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11 abril 2013

MARGARET THATCHER FOI A GRANDE APÓSTOLA DA GUERRA FRIA - Breno Altman

Com a morte da primeira-ministra, as forças conservadoras prestam justa homenagem à grande apóstola da guerra fria.

Nunca houve uma mulher como Margaret Thatcher. A paráfrase da propaganda do célebre filme “Gilda”, dirigido por Charles Vidor e estrelado por Rita Hayworth, não se refere, evidentemente, a qualquer comparação com a beleza, o charme e a picardia da personagem encarnada pela fascinante atriz hispano-irlandesa. Mas é fato que o movimento operário e socialista jamais teve uma inimiga tão dura e implacável como a falecida primeira-ministra britânica.

Seu papel foi decisivo para a rearticulação da contraofensiva conservadora dos anos 80. Ela irrompe na cena política de seu país e no teatro internacional em um momento no qual o capitalismo vivia novo ciclo de crise e uma onda revolucionária havia, na década anterior, fortalecido posições da União Soviética e seus aliados. A revolução portuguesa (1974), a vitória comunista no Vietnã (1975), a derrubada do xá no Irã e o triunfo sandinista, ambos em 1979, são os principais fatos da última escalada progressista do período histórico aberto com a revolução russa de 1917.

Margaret Thatcher foi a principal ponta-de-lança do neoliberalismo durante a década de 1980

Os efeitos desse avanço do campo socialista foram sentidos, desde o final da Segunda Guerra Mundial, também nos países capitalistas. Os trabalhadores dessas nações obtiveram significativas conquistas salariais e amplos direitos sociais, apoderando-se de um naco expressivo dos gastos públicos e das receitas dos grandes conglomerados. O temor da burguesia mundial, de que a revolução se irradiasse para suas cidadelas mais importantes, animou uma etapa de reformas que alteraram profundamente as condições de vida e labuta da classe operária ocidental.

No curso destas três décadas de recuo do capital, também foram forjadas ou consolidadas poderosas organizações sindicais e populares. Os setores conservadores foram perdendo espaços para o tripé formado por esse movimento, a ampliação do bloco soviético e as lutas de libertação nacional na África e América Latina. Coube a Margaret Thatcher liderar a reação da direita, dotá-la de um novo programa para a acumulação capitalista e romper o cerco que parecia condenar o imperialismo à decadência.

A dama de ferro jogou-se com fúria de guerra para rebaixar os custos de produção e aumentar a taxa de lucro do capital britânico, golpeando duramente os trabalhadores e seus sindicatos, reduzindo drasticamente as despesas estatais com serviços públicos, privatizando companhias e desregulamentando tanto os fluxos comerciais quanto os financeiros. Mais que Ronald Reagan, foi a principal ponta-de-lança do neoliberalismo.

Thatcher e Reagan durante reunião em Camp David em 1984

Sua lógica levou à ruptura com a estratégia de concessões dentro e fora de casa. Ao lado do presidente norte-americano e do papa João Paulo II, comandou os ataques que levariam à derrocada da URSS e do projeto socialista internacional fundado pelos bolcheviques, quebrando a coluna vertebral do próprio movimento operário europeu. O trio soube compreender que a exasperação da situação internacional, com o recrudescimento da corrida armamentista, forçaria ao limite as fragilidades da economia soviética e colocaria em xeque sua direção política.

Thatcher foi o buldogue da contra-revolução, aproveitando-se com vigor e inteligência dos erros de seus inimigos, convertidos em poodles do socialismo e convencidos, como Mikhail Gorbatchev, de que a política de pactuação e retirada salvaria o sistema do colapso.

Na hora de sua morte, as forças conservadoras de todo o mundo prestam justa homenagem à grande apóstola da guerra fria. À esquerda, cabe aprender a lição deixada por uma inimiga impiedosa, que não poupou esforços em sua crença de que ideias claras e sem concessões, associadas às condições materiais adequadas e à disposição para o enfrentamento, são o único caminho para a hegemonia.

* Breno Altman é jornalista, diretor editorial do site Opera Mundi e da revista Samuel.

Extraído do sítio Opera Mundi

23 agosto 2012

APÓS 18 ANOS DE NEGOCIAÇÃO, RÚSSIA ENTRA NA OMC - Marcelo Justo

Nona economia do planeta com quase dois trilhões de Produto Interno Bruto anual, a Rússia era a única nação grande, em nível planetário, que permanecia fora da OMC. A negociação levou 18 anos, 30 acordos bilaterais sobre acesso aos mercados de serviços, 57 sobre acesso aos mercados de mercadorias e seis anos de negociação bilateral com Washington. O generoso cálculo do Banco Mundial é que a Rússia pode ganhar entre 54 e 177 bilhões de dólares por ano com o ingresso na OMC. Mas este futuro cor-de-rosa não parece convencer os próprios russos. O artigo é de Marcelo Justo, direto de Londres.


Londres - A incorporação da Rússia à Organização Mundial do Comércio (OMC) nessa quarta-feira é o último prego no caixão da guerra fria. A negociação levou 18 anos, 30 acordos bilaterais sobre acesso aos mercados de serviços, 57 sobre acesso aos mercados de mercadorias e seis anos de negociação bilateral com Washington. 

Nona economia do planeta com quase dois trilhões de Produto Interno Bruto (PIB) anual, a Rússia era a única nação grande, em nível planetário, que permanecia fora da OMC. Com a União Europeia (UE) só se chegou a um acordo em 2010, depois que Moscou aderiu ao Protocolo de Kyoto sobre Mudanças Climáticas. O último grande obstáculo foi a Geórgia, que depois daquela guerra de cinco dias em 2008, estava decidida a bloquear seu ingresso, mas uma negociação sobre trânsito de mercadorias e pressões várias dirimiram o problema. 

A recompensa é a abertura de um mercado de 140 milhões de consumidores e o acesso a seus mercados financeiros, serviços e matérias-primas. O generoso cálculo estimativo do Banco Mundial é que a Rússia pode chegar a ganhar entre 54 e 177 bilhões de dólares por ano graças a esta plena integração ao comercio mundial. Mas este futuro cor-de-rosa não parece convencer os próprios russos. Segundo uma sondagem da Public Opinion Foundation, só 21% da população está a favor da medida. 

O líder do principal grupo opositor ao presidente Vladimir Putin, o comunista Guennadi Ziuganov, acredita que a Rússia vai perder com esta aposta. “A situação dos principais setores da economia não lhes permitem competir com as corporações ocidentais e o que sobra da indústria não fabrica produtos que o comércio mundial demanda”, afirmou. 

A Rússia é o nono exportador mundial, tem as maiores reservas de gás natural do mundo, a segunda de carvão e a oitava de petróleo. Em 2011 exportou mais de 570 bilhões de dólares e importou cerca de 410 bilhões. Mas com a incorporação à OMC desaparecerão ou serão drasticamente reduzidas as taxas de cerca de 700 tipos de produtos manufaturados e agrícolas: a taxa media passará de 10 a 7,4%.

Os serviços serão desregulamentados, entre eles um setor chave para o investimento estrangeiro, como o das telecomunicações. No caso do sistema bancário, a abertura será considerável, mas com limitações. A participação total de bancos estrangeiros não poderá exceder 50% do setor, mas pela primeira vez poderão operar entidades 100% estrangeiras na Rússia. 

Segundo os defensores do livre comércio, estas transformações permitirão a modernização russa. “A Rússia vai poder se desfazer do velho e ineficiente modelo baseado na substituição de importações e a industrialização subsidiada para passar a um modelo baseado no comércio e no investimento”, assegurou à Carta Maior Natalia Suseeva, analista russa do Reinassance Capital, um banco de investimentos especializado em mercados emergentes. 

A prioridade número um do governo é incentivar o investimento estrangeiro que – esperam as autoridades russas – deveria aumentar com a aceitação das regras da OMC como marco legal. Mas, segundo o Banco Mundial, os principais beneficiários serão os consumidores, pela queda dos preços e o aumento da competição. Com certa temeridade, o Banco Mundial prediz que milhões de pessoas se beneficiarão com este processo. 

O problema é que atores similares diziam coisas parecidas no princípio dos anos 90, quando Boris Yeltsin adotou a terapia de choque que os organismos multilaterais recomendavam para a transição comunista ao capitalismo. Segundo o premio Nobel de economia Joseph Stiglitz, esta privatização selvagem produziu uma queda do PIB de 54% entre 1990 e 1999. Nessa década a produção industrial caiu 60%, houve hiperinflação com a liberalização abrupta dos preços e milhões de pessoas caíram, da noite para o dia, na pobreza absoluta. 

A atual incorporação à OMC concede um longo período de adaptação ao governo de Vladimir Putin. Um considerável número das reduções tarifárias só entrará em vigor após sete anos. O sistema de subsídios ao setor agrícola, equivalente hoje a nove bilhões de dólares, tem até 2018 para alcançar a cifra pactuada como subvenção: 4,4 bilhões. 

A China é um caso de exitosa integração à OMC. A China ingressou em 2002: sua incorporação serviu para alavancar sua presença hegemônica no comercio internacional. A diferença com a Rússia é que a China tinha, nesse momento, uma indústria exportadora diversificada que lhe permitiu aproveitar ao máximo os mercados que a OMC abria. 

No caso da Rússia é diferente. Oitenta por cento de suas exportações se concentram em matérias-primas, metalurgia, defesa e madeira. A indústria ligeira, a automotiva, o setor agrícola são especialmente vulneráveis a uma abertura. Natalia Suseeva reconhece que nada está garantido. “Tudo depende de como os empresários russos se adaptarão a esta nova situação. Terá que haver uma mudança de práticas em nível dos negócios e em nível institucional para poder competir. Se conseguirem, será benéfico”, disse a Carta Maior. 

Se a aposta não der certo, uma nova tormenta político-social pode ser esperada na Rússia.

Extraído do sítio Carta Maior

22 abril 2012

A DIREITA MENTE SOBRE A HISTÓRIA - Alberto Salazar

E, quando é contrariada por ela, pede que seja esquecida.

Na Venezuela, o povo derrotou os golpistas
Com insistência a direita repete a falsa ideia de que quem lembra a história vive no passado. É um grande disparate! Quem desconhece sua história pode interpretar o presente completamente ao contrário do que realmente é, e terá grandes dificuldades para entender o porquê das coisas que presencia no dia a dia.

Os atos que vemos diariamente obedecem a interesses de pessoas, grupos, comunidades, consórcios, empresas ou governos. Há interesse que podem ser opostos a outros, pois aquilo que beneficia a certos setores pode provocar prejuízos para outros. Por exemplo, alguém pode ter interesse em ficar com uma parcela de terra e sustentar que a adquiriu anos atrás. Por sua parte, outro pode afirmar que a mesma terra é sua herança. Os estados resolvem este dilema apelando para um conjunto de regras previamente estabelecidas (leis) e consultando a história. Em algum registro oficial deve existir algum ou alguns documentos, formais e válidos sobre quem é o proprietário atual e quais foram os anteriores. Se isto não ocorre, um engano pode acontecer e a propriedade pode ficar com quem não é realmente seu dono. Esta documentação nada mais é do que um registro da história. Reflete o que ocorreu com aquela região geográfica e seu vínculo com a propriedade.

Não conhecer a história pode resultar em não reconhecer a identidade real. Se desde pequenos somos separados de nossos pais e aqueles que os substituem nos repetem que são nossos país verdadeiros, existem amplas possibilidades de acreditarmos nessa mentira por muito tempo, inclusive pela vida inteira. E não seria a primeira vez que um inimigo de alguém lhe roubar os filhos e os criar como se fossem próprios.

Tomar seus filhos e enganá-los até fazê-los voltar as costas e detestar a seus verdadeiros pais é uma parte do dano feito a alguém. Isto não é imaginário pois no Cone Sul de nosso continente as ditaduras de direita fomentaram seqüestros de crianças e ainda hoje é preciso invocar tribunais para que exijam a aplicação de testes de DNA para resolver este tipo de questão.

Mais grave ainda é fazer um povo esquecer sua história. Pode-se tentar fazê-lo acreditar que defendem valores, ideais e aspirações completamente opostos ao que seus antecessores desejaram para aqueles que hoje ou amanhã o formarão. O povo judeu sabe isto muito bem e os grupos sionistas, que dirigem a nação judia, são os primeiros a defender que não desconheça sua história. Ensinaram a história a seus filhos e até a entrelaçam com os livros sagrados, não históricos, para convencê-los de que Deus lhes deu o âmbito territorial como promessa e que isso justifica o saque pela força de quem se encontra nela. Também nos contam com fervor e interesse a respeito do holocausto produzido pelos nazistas e se aproveitam dessa tragédia para justificar as ações políticas que realizam. Permitirá Hollywood e outros setores midiáticos que a civilização esqueça os judeus assassinados na Segunda Grande Guerra?

Esta é a forma como a direita atua; repete freqüentemente que a história induz a viver de costas para o presente e o futuro, mas se apóia em fatos históricos, frequentemente falsos, para apoiar sua doutrina. Por exemplo, Cuba é mantida isolada do continente americano porque uma condição histórica conhecida como a guerra fria assim o estabeleceu. E embora o conflito frio entre os EUA e a União Soviética (URSS) já não exista, a sanção ainda é mantida. De forma semelhante, o Reino Unido retém o velho colonialismo nas ilhas Malvinas, sob sua peculiar interpretação de fatos passados que dão aos britânicos uma falsa soberania territorial.

E que escrever sobre como os historiadores da direita relatam a revolução francesa? A revolução dos sovietes? Ou de um Guillermo Morón (1) classificando de concubina a bela e valente oficial o exército patriota e independentista Manuela Saénz (2)? Que pensar de um Elías Pino Iturrieta (3) acomodando convenientemente as palavras de Simón Bolívar para contradizer a advertência que nos deixou sobre os Estados Unidos da América?

Acabamos de ver como a direita venezuelana conta o ocorrido em 11, 12 e 13 de abril de 2002 em nosso país. Por acaso não fomos testemunhas de como os golpistas da direita fascista em nosso país mudaram para alterar oi que aconteceu? Não vimos como Capriles Radonski, Leopoldo López, Víctor Manuel García, Enrique Mendoza e muitos outros negar por completo tudo o que fizeram nessa época, mesmo que esteja gravado em vídeos, e esse conteúdo seja repetido diariamente?

Obviamente na mídia da direita a verdade não será repetida; ao contrário, se insistirá na tergiversação. E se descuidarmos, ela será transformada em relato oficial. Logo ela aparecerá em algum texto curto que será gravado na memória coletiva para que ninguém mais se lembre além do que é dito. Por exemplo, dia da raça, embora uma grande quantidade de venezuelanos nunca sabe a que raça se refere tal dia, mas celebram o 12 de outubro.

Por tudo isso sustentamos que é freqüente que a direita minta com a história e se apropria dela quando lhe convém. Mas quando ela lhe nega a razão, apela para o terrível engano de pedir que a página seja virada para não nos ancorarmos no passado. Idiota aquele que caia nessa mentira bruta e deixe de levar em conta plenamente a história. O próprio Cervantes, no Quixote, nos recomendou o contrário, ao escrever: "Historia, mestra do tempo, depósito das ações, testemunha do passado, exemplo e aviso do presente, advertência do futuro...”

Notas do Vermelho
(1) Veterano historiador venezuelano
(2) Revolucionária da independência sul americana, lutou ao lado de Simon Bolivar.
(3) Historiador venezuelano


Extraído do sítio Portal Vermelho