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20 abril 2012

QUEM ROMPE OS CONTRATOS? - Mair Pena Neto


Os defensores do mercado usam um argumento recorrente toda vez que um Estado nacional rompe relações com empresas privadas, seja por que motivo for. O alerta é de que contratos estão sendo rompidos, o que gera insegurança jurídica e fuga de investidores. Jamais se ouve desses arautos a defesa do Estado, mesmo que este tenha sido lesado nos ditos contratos que tanto prezam. A culpa é sempre dos governos, nacionalistas e jurássicos, que não sabem gerir negócios com a eficiência privada.

A cantilena ressurge agora com a decisão da presidente Cristina Kirchner de expropriar as ações da espanhola Repsol na YPF, petroleira argentina criada nos anos 1920, em torno de uma idéia de soberania nacional sobre um produto estratégico, e vendida nos anos 1990, durante a fúria neoliberal, personificada na Argentina pelo ex-presidente Menem, que iniciou o processo que levaria o país vizinho a uma das piores recessões da história e a uma crise institucional sem precedentes num regime democrático.

Sem entrar no processo de privatização em si, já motivo de questionamentos, a Repsol teria como compromisso, ao assumir o controle da empresa, ampliar a exploração e produção de petróleo e gás no país. Mas o que se viu, foi o movimento inverso. A Repsol reduziu a produção e duplicou suas receitas no último exercício, privilegiando a maximização de lucros no curto prazo e as remessas ao exterior.

De 1999 a 2011, o lucro líquido da Repsol-YPF foi de 16,45 bilhões de dólares, e a empresa distribuiu dividendos de 13,24 bilhões de dólares. Em 2011, a YPF representou cerca de 35% do Ebitda (lucro antes de impostos e amortizações) consolidado da Repsol e pagou cerca de 750 milhões de dólaresem dividendos. Ou seja, enquanto a empresa extraía o máximo de resultados, investia o mínimo na expansão da atividade, essencial para a Argentina e sua população.

A Repsol-YPF reduziu em 30% a 35% sua produção de petróleo nos últimos anos e em mais de 40% a de gás, o que obrigou a Argentina a aumentar em mais de 9 bilhões de dólares as importações de hidrocarbonetos. Os números do governo argentino indicam que, entre 2002 e 2011, a produção de petróleo no país recuou de 43,9 milhões de metros cúbicos para 33 milhões de metros cúbicos(dos quais 35% são produzidos pela Repsol-YPF). 

Antes do anúncio da expropriação, províncias petrolíferas argentinas já vinham retirando concessões de exploração da Repsol por falta de investimento. Um recente documento de dez províncias argentinas produtoras de hidrocarbonetos indicou quedas de até 18% na produção de petróleo e gás no país nos últimos dez anos.

Como observou Cristina Kirchner ao anunciar a expropriação, se “prosseguisse a política de esvaziamento, de falta de produção e de exploração, nos tornaríamos um país inviável, por políticas empresariais e não por falta de recursos, já que somos o terceiro país no mundo, depois da China e dos EUA, em reservas de gás”.

A falta de investimento da Repsol levou a Argentina a importar ano passado, pela primeira vez em 17 anos, gás e petróleo. O país que sempre foi conhecido pelo excedente de gás, fornecido a países vizinhos, passou a comprar o produto que dispõe em abundância, e cuja produção poderá se multiplicar com a exploração de Vaca Morta, um reservatório extraordinário descoberto na Bacia de Neuquém.

Depois do desastre neoliberal, a Argentina recuperou, diga-se de passagem nos governos Kirchner, o crescimento econômico, que reforçou o contraste entre o declínio da produção de hidrocarbonetos e a expansão do consumo de combustíveis. Entre 2003 e 2010, o consumo de petróleo e gás subiu 38% e 25%, respectivamente, e a produção caiu 12% e 2,3%. A balança comercial do setor petrolífero foi de um superávit de cerca de US$ 2 bilhões em 2010 para um déficit de cerca de US$ 3 bilhões em 2011.

Ao Estado, cabe controlar a produção de seus recursos estratégicos, com vistas ao futuro e ao bem estar de sua população. Isso pode ser feito em parceria com empresas privadas, desde que estas cumpram suas obrigações e tenham compromissos com os países onde operam, o que não parece ter sido o caso da Repsol.

Como observou Cristina Kirchner ao anunciar a expropriação, “não temos problemas com o lucro, mas sim espero que eles sejam reinvestidos no país: tenham a certeza que se acompanharem o país vamos seguir trabalhando lado a lado”.


Extraído do sítio Direto da Redação

16 abril 2012

O ATAQUE AO ENSINO PÚBLICO - Noam Chomsky

Os cortes de financiamento, os aumentos das propinas, a empresarialização das universidades, a instituição do ensino para o teste e outros mecanismos que pretendem destruir o interesse dos estudantes e moldá-los, são exemplos deste ataque. 

Manifestação de estudantes no Canadá. Fotografia de shahk


O ensino público está sob ataque em todo o mundo e, em resposta, realizaram-se protestos estudantis recentemente na Grã-Bretanha, no Canadá, no Chile, em Taiwan e noutros países.

A Califórnia também é um campo de batalha. O The Los Angeles Times informa sobre outro capítulo da campanha para destruir o que foi o maior sistema de ensino superior público do mundo: “Funcionários da Universidade Estadual da Califórnia anunciaram planos para congelar as matrículas na próxima primavera, na maioria dos campus, e para pôr em lista de espera todos os candidatos no próximo outono, dependendo do que for decidido sobre uma iniciativa fiscal na eleição de novembro.”

Cortes de financiamento semelhantes estão a ocorrer em todo o país. “Na maioria dos estados”, diz o New York Times, “são os pagamentos de propinas, não o dinheiro do estado, que cobrem a maior parte do orçamento”, de forma que “a era dos quatro anos nas universidades públicas a preços acessíveis, pesadamente subsidiadas pelo Estado, pode ter acabado”.

As faculdades comunitárias enfrentam cada vez mais problemas semelhantes – e os cortes de financiamento chegam ao ensino secundário.

A ideia de que beneficiamos, como nação, de uma educação superior, foi substituída pela crença de que são aqueles que recebem a educação que se beneficiam dela em primeiro lugar e por isso devem pagar a conta”, conclui Ronald G. Ehrenberg, administrador do sistema da Universidade Estadual de Nova York e diretor do Cornell Higher Education Research Institute.

A descrição mais precisa, penso eu, é “Erro de projeto” [Failure by Design], o título de um estudo recente do Economic Policy Institute, que desde há muito é uma importante fonte de informação confiável e de análise do estado da economia.

O estudo do EPI reexamina as consequências da transformação da economia, há uma geração, da produção doméstica à financeirização e à transferência da produção para outros países. Por projeto; sempre houve alternativas.

Uma primeira justificação para o projeto é o que o prémio Nobel Jospeh Stiglitz chamou de “religião” que afirma que “o mercado leva a resultados eficientes”, e que recentemente enfrentou mais um revés esmagador com o colapso da bolha imobiliária, ignorada por princípios doutrinários, desencadeando a atual crise financeira.

Houve também denúncias de alegados benefícios da expansão radical das instituições financeiras desde os anos 70. Uma descrição mais convincente foi dada por Martin Wolf, correspondente económico sénior do Financial Times: “Um setor financeiro fora de controlo está a devorar a moderna economia de mercado desde dentro, tal como uma larva da marabunta come o hospedeiro onde foi depositada.”

O estudo da EPI observa que o “Erro de Projeto” tem uma base de classe. Para os projetistas, foi um clamoroso sucesso, tal como revela a espantosa concentração de riqueza no 1% de topo, de facto no 0,1%, enquanto a maioria foi reduzida à virtual estagnação ou ao declínio.

Em resumo, quando têm oportunidade, “os Senhores da Humanidade” aplicam a sua “máxima vil” – “tudo para nós e nada para os outros”, como há muito explicou Adam Smith.

O ensino público massificado é uma das grandes conquistas da sociedade americana. Teve muitas dimensões. Um objetivo foi preparar agricultores independentes para a vida de trabalhadores assalariados que tolerassem o que encaravam como virtual escravidão.

O elemento coercivo não passou despercebido. Ralph Waldo Emerson observou que os líderes políticos defendem a educação popular porque temem que “Este país está a encher-se de milhares e milhões de eleitores, e é preciso educá-los para os manter longe das nossas gargantas.” Mas educados de forma correta: limitando as suas perspetivas e compreensão, desencorajando o pensamento livre e independente e formando-os na obediência.

A “máxima vil” e a sua implementação provocaram regularmente uma forte resistência, que por seu lado despertou os mesmos temores entre a elite. Há 40 anos, houve grande temor de que a população se estivesse a libertar da apatia e da obediência.

No extremo internacionalista liberal, a Comissão Trilateral – um grupo político não governamental a partir do qual foi desenhada em grande parte a administração Carter – tornou públicas em 1975 sérias advertências de que havia demasiada democracia, em parte devido a erros das instituições responsáveis pela “doutrinação dos jovens”. Na direita, um importante memorando de 1971, assinado por Lewis Powell, dirigido à Câmara de Comércio dos EUA, o principal lóbi empresarial, lamentava que os radicais estavam a tomar tudo – universidades, média, governo, etc. – e apelava à comunidade empresarial para que usasse o seu poder económico para reverter o ataque ao nosso apreciado modo de vida – que ele bem conhecia. Como lobista da indústria do tabaco, conhecia bem o Estado paternalista para com os ricos ao qual chamava de “mercado livre”

Desde então, muitas medidas foram tomadas para restaurar a disciplina. Uma é a cruzada pela privatização – pondo o controlo em mãos confiáveis.

Outra foi o grande aumento das propinas, até perto de 600 por cento, desde 1980. Este aumento produziu um sistema de ensino superior com “muito mais estratificação económica do que em qualquer outro país”, segundo Jane Wellman, ex-diretor do Delta Cost Project, que monitoriza estas questões. Os aumentos de propinas empurram os estudantes para a armadilha das dívidas de longo prazo e, assim, a subordinação aos poderes privados.

Dão-se justificativas de base económica, mas muito pouco convincentes. Em países ricos e pobres, incluindo o vizinho México, as propinas mantêm-se gratuitas ou simbólicas. Isto era assim também nos Estados Unidos, quando eram um país muito mais pobre, depois da Segunda Guerra Mundial e muitos estudantes conseguiam entrar nas universidades sob a lei GI1 – um fator de crescimento económico singularmente alto, mesmo pondo de lado o significado em termos de melhoria de vida.

Outro dispositivo é a empresarialização das universidades. Esta levou a um dramático aumento das camadas da administração, muitas vezes recrutadas fora em vez de serem oriundos da faculdade, como antes; e a imposição de uma cultura empresarial da “eficiência” – uma noção ideológica, não apenas económica.

Um exemplo disto é a decisão das universidade estaduais de eliminar os programas de enfermagem, engenharia e ciências da computação, porque são caros – e acontece que são profissões onde há falta de mão de obra, como informa o The New York Times. A decisão prejudica a sociedade, mas está de acordo à ideologia empresarial dos ganhos de curto-prazo sem consideração pelas consequências humanas, de acordo com a máxima vil

Um dos efeitos mais insidiosos afetam os professores e monitores. O ideal das Luzes na educação era plasmado na imagem do ensino como uma corrente que os estudantes seguiam a seu modo, desenvolvendo a sua criatividade e independência de espírito.

A alternativa, a ser rejeitada, é a imagem de derramar água num vaso – muito furado, como todos sabemos da experiência. Esta última abordagem inclui o ensino para o teste e outros mecanismos para destruir o interesse dos estudantes e procurar moldá-los, de forma a melhor controlá-los. Hoje, isso é tudo muito familiar.

4 de Abril de 2012
Publicado originalmente em Truthout
Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net

1 Lei que estabelecia uma gama de benefícios para os veteranos que regressavam da II Grande Guerra (os GI's), que incluíam empréstimos à habitação bonificados, empréstimos para arrancar um negócio ou uma fazenda, pagamento de propinas e despesas para frequentar a universidade, o ensino secundário ou a educação vocacional, assim como um ano de compensação de desemprego. (N.T.)


Extraído do sítio Esquerda.net

13 abril 2012

PORQUÊ O SILÊNCIO SOBRE A ISLÂNDIA? - Theo Buss



Os acontecimentos que sucederam ao desencadear da crise na Islândia - demissão em bloco do governo; nacionalização da banca; referendo, de modo a que o povo se pronuncie sobre as decisões económicas fundamentais; prisão dos responsáveis pela crise e reescrita da Constituição pelos cidadãos – têm sido sistematicamente silenciados. Compreende-se porquê. Mas há a necessidade de divulgar esse exemplo.

Se há quem acredite que nos dias de hoje não existe censura, então que nos esclareça porque é ficámos a saber tanta coisa acerca do que se passa no Egipto e porque é que os jornais não têm dito absolutamente nada sobre o que se passa na Islândia.

Na Islândia:

- o povo obrigou à demissão em bloco do governo;

- os principais bancos foram nacionalizados e foi decidido não pagar as dívidas que eles tinham contraído junto dos bancos do Reino Unido e da Holanda, dívidas que tinham sido geradas pelas suas más políticas financeiras;

- foi constituída uma assembleia popular para reescrever a Constituição.

Tudo isto pacificamente.

Uma autêntica revolução contra o poder que conduziu a esta crise. E aí está a razão pela qual nada tem sido noticiado no decurso dos últimos dois anos. O que é que poderia acontecer se os cidadãos europeus lhe viessem a seguir o exemplo?

Sinteticamente, eis a sucessão histórica dos factos:

- 2008: o principal banco do país é nacionalizado. A moeda afunda-se, a Bolsa suspende a actividade. O país está em bancarrota.

- 2009: os protestos populares contra o Parlamento levam à convocação de eleições antecipadas, das quais resulta a demissão do primeiro-ministro e de todo o governo. A desastrosa situação económica do país mantém-se. É proposto ao Reino Unido e à Holanda, através de um processo legislativo, o reembolso da dívida por meio do pagamento de 3.500 milhões de euros, montante suportado mensalmente por todas as famílias islandesas durante os próximos 15 anos, a uma taxa de juro de 5%.

- 2010: o povo sai novamente à rua, exigindo que essa lei seja submetida a referendo. Em Janeiro de 2010, o Presidente recusa ratificar a lei e anuncia uma consulta popular. O referendo tem lugar em Março. O NÃO ao pagamento da dívida alcança 93% dos votos. Entretanto, o governo dera início a uma investigação no sentido de enquadrar juridicamente as responsabilidades pela crise. Tem início a detenção de numerosos banqueiros e quadros superiores. A Interpol abre uma investigação e todos os banqueiros implicados abandonam o país. Neste contexto de crise, é eleita uma nova assembleia encarregada de redigir a nova Constituição, que acolha a lições retiradas da crise e que substitua a actual, que é uma cópia da constituição dinamarquesa. Com esse objectivo, o povo soberano é directamente chamado a pronunciar-se. São eleitos 25 cidadãos sem filiação política, de entre os 522 que apresentaram candidatura. Para esse processo é necessário ser maior de idade e ser apoiado por 30 pessoas.

- A assembleia constituinte inicia os seus trabalhos em Fevereiro de 2011 a fim de apresentar, a partir das opiniões recolhidas nas assembleias que tiveram lugar em todo o país, um projecto de Magna Carta. Esse projecto deverá passar pela aprovação do parlamento actual bem como do que vier a ser constituído após as próximas eleições legislativas.

Eis, portanto, em resumo a história da revolução islandesa:

- Demissão em bloco de um governo inteiro;

- Nacionalização da banca;

- Referendo, de modo a que o povo se pronuncie sobre as decisões económicas fundamentais;

- Prisão dos responsáveis pela crise e

- reescrita da Constituição pelos cidadãos:

Ouvimos falar disto nos grandes media europeus?

Ouvimos falar disto nos debates políticos radiofónicos?

Vimos alguma imagem destes factos na televisão?

Evidentemente que não!

O povo islandês deu uma lição à Europa inteira, enfrentando o sistema e dando um exemplo de democracia a todo o mundo.

Extraído do sítio ODiario.info

PORTUGAL, UM ANO NAS MÃOS DA TROIKA - Antonio Barbosa Filho


Direita no poder, demissões, restaurantes vazios, moradores de rua. Retratos de um país rendido (por enquanto…) à ditadura das finanças
LISBOA: Bem longe de qualquer comemoração, Portugal completou em 11 de abril o primeiro ano do acordo de “ajuda” que recebeu da troika1 (Comissão Européia, Banco Central Europeu e FMI), no valor de 78 bilhões de euros. Pouco antes daquela data, o então primeiro-ministro socialista José Sócrates anunciara que o governo só tinha recursos para pagar o funcionalismo público até maio, mas ainda resistia a um pedido formal de ajuda externa.

“Entre nós e o FMI, há dez milhões de portugueses”, ele declarou, para dias depois desmentir-se: “É preciso dar este passo. Não tomar esta decisão acarretaria riscos que o país não deve correr”. Quando o governo viu rejeitado pelo Parlamento o seu Programa de Estabilidade e Crescimento, contendo as linhas de combate à dívida pública e ao endividamento privado, aqui englobados os bancos, as famílias e as empresas, perdeu as condições de administrar a crise.

As reações no Parlamento fizeram com que Sócrates entregasse seu cargo ao presidente Cavaco e Silva. As eleições, em 5 de junho do ano passado, trouxeram de volta a direita ao poder. Sob um gabinete liderado desde então por Pedro Passos Coelho, numa coligação CDS-PP, a troika já procedeu a três avaliações sobre o desempenho do programa acordado, e tem aprovado o seu cumprimento, sempre exigindo um ou outro ajuste: o salário-desemprego, por exemplo, já foi reduzido de 38 para 26 meses, mas a troika pretende que o limite seja de 18 meses.

Ao analisar o processo econômico deste ano de ajustes, as opiniões variam bastante, havendo apenas um ponto comum: os portugueses estão se sacrificando ao máximo para obedecer as imposições das autoridades financeiras europeias e do FMI. Como afirmou Nuno Magalhães, o líder parlamentar do bloco conservador CDS-PP, há um “cumprimento escrupuloso do programa por parte do governo português (…) Isso não é mérito só, nem sequer principalmente, do governo, mas sobretudo mérito e mobilização dos portugueses”

O que o deputado governista chama de “mobilização” do povo traduz-se em alguns números. Taxa de desemprego (oficial) de 15%, um recorde histórico; 1050 empresas falidas no primeiro bimestre deste ano, o que dá a média de 17,5 empresas por dia – há um ano eram 11,8; corte de 200 milhões de euros nos contratos entre governo e hospitais, obrigando os usuários a pagarem até 100% mais, em consultas e urgências em hospitais e centros de saúde; e até queda na taxa de natalidade.

Crise nas ruas: Os economistas e políticos debatem os grandes números e sempre apresentam previsões otimistas que, aos poucos, o tempo afasta. Os cortes dos subsídios de Natal (uma espécie de 13º salário) e de férias dos servidores públicos surgiram como uma emergência para 2012, mas já se admite que irão até 2015.

Por essas e outras prorrogações nas medidas de austeridade, o ministro das Finanças, Vitor Gaspar, foi chamado de “mentiroso” na Assembleia da República. Como disse o deputado comunista Honório Novo, ao interpelá-lo: “O senhor veio desmentir e contrariar o primeiro-ministro? Ou veio dizer que foi enganado pelo primeiro-ministro? Ou vem-nos recordar que 2015 é ano de eleições?” Muitos portugueses acham que o governo está forçando as medidas recessivas além do necessário para poder afrouxá-las quando as eleições estiverem próximas e colher os votos da população aliviada.

O que se ouve nas ruas é um misto de lamento e revolta. O trabalhador comum tem uma renda de 600 euros por mês, em média, insuficiente para a manutenção sequer de um casal sem filhos. No ano passado, o PIB caiu 3,0%, e o próprio governo prevê queda um pouco maior neste ano, provavelmente 3,6%. A população vê tais prognósticos como um sinal de que nada vai melhorar a curto prazo.

Daí o êxodo, que em 2011 levou 150 mil portugueses a saírem do país (número aproximado), boa parte para o Brasil e Angola. Gastos básicos como a energia elétrica estão sendo reduzidos pelas famílias: queda de 7,3% em março. O tráfego de veículos caiu em dezembro entre 18 e 30% nas principais vias interregionais – culpa direta dos frequentes aumentos de preço da gasolina, hoje na média de € 1,78 o litro, outro recorde.

A venda de automóveis despencou pela metade em março, e a de telefones celulares caiu 17% no último trimestre de 2011. Mais grave: o consumo de alimentos reduziu-se em 2% no primeiro trimestre, especialmente o de carnes e peixes. A ida a restaurantes tornou-se um item supérfluo no orçamento doméstico. Nos acolhedores cafés da Alfama ou do Chiado, ouve-se vários idiomas, mas o português é só dos turistas brasileiros, em número crescente. Maior número de portugueses está levando comida de casa para o trabalho.

Nas ruas de Lisboa, encontra-se um “homem-estátua” a cada 100 metros, um músico tocando saxofone ou guitarra a cada 50 metros, todos em troca das moedas dos turistas estrangeiros. Vê-se gente dormindo nas ruas, um quadro que não era comum na Lisboa dos anos 90 ou até quatro anos atrás. Há quem diga por aqui que a culpa é dos governos que gastaram mais do que deviam gastar, e agora chegou a hora de pagar a conta. Isso viria desde a entrada de Portugal na zona do euro, mas ninguém acredita que seria melhor deixá-la, ao contrário. Fala-se que houve muita corrupção com os fundos europeus recebidos durante o processo de integração, e que deixou-se enfraquecer as atividades econômicas próprias, como a agricultura, a pesca e a indústria. O cidadão comum não vê por onde deva começar uma recuperação.

O sentimento popular dominante, pela menos na capital, é aquele sintetizado pelo deputado do PCP, Pedro Filipe Soares, nesta semana de infausto aniversário: “Todos os maus presságios que se anunciavam, vemos que se tornaram realidade, porque há aqui um fanatismo pela austeridade que está a destruir a economia do país e a criar um desemprego nunca visto em Portugal”.

1Troika – o apelido que os europeus deram ao trio de organizações multilaterais citadas, é também uma óbvia alusão aos governos autoritários e burocráticos que, formados por três dirigentes principais, dirigiram a União Soviética, após 1956.

* Antonio Barbosa Filho é jornalista e escritor, autor de A Bolívia de Evo Morales e A Imprensa x Lula – golpe ou sangramento? (All Print Editora). Em viagem pela Europa, acompanha as consequências da crise financeira pós-2008 e da onda corte de direitos sociais (‘políticas de austeridade’) iniciada em 2010.


Extraído do sítio Outras Palavras

12 abril 2012

TEMPOS DIFÍCEIS - Antonio Baylos


A saída da crise que tem varrido a Europa se resume no relançamento dos benefícios empresariais e na desestruturação dos sujeitos coletivos que representam ao trabalho assalariado. Para isso se atua diretamente no terreno da produção, mediante as chamadas “reformas estruturais” que conduzem à modificação permanente da regulação trabalhista, e simultaneamente no terreno social, debilitando e em alguns casos, destruindo literalmente as estruturas de assistência, de proteção e de defesa econômica dos cidadãos colocados em uma situação de subalternidade social, extinguindo as noções de serviço público e de gratuidade nas prestações básicas. É um desenho já experimentado na década de 90, em países em via de desenvolvimento, como a América Latina, e que tem gerado um evidente efeito destrutivo sobre o ambiente social, ecológico e cultural deste mundo global.

Este é o profundo significado da contrarrevolução que se iniciou nos anos 80 na Inglaterra de Thatcher e nos Estados Unidos de Reagan. A relação destas políticas de destruição e privatização das estruturas sociais que garantiam níveis mínimos de cuidado e de serviço com a escassez e a geração de novas chantagens sobre o trabalho em um mercado trabalhista a cada vez mais informal e flexível, é um fenômeno político manifestado por muitos analistas.

No caso espanhol, esta dupla via de ação contra o público e o coletivo acompanha-se de uma crise das garantias democráticas básicas, virtualmente suprimidas no curso de um processo de reformas e de tomada de decisões justificadas na necessidade ou na irresistível imposição externa dos poderes econômicos e financeiros. A crise da democracia – “por acima” e “por abaixo” na explicação de Ferrajoli – acentua-se e os rituais democráticos fundamentais, as eleições políticas, o projeto diferenciado de sociedade que apresentam os partidos, o respeito da vontade popular expressada nos resultados eleitorais, resultam como conseqüência em práticas políticas justificadas como reação ante a crise.

A indiferença do projeto político defendido pelos dois grandes partidos institucionalizados e a anulação de qualquer vislumbre de soberania popular na adoção de medidas de alcance geral é uma realidade encorajada por meios de comunicação dominados por um poder econômico concentrado, que esvazia de conteúdo o direito a uma informação veraz, anulando suas garantias. As reformas trabalhistas realizaram-se desde maio de 2010 – pelo procedimento de excepcional urgência e necessidade –, evitando a discussão prévia e pública no parlamento dos textos de reforma. A reforma da Constituição, que tem restringido de forma importante o alcance e a extensão da cláusula social da mesma, se efetuou – “com sentido de Estado” – mediante um pacto entre as oligarquias burocráticas dos partidos majoritários, deixando de submeter expressamente ao texto o referendo da vontade popular.

Os mecanismos democráticos apresentam-se como “formalismos” que enervam a tomada de decisões “necessárias”, de maneira que se deixam de lado na prática da “governança” cotidiana e se substituem por impulsos e automatismos predeterminados e codificados em outro lugar, no “nível adequado” onde se adotam as decisões determinantes, e cuja tradução nos diferentes espaços nacionais se realiza com cada vez maior opacidade e autoritarismo.

A última experiência espanhola, onde as reformas postuladas não são conhecidas pelos cidadãos até sua aprovação pelo Conselho de Ministros, tem gerado um estilo de governo quase profético no que se nota que estes tempos são maus, mas virão tempos piores, onde as reformas “mais dolorosas” para a cidadania estão por chegar, e ainda que não se saiba em que vão consistir, é certo que chegarão e “exigirão mais sacrifícios”. É possível que, praticando tal hermetismo, ameaçando a sofrida cidadania social, imagens variadas de distopias atravessadas por angustiosos pesadelos e de uma sensação de medo invencível ao futuro com efeitos paralisantes. Sem excluir esta intenção de influir no imaginário social, a opacidade governamental explica-se publicamente sobre a base de que o conhecimento das medidas concretas a ser adotadas teria consequências negativas na eleição andaluz, por celebrar o 25 de março para o partido vencedor.

Desta maneira, é explícita a concepção negativa que o governo tem das eleições, que não considera um momento decisivo de formação livre da opinião pública. “Agora não toca” conhecer o que o governo pretende fazer não seja que seu programa de governo possa ser valorizado – positiva ou negativamente – pelos cidadãos através do procedimento de eleição democrática. Não se trata por tanto de comportamentos já conhecidos de não-cumprimento do programa apresentado aos eleitores como um “contrato” em frente ao que cabe uma responsabilidade política ou moral, senão da consideração do julgamento cidadão sobre o projeto político como algo sem importância. A liturgia eleitoral simboliza o prêmio ou o castigo aos governantes pelo que têm feito (ou pelo que não têm feito), mas não permite decidir como se deve governar.

A dupla via de intervenção em frente à crise, no terreno da produção e no terreno social, foi-se despregando na Espanha desde maio de 2010 através de um processo ininterrupto de mudanças normativas em uma escalada articulada entre disposições estatais e de comunidades autônomas. No primeiro terreno, o da produção, o regulamento espanhol tem aprofundado paulatinamente em forçar espaços cada vez maiores de flexibilizações do trabalho em paralelo a um processo intenso de erosão da negociação coletiva e de dês-sindicalização de territórios extensos da produção de bens e serviços, não necessariamente coincidentes com a pequena e média empresa. Estes processos de desregulação coletiva implicam mo fortalecimento do poder unilateral dos empregadores, na disposição do emprego e do tempo de trabalho. Não buscam a geração de emprego, como se afirma monotonamente pelos dirigentes governamentais e as autoridades monetárias, senão a desestruturação do esquema representativo coletivo do trabalho e seu confinamento em um nível de implantação reduzido, reduzindo progressivamente seu poder de negociação e de mediação representativa.

A idoneidade da lei trabalhista para a criação de emprego é uma conclusão fundamentada unanimemente pelos juristas do trabalho.

Muito recentemente a ex-presidenta do Tribunal Constitucional recordou-o em sua lição magistral ao ser-lhe conferido o título Honoris Causa na Universidade Carlos III, de Madri. Analisando nela a função da lei trabalhista, à que se acusa de destruir o emprego, reduzir seu campo de aplicação a um grupo de “insiders” e, cuja reforma, por tanto, tem de ter virtudes evidentes na geração de emprego.

A professora Casas explica que esta suposta capacidade criadora de postos de trabalho da lei de reforma da legislação trabalhista é negada teimosamente pelos fatos, em especial respeito da experiência espanhola de 2010 e 2011. “A lei trabalhista reformadora parece ter se convertido em uma espécie de caminho de ‘tira e põe’ como o que possuía o Mago Merlín e família, ao serviço da geração de emprego”. Os encantamentos não são próprios da legislação de trabalho, e “as últimas reformas legislativas trabalhistas, ordenadas ‘a recuperar a senda da criação de emprego e reduzir o desemprego’, não o conseguiram, e isso pese a ter situado aos empresários ‘em uma posição muito melhor’ ante os riscos da contratação de trabalhadores que tinham leis cuja regulação, em mudança, prejudicou quase oito milhões de pessoas de 1995 a 2007” (…) “A instabilidade crônica das normas sobre política de emprego e modalidades de contratação trabalhista ou os contínuos ensaios sobre formação profissional e intermediação trabalhista provam a radical e inegável capacidade dessas urgentes e fragmentárias normas reformadoras, sucessivas para conseguir os fins que querem atingir. Em sua reforma continuam o reconhecimento mesmo que falho”.

Desta maneira, conclui, “desse modelo de regulação trabalhista que se foi desenhando a golpe de reformas sucessivas, tem resultado um Direito do trabalho que nem sequer sustenta ao conjunto dos trabalhadores e não se compensa nem corrige as desigualdades fundamentais que têm aumentado notavelmente entre aqueles, ao mesmo tempo em que assenta um modelo econômico de baixa produtividade. Sua superação é uma necessidade quase unânime e um assunto absolutamente fundamental”.

Esta conclusão tão assertiva como desoladora é algo que todos conhecem. As posições governamentais e empresariais que seguem reiterando como um mantra, a necessidade de seguir reformando a lei trabalhista como condição para a recuperação econômica e a criação de emprego. Eles sabem perfeitamente que utilizam um argumento falso, que não resiste à comparação histórica com os ciclos de criação e destruição de emprego em nosso país, nem pode explicar as diferenças abismais entre as diferentes regiões espanholas em razão do nível de emprego correspondente.

Este consciente da falsidade tem que ver desde depois com o rendimento eficaz em termos de opinião pública na justificativa desta desregulação progressiva. Também com a necessidade de desmontar as resistências culturais à flexibilização acelerada do trabalho, que se manifesta na opinião do premiê italiano “não político” ou “técnico”, o financeiro Monti, sobre o “tédio” de um trabalho estável, definido como uma espécie de corrente perpétua na que o trabalhador se encontra encadeado a um mesmo posto de trabalho por toda a vida. O reverso desta afirmação é o verdadeiramente significativo: os jovens devem acostumar-se a que só obterão em sua vida trabalho precário, temporário, instável.

Mas o ligamento constante entre criação de emprego e desregulação trabalhista tem também, como os problemas matemáticos, uma pergunta oculta. E esta é uma interrogação fundamental para o Direito do Trabalho. Trata-se de responder a questão central sobre a conveniência ou a inconveniência do sindicato e do coletivo como elemento significativo e em alguns supostos determinante, na regulação das relações de trabalho, do projeto contratual e de sua execução. A resposta ainda não é explícita como a própria pergunta, mas é crucial para a resolução do problema. É seguro que existem tendências contrapostas que impedem uma tomada de postura clara por parte do empresariado.

Um importante setor do mesmo, no que pesa decisivamente a experiência histórica de trinta anos de acordo social e de prática da negociação coletiva, entende conveniente a presença sindical e sua capacidade de mediação representativa, ainda que quer sacar da crise uma consolidação de sua posição dirigente. A assinatura do II Acordo para o emprego e a negociação coletiva para os anos 2012 – 2014 entre CEOE-CEPYME e os sindicatos confederados responde a esta ideia, e para além da regulação salarial que propõe, a atenção se deve focalizar na confirmação que este instrumento realiza da negociação coletiva como método prioritário de regulação das relações de trabalho, e as previsões que nele se estabelecem sobre a estrutura da negociação coletiva, os procedimentos de inaplicação do convênio setorial e o amplo espaço concedido às medidas de flexibilidade interna como fórmula de intercâmbio ante a redução de planilhas e as extinções de contratos como medidas organizativas das empresas nesta crise.

Com isso o sindicalismo entende que pode preservar o núcleo de seu poder contratual, legitimado e reconhecido mediante o pato com o empresariado. No entanto, o Acordo não fecha a possibilidade de uma nova reforma trabalhista. São muito fortes as pressões a seguir degradando as garantias do emprego e a emagrecer o peso que tem a dimensão coletiva nas relações de trabalho, substituindo por uma visão organizativa definida unilateralmente pelo poder privado do empresário. E o novo governo tem anunciado, efetivamente, que procederá a legislar sobre esta matéria de forma tal, que espera que os sindicatos convoquem uma greve geral contra a mesma.

Por tanto são previsíveis interferências e “turbulências” da lei reformadora sobre o esquema fixado na negociação coletiva. A lei 35/2010 interveio desautorizando uma boa parte dos conteúdos pactuados no I Acordo para o emprego e a Negociação Coletiva 2010-2012, e reduzindo o campo de atuação do poder regulador coletivo do sindicato, pelo que é possível que também o governo do PP retome a prática já experimentada na crise de utilizar a norma legal de reforma para contrariar e eliminar o pactuado coletivamente. É claro que com isso se produz uma deslegitimação intensa da constitucionalização do trabalho em sua vertente coletiva e sindical. É uma operação profundamente antidemocrática que no entanto, em muitos ambientes não se é suficientemente consciente.

A segunda via de intervenção virá no terreno social, e cobra corpo em uma hostilidade beligerante contra o público e o estatal. O desmantelamento progressivo e a privatização dos espaços e serviços públicos de formação, de cuidado e de assistência, é um objetivo prioritário tanto da política estatal como, de forma muito assinalada, das comunidades autônomas. Educação e previdência como territórios de luta muito destacados, que se projetam e replicam em muitos outros aspectos da assistência social e das prestações públicas inseres em um sistema de proteção social. A destruição da esfera pública, acelerada pelo tratamento que se aplicou à crise, tem degradado a sensação de pertence a uma dimensão coletiva, destruindo por tanto, a solidariedade entre os seres humanos. A miséria e a pobreza crescem inevitavelmente nesse panorama, onde o princípio igualitário e sua consideração material, reconhecidos como eixo do constitucionalismo do trabalho e a cláusula social que compromete a ação do Estado, são conscientemente negados.

Estamos acostumados de ver no setor público as intervenções anti-crises se centrando na redução salarial direta ou a perda de poder aquisitivo dos salários através do mecanismo de congelamento dos mesmos, e em uma política de contenção da despesa e da planilha de pessoal, o que aparece ademais reforçado pela cláusula de estabilidade orçamental e sua concessão legal. Valoriza-se corretamente o caráter “injusto e suicida” desta política em ordem ao desenvolvimento econômico e à criação de riqueza, mas não se reflexiona suficientemente sobre os múltiplos aspectos problemáticos que estas ações estão propondo no campo do emprego público com efeitos devastadores. O Estado quer se definir como um espaço singular de regras, separado e isolado das que regem a relação entre lei e convênio coletivo na produção de normas trabalhistas, e no que se quer criar como uma barreira imunitária em frente à vigência efetiva da liberdade sindical coletiva de atuação na regulação coletiva das relações de trabalho no emprego público.

O sistema espanhol baseia-se na força vinculante do convênio coletivo de eficácia normativa e geral. Na crise, a lei está criando um estado de exceção econômico que modifica diretamente o conteúdo dos convênios coletivos e persegue que estes não se apliquem em aspectos substanciais. Com isso se esvazia de conteúdo o direito de negociação coletiva, fazendo perder sentido à liberdade sindical, cujas faculdades especiais reconhecidas por lei orgânica de ordenar e disciplinar as condições de trabalho e de emprego ficam ‘danificadas’ pela legislação de urgente necessidade. O processo afeta à negociação coletiva no setor público, reconhecida de forma ampla no EBEP e à que se aplica como regra geral de crise a exceção muito limitada que assinala o apartado 10 do art.38 EBEP, o qual garante o cumprimento dos Pactos e Acordos, “salvo quando excepcionalmente e por causa grave de interesse público derivada de uma alteração substancial das circunstâncias econômicas, os órgãos de governo das Administrações Públicas suspendam ou modifiquem o cumprimento de Pactos e Acordos já assinados, na medida estritamente necessária para salvaguardar o interesse público”.

A excepcionalidade e a gravidade da situação que altera substancialmente as circunstâncias econômicas se alegam agora em massa como cláusula de estilo para revogar e modificar os pactos e acordos dos empregados públicos, que vêem assim substituída a negociação coletiva de suas condições de trabalho pactuadas entre os sindicatos representativos e a Administração, por uma decisão unilateral do poder público que reduz os padrões salariais, de jornada e de prestações sociais que tinham reconhecidos coletivamente. Esse processo de verdadeiro confisco de direitos constitucionais básicos, a liberdade sindical e a negociação coletiva, levam-se adiante também pelas administrações autonômicas, onde há mais que fundadas dúvidas de legalidade sobre a capacidade das leis autonômicas e dos acordos dos órgãos de governo daquelas para reduzir os direitos sindicais e as condições de trabalho. E realiza-se não só sobre os acordos e pactos dos empregados, senão sobre os convênios coletivos trabalhistas dos trabalhadores ao serviço de qualquer das Administrações Públicas concernidas, estatal, autonômica ou local e nas empresas públicas.

Mediante a lei de exceção econômica por causa da crise, anula-se na prática a negociação coletiva e a ação sindical coletiva na regulação das condições de trabalho. O setor público é, por tanto, um campo avançado da tendência a privar aos sindicatos representativos do poder normativo que a lei orgânica de liberdade sindical lhes reconhece. Cabe perguntar-se pelo significado político – constitucional desta tendência e se a singularidade do emprego público permite a aplicação em massa e generalizada de umas decisões de derrogatória e substituição de acordos, pactos e convênios coletivos neste setor sobre a base de uma consideração unilateral do “interesse público” em cuja definição não tem cabida o pluralismo social, nem o respeito dos direitos fundamentais reconhecidos na Constituição espanhola.

Mas ademais, e contra o que normalmente se tende a crer, o espaço do emprego público está sendo colocado no centro das táticas de “alívio” e redução de efetivos, com uma ampla flexibilidade na obtenção de ditos objetivos e uma co-relativa perda de garantias. A muito criticada doutrina do Tribunal Supremo que criou uma nova categoria de trabalhadores na Administração, o indefinido não fixo, tem consolidado um tipo contratual em uma especial situação de risco em ordem à amortização de sua praça ou a negativa à convocar, sem que se preveja uma indenização nem exista controle sindical ante a extinção do contrato nos casos de demissão coletivo. Ademais, a privatização dos serviços públicos tem gerado uma grande quantidade de terceirização de serviços e prestações das administrações públicas a partir do esquema da contratação de serviços mediante contratas e subcontratas.

A estratégia de redução da despesa e a política de austeridade conduz a não pagar o contrato, a rescindir e posteriormente voltar a ofertá-la a um preço mais baixo. As conseqüências respeito da redução de emprego depois da rescisão e renegociação de contratá-la e a corrente de subcontratações sucessivas são muito graves, e propõem numerosos interrogantes sobre a responsabilidade solidaria da entidade pública contratante e as empresas contratantes que já não funcionam.

Estes conflitos sobre o emprego no setor público, em onde a capacidade de regulação coletiva e sindical das condições de trabalho tem sido reduzida a nada, com grave quebra dos princípios constitucionais, permite que se estenda, à moda do sucedido no setor privado, a precariedade e flexibilidade em muitos de seus circuitos de prestação de serviços. É importante assinalar que seu desenvolvimento coincide com a abertura de debate sobre a necessidade de que o usuário do serviço proceda a pagar uma parte de seu custo como forma de sustentabilidade do mesmo. A transformação de um usuário em cliente parece que de por sim permitiria melhorar a qualidade das reduzidas prestações sociais de origem e caráter público.

Esta se produzindo por tanto, uma mudança profunda na consideração das coordenadas básicas de uma civilização construída em torno do valor político do trabalho e a uns direitos de cidadania no plano social guiados por um princípio igualitário sustentado pela ação do Estado social. Esta mudança vem-se efetuando baixo a ameaça da crise e a pressão dos mercados financeiros e apresenta-se pois, como uma situação de exceção às regras políticas e jurídicas democráticas que não se consideram idôneas para gerenciar a situação de emergência. Desta maneira, implicitamente faz-se circular a ideia de que a democracia em seu componente político-social e suas dimensões públicas e coletivas é um método de governo inapropriado em frente às situações críticas do sistema econômico e que, portanto, devem ser resolvidas prescindindo dessas dimensões.
São tempos duros, certamente, tempos difíceis, mas o resultado final destes processos está aberto. Como o próprio tempo de duração da crise, cujo final se reenvia constantemente dois anos mais tarde da data na que se tinha anunciado o momento da recuperação.

Nesse tempo dilatado, aumentam os riscos de fratura social e o sindicalismo está abocado a impulsionar mobilizações de resistência, ao mesmo tempo que tenta construir uma proposta coerente com a situação de crise à que nos enfrentamos, desde a qual, explica seu próprio programa de ação e afiançar sua mediação representativa no emprego e no trabalho. Mas os juristas do trabalho não podem se refugiar no restringido círculo dos comentários acadêmicos mantendo um silêncio suficientemente eloquente de sua *irrelevância midiática. É importante considerar o espaço dos direitos trabalhistas como um terreno de confrontação ideológica e de orientação cultural e política contra-hegemônica que requer uma presença organizada dos juristas do trabalho interessados em preservar o modelo constitucional de democracia social e a renovação da esfera pública em um sentido democrático real.

Extraído do sítio Sul21

10 abril 2012

O CAPITALISMO ESCLEROSADO - Najar Tubino

Durante recente visita ao Brasil, David Harvey afirmou que os fluxos que mantém o capitalismo em funcionamento estão sendo bloqueados e isso pode levar o sistema para uma situação doentia. A questão da esclerose pode ser visualizada em vários aspectos da vida econômica do planeta. E também dos seus habitantes. Começando pela discussão recente de “tsunami de dólares” que os países ricos estão fazendo pelo mundo afora. O artigo é de Najar Tubino.

A ideia é do professor da Universidade de N.York David Harvey, em visita recente ao Brasil. Os fluxos que mantém o capitalismo em funcionamento estão sendo bloqueados e isso pode levar o sistema para uma situação doentia.

- Comparo o capitalismo a um corpo que pode ficar doente se houver restrições ao fluxo sanguíneo. É importante perceber como o capitalismo depende da continuidade do fluxo de capital, e como qualquer interrupção, por qualquer motivo, pode ter custos muito altos. A questão é: o capitalismo é um sistema que está ficando esclerosado.”

Harvey, que pode ser um descendente do cientista inglês Willian Harvey, que descobriu o funcionamento do sistema circulatório no ser humano, considera que na atualidade existem muitos pontos de bloqueios com potencial para oferecer riscos à saúde, sem considerar o fato de que o corpo continua em crescimento e há uma expansão infinita das artérias do fluxo de capital e do fluxo de mercadorias.

UMA MONTANHA DE DINHEIRO

A questão da esclerose pode ser visualizada em vários aspectos da vida econômica do planeta. E também dos seus habitantes. Começando pela discussão recente de “tsunami de dólares” que os países ricos estão fazendo pelo mundo afora. Um estudo do Instituto Internacional de Finanças (IIF) constatou que a enxurrada de dólares tem um valor bem definido: trata-se de US$ 6,3 trilhões, somando as compras de bônus e ativos podres dos bancos centrais dos Estados Unidos, União Europeia, Japão e Inglaterra (que não está integrada na zona do euro). Este último caso refere-se à compra dos “gilts” bônus da Grã-Bretanha que o Banco Central da Inglaterra tem comprado no total de US$ 511 bilhões, quando fechar a operação este ano.

É preciso esclarecer as taxas de juros nestas regiões: 1% na Europa, 0,25% nos EUA e 0,5% na Inglaterra. Ao ano, logicamente. A dúvida do IIF, representante dos bancos no sistema financeiro, é se os associados terão condições no futuro de promover empréstimos com dinheiro arrecado do suado trabalho da atividade econômica.

- Os bancos se tornariam incapazes de obter ‘funding’ em bases comerciais, tornando-se nacionalizado pela porta dos fundos. "Persiste a interdependência entre bancos e títulos soberanos, fator que as agências de classificação de risco têm usado para rebaixar os ratings das instituições financeiras”.

EMPURRANDO COM A BARRIGA

Só para citar um exemplo, no caso francês, os três maiores bancos, BNP Paribas, Société Genérale e Credit Agrícole detêm em seus balanços 620 bilhões de euros em títulos soberanos de países como Grécia, Portugal, Espanha e Irlanda. O levantamento do IIF também apontou que a exposição total dos bancos europeus aos títulos públicos é de 1,45 trilhões de euros em seus balanços, o que corresponderia a 64% do capital das instituições. Nos Estados Unidos a exposição dos bancos é de US$ 158 bilhões de títulos do Tesouro, ou 10% de seu capital.

Desde o início de 2011, o Federal Reserve (Banco Central) aumentou seus ativos em 20%, o Banco da Inglaterra em 27% e o Banco Central Europeu em 54%, contando a última liberação de financiamento de um trilhão de euros. 

ATÉ AS MONTADORAS PEGARAM UMA GRANA 

Por sinal, os bancos italianos pegaram 139 bilhões de euros do BCE, para pagar em três anos. Os espanhóis ficaram com entre 110 e 120 bilhões e os alemães, pelo menos, com 100 bilhões. Até mesmo as montadoras, como Mercedes Bens, do grupo Daimler e Volkswagen pegaram uma graninha, mas não divulgaram quanto. Ninguém precisa ser um especialista em matemática financeira, para deduzir que este dinheiro vai rodar pelo mundo nos próximos três anos, ganhando juros nos países emergentes, ou comprando empresas de barbada, que estarão à venda, ou prontas, para fusão.

Tivemos um caso no Brasil, público, da aplicação realizada pela Coca-Cola de US$ 3 bilhões, no sistema financeiro brasileiro. Parte dos mais de US$ 8 bilhões do lucro da corporação no mundo, que obteve um faturamento em 2011 de mais de 46 bilhões de dólares. Refrigerantes e sanduíches são dois ingredientes fundamentais do capitalismo esclerosado. O Mac Donald faturou no mundo mais de US$ 30 bilhões, com lucro de US$ 5,5 bilhões. Os brasileiros contribuíram com US$ 950 milhões em sanduíches, do tipo “amo muito isso”, embora tenham mais de 20% de gordura.

ENTRA POR UM LADO E SAI PELO OUTRO

Continuando o raciocínio do professor Harvey. A Europa em recessão, crise da dívida pública, demissões, aumento da idade de aposentadoria e coisas do tipo. Aí a bancada socialista do parlamento europeu encomendou um estudo para a consultoria britânica Tax Research sobre a evasão fiscal no continente. Ou seja, quanto sai de dinheiro, sem o pagamento de impostos. É o outro fluxo sanguíneo, responsável por manter a infraestrutura dos países.
Qual a conclusão do levantamento... cerca de 1 trilhão de euros são desviados para paraísos fiscais, sem o pagamento de impostos, pior, sem registro na economia formal. Aponta o relatório que de cada 5,43 euros um euro fica no setor informal e não paga nada ao fisco.

- Não se pode negar que o tamanho da evasão fiscal ajude a minar a viabilidade da economia na Europa, assim como contribuiu para criar a atual crise da dívida”, registrou o estudo.

Um detalhe: dinheiro do tráfico de drogas, contrabando, prostituição não entrou nas estimativas. A Itália é o país que mais sofre com a evasão fiscal – 180 bilhões de euros anualmente. Seguida pela Alemanha com 158 bilhões, a França com 122 bilhões e o Reino Unido com 74 bilhões. Na Grécia são 19 bilhões de euros e em Portugal 12,3 bilhões.

Em 2011, o governo italiano “descobriu” um milhão de bens imobiliários fantasmas que jamais tinham sido declarados, o que poderia ter rendido 472 bilhões em impostos. Mesmo assim dizem as autoridades que conseguiram recuperar 12 bilhões de euros, em 2011. Agora uma piada, se não fosse verdade. De repente muitos, mas muitos mesmo, casais italianos começaram a tirar férias na Suíça, engarrafando as estradas de fronteira. As autoridades resolveram averiguar o fato. Descobriram malas de dinheiro que iriam para os bancos suíços. Também lingotes de ouro, da poupança de profissionais liberais e outros profissionais. A apreensão de dinheiro na fronteira da Itália com a Suíça cresceu 50% no segundo semestre do ano passado. A exportação de lingotes de ouro para a Suíça cresceu 40%.

A BOLSA E O COMETA

Seguindo na trilha da esclerose. Uma das vantagens, diríamos, do sistema capitalista é a compra de bens e mercadorias. Hoje em dia, traduzido pelo acesso às grifes e marcas internacionais. Antes que eu me esqueça vou citar o caso de uma emergente da Indonésia, Fitria Yusuf, de Jacarta, que segundo o relato da agência Reuters é “louca por bolsas da Hermès”.

Diz ela: “nos idos de 2006 ver uma bolsa Hermès era como ver o cometa Halley”. Ela é coautora do livro “Hermès Temptation”. A Indonésia é um país de 200 milhões de habitantes, na realidade um imenso arquipélago, onde 100 milhões vivem com dois dólares por dia, e o salário médio é de YS$ 113, um terço do chinês. Porém, o número de milionários vem surgindo a razão de 16 por dia, segundo a consultoria Capgemini, especializado em ricos ascendentes. O número de milionários chegará a 99 mil em 2015. Alguns relacionados ao crescimento do agronegócio, no caso, óleo de palma, ou por exploração de minérios, como o ouro, a Indonésia é grande produtora.

Mas a questão não são as compras. Mas a compulsão por elas, que já virou uma doença chamada ONIOMANIA. No Brasil, onde já existem centros de “devedores anônimos” (dois na capital paulista, nos bairros de Jardins e Pacaembu) e tratamento em clínica especializada. Trata-se de um refluxo do sistema. Um estudo feito por um grupo de psiquiatras, publicado na Revista Brasileira de Psiquiatria, e citado pela Revista Valor Investe, o prazer da compra atinge o sistema límbico do ser humano. Esse prazer instantâneo leva o consumidor, na verdade, diz que 80% dos casos de oniomania são de mulheres, a gastar fora dos padrões aceitáveis. Enfim, chutar o pau da barraca e se afundar nos cartões de crédito de bancos e lojas.

ONIOMANÍACOS DAS CLASSES RICAS

O problema foi registrado pela Confederação Nacional do Comércio, Bens, Serviços e Turismo (CNC). A dívida dos brasileiros tem aumentado, e o nível de inadimplência é maior entre as classes A e B. Como todos devem saber houve um aumento da classe C para 102 milhões no Brasil, mas eles mantêm um nível de pendura menor, que os ricos. Na comparação de janeiro de 2011 para 2012, caiu de 61,3% para 59,5%, dados de consumidores com até 10 salários mínimos de renda. Naqueles acima de 10 salários mínimos, a inadimplência aumentou de 48,9% para 53,4% no mesmo período, sendo que em maio passado, o nível alcançou 57%.

As classes A e B no Brasil abrigam 42 milhões de pessoas. A maior parte das dívidas dos mais abastados está no financiamento de veículos, enquanto os menos abastados, nos cartões de crédito e de lojas. Levando em conta as contas de luz, telefone, água a inadimplência cresceu 21% em 2011, conforme levantamento da Serasa Experian. É interessante anotar que os juros cobrados no Brasil nos cartões de crédito e financiamento direto são estratosféricos: 238,3%, no cartão de crédito e 170,9%, segundo a CNC.

NADA PARECIDO COM OS AMERICANOS

No Brasil os consumidores ainda têm muito a aprender ou a enlouquecer. O crédito no sistema financeiro corresponde a 48% do Pib, se comparado aos Estados Unidos, onde são quase 100%, as dívidas somente com hipoteca e crédito ao consumidor somam US$ 13,25 trilhões. Os analistas financeiros têm uma conversa sobre educação financeira, as redes de televisão vivem divulgando receitas para controlar despesas. Quem aguenta a pressão do braço maior do sistema circulatório, que dia e noite martela pela necessidade quase que existencial de comprar o último carro, a última calça jeans, a bolsa, o sapato, a cerveja. São R$ 30 bilhões gastos em publicidade no Brasil. A receita é a mesma mundo afora. Daí o risco da esclerose, quando se aborda os limites de tal expansão.

Ou como escreveu recentemente o principal analista do Financial Times, Martin Wolf:

- A política monetária do QE (emissão dos bancos centrais e a compra de títulos) não ajuda as pequenas e médias empresas. Outro argumento mais plausível é que a políticas de taxas baixíssimas de juros – de 0,5% a menor em 318 anos na Inglaterra- ameaça criar empresas insolventes que continuam a operar, as ‘empresas zumbis’, portanto uma economia zumbi”.

O artigo dele tratava da dúvida se a política do “tsunami de dólares” funcionará ou não. Eles não sabem.

Extraído do sítio Carta Maior