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26 fevereiro 2013

LONDRES TAMBÉM PERDE O SEU TRIPLO A

Orlando Cue
Em 22 de fevereiro, o Reino Unido tornou-se a última nação europeia a perder a sua notação AAA, quando a agência de rating Moody’s reduziu a notação de crédito para Aa1. É embaraçoso para o primeiro-ministro, David Cameron, mas não um choque para os mercados, afirma “The Times”, que incentiva o Governo a prosseguir a política de austeridade.

A realidade da descida da notação de crédito do Reino Unido poderá revelar-se menos impressionante do que a expectativa. A retirada da notação AAA ao Reino Unido, nas próximas semanas, era aguardada por todos. A única surpresa foi a Moody’s ter tomado essa decisão antes da apresentação do orçamento, em março. A calma dos investidores quando a França e os Estados Unidos perderam as notações máximas indica que a reação dos mercados pode ser mais um encolher de ombros do que um estremecimento.

Contudo, do ponto de vista político, o facto é bastante importante, em especial porque [o ministro das Finanças] George Osborne disse que manter a notação AAA do Reino Unido seria um parâmetro de referência do sucesso da sua estratégia para a redução do défice. Alguns dos que o criticam, entre os quais o ministro sombra das Finanças, Ed Balls, afirmam que perder a notação prova que a estratégia fracassou e que Osborne deveria tentar uma nova abordagem. No entanto, este jornal acredita que o problema não reside em a estratégia elaborada pela coligação em 2010 ser errada. Reside no facto de o Governo não ter aplicado essa estratégia com a energia e a coragem política suficientes.

Economia com impostos baixos

Osborne estava absolutamente certo ao dizer que a prioridade era um plano credível para reduzir o défice orçamental e que isso deveria ser conseguido sobretudo através de cortes na despesa pública e não através de aumentos de impostos. Isso faria parte de uma passagem, a mais longo prazo, de um Estado com um montante elevado de despesa para uma economia com impostos baixos, com espaço para o florescimento do setor privado, liberto de regulamentação desnecessária. Com a ajuda da desvalorização da libra, verificar-se-ia um reequilíbrio da economia orientado para as exportações e para as regiões, e mais distante da City [centro financeiro de Londres] sobreaquecida e do resto do sudeste.

As razões de os progressos até agora realizados serem tão insatisfatórios escapam, em grande medida, ao controlo do Governo.

O crescimento não recuperou tanto quanto se esperava, em parte porque as exportações foram afetadas pela crise da zona euro. Entretanto, a queda da libra faz aumentar a inflação, o que colocou o consumo sob pressão.

Cortes abruptos

A estagnação do crescimento teve como resultado maiores prestações de desemprego e Osborne permitiu, acertadamente, que estas conduzissem a uma emissão de dívida pública mais elevada do que o previsto, de preferência a impor mais cortes noutros domínios, para compensar.

Mas, sob estes números, a verdade é que a coligação não foi suficientemente longe nem agiu suficientemente depressa na reestruturação do Estado e na reforma dos serviços públicos. Em parte, esse facto reflete a influência dos liberais democratas no seio da coligação. Estes não reconheceram que encontrar novas formas de tributar mais fortemente os ricos é irrelevante para os desafios reais que a economia britânica enfrenta.

É certo que alguns departamentos governamentais estão agora a sofrer cortes abruptos. Mas não tão abruptos como a pouco judiciosa redução do investimento público que Osborne herdou dos trabalhistas. O investimento em infraestruturas, que poderia ser um fator determinante de crescimento económico, foi ainda mais prejudicado pelo fracasso do Governo em enfrentar os obstáculos surgidos em Whitehall e no sistema de planeamento. Também não se registaram progressos suficientes no esforço mais vasto no sentido de reduzir o peso da regulamentação sobre as empresas. Demasiadas decisões difíceis, como a necessidade de identificar um novo aeroporto central no Sudeste, foram evitadas.

Redobrar o empenho governamental

A descida da notação porá pelo menos à disposição de Osborne mais munições contra os pedidos dos trabalhistas no sentido da mitigação dos planos de redução do défice, no orçamento do próximo mês. Osborne poderá continuar a basear-se na política monetária para oferecer estímulos adicionais à procura e o facto de o Comité de Política Monetária do Banco de Inglaterra estar a analisar formas mais imaginativas para pôr em prática a sua estratégia de restritividade quantitativa é encorajador.

Contudo, isto não significa que o ministro das Finanças não deva fazer nada. Deve, pelo contrário, redobrar o empenho governamental em reduzir os encargos das empresas e em levar por diante uma reforma radical do setor público. É esta a única via para a recuperação da notação de crédito do Reino Unido.

* Publicado originalmente no The Times.

Extraído do sítio Press Europe

13 fevereiro 2013

PORTUGAL FECHOU 2012 COM MAIS DE 923 MIL PESSOAS DESEMPREGADAS - Gilberto Costa


Lisboa – O Instituto Nacional de Estatística (INE) de Portugal contabiliza que o país fechou 2012 com 923,2 mil pessoas desempregadas, uma taxa de 16,9%. O número de desempregados relativo aos meses de outubro a dezembro é 1,1 ponto percentual superior ao do trimestre anterior e 2,9 pontos percentuais em relação ao mesmo período de 2011.

De acordo com o INE, o aumento da população desempregada se deu “essencialmente” na faixa etária dos 25 aos 44 anos, com escolaridade básica (12 anos de estudo) e egressas da indústria, construção civil, companhias de energia e de água. A taxa de desemprego é ligeiramente maior entre as mulheres (17,1% de desempregadas e 16,8% desempregados).

Segundo o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, o desemprego está “muito elevado” e é “socialmente muito doloroso”. Ele reconhece que a falta de trabalho “é a situação talvez mais dramática” que o país vive no processo de reajustamento econômico.

Portugal sofre com a crise econômica na zona do euro e por causa da perda de confiança no mercado financeiro internacional. Por causa disso, mantém um programa acordado com o Fundo Monetário Internacional; o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia para equilibrar as finanças do país.

As medidas adotadas para zerar os déficits fiscais e de transações correntes de Portugal acabaram por enxugar o crédito disponível no país (fundamental para setores com o da construção) e também afetam os gastos sociais (inclusive o seguro-desemprego).

O dado do desemprego divulgado hoje é mais um indicador da recessão econômica. Em 2012, a economia encolheu 3% e deverá continuar diminuindo este ano. Conforme projeção do Banco de Portugal, o banco central do país, o Produto Interno Bruto (PIB) entre 2009 e o fim de 2013 deve registrar queda de 7,4%.

Extraído do sítio Agência Brasil

12 fevereiro 2013

ALEMANHA ACREDITA QUE O PIOR DA CRISE ECONÔMICA GLOBAL JÁ PASSOU


Relatório do Ministério da Economia afirma que indicadores mundiais são positivos e que país recuperará crescimento em 2013.

O governo alemão acredita que a economia mundial já chegou ao fundo do poço, após analisar os sinais positivos mostrados pelos principais indicadores macroeconômicos, e confia em uma rápida recuperação do crescimento na maior economia europeia.

Assim assegura nesta segunda-feira (11/02), em seu relatório mensal, o Ministério da Economia, que assinala que o "ponto mais baixo da fase débil da economia global parece já ter sido deixado para trás", defendendo que os "indicadores conjunturais internacionais voltam a enviar sinais positivos".

O documento prevê, além disso, uma pronta recuperação da economia alemã, após ter sido superada a fase de "crescimento débil", que começou no último trimestre do ano passado.

"As possibilidades de uma recuperação do crescimento na Alemanha ao longo deste ano subiram", argumenta o texto do Ministério da Economia.

O governo da chanceler Angela Merkel estima que a economia alemã se beneficiará rapidamente "da estabilização do contexto internacional", com a melhora da situação na eurozona - ainda em uma "suave recessão" -, a resolução parcial dos problemas fiscais nos EUA e a recuperação dos países emergentes liderados pela China.

Este contexto menos turbulento, argumenta o relatório, repercute positivamente nos mercados financeiros e na economia real, devolvendo parte da confiança perdida "nas perspectivas econômicas a empresas e consumidores".

Berlim espera que o crescimento econômico nacional se sustente este ano em grande medida no consumo interno, já que as exportações, principal ponta de lança da economia nacional, vão continuar afetadas pela crise global.

A Alemanha envia 40% de suas exportações para a eurozona - e assim a crise da dívida soberana no sul do bloco econômico a afeta notavelmente -, 20% para o resto da União Europeia e 40% a terceiros países.

Extraído do sítio Opera Mundi

02 fevereiro 2013

PORTUGAL ANSEIA PELA RECUPERAÇÃO ECONÔMICA - Ralf Bosen


Com seu retorno ao mercado de capitais, Portugal deu um exemplo positivo. O governo ganhou novo impulso e pretende arrecadar dinheiro com atividades criativas. Mas falta confiança aos jovens portugueses.

Quando os sons melancólicos do fado ecoam, os portugueses costumam sonhar com dias melhores. Nos últimos anos, os acordes menores dessa música os têm ajudado a suportar a falta de perspectiva da crise financeira. Desde que Portugal retornou com sucesso ao mercado de capitais, no final de janeiro, há um pouco mais de motivos para esperança.

Pela primeira vez desde a perda de confiança por parte dos credores, o governo em Lisboa pôde emitir, novamente, títulos da dívida com resgate em até cinco anos. Somente com vencimentos bem mais prolongados pode-se testar se os mercados de capitais confiam no país. E é isso que parece estar ocorrendo. A demanda superou significativamente a soma desejada de 2,5 bilhões de euros.

Os lances vieram principalmente do exterior. Dessa forma, não só os maltratados cofres estatais foram um pouco aliviados, como, acima de tudo, os portugueses receberam um importante impulso psicológico no combate à crise financeira.

Hans-Joachim Böhmer, da AHK em Lisboa
"A colocação bem-sucedida dos títulos públicos portugueses, na atual fase e com esse sucesso, superou as expectativas, isso está sendo visto aqui como um grande êxito da política de consolidação do governo português", disse Hans-Joachim Böhmer, da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Alemã (AHK, na sigla em alemão), em Lisboa.

Em conversa com a Deutsche Welle, ele acrescentou que o objetivo original era voltar ao mercado somente em setembro deste ano. "A decisão foi antecipada em praticamente seis meses, e se constatou que os papéis tiveram boa colocação no mercado."

Alívio em Bruxelas

O fato valeu um elogio de Berlim. O 1° Fórum Portugal-Alemanha, realizado na última semana em Lisboa, procurou ampliar o intercâmbio entre os dois países. Na ocasião, o ministro alemão do Exterior, Guido Westerwelle, parabenizou o governo português, explicando que "as notícias do mercado financeiro para Portugal são bastante encorajadoras".

Olli Rehn defende vantagens para Portugal e Irlanda
Também em Bruxelas essa nova dinâmica foi recebida com alívio. O comissário europeu de Assuntos Monetários, Olli Rehn, defendeu que Portugal e a Irlanda – o outro país-modelo da zona do euro em crise – paguem seus empréstimos de emergência após o prazo combinado. Depois que foram concedidas à Grécia condições mais favoráveis, os dois países também querem ser beneficiados.

Segundo Rehn, não seria apenas no interesse dos dois países, "mas também de toda a União Europeia que a Irlanda e Portugal possam se refinanciar novamente através do mercado de capitais." Essa questão, no entanto, só será decidida na cúpula da UE, em março próximo.

Ainda no fundo da crise

Em maio de 2011, Portugal recebeu um empréstimo de emergência da União Europeia (UE) e do Fundo Monetário Internacional (FMI) no valor de 78 bilhões de euros. Em contrapartida, Lisboa se comprometeu a implementar duras medidas de austeridade econômica e reformas para sanear o orçamento público e impulsionar sua economia.

Até o fim do ano, o país deverá reduzir seu deficit orçamentário para 4,5% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional. Hans-Joachim Böhmer, da AHK em Lisboa, disse esperar um aumento de impostos neste ano, "para que se mantenha a previsão de deficit orçamentário nos moldes acordados com a Troica". Deve-se, portanto, olhar para os dois aspectos da atual dinâmica, ressaltou Böhmer: "Por um lado, o fato positivo de Portugal poder voltar ao mercado de capitais; por outro, para os fardos das reformas e das medidas de austeridade financeira, que a população está sentindo fortemente".

As modestas previsões de crescimento econômico para este ano e o número crescente de pessoas emigrando do país mostram a fragilidade da economia portuguesa. Particularmente os jovens vislumbram um futuro sombrio. Devido a uma taxa global de desemprego de quase 16% – e quase 39% entre os jovens –, muitos procuram a sorte no exterior.

Hans-Joachim Böhmer confirma: aqueles que não veem em Portugal as chances de que necessitam, procuram oportunidades em outros países, "e não somente nos lusófonos como Angola". No ano passado, por volta de 6 mil trabalhadores portugueses foram para a Alemanha. "No ano anterior, esse número foi uns 15% menor", comenta Böhmer.

Jovens protestam contra medidas de austeridade em Lisboa
Entre os que querem deixar o país, está a jovem Helena Vieira, de 20 anos. "Eu já pensei muito em sair daqui, à procura de uma vida melhor." Ela trabalhava como cozinheira no Algarve, em meio expediente e a quatro euros por hora, chegando ao fim do mês com cerca de 500 euros. Há algumas semanas, mesmo isso chegou ao fim. Havia pouca clientela e o restaurante teve de fechar. Agora, Helena está se mudando para a antiga colônia portuguesa Angola. Se antes a força de trabalho vinha de lá, agora é o contrário.

Helena Vieira está convencida de que esse é o caminho certo. "Eu vejo que os jovens estão indo embora. E só fica aqui quem não tem nenhuma chance lá fora, por ser velho demais." Ela não é a única: há já algum tempo, longas filas se formam diante da embaixada angolana em Lisboa, toda terça e quinta-feira.

Formas criativas de arrecadar fundos

Helena Vieira quer emigrar para Angola
Visando melhorar a situação, o governo português vem tentando meios incomuns para reforçar os cofres públicos. Um deles é atrair imigrantes ricos, que tragam capital novo. Nesse sentido, em outubro passado foi aprovada uma lei que facilita a obtenção do passaporte português para os empresários estrangeiros dispostos a investir grandes somas no país.

Organizações portuguesas de direitos humanos criticam a nova lei. Segundo elas, enquanto se procura atrair investidores que pouco fazem pelo país, os imigrantes simples, que perderam seus empregos devido à crise, são deixados à própria sorte.

De qualquer forma, até agora tem sido modesta a demanda pelo assim chamado Visto Dourado. Realmente, é pouco provável que os empresários acorram a Portugal devido ao fado ou às chances de investimento: se há interesse, é antes pelo fato de um visto de residência permanente em Portugal proporcionar, automaticamente, o direito de permanência em todos os países da União Europeia.

Extraído do sítio Deutsche Welle

25 janeiro 2013

UNIÃO EUROPEIA: "CAMERON PÔS O DEDO NA FERIDA"

Nas placas: "Fora; Dentro" - Peter Brookes

O discurso do primeiro-ministro britânico, de 23 de janeiro, sobre o futuro das relações entre o seu país e a UE, é tema de primeira página da maioria dos jornais europeus. A hipótese de saída do Reino Unido suscita reações que vão da indignação a uma certa compreensão.

São também muitos os jornais que, tal como uma boa parte da imprensa britânica, reconhecem que Cameron levantou questões legítimas e que merecem uma resposta, tanto ao nível nacional como europeu.

Em Paris, Les Echos considera que o discurso de David Cameron lança "desafios perigosos". Este diário económico não hesita em comparar o primeiro-ministro à sua distante antecessora:

Como fez no seu tempo Margaret Thatcher, David Cameron não se preocupa com o interesse comum que representa a construção de uma Europa como potência económica – e, necessariamente política. A sua visão passa por uma Europa feita por medida, da qual seja possível ser membro sem aceitar todas obrigações, estar na União sem estar no euro e em Schengen. No entanto, se a crise do euro e os planos de salvamento da Grécia serviram para alguma coisa, foi para mostrar a necessidade de uma integração mais estreita dos países europeus, designadamente em matéria orçamental, fiscal e financeira. Pelo menos entre os 17 países do euro. Não é evidentemente esse o objetivo de David Cameron.

Na Alemanha, Die Welt considera que "Cameron põe o dedo nas feridas da UE" e opina – como a esmagadora maioria dos comentadores alemães – que as dúvidas do primeiro-ministro britânico são absolutamente legítimas e até "libertadoras".

Cameron está longe de estar isolado na sua análise das mudanças que a UE enfrenta e não se pode responder a essa análise com um simples ´continuemos em frente´. […] A atitude do primeiro-ministro britânico de pôr em cima da mesa [a questão da estabilização da zona euro através de um aprofundamento da UE] não é antieuropeia. Também não é antieuropeu da parte de Cameron recordar que a competitividade da União se encontra ameaçada e atribuir a responsabilidade por isso (nomeadamente) a uma gestão esclerosada da UE – as regras e ordens exageradas que paralisam muitas forças criativas na economia. E não é de modo algum antieuropeu recordar o défice democrático humilhante e a falta de confiança dos cidadãos na UE e nas suas instituições. […] O Reino Unido segue uma abordagem ‘mais prática que emocional’, diz Cameron. Isso talvez fizesse bem a todos nós.

"O Reino Unido não sonha com uma existência confortável e isolada na orla da Europa", diz o comentador do Gazeta Wyborcza, Tomasz Bielecki, que recorda o discurso de Margaret Thatcher, de 1988, salientando que, para Cameron, que, tal como Thatcher, é um forte crítico da UE, mas defende ao mesmo tempo a continuidade da qualidade de membro da Comunidade Europeia para o Reino Unido, a Brexit seria um acidente de trabalho fatal, tal como (…) seria um duro golpe contra a união de 27 países, e a zona euro tornar-se-ia o único polo de verdadeira integração, rodeado pelas periferias da UE. Para nós [polacos], é certamente muito mais perigoso que para os britânicos. O zloti polaco não é a libra britânica e as Ilhas Britânicas não são a Polónia, que tem vizinhos que nem sempre são fáceis. O jogo de David Cameron deveria levar-nos a seguir em frente com planos concretos para aderir à zona euro.

Em Estocolmo, o Svenska Dagbladet salienta que Cameron não é o único na Europa a exprimir a ideia segundo a qual "a adesão à UE não deve ser o equivalente a comprar um bilhete para um comboio fantasma, que não para em nenhuma estação e tem destino desconhecido". As reações ao seu discurso eram previsíveis, sublinha este diário: "em toda a Europa, ouvia-se dizer que a UE não é um smörgåsbord [bufete escandinavo], onde cada um pode escolher livremente o que quer." "Mas haverá apenas um caminho possível?", pergunta o diário:

A resposta é claramente não, dado o modo como a UE já funciona hoje: a Suécia não tem o euro. O Reino Unido não faz parte do espaço Schengen. Os exemplos são muitos. […] Para os britânicos, a alternativa é fazer face a uma UE que parte em todos os sentidos, com as seguintes perguntas: ‘How? Why? To what end?’ [Como? Porquê? Em que direção?]. Perguntas que deveriam ser do interesse de todos os Estados-membros e no interesse da União.

No mesmo comprimento de onda, o România liberă considera que a União "flexível, adaptável e aberta" proposta por Cameron é uma provocação muito séria. Este diário de Bucareste salienta que, pela primeira vez, um dirigente europeu apresenta uma visão da UE diferente da visão de uma integração política mais profunda; uma visão mais modesta, mas mais liberal e mais centrada no mercado livre. Até agora, a Roménia optou pelos Estados Unidos da Europa e pelo modelo alemão da União Europeia. Agora que existe outra visão, os nossos dirigentes políticos talvez se empenhem num verdadeiro debate sobre o modelo europeu mais vantajoso para um país como o nosso, pois é certamente isso que vão fazer outros países.

"Cameron lança uma sombra sobre a UE", lamenta por seu turno o jornal De Volkskrant. Este diário de Amesterdão, a cidade onde o primeiro-ministro deveria à partida ter pronunciado o seu discurso, considera contudo que o seu projeto deve ser levado a sério pela UE, se esta quiser garantir a sua sobrevivência:

Será muito difícil responder às exigências de Cameron, sem prejudicar toda a construção europeia. Quando um Estado-membro deseja voltar atrás sobre determinados acordos, haverá sem dúvida outros países que irão exigir exceções. Mas a saída do Reino Unido não é do interesse da UE – e, designadamente, da Holanda. É por isso que a Comissão Europeia e os outros Estados-membros devem levar seriamente em consideração as propostas britânicas. Além disso, a iniciativa britânica dá a Bruxelas matéria para reflexão: seria insensato lançarmo-nos em projetos de integração, se estes puserem em perigo a unidade da União Europeia.

Em Madrid, Lluis Bassets refere, em El País, que "a Europa britânica" se assemelha mais a uma "simples zona de comércio livre", como foi "a EFTA, criada como alternativa à Comunidade Económica Europeia". Este editorialista considera que, para o primeiro-ministro, a UE é um mero instrumento e não um objetivo. Para Cameron, embora não o diga ainda com todas as letras, a questão é clara: ou a UE se converte naquilo que os eurocéticos estão dispostos a tolerar ou não haverá outro remédio senão sair. O descaramento da chantagem é espantoso […]. O sonho conservador é relacionar-se sem intermediários com o mundo global e utilizar a UE como um mero espaço de comércio livre, o mais desregulamentado possível. É uma ideia que, um dia, pode ter sido atraente à partida, mas que agora choca com uma série de obstáculos; o maior é a dificuldade de todos os países europeus, incluindo o Reino Unido, de existirem por si mesmos num mundo global, como se fossem potências emergentes e não velhas antigas potências europeias. Washington e Pequim recriminam Cameron pelas suas ambiguidades: preferem relacionar-se com Londres através de uma UE forte.

Extraído do sítio Presseurop

24 janeiro 2013

FMI REDUZ ESTIMATIVAS DE CRESCIMENTO PARA EUROPA EM 2013

Entidade prevê crescimento de 3,6% na América Latina e de 2% nos Estados Unidos.

O novo relatório do FMI (Fundo Monetário Internacional) divulgado nesta quarta-feira (23/01) prevê que a Europa terá um 2013 ainda mais difícil do que o ano passado. As projeções para os principais países da UE (União Europeia) estão mais pessimistas do que as realizadas em outubro.

Segundo a entidade dirigida por Lagarde, desempenho das economias avançadas afetará comércio de commodities

De acordo com o FMI, a zona do euro sofrerá uma retração de 0,2% em seu PIB (Produto Interno Bruto) neste ano. A estimativa é 0,3 ponto percentual pior do que a anterior.

Espanha e Itália, dois dos países que estão em condição mais delicada, por exemplo, perderiam 1,5% e 1% do PIB em 2013, respectivamente, se as projeções forem confirmadas. Até mesmo a Alemanha, uma das economias mais confiáveis do bloco, teria um crescimento de apenas 0,6%, ante alta do PIB de 0,9% no ano passado. 

A América Latina, por sua vez, apresentará um crescimento de 3,6%. Tal resultado seria 0,6 ponto percentual superior ao de 2012. O Brasil, que teve alta estimada do PIB no ano passado estimada em 1%, aceleraria sua economia, com aumento de 3,5%.

A entidade advertiu que "o enfraquecimento das economias avançadas afetará a demanda externa, assim como o comércio dos exportadores de matérias-primas", devido aos preços mais baixos em 2013.

Além disso, o FMI ressaltou a "surpreendente" alta na atividade econômica nos EUA na segunda metade de 2012, até fechar o ano com um crescimento de 2,3%, tendência que o organismo espera que continue, com um avanço de 2% em 2013 e de 3% em 2014.

Extraído do sítio Opera Mundi

23 janeiro 2013

UE ABRE CAMINHO PARA IMPOSTO SOBRE TRANSAÇÕES FINANCEIRAS


Ministros das Finanças dos 27 países da UE aprovam introdução de um imposto sobre transações financeiras em 11 Estados do bloco, abrindo caminho para que setor financeiro participe mais dos custos da crise do euro.

Os ministros das Finanças da União Europeia (UE) aprovaram nesta terça-feira (22/01), em Bruxelas, a introdução de um imposto sobre transações financeiras em 11 Estados do bloco. Esse imposto sobre operações bancárias e as realizadas no mercado financeiro não conseguiu ser aprovado para toda a UE, fazendo com que 11 países decidissem avançar juntos dentro da chamada "cooperação reforçada".

Com a decisão, fica definitivamente aberto o caminho à implementação do imposto na Alemanha, França, Áustria, Bélgica, Eslovênia, Estônia, Grécia, Itália, Espanha, Eslováquia e em Portugal. A presidência irlandesa acrescentou que a próxima etapa do processo será a apresentação, pela Comissão Europeia, de um texto especificando detalhes concretos do imposto.

Schäuble elogiou aprovação do imposto por ministros europeus

Em junho de 2012, a proposta da Comissão Europeia de um imposto sobre transações financeiras para toda a UE não alcançou consenso entre os membros do bloco, tendo sido barrada sobretudo pela forte resistência de Reino Unido e Suécia. Na ocasião, alguns países decidiram avançar, então, em "cooperação reforçada".

Cooperação reforçada

A "cooperação reforçada" é um mecanismo pelo qual, diante da impossibilidade de um acordo entre os 27 integrantes do bloco, um grupo de pelo menos nove membros (mais de um terço) pode aplicar uma regra entre si em determinada matéria, podendo outros países se unirem a eles posteriormente.

O ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, afirmou que Alemanha e França prepararam, juntas, o caminho para aprovação do imposto. "O setor financeiro deve participar de forma adequada dos custos causados pela crise financeira", afirmou Schäuble.

O comissário europeu responsável pela política tributária, Algirdas Semeta, classificou a medida de "um grande marco para a política orçamentária europeia". Ele afirmou que, nas próximas semanas, apresentará uma proposta concreta sobre a taxa, que, então, precisa ser aprovada apenas pelos 11 países.

Discussão sobre uso do dinheiro

Semeta disse que apresentará proposta concreta em semanas

A base deve ser uma proposta antiga de Semeta, elaborada para toda a UE, prevendo que todas as transações financeiras fossem taxadas em 0,1% e as operações com derivativos, em 0,01%. A receita esperada era de quase 60 bilhões de euros por ano.

Semeta sublinhou que, embora apenas 11 dos 27 Estados participem, o grupo é responsável por dois terços do desempenho econômico da UE e perfaz até 90% da produção econômica da zona do euro.

Embora ainda não seja claro o quanto a taxa vai trazer aos cofres da UE, já começou a disputa sobre seu uso. O presidente francês, François Hollande, defende que uma parte seja usada na luta contra o desemprego de jovens. A Comissão Europeia propôs, num primeiro esboço, ela mesma administrar o montante arrecadado. Alguns falaram em usar o imposto para reforçar a base financeira da zona do euro.

Extraído do sítio Deutsche Welle

11 setembro 2012

SOROS: ALEMANHA DEVERIA COMANDAR OU ABANDONAR O EURO

George Soros
Nova Iorque – A Europa está em crise financeira desde 2007. Quando a bancarrota do Lehman Brothers ameaçou o crédito das instituições financeiras, o crédito privado foi substituído pelo crédito do estado, revelando uma falha não reconhecida no euro. Ao transferirem seu direito a imprimir moedas ao Banco Central Europeu (BCE), os países membros se expuseram ao risco de default, como fossem países de Terceiro Mundo, pesadamente endividados em moeda estrangeira. Os bancos comerciais arcaram com os títulos da dívida pública de países mais fracos, que se tornaram potencialmente insolventes.

Há um paralelo entre a atual crise do euro e a crise bancária internacional de 1982. Naquele momento, o Fundo Monetário Internacional salvou o sistema bancário global, emprestando dinheiro o suficiente para países pesadamente endividados; evitou-se o default, mas ao custo de uma depressão duradoura. A América Latina teve uma década perdida.

A Alemanha está hoje jogando o mesmo papel que o do FMI, de então. O cenário difere, mas o efeito é o mesmo. Os credores estão jogando todo o fardo do ajuste para os países devedores e se evadindo de suas próprias responsabilidades.

A crise do euro é uma mistura complexa de problemas das dívidas soberanas e dos bancos, assim como de problemas no desempenho da economia que deram lugar aos desequilíbrios na balança de pagamentos da zona do euro. Então, eles tentaram ganhar tempo.

Em regra, isso funciona. O pânico da finança arrefece e as autoridades lucram com a sua intervenção. Mas não desta vez, porque os problemas financeiros estiveram combinados com um processo de desintegração política.

Quando a União Europeia foi criada, era a corporificação de uma sociedade aberta – uma associação voluntária de estados iguais que concederiam parte de sua soberania em benefício do bem comum. A crise do euro agora está tornando a União Europeia algo fundamentalmente diferente, dividindo países-membros em duas classes – credores e devedores – com a responsabilidade sobre os credores.

Como país credor mais forte, a Alemanha emergiu como o hegemon. Países em débito pagam prêmios de risco substanciais para o financiamento de suas dívidas públicas. Isso se reflete nos seus custos de financiamento em geral. Para tornar as coisas piores, o Bundesbank permanece comprometido com uma doutrina monetária fora de moda, enraizada na traumática experiência alemã com a inflação. Como resultado, reconhece somente a inflação como uma ameaça à estabilidade, e ignora a deflação, que é a ameaça real hoje. Mais ainda, a insistência da Alemanha na austeridade por parte dos países devedores pode facilmente se tornar contraprodutiva, com o aumento da dívida em relação ao PIB, enquanto este despenca.

Há um perigo real de que a Europa de dois níveis se torne permanente. Tanto os recursos humanos como os financeiros serão atraídos para o centro, deixando a periferia permanentemente deprimida. Mas a periferia está fervilhando em descontentamento.

A tragédia da Europa não é o resultado de uma conspiração maligna, mas reside, antes, numa falta de políticas coerentes. Como nas tragédias gregas, concepções errôneas e a mais completa falta de entendimento têm consequências fatais, mesmo que não intencionadas.

A Alemanha, como o maior credor dos países, está no comando, mas se recusa a aceitar responsabilidades adicionais. Como resultado, toda oportunidade de resolução da crise foi perdida. A crise se espalhou da Grécia para outros países com déficit, e chegou mesmo a pôr em questão a sobrevivência mesma do euro. Como uma quebra do euro causaria um estrago imenso, a Alemanha sempre faz o mínimo necessário para mantê-lo vivo.

Mais recentemente, a chanceler Angela Merkel deu suporte ao Presidente do BCE, Mario Draghi, deixando assim o presidente do Bundesbank, Jens Weidmann , isolado. Isso permitirá que o BCE abafe os custos dos empréstimos aos países que se submeteram a um programa de austeridade sob supervisão da Troika (o FMI, o BCE e a Comissão Europeia).

Os devedores estão, mais cedo ou mais tarde, comprometidos com a rejeição dessa Europa de dois níveis. Se o euro cair em desgraça, o mercado comum da União Europeia será destruído, deixando a Europa pior do que estava quando os esforços para uni-la começaram, dado o legado de desconfiança e hostilidade mútuas. Quanto mais tardio for o rompimento, pior será o resultado. Então, é chegada a hora de considerar alternativas que até recentemente seriam consideradas inconcebíveis.

A meu juízo, a melhor linha de ação consiste em persuadir a Alemanha a escolher entre liderar a criação de uma união política com um compartilhamento de responsabilidades orçamentárias, ou o abandono do euro.

Na medida em que toda a dívida acumulada é nominal em euros, faz toda a diferença quem permanece no comando da união monetária. Se a Alemanha deixá-lo, o euro será depreciado. Os países devedores poderiam retomar sua competitividade; sua dívida em valores reais diminuiria e, com o BCE sob seu controle, a ameaça de default desapareceria e o custo de seus empréstimos cairiam a níveis comparáveis aos do Reino Unido.

Os países credores, por outro lado, teriam prejuízos nos seus investimentos nominais em euros e encontrariam uma competição dura em casa, a partir de outros países membros da zona do euro. A extensão dos prejuízos dos países credores dependeria da extensão da depreciação da moeda, dados os juros sobre a manutenção da depreciação dos títulos das dívidas.

Após o deslocamento inicial, o resultado final seria a realização do sonho de John Maynard Keynes, de um sistema monetário internacional, no qual tanto credores como devedores compartilhariam responsabilidades pela manutenção da estabilidade. E a Europa evitaria a depressão iminente.

O mesmo resultado poderia ser obtido, com menos custo para a Alemanha, se a Alemanha decidir se comportar como um hegemon benevolente. Isso significaria implementar a proposta da união bancária europeia, estabelecer uma espécie de nível de negociação entre países credores e devedores, ao estabelecer um Fundo de Redução de Dívida, vindo a convertê-la toda em dívida nos eurobônus, e visando a um crescimento nominal do PIB na casa dos 5%; assim a Europa poderia fortalecer sua via de saída do endividamento excessivo.

A Alemanha pode decidir comandar a zona do euro ou deixá-la. Qualquer das alternativas seria melhor do que criar uma insustentável Europa de dois níveis.

* Publicado originalmente em Project Syndicate. Tradução: Katarina Peixoto

Extraído do sítio Carta Maior

01 setembro 2012

ZONA DO EURO REGISTRA NOVO RECORDE DE DESEMPREGO


Em julho último, mais de 18 milhões de pessoas dos 17 países da moeda comum não tinham trabalho. Taxa de desemprego foi de 11,3%. Duramente atingida pela crise, na Espanha, 52,9% dos jovens não têm emprego.

O mercado de trabalho na zona do euro atingiu, em julho, um recorde negativo. De acordo com os dados divulgados pelo departamento de estatísticas da União Europeia (Eurostat), os 17 países que compõem o bloco da moeda comum registraram 18.002.000 desempregados – ou seja, uma taxa de 11,3%.

Em julho foram feitos novos 88 mil registros de pessoas desempregadas em relação a junho, mas o índice permaneceu praticamente estável. Já em comparação com julho do ano passado, a lista de desemprego tem a mais dois milhões de pessoas. Em toda a União Europeia, os índices de junho e julho permaneceram o mesmo, 11,4%

Há mais de um ano o número de desempregados vem aumentando na zona do euro. Especialistas alertam que, sem trabalho, a população passa a contar com menos recursos e, consequentemente, consome menos, o que afeta a conjuntura econômica dos países.

Grécia e Espanha

Na Espanha, desemprego em julho foi de 25,1%
Os dois países que registraram as piores taxas de desemprego na zona do euro foram Grécia e Espanha, ambos duramente atingidos pela crise da dívida. Em julho, 25,1% dos espanhóis não tinham um posto de trabalho – ou seja, uma em cada quatro pessoas – percentual maior do que os 24,8% registrados no mês anterior. Os últimos registros divulgados da Grécia, ainda em maio, mostravam um desemprego na casa dos 23,1%.

Também afetada pela crise, a Itália apresentou 10,7% de desemprego em julho. Já os melhores índices foram observados na Áustria (4,5%), na Holanda (5,3%), na Alemanha e na Bélgica (ambas com 5,5%).

A situação permanece preocupante quando se considera toda a UE. Quase 25,3 milhões de pessoas não têm um posto de trabalho no bloco, um aumento de 43 mil desempregados em apenas um mês. O número corresponde a uma taxa de 10,4%.

Ainda segundo o levantamento, os mais afetados são os jovens. Cerca de 22,6% da população da zona do euro com menos de 25 anos está desempregada, ou seja, quase 3,4 milhões de pessoas. Neste ponto também a Espanha apresenta os piores índices. Mais da metade dos jovens espanhóis (52,9%) encontram-se sem ocupação. Na Alemanha, onde foi registrado o menor desemprego entre jovens, o índice é de apenas 8,0%.

Extraído do sítio Deutsche Welle

24 agosto 2012

MERKEL E HOLLANDE PEDEM MAIS ESFORÇOS DE ATENAS


Durante encontro em Berlim, a chanceler federal alemã e o presidente francês apelaram para que a Grécia continue comprometida em aplicar as medidas necessárias para permanecer na zona do euro.

Angela Merkel e François Hollande afirmaram nesta quinta-feira (23/08) que a Grécia deve se esforçar para permanecer na zona do euro, o que, garantem, é o desejo de Berlim e Paris. 

"Encorajo nossos amigos gregos a continuarem no caminho das reformas e sei como esses esforços são difíceis para a Grécia", disse Merkel ao final de um encontro com Hollande em Berlim, acrescentando que "é importante que todos respeitem os seus compromissos". 

Também Hollande apelou aos gregos para que façam o que for necessário para recuperar a economia. "Queremos, eu quero, que a Grécia permaneça na zona do euro. É uma vontade que exprimimos desde o início da crise. Cabe aos gregos fazer os esforços indispensáveis para que possamos atingir esse objetivo", sublinhou o chefe de governo francês.

Na discussão sobre um possível alargamento de prazo para a implementação do programa de reforma grega, Merkel disse que é melhor aguardar o relatório da troika, formada por representantes da União Europeia, do Banco Central Europeu e do Fundo Monetário Internacional. A análise é aguardada para setembro e deverá ser a base para uma decisão sobre a liberação de mais ajuda financeira.

Berlim rejeita apelo grego

Tema central do encontro entre Merkel e Hollande foi a atitude a ser tomada em relação ao primeiro-ministro grego, Antonis Samaras, que visita Berlim nesta sexta-feira, prosseguindo para Paris no sábado. A Grécia, altamente endividada, necessita urgentemente de mais verbas para evitar a bancarrota.

O conservador Samaras vem pedindo mais tempo para cumprir as metas estabelecidas pelos credores internacionais. Em entrevista à imprensa alemã, ele afirmou que seu governo não pede "mais dinheiro" e sim "mais espaço para respirar". Falando ao jornal francês Le Monde, Samaras alertou para o efeito dominó que a saída de seu país da zona do euro pode causar e pediu que cessem as especulações sobre uma saída da Grécia da moeda comum europeia.

"Como é possível privatizar alguma coisa se a cada dia líderes europeus especulam sobre uma 'possível saída da Grécia da zona do euro'?", queixou-se o primeiro ministro grego. "Isso tem que acabar".

Uma ampliação no prazo para a implementação do programa de reformas, como quer Samaras, é ideia que encontra forte resistência em Berlim. "Mais tempo não é uma solução para os problemas", ressaltou o ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, em entrevista a uma rádio alemã. Na opinião do político, dar mais tempo pode também significar, em última instância, ter que "dar mais dinheiro", o que exigiria um novo programa de resgate, que poderia desestabilizar os mercados financeiros e prejudicar a zona do euro.

Extraído do sítio Deutsche Welle

10 agosto 2012

CRISE NA EUROPA LEVA À FUGA DE CAPITAIS E DE PESSOAS - Vitali Mirny


A ajuda aos países do sul da Europa e Irlanda que se encontram em crise não é mais que o fornecimento de dinheiro sob determinadas condições e com certo interesse - a fim de evitar o colapso financeiro da zona do euro.

É interessante o fato de, ao mesmo tempo que o FMI e da União Europeia prestam ajuda financeira a nestes países, muito dinheiro continua a deixar os países devedores, considerados uma área de risco.

São capitais das sociedades financeiras, títulos, investimentos fracassados e, finalmente, os recursos pessoais dos cidadãos que desejam retirar seu dinheiro da área de instabilidade financeira.

Os analistas europeus estão assistindo com atenção aos fluxos de dinheiro em ambos os sentidos e, em primeiro lugar, o dinheiro, que, como dizem aqui, vai "da periferia para o centro" ou "do Sul para o Norte da Europa" (já que os países mais afetados são precisamente os do sul da Europa).

A UE não dispõe de mecanismos legais que possam bloquear o movimento de capitais. A lei não proíbe a um empresário nacional ou estrangeiro, ou a uma empresa registrar sua empresa ou seu escritório na Alemanha, por exemplo, ou na Holanda (e começar a pagar impostos lá).

É pela intensidade da fuga de capitais de um país que se fazem previsões sobre a possibilidade e prazos de superação da crise financeira deste país e a repatriação posterior destes capitais.

A imprensa espanhola recentemente dados comparativos: em maio de 2011, saíram da Espanha nove bilhões e meio de euros, mas o saldo de Madrid foi, naquela altura, positivo, pois no país entraram, simultaneamente, 24 bilhões de euros.

Nos primeiros cinco meses deste ano já se observa outro quadro. De janeiro até maio de 2012, de acordo com dados do Banco Central de Espanha, deixaram o país 163 bilhões de euros, o equivalente a 16% do produto interno bruto.

"O governo está fazendo tudo dentro das suas possibilidades," declarou em relação a este fato a secretária de Estado dos Assuntos Fiscais, Marta Kurras, reconhecendo, no entanto, que, para acabar com esta “hemorragia”, é necessário restaurar a confiança dos investidores e dos cidadãos na economia espanhola.

Se analisarmos a situação em Portugal e Irlanda, países que, em geral, cumprem as suas obrigações para com os três credores internacionais e onde a fuga de capitais não é novidade mas um fato consumado, os analistas apontam para outro fenômeno - o declínio constante de depósitos das pessoas físicas em bancos nacionais .

Alguns especialistas europeus acreditam, ao mesmo tempo, que é possível interpretar o conceito de fuga de capitais da maneira mais ampla, incluindo também "a fuga" (ou seja, a emigração) da força do trabalho, e com isso - a perda de investimento que o Estado fez, através da educação, nas pessoas que estão deixando o país.

A fuga da força do trabalho de países endividados da zona de euro (Portugal, Espanha, Grécia e Irlanda) ameaça transformar a UE em região de exportação de profissionais qualificados. E acima de tudo - de jovens, já que, em Espanha e na Grécia, metade dos jovens não tem emprego.

A diretora do Instituto Nacional Português de Administração, Helena Rato, acredita que a situação atual da emigração em Portugal é semelhante à dos anos 60 do século XX, durante a ditadura de Salazar e a guerra colonial. Naquele período, numa década, cerca de 1,6 milhões de portugueses deixaram o país. No ano passado, Portugal registrou 150.000 emigrantes.

Na Espanha, em 2011 foi registrado um saldo migratório negativo: saíram do país 507.000 pessoas e só entraram 407.000.

Os portugueses se dirigem, geralmente, para ex-colônias - Angola e Brasil, enquanto os espanhóis - para Argentina, Bolívia e Equador.

Os emigrantes, diz a imprensa portuguesa, também têm a oportunidade de aprender o idioma alemão e tentar a sua sorte na Alemanha, um país que, aos olhos de muitos aqui no sul da Europa, não foi afetado pela crise.

Extraído do sítio Voz da Rússia

09 agosto 2012

CRISE MUNDIAL COMPLETA 5 ANOS E CONTINUA SEM SOLUÇÃO, DIZ JORNAL FRANCÊS

Jornais franceses analisam o efeito cascata dos "subprimes" do mercado imobiliário na crise mundial. Flickr/ ILPeoplesAction

O aniversário de cinco anos da crise financeira mundial domina a manchete do principal diário econômico francês, o Les Echos, que dedica extensa reportagem para rememorar os fatos e analisar os efeitos provocados pelos chamados "subprimes", os títulos de crédito imobiliário que estremeceram as bases do sistema bancário e abalaram as economias mais poderosas do mundo.

Em 9 de agosto de 2007, lembra o Les Echos, o banco francês BNP Paribas suspendeu a valorização de três de seus fundos vinculados aos subprimes americanos, desencadeando uma crise que ainda não acabou. A data, segundo o jornal, marca talvez o fim de um período em que o capitalismo financeiro funcionou livremente, sem se autoregular.

O poder dos Estados Unidos, no epicentro da maior tormenta econômica mundial depois da depressão dos anos 30, enfraqueceu, constata o Les Echos e na Europa, o futuro do euro ficou ameçada com o problema da dívida soberana dos estados. O jornal lembra ainda que a crise na zona do euro derrubou vários governantes, como Gordon Brown, na Grã Bretanha, Silvio Berlusconi na Itália e Nicolas Sarkozy, na França.

O ex-presidente Sarkozy está na origem da manchete do Aujourd' hui en France. O jornal repercute a polêmica lançada pelo ex-presidente que emitiu ontem um comunicado criticando na terça-feira o suposto imobilismo da política da França sobre a Síria. Em entrevista ao Aujourd'hui en France, o chanceler socialista Laurent Fabius disse que esperava outra postura do ex-presidente e que a Síria, com seu arsenal de armas químicas, não é a Líbia. Ele lembrou ainda que Sarkozy recebeu o presidente Bashar Al-Assad, em Paris, 4 anos atrás.

O Le Figaro traz em capa o alerta do Banco da França de que o país poderá entrar em recessão diante da previsão de queda de 0,1 do PIB francês no terceiro trimestre do ano.

O Libération afirma em sua reportagem principal que o governo francês ainda estuda o congelamento nos preços dos combustíveis que estão em alta desde o início de julho. Apesar de ser uma das promessas do então candidato François Hollande, o ministério da Economia avalia que o nível de alerta ainda não foi atingido.

Extraído do sítio RFI

O DIA EM QUE O MUNDO ENTROU NO VERMELHO - Flávio Aguiar

No dia 9 de agosto de 2007, o BNP-Paribas, um dos maiores bancos da Europa e do mundo, com ramificações que vão da Ucrânia ao Brasil, sede principal em Paris e segunda sede em Londres, congelou três de seus fundos de investimento, dizendo que não teria como honrar “as dívidas de suas obrigações colaterais”. Neste dia um mundo ruiu e começou outro, que ninguém ainda sabe onde vai parar. O artigo é de Flávio Aguiar, direto de Berlim.


Berlim - Não, não estou me referindo ao dia 17 de dezembro de 2006, quando o meu Internacional derrotou o Barcelona por 1 x 0 em Yokohama, no Japão, e sagrou-se campeão mundial de clubes.

A referência é meio ano mais moça. É o dia 9 de agosto de 2007, há cinco anos atrás, portanto. Nesse dia o BNP-Paribas, um dos maiores bancos da Europa e do mundo, com ramificações que vão da Ucrânia ao Brasil, sede principal em Paris e segunda sede em Londres, congelou três de seus fundos de investimento, dizendo que não teria como honrar “as dívidas de suas obrigações colaterais” – uma referência aos pacotes que detinha dos chamados “sub-prime loans”, ou seja, os empréstimos feitos diretamente ou comprados no mercado secundário para pessoas que não tinham condição de pagá-los.

Sobre aquele dia, houve quem (Larry Eliott, editor de Economia do The Guardian) o comparasse ao 4 de agosto de 1914, dia em que o Arquiduque Franz Ferdinand, da Áustria, e sua esposa Sophie foram assassinados em Sarajevo, fato que levou diretamente à Primeira Guerra Mundial.

Foi um dia em que um mundo ruiu e começou outro, que ninguém ainda sabe onde vai parar. No 9 de agosto de 2007 o mundo que ruiu foi o das finanças internacionais, o das certezas europeias, o da imagem feliz do american way of life. Os acontecimentos se precipitaram velozmente nestes cinco anos.

Um ano mais tarde, em 7 de setembro de 2008, o governo norte-americano tinha de injetar recursos nos grupos Fannie Mae e Freddie Mac. Em 15 de setembro quebrava o Lehman Brothers. Entre 7 e 8 de outubro do mesmo ano, os três maiores bancos da Islândia – Glitnir, Landsbanki e Kauphting – quebram, forçando o governo a nacionaliza-los. Na sequência cairá o primeiro ministro do país, Geir Haarde. 

Em 10 de outubro de 2009 o socialista Yorgios Papandreou é eleito para o governo grego. Empossado, na semana seguinte ele declara que a dívida do país é muito maior do que se pensava, e que o governo conservador anterior (do atual primeiro ministro Antonis Samara) maquiara os números. 

Meio ano depois, em 10 de abril de 2010, a dívida soberana da Grécia recebe os índices que levam o país à bancarrota. Em 2 de maio do mesmo ano, os governos da Zona do Euro concedem o primeiro “pacote de ajuda” (110 bilhões de euros) à Grécia, em troca da adoção do primeiro “plano de austeridade” na Zona do Euro. Está aberta, oficialmente, a “crise da Zona do Euro”, que não fechou até hoje.

Ao final do ano, em 28 de novembro, é a vez da Irlanda: 85 bilhões de euros. Em 5 de maio de 2011 é a vez de Portugal. No começo de 2012 o desemprego atinge níveis nunca dantes navegados na Europa. A Espanha afunda, a Itália aderna. Em meados do ano a perspectiva da recessão chega à Alemanha. O presidente do Banco Central Europeu diz que tudo fará para salvar o Euro. Analistas, políticos de todas as tendências, o presidente do Banco Central Alemão interpretam algo furiosamente que isso significa que O BCE vai comprar no futuro letras dos países endividados, no mercado secundário, e que talvez o faça também diretamente. Apesar dessas reações, sem outra saída, o governo alemão apóia a declaração de Draghi.

Uma perspectiva interessante é ver o que aconteceu às pessoas diretamente envolvidas nesse processo. Recentemente o jornal The Guardian montou uma verdadeira tabela (07/08/2012) sobre 25 personalidades (incluindo nela o “povo norte-americano, coletivamente) consideradas como tendo alguma responsabilidade na deflagração desses eventos.

Entre elas há políticos (como Bill Clinton, George Bush, Gordon Brown) dirigentes de bancos centrais, “leões” do mercado financeiro, operadores bancários, etc.

Um dos poucos a reconhecer que estava errado é Alan Greespan, ex-diretor do US Federal Reserve. A nota geral é a de silêncio obstinado, ou, como no caso do então senador republicano pelo Texas, Phil Graham, um dos maiores opositores de qualquer regulamentação do mercado financeiro, a obstinação em que tudo estava certo. 

Uma das características desses envolvidos – incluindo Clinton e Bush – é essa oposição a regulamentações – o que facilitou a fusão, hoje vista amplamente como insalubre, entre bancos de operação comercial e captação de contas e os de investimento no mercado financeiro, ou a fusão incontrolada das respectivas carteiras numa mesma instituição bancária.

Da parte dos executivos envolvidos, a tônica é a obtenção de polpudas recompensas durante o processo de bancarrota das próprias instituições que dirigiam, sob a forma de bônus, salários diretos ou indiretos, e a completa impunidade posterior. Muitos continuaram ativos no sistema financeiro, simplesmente trocando de instituições, ou fundando outras com o capital que amealharam para, literalmente, causar e depois administrar a crise – sem dela sair, mas ao contrário, aprofundando-a até a exaustão.

Alguns foram punidos com a exclusão do lugar em que trabalhavam – para ressurgir em outros. Uns poucos estão em silêncio obsequioso, sumidos, mas impunes.

Apenas duas pessoas foram condenadas em meio a esse redemoinho, até agora.

Uma delas não é propriamente um responsável pela crise, mas um aproveitador dela: Bernie Madoff, que, nos Estados Unidos, em meio ao processo de desregulamentação do setor financeiro, promoveu o que se chama um “esquema Ponzi”.

Um esquema desses consiste em tomar investimentos e ressarcir os investidores, em parcelas anuais, com dinheiro do seu próprio investimento, ou de outros investidores, ao invés de lucros em operações financeiras, que são desviados para “outras finalidades”. Seu nome é uma homenagem a Charles Ponzi, que na década de 20, também nos Estados Unidos, armou o primeiro esquema dessa natureza que foi investigado (não foi o primeiro a existir) a fundo.

Outro foi o ex-primeiro ministro islandês, condenado por um tribunal especial por negligência no cargo. Há inda processos contra executivos dos três bancos do país que quebraram na ocasião.

Até agora, é só.

Extraído do sítio Carta Maior