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10 abril 2013

A ANGÚSTIA DE GERDAU COM AS FINANÇAS DO RS E O SEU FUNDOPEM: QUASE MEIO BI E DEZ EMPREGOS - Marco Aurélio Weissheimer

Crítico contumaz e eloquente do que chama de ineficiência dos governos e do setor público em geral, o empresário Jorge Gerdau Johannpeter não hesita em recorrer a estes mesmos governos para obter isenções fiscais para seus negócios. Não é o único a fazer isso, mas essa aparente contradição ganha mais visibilidade pelos discursos inflamados que Gerdau costuma fazer aos seus pares contra a incompetência e a ineficiência do setor público, sempre devidamente amplificados por seus colegas donos de empresas de comunicação. Não foi diferente desta vez, na intervenção de Gerdau no 26º Fórum da Liberdade.

O empresário gaúcho criticou a falta de eficiência, produtividade e visão estratégica sobre “onde eu quero chegar” por parte do setor público. Gerdau também criticou “o domínio da politicagem sobre a gestão” e se disse angustiado com a situação financeira do Estado do Rio Grande do Sul, criticando o saque de R$ 4,2 bilhões em depósitos judiciais para o caixa único do Estado.

A preocupação e a angústia de Gerdau com a situação financeira do Estado não impede, porém, que ele siga recorrendo ao instrumento da isenção fiscal para tocar seus negócios. Em seus discursos autoelogiosos sobre práticas eficientes de gestão, o empresário gaúcho não costuma citar a ajuda que recebe dos governos ineficientes, politiqueiros e incompetentes, para empregar algumas das palavras que ele costuma usar.

Gerdau não costuma dizer que é um usuário frequente de políticas públicas, como o Fundopem, por exemplo. O Fundo Operação Empresa do Estado do Rio Grande do Sul é um instrumento de parceria entre os setores público e privado, que visa promover o desenvolvimento por meio de incentivos fiscais. Em duas reuniões do Conselho em 2013, já foram aprovados 37 projetos, envolvendo um valor de 1,3 bilhões em incentivos fiscais, com a criação de 2.145 postos de trabalho. Um sistema de georeferenciamento registra os projetos e as cidades já contempladas em 2013, com os investimentos envolvidos e a respectiva previsão de geração de empregos.

Nem sempre os maiores incentivos fiscais representam maior geração de postos de trabalho. Um dos maiores projetos de incentivos fiscais já aprovados para este ano beneficiou a Gerdau Aços Longos S/A, um investimento de quase meio bilhão de reais (R$ 475.519.127,33), com geração prevista de dez empregos.

O uso desse tipo de instrumento não ameniza as críticas do empresário ao setor público. Segundo ele falta governança e eficiência, falta saber “onde eu quero chegar”. Gerdau elencou a escala de valores que embasa sua visão estratégica de gestão: “o empresário tem que cuidar em primeiro lugar da família, em segundo lugar, da empresa e, em terceiro lugar, dos políticos”.

Alguém poderia dizer ao nobre e angustiado empresário que o Estado e os governos não existem para privilegiar a primeira pessoa ou a própria família. Até já foi assim, até que surgiu algo chamado Revolução Francesa. Parece que, para algumas cabeças, não chegou por aqui ainda.

Extraído do sítio Sul21

02 novembro 2012

PORTO ALEGRE; O DESAFIO INTELECTUAL DO PT - Luiz Marques


O que aconteceu em Porto Alegre, no alvorecer do século 21, antiga referência da resistência ao Consenso de Washington? A pátria da democracia participativa esqueceu a vocação para a rebeldia? Por que o PT definha na Capital gaúcha? Essas perguntas desafiam os intérpretes e tiram o sono da esquerda. A inquietação é legitima diante da pior estatística eleitoral na trajetória da estrela. Após quatro mandatos, 1988 com 34,34% dos votos válidos (sem a figura do segundo turno), 1992 com 48,17%, 1996 com 54,59% e 2000 com 48,72%, o PT amargou derrotas consecutivas na cidade: 2004 com 37,62% dos votos, 2008 com 22,73% e 2012 com parcos 9,64%. Queda vertiginosa. A crise reflete na Câmara de Vereadores. Desde 1988, o partido não tinha bancada tão diminuta, cinco edis. A própria legenda agoniza, caindo de 27.418 para 17.338 escrutínios.

O quadro exige uma reflexão sem fulanização sobre as causas do descenso e as estratégias de superação. A situação embaraça 2014 e estimula o apetite dos aliados na órbita estadual. As razões para a espiral podem ser assim agrupadas:

Um. Com um recorte teórico lukacsiano, a explicação evocaria uma concepção de partido, que, pelo modo de funcionamento, presentificaria o futuro utópico por via do igualitarismo no tratamento que imanta as relações partidárias: entre “camaradas”, ontem, entre “companheiros”, hoje. O encanto despertado pelo PT, na origem, adviria daí. Mas se a intimidade do partido, ao contrário, deixa transparecer uma luta pelo poder mesquinha e sem justificativa plausível, a magia esvai-se. Traduzindo, o motivo central acharia-se nas acirradas disputas internas que eclodiram em 2002, sustentadas numa lógica autofágica, em que o companheirismo cedeu à insensatez. O eleitorado, decepcionado, então refutou a conduta simbolizada na renúncia do prefeito e impingiu a sequência de tríplice derrotas. A explicação soa como uma fábula moralista, tipo a raposa e as uvas.

A formulação desconhece os meandros da consciência dos eleitores de carne e osso, os quais decidem-se tendo por critério dimensões da vida social que extrapolam as considerações de ordem ético-moral para abarcar em seu julgamento a economia e sua percepção sobre as políticas públicas vigentes. 

Se o definhamento proviesse do fratricídio na organização, teria-se que inverter a tese de Georg Lukács para concluir que quem antecipa a utopia vive sob a hegemonia cultural da direita, as grandes massas. Um paradoxo. Com efeito, a capacidade de interpelação do partido murcha quando o consenso interior trinca. Mas tal atinge em especial o ânimo dos ativistas e a possibilidade de unidade de ação partidária. Outras categorias conduzem a orientação eleitoral. Pesquisas mostram que a preferência pelo PT seguiu ao redor de 25% na cidade. 

Dois. Com um recorte teórico gramsciano, o fator central recairia no descolamento militante do PT em face da sociedade civil. Ou seja, de seu afastamento dos movimentos sociais e das entidades de representação dos trabalhadores como decorrência de sua crescente institucionalização. A acusação de domesticação do petismo esquece que o período de maior radicalidade do PT coincide com a década de 80, caracterizada por estupendas mobilizações na agenda do Brasil. Sem estofo social, a tendência é resvalar no vanguardismo estéril. “Melhor errar com o povo do que acertar sem ele”, dizia um célebre russo. Não existe vanguarda política sem protagonismo social.

De resto, alerta Jeferson Miola (Carta Maior, 15/10/2012), o PT disputou o pleito com candidatos próprios em 87 dos 133 municípios com mais de 200 mil habitantes no país e em apenas 8 teve menos de 10% dos votos. Porto Alegre foi um deles. Os demais: Campina Grande/PB (1,17%), Vila Velha/ES (2,33%), Barueri/SP (2,36%), Imperatriz/MA (2,83%), Campo Grande/MS (4,87%), Ananindeua/PA (5,24%) e Guarujá/SP (5,24%). À medida que o processo de acomodação institucional do PT é um fenômeno nacional, era de se esperar performance semelhante em outros centros urbanos, o que não ocorreu majoritariamente. 

O PT cresceu de Norte a Sul, aumentou o número de prefeituras, vereadores e eleitores. O sucesso de Fernando Haddad em São Paulo amplificou esse crescimento, fazendo de Porto Alegre a exceção à regra. Como resumiu Marcos Coimbra: “As eleições foram favoráveis ao PT... que reforçou suas bases municipais, com isso se preparando para melhorar o desempenho nas próximas eleições legislativas” (Carta Capital, 31/out). Há que olhar a árvore sem abstrair a floresta. 

Três. Com um recorte teórico leninista/trotskista, sublinharia-se sobretudo as fragilidades organizativas do PT e a sua crise de direção política. A perda de organicidade remeteria às debilidades das zonais, com uma atividade muito aquém das exigências comunitárias por atender mais ao calendário do TSE do que à conjuntura política citadina. As insuficiências diretivas revelariam-se no distanciamento das instâncias partidárias frente ao conjunto dos filiados, no precário sistema de comunicação interativa com o assoalho partidário e na ausência de intervenção forte no debate da cidade. Faz sentido, em vários aspectos. Questões relevantes, a exemplo da privatização da área do Estaleiro Só com a edificação de espigões, na orla, embora forçassem a realização de um plebiscito, não suscitaram um movimento apto a dialogar em defesa dos espaços públicos de convivência. Não se gerou uma conscientização acerca da índole privatista que impulsiona as forças políticas que controlam a prefeitura. A resistência cotidiana concentrou-se na tribuna da Câmara Municipal. Não foi às ruas, nem às ciclovias.

Ok. Mas os itens relativos à textura da organização e à modorra da direção constam na avaliação de outras municipalidades de porte e, nem por isso, nelas, o balanço adquire contornos dramáticos. Vale lembrar que, em 2010, o PT venceu as eleições para governador em primeiro turno no Rio Grande do Sul, livrando grande vantagem em Porto Alegre: 51,04% (Tarso Genro/PT) contra 26,11% (José Fogaça/PMDB) e 17,57% (Yeda Crusius/PSDB). O instrumental político permaneceu o mesmo. Virtudes e defeitos não sofreram alterações, conquanto a voz das cédulas eletrônicas assumisse um timbre diferente para gaguejar a frustração e a tristeza da militância. 

Quatro. Em um recorte teórico estruturalista, indicaria-se as transformações sócio-econômicas que tornaram Porto Alegre uma cidade de serviços, com uma significativa concentração de servidores ligados a órgãos municipais, estaduais e federais. Esses segmentos compunham a base social da agremiação, mas afastaram-se em função da Reforma da Previdência no primeiro mandato do estadista-metalúrgico. O escândalo do “mensalão”, em 2005, com meses de manchetes nos meios de comunicação que criminalizaram a totalidade do partido, fez refluir também o apoio dos setores intermediários, professores, estudantes, profissionais liberais, retirando da legenda o carisma que acompanhava-a desde a fundação. É verdade que no Distrito Federal, paraíso dos funcionários e das classes médias, em 2010, o PT emplacou o governador Agnelo Queiroz com 66,1% dos votos contra 33,9% de Weslian Roriz/PSC. Mas em Brasília o sobrenome do oponente era sinônimo de corrupção, o que matiza o contra-argumento. O funcionalismo público entra na contabilidade, sim.

As dificuldades sentidas em Porto Alegre são, parcialmente, provocadas pelo desencantamento e pela progressiva despolitização da política, na percepção daqueles setores. O pragmatismo rasteiro, as alianças demasiado elásticas para aumentar a competitividade eletiva e viabilizar a governabilidade, os privilégios acumulados pelos parlamentares em geral no exercício do cargo e rotinizados pelos representantes petistas, o denuncismo midiático de malfeitos implicando as instituições políticas e os políticos, com o agravante do espetáculo proporcionado pelo STF na Ação Penal 470, popularizada como “mensalão do PT”, tudo isso acarreta embaraços para o petismo na opinião pública. Mas os obstáculos vão além dos bolsões da sociedade, ora céticos.

Cinco. No mesmo recorte teórico, conviria examinar a base social do “lulismo”, formado pelo subproletariado que substituiu as classes médias tradicionais como sustentáculo do PT. A recondução de Lula em 2006 e o congraçamento de Dilma em 2010, tiveram o reforço dos extratos econômicos que ascenderam das faixas “E” e “D” para a “C”, configurando a “nova classe média”. O petismo seria agora tributário do lulismo, afiança André Singer (“Raízes sociais e ideológicas do lulismo”, Revista Novos Estudos, nov/2010). Como o processo de ascensão deu-se pelo consumo e não pela participação política, o segmento de 40 milhões de pessoas possui um enorme déficit de consciência. Por portar valores conservadores, está em disputa. Por estar centrado na esfera privada (família, amigos, igreja) e de costas para esfera pública (crê que a mudança de status deveu-se ao empenho individual e não às políticas governamentais), inclui-se no conceito de “alienação” esboçado por Cornelius Castoriadis. A equação consiste em transpor o lulismo para o petismo. Rezemos pela saúde de Lula.

Profissionais vinculados a empresas de diversos ramos, da telefonia à aviação, bem como supermercados e emissoras de televisão buscam informações sobre o comportamento, as expectativas, os interesses, o gosto estético desse universo populacional que adentrou o labirinto mercadológico massivamente. 

Urge que o PT estimule debates, colha e cruze dados para qualificar a interlocução com a classe trabalhadora ampliada. Não logrou resultado nas eleições municipais em 2004, 2008 e 2012 no território da dupla Gre-Nal. Para usar uma metáfora, a população assinalada é para a esquerda brasileira o que Chiapas foi para o Zapatismo. No México, o subcomandante Marcos soube inovar a linguagem de contestação, absorvendo imagens da tradição cultural indígena e incorporando-as no discurso dirigido à humanidade. O PT saberá fazê-lo relativamente às camadas sociais emergentes?

Seis. Com um recorte teórico no sectarismo, que recenderia a Terceira Internacional, a opção pela candidatura própria - aprovada por unanimidade - seria responsável pela derrocada da hora. Pudera. Tendo o PT administrado sucessivas vezes a Capital; sete vereadores na legislatura em curso; dois expressivos deputados estaduais (Raul Pont, presidente da sigla no RS, e Adão Villaverde, ex-presidente da Assembleia Legislativa do RS), ambos com suporte preponderante na cidade; dois deputados federais em idênticas condições políticas, (Maria do Rosário, ministra da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, e Henrique Fontana, ex-líder do governo Lula na Câmara Federal); melhor pontuação entre os partidos no ranking de simpatia no alvissareiro Porto dos Casais; titularidade no Palácio do Piratini; três mandatos no comando do país; ícone da esquerda internacional graças à prática do Orçamento Participativo; como aceitar com tantos quesitos que abrisse mão da cabeça de chapa? 

Sem mencionar que a aliança com o vencedor (José Fortunati/PDT) implicaria associar-se à oposição ao governo Lula/Dilma, DEM e PPS, que viam na garupa. Quanto à candidata Manuela d'Ávila/PC do B, sua credencial limitava-se ao suposto potencial de votos depois do expressivo sufrágio que conduziu-a ao Congresso, o que na comparação com a cimentada construção do PT não bastava para ajuizar a troca de posições na chapa. Ademais, o que não foi escrito pelos fatos rende-se a um idealismo filosófico sem correspondência com o real. Serve para elidir ou inventariar imaginárias culpabilidades e retroalimentar as diatribes domésticas. Mas é inútil para o esclarecimento coletivo, não prospecta soluções políticas. Que o atual presidente do Diretório Municipal, não reeleito à vereança, responsabilize as correntes internas (alma da democracia partidária) pelo saldo final negativo é sintomático da miopia que abate-se sobre o partido. “As tendências estão matando o PT”, estampou o prócer no sítio Sul 21. Por favor, que as tentações sectárias ruminem os versos de João Cabral de Melo Neto: “A aranha passa a vida / tecendo cortinados / com o fio que fia / de seu cuspe privado”. 

Os agrupamentos explicativos acima trazem pontos relevantes e complementares à compreensão do enxugamento petista na metrópole onde irrompeu o Movimento pela Legalidade, em 1961, para evitar um golpe de Estado no Brasil. E onde o Fórum Social Mundial, a partir de 2001, viu renascer a esperança em um outro mundo, possível e necessário, após o dilúvio do neoliberalismo. As gavetas abertas nessa análise preliminar indicam uma reformulação no modus operandi do PT e convida-o a ousar experiências criativas coadunadas com as aspirações dos bairros, da juventude, das mulheres, dos afro-descendentes, dos que constroem-se como sujeitos da transformação. Não se trata só de azeitar a máquina partidária, mas de reinventar-se nos sonhos que fazem as múltiplas cidades que habitam Porto Alegre. Aprender antes de ensinar, é indispensável quando a representação política convencional, no formato de partido, já não possui o monopólio das ações públicas que batalham por paisagens sociais distintas. 

Nenhum deus maligno espreita a esquerda portoalegrense. Nenhum destino avança inelutável e arrasador sobre as generosas ambições petistas locais, como se não houvesse possibilidade de reafirmar e consensualizar um programa republicano, democrático e socialista no Paralelo 30, com a adesão consciente da maioria da cidadania. A história está escancarada, não tem portas fechadas aos que trabalham em prol de uma sociedade sem opressores e sem oprimidos, sem exploradores e sem explorados, visando um Estado de Bem Estar Social sensível ao sofrimento dos pobres. 

De acordo com Mário Pedrosa, “a arte, em todos os tempos, tem sido um meio prodigioso, e talvez, com a natureza, o único criador de realidades”. O saudoso militante da liberdade e pensador da cultura, não obstante, permitiria-nos acrescentar ao elenco dos criadores, a política. A política, com as ferramentas da luta ideológica somada à combatividade e ao discernimento dos lutadores sociais, também é capaz de criar novas realidades para os seres humanos. O PT deve instruir as mentes e estimular sempre a politização da política para reconquistar o coração de Porto Alegre.

* Luiz Marques é professor de Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Extraído do sítio Carta Maior

18 outubro 2012

O PT E A ELEIÇÃO MUNICIPAL EM PORTO ALEGRE - Paulo Muzell

O PT sofreu nesta última eleição em Porto Alegre a sua maior derrota desde sua criação. Um analista pintou o episódio com tintas fortes, classificando-o como “derrota inclemente”. Os números não deixam qualquer dúvida: a candidatura majoritária fez menos de 10% dos votos válidos e foram eleitos apenas cinco vereadores. Em 1996 no “auge” de sua trajetória o PT de Porto Alegre obteve quase o triplo, conquistando 14 cadeiras na Câmara. O voto na legenda despencou: foram 110,9 mil em 1996 e apenas 14,7 mil em 2012, uma queda de 87%!

O paradoxo é que apesar do péssimo desempenho na capital, o PT cresceu no Estado e no Brasil: elegeu mais prefeitos e vereadores. É verdade que a veracidade desta afirmativa inicial só poderá ser melhor avaliada depois de apurado o resultado do segundo turno, pois nas maiores cidades o desempenho, à uma primeira vista, não indica avanços. Em nove das 26 capitais brasileiras as eleições foram definidas no primeiro turno. Em apenas uma, Goiânia o PT foi vencedor. Nas restantes dezessete capitais o partido disputa o segundo turno em seis: São Paulo, Salvador, Fortaleza, João Pessoa, Cuiabá e Rio Branco. Aqui no Estado o PT perdeu em quase todas grandes cidades, as exceções foram Canoas, Rio Grande, Alvorada e, talvez, Novo Hamburgo (resultado ainda dependendo de decisão judicial); em Pelotas disputa o segundo turno.

Como explicar o fato? Do que se ouve e do que se lê, dentre as causas mais mencionadas cita-se a perda de inserção nos movimentos sociais e comunitários; evasão dos melhores quadros que paulatinamente saíram da esfera municipal, transferindo-se para a área estadual ou federal. Há uma evidente redução da capacidade militante que resultou na diminuição do protagonismo no debate público da cidade. Uma causa mais específica, muito citada durante e especialmente após o episódio eleitoral seria a falta de capacidade da candidatura petista de explicar a confrontação e as diferenças entre as três candidaturas do “campo democrático-popular”. Até a opção pela candidatura própria – ao invés de uma coligação com o PC do B com Manuela na “cabeça” e o PT de vice – também é citada como um equívoco que dividiu a “esquerda”, favorecendo a candidatura de Fortunati. E por fim, a escolha de um candidato pouco conhecido na cidade, de baixa densidade eleitoral.

Essas e outras razões comumente citadas no meu entendimento apenas tangenciam o tema. É necessário que se faça uma breve análise histórica da disputa política na cidade nas três últimas décadas e do papel desempenhado pelo petismo porto-alegrense no processo para que se possa vislumbrar as verdadeiras causas.

Em primeiro lugar julgo um equívoco afirmar que o recente episódio eleitoral “confrontou três candidaturas do campo democrático-popular”.

A candidatura Fortunati tem suas origens numa aliança de centro-direita que teve como eixo central o PMDB de Simon, apoiado por um ressentido, um raivoso anti-petismo liderado por Viera da Cunha (PDT). A eles se uniram outros partidos de direita: o PP e o DEM legítimos representantes do conservadorismo mais tradicional, herdeiros legítimos da velha Arena e os “novos” partidos da “direita lúmpen”, cuja maior expressão é o PTB. Há, também, a adesão da tradicional “sopinha de letras”, representada por siglas inexpressivas que “correm ao botim para disputar alguns farelos”. Esta aliança, ampliada em 2012, na eleição de Fortunati, teve desde 2005 total e irrestrito respaldo da mídia conservadora, liderada pelo PRBS (Partido da RBS). Esse conglomerado da mídia dá total apoio a um governo municipal que desde 2005 tem sido muito “fiel e eficiente” na tarefa de “desatar nós” – entenda-se remover entraves do Plano Diretor – que “impediam ou atrasavam os mega empreendimentos do seu braço imobiliário”. No jargão jornalístico da empresa, “fundamentais para o crescimento e desenvolvimento da cidade”. Resumindo o governo Fo-Fo (Fogaça Fortunati) assegurou zoneamentos de uso mais permissivos, maiores alturas, índices de aproveitamento e taxas de ocupação, assegurando gordos lucros para o setor.

Observe-se que Fortunati reforçou a “ala direita” do seu governo trazendo para posições chaves de sua equipe Edmar Titukian e Ana Pellini, quadros que integraram o primeiro escalão do governo Yeda.

A candidatura Manuela até que largou bem, mas ao longo da campanha não mostrou fôlego, foi perdendo consistência. Pela segunda vez um partido pequeno – o PC do B – tenta dar o “grande salto” conquistando a prefeitura de uma grande capital. Tem à frente um quadro novo, fenômeno eleitoral em eleições proporcionais, mas que já tivera um fraco desempenho na sua primeira candidatura à Prefeitura em 2008. Não viabilizando a sua pretendida aliança com o PT, fragilizou-se sua candidatura. O PC do B repetiu o erro de 2008, buscou aliança à direita. Em 2008 com o PPS do Britto, em 2012 com a senadora Ana Amélia, que desconsiderou a posição do seu partido, o PP e assumiu a candidatura Manuela. Ficou claro que ela é do PRBS e não do PP. Manuela é uma candidata que de “novo” só tem a idade.Tentou demonstrar que era o moderno, não colou, o eleitor não acreditou. A candidatura tinha propostas vagas sobre os temas da cidade e não partiu para o confronto ideológico com a candidatura Fortunati, que saiu ilesa, sem danos dos debates. A candidata me deu a clara impressão de se ressentir da falta de um conhecimento mais sólido, restringindo-se a repetir falas inconsistentes elaboradas por um marketing uma assessoria política conservadora, pra lá de convencional. Não podia dar e não deu certo.

A candidatura Villaverde também tinha tudo para não dar cento. Candidato pouco conhecido de um partido em rota francamente descendente em Porto Alegre. E que se defrontou com uma grande coligação de partidos, reforçada por novas adesões, tentando a reeleição de um candidato com forte apoio da mídia. Mídia que blindou seus oito anos de governo. Mais de uma dezenas de escândalos, denúncias de desvios e de favorecimentos, recebimento de propinas – que resultaram, inclusive, no suspeito assassinato de uma importante figura do governo – ocorreram sem que os jornais e as tevês locais concedessem espaços de veiculação que correspondessem à importância dos fatos. Um constrangedor silêncio tumular que perdurou de 2005 a 2012.

O PT cresceu até o ano 2000 porque tinha um projeto para Porto Alegre resumido no seu conhecido e repetido slogan: “coragem de mudar”. Inversão de prioridades, fim das mordomias e do nepotismo, incentivo à participação popular, justiça social e tributária resumida no slogan: quem tem mais paga mais (impostos), quem tem menos recebe mais (salários, serviços e obras). Especialmente a partir de 2001 começa o declínio do ciclo petista. A conquista do governo estadual em 1998 e a vitória de Lula em 2002 trazem como conseqüência a migração de quadros históricos e qualificados para as esferas administrativas estadual e federal. A crise econômica de 2002 (último ano do governo FHC) traz o desequilíbrio orçamentário-financeiro às contas municipais. Pioram as práticas políticas, há claras evidências do “cansaço dos metais”. O resultado foi a primeira vitória de Fogaça em 2004.

Nos oito anos seguintes, na oposição, o PT de Porto Alegre, bancada e partido perderam consistência, fazendo quase sempre uma oposição tíbia, pontual, ao governo. Um governo mau gestor e marcado por graves irregularidades.. Um governo que destruiu o que restava do planejamento urbano e o “esquartejou plano diretor da cidade”. Um governo servil e submisso aos interesses da construção civil. Um governo que privatizou equipamentos e espaços públicos (Araújo Viana e Largo Glenio Peres). O PT pouco criticou nos oito anos e, em conseqüência, calou também na campanha, onde evitou a crítica e o debate político e ideológico mais forte. Calara em 2008, na desastrosa campanha de Maria do Rosário e repetiu o erro, calou novamente na campanha em 2012. Mas calou, sobretudo, por não ter unidade programática, por ter perdido a convicção ideológica do passado.

Terá o PT de Porto Alegre compreendido as lições desta grande derrota eleitoral? Terá o partido, ainda, reservas de energia e um mínimo de consistência ideológica que permita a necessária mudança de rumos? Há condições de construir um novo projeto capaz de reconquistar a hegemonia perdida na cidade? Tarefa extremamente difícil sem que seja alterada a atual correlação de forças internas do partido. Mas vital para a sua sobrevivência.

Extraído do sítio RS Urgente

13 abril 2012

TARSO GENRO VOLTA A CRITICAR GRUPO RBS - Marco Weissheimer

‎Marco Weissheimer – Na edição de Zero Hora desta sexta-feira (13/4), o colunista David Coimbra pergunta se o senhor “não tem vergonha” da situação. Qual a sua resposta a essa indagação?

Tarso Genro – Convido o jornalista que escreveu o isento artigo a ter vergonha comigo. Mais vergonha, talvez, porque, afinal, os dois governos que nos precederam foram eleitos com o apoio ostensivo das editorias da rede de comunicação onde ele trabalha. Os últimos oito anos de total descaso com o Presídio Central é que resultaram esta situação dramática que, paulatinamente, vamos corrigir. Ou alguém pensa que drama do presídio é resultado dos últimos 15 meses? Portanto, em oito anos de governos que foram eleitos com o ostensivo apoio dos “formadores de opinião” do jornal ao qual o referido jornalista presta o seu serviço, pouco ou nada foi feito em relação ao Presídio Central.

A questão acima é parte da entrevista com o governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, publicada nesta sexta no blog RS Urgente. No texto referido por Marco, o funcionário do Grupo RBS David Coimbra defende a privatização como solução para os imensos problemas do sistema prisional.

Neste momento, vale lembrar duas coisas:

1 – Já demonstramos AQUI a predileção do Grupo RBS por um sistema prisional privado, e algumas das motivações envolvidas na defesa dessa pauta.

2 – Os militantes da democratização da mídia no Rio Grande do Sul continuamos esperando pela criação do Conselho Estadual de Comunicação. Em março de 2011, a secretária de Comunicação Vera Spolidoro demonstrou, em entrevista ao Jornalismo B, a intenção de levar a cabo a criação do Conselho. Tarso reconhece – e não é a primeira vez que faz afirmações nesse sentido – o quão prejudicial o monopólio do Grupo RBS é ao Rio Grande do Sul, então podemos acreditar que, juntamente com a mobilização da sociedade organizada, o governo tomará atitudes nesse sentido até o fim de seu mandato.

Extraído do sítio Jornalismo B