimo de um bom emprego", diz Gabriela, que levou para o Brasil o marido espanhol e a filha do casal.

"A decisão de voltar foi tomada há mais de um ano e não foi uma decisão só minha, mas minha e do meu marido. Por mais que eu adore a Europa, tenho 42 anos e uma família, marido e filha de 5 anos, o que faz com que a maneira de pensar seja conjunta", argumenta.

A tendência da redução de estrangeiros em Portugal representa uma forte mudança do fluxo migratório face às últimas décadas. No início dos anos 90, havia 107 mil estrangeiros legalizados no país. Passados 20 anos, esse número mais do que quadruplicou, chegando a 454 mil.

No entanto, do início de 2010 até o fim de 2011 (data do último relatório do SEF), esse crescimento exponencial foi quebrado e mais de 17 mil estrangeiros residentes abandonaram Portugal nesse período.

Medo da crise

Dona de uma estética no distrito de Lisboa, a brasileira Maritânia Nogueira está em Portugal há 13 anos. Ela afirma que, apesar da redução de 15% na clientela, ainda consegue manter uma boa qualidade de vida no país. Mesmo assim, a esteticista está disposta a voltar para o Brasil.

"Assusta muito. Meu medo é perder tudo o que juntei e investi e não ter mais condições de voltar de jeito nenhum. Eu posso perder isso em um ano, pelo jeito que está o país", declara Maritânia.

Maritânia está bem em Lisboa, mas ainda assim pensa em voltar

Retornar ao país de origem é um desejo cada vez mais comum em Portugal. A Organização Internacional para as Migrações (OIM), através do Programa de Retorno Voluntário, ajuda estrangeiros que pretendem retornar ao país de origem, mas não têm condições, fornecendo a passagem aérea e, em alguns casos, auxílio de reintegração.

De acordo com Isabela Salim, assistente de projetos da OIM, o número de pedidos de apoio feitos por brasileiros ao regresso voluntário está em alta. Em 2010, foram 1.397. Em 2011 subiu para 1.839 e, em 2012, até setembro, foram mais 1.214 pedidos.

Com o crescente número de solicitações de ajuda, Isabela reforça que é muito importante o Brasil criar incentivos e apoios aos brasileiros que querem voltar.

"São pessoas que aprenderam muito como imigrantes, levam daqui know-how que pode beneficiar o crescimento brasileiro. Pessoas que trabalham nas áreas da construção civil e serviços, duas áreas de trabalho em declínio em Portugal e em expansão no Brasil", diz Isabela.

Fim de um sonho

Eliana Miranda será uma das beneficiadas do Programa de Retorno Voluntário. Faltando dois dias para voltar para Belo Horizonte, ela conta que migrou em 2005 e trabalhou em empresas de limpeza e como babá, mas que está há meses desempregada em Portugal.

"A gente vem com a intensão de conseguir comprar alguma coisa, melhorar a vida. Vem com a expectativa de comprar uma casa, montar um negócio. Mas, no decorrer da vida, percebe que isso não pode ser alcançado. Não é uma realidade. Agora é mais complicado ainda, porque nem mesmo para a sobrevivência diária está sendo possível", conta Eliana.

Apesar de falar com alguns amigos no Brasil e ter a consciência de que "as coisas estão bem difíceis e bem caras", Miranda avalia que, no Brasil, "pelo menos você tem expectativa de tentar, de lutar. Pelo menos tem uma chance. Aqui [em Portugal] já não dá mais nem para tentar".

Extraído do sítio Deutsche Welle

13 junho 2012

ESPANHA É QUARTO PAÍS A RECEBER AJUDA DO FUNDO DE RESGATE EUROPEU - Bernd Riegert



Além de Grécia, Irlanda e Portugal, agora serão os espanhóis os próximos a se submeterem-às regras impostas pelos credores internacionais.

A Espanha ainda não apresentou aos demais 16 países da zona do euro o requerimento oficial de empréstimo emergencial. Porém deverá fazê-lo em breve, pois trata-se de um pré-requisito para o Fundo Europeu de Estabilização Financeira (FEEF) reunir e liberar a verba.

O país quer repassar a provável quantia necessária, de 100 bilhões de euros, aos bancos já parcialmente estatizados, a fim de salvá-los da bancarrota. O FEEFE também já realizou esse tipo de refinanciamento do setor bancário na Grécia, Irlanda e Portugal.

Antes de fazer o repasse das parcelas do empréstimo, a chamada troika – formada pela Comissão Europeia, o Banco Central Europeu (BCE) e o Fundo Monetário Internacional (FMI) – atesta as condições para que o país em questão possa receber o aporte de recursos. Com a Espanha não deve ser diferente, segundo declarou o ministro de Finanças da Alemanha, Wolfgang Schäuble, em entrevista à rádio Deutschlandfunk, nesta segunda-feira (11/06).

Ajuda dos vizinhos

Os ministros das Finanças do Eurogrupo fizeram um convite expresso ao FMI para que este coloque á disposição seu know-how sobre o assunto. Inicialmente, a Espanha não quer receber crédito do FMI, pois tais empréstimos estão geralmente atrelados a uma série de restrições.

No início de junho, o ministro espanhol de Finanças, Cristóbal Montoro, admitira que seu país não pode, no momento, levantar os recursos necessários no mercado livre, por isso precisaria da ajuda europeia. Eventualmente, o futuro Mecanismo Europeu de Estabilização Financeira (MEEF) poderá disponibilizar os recursos para Madri, contudo o mecanismo provavelmente só estará disponível em meados de julho.

Em caráter preventivo, a Comissão Europeia já declarou que a Espanha deverá continuar se esforçando para reduzir seu elevado deficit orçamentário. Os novos créditos, que os espanhóis terão que assumir agora com os parceiros europeus, para salvar os bancos do país, serão naturalmente somados ao deficit já existente.

Cada vez mais espanhóis raspam suas contas, temendo a crise dos bancos
Caso grego

Desde maio de 2010, a Grécia vem recebendo recursos dos países-membros da UE, da Comissão Europeia e do FMI. Os dois pacotes de ajuda aprovados até agora somaram um total de 240 bilhões de euros. Destes, segundo informações do FEEF, 107 bilhões de euros vieram de recursos europeus, e 30 bilhões de euros do FMI.

A Grécia precisa se submeter a rígidas restrições, cujo cumprimento a troika formada pela Comissão Europeia, FMI e BCE fiscalizará, antes de liberar as parcelas de crédito. Além dos créditos emergenciais, o país contou ainda com um corte de dívida por parte de credores privados, num volume efetivo de 35 bilhões de euros.

Caso irlandês

Assim como os espanhóis, os irlandeses também estão sofrendo as consequências do estouro da bolha imobiliária e da crise bancária resultante. Em novembro de 2010, o governo da Irlanda absorveu os riscos dos bancos e acabou se sobrecarregando.

Como as dívidas públicas não puderam mais ser financiadas através do mercado financeiro, a Irlanda tomou um empréstimo da UE, do BCE e do FMI no valor de 85 bilhões de euros. Destes, cerca de 35 bilhões de euros se destinavam apenas a salvar os bancos.

Em contrapartida, a Irlanda se comprometeu com duras medidas de austeridade, as quais estão sendo respeitadas, ao contrário da Grécia. Entretanto, o governo tenta baixar os juros do empréstimo concedido pelos parceiros europeus e esticar o prazo de pagamento. No final de 2013, o país deverá poder novamente refinanciar suas dívidas no mercado.

Caso português

Em maio do ano passado, Portugal capitulou diante dos mercados financeiros e pediu ajuda à zona do euro. Até a metade de 2014, os portugueses poderão pedir 78 bilhões de euros para resgate de sua economia. Um terço do montante será aportado pelo FMI.

Portugal também cumpre restrições impostas por seus credores. Porém, em apenas um ano, já esgotou mais da metade da margem de crédito. Questiona-se se, até 2014, não será necessário um novo pacote de resgate.

Paralelamente aos créditos emergenciais do FMI e da UE, o BCE tem comprado, em massa, títulos de Estados endividados. Desse modo procura-se manter em nível tolerável sobretudo os juros da Itália e da Espanha. Até o momento, o BCE já investiu cerca de 200 bilhões de euros nesse controverso programa.

Após o estouro da crise, em 2008, a Comissão Europeia também concedeu crédito a países do bloco europeu que não adotam a moeda comum. A Hungria, Letônia e Romênia receberam, até hoje, cerca de 14 bilhões de euros como auxílio orçamentário.

Extraído do sítio Deutsche Welle

25 abril 2012

1974: REVOLUÇÃO DOS CRAVOS EM PORTUGAL - Barbara Fischer

Pouco após a meia-noite de 25 de abril de 1974 começou a soar na emissora católica de Lisboa a música até então proibida "Grândola Vila Morena". Era o sinal combinado para o início do levante militar em Portugal.

Portugueses festejam em Lisboa em 25 de abril de 1975
Antes da revolução, era rara em Portugal a família que não tivesse alguém combatendo nas guerras das colônias na África, o serviço militar durava quatro anos, opiniões contra o regime e contra a guerra eram severamente reprimidas pela censura e pela polícia.

Antes de abril de 1974, os partidos e movimentos políticos estavam proibidos, as prisões políticas estavam cheias, os líderes oposicionistas estavam exilados, os sindicatos eram fortemente controlados, a greve era proibida, as demissões fáceis e a vida cultural estritamente vigiada.

A liberdade em Portugal começou com a transmissão, pelo rádio, de uma música até então proibida. Os cravos enfiados pela população nas espingardas dos soldados acabaram virando o símbolo da revolução, que encerrou, ao mesmo tempo, 48 anos de ditadura fascista e 13 anos de guerra nas colônias africanas.

Em apenas algumas horas, as Forças Armadas ocuparam locais estratégicos em todo o país. Ao clarear, multidões já cercavam as emissoras de rádio à espera de notícias. A operação, calculada minuciosamente, havia pego o regime de surpresa. Acuado pelo povo e pelos militares, o sucessor de Salazar, Caetano Marcelo, transmitiu sua renúncia por telefone ao líder dos golpistas, general António de Spínola.

Transportado de tanque ao aeroporto de Lisboa, Marcelo embarcou para o exílio no Brasil. Em quase 18 horas, havia sido derrubada a mais antiga ditadura fascista no mundo.

Não houve acerto de contas

Artistas, políticos e desertores começaram a retornar do exílio. As colônias receberam a independência. A caça às bruxas aos responsáveis pela ditadura acabou não acontecendo e as dívidas do governo anterior foram todas pagas. Os únicos a oferecer resistência foram os agentes da polícia política. Três pessoas morreram no conflito pela tomada de seu quartel-general.

Ao voltar do exílio em Paris, Mário Soares, o dissidente mais popular do governo Salazar, foi recebido por milhares de pessoas na estação ferroviária de Lisboa. Cravos vermelhos foram jogados de helicóptero sobre a cidade e só se ouvia a famosa canção Grândola, vila morena, que já havia se tornado o hino da revolução.

Em 1974, Portugal era um país atrasado, isolado na comunidade internacional, embora fizesse parte da ONU e da Organização do Tratado do Atlântico Norte. Era o último país europeu a manter colônias e vinha travando uma longa guerra contra a libertação de Angola, Moçambique e Guiné. O regime de Salazar, iniciado em 1926, havia conseguido manter-se através da repressão e fora tolerado pelos países vencedores da Segunda Guerra Mundial.

Golpe militar vira festa revolucionária

Em 1º de maio, a esquerda, fortemente engajada, mostrou sua força em Lisboa, enquanto trabalhadores rurais do Alentejo expulsavam latifundiários e banqueiros eram desapropriados.

A esquerda europeia viu em Lisboa um palco ideal para os movimentos frustrados de 68. A pacata e católica população portuguesa, por seu lado, sentiu-se ignorada e, a partir do norte conservador, iniciou um movimento contra os extremistas.

Em 1975, aconteceu a dupla tentativa de golpe, da esquerda e da direita, contra o governo socialista, levando Portugal à beira da guerra civil. A ala militar extremista de esquerda obteve o domínio da situação em novembro de 1975. Após as eleições do ano seguinte, o general António Ramalho Eanes foi eleito presidente.

O Partido Socialista, com Mário Soares, assumiu um governo minoritário. A crise econômica o levou à renúncia em 1978. Entre 1979 e 1980, o país teve cinco primeiros-ministros. Em 1985, o governo foi assumido por Aníbal Cavaco Silva e Mário Soares tornou-se presidente no ano seguinte. Em 1986, Portugal ingressou na então Comunidade Econômica Europeia, hoje União Europeia.


Extraído do sítio Deutsche Welle

13 abril 2012

PORTUGAL, UM ANO NAS MÃOS DA TROIKA - Antonio Barbosa Filho


Direita no poder, demissões, restaurantes vazios, moradores de rua. Retratos de um país rendido (por enquanto…) à ditadura das finanças
LISBOA: Bem longe de qualquer comemoração, Portugal completou em 11 de abril o primeiro ano do acordo de “ajuda” que recebeu da troika1 (Comissão Européia, Banco Central Europeu e FMI), no valor de 78 bilhões de euros. Pouco antes daquela data, o então primeiro-ministro socialista José Sócrates anunciara que o governo só tinha recursos para pagar o funcionalismo público até maio, mas ainda resistia a um pedido formal de ajuda externa.

“Entre nós e o FMI, há dez milhões de portugueses”, ele declarou, para dias depois desmentir-se: “É preciso dar este passo. Não tomar esta decisão acarretaria riscos que o país não deve correr”. Quando o governo viu rejeitado pelo Parlamento o seu Programa de Estabilidade e Crescimento, contendo as linhas de combate à dívida pública e ao endividamento privado, aqui englobados os bancos, as famílias e as empresas, perdeu as condições de administrar a crise.

As reações no Parlamento fizeram com que Sócrates entregasse seu cargo ao presidente Cavaco e Silva. As eleições, em 5 de junho do ano passado, trouxeram de volta a direita ao poder. Sob um gabinete liderado desde então por Pedro Passos Coelho, numa coligação CDS-PP, a troika já procedeu a três avaliações sobre o desempenho do programa acordado, e tem aprovado o seu cumprimento, sempre exigindo um ou outro ajuste: o salário-desemprego, por exemplo, já foi reduzido de 38 para 26 meses, mas a troika pretende que o limite seja de 18 meses.

Ao analisar o processo econômico deste ano de ajustes, as opiniões variam bastante, havendo apenas um ponto comum: os portugueses estão se sacrificando ao máximo para obedecer as imposições das autoridades financeiras europeias e do FMI. Como afirmou Nuno Magalhães, o líder parlamentar do bloco conservador CDS-PP, há um “cumprimento escrupuloso do programa por parte do governo português (…) Isso não é mérito só, nem sequer principalmente, do governo, mas sobretudo mérito e mobilização dos portugueses”

O que o deputado governista chama de “mobilização” do povo traduz-se em alguns números. Taxa de desemprego (oficial) de 15%, um recorde histórico; 1050 empresas falidas no primeiro bimestre deste ano, o que dá a média de 17,5 empresas por dia – há um ano eram 11,8; corte de 200 milhões de euros nos contratos entre governo e hospitais, obrigando os usuários a pagarem até 100% mais, em consultas e urgências em hospitais e centros de saúde; e até queda na taxa de natalidade.

Crise nas ruas: Os economistas e políticos debatem os grandes números e sempre apresentam previsões otimistas que, aos poucos, o tempo afasta. Os cortes dos subsídios de Natal (uma espécie de 13º salário) e de férias dos servidores públicos surgiram como uma emergência para 2012, mas já se admite que irão até 2015.

Por essas e outras prorrogações nas medidas de austeridade, o ministro das Finanças, Vitor Gaspar, foi chamado de “mentiroso” na Assembleia da República. Como disse o deputado comunista Honório Novo, ao interpelá-lo: “O senhor veio desmentir e contrariar o primeiro-ministro? Ou veio dizer que foi enganado pelo primeiro-ministro? Ou vem-nos recordar que 2015 é ano de eleições?” Muitos portugueses acham que o governo está forçando as medidas recessivas além do necessário para poder afrouxá-las quando as eleições estiverem próximas e colher os votos da população aliviada.

O que se ouve nas ruas é um misto de lamento e revolta. O trabalhador comum tem uma renda de 600 euros por mês, em média, insuficiente para a manutenção sequer de um casal sem filhos. No ano passado, o PIB caiu 3,0%, e o próprio governo prevê queda um pouco maior neste ano, provavelmente 3,6%. A população vê tais prognósticos como um sinal de que nada vai melhorar a curto prazo.

Daí o êxodo, que em 2011 levou 150 mil portugueses a saírem do país (número aproximado), boa parte para o Brasil e Angola. Gastos básicos como a energia elétrica estão sendo reduzidos pelas famílias: queda de 7,3% em março. O tráfego de veículos caiu em dezembro entre 18 e 30% nas principais vias interregionais – culpa direta dos frequentes aumentos de preço da gasolina, hoje na média de € 1,78 o litro, outro recorde.

A venda de automóveis despencou pela metade em março, e a de telefones celulares caiu 17% no último trimestre de 2011. Mais grave: o consumo de alimentos reduziu-se em 2% no primeiro trimestre, especialmente o de carnes e peixes. A ida a restaurantes tornou-se um item supérfluo no orçamento doméstico. Nos acolhedores cafés da Alfama ou do Chiado, ouve-se vários idiomas, mas o português é só dos turistas brasileiros, em número crescente. Maior número de portugueses está levando comida de casa para o trabalho.

Nas ruas de Lisboa, encontra-se um “homem-estátua” a cada 100 metros, um músico tocando saxofone ou guitarra a cada 50 metros, todos em troca das moedas dos turistas estrangeiros. Vê-se gente dormindo nas ruas, um quadro que não era comum na Lisboa dos anos 90 ou até quatro anos atrás. Há quem diga por aqui que a culpa é dos governos que gastaram mais do que deviam gastar, e agora chegou a hora de pagar a conta. Isso viria desde a entrada de Portugal na zona do euro, mas ninguém acredita que seria melhor deixá-la, ao contrário. Fala-se que houve muita corrupção com os fundos europeus recebidos durante o processo de integração, e que deixou-se enfraquecer as atividades econômicas próprias, como a agricultura, a pesca e a indústria. O cidadão comum não vê por onde deva começar uma recuperação.

O sentimento popular dominante, pela menos na capital, é aquele sintetizado pelo deputado do PCP, Pedro Filipe Soares, nesta semana de infausto aniversário: “Todos os maus presságios que se anunciavam, vemos que se tornaram realidade, porque há aqui um fanatismo pela austeridade que está a destruir a economia do país e a criar um desemprego nunca visto em Portugal”.

1Troika – o apelido que os europeus deram ao trio de organizações multilaterais citadas, é também uma óbvia alusão aos governos autoritários e burocráticos que, formados por três dirigentes principais, dirigiram a União Soviética, após 1956.

* Antonio Barbosa Filho é jornalista e escritor, autor de A Bolívia de Evo Morales e A Imprensa x Lula – golpe ou sangramento? (All Print Editora). Em viagem pela Europa, acompanha as consequências da crise financeira pós-2008 e da onda corte de direitos sociais (‘políticas de austeridade’) iniciada em 2010.


Extraído do sítio Outras Palavras