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25 janeiro 2013

GUERRA DO MALI: A MÃO INVISÍVEL DA EUROPA - Jean-Christophe Gallien


Uma semana após o lançamento das operações contra os islamitas que controlam o Norte do Mali, as tropas francesas continuam a ser as únicas forças ocidentais no terreno. Mas os Vinte e Sete, que renunciaram a uma capacidade militar comum, estão presentes mais discretamente, noutras frentes.

A União está praticamente no banco dos réus, por estar ausente, sem reação perante a crise, inútil mais uma vez e sempre, e a França estaria sozinha! A análise objetiva da situação contradiz tais afirmações, nos campos político, financeiro e humanitário, embora, entretanto, seja de assinalar um verdadeiro fracasso: o da Política Europeia de Segurança e Defesa.

O que se passou desde que se soube da operação Serval? A União organizou reuniões de crise, para ajustar o calendário e as ações do processo europeu para o Mali, decidido pelos 27, em especial a missão EUTM Mali. A reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros, que se realizou em Bruxelas, em 17 de janeiro, foi o seguimento e a demonstração desse compromisso da União Europeia, solidária com a França quanto ao Mali. Pelo menos política e simbolicamente.

No concreto, a União dará o seu apoio financeiro, designadamente à MISMA – a Missão Internacional de Apoio ao Mali, composta essencialmente por forças africanas, posicionada no Mali – da CEDEAO [Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental], para financiar os salários dos soldados africanos.

Consenso hesitante mas europeu

No entanto, o Mali vem confirmar a dificuldade de aplicação da Política Externa e de Segurança Comum. Instituída pelo Tratado de Maastricht, em 1993, a PESC poderia "conduzir, no momento oportuno, a uma defesa comum". Em 1999, a cimeira de Helsínquia precisou que a União Europeia devia, até 2003, estar em condições de posicionar até 60 mil homens, no prazo de 60 dias, graças a meios aéreos e navais.

Desde então, a União tem tido dificuldade em reunir forças operacionais dessa dimensão. Em 2004, a Conferência de Empenhamento de Capacidades no Domínio Militar apresentou o conceito de agrupamentos táticos de 1500 homens, que permitiriam à Europa responder mais rapidamente às situações de crise. Uma das principais ambições militares da UE era dispor de capacidade de reagir depressa e eficazmente, nas zonas de conflito situadas fora da União.

Portanto, é verdade que, no caso do Mali, uma força europeia teria podido intervir no terreno, estabelecendo a marca diplomática e militar da União. Estamos perante uma crise, fora do território dos Vinte e Sete, uma crise em curso num país situado a menos de seis mil quilómetros de Bruxelas, uma crise que, à partida e para a maioria da comunidade internacional, com um consenso hesitante mas europeu real, torna necessária uma intervenção rápida, antes de esta ser confiada a outra força de tipo africano e regional.

Sem rostos e sem voz própria

Não foi nada disso que aconteceu. E, como é hábito, o mundo mediático e político e os próprios cidadãos apontam o dedo acusador a Bruxelas. A França está sozinha. Não existe uma Europa da defesa, uma Europa do terreno, não há unidade diplomática real. Contudo, não é em Bruxelas que devemos procurar a razão desta divisão de tarefas: é no centro da jurisdição dos países que detinham a responsabilidade pelo agrupamento tático. Ou seja, não por ordem especial, a França, a Alemanha e a Polónia. A França decidiu agir sozinha e, segundo parece, não pediu nada a ninguém. Por outro lado, para Berlim, e mais ainda para Varsóvia, o Mali é visto como um assunto muito francês e o investimento não promete grande retorno.

O desafio é de peso. Tem a ver com força diplomática real da União e é visível que Catherine Ashton tem dificuldade em firmar o seu lugar. A Europa diplomática e militar enfrenta sérios problemas. No entanto, repita-se, a União Europeia empenha-se na crise, como já fez nos casos da Somália e da Palestina. A França não está sozinha no Mali. Demasiado discreta, com uma arquitetura institucional complexa e incompreensível, sem rostos e sem voz própria, a União encoraja os argumentos fáceis vindos dos Estados-membros.

Trabalha no terreno, financia, envolve-se, mas perde a batalha na frente mediática e não é capaz de ultrapassar as suas divisões na aplicação de uma política de segurança e de defesa comum estratégica e operacional. Uma diplomacia suave, económica, cultural, educativa, mediática, desportiva... não pode viver sem uma relação forte, totalmente integrada numa diplomacia dura, militar e financeira e na sua irmã mais nova do século XXI, a ciberdiplomacia, hoje plenamente dominada pelos EUA. A Europa unida será mais europeia também na defesa e na segurança.

Extraído do sítio Presseurop

22 janeiro 2013

RIQUEZAS MINERAIS, ALÉM DO COMBATE AO TERROR, EXPLICAM INTERVENÇÃO FRANCESA NO MALI

Ao mesmo tempo em que é julgada como necessária, fatores como a riqueza natural malinesa são levados em conta por críticos.

O Mali, país localizado na região da costa oeste africana, está desde o dia 11 de janeiro sob intervenção das Forças Armadas da França, país de quem foi colônia até 1959. O país enfrenta uma guerra civil iniciada no ano passado por rebeldes separatistas de origem tuaregue e que, posteriormente, teve o envolvimento de uma coalizão de milícias de orientação religiosa que se aproximava rapidamente da capital, Bamako, sudoeste do país.

Oficialmente, a justificativa do presidente francês François Hollande para a ação militar é que ele recebeu um pedido de emergência do presidente malinês, Dioncounda Traoré, e que o único objetivo do país europeu seria assegurar a segurança do país africano, afastando-o do risco de ser tomado por forças militares terroristas.


Por um lado, a versão oficial é apoiada pela população francesa, pelo governo do Mali e pelos países vizinhos. No entanto, os críticos apontam outros motivos (como a riqueza dos recursos naturais malineses) para que a intervenção seja interpretada como uma nova ofensiva neocolonialista da França na região. Outro aspecto levado em conta para criticar a iniciativa é a baixa popularidade de Hollande, que poderá reverter a tendência de queda livre em caso de sucesso militar.

Especialistas africanos entrevistados pela reportagem de Opera Mundi afirmam que a medida era necessária, mas poderá trazer problemas para as tropas francesas caso a ofensiva se prolongue ou a relação entre as tropas e os civis malineses se deteriore.

Opera Mundi publica um especial em que mostra as origens do conflito, os prós e os contras da intervenção francesa e quais podem ser suas possíveis repercussões.

As razões da França e o subsolo do Mali

“Temos um único objetivo: assegurar que, quando sairmos, ao fim de nossa intervenção, o Mali esteja seguro, com autoridades legítimas, um processo eleitoral em curso e sem mais terroristas ameaçando seu território”. Essa declaração é de um dos trechos em que Hollande justifica os motivos da França ter entrado no conflito.

"O Mali enfrenta uma agressão de elementos terroristas que vêm do norte [do país] e que todo o mundo conhece pela brutalidade e pelo fanatismo. Está em jogo a própria existência deste Estado amigo, a segurança de sua população e a de nossos seis mil cidadãos que estão lá", acrescentou o presidente francês.

“A intervenção no Mali é completamente legal e legítima: acima de tudo, ela pretende combater uma coalizão de grupos terroristas que tomou o norte do país e impôs a sharia a essa população, submetendo-os a violações graves dos direitos humanos. As tropas do Mali não tinham condição alguma de combate-los, era impossível. Se a França não tivesse entrado, as forças rebeldes já teriam tomado em Bamako”, afirma o senegalês Hamidou Anne, especialista em Relações Internacionais e membro do think tank africano Teranga em entrevista a Opera Mundi.

Ele lembra que, diferentemente de outras ocasiões, essa ofensiva foi solicitada pelo presidente malinês e teve apoio do Conselho de Segurança da ONU.

O presidente francês, François Hollande, no discurso em que anunciou o envio de tropas francesas ao Mali

O marfinense Joel Te-Lessia, especialista em Relações Internacionais, lembra também que um dos principais argumentos justificados por Hollande, a integridade territorial do Mali, “não é verdadeiro. Tanto que seu antecessor, Nicolas Sarkozy, no início do conflito, havia orientado o governo malinês a negociar, não com os terroristas, mas com o MNLA (Movimento Nacional de Libertação de Azawad, grupo separatista secular). Quando os rebeldes perderam o controle para os islamistas, a situação mudou”.

Te-Lessia lembra que, inicialmente, estava previsto que a ofensiva seria comandada por países africanos, coordenados pela Cedeao (Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental), com os franceses apoiando na logística. “No mês desde outubro (quando o CS da ONU deu o sinal verde), eles não se mostraram prontos. Acredito que Hollande não tinha o desejo que a França interviesse, não era interessante para ele que a imagem da França como estado policial voltasse ao imaginário africano, mas as forças do Mali não podiam fazer mais nada, nem as africanas ; e os outros países vizinhos estariam em perigo”.

Ana Carolina Marques/Opera Mundi
No entanto, para o jornalista suíço Gilles Labarthe, fundador da agência de notícia Datas, as intenções da França passam longe de termos como “guerra ao terror” e “ajuda humanitária”. Especialista em colonialismo francês e autor de livros como "L'or africain. Pillages, trafics & commerce international" (em tradução livre "O ouro africano: pilhagens, tráfico e comércio internacional"; editora Agone, 2007), ele afirma, em entrevista ao site espanhol Publico.es, que parece “claro que a França e o resto dos países implicados no Mali estão se movendo pelo interesse de assegurarem os recursos minerais da região, como já ocorreu há dois anos na Líbia”.

O jornalista admite que “é mais difícil identificar que o lobby industrial está por trás de tudo”, mas ele aponta que importantes companhias extrativistas como a Aréva possuem o direito de explorar o urânio no Níger e estão a apenas 200 quilômetros da fronteira com o Mali. A empresa fechou 2012 com um crescimento de 4% a 6% no faturamento, e há perspectiva de crescimento em 2013. A França tem a energia nuclear como principal fonte de sua matriz energética, e seu governo é proprietário de 14,33% da companhia.

Sobre as intenções francesas, Anne lembra uma frase do general Charles de Gaulle: “Os estados não têm amigos, tem interesses”. “Ninguém duvida que, caso as forças oficiais vençam, os franceses terão interesses nesses recursos. Não será surpresa se a França tiver uma maior presença no setor de extração mineral”, afirmou ele.

“Se o Mali cair nas mãos dos terroristas, estes terão ao leste a fronteira com o Níger, aberta e completamente vulnerável. Lá estão situadas minas de urânio, com companhias francesas instaladas por lá. Claro que esse fator teve uma importância na decisão”, diz Le-Tessia.

Carlos Latuff/Opera Mundi

Apesar de possuir extensa superfície desértica, o Mali é uma vasta fonte de recursos minerais, muitos deles ainda não explorados. 

As prospecções de urânio no país são animadoras, principalmente na região de Kidal (leste, zona reivindicada por separatistas e controlada pela coalizão insurgente islâmica), próximas ao Niger.

O Mali é também o terceiro maior extrator de ouro na África. No entanto, a maioria das minas de ouro do país está localizada no sul, próxima à fronteira com o Senegal, não havendo consequência imediata para o processo de extração.

Além do urânio e ouro, o país também possui destacadas reservas de cobre, diamante, manganês, ferro, fosfato, bauxita, zinco, lítio, entre outros metais (ver infográfico acima), além da possibilidade de se tornar importante exportador de petróleo – com a maioria das reservas localizadas na região norte.

Tempo indeterminado

Hollande afirmou que a França ficará no Mali "o tempo que for preciso". E, nos primeiros dias, os oficiais franceses se surpreenderam com a organização e os equipamentos das forças rebeldes.

Manifestantes egípcios protestam contra a ofensiva em frente à embaixada francesa no Cairo

A possibilidade de a operação se prolongar poderá ser o principal fator, no futuro, a transformar a aprovação inicial da ofensiva em revés. “Se a França ficar muito tempo, o problema é que inevitavelmente começaremos a contabilizar muitas vítimas civis. Quando isso começar a ocorrer, o papel da França será questionado”, dizTLe-Lessia.

Apoio interno

Na França, a intervenção francesa no Mali contou com apoio da população. Uma pesquisa realizada na última terça-feira (15/01) pelo instituto BVA aponta que 75% dos franceses aprovaram a decisão de Hollande – 82% entre os eleitores que se declaram de esquerda e 69% dos que se declaram de direita. No mesmo dia, o Ifop registrou aprovação de 63%.

A maior parte da classe política francesa, em um primeiro momento, também se manifestou favoravelmente à ação, como fizeram publicamente a UMP (União por um Movimento Popular), principal rival na oposição de direita; a Frente Nacional, de extrema-direita; e o centrista Movimento Democrático. A exceção entre as principais agremiações políticas ficou com o líder do Partido de Esquerda, Jean-Luc Mélenchon, considerou essa decisão “discutível” e condenou o fato de a ação não ter sido sequer discutida no Parlamento.

Os números e o apoio são bem diferentes das pesquisas de opinião em torno da aprovação do governo durante todo o mês de 2012. De acordo com o Ifop, Hollande fechou o ano com pífios 37% (4 pontos percentuais a menos que o levantamento de novembro), enquanto o primeiro-ministro Jean-Marc Ayrault foi ainda pior: 35% (queda de oito pontos). Resta saber como serão os primeiro resultados após a intervenção.

Pós-intervenção

Para Te-Lessia, a intervenção militar francesa não irá resolver a disputa política no Mali nem livrar a região do terrorismo. “O Mali tem um território vasto, a França não tem condições de vigiar e revistar todas as cidades e vilas. E os terroristas poderão se esconder na Líbia ou na Argélia. O problema não é esse, terroristas aparecem o tempo todo. O que se deve fazer é impedir que eles tenham acesso a a reservas, armas , bases, munição, abastecimento”, afirma. Ele lembra que também será preciso fazer com que os malineses reconstruam suas Forças Armadas. “Não puderam fazer antes nem durante a crise, veremos no futuro, em caso de vitória”.

Extraído do sítio Opera Mundi

10 setembro 2012

HOLLANDE ANUNCIA CORTES E IMPOSTO DE 75% PARA MAIS RICOS - Eduardo Febbro

O chefe de Estado anunciou neste domingo uma "agenda para recuperação" cujo eixo central são gigantescos cortes orçamentários e o aumento dos impostos que, em sua maioria, recairá sobre as empresas e as economias dos mais ricos. O contrato proposto é ambicioso. Hollande fixou um plano de um ano para “dar a volta” na curva negativa do desemprego. Os socialistas enfrentam um tipo de histeria selvagem da mídia. E o homem mais rico da França, Bernard Arnault, pediu "exílio fiscal" na Bélgica. O artigo é de Eduardo Febbro, direto de Paris.


Paris - Chegou a hora de pagar a conta dolorosa, quando as ilusões suscitadas na eleição do socialista François Hollande para a presidência da República em maio passado começavam a fazer ondas sem volume. O chefe de Estado anunciou neste domingo uma "agenda para recuperação" cujo eixo central é composto por gigantescos cortes orçamentários e o aumento dos impostos que, em sua maioria, recairá sobre as empresas e as economias dos mais ricos. 

Trata-se, segundo o próprio Hollande admitiu, do "maior esforço econômico dos últimos 30 anos". O dirigente socialista detalhou que o Estado precisava de 30 bilhões de euros a mais para fechar as contas do ano que vem. Desses 30 bilhões, 20 serão arrecadados via um aumento de impostos compartilhado entre os cidadãos e as empresas e outros 10 bilhões virão de cortes de gastos em quase todos os ministérios. A soma equivale a 1,5% da riqueza nacional. 

O presidente atravessa um momento delicado: as pesquisas de opinião lhe são adversas – tem a confiança de menos da metade dos cidadãos –, seu próprio campo político não esconde o desconforto perante a aparente imobilidade, a esquerda radical ameaça com o veto de passagens decisivas do texto do projeto e a mídia carrega a crítica contra Hollande, como se ele estivesse no poder há 3 anos. São apenas quatro meses, mas as manchetes dos grandes jornais e semanários refletem uma voracidade indecente : "E se Sarkozy tinha razão ?", pergunta-se a manchete principal do semanário conservador Le Point, enquanto o progressista Libération também se perguntava : "Sarkozy, estás aí ?".

A França ficou tão intoxicada pelo sarkozysmo, por sua estratégia invasora, por sua bateria de anúncios e medidas poucas vezes levadas à prática que, na semana passada, o primeiro ministro francês, Jean Marc Ayrault, disse aos jornalistas que era preciso que eles se « desintoxicassem ». O Executivo está sob pressão da imprensa, da impaciência da sociedade, dos efeitos permanentes da crise, do desemprego e das ilusões derivadas de uma mudança que tarda e que a eleição de Hollande fez nascer no eleitorado. Mas o rigor das contas e o exercício do poder impõem limites aos sonhos. Rigoroso e muito sólido em seus argumentos, François Hollande esclareceu neste domingo que, em substância, não mudou sua posição: os ricos pagarão mais. 

O chefe de Estado interpelou os ricos para que "demonstrem patriotismo" e, na mesma linha, confirmou que o governo implementará uma das promessas da campanha eleitoral que foi decisiva para a sua eleição : o imposto de 75% aplicável a quem tem renda superior a um milhão de euros. « Os que têm mais terão de pagar mais », disse, quando deixou claro que os aumentos de impostos nao se aplicariam nem de forma "linear" nem "indiscriminada". 

O pacotaço apresentado pelo Chefe de Estado supõe o fim dos privilégios fiscais exorbitantes que o ex-presidente Nicolas Sarkozy tinha concedido aos mais abastados. Quando Hollande anunciou na campanha a taxação de 75% sobre a renda daqueles que ganham mais de um milhão de euros, os grandes atletas, os cantores e os atores botaram a boca no trombone. Foram os inimigos mais acirrados dessa tributação e, hoje, serão os primeiros a pagá-la. No total, com as duas taxações, de 75% e 45%, haverá algo como 3 mil pessoas que voltarão a contribuir com o Estado. Mesmo assim, o presidente deixou claro que os ganhos de capital serão taxados com o mesmo índice que o salário do trabalhador, ou seja, entre 19% e 24%. 

Hollande disse que, assim como se passa no resto da Europa, a França tem uma "batalha contra o desemprego e contra a dívida. E assim como na Europa, necessitamos de disciplina e crescimento". Na mesma linha dessa declaração, Hollande anunciou que o Estado criará 100 mil novos postos de trabalho, num mercado golpeado como nunca pelo desemprego. As estatísticas publicadas há uma semana mostram um quadro de 3 milhões de desempregados. 

O presidente francês propôs à sociedade um contrato temporário para levar o país adiante: “Peço dois anos para solucionar os problemas da competitividade, do emprego e das contas públicas”. Do ponto de vista concreto, a mudança demorará a se formar. O presidente anunciou que as reformas iriam acelerar, mas assinalou: “não posso fazer em quatro meses o que o meu antecessor não fez em cinco anos”.

O contrato proposto é ambicioso. Hollande fixou um plano de um ano para “dar a volta” na curva negativa do desemprego. É legítimo reconhecer que os socialistas enfrentam um tipo de histeria selvagem da mídia. Qualquer pessoa que chegasse a França hoje e lesse os jornais e revistas, de esquerda ou de direita, teria a impressão de que chega a um país em guerra e em plena débâcle. “Pedi uma presidência exemplar, simples, próxima do povo e, ao mesmo tempo, estou a favor de uma presidência de ação e de movimento”, disse na televisão, dirigindo-se aos que o acusavam de incompetência, ambivalência e imobilismo. 

Os anúncios deste domingo são fortes. A pancada fiscal sobre as caixas fortes dos ricos confortará uma sociedade abalada pela decisão de Bernard Arnault, o homem mais rico da França e presidente do grupo LVH, de pedir a nacionalidade belga. Seu gesto foi interpretado como um exílio fiscal – visando a pagar menos impostos – disfarçado. Bernard Arnault deixou claro que não era por isso, que seguiria pagando seus impostos na França. Mas ninguém acreditou nele. Arnault tinha sido um militante aguerrido contra a tributação de 75% sobre os rendimentos superiores a um milhão de euros. 

Nos últimos dias ele deu um presente de ouro a Hollande: preparou-lhe o terreno para que o aumento de impostos sobre grande parte dos milionários se tornasse inobjetável.

* Tradução: Katarina Peixoto

Extraído do sítio Carta Maior

09 agosto 2012

CRISE MUNDIAL COMPLETA 5 ANOS E CONTINUA SEM SOLUÇÃO, DIZ JORNAL FRANCÊS

Jornais franceses analisam o efeito cascata dos "subprimes" do mercado imobiliário na crise mundial. Flickr/ ILPeoplesAction

O aniversário de cinco anos da crise financeira mundial domina a manchete do principal diário econômico francês, o Les Echos, que dedica extensa reportagem para rememorar os fatos e analisar os efeitos provocados pelos chamados "subprimes", os títulos de crédito imobiliário que estremeceram as bases do sistema bancário e abalaram as economias mais poderosas do mundo.

Em 9 de agosto de 2007, lembra o Les Echos, o banco francês BNP Paribas suspendeu a valorização de três de seus fundos vinculados aos subprimes americanos, desencadeando uma crise que ainda não acabou. A data, segundo o jornal, marca talvez o fim de um período em que o capitalismo financeiro funcionou livremente, sem se autoregular.

O poder dos Estados Unidos, no epicentro da maior tormenta econômica mundial depois da depressão dos anos 30, enfraqueceu, constata o Les Echos e na Europa, o futuro do euro ficou ameçada com o problema da dívida soberana dos estados. O jornal lembra ainda que a crise na zona do euro derrubou vários governantes, como Gordon Brown, na Grã Bretanha, Silvio Berlusconi na Itália e Nicolas Sarkozy, na França.

O ex-presidente Sarkozy está na origem da manchete do Aujourd' hui en France. O jornal repercute a polêmica lançada pelo ex-presidente que emitiu ontem um comunicado criticando na terça-feira o suposto imobilismo da política da França sobre a Síria. Em entrevista ao Aujourd'hui en France, o chanceler socialista Laurent Fabius disse que esperava outra postura do ex-presidente e que a Síria, com seu arsenal de armas químicas, não é a Líbia. Ele lembrou ainda que Sarkozy recebeu o presidente Bashar Al-Assad, em Paris, 4 anos atrás.

O Le Figaro traz em capa o alerta do Banco da França de que o país poderá entrar em recessão diante da previsão de queda de 0,1 do PIB francês no terceiro trimestre do ano.

O Libération afirma em sua reportagem principal que o governo francês ainda estuda o congelamento nos preços dos combustíveis que estão em alta desde o início de julho. Apesar de ser uma das promessas do então candidato François Hollande, o ministério da Economia avalia que o nível de alerta ainda não foi atingido.

Extraído do sítio RFI

11 junho 2012

ESQUERDA TEM MAIORIA EM PRIMEIRO TURNO DAS ELEIÇÕES LEGISLATIVAS FRANCESAS



Comparecimento às urnas nas eleições legislativas na França foi menor do que no último pleito. Esquerda saiu vitoriosa neste primeiro turno. Resultado final garantirá a Hollande apoio para governar.

Segundo estimativas na noite deste domingo (10/06), os partidos de esquerda que sustentam François Hollande (o Partido Socialista, ao qual pertence o presidente, o Partido Verde e a Frente de Esquerda) alçancaram um total de 47% dos votos nas eleições legislativas francesas. A conservadora UMP, do ex-presidente Nicolas Sarkozy, ficou com 35%. O partido populista de extrema direita Frente Nacional recebeu cerca de 14% dos votos.

O comparecimento às urnas foi de 60% dos votantes – um percentual menor que em 2007. Tradicionalmente, as eleições legislativas atraem no país menos eleitores que as presidenciais. Cerca de 45 milhões de franceses foram às urnas para eleger os 577 deputados da Assembleia Nacional.

O resultado final das eleições legislativas só será definitivo, contudo, depois do segundo turno do pleito, que acontece em uma semana. Para serem eleitos já no primeiro turno, os candidatos precisam de uma maioria absoluta – algo que poucos deles conseguem.

A troca de poder na Assembleia Nacional dará à esquerda francesa poderes para definir a política do país. Na segunda câmera do Parlamento (Senado), ela já conta desde o ano passado com esta maioria.

Alemanha observa

Hollande não apoia Merkel em sua política de austeridade como seu antecessor
Quando um presidente não conta no Parlamento com uma maioria, os franceses definem a situação como "governo de coabitação". Isso seria para Hollande extremamente difícil. Com uma maioria de direita conservadora, ele teria que frear seus planos de reformas. Mas as pesquisas de opinião apontam para uma vitória certa de esquerda no segundo turno, não creditando ao UMP de Nicolas Sarkozy nenhuma chance de sucesso nas urnas. Até agora, o partido conservador do ex-presidente compunha uma maioria na Assembleia Nacional.

As eleições na França são também observadas com atenção na Alemanha. Depois que a premiê Angela Merkel perdeu, com a saída de Sarkozy do poder, seu mais fiel aliado na Europa, ela ficou praticamente sozinha na defesa de sua política linha-dura de austeridade.

Se a política de Hollande for corfirmada com uma maioria no Parlamento francês no segundo turno, o socialista terá maior aval internacional. Dentro da Alemanha, Merkel enfrenta também a resistência da oposição: com uma severidade até então nunca demonstrada, os social-democratas alemães criticam a política europeia de austeridade da premiê e defendem, como Hollande, um pacote de incentivo ao crescimento econômico com maiores investimentos por parte do Estado.


Extraído do sítio Deutsche Welle

08 junho 2012

PARIS QUER "RESPOSTAS URGENTES" À CRISE ANTES DE FALAR DE UNIÃO POLÍTICA DA EUROPA

Ian Langsdon, EPA
A França pretende que sejam dadas “respostas urgentes” à crise europeia e só depois aceita discutir o aprofundamento da união política. Respondendo às posições de Angela Merkel sobre a matéria, o ministro francês dos Assuntos Europeus disse que “a prioridade não é colocar em marcha uma nova reforma institucional”, um ano e meio depois da entrada em vigor do tratado de Lisboa. A chanceler Alemã tinha defendido na véspera um fortalecimento gradual da união política e fiscal no seio da União Europeia como sendo o melhor caminho para ultrapassar a crise.

“A França é a favor de um aprofundamento” da Europa política, disse o ministro Bernard Cazeneuve, mas “a reforma institucional não pode vir antes das respostas urgentes que são exigidas pela crise”.

O reforço da integração política na Europa “não pode ser encarado sem a adesão dos povos, e essa adesão será impossível enquanto a União Europeia não demonstrado a sua capacidade de encontrar respostas para a crise”, acrescentou o ministro de François Hollande.


Europa uma vez mais dividida na resposta à crise

São cada vez mais os parceiros europeus da Alemanha que pedem ações imediatas para apagar o incendio da crise da dívida, mas nas declarações de quinta-feira, Angela Merkel preferiu focar-se no longo prazo, apelando a uma Europa política reforçada e dando como exemplo uma eleição do Presidente da Comissão Europeia por sufrágio universal. 

« Precisamos de mais Europa (…) de uma união orçamental (…) e temos necessidade, antes de mais, de uma união política. Passo a passo devemos abandonar as competências à Europa” declarou a chanceler alemã, que disse também defender uma União a duas velocidades se alguns países se recusarem a seguir nesta direção. 

Eurobonds: Sim? Não? Quando?

Um dos principais pontos de discórdia entre Paris e Berlim continua a centrar-se na questão das obrigações de dívida europeias ou eurobonds. O ministro francês dos Assuntos Europeus disse que as negociações sobre a mutualização da dívida prosseguem, no sentido de elaborar “um roteiro, ou seja um plano, acompanhado de um calendário, que nos permita rer uma perspetiva clara”, na cimeira europeia que se realiza a 28-29 deste mês

“Hoje em dia, a discussão entre a França e a Alemanha já não é tanto sobre se deve haver obrigações europeias, mas sim qual o momento em que estas devem ser tornadas realidade”, explicou Cazenouve.

“Segundo a França, os eurobonds devem ser uma parte da solução para ultrapassar a crise, e podem também servir de catalisador a um processo de integração das instituições. Segundo a Alemanha, eles só podem vir a existir quando a crise já tiver sido ultrapassada no plano financeiro e orçamental e algumas etapas já tiverem sido cumpridas no plano institucional”, acrescentou. 

Alemanha diz que só empresta o seu "cartão de crédito" a troco de federalismo

Este mesmo problema tinha já sido resumido noutras palavras pelo próprio presidente francês na cimeira europeia informal de 23 de maio:

“A opinião alemã é de considerar as obrigações europeias como um ponto de chegada, isto num cenário otimista, enquanto que, para a nós, os eurobonds são um ponto de partida », disse então François Hollande. 

Já a posição de Berlim sobre os eurobonds foi resumida nas declarações recentes do presidente do Banco Central da Alemanha Jens Weidmann:

“Ninguém confia a outra pessoa o seu cartão de crédito se não tiver possibilidades de controlar as despesas que o outro fará. A mutualização da dívida é uma das faces de uma moeda que na outra face tem o federalismo”, disse o presidente do Bundesbank.


Extraído do sítio RTP

11 maio 2012

O VENTO MUDOU - José Manuel Pureza

Há uma inequívoca derrotada nas eleições francesas e gregas: a troika e a sua receita estúpida e incompetente para a Europa.



Não, não é inevitável. Foi essa a mensagem dada à Europa pelos povos de França e da Grécia. Cada um a seu jeito, porque cada um está em sua condição. Não é inevitável a desconstrução da Europa por um fundamentalismo recessivo, disse com clareza o povo francês. Não é inevitável a punição das vidas das pessoas e a humilhação dos povos como redenção da cupidez do sistema financeiro, disseram com clareza os gregos.

A política europeia virou? Não. Mas só o sectarismo mais cego se recusará a reconhecer que as condições do combate político em escala europeia e em escala nacional mudaram no domingo passado. Há uma inequívoca derrotada nas eleições francesas e gregas: a troika e a sua receita estúpida e incompetente para a Europa. O campo dos talibãs da austeridade ficou fragilizado. E se é certo que do novo presidente francês não se ouve a palavra rutura, não é menos certo que no centro do seu compromisso eleitoral estava a renegociação do pacto orçamental imposto por Angela Merkel. Esse vai ser o teste decisivo à intensidade da mudança: ou a social-democracia hoje personificada em François Hollande se queda por uma adenda ao neoliberalismo - que o aceita e não quer mais do que "humanizá-lo" - ou tem a coragem de lhe contrapor com clareza e coragem outra estratégia, outro horizonte e outra cultura económica e política.

Essa é também a escolha que os socialistas portugueses terão que fazer. Que a direção do Partido Socialista tenha alinhado com esta direita na aprovação pacoviamente precoce do pacto orçamental ditado de Berlim - para mais, votando a favor -, retira-lhe todo o crédito que um sábio adiamento da decisão confere agora a Hollande e coloca-a em contradição com a vontade expressa pelo SPD de votar contra o dito pacto. O PASOK, na Grécia, fez o mesmo que Seguro. Os resultados estão á vista. A interpelação de Mário Soares ao seu partido tem, neste contexto, um sentido claro: a radicalidade da crise não se compadece com adendas suavizadoras da austeridade, é precisa outra opção de fundo e ela não se fará sem rutura com o memorando de entendimento com a troika. Não por palavras mas em atos concretos.

O dogma da ilegalização de tudo quanto não seja neoliberalismo-custe-o-que-custar sofreu um sério revés em Paris e Atenas. Cabe agora a todos/as os/as que aspiram a uma mudança efetiva transformar essa derrota do adversário numa vitória própria. Para isso é preciso programa, é preciso firmeza sem transigências no essencial e maleabilidade lúcida no acessório, é preciso ouvir as pessoas e garantir-lhes em concreto a dignidade que lhes está a ser roubada.



A lição dos resultados eleitorais na Grécia é essa mesma. Claro que, aflitos, os amigos do centrão sentenciam o caos causado pela vitória dos "radicais". Como se radicais não tivessem sido as políticas que governaram a Grécia nos últimos dois anos pela mão da troika e do centrão com ela alinhado, como se caos não fosse uma dívida que cresceu para os 180% do PIB depois da intervenção externa, um desemprego que vai nos 22% e um horizonte de pelo menos mais dez anos de agravamento desta descida aos infernos. Não, o que incomoda verdadeiramente os amigos do centrão é que uma esquerda europeísta e por isso mesmo frontalmente contrária à destruição recessiva da Europa passe a ter um reconhecimento social amplo e possa ser vista como precedente de conteúdos de governação alternativos para a União.

Pode estar em germinação uma Europa nova. As escolhas que agora fizermos decidirão o sentido e a densidade dessa novidade. Não, não há inevitabilidades. Tudo está sempre em aberto.

* José Manuel Pureza é dirigente do Bloco de Esquerda, professor universitário.

Extraído do sítio Esquerda.net

10 maio 2012

COM FIM DE IMUNIDADE, SARKOZY PODERÁ ENFRENTAR JUSTIÇA FRANCESA

O presidente francês, Nicolas Sarkozy, em cerimônia de comemoração do fim da Segunda Guerra Mundial. REUTERS/Philippe Wojazer


Após deixar a presidência da França, no próximo dia 15 de maio, Nicolas Sarkozy poderá ter de enfrentar vários imbróglios judiciários. A sua imunidade de Chefe de Estado termina no dia 15 de junho e, a partir da data, o então ex-presidente poderá ser convocado como testemunha e até como réu em casos relacionados a financiamentos ilícitos de campanha e corrupção.

As investigações do caso Karachi são um dos principais problemas que Nicolas Sarkozy poderá enfrentar com a Justiça francesa. O juiz responsável pelo caso, Renaud Van Ruymbeke, aguarda por mais detalhes sobre um esquema de corrupção na venda de fragatas e submarinos franceses para o Paquistão nos anos 90. Na época, Sarkozy era ministro do Planejamento do governo de Edouard Balladur, sob a presidência de François Mitterrand.Possivelmente, avalia o jornal Le Monde, Sarkozy será intimiado a depor.

Outro assunto jurídico constrangedor para o futuro ex-presidente envolve suspeitas de financiamento ilegal para a sua campanha presidencial de 2007. Na ocasião, o tesoureiro da campanha, Eric Woerth, teria recebido envelopes com doações não declaradas de Liliane Bettencourt, herdeira do grupo L’Oréal e uma das maiores fortunas da Europa. Além de usar Woerth como intermediário, Sarkozy também é suspeito de ter ido receber pessoalmente as doações em espécie na casa da bilionária.

Ainda sobre recursos opacos de campanha, a Justiça francesa também poderá se interessar pelas denúncias do site Mediapart que publicou um documento assinado pelo ex-chefe dos serviços de informação exterior da Líbia, Mussa Kussa. O documento descreve um acordo para apoiar financeiramente a campanha eleitoral do então candiadto Sarkozy. Investigações preliminares encontraram evidências de grande proximidade entre o empresário líbio Ziad Takieddine e colaboradores próximos de Sarkozy como Claude Guéant (Ministro do Interior), Jean-François Copé (secretário-geral do UMP) e Brice Hortefeux (ex-ministro da Imigração).

Em um depoimento no começo de abril deste ano, Takieddine declarou que tinha "boas relações com o coronel Kadafi" e que mediou a aproximação diplomática da França com a Líbia. Ele também disse que organizou viagens de ministros franceses para encontrar com Muammar Kadafi. Essas denúncias também estão sob a responsabilidade do juiz Renaud Van Ruymbeke.

Em relação às acusações do site Mediapart, Sarkozy decidiu abrir um processo por calúnia e difamação contra o site de jornalismo independente. O presidente francês nega ter recebido dinheiro líbio para a sua campanha e diz que as acusações são “grotescas”.


Extraído do sítio RFI

09 maio 2012

A ENERGIA NUCLEAR NO CENTRO DO DEBATE PRESIDENCIAL FRANCÊS - Rui Curado Silva

A energia nuclear foi um dos pontos principais de debate e do programa dos candidatos à eleição presidencial francesa. No país que mais depende desta forma de energia, a ampla variedade de posições sobre este tema produziu um debate intenso quer entre esquerda e direita, mas também entre os próprios candidatos de esquerda.

Foto:  Philippe Leroyer/Flickr


O programa de Nicolas Sarkozy é claro na afirmação do nuclear como uma opção estratégica fundamental para contornar a dependência das energias fósseis. A posição de Marine Le Pen, embora muito vaga, defende a continuidade do nuclear para garantir a independência nacional da França no setor energético, embora tenha admitido que a energia nuclear é perigosa e que a longo prazo deva ser equacionada a sua substituição.

Eva Joly, dos Verdes, apresentou o único programa abertamente pela extinção da produção de energia nuclear. Aliás, foi sob a pressão de um acordo assinado entre Verdes e o Partido Socialista Francês que o programa de François Hollande passou a integrar medidas concretas para a redução da energia nuclear a curto e a médio prazo. Em particular, o encerramento da central de Fessenheim nos próximos cinco anos. A central de Fessenheim, localizada na Alsácia perto de uma falha sísmica, é a mais velha central francesa, em atividade há 35 anos, e também a que comporta maiores riscos de ocorrência de um acidente grave. Outra medida importante é a redução a 50% da energia nuclear na produção de energia elétrica até 2025. O valor atual é de 75%, sendo o mais elevado do mundo. No entanto, Hollande defende a continuidade do programa de construção do novo reator EPR (European Pressurised Reactor/Evolutionary Power Reactor).

Jean-Luc Mélenchon defende uma saída progressiva do nuclear e propôs a realização de um referendo sobre a questão. Entre os seus apoiantes diretos, o Partido Comunista Francês defende a continuidade do programa nuclear, enquanto o Partido de Esquerda é contra.

Entre declarações confusas e pouco claras sobre o assunto, o candidato Philippe Poutou do NPA admitiu a falta de unanimidade dentro do seu partido sobre a questão da energia nuclear, embora o seu programa proponha a saída da energia nuclear dentro de 10 anos.

A candidata da Lutte Ouvrière, Nathalie Arthaud mostrou-se favorável à energia nuclear no quadro de uma gestão pública.

No caso de vitória de Sarkozy, não se espera nenhuma alteração ao programa nuclear francês nos próximos cinco anos. No caso de vitória de Hollande, pelo menos existe a esperança de uma inflexão das prioridades energéticas do país e do encerramento da central de Fessenheim, no entanto nada de radicalmente diferente ocorrerá certamente no panorama energético francês.

Rui Curado Silva - Investigador no Departamento de Física da Universidade de Coimbra.


Extraído do sítio Esquerda.net

07 maio 2012

EUROPEUS ABREM OS BRAÇOS PARA FRANÇOIS HOLLANDE

François Hollande se prepara para encontrar os líderes da comunidade internacional. REUTERS/Regis Duvignau


Depois da vitória de François Hollande no segundo turno das eleições presidenciais francesas, diversas vozes reagiram na Europa, parabenizando o socialista e o convidando para encontros estratégicos. Vários líderes do velho continente se disseram dispostos a trabalhar com o novo presidente francês para a retomada do crescimento europeu. 

A chanceler alemã Angela Merkel foi a primeira a telefonar para François Hollande para felicitá-lo e convidá-lo para ir a Berlim. Os dois dirigentes tiveram uma primeira conversa e combinaram de trabalhar juntos em uma relação franco-alemã forte, amistosa e ao serviço da Europa.

A Alemanha será a primeira viagem de François Hollande ao exterior depois de sua posse, prevista para o dia 15 de maio, data do fim do mandato de Nicolas Sarkozy.

O primeiro-ministro David Cameron também conversou com Hollande por telefone, para felicitá-lo pela vitória.

Ainda na Europa, o premiê português Pedro Passos Coelho, que dirige um governo de centro-direita, enviou os votos de sucesso a Hollande pelo mandato que o povo francês acaba de lhe confiar. O chefe de governo acentuou sua vontade de trabalhar com Hollande no plano bilateral e no plano europeu.

O presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, também felicitou calorosamente François Hollande, enviando um recado sem ambiguidades: "Temos um objetivo comum: relançar a economia europeia para gerar um crescimento durável". Barroso afirmou que conta com as convicções e o engajamento pessoal de Hollande para avançar a integração europeia.


Extraído do sítio RFI

SOCIALISTA FRANÇOIS HOLLANDE É O NOVO PRESIDENTE DA FRANÇA



Vitória de Hollande deve repercutir na estratégia europeia de combate à crise da dívida. Sarkozy reconhece responsabilidade pela derrota. Ministro do Exterior da Alemanha saúda presidente eleito.

François Hollande foi eleito o primeiro presidente socialista da França após quase duas décadas. Ele derrotou o candidato à reeleição, Nicolas Sarkozy, no segundo turno das presidenciais francesas realizado neste domingo (06/05). Com quase a totalidade das urnas apuradas no final da noite, Hollande vencia com quase 52% dos votos contra pouco mais de 48% de Sarkozy.

"Eu estou orgulhoso por trazer a esperança de volta. Muitas pessoas estavam esperando por este momento há anos. A França escolheu a mudança", disse Hollande no discurso da vitória em Paris. Com a eleição, Hollande, de 57 anos, torna-se o segundo presidente socialista da França desde 1958. Antes, somente François Mitterand esteve à frente do governo francês no período.

Nicolas Sarkozy assumiu a responsabilidade pelo resultado das eleições. Ele pediu para que seus correligionários se mantenham unidos e disse que não vai liderar a direita no parlamento francês. Sarkozy disse que telefonou para Hollande e desejou boa sorte ao novo presidente eleito.

O ministro do Exterior alemão, Guido Westerwelle, saudou a vitória de Hollande, afirmando que não tem dúvidas que os dois países vão continuar cooperando e vão "superar seus desafios comuns". O líder da oposição alemã, Sigmar Gabriel, do SPD, também saudou a vitória de Hollande, afirmando que é "de crucial importância para a Europa".

O que deve mudar

A expectativa é de que o resultado das eleições tenha impacto direto na maneira como o país vai enfrentar a crise da dívida na zona do euro daqui para frente. O novo presidente também deve determinar quanto tempo os soldados franceses continuarão no Afeganistão e qual será o novo posicionamento militar e diplomático do país nos conflitos mundiais.

A proposta de renegociação do recente pacto fiscal da União Européia é considerado um dos carros-chefes da proposta de Hollande para a zona do euro. O novo líder francês já exigiu da Alemanha "mais solidariedade". Internamente, Hollande ganhou pontos com a promessa de criar 60 mil novos postos de trabalho para professores, revisar em parte a reforma previdenciária iniciada por Sarkozy e adotar um imposto de renda de 75% para milionários.

Sarkozy reconhece culpa na derrota
François Hollande nunca ocupou um cargo ministerial, fez sua carreira política trabalhando para o partido. Em 1988, ao mesmo tempo que Sarkozy, o socialista ingressou na Assembleia Nacional. O programa eleitoral de Hollande, intitulado "60 compromissos com a França", é considerado vago.

Crise que derruba

Nicolas Sarkozy amargura ser o 11º líder europeu a ser retirado do poder pela crise econômica e o segundo presidente da história da França a não conseguir ser reeleito. Na reta final de campanha, o conservador lutava para conquistar votos da extrema-direita e dos centristas.

Hollande, por sua vez, teve o apoio quase unânime de outros líderes de esquerda e foi surpreendido com apoio de última hora do líder centrista François Bayron, que negou aliança a Sarkozy. Bayron criticou a retórica de campanha de Sarkozy, considerando-a muito violenta. Críticos sempre salientaram o "estilo antipático" de Sarkozy, sua alegada proximidade política com os ricos e a inabilidade para reverter a lógica de favorecimento das maiores fortunas francesa em detrimento de um índice de desemprego de quase dois dígitos.

O socialista conquistou a opinião pública com suas críticas em relação às políticas de austeridade econômica que estão sendo implementadas não somente na França, mas em toda a Europa. Hollande também havia derrotado Sarkozy no primeiro turno, no dia 22 de abril, por meio milhão de votos de diferença. Pela primeira vez, um adversário conseguiu mais votos do que o presidente em exercício ainda no primeiro turno das eleições.


Extraído do sítio Deutsche Welle

SOCIALISTA É ELEITO PRESIDENTE DA FRANÇA

Com Hollande, os socialistas voltam ao poder após 31 anos
O socialista François Hollande conquistou uma clara vitória nas eleições presidenciais da França neste domingo, com estimados 52% dos votos.

Após o fechamento das urnas, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, disse que telefonou a Hollande para desejar-lhe "boa sorte" no cargo.

Analistas dizem que a votação tem amplas implicações para a zona do euro. Hollande prometeu reformular o acordo sobre a dívida pública nos países membros.

Pouco depois do fechamento das urnas às 20h (15h de Brasília), meios de comunicação franceses publicaram projeções baseadas em resultados parciais que davam ao socialista uma vantagem de quase quatro pontos.

Partidários de Hollande se reuniram na Place de la Bastille em Paris - um ponto de encontro tradicional da esquerda - para comemorar.

Analistas dizem que Hollande foi beneficiado pelos problemas econômicos da França e a impopularidade do presidente Sarkozy.

O candidato socialista prometeu aumentar os impostos sobre as grandes corporações e as pessoas que ganham mais de 1 milhão de euros por ano.

Ele quer aumentar o salário mínimo, contratar 60 mil professores e diminuir a idade de aposentadoria de 62 para 60 anos para alguns trabalhadores.

Hollande também pediu a renegociação de um tratado europeu duramente negociado sobre disciplina orçamental, defendido pelo chanceler alemã Angela Merkel e Sarkozy.

Sarkozy

Em discurso neste domingo, Sarkozy disse a partidários que "François Hollande é o presidente da França e ele deve ser respeitado".

O presidente disse que estava "assumindo a responsabilidade pela derrota".

Insinuando sobre o seu futuro, ele disse: "Meu lugar não será mais o mesmo. Minha participação na vida do meu país agora vai ser diferente.".

Durante a campanha, ele disse que iria deixar a política se perdesse a eleição.

Sarkozy, que está no cargo desde 2007, havia prometido reduzir o déficit orçamentário da França por meio de cortes de gastos.

É apenas a segunda vez que um presidente em exercício não é capaz de ganhar a reeleição desde o início da Quinta República da França, em 1958.

O último foi Valery Giscard d'Estaing, que perdeu para o socialista François Mitterrand em 1981. Mitterrand teve dois mandatos no cargo até 1995.

Uma eleição parlamentar está marcada para junho na França. A correspondente da BBC em Paris, Katya Adler, diz que, por causa da derrota de Sarkozy, a extrema direita francesa espera conquistar amplo terreno político no pleito parlamentar.


Extraído do sítio BBC Brasil

03 maio 2012

FRANÇA, GRÉCIA, EGITO: TRÊS ELEIÇÕES QUE PODEM MUDAR ÂNIMOS NO MUNDO - Antonio Martins

Paris, abril: ativistas anti-AIDS protestam diante do comitê eleitoral de Sarkozy, que impõe políticas de cortes de direitos e serviços públicos
A oligarquia financeira derrapará em Paris? Nazistas chegarão ao Parlamento grego? Um ex-ministro de Mubarak governará no Cairo?

Na última década, uma nova cultura política, que brotou de grandes mobilizações de rua e dos Fóruns Sociais Mundiais, relativizou a importância das eleições. Ela mostrou que política é algo que se pratica todos os dias, por meio de atos e posturas — e não apenas uma vontade que se delega, por meio do voto, a cada dois ou quatro anos. Ainda assim, as eleições continuam a ser muito importantes. Basta ver o que estará em jogo, nos próximos dias e semanas, em três países que se tornaram emblemáticos das possibilidades e impasses contemporâneos: França, Grécia e Egito.

A disputa de maior relevância (e talvez a de prognóstico mais favorável) é a da França. O segundo turno das eleições presidenciais será decidido no próximo domingo, 6/5. Logo a seguir, em 10 e 17 junho, virá a renovação completa do Parlamento — o “terceiro turno”, na opinião do historiador Luiz Felipe de Alencastro, que vive em Paris.

Em condições normais, seria um confronto morno: ele opõe o presidente atual, Nicolas Sarkozy, de centro-direita, a François Hollande, de um Partido Socialista (PS) que abandonou há décadas os últimos traços de rebeldia anti-capitalista. I’m not dangerous, “não sou perigoso”, fez questão de declarar o próprio candidato, numa entrevista recente à revista inglesa The Economist. Referia-se ao fato de não propor nacionalização de setores importantes da economia, como as feitas por François Mitterrand, o único membro do PS e da esquerda a presidir a França no pós-II Guerra. Porém, nas circunstâncias de recessão prolongada e crise política que marcam a Europa, mesmo uma mudança muito menos brusca pode ter vastas consequências.A vitória de Hollande é provável. A quatro dias das eleições, ele tem, em todas as pesquisas de intenção de voto, entre seis e doze pontos de vantagem sobre Sarkozy — uma margem que só um fato totalmente inesperado poderá desfazer. O que inquieta os conservadores são alguns pontos do programa do candidato socialista. Ele quer elevar a 75% a alíquota de imposto de renda sobre os salários acima de 1 milhão de euros anuais. E pretende contratar 60 mil novos professores, para restaurar o combalido sistema de ensino, depredado por anos de políticas de desmonte do estado de bem-estar social.

Tais propostas, reconhece a mesma The Economist, têm potencial para quebrar eixo Berlim-Paris, fundamental para manter as atuais políticas, de regressão dos serviços públicos, adotadas na Europa. Altamente impopulares em todos os países, elas têm sido impostas graças ao controle de instituições como o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia — algo possível devido à forte articulação entre Sarkozy e a chanceler alemã, Angela Merkel. Sem um parceiro em Paris, acrescenta The Economist, Merkel perderá inclusive condições de justificar, perante os alemães, a continuidade das políticas de corte de direitos em seu próprio país. A troco de quê eles fariam tal sacrifício, se mesmo seus vizinhos o rejeitam? Por tudo isso, a revista declarou seu apoio a Sarkozy e dedicou a capa desta semana ao candidato socialista, chamando-o de “o perigoso Monsieur Hollande”…

Outros fatores acentuam a importância das eleições francesas. No “terceiro turno”, intervirão, além de conservadores e socialistas, mais forças. Por um lado, a Frente Nacional (FN), de extrema-direita, cuja candidata à Presidência, Marine Le Pen, alcançou 18,5% dos votos, no primeiro turno. Confiante em suas perspectivas futuras, ela declarou em 1º de Maio que votará em branco, no domingo. Muitos analistas julgam que torce pela vitória de Hollande, esperando que o enfraquecimento da direita tradicional abra caminho para que a FN domine o campo dos que temem as mudanças, a esquerda e os estrangeiros.

Menos bem-sucedido no primeiro turno, o principal candidato à esquerda também não será carta fora do baralho. Jean-Luc Mélanchon alcançou 11% dos votos em abril, mas realizou os maiores comícios da campanha e restaurou a mobilização e orgulho do Partido de Esquerda (por quem concorreu) e Partido Comunista (que o apoiou). Seu apoio a Hollande, no segundo turno, é explícito. Mas nas eleições parlamentares, o setor à esquerda dos socialistas deverá apresentar candidaturas e propostas próprias. Se tiverem forte expressão no Parlamento, contribuirão para afastar ainda mais o provável governo socialista das atuais políticas europeias.

Símbolo de estabilidade até há poucos anos, a Europa tornou-se, desde a adoção dos planos de “austeridade”, em 2009, um continente intranquilo, conturbado e empobrecido. Até os cenários extremos tornaram-se possíveis, como se verá no post a seguir, sobre a Grécia. Por isso, as eleições são tão importantes — inclusive ou especialmente para quem vê política como algo que vai muito além delas…


Extraído do sítio Outras Palavras