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27 maio 2012

AO POVO, O QUE É DO POVO - Mauro Santayanna



As tentativas de apaziguamento e de acordos discretos não reduziram o medo, quase pânico, que sacode as glândulas de numerosos homens públicos. A miniaturização dos processos de captação de voz e de imagem torna qualquer conversa um risco. Muitos deles começam a buscar, na memória, frases ditas sem cuidados e sem malícia, pelo telefone, ou pessoalmente, a pessoas de pouca confiança. 

Teme-se, e com alguma razão, que a manipulação dos registros de voz torne qualquer conversa um libelo. Não obstante o medo, e, provavelmente, o surgimento de suspeitas infundadas contra homens honrados, o vendaval será saudável.

Há décadas que o público e o privado se tornaram uma coisa só, na vida brasileira. Apesar da luta permanente de inúmeros representantes do povo, nas casas parlamentares e no poder executivo, e de magistrados de lisura incontestável, contra o assalto ao bem comum, todos os poderes republicanos se encontram infestados, principalmente a partir do desmonte do Estado, pelo neoliberalismo. Para que isso fosse possível, mudaram-se as leis, para que tudo fosse permitido em favor do mercado, até mesmo a entrega dos bens nacionais aos aventureiros.

Embora em casos isolados, comprovou-se também a canalhice de juízes vendedores de sentenças, quando não cúmplices de superfaturamento de obras do Poder Judiciário, como ocorreu com conhecido magistrado trabalhista de São Paulo. Os juízes podem errar, e erram, mas os seus votos não podem submeter-se a outra instância que não seja a da reta consciência.

A mais grave infecção é a que afeta o Poder Legislativo. Ainda que, no imaginário popular, o mais alto poder se localize na Presidência da República, ele está no Congresso Nacional. O Congresso é, em sua missão republicana, o povo reunido, para ditar as leis, fiscalizar seu cumprimento pelo poder executivo, e decidir, com o seu consentimento, a formação do mais alto tribunal da República, encarregado de assegurar o cumprimento dos preceitos constitucionais, o STF. Os vícios de nossos ritos eleitorais comprometem a composição das casas parlamentares. Não são os partidos que formam as bancadas, mas, sim, os interesses corporativos, e até mesmo as associações de celerados. Como estamos comprovando, o crime organizado também envia aos parlamentos os seus representantes.

Enganam-se os que supõem ser possível domar a Comissão; ela vacila nessas primeiras horas, mas isso não indica claudicação duradoura. Há alguns meses, neste mesmo espaço, lembramos que um poder adormecido começa a despertar, aqui e no mundo: o poder dos cidadãos.

A tecnologia trouxe muitos males, mas também a ágora para dentro de casa. E a consciência da responsabilidade de cada um faz com que as praças do mundo inteiro se tornem a ágora comum, para a afirmação de uma humanidade que parecia perdida. A Grécia volta a ser o exemplo da razão política, que deve prevalecer sobre o que Viviane Forester chamou de “l’horreur économique”. O povo grego está vencendo, com seu destemor, a poderosa coligação de banqueiros, sob a proteção da Alemanha, e se recusando a pagar, com o desemprego e a miséria, a crise atual do capitalismo predador.

A ação investigatória, entre nós, não pode conduzir-se pela insensatez das caças às bruxas, nem os protestos dos cidadãos serem manipulados pelo poder econômico. Não estamos mais no tempo das fogueiras, mas na civilização dos direitos fundamentais do homem. Toda punição aos culpados, se a culpa for estabelecida, terá que obedecer aos mandamentos da lei, com o pleno direito de defesa. E, confirmado o peculato, os valores desviados devem ser devolvidos ao Tesouro.

Os principais envolvidos nas investigações da Polícia Federal e do Ministério Público estão sendo assistidos por advogados caros e reputados como competentes. Eles cumprem o seu dever, definido por uma carta famosa de Ruy Barbosa a Evaristo de Moraes: qualquer réu tem o direito de defesa, e seu advogado deve empregar todo seu conhecimento e toda sua inteligência no cumprimento do mandato.

Sem o furor dos savanarolas, mas com o rigor da lei e da justiça, a CPI e, em seguida, o Poder Judiciário, são chamados a restabelecer a ordem do estado republicano e democrático, que se fundamenta na administração transparente dos bens comuns, no benefício de todos. É hora de reconstruir o Estado e, assim, devolver ao povo o que só ao povo pertence.

Extraído do sítio Jornal do Brasil

25 abril 2012

PIMENTA NOS CHÁS INGLESES: MURDOCH FILHO FAZ NOVAS REVELAÇÕES - José Dirceu


A influência da imprensa no alto escalão da política britânica tornou-se o grande gossip, a pauta preferida dos chás ingleses desta semana. O magnata Rupert Murdoch depôs e foi a grande estrela da comissão de inquérito presidida pelo juiz Brian Leveson. Instaurada após a eclosão do escândalo de espionagem de centenas de caixas postais telefônicas feita pelo News of the World (fechado em 2011, após o escândalo), ela investiga os padrões éticos da mídia na Inglaterra e a relação entre jornalistas e políticos.

O premier David Cameron, do Partido Conservador, já esquentara a pauta ao afirmar em sessão no Parlamento: "Todos nós tivemos contato com Rupert Murdoch". Murdoch, porém, no depoimento minimizou sua influência sobre os jornais britânicos. Calmo, bem humorado, sustentou nunca ter pedido nada a um primeiro-ministro: "É natural que políticos busquem editores e às vezes proprietários, se eles estiverem disponíveis, para explicar o que estão fazendo. Mas, eu era apenas um entre muitos."

Nesta 3ª, porém, novas revelações foram feitas por seu filho, James Murdoch. Este confirmou ter estreitos contatos com os ministros do Reino Unido. Em especial, o de Cultura, Jeremy Hunt, ministro sob suspeita de ter passado informações ao grupo Murdoch para a compra da totalidade da operadora de TV a cabo “BSkyB”, da qual a News Corp. já possuía 39% das ações. A oferta para obter o total de ações da operadora foi atropelada pelo escândalo das escutas telefônicas.

Barões da mídia não admitem discutir jornalismo bandido

Murdoch filho nega que Hunt fosse um “grande aliado” na operação, mas confirmou ter tido “inúmeras conversas sobre diferentes assuntos relativos aos negócios e a indústria dos meios de comunicação em geral”. O filho do magnata disse, também, ter estado nada menos que em 12 oportunidades com o premiê Cameron.

Um desses encontros foi em 2010, quando o premier ainda estava na oposição. E mais, Murdoch filho contou que pelo menos em quatro desta uma dúzia de vezes em que esteve com Cameron, Rebekah Brooks, ex-diretora da News International e antiga diretora do “The Sun” e do “The News of the World”, também estava presente. Ela também é investigada por seu papel no escândalo.

Pois é, enquanto a mídia britânica topa discutir seus podres e o principal magnata dela chega quase ao banco dos réus, nós aqui no Brasil, nada de regulamentarmos a nossa imprensa, hein? É discutir o assunto aqui, levantar uma palavra a respeito, e os barões da mídia já vêm com tudo em sua velha história de que é censura, ameaça à liberdade de imprensa...E assim, continuam senhores absolutos de seus monopólios de comunicação e informação usando-os de acordo com seus interesses políticos e econômicos.

Fazem cara de paisagem, fingem que não é com eles e nem em suas empresas, e não discutem o assunto nem agora, que o episódio Carlos Cachoeira desnudou a prática de jornalismo bandido no Brasil, as relações promíscuas da mídia com o crime organizado na produção de notícias contra seus adversários.

Extraído do Blog do Zé Dirceu

O IMPÉRIO DE CAPITAIS CRIMINOSOS - Serguey Guk

© Foto: SXC.hu 
A ONU resolveu, finalmente, tomar medidas contra o problema das receitas da criminalidade organizada. Apenas em 2009, as receitas da criminalidade internacional cifraram-se em 2,1 triliões de dólares, volume comparável ao PIB da Inglaterra. O tema é continuado pelo jornalista Serguey Guk.

As fontes de receitas do mundo criminal são universalmente conhecidas: drogas, armas, tráfico de pessoas, extorsões, roubos, inclusive hackeando contas bancárias. Segundo os dados de Yuri Fedotov, chefe do Bureau da ONU de Luta contra Crimes Econômicos, apenas o tráfico de mulheres proporciona 32 mil milhões de dólares anualmente aos cabecilhas das redes criminosas. A população é sujeita também a roubos de outro modo – mais dissimulados. Segundo a ONU, só nos países em vias de desenvolvimento, a corrupção apreende à população até 40 mil milhões de dólares ao ano. A ONU limita-se ao papel de cronista de acontecimentos. Apresentamos a opinião do deputado da Duma de Estado, Boris Reznik, membro do Comité de Segurança e Contraposição à Corrupção:

"A meu ver, a ONU praticamente não tem quaisquer mecanismos de influência. Esta é uma missão dos Estados nacionais, que têm instrumentos de luta contra todas as manifestações de corrupção. Infelizmente, no nosso país, imitamos frequentemente a luta contra a corrupção".

Frequentemente, diferentes países são envolvidos em esquemas de corrupção. Ao mesmo tempo, os países devem coordenar a sua atividade na luta contra a corrução, o que se faz muito mal. Todos sabem que existem clãs inteiros ligados pela corrupção. Existem na Itália, Espanha, Rússia e América. Mas não conheço, infelizmente, grandes processos de denúncia e punição de mafiosos, continua Boris Reznik. Os corruptos, quando desmascarados, representam um certo perigo. Não é segredo para ninguém que os criminosos estão ligados a representantes do poder político que, por seu lado, receiam que os mafiosos comecem a falar demais no tribunal, revelando as suas relações.

A criminalidade tenta salvaguardar os meios obtidos ilegalmente em local seguro e distante do local do crime. Do mesmo modo procedem os ditadores que saqueiam a sua própria população. A diferença entre os primeiros e os segundos não é muito grande. A Suíça é um refúgio tradicional para pessoas suspeitas. Os seus banqueiros recebiam com igual agrado dinheiro e jóias de nazistas e hoje não se esquivam a milhões criminosos. Entretanto, banqueiros do Liechtenstein, Estados Unidos, Arábia Saudita e até da relativamente “bem comportada” Alemanha aceitam também capitais duvidosos. O dinheiro sujo passa de uma conta para outra até que a sua origem se confunda definitivamente.


Extraído do sítio do Pravda