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12 setembro 2012

HADDAD NO MELHOR MOMENTO - Paulo Moreira Leite


Já tem analista político pedindo socorro a neurologia para tentar explicar a eleição em São Paulo. Outros, em breve, vão jogar búzios. Prova de que a política brasileira resiste aos amadores. Por que?

Porque boa parte de nossos analistas teima em fazer um exercício primário da política: confundir o desejo com a realidade. São quarentões e cinquentões que não aprenderam nada. Ou muito pouco.

O desejo: torcer por uma derrota de Fernando Haddad em São Paulo, que poderia ser anunciada como o início da desconstrução de Lula pelo eleitorado.

A realidade: Haddad está a três pontos de Serra e dificilmente ficará de fora do segundo turno.

Na curva das pesquisas, a tendência de Haddad vai para cima. A de Serra, para baixo.

A curva de Serra que sobe no momento é a rejeição, mostra o DataFolha. Chegou a 46% e é duas vezes e meia maior do que a linha de eleitores que pretendem votar nele. A eleição não está resolvida mas a tendência atual é esta.

Não se sabe se FHC poderá trazer, a Serra, eleitores novos, além dos que já estão com ele.

Marta, com certeza, irá engordar o eleitorado de Haddad. Considerando que a campanha de Serra resolveu criticar o bilhete único – conquista que a população impediu que fosse extinta quando os tucanos recuperaram a cidade – pode-se prever que Marta não terá muita dificuldade para fazer o trabalho eleitoral.

Até porque o número de indecisos subiu e Russomano deu uma leve oscilada para baixo. Não há dúvida que a campanha de Haddad se encontra no melhor momento. A população começa a prestar nele. Basta conversar na barraca da feira perto de sua casa para perceber isso.

Por isso a escolha de Marta para o Ministério da Cultura tem uma relevância política enorme. Não é a ajuda na hora da queda, como FHC a Serra. É o reforço na hora da subida.

Já estou estranhando a ausência, até agora, daqueles balanços previsíveis, chorosos e lacrimejantes, sobre a ministra Ana de Hollanda, que sái. Não tenho a menor condição de avaliar o trabalho dela.

Mas tenho certeza de que, massacrada e criticada em vida, será lamentada fora do cargo, num esforço para esconder aquilo que a nomeação de Marta indica: ao contrário do que garantiam os adversários, os petistas se uniram para tentar vencer a eleição. Quem dizia que Dilma estava pouco ligando para a eleição deve conformar-se com a ideia de que ela fez o que pode para ajudar.

Hipocritamente, observadores que sempre acharam que o mercado deveria mandar na Cultura, deixando ao Estado a função de garantir subsídios e facilidades para investidores privados, já preparam críticas a indicação de Marta. Vão cobrar iniciativas e projetos. Vão lembrar frases infelizes e gafes. No fundo, eles acham que a pasta deveria ser extinta mas aproveitam para falar em toma-lá-dá-cá, no mesmo jogo eleitoral que acusam o governo de fazer.

Não sou otimista nem pessimista a respeito do Ministério.

Acho que a Cultura é um ministério político, como todos os outros. Não é moeda de troca eleitoral e deve ser tratado com respeito. Há muito a ser feito ali. Muito para ser estimulado. É preciso querer e saber.

É bom aguardar, para breve, que Marta demonstre a que veio, num ministério cuja importante nem sempre é bem compreendida — muitas vezes, nem pelos próprios ministros.

E é bom aguardar, num prazo também curto, o desfecho da eleição paulistana. Agora, que não é impossível imaginar uma vitória de Haddad, já é possível adivinhar como ela será apresentada pelos inimigos, se vier a ocorrer.

Já estão dizendo que, agora, Lula “só” quer ganhar em São Paulo. A eleição mais importante, um mês atrás, agora é “só” uma.

Não sei se é caso de neurologia. Quem sabe seja psiquiatria, sociologia, sei lá…

Extraído do sítio Revista Época

23 junho 2012

"REALPOLITIK" - Marta Suplicy

Foto: Elisabete Alves
O modelo "realpolitik" se esgotou e parece que nem todos estão percebendo. Não dá mais para viver essa praga que se entranhou no sistema político brasileiro. Erva daninha que corrói valores, exclui a participação, nega a democracia, desestimula o mérito e ignora a ética.

Nascida na Alemanha, a expressão "realpolitik", segundo Luis Fernando Verissimo, é um termo invocado quando um acordo ou arranjo político agride o bom-senso ou a moral.

Os cidadãos eleitores, que ainda se dão ao trabalho de acompanhar a política, não suportam mais essa prática. Podem até entender a necessidade das composições, alianças e acordos que se tornaram imprescindíveis no Brasil muito em função do nosso sistema eleitoral, do número de partidos e do quanto tornou-se precioso o tempo de TV.

Os que criticam essa modalidade e as formas de fazer política, vistas como "normais" há décadas, têm hoje consciência de que elas são um terrível mal que compromete a ação de governar. Mas quando, pela sua simbologia, ferem os limites do bom-senso e têm a marca do estapafúrdio, tornam-se incompreensíveis para a população e são por ela rechaçadas. Encontram-se além dos limites da própria "realpolitik".

Os sentimentos de indignação, insatisfação e, por fim, impotência estão fazendo com que uma parcela grande das pessoas se desinteresse pela política. A maioria dos jovens quer distância. E o povo, mais escolado, começa a achar "tudo igual", o que acaba provocando o mesmo desinteresse.

A luta pela democracia no Brasil conseguiu eletrizar forças e corações que não suportavam viver num país sob ditadura. Cada um reagiu à sua maneira. Mas muitos morreram e sofreram pela liberdade. Esse resgate da democracia é tão importante que não poderia ter sido contaminado por práticas seculares que nos acorrentam à uma malfadada forma de fazer política. Esta mesma que aliena o povo que se vê -e se sente- excluído e desrespeitado.

Mas nem tudo está perdido. Tem gente formulando, e outros remoendo, novas práticas e métodos, buscando diferentes formas e canais de interação social e política. Um novo modelo que contemple e dialogue com os vários segmentos e forças heterogêneas da sociedade. Uma construção distante dos métodos agonizantes e ultrapassados que ainda hoje vigoram. Uma transição necessária, e imprescindível, que já passou da hora de acontecer.

Não está claro como, e em quanto tempo, se dará o nosso processo de libertação da chamada "realpolitik". Mas, que esse sistema político e eleitoral que vivemos chegou à exaustão, tenho clareza.

* Artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo do dia 23/6/2012.


Extraído do sítio Marta Suplicy

19 abril 2012

MARKETING DE SERRA PRIVILEGIA IMAGEM DE GENTE "DE BEM" A PROJETOS CONCRETOS - Felipe Blumen

Nas últimas eleições que disputou, o tucano José Serra sempre foi o fiador de si próprio. As suas campanhas sempre venderam a imagem do Serra "do bem", e não a do seu partido e muito menos de um programa de governo. A construção de uma imagem boa de si mesmo tinha por objetivo desconstruir a de seus adversários. A ideia à venda era a de que ele seria o candidato com superioridade técnica e ética sobre os demais.


São Paulo - Nas eleições de 2004, para prefeito; de 2006, para governador; e de 2010, para presidente, José Serra (PSDB) sempre foi o fiador de si próprio: suas campanhas venderam a imagem do Serra “do bem”, e não a do seu partido (com história de oito anos na Presidência, de 1995 a 2002, e quatro mandatos no governo paulista, de 1995 a 2006), e muito menos de um programa de governo. 

A construção de uma imagem boa de si mesmo tinha por objetivo desconstruir a de seus adversários. A ideia à venda era a de que ele seria o candidato com superioridade técnica e ética sobre os demais, em especial sobe os petistas, com quem polarizou em todas essas disputas. Agora, com duas derrotas em campanhas presidenciais e uma “Privataria Tucana” (o livro de Amaury Ribeiro Jr) no currículo, Serra está diante de mais um adversário sem histórico de mandatos eletivos. Alegar que Dilma era inexperiente não funcionou em 2010 e pode não funcionar com Haddad. E os índices de rejeição do pré-candidato não indicam que terá grande facilidades de jogar pedras no telhado alheio.

O que chama atenção nas campanhas de José Serra para a prefeitura em 2004 e para o governo estadual em 2006 – e em certos pontos também para suas campanhas presidenciais – é a convergência de suas palavras e ações para aquilo que o marketing político chama de campanha pessoal, ou seja, uma campanha voltada para a construção da biografia de seu candidato, atentando para, por exemplo, sua relação com a família e seu currículo político e intelectual. Grande exemplo é o slogan usado em 2004, para presidente em 2010 e projetado para este ano que diz “Serra é do bem”. O bordão provoca imediata polarização ao insinuar que os adversários seriam “do mal”.

Analisando debates, entrevistas e programas eleitorais, é possível perceber uma divisão clara em qualquer campanha política entre a “crítica” e a “construção”. Aquela, destinada às falhas da gestão atual ou aos perigos de uma eventual gestão da oposição. Esta, baseada no programa de governo e na biografia do candidato.

O histórico político do candidato tucano, no entanto, revela a preferência pela critica – principalmente às gestões petistas – e pela biografia, relevando eventualmente seu programa de governo.

Em sua última campanha na capital, em 2004, por exemplo, Serra criticava ferrenhamente a gestão da então prefeita Marta Suplicy. Em uma discussão sobre o trânsito da cidade, o tucano chamou a atenção da população para uma série de problemas, como o dito “sucateamento da CET”, a não integração do Bilhete Único com outros municípios do estado – segundo ele, por “razões eleitorais” - e o dinheiro “mal gasto” com a construção dos túneis da Av. Brigadeiro Faria Lima. Perguntado sobre o que prometia fazer para resolver esses problemas, retrucava "Não estou fazendo promessas. Estou assumindo teses e compromissos de trabalho".

Outro ponto em que Serra batia em Marta era o “abandono da saúde” da gestão petista. Criticava a preferência da prefeita por obras de infra-estrutura em detrimento da saúde pública. Mas, no programa de governo disponível em seu site, a menos de uma semana antes do segundo turno, observe-se, não constava plano para a saúde senão a solitária proposta do “Mãe Paulistana”, projeto que visava garantir que “as mulheres que não têm recursos passem a ser tratadas com o respeito, a atenção e a prioridade que precisam e merecem". Na ocasião, até sua concorrente perdeu a paciência. "Eu pergunto de solução e você fala de problema", disse Marta.

Indagado sobre a ausência do plano escrito, o candidato dizia não precisar de um porque suas propostas ficavam bastante claras em suas palavras. Nos discursos, contudo, afirmava: "Nós temos de dar boa educação e boa saúde. Estamos muito longe disso. A educação para preparar para o progresso, e a saúde para dar condições dignas de vida e de trabalho."

A maior parte do esforço tucano se dirigia, no entanto, à construção e manutenção de sua imagem pessoal.

Essa opção se beneficia da própria mudança do debate político, que passou a abordar menos temas e mais personalidades. Exemplo é a campanha presidencial de 2010. Quando entrou em discussão a opinião dos candidatos sobre o aborto as pesquisas revelaram um aumento na intenção de votos em Serra. Católico declarado, o tucano não se incomodou em se deixar ser fotografado em igrejas. Não só na ocasião, mas em todas suas campanhas.

No último debate antes do segundo turno de 2004 na capital, Serra falou de sua infância. Disse que cresceu com São Paulo e agradeceu aos filho e aos “netinhos”, segundo ele, “um ponto de descanso nessa campanha”. "Eu nasci na Móoca”, disse, “em uma família simples e, como a grande maioria dos paulistanos, nunca tive nada de mão beijada. Sempre tive que batalhar muito". No discurso da vitória, o tucano a dedicou à mãe e ao pai, com quem aprendeu “o valor do trabalho”.

Essa imagem de gente “do bem” que faz tanto sucesso em suas campanhas políticas é compartilhada não só pela população assumidamente tucana, mas também por outras parcelas. A título de ilustração, o crescimento de Marta Suplicy nas pesquisas durante as últimas semanas do pleito de 2004 foi fruto, segundo a própria equipe de marketing tucana, da desistência da candidata em tentar desmontar a imagem já formada que a população tem do engenheiro e professor José Serra. 

Não foi sem motivo que o tucano viria a ganhar, em primeiro turno, a eleição para governador em 2006, mesmo após ter prometido dois anos antes que não abandonaria o cargo de prefeito para concorrer a outro. E Serra ainda desponta sempre como candidato mais votado nas regiões centrais de São Paulo, independentemente da eleição e dos rivais.

Extraído do sítio Carta Maior