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19 março 2013

O SOPRO DO ESPÍRITO SANTO - Luciano Martins Costa


A imprensa de modo geral, e os jornais brasileiros em particular, devem deixar esmorecer, nos próximos dias, o noticiário sobre o novo papa. No sábado (16/3), com exceção do Estado de S.Paulo, os principais diários de circulação nacional já dedicavam as manchetes à antecipação da campanha presidencial de 2014, com a esperada louvação de um candidato oposicionista e as habituais críticas ao governo.

Já é um mantra recitado dia sim, dia não, e parte do que os jornais consideram sua missão crítica.

Sobre os eventos de Roma, a imprensa tratava de agasalhar a versão oficial de que o cardeal Jorge Mario Bergoglio nunca teve ligações com a ditadura militar argentina. O papa Francisco estaria, portanto, livre de prestar contas de seu passado.

No domingo (17), os jornais se dividiam entre as tarefas de encaminhar o debate diretamente para o campo religioso, com a Folha de S.Paulo tendo um surpreendente ataque de pieguice, a afirmar em título na primeira página que “papa deseja uma igreja pobre e para os pobres”.

O Estado de S. Paulo também deixava para trás as explicações sobre o passado de Bergoglio com uma espécie de justificativa na manchete: “Papa diz que natureza da Igreja é espiritual, não política”.

Apenas o Globo, numa manobra que claramente tenta mesclar o campo político ao campo religioso, afirma em grandes letras que “novo papa muda jogo do poder na América do Sul”.

Mais do que uma ousadia editorial, trata-se da manifestação de um desejo, aquilo que em inglês se chamaria wishful thinking: a imprensa deseja que o novo papa, por ser argentino e opositor declarado da política econômica que predomina na região, venha a liderar as forças conservadoras que se opõem ao prosseguimento dos projetos de promoção social que vêm mudando o perfil da maioria dos países da América Latina.

Nesse esforço, o leitor distraído não há de notar que certas expressões que antigamente os esquerdistas usavam para se referir à caridade religiosa são de repente viradas do avesso: agora as políticas sociais que tiram milhões da miséria é que são “assistencialistas” e “clientelistas” e seus autores são chamados de “populistas”.

O escândalo ficou no ar

Na segunda-feira (18/3), os jornais consolidam a acomodação do tema no campo religioso e absorvem a estratégia de comunicação da igreja, ao mostrar um Francisco simples, afável e popular, quebrando protocolos e se deixando tocar pelos fiéis como um astro pop que desce do palco.

Também se podem registrar as tentativas de resgate da credibilidade por parte de alguns analistas que deixaram a desejar durante o período de adivinhações sobre o nome do sucessor de Bento 16. Em um texto, Francisco é o papa que vai reformar a igreja, em outro é o jesuíta que vai conciliar a religião com a ciência, num terceiro ele aparece como o disciplinador feroz que irá investigar e punir os casos de abuso sexual cometidos por sacerdotes católicos.

Enquanto se dissipa o fenomenal entusiasmo da imprensa pela igreja, nascido do ato inédito, em tempos modernos, da renúncia de um papa, também se acumulam os resíduos de uma cobertura feita à base de declarações, mitos e chutes de todas as distâncias. Como se o Espírito Santo, depois de haver soprado sobre os vates da imprensa, decidisse recolher-se ao seu lugar na Santíssima Trindade.

Assim como não foram capazes de sequer se aproximar da hipótese de o cardeal Bergoglio vir a ser eleito papa, os vaticanistas reconhecidos e os “especialistas” instantâneos ungidos apressadamente para a viagem a Roma voltam à tarefa de rastrear novos assuntos, depois de terem levantado tanta poeira.

Por exemplo, desde que surgiu o boato de que o papa Bento 16 havia recebido um dossiê contendo denúncias escandalosas sobre integrantes da cúria romana, os jornais agasalharam a informação como sendo absolutamente verdadeira, estimulando fantasias dignas dos mais grotescos filmes pornográficos. Corre pela internet, eventualmente com o timbre de jornalistas, a teoria segundo a qual Ratzinger foi chantageado a renunciar para evitar a publicação de imagens altamente corrosivas envolvendo cardeais em saunas e encontros sexuais. Mas nunca foi apresentada ao público uma linha sequer de tal dossiê, ou revelado qualquer detalhe por fonte idônea que lhe emprestasse alguma credibilidade.

Da mesma forma, a imprensa vem dando curso à enxurrada de denúncias sobre pedofilia na igreja católica, sem considerar que todo pedófilo procura atividades que o coloquem em contato com potenciais vítimas – seja em paróquias, em escolas infantis ou em grupos de escoteiros.

Confrontar as estatísticas de casos de pedofilia envolvendo padres católicos com os números de outros grupos, como o de pastores evangélicos, pais-de-santo, monitores de acampamentos e assistentes sociais, seria o mínimo de cuidado para oferecer ao público uma noção mais realista do problema.

Mas a cobertura fenomenal sobre a mudança no Vaticano se esvai sem que a imprensa tenha ido além da superfície.

Extraído do sítio Observatório da Imprensa

UMA MULTINACIONAL - Filipe Diniz


Como é que uma estrutura profundamente formatada - segundo a observação de Gramsci - pelo papel dos eclesiásticos enquanto intelectuais orgânicos do mundo feudal, e que mantém a hierarquia (com os seus “príncipes”) estruturada ainda sobre esse modelo, permanece a “multinacional de maior sucesso” na fase imperialista do capitalismo?

Toda a gente opina sobre a questão do novo Papa. Para quem está de fora, suscita uma certa perplexidade que a generalidade das opiniões seja acerca de questões que não pareceriam propriamente ser do foro de uma instituição religiosa: actividades bancárias obscuras, escândalos de diverso tipo, intrigalhada de todo o género.

É tal a predominância desses temas que os textos mais interessantes são aqueles que não estão com rodeios, mesmo que o façam com ironia. É o caso de um (“Pope, CEO”,“The Economist”, 9.03.2013) que começa com o seguinte e lapidar parágrafo: “A igreja católica romana é a mais antiga multinacional do mundo. É também, em muitos aspectos, a de maior sucesso, com 1,2 mil milhões de clientes, dezenas de milhões de voluntários, uma rede de distribuição global, um logotipo universalmente reconhecível, um polimento sem rival no lobbying e, suscitando os melhores auspícios para o futuro, uma actuação de sucesso junto dos mercados emergentes”.

Para o autor do artigo esta multinacional, se tem problemas, só precisa de seguir o exemplo das outras multinacionais para os ultrapassar. Se estão a braços com escândalos, montam uma campanha de relações públicas para convencer os seus clientes e empregados de que os estão a resolver. Se há a questão das operações bancárias obscuras, é subcontratar as actividades como fazem a IBM e a Ford, em vez de ter um banco próprio (“o único no mundo que tem máquinas multibanco com instruções em latim”). E se querem consolidar o sucesso nos mercados emergentes, têm que instalar quartéis-generais nos locais, como fez por exemplo a Cisco criando uma nova sede em Bangalore.

Este artigo, sob a sua inteligente ironia, coloca reflexões bem interessantes. Uma delas é como é que uma estrutura ainda profundamente formatada - segundo a observação de Gramsci - pelo papel dos eclesiásticos enquanto intelectuais orgânicos do mundo feudal, e que mantém a sua hierarquia (com os seus “príncipes”) estruturada ainda sobre esse modelo, permanece a “multinacional de maior sucesso” na fase imperialista do capitalismo? A resposta talvez esteja exactamente aí: esse sucesso não resulta das suas formas organizativas, mas de uma milenar aliança histórica com as classes dominantes.

* Este artigo foi publicado no «Avante!» n.º 2050, 14.03.2013.

Extraído do sítio O Diário.info

FRANCISCO I VEM DISPUTAR O CONSENSO SOCIAL - Julio C. Gambina


Há 40 anos que o neoliberalismo se ensaiou nos nossos territórios com as ditaduras e o terrorismo de Estado, para depois se estender por toda a orbe. A Igreja na Argentina, salvo honrosas e escassas excepções, acompanhou a genocida ditadura nesse parto neoliberal, ainda que agora falem de pobreza e de ética.

A Igreja é parte do poder mundial, e não só do poder económico. A Igreja disputa historicamente o consenso da sociedade. É uma realidade a ter em conta em tempos de crise capitalista, considerada também uma crise de civilização, já que esta civilização contemporânea é comandada pelo regime do capital, ou seja, pela exploração do homem pelo homem, pela depredação da Natureza.

Quando o sistema mundial estava desafiado pelo avanço dos povos e o socialismo (como forma que tentava ser alternativa da ordem mundial) abriu caminho a teologia da libertação, em confronto aberto com o poder institucional de uma Igreja retrógrada. Assim a Igreja dos pobres mostrava-se a partir do sul do mundo, mais precisamente da Nossa América. A Igreja oficial não podia negar esse rumo que desbravava caminho entre os padres da base e serviu de fundamento a um grande debate mundial no seio da Igreja.

Os caminhos da ofensiva popular tocavam à porta da Instituição. A resposta contemporânea da instituição Igreja foi acompanhada da ofensiva capitalista para recuperar o poder económico do regime do capital. Essa ofensiva materializou-se nos anos 80 do século passado contra o socialismo e os povos, abrindo caminho ao poder reacionário dos Ratzinger e dos Bergoglio.

Há 40 anos que o neoliberalismo se ensaiou nos nossos territórios com as ditaduras e o terrorismo de Estado, para depois se estender por toda a orbe. A Igreja na Argentina, salvo honrosas e escassas excepções, acompanhou a genocida ditadura nesse parto neoliberal, ainda que agora falem de pobreza e de ética.

Um Papa polaco chegou à Igreja para acompanhar o princípio do fim da experiência socialista, ainda que se discuta o carácter daquela experiência. O capitalismo mundial necessitava do Este da Europa. A Alemanha assim o entendeu. Os EUA também. Sem o Este da Europa, ainda que já abandonado o projecto socialista original, o mundo deixou de ser bipolar e constituiu-se o caminho unipolar do capitalismo transnacional e neoliberal.

O caminho unipolar está a ser desafiado pela mudança política na Nossa América e o ressurgir do socialismo, seja pela mão da revolução cubana ou por processos específicos que ressurgem em alguns países (Venezuela ou Bolívia), inclusive em variados movimentos políticos, sociais, intelectuais, culturais, na nossa região.

Com a morte de Chávez e milhões de mobilizados a constituírem-se em sujeitos pelo cumprimento do legado revolucionário e socialista de Hugo Chávez, a Igreja lança para a mesa o símbolo de um Chefe da Igreja nascido no sul e comprometido com o projecto do norte.

O Papa argentino, Francisco I, vem cumprir o projecto do poder mundial de disputar o consenso da sociedade, especialmente dos povos. Não se trata apenas de sustentar posições contrárias ao matrimónio igualitário ou contra o aborto, largamente difundidos pelo bispo Bergoglio, mas de gerir a uma consciência de disciplinamento para a ordem contemporânea, reacionária, de dominação transnacional.

A Nossa América é hoje laboratório da mudança política. A Instituição Igreja quer intervir neste processo, e não é para desenvolver essas mudanças, mas para as travar. A disputa é pelas consciências. É uma batalha de ideias, pela mudança ou pelo retrocesso. Preocupa-os o efeito Chávez na região. Preocupa-os a sucessão política na Venezuela e a capacidade de alargar o rumo socialista. Precisam de disputar o consenso.

Mas, por mais tentativas institucionais para acompanhar a ofensiva do capital contra o trabalho, os trabalhadores e os sectores populares, inclusiva a Igreja dos pobres, o movimento religioso popular persiste na procura pela organização da sociedade do viver bem (Bolívia), do bem viver (Equador), do socialismo cubano, ou da luta pela emancipação social de grande parte da sociedade dos de baixo na Nossa América.

O Papa Francisco I vem pelas suas razões. Nós, os povos, devemos continuar a nossa luta e experimentação por uma nova sociedade, por um outro mundo possível, esse que se constrói na luta contínua contra a exploração, pela emancipação social, contra o capitalismo e o imperialismo, pelo socialismo.

* Júlio Gambina é presidente da Fundação de Investigações Sociais e Políticas (FISYP).

** Tradução de José Paulo Gascão.

Extraído do sítio O Diário.info

15 março 2013

AMÉRICA LATINA É REGIÃO-CHAVE PARA FUTURO DA IGREJA CATÓLICA - Rafael Plaisant Roldão e Astrid Prange de Oliveira


Mudanças em políticas tradicionais, como o celibato, são improváveis, mas Vaticano quebra tabu ao eleger cardeal argentino. Aproximação com América Latina, que concentra mais de 40% dos católicos do mundo, é promissora.

A surpreendente escolha do argentino Jorge Mario Bergoglio como Papa marca uma mudança de foco da Igreja Católica em direção a uma região fundamental para o seu futuro. O Vaticano tem na Europa a sua sede, seu bastião histórico e sua principal fonte de renda, mas há tempos que a América Latina é sua principal base de fiéis – e talvez a chave para retomar o prestígio de antes.

Enquanto, no último século, o número de católicos europeus caiu pela metade e hoje representa apenas 25% do total mundial, na América Latina a tendência é oposta. Na região já se concentram 42% dos fiéis do planeta, e estima-se que até 2050 esse número terá crescido mais de 40%.

Para ser mantida, no entanto, essa progressão demanda atenção – e a Igreja parece finalmente ter tomado ciência disso. Muitos fiéis dizem já não se enquadrarem mais nos estritos parâmetros impostos pelo catolicismo romano, e vêm buscando abrigo em Igrejas evangélicas e pentecostais ou mesmo no agnosticismo.

"Com essa escolha, seremos uma Igreja mundial", declarou à DW o padre Bernd Klaschka, diretor da organização católica Adveniat, que atua na América Latina em nome da Conferência Episcopal da Alemanha. "Ela mostra a confiança no desenvolvimento da Igreja Católica na América Latina. O novo Papa vai conquistar os corações com sua postura simples e discreta."

Jorge Mario Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires, em 2009
Aproximação com fiéis

Francisco é conhecido pela personalidade discreta, pela forma simples com que prega e pela conexão com os pobres – de certa forma um contraste com seu antecessor, muitas vezes criticado por não falar a língua do povo. Mas o argentino compartilha muitas das mesmas posturas conservadoras de Bento 16 e é improvável que tome medidas drásticas em temas como o aborto, o casamento gay ou a ordenação de mulheres.

Especialistas dizem que, devido a suas posições conservadoras centenárias, a Igreja é vista por muitos, especialmente pelos mais jovens, como um corpo estranho e distante. E, em defesa de uma reaproximação com esses fiéis, há basicamente duas linhas de pensamento dentro do Vaticano.

Uma propõe o regresso às essências do catolicismo, tomando a aplicação estrita da educação católica como cavalo-de-batalha e rechaçando mudanças drásticas, como a aceitação do uso de anticoncepcionais. Outra corrente defende a manutenção dessas essências, mas de forma adaptada à realidade moderna – como é o caso dos episcopados que aceitam o uso da pílula do dia seguinte por mulheres vítimas de estupro.

O papa Francisco, de 76 anos, terá que buscar uma síntese entre ambas as tendências, o que não será fácil. Sua escolha surpreendeu também aos que esperavam um pontífice mais jovem, capaz de dar energia à Igreja num momento de escândalos que minam sua autoridade moral, de crise de governança interna, do crescimento dos evangélicos e da crescente falta de novos padres.

"O primeiro movimento é caminhar"

No Brasil, maior país católico do mundo, o número de padres ordenados até cresceu (de 16.700 para 22 mil), mas a cifra é ainda baixa comparada à população nacional e à quantidade de paróquias e dioceses. A situação se repete na Europa – que chegou a importar prelados latino-americanos –, nos Estados Unidos e nos demais países da América Latina, como a Argentina do papa Francisco.

Júbilo na Argentina após eleição do novo Papa
"Em Buenos Aires há paróquias com 80 mil a 90 mil membros", diz Klaschka, em referência à proporção de fiéis para padres. "Por isso, a formação de leigos deverá ser alta prioridade no papado de Bergoglio." Essa pode ser uma saída, já que o fim do celibato e a ordenação de mulheres parece, pelo menos a médio prazo, fora de questão.

Em sua primeira homilia, o papa Francisco declarou nesta quinta-feira (14/03): "O primeiro movimento é o caminhar. Nossa vida é um caminho e, quando paramos, as coisas não acontecem". A Igreja está diante de uma série de desafios e reconhece que precisa se mover. O primeiro passo já foi dado, com a renúncia de Bento 16, que quebrou uma tradição de mais de 700 anos. O segundo também, com a escolha do primeiro Pontífice jesuíta, latino-americano e único não europeu desde o século 8. Caberá a Francisco tentar tirar a Igreja da inércia que vem-lhe custando caro, nas últimas décadas.

Extraído do sítio Deutsche Welle

PAPA FRANCISCO É ACUSADO DE TER COLABORADO COM A DITADURA ARGENTINA


Ativistas dos direitos humanos na Argentina alegam que o novo Papa teria tido ligações com o regime militar, mas não existem provas concretas. Vaticano refuta denúncias e diz que elas têm motivação política.

Nem todos os argentinos estão animados com a escolha do ex-arcebispo de Buenos Aires Jorge Mario Bergoglio para ser o novo Papa. Alguns chegam a considerar a eleição um erro. "Pensamos que se tratava de uma brincadeira", afirmou a ativista Graciela Lois, da organização Familiares de Desaparecidos e Detidos por Razões Políticas. "Para nós essa não foi uma boa escolha."

Assim como outro ativistas dos direitos humanos na Argentina, Lois suspeita de uma ligação muito próxima de Bergoglio, então chefe da ordem jesuíta do país, com a ditadura militar nos anos 1970.

Após a eleição do papa Francisco, a presidente Cristina Kirchner congratulou o ex-arcebispo de Buenos Aires sem muito entusiasmo e até com algum atraso. A frieza da reação não causou surpresa: é fato conhecido que Kirchner e Bergoglio nunca tiveram um relacionamento amigável, o que não deverá mudar no futuro.

Sérias alegações

O arcebispo e a presidente: relação pouco amigável

Ativistas acusam Bergoglio de ser cúmplice em sequestros e torturas de oponentes do regime militar – ou, no mínimo, de omissão. Carlos Pisoni, da associação Hijos, que tenta localizar pessoas desaparecidas durante a ditadura, diz que existem provas suficientes de que o novo Papa teve um papel ativo durante o regime militar. "Acredita-se que ele repassava informações aos militares e que se recusou a contribuir para o esclarecimento de alguns casos."

O caso mais conhecido refere-se ao sequestro de dois padres jesuítas em 1976. Eles foram levados ao centro de tortura ESMA, onde sofreram abusos. Liberados após seis meses, acusaram Bergoglio de tê-los denunciado. "Ele não cumpriu com a sua responsabilidade, como chefe dos jesuítas, de proteger os dois padres", observa Lois.

Por essa razão, um advogado de direitos humanos chegou a denunciar na Justiça o então arcebispo de Buenos Aires em 2005, alguns dias antes de ele perder a eleição do conclave papal para o cardeal alemão Joseph Ratzinger.

Um outro caso é o desaparecimento de uma jovem durante a ditadura. O irmão dela teria pedido ajuda a Bergoglio, mas o esforço teria sido em vão.

Falta de provas

Esquivel, vencedor do Nobel da paz, defende Bergoglio das acusações

Ambos os casos foram examinados por um tribunal, com a presença de Bergoglio no papel de testemunha. No caso dos jesuítas, o então arcebispo negou as acusações e afirmou ter intercedido pessoalmente junto ao então presidente Jorge Rafael Videla pela libertação dos padres. Também na sua autobiografia, o novo pontífice rebate as acusações. Seus opositores não conseguiram apresentar provas concretas sobre as alegações, e Bergoglio jamais foi acusado pela Justiça.

Alguns suspeitam que, por trás dessas acusações, haveria uma campanha política contra o teólogo conservador. Os defensores de Bergoglio alegam que ele chegou até a esconder opositores do regime, ajudando-os a deixar o país clandestinamente.

Além disso, o novo Papa tem um proeminente defensor, o escultor Adolfo Pérez Esquivel, que em 1980 recebeu o Prêmio Nobel da Paz em razão de seu comprometimento com os direitos humanos. Esquivel garante que o papa Francisco não era alinhado com a ditadura. Ele afirma que alguns bispos eram cúmplices do regime, mas Bergoglio certamente não era um deles.

O Vaticano também refuta as acusações, afirmando que elas têm motivação política e carecem de fundamento. "Nunca houve uma acusação concreta e credível contra ele", afirmou o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi.

Extraído do sítio Deutsche Welle

O PAPA QUE NÃO FOI - Paulo Moreira Leite

Deixando fatores religiosos de lado, cabe reparar que a escolha de Jorge Mario Bergoglio terá imensas consequências políticas para brasileiros e argentinos.


No Brasil, a escolha privou os adversários de Dilma Rousseff de um aliado seguro, que seria representado pelo cardeal Odilo Scherer. 

A possível escolha de dom Odilo foi acompanhada com uma esperança inusitada por parte dos meios de comunicação, engrossando um coral de cálculos em voz baixa elaborados por políticos de oposição e personalidades próximas. 

A ideia era que um papa brasileiro, como dom Odilo, poderia ser um ótimo contraponto na campanha de 2014 – quando o país deve assistir a um novo esforço dos adversários do governo para silenciar Lula, personalidade que possui uma estatura que nenhum rival conseguiu alcançar até o momento, pelo menos. 

Imagine um papa – a quem muitos católicos enxergam como a voz de Deus na Terra – fazendo pronunciamentos e declarações desfavoráveis ao governo Dilma. Seria uma ajuda e tanto, vamos combinar. Bento XVI chegou a ensaiar movimentos nesta direção, em 2010, deixando clara sua preferência pelos adversários de Dilma. 

Dois bispos, em Guarulhos e na Paraíba, fizeram campanha direta e explícita contra a presidente. Um terceiro bispo, que assumiu uma postura oposta, foi pressionado a renunciar logo após as eleições. 

O próprio José Serra deixou-se fotografar beijando um crucifixo e sua campanha fez de uma obsessão do Vaticano – o aborto – um tema quentíssimo da eleição.

A falta de carisma de Bento XVI e a boa situação do país, que crescia 7,5% em 2010, impediram que uma intervenção dessa natureza tivesse maiores consequências. 

Embora Dilma Rousseff seja titular de um governo que mantém apoio da ampla maioria dos brasileiros em 2013, como dizem seus índices de opinião, ninguém imagina que a decisão de 2014 irá ocorrer num ambiente semelhante. A possibilidade de a oposição se aliar a um dissidente do governo da estatura de Eduardo Campos coloca questões de outra natureza.

Na Argentina, a escolha de Bergoglio promete gerar complicações semelhantes para o governo de Cristina Kirchner, que vive um momento muito mais complicado do que a vizinha ao Norte. O novo papa é um adversário assumido de seu governo.

É possível fazer algumas observações, contudo.

A escolha de Bergoglio confirma a profundidade da crise que envolve a cúpula da Igreja Católica. É uma opção que parece sob encomenda para que todos possam rir aqueles analistas que preparavam um tapete vermelho para receber um personagem salvador, que seria capaz de abrir uma saída para um abismo de denúncias de corrupção, tráfico de influência e impunidade em relação a milhares de casos de pedofilia, um dos mais covardes e inaceitáveis crimes que a vida moderna registra. 

Deixando de lado os dados biográficos triviais – o novo papa anda de metrô, fala como as pessoas simples etc. – pode-se ir atrás de informações mais substanciosas. 

Horácio Verbitsky, um dos mais respeitados pesquisadores de direitos humanos da Argentina, informa que Bergoglio tem uma folha corrida complicada. Mostrou-se conivente com a perseguição a presos políticos, inclusive sacerdotes que participaram da resistência ao regime militar. Verbistsky ainda relata que Bergoglio pouco fez para esclarecer casos de filhos de presos políticos desaparecidos que foram adotados clandestinamente por amigos do regime militar. 

Ele também se manifestou contra o casamento de pessoas do mesmo sexo.

Parece difícil que um papa com tais características seja capaz de recuperar o prestígio da Igreja. 

Seria esta a revolução prometida pela renúncia de Bento XVI?

Extraído do sítio IstoÉ

14 março 2013

CENSURA E FÉ

Jorge Bergoglio é acusado de envolvimento com o regime autoritário argentino da década de 1970. Entenda a polêmica.


Nesta quinta (14), o jornalista argentino Horacio Verbitsky, diretor do Centro de Estudos Legais e Sociais (Cels), escreveu um artigo inflamado no jornal Página 12 em que acusa novamente o atual papa Francisco de envolvimento com a ditadura civil-militar argentina. Para o jornalista, o jesuíta Jorge Bergoglio é um ‘populista conservador’ que vai introduzir apenas mudanças ‘cosméticas’ em seu pontificado. No artigo intitulado ‘Un ersatz’ ele afirma que o sucessor do trono de Pedro é uma opção da “pior qualidade”, e o compara com “a água com farinha que as mães indigentes usam para enganar a fome de seus filhos” [tradução livre]. A escolha do título dá o tom do texto: a palavra alemã ersat – que não possui tradução para línguas latinas – dá ideia de substituição de mesmo nível, ou seja, para o autor, Francisco teria uma veia ultraconservadora tal como acusam os opositores de Bento XVI – que, quando jovem, foi membro da Juventude Hitlerista (segundo Joseph Ratzinger, isso aconteceu apenas quando ele foi obrigado).

A alfinetada não é nova, acontece há décadas. Em 1986, o advogado Emilio Mignone publicou o controverso livro Igreja e ditadura (1986), na qual levantava suspeitas sobre a participação de Bergoglio no sequestro de dois sacerdotes, em 1976. Nesta época, a ditadura civil-militar argentina estava no ápice e Bergoglio era presidente da Ordem Jesuíta. Segundo Mignone e também Verbitsky – na obra O silêncio (2005)– o sacerdote teria retirado a proteção da Igreja dos padres Francisco Jalics e Orlando Yorio, envolvidos com grupos da esquerda revolucionária.

O jornalista argentino acusa o atual papa Francisco, na obra e no presente artigo, de ter, inclusive, delatado os colegas ao regime ditatorial, fato que teria causado o sequestro e desaparecimento deles. A acusação poderia ser reforçada pelo testemunho recente de cinco pessoas: um sacerdote, um ex-sacerdote, uma teóloga, um integrante de uma fraternidade leiga que denunciou no Vaticano o que acontecia na Argentina em 1976 e um cidadão que também foi sequestrado à época.

Chamado a depor pela Justiça argentina, o então cardeal negou participação no caso. Em 2010, uma biografia autorizada sobre a vida do atual pontífice foi publicada. Na obra, o hoje papa Francisco nega as acusações e ainda afirma que tentou resgatar seus colegas do local onde eles estavam presos. O suspense permanece.

Extraído do sítio Revista de História