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05 março 2013

NAZISMO VOLTA A LEVANTAR A CABEÇA NA EUROPA - Svetlana Andreeva


Em 5 de março de 1933, o partido nazi da Alemanha conseguiu um resultado brilhante nas eleições legislativas – 45%. Este foi o início que permitiu a Adolf Hitler mudar radicalmente o caminho da História mundial.

Hoje, a correlação de forças nos parlamentos europeus faz lembrar cada vez mais a situação existente há 80 anos. Há cada vez mais partidos de direita e de extrema-direita, cujas declarações e ações têm que ser tidas em conta pela maioria.

Nas eleições parlamentares e presidenciais nos países da União Europeia, os partidos de direita têm tido altos resultados.

A líder da Frente Nacional, Marine Le Pen, obteve 18% na primeira volta das eleições presidenciais francesas. Na Grã-Bretanha, o Partido da Independência, conseguiu em média 14% nas eleições locais. Os gregos deram 7% dos votos ao partido de extrema-direita Aurora Dourada nas eleições legislativas antecipadas.

Alguns analistas já comparam a disposição de forças nos parlamentos europeus e também nas ex-repúblicas soviéticas com a República de Weimar.

Por enquanto, os partidos de direita não têm a maioria nos parlamentos europeus mas podem formar coalizões e grupos parlamentares. Tal como há 80 anos, tudo isto acontece numa altura de crise econômica. Foi precisamente a crise que motivou o crescimento das tendências radicais, considera Vladimir Zorin, vice-diretor do Instituto de Etnologia e Antropologia da Academia das Ciências da Rússia:

“A União Europeia não resolve a questão do desenvolvimento equilibrado das várias regiões. Em muitos países, especialmente nos que perderam na Segunda Guerra Mundial, há sentimentos revanchistas. Este revanchismo é o motor do radicalismo e de tentativas de rever a História”.

Hoje, em países como a França, a Finlândia, a Áustria, a Grécia, as forças de direita deram um salto colossal. Elas são apoiadas por 10-15% da população, conforme os países. Estes eleitores, na sua maioria, são jovens e a parte mais ativa da sociedade, diz o vice-presidente do Centro de Comunicações Estratégicas, Dmitri Abzalov:

“A crise europeia levou ao crescimento dos mais diversos partidos radicais. Em grande parte, isso é produto dos padrões duplos em relação à condenação do nazismo. Na Ucrânia e nos países bálticos, o nazismo foi “perdoado” e justificado a nível oficial.

Na França e no Norte da Europa, as hipóteses de partidos radicais de direita terem representação parlamentar aumentaram significativamente, o que era difícil de imaginar há 5 ou 10 anos”.

A crise econômica deu possibilidade às forças políticas de tipo nacionalista de obterem um apoio sério entre a população. A crise também foi a razão do fracasso das ideias de multiculturalismo. Não aconteceu uma interpenetração de culturas e tradições, começou, pelo contrário, uma contraposição entre elas.

Na onda das ideias de direita, cada vez mais populares, começou a erosão do conceito de “nazismo”. Parte dos políticos, apoiados a nível oficial, estão até prontos a rever os resultados da Segunda Guerra Mundial, considera Vladimir Zorin.

“O mundo está no limiar de novas mudanças geopolíticas. Isto tem a ver com os acontecimentos no Norte de África, com o que se passa no mundo árabe. Em muitos lugares, a situação é tensa. Muitos tentam utilizar o nacionalismo e o racismo para resolver os problemas atuais. Isto é muito preocupante e um fator importante de uma destabilização futura. Por isso, todas as forças que defendem a verdade histórica, a continuação do desenvolvimento da Europa e do mundo em geral, devem estar vigilantes”.

A História já mostrou uma vez para onde podem levar as ideias nazistas. Aqueles que tentam construir algo em tão duvidoso fundamento provavelmente não se devem lembrar das palavras de George Santayana: “Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo”.

Extraído do sítio Voz da Rússia

05 fevereiro 2013

A CIDADE QUE SALVOU O MUNDO - Mauro Santayana


Há setenta anos, depois de mais de dois milhões de mortos nos dois campos (a União Soviética perdeu mais de um milhão e cem mil combatentes e civis, só nesse combate) terminou a mais sangrenta de todas as batalhas da História – a de Stalingrado. 

Com a capitulação de von Paulus e mais 22 generais de Hitler, e 91.000 de seus soldados remanescentes, a Segunda Guerra Mundial foi decidida ali. Até então, o Fuehrer e suas tropas pareciam invencíveis. Em julho de 1942, quando se iniciou a batalha na cidade, Hitler e Mussolini dominavam todo o território continental europeu e parte da Escandinávia - com a exceção dos paises neutros, como a Suíça e a Suécia. A Noruega, apesar de sua declaração de neutralidade, foi invadida pelos alemães e resistiu com bravura à superioridade bélica dos agressores durante 60 dias, sendo obrigada a capitular.

As Ilhas Britânicas resistiram, com estoicismo, depois da dramática retirada de Dunquerque, aos bombardeios quase cotidianos de Londres e de seus centros industriais pelas bombas voadoras, e pelos aviões da Luftwaffe. Os americanos, que lutavam no Pacífico, adiaram por muitos meses o envio de tropas ao teatro europeu. O seu desembarque, na Sicília, só ocorreu em julho de 1943, quando, com a virada de Stalingrado, os soviéticos já haviam iniciado a contraofensiva, com a marcha sobre Berlim. Se Hitler vencesse a guerra na Europa, seus simpatizantes norte-americanos, entre eles o seu maior industrial, Henry Ford, e o seu herói nacional, Charles Lindbergh, seriam provavelmente estimulados a liderar um movimento fascista na América.

O mais pesado dos tributos de sangue e bravura no confronto com a Alemanha Nazista coube aos soviéticos e à resistência dos guerrilheiros, entre eles os comandados por Tito, na Iugoslávia. No inventário dos sacrifícios, o maior foi o do povo de Stalingrado e dos soldados soviéticos que ali combateram e morreram.

Ainda que tenham sido comunistas os comandantes da resistência à invasão alemã de junho de 1941, eles tiveram a inteligência de não atribuir só ao regime os louros do triunfo. Assim, deram à sua luta o título de A Grande Guerra Pátria.

Hitler e seus ideólogos, ao planejar a Operação Barbarossa, supuseram que os eslavos iriam saudar as suas tropas como libertadoras. Embora isso tenha ocorrido em certas cidades polonesas e, é claro, em antigos enclaves germânicos perdidos na Primeira Guerra Mundial, os russos imediatamente formaram seus grupos de guerrilheiros, com homens e mulheres, trabalhadores das cidades e dos meios rurais, sob o comando dos comunistas, mas também dos líderes nascidos no clamor da urgência, muitos deles bem jovens. 

Não era só o regime socialista que se via ameaçado; era a Pátria que estava sendo agredida por tropas estrangeiras. Stalingrado era um ponto estratégico para a ofensiva de Hitler. Lutou-se naquela cidade, durante seis meses e quinze dias, minuto a minuto, de bairro em bairro, de casa em casa, até a derrota dos alemães. Ao heroísmo dos resistentes de Stalingrado, civis e soldados soviéticos, cabe a parcela mais significativa dos sacrifícios da Europa Oriental, que perdeu mais de vinte milhões de seus habitantes durante o conflito.

No tempo em que surgem, em nome da cínica “isenção” dos historiadores, os que tentam, na Alemanha e em outros países, rever os fatos e desculpar Hitler e os seus seguidores, é bom relembrar a Batalha de Stalingrado e reverenciar os que ali morreram. Graças à sua bravura, conseguimos preservar alguns dos grandes valores do humanismo. 

Mauro Santayana é colunista político do Jornal do Brasil, diário de que foi correspondente na Europa (1968 a 1973). Foi redator-secretário da Ultima Hora (1959), e trabalhou nos principais jornais brasileiros, entre eles, a Folha de S. Paulo (1976-82), de que foi colunista político e correspondente na Península Ibérica e na África do Norte.

Extraído do sítio Carta Maior

23 janeiro 2013

KRUPP: DUAS OU TRÊS LIÇÕES SOBRE CAPITALISMO - Saul Leblon


Celso Furtado dizia que o carrasco das nações no mundo globalizado era a perda dos instrumentos endógenos de decisão.

Sem eles tornar-se-ia virtualmente impossível subordinar os interesses do dinheiro aos da sociedade.

A reinvenção dessa prerrogativa seria quase uma pré-condição para regenerar a agenda do desenvolvimento no século 21. 

O fato de o Ministério do Planejamento no Brasil ter se reduzido a uma sigla ornamental, ilustra o quanto a sociedade ainda se ressente desse difícil processo de reconstrução. 

O fiasco do projeto siderúrgico da Krupp (Tyssenkrupp) no país é mais uma evidência da visão arguta de Furtado, cuja pertinência histórica a ortodoxia nativa desdenha e inveja.

Fundada em Essen, há 201 anos, a lendária siderúrgica alemã, anexada por Hitler ao esforço de guerra nazista, está se desfazendo de uma unidade no Rio de Janeiro.

A Companhia Siderúrgica do Atlântico começou a ser planejada pela Tyssenkrupp em 2005; entrou em operação em 2010 e custou US$ 15 bi.

A previsão de produzir cinco milhões de toneladas de placas de aço por ano revelou-se um fracasso.

Não um fracasso qualquer.

O tropeço da gigante alemã no país condensa algumas coisas que os crédulos dos mercados racionais e autorreguláveis precisam aprender sobre o capitalismo. 

A CSA nasceu como uma perfeita obra da globalização do capital.

Nela, como se sabe, nações e povos figuram como mero substrato logístico ou entreposto de insumos baratos. 

Arcam com as externalidades do projeto e participam de forma lateral dos lucros.

Mas são coagidos a engolir o grosso dos prejuízos quando ele ocorre.

É o caso.

Num país com 8,5 milhões de quilômetros quadrados, a CSA foi erguida sobre um solo pantanoso, ao lado de um mangue, na Baia de Sepetiba, zona oeste do Rio de Janeiro.

A escolha singular elevou em cerca de 60% o custo de implantação. 

Exigiu um exército de bate-estacas para as fundações que mobilizariam quase um terço da oferta desses equipamentos na região.

Havia lógica, a do dinheiro, por trás da aparente excentricidade.

Ocupar um terreno próximo à fonte de matéria-prima, trazida do Espírito Santo pela Vale do Rio Doce (sócia com 23% do capital), era uma motivação.

A disponibilidade de um porto exclusivo para intenso movimento de embarques rumo aos EUA, outra.

Uma siderúrgica complementar à CSA foi erguida pela Krupp no Alabama. As placas brutas enviadas de Sepetiba seriam laminadas nessa unidade para abastecer o parque automobilístico norte-americano.

A indústria automotiva dos EUA entrou em coma com o colapso da ordem neoliberal em 2008. 

A espiral recessiva desligou seus altos-fornos e criou um elefante branco no Alabama. 

A mesma condição foi estendida à siderúrgica gêmea brasileira.

Os impactos sociais e ambientais do projeto, porém, permanecem ativos.

Reportagem de Carta Maior durante a Rio+ 20, no ano passado, revelou que, entre outras 'externalidades', a localização inadequada contaminou o mangue e o mar com resíduos de metais despejados pela usina.

A vida marinha, a pesca e o turismo local foram golpeados.

Em novembro último, a CSA foi multada em R$ 10,5 milhões de reais pela secretaria estadual de meio ambiente do Rio.

Motivo: ter proporcionado aos moradores locais e à vida aquática um evento tóxico conhecido pelo nome poético emprestado aos fogos de artifício: 'chuva de prata'.

Nem a população de Sepetiba, nem o Brasil, tampouco os metalúrgicos do Alabama tem motivos para estourar fogos diante do fiasco global da Tyssenkrupp.

O stop lost no monitor da empresa na Alemanha já decidiu como resolver o seu problema específico no Brasil. 

A Krupp resolveu vender o elefante branco a um grupo local e pressiona o BNDES a financiar o negócio da hora: uma planta ociosa num mundo que convive com um excedente de 500 milhões de toneladas de aço. O equivalente a um ano de produção da siderurgia chinesa. 

Colosso de planejamento dos mercados racionais

Quando o conservadorismo ataca o governo por 'eleger vencedores', grupos financiados com empréstimos favorecidos pela TJLP, o juro real negativo do BNDES, certamente não se refere a esses casos ilustrativos.

Neles, os vencedores são os capitais globalizados cantados em verso e prosa pelos críticos do 'intervencionismo da Dilma' . 

O grande perdedor, menos lembrado, é justamente a nação, desprovida - ainda - de planejamento público, bem como de salvaguardas estatais demonizadas pelos sacerdotes dos livres mercados.

A Krupp seguir a mais essa aventura do capital, como já aconteceu em outras oportunidades.

A pioneira da siderurgia alemã não sobreviveria por dois séculos se não encarnasse a própria essência mutante do capitalismo. 

Escrúpulo não é um ingrediente da receita. 

A mesma empresa que inventou o aro inteiriço das rodas de trens em meados do século IXX, distinguiu-se na fundição de canhões, que abasteceriam os exércitos alemães derrotados na Primeira Guerra.

Sob o nazismo, o complexo Krupp não desperdiçaria oportunidades e sinergias.

Anexado ao esforço de guerra de Hitler, exibiria notável poder de adaptação.

A contabilidade da empresa registra então um momento de virtuosa produtividade, vitaminada pela mais valia absoluta de dezenas de milhares de trabalhadores gratuitos. 

Escravos, recrutados diretamente dos campos de concentração nazistas.

Extraído do sítio Carta Maior

09 outubro 2012

ASSANGE, WIKILEAKS E A CENSURA NO SÉCULO XXI - Fernando Báez

Capa da revista Life nº 97, de 29 de maio de 1944

Na capa da revista Life nº 97, de 29 de maio de 1944, aparece uma imagem que sempre me perturbou. Refiro-me a cena frequente na Segunda Guerra Mundial: dois oficiais, um deles cabisbaixo, talvez sorridente, junto a uma pilha de folhas em chamas e o outro, tomando o desinteresse pelo dever, a deitar os olhos à correspondência. Ambos calcinam informação secreta num pequeno forno e a legenda da imagem estabelece de forma expressiva: “Oficiais da Base de Espionagem, que vigiam a espionagem do inimigo, queimam papéis confidenciais”.

Falo de 1944, um ano de ações terríveis que provavelmente obrigaram a apagar dados de operações cruéis contra os nazis; o incrível é que se passaram quase sete décadas e os governos dos EUA continuam em guerra e a ocultar dados, sem se importar com a Lei da Liberdade de informação, de 1966, nem com a Freedom of Information Clearing House, organismo que protege cidadãos em busca de informação pública que seja recusada. Lugares como a prisão de Guantánamo são abóbodas sobre verdades ocultas, embora os cidadãos entusiastas e ativos confiem que o fenómeno Wikileaks volte a pegar nos antecedentes dela e que derrube as aspirações dos manipuladores do mundo.

O primeiro golpe duro contra os agentes da desinformação ocurreu em 1971 quando o jornalista Neil Sheeban, do New York Times, teve acesso a 7000 páginas, classificadas como segredo máximo de estado sobre a guerra do Vietname, e começou uma sucessão de reportagens sobre os custos duma tragédia nacional. Isso provocou demissões e reações violentas sobre os Dossiês do Pentágono e, apesar da oposição política, o Supremo Tribunal sentenciou que a segurança nacional não estava acima do direito à informação em todas as ocasiões, dado isso poder ser mais uma desculpa do que uma realidade.

Nesse momento, o autor intelectual da fuga de documentos foi o analista militar Daniel Ellsberg, o qual destruiu a sua carreira por uma questão de consciência ao entregar o relatório Relações Estados-Unidos/Vietname, 1945-1967: um estudo preparado pelo Departamento de Defesa a 18 jornais diários, entre os quais o poderoso The Washington Post. O oficial que trabalhava na Rand Corporation foi espiado, difamado, inventaram-lhe mesmo cargos de espionagem para os soviéticos e uma mulher até advertiu que ele a violara. Um consumado e impune assassino como Henry Kissinger advertiu que Ellsberg “é o homem mais perigoso dos Estados-Unidos e deve ser detido a qualquer custo”. O mundo era na época tão absurdo como o atual e Kissinger, em vez de pagar pelos seus delitos, foi premiado com o Nobel da Paz.

No segundo caso, foi Watergate a expor as mentiras do Presidente Richard Nixon e a obrigá-lo a sair a 8 de agosto de 1974: a história pode ler-se em "Todos os Homens do Presidente", um memorável relato de Bob Woodward e Carl Bernstein em que fonte identificada como Garganta Funda, que hoje sabemos chamar-se W. Mark Felt, um diretor-adjunto do FBI, expôs a verdade sobre escutas ilegais e pagamentos de suborno por parte da equipa mais próxima do primeiro mandatário. Como pôde manter-se à margem da polémica, é difícil de imaginar, não fosse o excelente trabalho dos repórteres.

Em anos recentes formou-se novo alvoroço conhecido como questão Wikileaks, cuja liderança o misterioso e polémico australiano Julian Assange detém, zangado hoje com os seus antigos companheiros de estrada. A hiper-inflação de arquivos que a era digital acelerou pode explicar que tenham sido difundidas 251.287 transmissões de documentos, entre novembro e dezembro de 2010, uns menos importantes que outros, contudo fundamentais para conhecer a atividade de 274 embaixadas dos EUA no mundo.

Alguns documentos são entediantes, ultra-conhecidos; apenas 15.000 documentos têm relevância e justifica-se que as cadeias de média globais se interessassem repentinamente por divulgar o seu conteúdo no meio duma crise, como a fracassada ocupação do Iraque, o desastre do Afeganistão e a hecatombe económica, enfrentada por um Presidente Barak Hussein Obama, de origem tão havaiana como o próprio vocábulo Wiki.

Em geral, as publicações da organização Wikileaks apareceram e continuam a aparecer, não sem conflitos crescentes, em prestigiosos meios internacionais como El País, Le Monde, Der Spiegel, The Guardian e The New York Times. Entre a difusão de material mais controverso está, talvez, um vídeo de 12 de julho de 2007 onde se consegue discernir como tropas dos EUA asassinaram com desprezo o repórter da Reuters Namir Noor-Eldeen e, para não deixar testemunhas, mataram outras dez pessoas. Conspiração de silêncio que acompanhou também o crime contra o jornalista José Couso, condenado a ser símbolo sem significado pelos grandes grupos de média.

“Assange é um terrorista da alta tecnologia", assinalou o obscuro vice-presidente Joseph Biden, burocrata ao serviço de clubes e associações favoráveis às indústrias militares. O bloqueio à WikiLeaks, com certeza, passou por uma cibercensura violenta: a bondosa Biblioteca do Congreso, bastião conservador nas mãos de James Billington - especialista da era Reagan que continua no ativo - nega a qualquer utilizador acesso aos documentos transmitidos, situação que causou problemas dado que a consulta da base-de-dados do próprio Congresso não se podia processar.

O ceticismo e a surpresa não devem impedir que a leitora e o leitor tenham presente que dentro dos EUA há um pequeno grupo de poder cujos privilégios são intocáveis, como em qualquer outro lugar do mundo, seja a China, a Rússia ou a Suíça. Não há média, não há instituição ou espaço que não esteja sob o seu controlo, sobretudo desde o fortalecimento dos grupos de poder, pós-guerra fria e posterior colapso da União Soviética. O Pentágono possui uma Unidade para a ciberguerra capaz de assediar e reter informação sobre dados de segurança nacional, mas estranhamente não pôde impedir o fluxo de dados da Wikileaks.

Não faz sentido não perder de vista onde começa a história. A fonte principal da fuga de informação foi Bradley E. Manning, jovem defensor dos direitos de homossexuais nascido em 1987, criado em Oklahoma, cidade onde o veterano Timothy McVeigh causou o enorme atentado terrorista de 1995. De Manning, treinado em Fort Huachuca, centro militar no Arizona, sabemos que tinha acesso à rede secreta de documentos e que era especializado em determinar as vulnerabilidades do adversário, analisar e preparar emboscadas. No Iraque, esteve em Contingency Operating Station Hammer, do qual, para além do amor pelo golfe dos seus oficiais, se conhecem as operações de guerra suja que levaram a cabo.

Um belo dia, a repulsa reprimida ou a sensação de poder que a informação dá, ou ambas as coisas, levaram a que Manning preparasse um CD, que etiquetou com o nome da extravagante cantora Lady Gaga, e que descarregasse os dados que tinha à mão, ponta do icebergue do que poderia ser a Antártida dos segredos. Posteriormente contactou a organização Wikileaks e a sua ação custou-lhe prisão, isolamento e tortura, sem contar com o misterioso manto de negligência mal-agradecida que cobriu as suas ações, numa era de banalidade e farândola viciante.

Tudo se encaminhava para passar a ser notícia sem público, entre 2010 e 2012, até o Equador conceder asilo diplomático a Julian Assange, que estava na Embaixada do Reino Unido, para logo se saber que a policía já contava com um Plano para violar qualquer acordo internacional e extraditar Assange para a Suécia, onde mulheres o acusam de fazer amor sem preservativo, desculpa perfeita para a Suécia poder cumprir com o pacto ignorado para entregar o jornalista aos EUA. EUA onde seria preso e onde eventualmente desapareceria em poucos anos quando os cidadãos estivessem distraídos por qualquer episódio duma das suas séries de televisão favoritas sobre a fama, a sobrevivência, ou o humor inócuo.

Assim funciona o mundo de hoje, igual ou pior desde o instante em que a segurança nacional serviu para aniquilar os direitos humanos. Na versão de O Leopardo 2.0, tudo foi clonado para preservar a essência das mentiras: Guantánamo continua; o Iraque está à beira duma guerra civil; a AlQaeda fortalece-se na África subsaariana; Bin Laden foi assassinado e atirado ao mar, e essa versão deve aceitar-se, sem provas, como única; o Afeganistão é um desastre; os banqueiros corruptos de Wall Street, criadores duma crise mundial, estão mais protegidos que nunca; e para manter tranquilos os média, que se queixam dos seus mortos – nunca dos mortos dos outros — desenvolveram-se veículos áereos não tripulados (drones) que aniquilam silenciosamente centenas de pessoas no Paquistão e no Iémen – muitas delas inocentes. Não fora a Wikileaks, e o caminho que abriu, as falsidades teriam alibis perfeitos e por isso milhões de nós decidiram apoiar o labor de Assange e de quem, como ele, nos ajude a desmascarar os responsáveis pela crise global de que padecemos nestes inícios do século XXI. Aconteça-nos o que acontecer, prisão ou desaparecimento, os nossos filhos e filhas merecem um mundo melhor, mais transparente.

* FERNANDO BÁEZ, venezuelano, assessor da UNESCO, é perito de topo em património cultural e tráfico ilícito de bens culturais. Em 2003 visitou o Iraque como membro das comissões UNESCO que investigaram a destruição de bibliotecas e museus dessa nação. Atualmente vive no Egito com bolsa do governo do Qatar para investigar a rota trans-saariana dos livros na história da Europa, África e Médio Oriente. Doutor em Ciências da Informação e Bibliotecas, autor de vários livros, nomeadamente: A destruição cultural do Iraque (2005), O saque cultural da América Latina (2008), História universal da destruição dos livros (Texto, 2009), Nova História universal da destruição dos livros (Destino, España, 2011), As maravilhas perdidas do mundo (2012, a lançar em breve).

Extraído do sítio Esquerda.net