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06 julho 2012

A NOVA TRADIÇÃO DOS GOLPES: OS "CRUS" E OS "COZIDOS" - Flávio Aguiar

O assanhamento da direita brasileira com seus novos heróis – os deputados e senadores colorados e radicais do Paraguai – vem sendo estimulado por um cenário externo onde esses golpes “legais” vem se tornando uma prática corrente. Esses golpes “cozidos” convivem com os “crus”, como se viu recentemente na Costa do Marfim e na Líbia.



O modo como a direita brasileira apóia o golpe no Paraguai mostra que ela guarda ainda o DNA golpista que sempre acalentou desde a dupla deposição de Getúlio Vargas, a de 1945 e a de 1954. De passagem: o Estado Novo tinha que acabar, é claro, mas deve-se lembrar que o golpe que o acabou foi dado pela e à direita. Já o de 54 reuniu alguns dos componentes que fariam o programa futuro dos golpes de direita: campanha e legitimação midiática, bloqueio parlamentar e pressão ou ação militar direta, hoje, pelo menos, um coringa fora do baralho. Mas que não morreu.

A direita se esmera agora em comentários na mídia, mas também faz salamaleques oficiais, como o senador Álvaro Dias se orgulhando de ter recebido em seu gabinete uma missão de parlamentares golpistas do país vizinho e também dos brasiguaios de direita, falando na defesa dos interesses (anti-reforma agrária) desse grupo que estaria sendo oprimido pelas ameaçadora (?!) política de Lugo. Outro lembrete histórico: foi a defesa de interesses dos estancieiros brasileiros estabelecidos no Uruguai que levou diretamente à nefasta Guerra do Paraguai, com o governo imperial depondo o presidente daquele país. 

É verdade que Solano Lopez a partir daí invadiu todo mundo ao seu redor: Brasil, Argentina, querendo chegar até o próprio Uruguai, contando com um levante de caudilhos na região que não aconteceu, ajudando, portanto, a construir a hecatombe que se abateu sobre seu país. A situação hoje é muito diversa, mas não vamos esquecer do clamor da direita brasileira para que o Brasil praticasse uma intervenção na Bolívia, quando da nacionalização das reservas de petróleo e gás, e para que agisse brutalmente contra o Paraguai, quando da renegociação dos pagamentos pela energia de Itaipu.

Voltando aos dias de hoje: a apoio ao golpe, com a declaração do também senador Sérgio Guerra, presidente do partido, já é patrimônio do PSDB. Dá, portanto, para imaginar o tamanho da regressão de nossa política externa caso este partido chegar ao poder. Repetem-se as cenas e os argumentos quando houve o golpe em Honduras. Os adjetivos reservados para o nosso Itamaraty são todos de baixo calão diplomático: “rudimentar”, “desinformação amadorística”, “diplomacia atrabiliária”, etc.

Acumulam-se argumentos cínicos na mídia, como o de que, afinal, a rapidez da deposição de Lugo foi uma bênção para o contribuinte paraguaio, pois por que fazer um processo longo se ele iria perder mesmo?

Para culminar a fúria desses habitantes imaginários da eterna e imaginária Casa Grande onde vivem, a suspensão do Paraguai do Mercosul abriu as portas para a entrada da Venezuela “de Hugo Chávez”, como gostam de dizer. Esquecem que até a oposição venezuelana veio a Brasília implorar aos congressistas brasileiros que apoiassem a entrada da Venezuela no Mercosul.

Além de registrar, portanto, esse assanhamento da direita brasileira com seus novos heróis – os deputados e senadores colorados e radicais do país vizinho – cumpre observar que ela vem sendo estimulada por um cenário externo onde esses golpes “legais” vem se tornando uma prática corrente. Esses golpes “cozidos” convivem com os “crus”, como os impostos pela intervenção da França na Costa do Marfim e deste país, mais a Grã-Bretanha, com apoio da OTAN, na Líbia. Registre-se, em todo caso, que nestes países grassava uma guerra civil sangrenta; mas a intervenção externa desequilibrou-a em favor de um dos lados, o mais conveniente para as potências ocidentais, sob o pretexto de “proteger vidas civis”.

A primeira nova versão dos golpes cozidos “a fogo brando” deu-se em 2000, nos Estados Unidos, na chamada “Controvérsia da eleição na Flórida”. Numa eleição marcada por inúmeras pequenas ou grandes fraudes que favoreciam Bush contra Al Gore, indo desde eliminação indevida de eleitores (na maioria afro-descendentes) até manipulação das cédulas eleitorais com instruções e organização confusas, Bush foi declarado vencedor por uma ínfima margem de votos, um pouco mais do que 500, levando, portanto os votos daquele colégio eleitoral. Entretanto, começou-se um processo de recontagem, elevando a temperatura da controvérsia. Aí veio o tiro de misericórdia do golpe: no começo de dezembro a Suprema Corte norte-americana mandou suspender a recontagem, por 5 x 4, decidindo a eleição em favor de Bush.

A segunda versão dos “golpes cozidos” aconteceu em Honduras, em 2009, quando a Suprema Corte (de novo ela!) daquele país ordenou ao Exército que detivesse o presidente Manuel Zelaya sob o pretexto de que ele estaria preparando um plebiscito que ela considerava ilegal. Detido, o presidente foi levado para uma base norte-americana, de onde foi expulso para a Costa Rica. O governo brasileiro não reconheceu o governo golpista de Roberto Micheletti (presidente do Congresso, membro do mesmo partido de Zelaya) e depois abrigou o ex-presidente em sua embaixada, quando ele tentou retornar ao país. Nessa ocasião a direita brasileira despejou uma chuva de críticas ao governo brasileiro e sua política externa. Um clima repressivo foi instalado no país pelo governo de Micheletti, suspendendo garantias constitucionais, fechando mídias de esquerda e reprimindo movimentos sociais. A crise só começou a ter fim depois de um discutível processo eleitoral que elegeu um “tertius”, o atual presidente Porfírio Lobo, embora organismos internacionais continuem a denunciar um clima de violência política no pais.

Mas tem mais. “Golpes brandos” estão hoje instalados também... na civilizadíssima Europa. Em novembro de 2011 os governos da Itália e da Grécia tornaram-se insustentáveis, caindo ambos, embora em estilos diferentes, mas com soluções semelhantes. Berlusconi, e não vou derramar a menor lágrima por ele, caiu em meio à contínua torrente de denúncias contra ele – mas também por pressão dos líderes da hegemonia neo-liberal da União Européia, que catapultaram o “tecnocrata” Mario Monti para sua substituição. Houve alguma violação constitucional? Absolutamente. Mas tampouco houve um processo eleitoral ou de escolha translúcido e cristalino, embora sua indicação ao parlamento tenha sido feita pelo presidente Giorgio Napolitano.

Já o caso grego foi mais dramático ainda, com o ex-primeiro ministro Yorgyos Papandreou caindo depois de fortemente pressionado pelos líderes daquela hegemonia (como a “dupla” Merkozy) por causa de um plebiscito (como no caso de Zelaya) que ele ameaçou fazer sobre os planos de austeridade que estavam e estão sendo impostos ao povo grego em nome da salvação do euro. Novamente um “tecnocrata” foi catapultado para o cargo de primeiro-ministro, Lucas Papademos, substituído recentemente pelo conservador Antonis Samaras em meio a um processo eleitoral marcado por fortíssimo clima de chantagem econômica e política, também em nome da salvação do euro.

E la nave va. No recente caso paraguaio também a Suprema Corte foi chamada a legitimá-lo, além de outra Suprema-Corte, a Igreja. Que houve golpe não há dúvida: o relatório da Embaixada norte-americana em Assunção, datado de 2009, descrevendo já em detalhes como seria a deposição de Lugo, não deixa dúvidas. Aliás, outro lembrete: a divulgação desse relatório, feita pelo site Wikileaks, relembra a inadiável necessidade de que o Equador conceda asilo a Julian Assange e que este consiga deixar livremente a Grã-Bretanha.

No caso do Brasil deve-se assinalar que, na falta do estamento militar, a direita brasileira tem-se voltado preferencialmente para operações midiáticas, como em parte do golpe de 1954 contra Vargas. Foi assim em 2006, primeiro com a “Operação Mensalão”, embora, neste caso, a montagem do cenário parlamentar tenha sido também de grande valia. Depois veio a “Operação Foto do Dinheiro”, desarticulada pela mídia alternativa. Também foi assim em 2010, com a “Operação Aborto” e depois a “Operação Pacote na Cabeça”, mais conhecida como “O Caso da Bolinha de Papel”, também desarticulada pela mídia alternativa. 

Em 2006 a direita esteve mais perto de depor o então presidente Lula através de um impeachment congressual. Só não o tentou por três razões: 1) incerteza quanto ao resultado, dado o alto número de votos necessários e à possibilidade de insuficiência das provas; 2) temor quanto à reação popular, lição igualmente aprendida na crise de 1954, quando o povo enfurecido saiu às ruas não para festejar a queda de Vargas, mas para depredar a sede dos partidos de direita e da mídia opositora também; 3) a infundada certeza que tinha da vitória no pleito eleitoral, graças à conhecida e refutada tese da “pedra jogada n’água e a teoria dos círculos concêntricos”.

Em 2010 de novo, a direita tinha certeza absoluta da vitória, baseada no relativo desconhecimento da candidata situacionista escolhida, nas virtudes de seu próprio candidato, e no poder da campanha de difamação montada contra ela.

Em ambos os casos, só faltou combinar com a maioria do eleitorado. Vamos ver o que a nossa direita vai aprontar para o futuro, se continuar perdendo eleições nacionais. 

* Flávio Aguiar é correspondente internacional da Carta Maior em Berlim.


Extraído do sítio Carta Maior

01 julho 2012

FALSOS DEMOCRATAS PERDEM PUDOR NO PARAGUAI - Paulo Moreira Leite

Estou espantado com a relativa naturalidade com que as pessoas receberem o golpe que derrubou Fernando Lugo. Em 2009, a queda de Zelaya, em Honduras, gerou mais reações, debates, polêmicas. Agora, os falsos democratas perderam o pudor.

O Departamento de Estado americano, que chegou a condenar a deposição de Zelaya e mais tarde mudou de ideia, já se manifestou para elogiar o comportamento pacífico da população paraguaia. O governo alemão de Angela Merkel já deu declarações apaziaguadoras.

Jornais brasileiros dizem que a falta de resistência da população ao novo governo dá legitimidade à queda de Lugo.

O governo brasileiro condenou o golpe e os governos da Unasul também.

Mas estranho o silêncio das oposições, dentro e fora do Brasil. Acham tudo normal?

Essa postura contribui para dar um ar natural a deposição de um presidente eleito, que ainda possuía 14 meses de mandato pela frente.

Entre os protestos, cabe registar a reação de Porfírio Lobo. Sucessor de Zelaya em Honduras, até ele definiu a queda de Lugo como uma “ferida na democracia.”

A queda de Lugo mostra, em primeiro lugar, que os falsos democratas estão onde sempre estiveram.

Lugo não foi deposto porque fazia um mau governo. Se fosse assim, francamente, o que dizer de absolutamente todos seus antecessores?

Lugo foi deposto porque, com acertos e erros, fazia um governo que a oligarquia não era capaz de manter sob rédea curta. Não era um chavista, como Zelaya.

Fazia um governo independente em relação às oligarquias, como nunca se viu no Paraguai. Já foi razão suficiente para ser deposto.

A tese de que a queda de Lugo não foi um golpe porque teve apoio de uma maioria folgada do Congresso não resiste a uma observação elementar. O regime paraguaio não é parlamentarista, onde os governos caem quando ficam em minoria.

É um regime presidencialista. Por este sistema, cabe ao povo escolher, de forma soberana, seus governantes. O Congresso tem autoridade para destituir um presidente mas isso só pode ser feito sem ferir a soberania do voto popular.

Não basta ter a maioria de votos em plenário. É preciso julgar o presidente, dar a chance de defesa, cobrar acusações precisas. Este é o espírito da coisa.

Mas nem a Polícia foi ouvida para apurar as denúncias contra Lugo. A Justiça não examinou as queixas de sua defesa. E este curso inacreditável recebe o aplauso de comentaristas menos inibidos e o silêncio de cúmplices mais acanhados.

Não custa lembrar que a defesa de Lugo teve o tempo ridículo de duas horas para se manifestar contra acusações vagas, genéricas e imprecisas. Nenhuma das 5 “denúncias” de bolso de colete apresentadas contra Lugo foi demonstrada de forma irretorquível por seus adversários. Aliás, eles nem estavam preocupados com isso, porque já tinham os votos garantidos.

A segunda questão é que surtos golpistas costumam ser contagiosos – e isso torna a reação bondosa diante da deposição de Lugo mais preocupante.

Imagine que já tem gente fazendo aquele teste imoral a favor e contra pela internet.

Por enquanto, o placar era de condenação. Mas, se der a favor, o que acontece? Muda alguma coisa?

A história do ciclo militar latino-americano dos anos 60 começou com um golpe no Peru. Foi assim: um candidato de esquerda iria ganhar as eleições até que uma intervenção militar impediu que o pleito fosse realizado na data correta.

Quando as eleições ocorreram, após pressão internacional, o ambiente político do país havia mudado e um candidato conservador foi vitorioso. Depois do Peru, ocorreram duas intervenções militares na Guatemala e na Republica Dominicana.

Nesses dois lugares, Washington temia a consolidação de governos de esquerda e ajudou militares dispostos a derrubá-los.

Foi nesse ambiente que John Kennedy e o embaixador Lincoln Gordon discutiram, em 1962, como apoiar o movimento militar que derrubou João Goulart, em 1964. Um assessor de Kennedy, Richard Goodwin, estava presente ao encontro.

Quando o presidente americano começou a demonstrar um certo pudor em apoiar o golpe de forma descarada, Goodwin reagiu de forma irritada. Lembrou que a Casa Branca deveria deixar sua posição de forma clara, sob o risco de desmotivar os golpistas. Na prática, o assessor estava dizendo algo parecido a “vamos deixar de frescura, presidente.”

Não é preciso tentar adivinhar o futuro e encontrar indícios de rupturas democráticas aqui e ali. Mas muita gente resolveu “deixar de frescura,” concorda?

Basta reparar que, na queda de Lugo, um considerável número de vozes conservadoras já demonstrou menos pudor em relação aos rituais democráticos. Foi apoio direto, na lata.

E isso é péssimo, concorda?

Extraído do Sítio Revista Época

23 junho 2012

HONDURAS FOI LABORATÓRIO PARA NOVO TIPO DE "GOLPE INSTITUCIONAL"



O golpe que derrubou o presidente hondurenho Manuel Zelaya, em junho de 2009, não só quebrou a ordem constitucional do país como foi “um laboratório para testar novos tipos de golpes de estado na América Latina”. A análise é da educadora Betty Matamoros, uma das principais lideranças da FNRP (Frente Nacional de Resistência Popular), em Honduras.

Segundo Betty, o processo ocorrido esta semana no Paraguai, assim como a tentativa de golpe contra o presidente equatoriano Rafael Correa, em setembro de 2010, reforça ainda mais um ponto de vista em que os movimentos de resistência hondurenhos têm insistido nos últimos anos.

“A direita internacional vem estudando novas modalidades para dar golpes de estado técnicos, com cara democrática e institucional, para poder frear a luta social do povo e os avanços dos governos progressistas na América Latina”, manifestou Matamoros, em entrevista para o Opera Mundi.

Nesta sexta-feira (22/06), após um processo de impeachment que durou menos de 30 horas, o Senado do Paraguai depôs o presidente Fernando Lugo, cujo mandato só terminaria em 2013.

A educadora não é a única voz na região que considera o uso de mecanismos contemplados pela lei para depor presidentes legítimos como um dos prováveis novos métodos adotados depois do golpe em Honduras.

O analista político hondurenho Eugenio Sosa afirma que “com a queda do presidente Zelaya, a direita latina aprendeu que não é necessário atuar como nas décadas passadas, que os golpes militares com derramamento de sangue já não servem”. O acadêmico acredita também que “é muito menos grave, para essa direita, apostar em novas fórmulas com aparência constitucional, já que também são mais aceitas pelos olhos do mundo”.

Manuel Zelaya também foi vítima de um golpe institucional, fruto da associação entre o Parlamento e a Suprema Corte hondurenha

Segundo o COPINH (Conselho Cívico de Organizações Populares e Indígenas de Honduras), as acusações levantadas pelo parlamento paraguaio contra o presidente Fernando Lugo “são infames, irracionais e sem fundamentos legais”. Para a entidade, “o fato da trama paraguaia se parecer muito com a que povo hondurenho presenciou e sofreu em 2009, por parte de um plano semelhante previsto e planificado pelas forças opressoras do país”, não é uma mera coincidência.

Em seu comunicado, a organização indígena hondurenha faz um apelo aos movimentos sociais e políticos de Honduras para “unir forças diante dessa permanente ameaça”, expressando sua solidariedade com o presidente Lugo e com o povo paraguaio. Além do comunicado, o COPINH convocou a população hondurenha a se concentrar no centro da capital Tegucigalpa, no próximo dia 28 de junho, quando o golpe contra Zelaya completará três anos, e convidou os aderentes a se manifestar “contra o golpismo em toda a América Latina”.

Extraído do sítio Opera Mundi

PARAGUAI REPETE HONDURAS COM "GOLPE CONSTITUCIONAL" NA AMÉRICA DO SUL - Clóvis Rossi


É tão chocante o afastamento do presidente Fernando Lugo que permite a Alí Rodríguez - um político das entranhas do "chavismo", que não é exatamente um modelo acabado de democracia - dar uma aula de democracia.

"É uma nova modalidade de golpe de Estado supostamente constitucional", disparou Alí, agora secretário-geral da Unasul, ao deixar o palácio do governo em Assunção, minutos após a destituição de Lugo.

Não há como discordar. Primeiro, porque não há base suficiente para montar um processo de impeachment. Acusar o presidente deposto de responsável pelas 17 mortes ocorridas no choque entre camponeses e forças de segurança ou é uma precipitação ou evidente exagero.

Se houve abuso, o presidente seria de fato responsável, em última instância, mas, antes, seria preciso apurar o que ocorreu, o que o próprio Fernando Lugo determinou ao criar uma comissão de sindicância.

Segundo, porque o julgamento foi um fuzilamento sumário. Tanto José Miguel Insulza, o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos, como Michael Shifter, presidente do Diálogo Interamericano, coincidiram em dizer que, se bem a instalação do processo seguiu o marco constitucional paraguaio, não houve respeito ao direito de defesa.

"Vai contra o espírito da democracia", diz Shifter, no que acaba indiretamente concordando com o "chavista" Alí Rodríguez.

Na prática, guardadas as proporções, volta-se ao cenário Honduras: os oposicionistas que afastaram o presidente Manuel Zelaya dizem que estavam apenas defendendo a Constituição.

Os países latino-americanos, em conjunto, gritaram "golpe", suspenderam Honduras da OEA e adotaram outras sanções.

Repete-se agora a rejeição, não pela OEA, que não teve tempo de se reunir, mas pela Unasul, mais ágil, que enviou parte de seus chanceleres, inclusive o do Brasil, a Assunção, para acompanhar a votação do impeachment.

No caso Honduras, o golpe acabou sendo absorvido, com o passar do tempo, ainda mais que pouco depois dele deu-se a eleição, prevista antes do afastamento de Zelaya, e assumiu Porfirio Lobo, hoje já não mais contestado no restante do mundo.

No Paraguai, a eleição se dará em abril, dentro portanto de nove meses, o que insinua um período de turbulência especialmente nas relações internacionais do país.

Para o Brasil, a grande diferença é que Honduras está longe demais, ao passo que o Paraguai é sócio no Mercosul e na usina de Itaipu.

Por isso mesmo, o Brasil foi decisivo para evitar tentativas anteriores de golpe, mas de golpe convencional. Não conseguiu lidar agora com um "golpe supostamente constitucional".

Extraído do sítio Folha de S. Paulo

12 abril 2012

"GOLPE MIDIÁTICO" NA VENEZUELA INSPIROU LEVANTES NA AMÉRICA LATINA, DIZ JORNALISTA

Para fundador da Telesur, imprensa atuou para derrubar governos em Honduras, Bolívia e Equador

“Foi um golpe midiático com aroma de hambúrguer, presunto ibérico e, sobretudo, petróleo”, ironiza Aharonian.


O golpe de Estado fracassado na Venezuela contra o governo de Hugo Chávez, que nesta quarta-feira (11/04) completou dez anos, teve duas grandes particularidades: a sua cura duração, já que, diante da reação popular, não conseguiu se sustentar por dois dias; e a participação protagonista dos grandes grupos de mídia na organização do movimento– assumindo um papel mais relevante do que as Forças Armadas ou a burguesia opositora. Por essa razão, o episódio acabou ficando conhecido, não só pelo governo, mas por diversos setores da sociedade venezuelana não-alinhados a Hugo Chávez, como um “golpe midiático”.

Para o jornalista uruguaio Aram Aharonian, este golpe comandado pela mídia, e não mais pelos militares, também serviu de tubo de ensaio para outros três movimentos golpistas contra regimes de caráter progressista na América Latina: a tensão durante o referendo revogatório na Bolívia em 2008; a revolta policial no Equador em 2010; e em Honduras, em 2009 – esse o único a obter sucesso com a deposição do então presidente Manuel Zelaya.

Atualmente diretor da revista Questión e diretor do Laboratório Latino-Americano em Comunicação e Democracia, Aharonian foi um dos fundadores da multiestatal latino-americana Telesur, sediada em Caracas, e é especialista na conturbada relação entre o governo Chávez e as redes de TV e jornais opositoras. “Não se compreende que a Venezuela passa por uma guerra cultural, uma batalha de ideias. Primeiro temos que liberar nossos cérebros para romper velhos paradigmas liberais, deixar de copiar formatos e conteúdos” dos modelos tradicionais, afirma.

Apesar de destacar o maior equilíbrio existente hoje entre as redes de TV, rádios e jornais progressistas e conservadoras, Aharonian destaca que isso não é garantia para uma maior democratização da informação. “A existência de mais meios oficiais não garante que as mensagens cheguem à cidadania. De nada adiantará se não tivermos de fato conteúdos novos, com qualidade informativa e estética, ou se só falarmos para um grupo ignorando a realidade”.

Aharonian alerta, contudo, que não se pode classificar o golpe contra Chávez apenas como midiático: “A imprensa comercial incentivou a violência e o ódio, além de operar como um cartel. Mas ao seu lado participaram ativamente oficiais das Forças Armadas; da Polícia; grupos paramilitares armados até mesmo com fuzis e lança-granadas; membros da Igreja Católica, em especial da seita Opus Dei; e empresários (em especial a Fedecámaras, maior associação empresarial do país)”.

O jornalista também citou como integrantes do movimento golpista um grupo organizado na iniciativa privada, pertencentes a bancos, empresas, principalmente a PDVSA, e ONGs de fachada, além do apoio não-declarado dos Estados Unidos e da Espanha, na época governados por George W. Bush e José Maria Aznar, através de seus embaixadores, Charles Shapiro e Manuel Viturro, respectivamente. “Foi um golpe midiático com aroma de hambúrguer, presunto ibérico e, sobretudo, petróleo”, ironizou.

A questão do interesse estratégico do petróleo, segundo o jornalista, também influiu no golpe. Na época, a PDVSA, através de sua diretoria, realizava uma série de sabotagens e greves – o que continuou a fazer depois do golpe, no segundo semestre do ano, paralisando todo o setor petroleiro e comprometendo a autonomia energética do país.

“Para interesses corporativos transnacionais, principalmente norte-americanos e espanhóis, era imprescindível que a Constituição Bolivariana fosse revogada. Assim, a PDVSA e sua filial norte-americana, a Citgo, poderiam ser privatizadas. Além de um golpe midiático, foi também mais um episódio da disputa por comandar as principais reservas petrolíferas mundiais, como no Iraque e na Líbia”, afirmou.

Sociedade dividida

Não houve dúvidas, para ele, que o episódio evidenciou as divisões já existentes na sociedade venezuelana. “Foi uma tentativa da burguesia de reverter uma situação que havia escapado de seu controle. Com o objetivo de restaurar o status quo anterior a 2000. As divisões ainda existem em um país que, uma década depois da Revolução Bolivariana, segue sem poder conseguir solucionar sua maldição econômica (dependência do petróleo) e mentalidade rentista”. O jornalista destacou, no entanto, o aumento do poder de consumo e a melhoria da qualidade de vida da população. 

Perguntado se os grupos de mídia locais teriam condições de realizar novamente uma operação semelhante no país, Aharonian afirma que, atualmente, as Forças Armadas apoiam integralmente o processo bolivariano. “Também a maior parte da oposição prefere hoje transitar por caminhos democráticos. Ela parece encaminhada a disputar as eleições com candidato único, o que não garante unidade. Claro, há sempre aqueles que são encorajados por financiamentos ou manipulações externas, que propagam que Chávez ou os chavistas dêem deixar o poder não importa por qual meio. Algo semelhante ao que ocorre com a dissidência cubana em Miami”, disse.

Entretanto, assim como em 2002, resistência popular seria um fator preponderante para o fracasso de um eventual golpe. “Uma das principais conquistas da Revolução Bolivariana foi converter os venezuelanos em atores políticos – e não apenas objetos da mesma. Pela primeira vez, a maioria do povo venezuelano sentiu-se incluída, cidadã em seu próprio país, percebeu que tinha direitos e uma Constituição que os abrigava, a qual deveriam defender”, disse.

Para Aharonian, o povo passou a participar da solução dos problemas da comunidade. “Foram os setores populares que saíram nas ruas com a “bicha” (versão em miniatura da Constituição) na mão para reclamar o retorno do presidente. Enquanto muitos funcionários militares e dirigentes bolivarianos optaram pela covardia e a mudez”, protestou.


Extraído do sítio Opera Mundi