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10 novembro 2012

RACISMO EXPLÍCITO - Leila Cordeiro


Durante meses de campanha eleitoral para presidente nos EUA, falou-se em disputa acirrada entre os dois candidatos, o democrata Barack Obama e o republicano Mitt Romney. Hoje, entretanto, depois da reeleição de Obama, começo a pensar se além da rivalidade não existiu, latente e implícito nas atitudes dos conservadores, o velho e enferrujado preconceito que por séculos tomou conta do país de Tio Sam.

Se não, como explicar tantas ofensas ao presidente da república, como se ele fosse alguém sem nenhuma importância e que estivesse ali de favor, como nos velhos tempos em que brancos concediam pequenas regalias aos escravos negros por terem se comportado bem. Algo empoeirado, cheirando a ódio e ressentimento.

Por isso, depois da derrota, houve, além da decepção da perda por parte dos republicanos, uma reação que não combina com as regras da democracia tão exaltadas neste país. Enfurecidos, eles tentaram de todo jeito explicar porque seu candidato Mitt Romney, aquele que só tinha pensado no discurso da vitória, perdeu de longe no colégio eleitoral.

No dia seguinte, políticos e articulistas conservadores já estavam na TV procurando uma explicação para a inesperada derrota. Como um candidato com o perfil da tradicional família americana, rico e bem sucedido, poderia ter sido derrotado por um candidato que gastou seus quatro anos tentanto taxar a fortuna dos milionários?

Pois foi aí que morou o erro do partido republicano. Eles produziram uma campanha massificante e agressiva nos comerciais na TV, insinuando até que Obama tinha ideias comunistas, por querer taxar mais os ricos e defender os pobres e a classe média, com o objetivo de pintá-lo com as piores cores possíveis, já que ele também tem na pele a cor negra que os racistas brancos não conseguem suportar.

Como ressaltou Eliakim Araujo “enquanto os democratas se aliaram às minorias, formando uma corrente virtual entre negros, latinos, asiáticos, pobres e remediados, gays e mulheres, os republicanos continuaram presos a um passado conservador e completamente fora de sintonia com as necessidades de um país que se renovou”.

O enraivecido megaempresário Donald Trump, republicano da ala mais extremista do partido, chegou a pregar em seu Twitter uma “revolução” no país para tirar Obama da Casa Branca, o que foi combatido por um âncora americano, Brian Williams, que se levantou contra o comentário, considerando as declarações de Trump como “irresponsáveis”. Acuado, o empresário deletou a polêmica mensagem do twitter e prometeu abrir guerra contra o jornalista.

Como Trump, a turma de apresentadores da conservadora Fox News jogou pesado contra o presidente durante toda a campanha e, revoltados com o resultado, fizeram comentários como esse, de Bill O’Reilly: “a ideologia branca da sociedade americana hoje é minoria”.

Foram muitas as demonstrações de preconceito racial explícito, como a dos estudantes da Universidade do Mississipi, que saíram às ruas assim que o resultado foi anunciado gritando ofensas contra o presidente e queimando seus cartazes de propaganda (foto).

Dia primeiro de janeiro Obama será empossado para mais quatro anos de governo. Os cães vão continuar ladrando, enquanto a carruagem vai seguir em frente.

Extraído do sítio Direto da Redação

07 novembro 2012

NORTE-AMERICANOS ESTÃO VOTANDO NOSSO DESTINO, DIZ JORNALISTA ISRAELENSE - Yitzhak Laor


No final de seu livro, o historiador Tony Judt responde à questão sobre o que impediria que a invasão do Iraque liderada pelos EUA se tornasse um outro caso Dreyfus, na medida que a guerra estava baseada numa mentira escancarada. Em “Pensando o Século Vinte: Intelectuais e Política no Século Vinte”, escrito por Timothy Snyder, ele discursa sobre a complexidade da questão da mentira e da guerra, e do papel dessas coisas no esforço de tornar isso objeto de protesto, dizendo: “Quando a democracia faz a guerra, ela primeiro cria uma psicose da guerra...você tem de mentir, tem de exagerar, tem de distorcer e por aí....”.

Mais do que isso, parte do problema da democracia norte-americana no que concerne à guerra está conectado ao fato de que, como escreve Judt, “no século vinte, a América fez guerras sem custo para si mesma, em comparação ao custo para os outros países. Na Batalha de Stalingrado, o Exército Vermelho perdeu mais soldados do que a América já perdeu – soldados e civis juntos – em todas as guerras norte-americanas ao longo do século vinte. É difícil para os norte-americanos entenderem o que a guerra significa, e portanto é evidentemente fácil para um político enganar o seu povo ao levar a democracia para a guerra”.

Então, de onde vem a falsa imagem do sofrimento e do preço que os norte-americanos têm pagado em seus guerras? Dos filmes e programas de televisão. E nós adotamos a fantasia americana como ela fosse nossa.

Quem assistiu ao noticiário na semana passada deve ter pensado que era nosso (israelense) litoral que estava sendo inundado pelo Furacão Sandy. 

É verdade, essa fantasia tem claramente fontes reais. As entrevistas no rádio e na tevê com os israelenses que vivem nos Estados Unidos foram suficientes para demonstrar a extensão em que a classe média israelense pode ter um pé aqui e outro nos Estados Unidos: pessoas de negócios, professores trabalhando como convidados ou em ano sabático, experts em computadores, artistas, colegas estudantes, imigrantes, turistas. E aqueles de nós que ainda estão aqui? O que veem em suas telas de tevê é o que nós vemos em nossas, salvo pelas legendas que aparecem nas nossas.

Não há outro país ocidental no qual uma população inteira esteja exposta à cultura popular norte-americana por meio de sua televisão como Israel. Podemos lidar como isso com o lamento pela americanização de nossas vidas, e ainda assim é o caso prestar atenção ao que não é geralmente discutido como sintoma de nossas simbioses. 

Deixemos de lado a pauta trivial dos israelenses que vivem em Nova York e prestemos atenção em nossos protagonistas: o Primeiro Ministro Benjamin Netanyahu, que fez o ensino médio e a universidade nos Estados Unidos; Stanley Fischer, que nasceu no Zambia e estudou e ensinou nos EUA, tornou-se dirigente do Banco de Israel depois de trabalhar no Fundo Monetário Internacional e no Banco Mundial e fala um maravilhoso hebraico; Arthur Finkelstein, o consultor republicano baseado em Nova York que faz incitações contra os árabes para o ministro Avigdor Lieberman; Sheldon Adelson, o magnata dono de cassino e dono do mais patriótico jornal de Israel; Eli Tabib, que compra e vende times de futebol aqui e viaja para os Estados Unidos para fazer dinheiro lá. E esses são apenas alguns dos mais proeminentes exemplos de trocas entre múltiplas nacionalidades possíveis.

Mas há um conceito que permanece estrangeiro para os norte-americanos. Lá, sem entender o custo da guerra, os norteamericanos elegerão um presidente hoje – um líder que provavelmente afetará as vidas e as mortes de centenas de milhares de pessoas aqui. As milhões de pessoas no Oriente Médio assistem à devastação do Furacão Sandy (mesmo que não prestem em regra tanta atenção aos desastres naturais que devastaram o Haiti ou Bangladesh) não podem fazer nada nessa eleição importante, mesmo que ela venha a ter um efeito significativo em suas vidas. 

Tradução: Katarina Peixoto.

Extraído do sítio Carta Maior

22 outubro 2012

POLÍTICA EXTERNA DOS EUA NÃO VAI MUDAR DEPOIS DA ELEIÇÃO - Spencer Kimball


Obama e Romney se esforçam para expor diferenças nas suas propostas para a política externa. Mas o próximo presidente irá encarar uma dura realidade e terá pouca margem de manobra.

Durante a campanha eleitoral, o ex-governador de Massachussets Mitt Romney procurou apresentar uma alternativa à política externa do presidente Barack Obama. Romney anunciou que pretende liderar os Estados Unidos para o próximo "século americano" atuando com "clareza e firmeza" no cenário internacional.

A retórica de Romney mira a parcela do eleitorado que vê os EUA como o país mais importante do mundo, mas que perdeu influência por causa de dez anos de guerra e a pior crise financeira desde a Grande Depressão. Apenas 24% dos americanos dizem que seu país tem hoje um "papel mais importante" como líder mundial do que há uma década, segundo um estudo do Conselho de Chicago sobre Assuntos Globais.

"Quando Obama foi eleito, a avaliação predominante era a de que os Estados Unidos haviam se engajado demais em algumas regiões. Essa avaliação se manifestou claramente na decisão de sair do Iraque", comentou o especialista em política externa americana Stephen Walt, da Kennedy School of Government, na Universidade de Harvard. "Mesmo quando Obama decidiu se engajar ainda mais no Afeganistão, ele deu um prazo."

Durante a intervenção ocidental na Líbia, Obama liderou de forma indireta
Diferenças no tom

Os Estados Unidos, já envolvidos em conflitos em vários regiões do mundo, começaram a agir de forma mais cautelosa durante o governo Obama. Em maio de 2011, durante a guerra civil na Líbia, um assessor do presidente disse à revista New Yorker que ele estava "liderando por trás", ou seja, de forma indireta.

Em outras palavras, Obama apenas criou as condições políticas e logísticas para a ação dos aliados na Otan contra o avanço militar do coronel Muammar Kadafi sobre os rebeldes – sem que Washington tivesse que oficialmente liderar a intervenção.

A declaração foi lenha na fogueira dos conservadores, que rejeitam categoricamente que os Estados Unidos deixem a primazia em questões externas a uma outra nação ou organização. Durante a convenção republicana em Tampa (Flórida), em agosto deste ano, a ex-secretária de Estado Condoleezza Rice disse, sob aplausos, que "nós não temos escolha, não podemos ser relutantes ao liderar, e não se pode liderar por trás".

"Romney tende a adotar um tom mais triunfalista", diz Walt. "Ele claramente enfatizou seu compromisso com o que a maioria das pessoas chama de excepcionalismo americano, de que os EUA são uma nação diferente, com responsabilidades diferentes, e um conjunto de valores diferente do resto do mundo."

Romney enfatizou seu compromisso com o excepcionalismo americano
"A ameaça interna"

Mas a capacidade de um país afetado por problemas econômicos de liderar um mundo imprevisível e agitado por revoluções é limitada, opina o especialista em política externa americana Josef Braml, do Conselho Alemão de Relações Exteriores.

"Se Romney vencer, ele também terá de se adaptar à realidade", opina Braml. "Falar costuma ser fácil. Mas se ele de fato for eleito, terá de transformar suas ações em palavras, e aí vai perceber que será confrontado com as mesmas realidades."

Essas realidades não resultam de uma caótica ordem mundial em movimento, mas principalmente das alterações sociais e econômicas internas que dividem os Estados Unidos, diz Braml.

Ele argumenta que o deficit nos gastos das famílias e do governo alcançou um limite insustentável. E que o estímulo econômico e a extensão dos cortes de impostos do governo Bush estão alcançando o limite de sua efetividade. Ao mesmo tempo, o governo está paralisado por causa da briga entre a presidência democrata e uma Câmara dos Deputados dominada por republicanos.

"A maior ameaça aos EUA não é externa, ela vem da fraqueza interna", argumenta Braml. "Quando você olha para a avaliação da segurança nacional, é a mesma coisa. Não estou prevendo o desmoronamento de mais uma superpotência, mas devemos ter cuidado. A ameaça interna é muito importante e limita o espaço para manobras em outros assuntos."

Os EUA procuram reduzir a presença dos militares no Oriente Médio e na Ásia Central
"A discussão política termina à beira d'água"

Estas fraquezas internas – crescimento econômico abaixo do esperado e desemprego em alta – têm sido o foco primário da campanha presidencial e a área que marca as reais diferenças entre os dois candidatos, principalmente nos aspectos política fiscal e sistema de saúde.

Mas como o senador republicano Arthur Vandenberg disse em 1947, no começo da Guerra Fria, sobre a política externa americana: "A discussão política termina à beira d'água" [politics stops at the water's edge, ou seja, as questões políticas internas não devem ultrapassar as fronteiras do país e influenciar a política externa. "À beira d'água" é uma alusão às costas leste e oeste americanas]. Mesmo no país polarizado dos dias atuais, o ditado tem muito de verdade.

"Tanto republicanos como democratas estão comprometidos com a liderança americana no mundo. Eles estão comprometidos com os EUA permanecendo como o país com o maior poderio militar", diz Walt. "Eles estão convencidos de que os EUA precisam se envolver na resolução da maioria dos problemas internacionais. Ninguém fala seriamente sobre uma retirada e muito menos sobre isolamento."

Embora Obama tenha sido caracterizado como progressista pelos dois polos do espectro político na eleição de 2008, ele não fez jus à essa avaliação, dizem especialistas, ao menos nas questões internas. O Prêmio Nobel da Paz ampliou a presença no Afeganistão, aumentou o uso de aviões não tripulados no Iêmen e no Paquistão e procura impor sanções mais duras ao Irã.

"O problema central é que Obama, na verdade, tem conduzido uma política de centro, talvez até mesmo de centro-direita", diz Walt. "Não tem sido uma política externa de esquerda, de forma alguma. E isso deixa pouco espaço para Romney conseguir se diferenciar."

Extraído do sítio Deutsche Welle

13 setembro 2012

MUNDO ÁRABE EM PÉ DE GUERRA - Eliakim Araújo


A população e a mídia estadunidense ainda não absorveram totalmente o golpe que representou a morte do embaixador Christopher Stevens e seus três auxiliares, no consulado estadunidense em Benghazi, exatamente no dia em que o país celebrava os mortos nos atentados de 11 de setembro de 2001.

É claro que os atentados de 2001 foram muito mais graves, não só pelas perdas humanas e materiais, mas, sobretudo, porque escancaram a vulnerabilidade da nação apregoada então como a mais forte e poderosa do mundo. 

O ataque ao consulado em Benghazi, entretanto, tem componentes internos que não existiam há 11 anos, quando Bush estava começando seu primeiro mandato e até saiu politicamente fortalecido do episódio. Desta vez, o país vive uma feroz campanha eleitoral que divide o país entre o conservadorismo radical da direita e o pensamento liberal de um presidente que não conseguiu cumprir a maioria das promessas de campanha.

Enquanto em 2001 o país se uniu em torno da tragédia, independente de partidarismos, desta vez o republicano Mitt Romney, com o apoio da mídia conservadora, se aproveitou da situação para transformar o ataque ao consulado e a morte do embaixador em um fato político, numa evidente estratégia de conquistar dividendos eleitorais. Romney criticou a política externa da Casa Branca, classificando-a como fraca em relação aos países muçulmanos e de não proteger adequadamente escritórios e funcionários estadunidenses no exterior. As urnas dirão em novembro se a estratégia foi correta. Penso que não.

Na guerra de palavras que se seguiu, Obama cutucou o adversário – em entrevista ao “60 Minutes” - ao afirmar que Romney “tem a tendência de atirar primeiro para mirar o alvo depois”. Em seguida, deitou cátedra em cima do rival: “no exercício da presidência, aprendi que as declarações devem se basear em fatos e devem ser pensadas antes de serem ditas”.

Mas a verdade é que, política interna à parte, os Estados Unidos estão num beco sem saída. Não podem sair atirando e ameaçando deus e o mundo com seu poderio militar, como fez Bush. Ao contrário, na terça-feira, dia seguinte ao ataque, Obama e Hillary condenaram vigorosamente os assassinatos mas fizeram questão de afirmar que a Líbia continua sendo parceira e que o atentado não foi praticado pelo povo líbio, mas por alguns extremistas que serão apanhados com a cooperação do governo local.

Numa espécie de pedido de desculpas, a secretária Clinton foi à TV na manhã desta quinta-feira para dizer que os Estados Unidos não têm nada a ver com o vídeo anti-Islã e não concorda com seu conteúdo em nome do respeito e da liberdade de cultos religiosos prevista na Constituição do país.

O que se especula hoje, quinta-feira, é se o atentado foi ou não planejado. O fato de ter acontecido exatamente no aniversário da derrubada das torres gêmeas dá uma pista, pois o filme que deu motivo à revolta estava postado na internet desde julho. Nesse caso, especulam analistas militares, a Al Qaeda estaria por trás da ação.

Outra hipótese é de ter sido praticado por simpatizantes do ex-presidente Muammar Khadafi, cuja derrubada teve a forte participação da chamada “aviação aliada”, apoiada pela Casa Branca.

Certamente nenhum presidente gostaria de estar neste momento na pele de Barack Obama, que combate em duas frentes. Internamente, tendo que enfrentar a irresponsabilidade e o perigoso desconhecimento de Romney, que teve que encerrar uma entrevista às pressas porque se enrolou nas respostas aos repórteres, e externamente tendo que cobrar providências dos aliados do mundo árabe para a proteção de seu pessoal diplomático e de suas instalações.

Nesta quinta-feira, dois navios de guerra estadunidenses estão se deslocando para a costa da Líbia e um contigente de marines já foi despachado para dar proteção à embaixada naquele país. E as informações que circulam dizem que, pelo menos em sete países, há manifestações anti-americanas em torno das embaixadas dos EUA.

Extraído do sítio Direto da Redação

02 setembro 2012

ROTEIRO MAL CONSTRUÍDO - Antonio Tozzi


De repente, como ápice, surge um cidadão respeitado e monta uma cena insólita. O público vibra, vibra não, urra de gozo. Afinal, ele representa a doce vingança aos intelectuais que sempre os rejeitaram. Agora, eles sentem que são valorizados, estão certos, possuem a espada da justiça.

O preâmbulo serve para fazer uma imagem do que foi a convenção nacional do Partido Republicano com a presença de Clint Eastwood, simulando uma hipotética conversa com o presidente Barack Obama, pouco antes da entrada de Mitt Romney para receber a ovação dos correligionários, dar o discurso de aceitação e ser sagrado oficialmente o candidato do Partido Republicano, tendo como companheiro de chapa Paul Ryan.

A surpresa, como dissemos, ficou por conta de Eastwood. O ator, diretor e roteirista é hoje um dos mais respeitados no círculo cinematográfico de Hollywood, com filmes que comovem os espectadores, encantam os críticos e servem como referência para os atores, diretores e produtores de Hollywood.

Eastwood, aliás, é um exemplo clássico do profissional que soube dar a volta por cima. Depois de um início de carreira, no qual se notabilizou por fazer filmes de faroeste B, caiu no ostracismo juntamente com o gênero western que saiu de moda no circuito cinematográfico. O revisionismo mostrou que brancos matando índios para pegar terras não era mais uma boa mensagem e os conflitos resolvidos à bala também prejudicavam internacionalmente a imagem dos Estados Unidos, mostrando o país como uma terra sem lei.

A salvação dele veio através dos chamados westerns spaghettis, criado pelos italianos para reviver o gênero. Convidado a trabalhar na Itália, Eastwood voltou para os EUA mudado, para melhor. Além de ter aprendido a falar italiano, aprendeu também a linguagem dos grandes diretores de cinema italiano e levou para Hollywood o conceito europeu de cinema.

Claro que continuou fazendo a linha de durão, com Dirty Harry, um policial que fazia justiça à sua própria maneira. Mas à medida que o tempo foi passando ele foi para trás das câmeras e se notabilizou por escrever roteiros e dirigir filmes sensíveis. Tanto que se tornou um dos mais prestigiados diretores do cinema americano na atualidade.

Com um currículo dessa envergadura, fica estranho entender por que motivo um sujeito respeitado, com 82 anos de idade, se expôs ao ridículo desta forma. Ora, apoiar Romney e Ryan é um direito dele, por sinal, na contra-mão de 90% da fauna hollywoodiana que apoia Obama. O que chocou foi imaginar um diálogo em que claramente desrespeita o atual ocupante da Casa Branca.

Os republicanos, por sua vez, que odeiam Hollywood, por seu pensamento liberal, vibraram com a cena de mais de dez minutos em que ele tenta mostrar que Obama, em quem teria votado em 2008, não cumpriu suas promessas.

O irônico é que as duas promessas cobradas de Obama, que não se concretizaram, foram o fechamento da base militar de Guantanamo em Cuba e a retirada dos soldados do Afeganistão. A última já vem sendo cumprida, seguindo àquela realizada no Iraque e a primeira não foi fechada por oposição dos republicanos, apoiados pelos setores mais conservadores das forças armadas. Ou seja, se Romney for eleito, evidentemente estas promessas não serão cumpridas e o país ainda corre o risco de se envolver em outra guerra externa.

Do ponto de vista estratégico, outra crítica. Ora, quem garante que na convenção do Partido Democrata, que começa nesta terça-feira, não seja convidado um esquerdista mais radical de Hollywood – como Micahel Moore ou Sean Penn – para dar o troco em Eastwood. Aí, com certeza, será a vez dele e dos republicanos se queixarem de que “não estão respeitando a carreira de um homem deste naipe”.Mas, aí vale aquele velho ditado: “Quem fala o que quer ouve o que não quer”.

Em termos eleitorais, depois da festa democrata, é que vai começar de fato a batalha eleitoral. Porque as recentes pesquisas mostraram Romey na frente de Obama depois da convenção republicana. Isto é normal, porque os republicanos estiveram em evidência e atraíram toda a atenção da mídia americana. Esta semana o mesmo deve ocorrer com os democratas e provavelmente Obama recupere a liderança ou seja mantido o empate técnico. Os debates entre os dois candidatos é que devem ser decisivos para que os eleitores optem pelo candidato que julguem ser o melhor para governar os EUA nos próxmos quatro anos.

Extraído do sítio Direto da Redação

30 agosto 2012

COMO OS ESTADOS UNIDOS PERDERAM O RUMO - Paul Krugman e Robin Wells

Ao investigar impotência de Obama diante de Wall Street e guinada ultraconservadora dos republicanos, Krugman dispara: país entrou em crise com a democracia.


Na primavera de 2012, a campanha de Obama decidiu ir atrás da história de seu oponente, Mitt Romney, na Bain Capital, uma firma de administração de fundos privados [private equity] que se especializou em assumir o controle de empresas e multiplicar o capital de seus investidores – às vezes, promovendo seu crescimento, mas frequentemente às custas dos seus trabalhadores. Na verdade, houve vários casos em que a Bain conseguiu lucrar mesmo quando as empresas adquiridas foram à falência.

Havia razões política claras para tal atitude. O próprio senador Ted Keneddy havia suscitado, com sucesso, a história dos trabalhadores arruinados pela Bain, em sua campanha contra Ronney em Massachussetes, em 1994. Além disso, o único discurso possível para Romney, na atual disputa pela presidência, é sua afirmação de que pode, como um homem de negócios bem- sucedido, consertar a economia. Fazia todo o sentido apontar as muitas sombras que pairam sobre a história de negócios de Romney – e fisar que o que é bom para a Bain, definitivamente não serve aos Estados Unidos.

No entanto, enquanto escrevíamos este artigo, dois políticos destacados do Partido Democrata minaram a estratégia. Primeiro, Cory Booker, o prefeito de Newark, descreveu os ataques ao private equity como “repugnantes”. Depois, ninguém menos do que Bill Clinton apressou-se a descrever a história de Romney como “legítima”, acrescentando: “Não acho que devemos ficar na posição em que dizer: ‘este é um trabalho ruim’, ou ‘este é um bom trabalho’”. (Mais tarde, ele apareceu ao lado de Obama e disse que uma presidência de Romney seria “calamitosa”).

O está acontecendo? A resposta atinge o centro das decepções — políticas e econômicas – com o governo Obama.

Quando o presidente foi eleito, em 2008, muitos progressistas esperavam uma repetição do New Deal. A situação econômica era, afinal, muito semelhante. Como em 1930, um sistema financeiro descontrolado levou primeiro a excesso de endividamento privado; e, em seguida, a uma crise financeira. A contração econômica que se seguiu (e persiste até hoje), embora não tão severa quanto a Grande Depressão, mantém uma semelhança óbvia com a do século passado. Por que as políticas deveriam seguir um script semelhante?

Mas, embora a economia de hoje mantenha forte semelhança com a dos anos 1930, o cenário político não a acompanha — pois nem os democratas, nem os republicanos são o que eram outrora. Ao chegar à presidência com Obama, boa parte do Partido Democrata foi quase capturada pelos interesses financeiros que levaram à crise. Como mostraram os incidentes com Booker e Clinton, parte do partido permanece nesta condição. Enquanto isso, os republicanos tornaram-se extremistas a um ponto que nunca se imaginou, três gerações atrás. A oposição radical que Obama tem enfrentado em questões econômicas contrasta com o fato de que a maioria dos republicanos no Congresso votou a favor, e não contra, a principal conquista de Roosevelt: a lei instituiu a Seguridade Social nos EUA, em 1935.

Essas mudanças nos partidos políticos dos EUA explicam o motivo de não ter havido um segundo New Deal; e por que a resposta política à crise econômica prolongada tem sido tão inadequada. A captura parcial do Partido Democrata por Wall Street e o efeito de distorção que ela produziu na política são os temas centrais do livro de Noam Scheiber, The Escape Artists: How Obama’s Team Fumbled the Recovery [algo como “Os Escapistas: Como a equipe de Obama se atrapalhou na recuperação”], uma visão, a partir de dentro, das ações da equipe econômica de Obama, desde os primeiros dias transição presidencial até o final de 2011.

Scheiber começa tratando da influência que Wall Street exerceu sobre o conjunto da equipe econômica. Em suas primeiras páginas, ele conta como a campanha de Obama apoiava-se nos conselhos políticos de “acadêmicos obscuros, radicais sem muitos vínculos e burocratas ultrapassados” – a exemplo de Austan Goolsbee, um jovem professor de economia da Universidade de Chicago, e Paul Volcker, o octogenário embora ainda vigoroso ex-presidente do Federal Reserve [o equivalente americano do Banco Central – Nota da tradução]. Porém, em setembro de 2008, um outro grupo havia se formado e começou a disputar influência. Era composto por endinheirados de dentro do mercado. A maioria deles tinha trabalhado para o ex-secretário do Tesouro [equivalente ao ministro da Fazenda no Brasil – nota da tradução] de Clinton, Robert Rubin — que foi sócio da Goldman Sachs antes de integrar o governo de Bill Clinton e, após sair, tornou-se diretor, conselheiro e depois presidente do Citigroup. Eram os rubinistas.

Em pouco tempo, este grupo substituiu inteiramente a equipe anterior. Por exemplo, a pessoa encarregada de estudar possíveis contratações era Jason Furmam, economista de Washington que dirigiu o Projeto Hamilton, um think tank de tendência neoliberal fundado por Rubin e mantido por financistas simpatizantes do Partido Democrata. Mike Froman – um auxiliar de Rubin durante seu mandato como secretário do Tesouro (e que o acompanhara no Citigroup) — foi o chefe pessoal da equipe de transição formada por Obama. Foi Froman quem indicou e apoiou, posteriormente, Larry Summers e Tim Geithner como principais candidatos para o departamento do Tesouro.

Summers, economista de Harvard e ex-subsecretário do Tesouro de Robert Rubin, (mais tarde, seu substituto como secretário do Tesouro e também consultor de um fundo de hedge de Wall Street), seria o principal assessor econômico de Obama, na condição de diretor do Conselho Econômico Nacional. Geithner – que havia sido o braço direito de Summers na secretaria do Tesouro de Clinton e, mais tarde, presidente do Federal Reserve de Nova York – fora uma das três pessoas que agiram, no outono de 2008, para salvar os maiores bancos do país, em termos muito favoráveis a estes. Como Scheiber escreve: “Ao escalar Mike Froman como encarregado da contratação, Obama escolheu para seu governo um staff composto por infiltrados (do mercado financeiro) e gente do establishment”

O domínio dos rubinistas no novo governo chocou muitos progressistas. Para muitos a revogação da Lei Glass-Steagall, promovida por Bill Clinton e defendida por Robert Rubin (mas contestada por Paul Volcker, presidente do FED), simbolizava as relações muito amigáveis entre o governo Clinton e Wall Street, e ajudara a disparar a crise financeira de 2008. A lei Glass-Steagall, datada da época da Grande Depressão, proibia as instituições financeiras de manter contas bancárias garantidas pelo Estado e, ao mesmo tempo, atuar nos mercados de derivativos. Ela não teria impedido a implosão de 2008 em Wall Street. O incêndio teve como combustíveis os níveis extraordinariamente elevados de alavancagem de bancos de investimento como o Lehman e Merrill Lynch e a construção de imensos portfólios de hipotecas de segunda linha, por instituições como o Bank of America. Mas os progressistas estavam certos, ao lembrar que Wall Street fora perigosamente desregulada por muito tempo, e que todo o país agora estava pagando por isso.

No entanto, o novo governo se fez de surdo a estas preocupações. Como relata Scheiber, quando um senador democrata protestou que a equipe liderada por Geithner e Summers tinha sido muito simpática com Wall Street durante a década de 1990, Obama rejeitou as preocupações, afirmando que “precisava de pessoas com quem pudesse contar em uma crise. Além disso… eles tinham mudado”.

Foi algo como uma conspiração? Não – como Scheiber explica, tudo foi menos intencional e mais complicados do que parece. Por um lado, Obama tinha necessidade de ter mãos experientes credibilidade imediata, em meio à pior crise financeira desde a Grande Depressão. Por outro, pesou a inapetência do presidente por decisões politicas fortes. Mas também é claro que a personalidade de Obama e seu temperamento foram fundamentais para alinhar a sorte do presidente com a dos pupilos de Rubin. Como Scheiber observa com correção, Obama e Tim Geithner têm, em comum, infâncias similares como expatriados e um discreto estilo auto-depreciativo, que os leva a evitar o conflito direto. Sem dúvida, a equipe econômica dos sonhos de Obama deu-lhe a “afirmação intelectual” pela qual, observa Scheiber, “ele suplicava.”

Mas essa equipe, que pode ter dado a Obama afirmação intelectual, não lhe ofereceu deu conselhos muito bons. No fim das contas, a resposta de Obama à crise financeira foi desequilibrada e inadequada. Wall Street recebeu um resgate generoso, com poucas exigências de contrapartidas; os trabalhadores e proprietários de imóveis hipotecados foram abandonados, por planos impotentes de estímulo e redução das dívidas.

É verdade, nem todos os membros da equipe agiram errado. Sabemos hoje que especialmente Christina Romer, uma professora de Berkeley nomeada para chefiar o Conselho de Assessores Econômicos de Obama, reivindicou, desde o início, um estímulo econômico muito maior que proposto pelo governo. Mas Romer foi escanteada. Quem falava ao ouvido de Obama era Larry Summers — uma pessoa que não tem vergonha em mostrar seu brilhantismo. A princípio, isso poderia não fazer muita diferença. Enquanto acadêmico, Summers defende perspectivas econômicas keynesianas não muito diferentes das de Romer (ou das nossas). Mas, em vez de transmitir uma análise econômica sóbria, ele tentou mostrar sua astúcia política antevendo o que o Congresso estaria disposto a aceitar. Como resultado, deixou de defender a causa de um estímulo econômico maior.

Mas é Tim Geithner, o secretário do Tesouro de Obama, que aparece – ainda mais que o presidente – como o elemento decisivo desta saga. Em contraste com Summers – retratado por Scheiber como um rubinista flexível, disposto a alterar seus pontos de vista diante de provas e convencido, em especial, de que os acionistas de bancos socorridos podiam e devia pagar mais para os contribuintes – Geithner é descrito como um rubinista doutrinário, que enxerga, como sua principal tarefa, restaurar a confiança do mercado financeiro. Em sua cabeça, isso significa não fazer nada que possa perturbar Wall Street.

Um pacote de socorro financeiro era, sem dúvida, necessário. Mas Geithner atropelou Summers – e até mesmo Obama – desenhando um resgate no qual: (I) os contribuintes assumiram todo o risco, sem ganhar nada em troca; (II) as investidas especulativas do Goldman Sachs contra a AIG [American International Group, que chegou a ser a maior seguradora do mundo, faliu e foi resgatada pelo FED em 2008] foram honradas na íntegra e validadas graças ao resgate da empresa pelo governo; e (III) o plano de regulação dos mercados de derivativos foi, como disse um lobista, “o que o próprio mercado gostaria de ter formulado”. Não houve, é claro, debate algum sobre responsabilidade ou dolo, sequer uma insinuação de que os banqueiros tinham feito algo errado, ao colocando a economia em tal situação. Isso, afina, poderia “minar a confiança”…

Como Geithner conseguiu dominar tão completamente as políticas econômicas? Em parte, graças sua habilidade como articulador. Mesmo quando não podia ganhar uma disputa pelo argumento, ele o fazia por outros meios. Muitas vezes, ele simplesmente esperava as pessoas desistirem – foi sua tática com Rahm Emanuel, sabendo que a atenção maníaca deste acabaria desviando-o para outro assunto. E, crucialmente, Geithner foi autorizado pela falta de vontade de Obama em resolver impasses entre seus assessores. Quando a opinião pública manifestou seu ódio diante do socorro aos bancos, David Axelrod, Robert Gibbs, e Rahm Emanuel voltaram-se para Geithner e insistiram com ele para que acionistas de bancos pagassem algum preço, pelo resgate oferecido pelo governo ao setor bancário. Geithner simplesmente recusou-se a ceder, argumentando de modo capcioso que os bancos já haviam pago um preço, por serem forçados a levantar capital no mercado. Como Scheiber aponta com precisão, esta fala ignorava o fato de que, ao respaldar os bancos durante sua implosão autoinfligida, o governo norte-americano fornecera-lhes uma apólice de seguro de bilhões de dólares. No final, Geithner ganhou.

Se Geithner foi o designer ativo do plano de resgate de Wall Street, Obama foi o facilitador passivo da intransigência do Partido Republicano. Scheiber descreve como, por inúmeras vezes, a busca de soluções bipartidárias, por parte do presidente, deixou o partido mais conservador em vantagem. Scheiber observa que “na mente de Obama, ‘partidário’ está igualado a ‘paroquial’, ou mesmo a ‘corrupto’”, o que o levou a “fazer enormes concessões, antes mesmo que a negociação [sobre o estímulo à economia] tivesse começado”. Também ressalta que o apetite do presidente para ser aceito pelos dois partidos sempre foi “profundamente confuso” e que, ao contrário da abordagem de Obama, “as pressões dos partidos podem muito bem servir ao interesse público, quando não há outro caminho para passar a legislação”.

O centrismo inato de Obama levou-o a adotar a preocupação com o déficit orçamentário de Geithner e de Peter Orszag (o chefe do Escritório de Orçamento e Gestão, outro protegido de Rubin), desprezando os protestos verbais de Summers e Romer, para quem não era o momento de se preocupar com déficits. Como resultado, Obama nunca compreendeu que o estímulo econômico original foi suficiente. Esta posição deixou-o emparedado quando se tornou claro – já no verão de 2010, ou mesmo antes — que as medidas eram, na verdade, quase insignificantes.

O ponto mais baixo, no balanço de Scheiber, foi participação inepta de Obama nas negociações de 2010 sobre o destino dos cortes de tributos para os ricos, que haviam sido decretados no governo Bush. A própria equipe econômica, profundamente preocupada porque “o presidente estava ausente” do embate, passou a agir por conta própria. Foram Geithner e o antigo braço direito político de Clinton, Gene Sperling, que arrancaram concessões dos republicanos no acordo final, enquanto Obama ainda procurava um consenso. Outra vítima desse período foi a busca real de qualquer alívio da dívida para os proprietários de imóveis hipotecados. Por volta do final de 2010, tanto Summers quanto Romer deixaram Washington frustrados.

O livro de Scheiber é, portanto, uma história deprimente a respeito de quanto a influência de Wall Street sobre os democratas livrou o sistema financeiro de pagar pelo caos que provocou e evitar, de quebra uma regulamentação eficaz de sua atividade. Também conta como Obama foi incapaz de confrontar os republicanos mais intransigentes. Mas o que tornou este partido tão extremista? Este é, de diferentes maneiras, o tema de dois outros livros recentes: Pity the Billionaire [algo como “Coitados dos bilionários”] de Thomas Frank e The Age of Austerity [“A Era da Austeridade”] de Thomas Edsall.

Frank concentra-se no que chama de “algo único na história de movimentos sociais dos Estados Unidos: uma conversão em massa para a teoria do livre mercado como resposta aos tempos difíceis”. Trata-se de algo realmente notável. Afinal, por três décadas, antes da crise financeira norte-americana, as políticas públicas e a política institucional foram crescentemente dominadas pela ideologia do laissez-faire – a crença de que os mercados (e os mercados financeiros, em particular) devem ser autorizados a correr soltos. Depois, veio a queda inevitável. Mas, longe de exigir um retorno a uma maior regulamentação, grande parte do eleitorado norte-americano voltou-se para a visão de que a crise foi causada, em muito, pela intervenção do Estado. Em consequência, este setor agrupou-se em torno de políticos dispostos a mergulhar ainda mais fundo nas políticas que levaram à crise.

Como isso aconteceu? A resposta de Frank é que a causa foram os próprios resgates. Ao agir à la Geithner, socorrendo os banqueiros sem rédeas e sem culpa, o governo Obama deixou grande parte público norte-americano irritado e com a sensação – correta – de que alguém estava fugindo com algo. A direita foi hábil em explorar essa sensação. O famoso discurso de Rick Santelli da CNBC, em fevereiro de 2009 – que iniciou o movimento Tea Party – foi uma denúncia do TARP, o resgate aos grandes bancos aprovado nos últimos dias da administração Bush (embora uma enormidade de eleitores acreditem que foi aprovado no governo Obama). É verdade que Santelli dirigiu toda a sua ira para uma parte ínfima do TARP – a ajuda prevista aos proprietários de imóveis em dificuldades, que, em grande parte, nunca se materializou – evitando mencionar o socorro muito maior oferecido aos bancos. Mas pelo menos ele estava culpando alguém, coisa que o governo Obama recusou-se a fazer.

E na hora em que Obama começou, timidamente, a sugerir que alguns banqueiros poderiam ter se comportado relativamente mal, já era tarde demais. Todo o Partido Republicano (e grande parte do eleitorado) já tinha aderido a uma narrativa na qual a crise financeira de 2008 – que se seguiu a 14 anos de domínio da extrema-direita republicana no Congresso e a oito anos nos quais os conservadores linha-dura controlaram todos os três ramos do governo – foi causada… por excesso de intervenção do governo, para ajudar os pobres e, especialmente, os não-brancos. Nas palavras de Frank:

O culpado, para variar, é o governo…. Os funcionários forçaram os bancos a oferecer empréstimos especiais para uma minoria de tomadores (…) e toda a crise financeira foi resultado da interferência do governo.

Desse modo, a direita consegue reposicionar-se como suposta inimiga do odiado “Big Business” – não porque ele maneja negócios, mas porque seria “insuficientemente capitalista”. Não há melhor prova da circulação deste ponto de vista, pontua Frank, que um artigo de Paul Ryan [o vice-presidente na chapa de Mitt Rommey], na Forbes de 2009. Intitulado “Abaixo o Big Business”, o texto exorta: “cabe ao povo americano – inovadores e empreendedores, pequenos empresários… tomar uma atitude”.

Mas por que a direita foi tão mais capaz de aproveitar o momento que Obama e companhia? Já vimos uma parte da resposta: os democratas em geral, e o presidente em particular, estavam próximos demais de Wall Street, para lidar com uma crise que os mercados financeiros haviam criado. Frank também destaca um ponto importante: no clima político recente, a ignorância tem sido realmente uma força… É preciso lembrar que o universo intelectual hermético que a direita criou para si mesma – uma espécie de realidade alternativa, murada contra qualquer evidência que possa contradizer a fé nas maravilhas do livre mercado e os males da intervenção do governo – seria um peso para o Partido Republicano. E ele, de fato, destroi a capacidade de formular políticas reais. Em termos políticos, no entanto, a atitude tem dado aos republicanos unidade e certeza, onde os democratas apresentam-se fracos e divididos.

E de onde a unidade republicana realmente vem? Frank não explica isso, mas há uma teoria nova e boa em A Era da Austeridade de Thomas Edsall. Curiosamente, não se trata da teoria que o próprio Edsall expõe.

Sua tese ostensiva de Edsall, desenvolvida já no início do livro, é de há escassez, na raiz de nossas novas batalhas políticas. Teríamos penetrado numa nova era de jogo pesado na política institucional, porque o encolhimento da economia e um déficit orçamentário considerável tornaram impossível satisfazer as necessidades dos dois partidos políticos ao mesmo tempo

Os dois principais partidos políticos estão presos em uma luta de morte para proteger os benefícios e bens que fluem para suas respectivas bases, cada um tentando expropriar os recursos do outro. Estamos diante de um futuro brutal.

No entanto, o máximo de evidência que Edsall arrola em favor desta é apontar para as consequências da crise econômica — que não, de modo algum, uma crise de escassez, mas sim de políticas financeira e macroeconômica ruins. Por que, exatamente, deveria haver uma “luta de morte” por recursos, quando a economia norte-americana poderia produzir, segundo estimativas do Gabinete do Orçamento do Congresso, 900 bilhões de dólares a mais, em bens e serviços – bastando recolocar em movimento os trabalhadores desempregados, e outros recursos não-utilizados? Por que deve haver uma luta amarga em torno do orçamento, quando o governo dos EUA, embora reconhecidamente tenha grandes déficits, continua capaz de obter empréstimos às taxas de juros mais baixas da história?

A verdade é que a austeridade que Edsall enfatiza é mais o resultado do que a causa da nossa política amargurada. Temos uma economia deprimida, em grande parte, porque os republicanos bloquearam quase todas as iniciativas propostas por Obama para criar empregos, recusando-se até mesmo a confirmar as indicações do presidente para o conselho do Federal Reserve (Peter Diamond, economista do MIT laureado com o Nobel, foi rejeitado por falta de qualificações suficientes…). Vivemos uma batalha enorme em torno dos déficits não porque eles realmente representem um problema imediato, mas porque os conservadores encontraram na histeria em torno deles uma maneira útil para atacar programas sociais.

Então de onde vem a amargura da política vem? Edsall fornece grande parte da resposta. Nomeadamente, o que ele retrata é um Partido Republicano radicalizado não pela luta por recursos – a carga tributária sobre os ricos é a menor em várias gerações –, mas por medo de perder o controle político, numa nação em processo de mudanças. A parte mais marcante de A Era da Austeridade, pelo menos segundo nossa leitura, é o capítulo enganosamente intitulado “A Economia da imigração”. Ele não diz muito seu título; o que faz, em vez disso, é documentar em que medida os imigrantes e os seus filhos estão, literalmente, mudando a cara do eleitorado americano.

Como Edsall admite, a face em mutação do eleitorado tem tido o efeito de radicalizar o Partido Republicano.

“Para os brancos de inclinação conservadora”, ele escreve – e não é esta a própria definição da base republicana? – a mudança para uma nação de minoria-maioria [isto é, uma nação na qual as minorias compõem a maioria quantitativa] irá reforçar a visão já amplamente difundida, de que programas que beneficiam os pobres estão transferindo os dólares do contribuinte para minorias – dos brancos para negros, primeiro; e agora, além de tudo, para os “pardos”.

É a retórica de Rick Santelli bem aqui, diante de nós.

O Partido Republicano poderia, em princípio, ter respondido a essas mudanças, tentando redefinir-se como uma agremiação para além das pessoas brancas. Em vez disso, escreve Edsall, a resposta tem sido “apostar que podem continuar a ganhar como um partido branco, apesar da crescente força do voto minoritário.” E isso significa uma estratégia de tratoragem radical, que vai desde política de imigração até os tributos – passando, é claro, pela questão do estímulo econômico, que beneficiaria em alguma medida também as minorias.

O efeito imediato desse confronto amargo tem sido paralisar a política econômica na crise. Obama poderia ter se aproveitado de uma janela de oportunidade, em seus primeiros meses na presidência. Mas, como mostra Scheiber, essa janela se perdeu e houve pouca possibilidade de ação efetiva desde então. Por isso, a contração se arrasta. Mas, como Thomas Mann e Norman Ornstein dizem no título de seu novo livro, é ainda pior do que parece [It’s Even Worse Than It Looks, no título original em inglês]. Eles argumentam que o Congresso – e, na verdade, o sistema político norte-americano – está perto de chegar ao colapso institucional. Entramos em uma nova política de “tomada de reféns”, eles nos dizem, sintetizada pela batalha de 2011 sobre o teto da dívida. E eles sugerem que o fiasco da política macroeconômica em curso pode ser apenas o começo.

É um livro notável, embora deprimente livro, especialmente impressionante dada sua origem. Mann e Ornstein são estudiosos do Congresso profundamente respeitados, e seu livro parece, na aparência, sintetizar o tipo de esforço bipartidário que os insiders de Washington dizem amar. Mann está na Brookings Institution, liberal; Ornstein, no American Enterprise Institute, conservador. No entanto, eles rejeitam a tentação de nublar suas conclusões em nome de “equilíbrio”. O que o país enfrenta, escrevem, não é um problema com o partidarismo em abstrato, e sim um problema com um partido:

Embora a imprensa tradicional e analistas não-partidários tenham dificuldade em compreender, um dos dois principais partidos, o Republicano, rumou para um extremo ideológico; desdenhoso da herança social e política da ordem política americana; incapaz de assumir compromissos; não persuasível pelo entendimento convencional de fatos, provas, e ciência; pouco respeitoso com a legitimidade de sua oposição política. Quando um partido se move dessa forma, para tão longe do centro da política norte-americana, é extremamente difícil implementar políticas que respondam aos desafios mais prementes ao país.

E onde, em tudo isso, está a esperança, que foi tão difundida em 2008? Francamente, é difícil encontrá-la agora. O presidente Obama tem parte da culpa por isso; ele escolheu ouvir as pessoas erradas, e, possivelmente, perdeu sua melhor chance de transformar a economia (Só para ficar claro, isso não é uma sugestão que Mitt Romney faria melhor. Pelo contrário, Romney está profundamente comprometido com a falsa narrativa republicana sobre o que aflige a nossa economia, e todas as indicações são de que, se ganhar, irá agravar dramaticamente uma má situação). Mas, no final das contas, o problema de fundo tem a ver com personalidades ou lideranças individuais. Diz respeito à nação como um todo. Algo deu muito errado com os Estados Unidos. Não envolve apenas sua economia, mas sua capacidade de funcionar como nação democrática. E é difícil prever quando e como o dano poderá ser sanado.

Por Paul Krugman e Robin Wells*, no New York Review of Books | Tradução de Hugo Albuquerque, para o Outras Palavras

Extraído do sítio Revista Fórum