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25 janeiro 2013

DILMA NA TV. PSDB SENTIU O BAQUE! - Altamiro Borges


O PSDB divulgou hoje à tarde uma nota oficial confessando que sentiu o baque com o pronunciamento de Dilma Rousseff em rede nacional de rádio e tevê na noite de quarta-feira. Os tucanos adoram a "liberdade de expressão" dos "calunistas" da mídia. Eles têm orgasmos com as análises "imparciais" de Miriam Leitão, Merval Pereira, Ricardo Noblat e até com os rosnados dos pitbulls da Veja. Mas ficaram indignados com a presidenta, que anunciou à nação a redução das contas de luz e retrucou os "pessimistas" de plantão. A tal "liberdade de expressão" da direita não contempla sequer a presidenta eleita pela maioria dos brasileiros.

Na nota oficial, o PSDB afirma que "o governo do PT acaba de ultrapassar um limite perigoso para a sobrevivência da jovem democracia brasileira. Na noite desta quarta-feira, o país assistiu à mais agressiva utilização do poder público em favor de uma candidatura e de um partido político: o pronunciamento da presidente Dilma Rousseff... Durante os oito minutos de divulgação obrigatória por parte das emissoras de rádio e TV brasileiras, a presidente Dilma faltou com a verdade, fez ataques a seus adversários, criticou a imprensa e desqualificou os brasileiros que ousam discordar de seu governo".

Na maior caradura, a nota afirma ainda que "o conceito de República foi abandonado. A chefe da Nação, que deveria ser a primeira a reconhecer-se como presidente de todos os brasileiros, agora os divide em dois grupos: o 'nós' e o 'eles'. O dos vencedores e o dos derrotados. Os do contra e os a favor. É como se estivesse fazendo um discurso numa reunião interna do PT, em meio ao agitar das bandeiras e ao som da charanga do partido... No governo do PT, tudo é propaganda, tudo é partidarizado". 

Os tucanos, que minguam a cada eleição, parecem que esqueceram a postura autoritária que adotaram no triste reinado de FHC. Exército acionado para reprimir os grevistas da Petrobras, ações truculentas contra ocupações de terras ociosas, rolo-compressor no Congresso Nacional, submissão do Judiciário e relação promíscua com os barões da mídia. Quem sempre desqualificou os adversários foram os caciques tucanos, que acusaram os que resistiram à privataria das estatais e à retirada de direitos trabalhistas de "dinossauros". Para usar uma famosa expressão de FHC, os tucanos agora repetem o blablablá dos derrotados.

A reação intempestiva e patética do PSDB ao pronunciamento da presidenta confirma porque a direita teme tanto a regulação democrática da mídia. Ela quer manter o monopólio da palavra nas emissoras de rádio e TV, que são concessões públicas. Ela quer garantir a exclusividade de espaço para os seus porta-vozes na radiodifusão, para os seus "calunistas" amestrados. O PSDB sabe que só sobrevive hoje graças à "turma do contra" da mídia venal. Quando Dilma utilizou um direito constitucional, a direita sentiu o baque!

Extraído do Blog do Miro

24 janeiro 2013

DILMA REAGE COM 'BOMBA ATÔMICA' AO CATASTROFISMO MIDIÁTICO - Eduardo Guimarães


Não poderia ser melhor a reação do governo Dilma Rousseff a um processo que começou há meses e que, neste mês, chegou ao ápice com manchetes espalhafatosas dando conta de que o Brasil estaria na iminência de sofrer um “racionamento” de energia devido à baixa do nível dos reservatórios das hidrelétricas ocasionada por falta de chuva.

Além da boataria desencadeada pelos jornais Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e O Globo sobre possível “racionamento” – boataria que chegou aos telejornais –, os comentários da grande mídia sobre a economia vêm pintando um país à beira da ruína e da estagnação, com alusões catastrofistas sobre o crescimento modesto do PIB em 2012 e “perda de confiança dos investidores”.

Por razões que serão comentadas mais adiante, porém, vai ficando claro para o Brasil e o mundo que ninguém mais está dando bola para essa verdadeira cruzada da dita “grande imprensa” no sentido de convencer o país de que está indo muito mal, obrigado.

A edição deste ano do Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, conta com uma pesquisa feita entre os 1.330 empresários que discutirão a economia mundial. Essa pesquisa mostra que Brasil fica em 4º lugar no otimismo dessas pessoas.

Brasil é citado por 15% dos “CEOs” convocados para o evento como sendo um dos três países mais importantes para o crescimento das empresas, mas não é só.

Quem assiste os “Jornais Nacionais” da vida ou lê os veículos impressos supracitados, entre outros, certamente ficará surpreso em saber que, entre os empresários brasileiros convocados para aquele evento, um expressivo contingente deposita muita confiança na economia do país.

Segundo o colunista da Folha de São Paulo Clóvis Rossi, em matéria na Folha de São Paulo da última quarta-feira (23.1), “Fatia substancial do empresariado brasileiro não compartilha o catastrofismo que, nos últimos meses, acompanha as análises sobre as perspectivas da economia no país. Ao contrário: 44% deles estão muito confiantes no crescimento das receitas de suas companhias, porcentagem de otimistas que só fica atrás da dos executivos russos (66% de otimistas), indianos (63%) e mexicanos (62%)”.

Como se vê, não é só o “povo ignorante” que confia no governo Dilma. Os mais importantes empresários brasileiros e estrangeiros estão dando uma banana para o que o colunista supracitado chamou de “catastrofismo”.

E essa perda de confiança nesses grandes meios de comunicação escritos e eletrônicos pode ser explicada por um episódio ocorrido na noite da última quarta-feira, com pronunciamento da presidente Dilma em rede nacional de rádio e televisão.

A presidente usou uma “bomba atômica” para provar que eram falsas as “análises”, “previsões”, editoriais e artigos que Globos, Folhas, Vejas e Estadões alardeiam a meses sobre supostas desgraças que estariam se abatendo sobre o país.

Em seu pronunciamento de quarta-feira, a mandatária provou que o “catastrofismo” a que se refere Clóvis Rossi decorreu de interesses políticos e econômicos contrariados com o bom momento que o Brasil atravessa justamente quando o mundo se debate em meio à maior crise econômica internacional da história.

Nesse contexto, foi sintomática a cadência do noticiário sobre desgraças econômicas no país. Primeiro, os veículos supracitados promoveram alarmismo com a iminência de um suposto “racionamento” de energia. Vendo que não viria, passaram a noticiar um suposto “apagão”. Descartada mais essa desgraça, começaram a falar em “apaguinhos”.

Devido à contundência e à insistência do noticiário alarmista, mesmo os mais desinformados foram “informados” sobre supostos problemas na geração de energia elétrica no país. Este blog, porém, desde o começo do ano vinha avisando que os que estavam apostando nessa nova desgraça colheriam frutos amargos.

Em 7 de janeiro, publicou-se, aqui, o post Imprensa tucana inventa apagão para tentar sabotar a economia.

O texto alertava para o fato de que a teoria sobre “racionamento” causaria problemas na economia porque empresários e investidores desinformados se assustariam. No dia seguinte, o noticiário foi tomado por notícias de quedas generalizadas dos preços das ações das empresas geradoras e distribuidoras de energia elétrica, com baixas de até 35%.

Em questão de dias, essas ações se recuperaram, quando ficou claro que não havia risco de racionamento.

Em 9 de janeiro, o Blog veiculou post intitulado Dilma acha que “bater boca” com a mídia é “perda de tempo”. Abaixo, trecho que, mais uma vez, avisou à mídia que estava enveredando por uma estratégia de guerra política que se revelaria infrutífera.

(…) há muito que a presidente já decidiu que “não vale a pena bater boca com a mídia”. Foi-me dado exemplo dessa questão do setor elétrico. Dilma já desmentiu várias vezes o “racionamento” e a mídia, além de não dar o devido destaque às suas palavras, desmente o que diz.

A alternativa seria enveredar por um bate-boca inútil, pois os grandes veículos que tentam aterrorizar a população sempre ficam com a última palavra, já que quem formata o noticiário são eles. Assim como em outras questões, tais como o crescimento modesto do PIB em 2012, portanto, a presidente julga que é melhor deixar que os fatos desmintam a mídia.

Explico: em pouco tempo, os brasileiros receberão contas de luz mais baratas, com desconto médio de 20%, e não terá ocorrido racionamento algum. Dessa forma, quem está recebendo as tais informações de que além de racionamento haverá aumento na conta de luz, concluirá que recebeu informações falsas daqueles meios de comunicação.

Além disso, como o noticiário tem insistido no fato de que os reservatórios estão no mesmo nível de 2001 – quando o governo FHC impôs um duro racionamento ao país –, ao constatarem que, além de não haver racionamento, a energia ficou mais barata, as pessoas poderão mensurar a superioridade deste governo sobre aquele.

Na última quarta-feira, as previsões – ou avisos – que foram veiculados aqui ganharam materialidade. A presidente da República, em cadeia nacional de rádio e televisão, anunciou que, contrariando o alarmismo que dizia que as contas de luz cairiam menos ou nem cairiam, estas irão cair mais do que o previsto. E antes.

A previsão de redução das contas de luz residenciais, que era de 14%, passou para 18%; a redução das contas das empresas, que deveria ficar em 28%, deve passar, em alguns casos, de 32%. E, por fim, o início da redução, que só viria em março, foi antecipado para janeiro.

As dezenas de milhões de brasileiros de todas as classes sociais e regiões do país que foram alvo do alarmismo midiático verão se materializar, em questão de dias ou semanas, uma realidade que vai de encontro ao que Globos, Folhas, Vejas e Estadões alardearam.

Assim, a cada dia menos gente vai dando bola para o que esse setor partidarizado da imprensa nacional diz sobre os rumos do Brasil e sobre a forma como o país vem sendo governado. O pronunciamento recente de Dilma, nesse aspecto, constituiu-se em uma bomba atômica, que pode ter inserido o último prego na tampa do caixão da credibilidade midiática.

Para quem não viu, vale a pena assistir ao último pronunciamento da presidente Dilma Rousseff.

Extraído do Blog da Cidadania

OS DEFENSORES DA ENERGIA CARA - Antonio Lassance


No debate feito em torno da MP 579, que pretende baixar o preço da energia elétrica, tem se sobressaído a tendência de se associar a medida a um padrão de governança da atual Presidência. Explicitamente, o padrão de confiar ao setor estatal um protagonismo asfixiante sobre a iniciativa privada. A proposta tem sido relacionada a um tipo autoritário de governança, assemelhado ao dos governos de Getúlio Vargas e Ernesto Geisel.

Ocorre que ainda está para aparecer no Brasil um governo que não oriente suas decisões atendendo a alguma parcela do setor privado.

Para ser posto no lugar, o debate deveria se debruçar sobre quem ganha e quem perde, entre os agentes econômicos privados, com a MP 579.

Os principais entusiastas da mudança propugnada pela MP são a indústria, o comércio e os consumidores individuais. O setor público perde. Suas empresas vão ter que diminuir seus lucros e reorientar seus gastos e planos para atender ao objetivo de baixar a conta de energia.

O problema está localizado - e não pode ser minimizado - em algumas importantes empresas de produção de energia, principalmente as de alguns dos grandes Estados produtores. Seus representantes têm agora a difícil tarefa de defender a energia cara e de fazer acreditar que isso se traduz em mais investimentos no setor. Com décadas de energia cara, a conclusão dessas premissas seria a de que o setor vai muito bem e que não se mexe em time que está ganhando.

Como tal linha de argumentação é muito pouco convincente, o debate tem deixado de lado a economia na ponta do lápis para adquirir feições de embate ideológico dos mais empedernidos. Para tanto, invocaram as almas ditatoriais de Getúlio Vargas e de Ernesto Geisel para assombrar os vivos.

O uso da história do Brasil pelo método confuso, gênero que tem ganhado adeptos, foi usado para dizer que a concepção por trás da MP 579 é a mesma do Código de Águas de 1934. Um arcaísmo, portanto.

O código de 1934 já foi exorcizado como o grande vilão do baixo investimento privado durante todo o período Vargas, como se a crise de 1929, que atravessou toda a década de 1930, e a Segunda Guerra fossem só dois "detalhes" do problema.

O código de 1934 trazia, das pátrias do liberalismo (Estados Unidos e Reino Unido), uma inovação que se afirmaria desde o século passado em todo e qualquer país decente: estabelecer marcos legais e agentes reguladores sobre cada setor produtivo.

O fato é que mesmo com crise e com guerra, a capacidade instalada de produção de energia elétrica do Brasil cresceu, de 1930 para 1940, em 60%. Entre 1940 e 1950, cresceu 34%.

A batalha que se enfrenta hoje tem mais a ver com a travada por Juscelino Kubitschek. Foi JK o grande responsável por desarmar o lobby que se formou fortemente nos Estados que controlavam a maior parte da produção de energia do país. Vargas encerrou sua presidência tragicamente, em 1954, sem ver aprovada sua proposta de criação da Eletrobras. Foi Juscelino quem a fez tramitar até sua aprovação, depois sancionada por Jânio Quadros, em 1961, e implementada por João Goulart.

A real discussão por trás da MP e de seus fantasmas dos anos 1930 a 1970 é a do poder de regulação pública sobre o setor privado.

Em países democráticos, após o vendaval da última crise, o papel das agências reguladoras tem se fortalecido na função de "watchdogs" (cães de guarda). Aliás, é assim que muitas delas popularmente se apresentam. Sua função é, quando se percebe algo de errado, latir; morder, se preciso for.

No Brasil, o setor privado trata como se fossem espantalhos as agências reguladoras que ameaçam cumprir o seu papel. Preferem cães de guarda que miem. Chamam a isso "segurança jurídica". E preferem energia cara. Chamam a isso "investimento".

* Antonio Lassance, 45, cientista político, é pesquisador do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).

Extraído do sítio Folha de S. Paulo

23 janeiro 2013

GOVERNO CONTESTA APAGÃO DA FOLHA EM 2014


O ano de 2013 começou, para a Folha de S.Paulo, com um apagão iminente, desmentido pelas termelétricas e pelas chuvas. Depois, surgiu a tese de que não era mais um apagão que ameaçava o Brasil, mas 'apaguinhos' espalhados pelo País. Agora, surge a possibilidade de apagão em 2014, já desmentida pelo governo. Qual é a próxima?

247 - O ano de 2013 começou, para a Folha de S.Paulo, com um apagão iminente, indicado, pretensamente, por uma reunião emergencial que, saberíamos horas depois, estava marcada desde o ano passado (relembre). Na semana passada, surgiu a tese de que não era mais um apagão que ameaçava o Brasil, mas vários apaguinhos espalhados pelo País, simbolizados pela falha que levou à queda de energia em municípios do Piauí antes da chega da presidente Dilma Rousseff ao estado. Agora, surge a tese do apagão em 2014, já desmentida também pelo governo. Qual será a próxima?

Segundo reportagem da Folha de S.Paulo desta terça-feira, "O fornecimento de luz para a Copa do Mundo de 2014 está ameaçado em boa parte das cidades-sede, diferentemente do que vem sustentando o governo. É o que mostra um relatório da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), finalizado em dezembro e obtido pela Folha". O problema é que o relatório da Aneel diz que não faltará energia, "mesmo que uma fração das instalações inicialmente propostas não seja tempestivamente concluída".

Apesar de realmente destacar atrasos, o relatório diz que "é importante comentar que a maioria desses atrasos não oferece risco iminente ao abastecimento de energia para a Copa de 2014". "Tal conclusão", diz o texto, "está ampada no fato de ainda ser possível que as concessionárias de distribuição compensem os atrasos com a urgente aceleração do ritmo de implantação das redes e subestações de distribuição".

Leia nota à imprensa divulgada pelo Ministério de Minas e Energia:

O Ministério de Minas e Energia, por meio do Grupo de Trabalho (GT) criado em 30 de agosto de 2010, acompanha e monitora todas as obras definidas como importantes para a garantia do suprimento de energia elétrica durante os eventos do Campeonato Mundial de Futebol, a Copa do Mundo. As reuniões de acompanhamento, coordenadas pelo MME, permitem afirmar, com absoluta segurança, que não há risco de desabastecimento durante a Copa do Mundo de 2014.

O Ministério informa ainda que o duplo suprimento aos Estádios para a Copa das Confederações está garantido, cumprindo assim o compromisso firmado entre o Governo Federal e a FIFA.

O Grupo de Trabalho, que tem a finalidade de definir as obras e ações necessárias para garantir o suprimento de energia para a Copa 2014, realizou em 2012 quinze (15) reuniões nas Cidades-Sedes e seis (6) reuniões em Brasília para verificar e buscar soluções para os problemas identificados pelas distribuidoras.

O relatório da ANEEL, Nota Técnica n° 0188/2012-SFE/ANEEL, citado na reportagem "Para ANEEL, há Risco de Faltar Luz na Copa", publicada no jornal Folha de S. Paulo desta terça-feira (22/01/2013), foi elaborada com as informações apresentadas pelas Concessionarias de Distribuição no mês de outubro de 2012 e tem como principal foco subsidiar o Ministério de Minas e Energia de informações sobre o cumprimento dos prazos acordados com a Agência. Com base nestas informações do MME realizou em dezembro/2012 reuniões nas cidades-sede para verificar o andamento das obras e adotar providências para o cumprimento de seus cronogramas de execução.

Ao contrário do que afirma a "Folha de S. Paulo", o relatório da Aneel conclui "que a maioria desses atrasos não oferece risco iminente ao abastecimento de energia para a Copa 2014".

Extraído do sítio Brasil 247

15 janeiro 2013

CHOVEU, A LUZ NÃO APAGOU E A VIDA SEGUE IGUAL - Ricardo Kotscho

"Bem verdade que a mídia, a impressa e a eletrônica, aprecia a poeira, dando mais importância ao pó do que à ideia em si" (Quincas Borba, o grande personagem de Machado de Assis, citado na coluna dominical de Carlos Heitor Cony, na "Folha").


De volta ao batente esta semana, depois de uma breve folga, alguns leitores do Balaio reclamaram, com razão, do meu pessimismo, só vendo problemas nas coisas e não falando das coisas boas da vida nas minhas primeiras colunas.

Passei alguns dias na praia pensando exatamente nisso: por que nós, jornalistas, não podemos encontrar outros assuntos na vida fora daqueles que vivem prevendo o fim do mundo, a crise de todas as crises, com ou sem calendário maia, anunciando sempre um apocalipse semanal?

Por isso, voltei à cidade disposto a mudar o disco do Balaio, dar uma virada neste jogo que está se tornando enfadonho para mim mesmo e, imagino, também para os leitores.

Acontece que eu também leio jornais e revistas, acompanho televisão e internet, e acabo como todo mundo impregnado pelas nuvens cinzentas do noticiário negativo sobre os rumos das nossas vidas aqui dentro e lá fora.

Não tenho uma linha direta com Deus para saber o que vai acontecer. Procuro apenas tentar entender o que está acontecendo e o que pode acontecer a partir dos fatos dados pela realidade que nos é retratada pelos meios de comunicação.

Para conseguir isso, busco sempre falar com pessoas de todas as áreas, do governo e da oposição, mas elas também têm suas opiniões próprias, também são infuenciadas pelo meio em que vivem e procuram puxar as sardinhas para as suas brasas.

Todo começo de ano é a mesma coisa. Não é porque a folhinha do calendário passou de um ano para outro que de uma hora para outra o que era feio vai ficar bonito e o que não tinha solução vai ficar resolvido.

Seca no nordeste, enchentes no sul, mortes e violência para todo lado, níveis dos reservatórios baixando, o que não falta é coisa ruim, problema, desgraça.

Como o Quincas Borba, continuamos dando mais importância ao pó do que à ideia em si. E qual é a ideia em si?

A vida continua seguindo igual, chove mais aqui e menos ali, a luz não apagou, os aviões continuam subindo e descendo, assim como as marés, a presidente Dilma marca novas reuniões para melhorar o desempenho da economia, os novos prefeitos começam a colocar ordem na casa, nas padarias tem pão quente na chapa e logo volta o futebol dos domingos.

Prometo pelo menos hoje não falar do embate político que segue feroz, está por trás de tudo isso e vai seguir assim até 2014, mas a vida não pode ser só isso. Lá fora as pessoas continuam passeando pelas calçadas e pensando nas suas próprias vidas, e é isso que vou fazer agora.

Extraído do blog Balaio do Kotscho

09 janeiro 2013

DILMA ACHA QUE "BATER BOCA" COM A MÍDIA É "PERDA DE TEMPO" - Eduardo Guimarães

Gastei boa parte da última terça-feira ao telefone em busca de informações concretas para opor à boataria em relação ao setor energético que a mídia tem promovido em lugar de fazer jornalismo sobre assunto tão vital para o país, com suas insistentes versões sobre um iminente “racionamento” de energia e “aumento” no preço das contas de luz.

De alguns dias para cá, eclodiu um bombardeio nos grandes meios de comunicação. Na mesma terça-feira, na Globo News, apresentadoras diziam sentir “muito medo” de ficarem no escuro. Os grandes jornais de São Paulo e do Rio de Janeiro passaram a dar manchetes em letras garrafais tentando vender a tal iminência de “racionamento”.

A reunião de janeiro do governo com diversas áreas do setor elétrico, a qual integra um cronograma de reuniões que acontecem todos os meses e que continuarão acontecendo nos meses vindouros, foi apresentada pela mídia como “reunião de emergência para tratar do risco de racionamento”.

Veja, abaixo, o cronograma de reuniões ordinárias extraído do site de Luis Nassif. A reunião de janeiro foi apresentada pela mídia como “reunião de emergência”.


Conversei com o titular de uma diretoria “de mercado” de uma grande empresa geradora de energia hidrelétrica do Sudeste que, por razões óbvias, não quer se identificar. Como a maioria dos técnicos do setor, descartou completamente qualquer possibilidade de racionamento.

Abaixo, reproduzo texto que me enviou para publicação nesta página logo após nossa conversa telefônica, sempre com a condição de não ter seu nome revelado.

Eduardo, bom dia.

Após nossa conversa, envio dois links sobre o dito “racionamento” e algumas considerações pessoais.

1) MANIFESTAÇÃO DO PRESIDENTE DA EPE (EMPRESA DE PESQUISA ENERGÉTICA) publicada pela Agência Brasil


Tolmasquim: condições estruturais do país afastam risco de racionamento de energia - 08/01/2013 – 19h23 - Nacional - Alana Gandra - Repórter da Agência Brasil

Rio de Janeiro – O país tem condições estruturais que dão segurança e tranquilidade ao setor elétrico e permitem descartar a possibilidade de um racionamento de energia, disse hoje (8), em entrevista coletiva, o presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim. Ele esclareceu, porém, que, apesar disso, está sendo feito o acompanhamento dos “ciclos da natureza”, referindo-se à questão das chuvas.

A situação atual é “totalmente diferente” da que ocorreu no país em 2001, segundo o presidente da EPE, quando houve um “apagão” de energia e o consequente racionamento. Àquela época, segundo ele, não havia uma quantidade de usinas térmicas de reserva suficiente para funcionar como uma espécie de seguro ou “colchão” do sistema elétrico.

“É o ponto que faz a diferença e que permite ter uma certa tranquilidade”, disse. Tolmasquim acrescentou que “naquela ocasião, não tinha entrado uma quantidade de oferta de energia nem de linhas [de transmissão]”.

Tolmasquim relacionou a expectativa de tranquilidade para este ano à entrada prevista de 9 mil megawatts (MW) de capacidade nova de geração ao longo do ano. O destaque são as usinas hidrelétricas Santo Antonio e Jirau, que adicionarão ao sistema elétrico nacional mais de 3 mil MW. As usinas hídricas correspondem a 40% dos 9 mil MW.

Novas usinas térmicas também estão programadas, representando 2,5 mil MW, ou cerca de 30% do total previsto. O restante são usinas de fontes renováveis, com ênfase para eólicas (energia dos ventos). Em linhas de transmissão, serão implantados 10 mil quilômetros durante o ano.

“Essa diferença estrutural é uma situação distinta da que ocorreu em 2001”, sustentou. Continuou assegurando que hoje, ao contrário daquela época, o país tem um planejamento instalado no setor, leilões de expansão da geração e de transmissão e ainda um comitê de monitoramento do setor elétrico que se reúne mensalmente e envolve agentes do setor, sob a coordenação do Ministério de Minas e Energia.

A expansão das obras em curso no país e a questão da segurança são temas de discussão permanente, garantiu. O comitê se reúne amanhã (9), em Brasília.

Tolmasquim disse que as usinas térmicas dão segurança ao sistema, mas reconheceu que sua utilização é cara. Ele garantiu que ainda há uma margem de manobra envolvendo 1 mil megawatts de térmicas de combustíveis fósseis que ainda não foram despachadas por motivos diversos, entre eles a importação de gás. “O que está entrando é uma coisa planejada. Não é uma coisa emergencial. A situação está sob controle.” O presidente da EPE reconheceu, entretanto, que seria melhor se o período de chuvas já tivesse começado.

Em relação às tarifas de energia, Tolmasquim explicou que a queda de 20%, que entrará em vigor em fevereiro, poderá ser afetada por fatores conjunturais, levando a redução a ser maior ou menor. Para ele, as avaliações feitas pelo governo sobre o cenário atual e as séries históricas dão tranquilidade ao setor.

Dados fornecidos por Tolmasquim mostram que, de 2001 a 2012, a capacidade instalada de geração de energia cresceu 75% no Brasil. Houve aumento de 150% na capacidade instalada de termelétricas, excluindo usinas a biomassa e nuclear. Cerca de 85% dessa expansão ocorreram nos últimos dez anos.

No mesmo período, a capacidade instalada de transmissão evoluiu 68%, “também um valor bastante expressivo”. Diferentemente do que sucedeu na época do racionamento, também aumentou em 80% a capacidade de o Sul fornecer energia para as demais regiões.

Ao mesmo tempo, triplicou a capacidade de o Nordeste, onde as previsões são de menor volume de chuvas, importar energia de outras regiões, informou. “O Nordeste ficou menos vulnerável porque pode contar com as outras regiões”.

Antes de 2001, implantavam-se em média no Brasil 1 mil quilômetros de linhas por ano. Nos últimos dez anos, o presidente da EPE disse que a média tem sido de 4,3 mil quilômetros de linhas de transmissão implantadas por ano.

Edição: Davi Oliveira

2) MANIFESTAÇÃO DO GRUPO CPFL (SÃO PAULO) também publicada pela Agência Brasil.


Grupo CPFL Energia não vê risco de racionamento no país - 08/01/2013 – 12h29 - Nacional - Daniel Lima - Repórter da Agência Brasil

Brasília – O presidente do Grupo CPFL Energia, Wilson Ferreira Júnior, disse hoje (8) não acreditar em risco de racionamento de energia no país por causa da redução do nível dos reservatórios das usinas hidrelétricas. Segundo Ferreira Júnior, a capacidade das usinas termelétricas usadas para suprir a queda no fornecimento é quatro vezes maior do que na época em que houve racionamento no país, em 2001.

O grupo atua na área de distribuição de energia, em quatro estados (São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná e Minas Gerais), com 13% de participação no mercado nacional. Também atua nas áreas de geração de energia, com 19 usinas em operação, e de comercialização.

Para Ferreira Júnior, o risco de racionamento é mínimo porque todas as térmicas estão em funcionamento e o período de chuvas está começando. “Não há razão para que a gente tenha pânico no momento, pois todas as usinas [térmicas] foram despachadas [acionadas] para recompor o potencial dos reservatórios. É a função delas”, destacou.

Em relação a um eventual aumento das tarifas de energia devido ao uso dessas usinas, o presidente do grupo disse que a elevação é previsível. “Quando se tem a geração térmica, existe um expediente para que haja um repasse de preços à tarifa, mas no aniversário de reajuste das concessionárias”, disse.

O baixo nível dos reservatórios das hidrelétricas deve ser um dos temas discutidos pelos integrantes do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE), que se reunirão amanhã (9), em Brasília. Presidida pelo ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, a reunião já estava prevista no calendário aprovado em dezembro passado, de acordo com nota do ministério.

Segundo Wilson Ferreira Júnior, o governo tem usado todos os instrumentos de que dispõe para enfrentar a situação, incluindo a liberação do uso das térmicas para que o país não enfrente falta de energia até a recomposição dos reservatórios das hidrelétricas. “Temos que reconhecer que o sistema hoje é muito mais robusto que no passado. Temos as termelétricas que estão funcionando e era o que tinha que acontecer mesmo”, explicou.

O presidente da CPFL Energia se reuniu hoje, em Brasília, com o ministro interino da Fazenda, Nelson Barbosa, para explicar uma operação que envolve o controle do Grupo Rede Energia.

Edição: Juliana Andrade

Apenas um esclarecimento: a EPE é a entidade criada no governo Lula da Silva, quando a presidenta Dilma era ministra das Minas e Energia. A EPE (primeiro link) tem o dever de planejar as grandes obras para o sistema elétrico nacional, a fim de que não falte energia.

A EPE foi criada para recriar esse planejamento, estilhaçado pelo governo FHC (que, diga-se de passagem, entregou o Ministério das Minas e Energia à incompentência do DEM).

O governo Fernando Henrique simplesmente acabou com o planejamento dessas grandes obras, que era feito por um Comitê coordenado pela ELETROBRÁS.

Considero o noticiário que está sendo veiculado muito prejudicial ao povo brasileiro. Isso por que esse tipo de matéria chega aos mercados externos. Esses mercados são imperfeitos, as expectativas dos investidores, por mais bem informados que os mesmos sejam, nem sempre são racionais.

Diante disso tudo, a pergunta que tem sido feita por quem está bem informado sobre a situação energética do Brasil e, portanto, não cai na boataria da mídia, vertida com objetivos políticos e econômicos, pergunta-se: por que a presidente da República não convoca rede nacional de rádio e televisão para esclarecer a sociedade?

Aí entra a busca de informações que fiz na terça-feira junto a fontes do governo Dilma. Após intermináveis ligações, consegui o telefone de pessoa com acesso à presidente que me pôde informar a razão pela qual o governo não está se empenhando com maior contundência em desmentir a boataria terrorista midiática.

Segundo me foi informado, há muito que a presidente já decidiu que “não vale a pena bater boca com a mídia”. Foi-me dado exemplo dessa questão do setor elétrico. Dilma já desmentiu várias vezes o “racionamento” e a mídia, além de não dar o devido destaque às suas palavras, desmente o que diz.

A alternativa seria enveredar por um bate-boca inútil, pois os grandes veículos que tentam aterrorizar a população sempre ficam com a última palavra, já que quem formata o noticiário são eles. Assim como em outras questões, tais como o crescimento modesto do PIB em 2012, portanto, a presidente julga que é melhor deixar que os fatos desmintam a mídia.

Explico: em pouco tempo, os brasileiros receberão contas de luz mais baratas, com desconto médio de 20%, e não terá ocorrido racionamento algum. Dessa forma, quem está recebendo as tais informações de que além de racionamento haverá aumento na conta de luz, concluirá que recebeu informações falsas daqueles meios de comunicação.

Além disso, como o noticiário tem insistido no fato de que os reservatórios estão no mesmo nível de 2001 – quando o governo FHC impôs um duro racionamento ao país –, ao constatarem que, além de não haver racionamento, a energia ficou mais barata, as pessoas poderão mensurar a superioridade deste governo sobre aquele.

Extraído do Blog da Cidadania

FACA NA BOCA CONTRA O DESENVOLVIMENTO - Saul Leblon


O empenho das manchetes alarmistas em equiparar o horizonte elétrico atual ao desastre construído pelo tucanato no apagão de 2001 é compreensível. 

Aquele foi o episódio-síntese de um erro histórico clamoroso ungido em doutrina política pelo PSDB e assemelhados. 

Seu nome é dissociação entre Estado e agenda do desenvolvimento .

Doze anos e um colapso mundial do capitalismo desregulado se passaram. Inútil. 

Diga planejamento público da economia. Ou comando estatal do crescimento. Um exército tucano sairá em revoada de faca na boca.

Estão na praça, de novo, desbastando pescoços e goelas para abrir caminho ao Adam Smith das gerais.

O apagão de 2001 machuca e atrapalha esse labor: o iluminismo tropical colonizado pelos livres mercados revelou-se então puro obscurantismo conservador. 

Uma contradição nos seus próprios termos dói mais que pancada.

Prescindir do planejamento estatal na área de energia é algo só concebível em uma época em que a mentalidade política foi esfericamente colonizada pelo espírito imediatista e predador dos ditos mercados autossuficientes. 

O dispositivo midiático e o PSDB foram os sujeitos históricos dessa aventura no Brasil. 

Livre da mão pesada do 'intervencionismo' estatal,os mercados alocariam os investimentos da forma mais eficiente, ao menor custo e da maneira mais rápida possível. Era a promessa.

Em meados de maio de 2001, esse conto de fadas midiático-ortodoxo havia cavado uma diferença de robustos 20% entre a oferta e a demanda de eletricidade no mercado nacional.

Um período de chuvas de baixa pluviosidade pôs a nu a fraude.

O país se viu diante de uma contabilidade crítica: duas horas de apagão para cada dez de consumo. 

Colosso.

O governo Dilma, ao contrário, projeta uma queda de 20% no custo da tarifa elétrica impondo às concessionárias corte de preços proporcionais ao valor dos investimentos amortizados.

A relação antagônica entre os 20% do PSDB e os 20% de Dilma é intolerável numa disputa sangrenta como promete ser a de 2014.

A necessidade de criar uma vacina ao 'apagão' emplumado explica o empenho das manchetes nos dias que correm. 

Exemplos desta terça-feira, 08-01:

'Grandes indústrias já planejam racionar energia' (Globo); 'Falta de chuvas pode tolher 5 pontos do desconto na energia' (Valor);'Governo já vê risco de racionamento de energia' (Estadão)

Fatos:

a) os reservatórios do sistema hidrelétrico nacional realmente encontram-se em níveis críticos. Próximos ou até um pouco abaixo dos níveis registrados nos anos de 2000 e 2001, quando o governo tucano acordou de seu sonho mercadista, sem contrapesos de planejamento para enfrentar a escassez;

b) sábios que voltaram a borrifar seu 'iluminismo' peculiar contra os 'obscurantistas estatizantes' haviam contratado uma escuridão estrutural em pleno século 21; 

c) o apagão tucano custou 3 pontos do PIB; mais um salário mínimo per capita em impostos emergenciais adicionados à conta de luz de cada brasileiro. Investimentos foram engavetados. O desemprego em São Paulo, em abril do ano seguinte, bateu em 20,4% (no auge da Depressão nos EUA, em 1937, chegou a 27%);

d) justiça seja feita: foi apenas o tiro de misericórdia numa economia já desidratada pela ortodoxia monetária, asfixiada pelo endividamento interno e externo, escalpelada pela fuga de capitais. O oposto do que ocorre hoje;

e) de 2001 a 2012 a capacidade instalada de geração de energia no Brasil cresceu 75%;

f) o estoque de emergência formado por termelétricas aumentou 150% no mesmo período; 

g) a capacidade de realocação de energia entre as regiões (os linhões de integração do sistema), cresceu 68%;

h) em setembro de 2011, a Presidenta sintetizou a guinada indo à jugular do iluminismo às avessas: "Tivemos que reconstruir esse setor"; 

i) a reconstrução inclui um Plano Decenal que prevê 71 novas usinas até 2017, com potencial de geração de 29.000 MW ( o equivalente a duas Itaipus). 

Em resumo: encerrou-se o hiato de três décadas sem o planejamento público de grandes obras no país. 

O êxito desse resgate - o comando de Estado sobre um setor estratégico - vitaminado ademais por um redução no custo tarifário, é incompatível com os planos do conservadorismo para 2014.

O próprio FHC tem advertido aos mais entusiasmados com a aliança entre togas & tucanos. 

Não adianta ganhar na narrativa midiática se o 'povão', a gente diferenciada, como dizem seus vizinhos de Higienópolis, 'percebe' avanços sociais e econômicos como conquistas carimbadas com o selo de Lula e Dilma.

É indispensável desautorizar o modelo que lastreia esse sentimento. É crucial provar que o comando de Estado sobre os mercados constitui um erro. 

Se possível, desastroso.

Será preciso chover muito para afogar essa sede incontida. Do contrário, as manchetes prosseguirão na faina de antecipar o colapso -' que só não foi hoje porque virá amanhã'.

Uma última observação:

o dispositivo midiático conservador está tão entretido nessa labuta, que descuidou dos destaques internacionais deste início de semana. 

Compare-se, por exemplo, o espaço destinado à grita gerada pelo ajuste contábil nas contas fiscais de 2012, com o tratamento respeitoso dispensado a outro arranjo, mutatis mutandis, este sim temerário e escandaloso. 

O prazo para o sistema bancário mundial lastrear empréstimos em ativos de qualidade superior à montanha tóxica esfarelada na explosão da ordem neoliberal, foi protelado por mais quatro anos.

Só deve vigorar plenamente em 2019.

Originalmente, a banca deveria ingressar em 2015 já municiada de "ativos líquidos de alta qualidade" para enfrentar 30 dias de crise. 

Isto é, para não exigir que os cofres estatais e os fundos públicos venham a ser drenados outra vez na salvação de banqueiros irresponsáveis e rentistas gulosos.

A torre de vigia do orçamento fiscal brasileiro, formada como se sabe por argutos jornalistas do ramo, não expressou sua indignação diante da manobra contábil, que mantém o sistema financeiro global vulnerável por mais sete longos anos.

Não se diga que o legado da desordem financeira justifique o comedimento.

A taxa de desemprego nos 17 países da zona do euro atingiu um novo recorde: foi a quase 12% no final de 2012. 

Ao todo, 26 milhões de pessoas estão sem trabalho na União Europeia. A taxa vai a 24,4% entre os jovens.

Na Espanha direitista e zelosa da ortodoxia que gerou a crise, o desastre atinge seu cume: 26,6% dos espanhóis vivem à deriva sem trabalho.

Tudo em nome da austeridade fiscal, cujo padrão os sabichões tucanos reclamam de volta para o Brasil.

Afrontá-los não implica, naturalmente, aderir a uma leitura rasteira do keynesianismo, nivelando-o a um vale tudo fiscal.

Trata-se, porém, de rejeitar no plano financeiro, também, a dissociação entre Estado e desenvolvimento, cujo equívoco ficou escancarado no episódio do apagão tucano.

Quando a sirene ortodoxa faz soar o seu apito porque o Brasil não cumpriu a meta cheia do superávit em 2012 - e o governo acode em atendê-la contabilmente - é o subtexto desse interdito que está gritando a sua saturação também. 

Constituir um Estado democrático que detenha igualmente a iniciativa histórica no plano financeiro é um dos desafios da agenda do desenvolvimento pós-2008.

Em seu artigo desta 3ª feira no jornal Valor, o economista Luiz Gonzaga Belluzzo dá uma pista de como esse degrau pode ser vencido: 

"A estratégia chinesa inclui um forte controle e direcionamento do crédito, cuja oferta está concentrada nos cinco grandes bancos públicos. Depois da crise de 2007/08, a relação crédito/PIB avançou de 200% para 250% (NR no Brasil é da ordem de 51%). Os principais tomadores foram as empresas públicas, privadas e semi-públicas dedicadas à execução dos grandes projetos de infraestrutura, sobretudo ferrovias de alta velocidade e infraestrutura urbana com atenção especial para o transporte coletivo".

Extraído do sítio Carta Maior

04 janeiro 2013

OS DEFENSORES DA ENERGIA CARA - Antonio Lassance


No debate feito em torno da MP 579, que pretende baixar o preço da energia elétrica, tem se sobressaído a tendência de se associar a medida a um padrão de governança da atual Presidência. Explicitamente, o padrão de confiar ao setor estatal um protagonismo asfixiante sobre a iniciativa privada. A proposta tem sido relacionada a um tipo autoritário de governança, assemelhado ao dos governos de Getúlio Vargas e Ernesto Geisel.

Ocorre que ainda está para aparecer no Brasil um governo que não oriente suas decisões atendendo a alguma parcela do setor privado.

Para ser posto no lugar, o debate deveria se debruçar sobre quem ganha e quem perde, entre os agentes econômicos privados, com a MP 579.

Os principais entusiastas da mudança propugnada pela MP são a indústria, o comércio e os consumidores individuais. O setor público perde. Suas empresas vão ter que diminuir seus lucros e reorientar seus gastos e planos para atender ao objetivo de baixar a conta de energia.

O problema está localizado - e não pode ser minimizado - em algumas importantes empresas de produção de energia, principalmente as de alguns dos grandes Estados produtores. Seus representantes têm agora a difícil tarefa de defender a energia cara e de fazer acreditar que isso se traduz em mais investimentos no setor. Com décadas de energia cara, a conclusão dessas premissas seria a de que o setor vai muito bem e que não se mexe em time que está ganhando.

Como tal linha de argumentação é muito pouco convincente, o debate tem deixado de lado a economia na ponta do lápis para adquirir feições de embate ideológico dos mais empedernidos. Para tanto, invocaram as almas ditatoriais de Getúlio Vargas e de Ernesto Geisel para assombrar os vivos.

O uso da história do Brasil pelo método confuso, gênero que tem ganhado adeptos, foi usado para dizer que a concepção por trás da MP 579 é a mesma do Código de Águas de 1934. Um arcaísmo, portanto.

O código de 1934 já foi exorcizado como o grande vilão do baixo investimento privado durante todo o período Vargas, como se a crise de 1929, que atravessou toda a década de 1930, e a Segunda Guerra fossem só dois "detalhes" do problema.

O código de 1934 trazia, das pátrias do liberalismo (Estados Unidos e Reino Unido), uma inovação que se afirmaria desde o século passado em todo e qualquer país decente: estabelecer marcos legais e agentes reguladores sobre cada setor produtivo.

O fato é que mesmo com crise e com guerra, a capacidade instalada de produção de energia elétrica do Brasil cresceu, de 1930 para 1940, em 60%. Entre 1940 e 1950, cresceu 34%.

A batalha que se enfrenta hoje tem mais a ver com a travada por Juscelino Kubitschek. Foi JK o grande responsável por desarmar o lobby que se formou fortemente nos Estados que controlavam a maior parte da produção de energia do país. Vargas encerrou sua presidência tragicamente, em 1954, sem ver aprovada sua proposta de criação da Eletrobras. Foi Juscelino quem a fez tramitar até sua aprovação, depois sancionada por Jânio Quadros, em 1961, e implementada por João Goulart.

A real discussão por trás da MP e de seus fantasmas dos anos 1930 a 1970 é a do poder de regulação pública sobre o setor privado.

Em países democráticos, após o vendaval da última crise, o papel das agências reguladoras tem se fortalecido na função de "watchdogs" (cães de guarda). Aliás, é assim que muitas delas popularmente se apresentam. Sua função é, quando se percebe algo de errado, latir; morder, se preciso for.

No Brasil, o setor privado trata como se fossem espantalhos as agências reguladoras que ameaçam cumprir o seu papel. Preferem cães de guarda que miem. Chamam a isso "segurança jurídica". E preferem energia cara. Chamam a isso "investimento".

* Antonio Lassance, 45, cientista político, é pesquisador do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).

Extraído do sítio Folha de S. Paulo

30 abril 2012

FAZENDAS EÓLICAS 'AQUECEM' TEMPERATURA LOCAL, DIZ ESTUDO - Richard Black

Áreas perto de fazendas éolicas tendem a esquentar mais, segundo pesquisa
Fazendas eólicas podem afetar as condições meteorológicas das regiões em que se situam, provocando a elevação de temperaturas durante a noite.

Essa foi a conclusão de um estudo realizado no Estado americano do Texas. Os pesquisadores usaram informações de satélites e observaram que áreas situadas perto de turbinas eólicas tendem a esquentar mais do que as que não contam com fazendas eólicas nas imediações.

A pesquisa, publicada na revista especializada Nature Climate Change, confirmou as conclusões de um estudo anterior, datado de 2010, também realizado em uma região específica dos Estados Unidos e que utilizou modelos criados por computador para mostrar que fazendas eólicas podem provocar aquecimento regional.

Os cientistas acreditam que o aquecimento é provocado pelas turbinas das usinas, que liberam ar quente ao nível do solo.

A área em que foi feita o estudo, localizada no centro-oeste do Texas, registrou um crescimento no número de programas de construção de turbinas, em meados da década passada, passando de 111 em 2003 para 2325 apenas seis anos depois.
Sensores de incêndios

Pesquisadores utilizaram informações geradas pelos sensores Moderate Resolution Imaging Spectroradiometer (Modis), contidos nos satélites Aqua e Terra, da Nasa, que são capazes de medir radiações infravermelhas emitidas por incêndios na superfície do planeta.

As informações geradas pelos Modis podem ser transformadas rapidamente em ''mapas ativos de incêndios'', que permitem localizar focos de incêndios florestais e avaliar para onde eles estão se movendo. Essas informações costumam ser usadas por corpos de bombeiros.

As informações dos sensores Modis foram usadas para medir as temperaturas na região estudada no começo e ao final do boom de construção de usinas - respectivamente os períodos que vão de 2003 a 2005 e de 2009 a 2011.

Ao longo desse período, a região centro-oeste do Texas como um todo observou um aumento de temperatura - e de forma mais acentuada nas áreas próximas a fazendas eólicas.

Mas os pesquisadores avaliaram que outros fatores podem ter influído nos resultados, como mudanças de vegetação, mas afirmaram que tais fatores ocorreram em escala muito pequena.

As mudanças não ocorreram de forma idêntica em todas as áreas próximas a fazendas eólicas. De acordo com os cientistas, o aquecimento observado foi de cerca de 0.72ºC por década.

O pesquisador-sênior Liming Zhou advertiu que a experiência não representa um sinal de que as temperaturas seguem aumentando. ''A tendência de aquecimento se aplica apenas à região e ao período estudados e não deve ser estendida de forma linear para outras regiões por períodos mais longos''.
'Resultados consistentes'

O especialista diz que à noite o ar acima do nível do solo costuma ser mais quente do que o ar no nível do solo. Mas Zhou e seus colegas acreditam que as lâminas das turbinas eólicas estão simplesmente agitando o ar, misturando ar quente e ar frio e fazendo com que parte do calor chegue ao nível do solo.

''Os resultados dessa pesquisa me parecem bem consistentes'', diz Steven Sherwood, do Centro de Pesquisas de Mudanças Climáticas, da University of New South Wales, da Austrália.

De acordo com Sherwood, a estratégia de provocar um aquecimento artificial costuma ser usada por produtores de frutas que sobrevoam seus pomares de helicóptero para combater geadas matinais".

"Essa pequisa é o primeiro passo na potencial exploração de informações satelitais para quantificar os possíveis impactos de grandes fazendas eólicas sobre o clima e as condições meteorológicas'', afirmou Zhou, da Universidade Estadual de Nova York em Albany, à BBC.

Ele conta que ele e sua equipe de pesquisadores estão agora ampliando seu estudo para outras fazendas eólicas e construindo novos modelos para melhor entender os processos físicos do aquecimento que estaria sendo provocado pelas usinas eólicas.


Extraído do sítio BBC Brasil