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16 maio 2012

A REVISTA DEVE EXPLICAÇÕES À SOCIEDADE - Jilmar Tatto


Um dos méritos das investigações da Polícia Federal que desvendaram os tentáculos da organização criminosa do contraventor goiano Carlos Cachoeira é mostrar claramente o que já se sabia ou suspeitava: as relações íntimas da revista Veja com a arapongagem clandestina. Afora as inúmeras matérias inventadas – como as supostas ligações das Farcs com o PT –, a revista, desde 2003, especializou-se em utilizar gravações clandestinas com fins políticos, eleitorais e ideológicos. Em alguns casos, usou até supostos grampos sem áudio – como o que teria feito de conversa entre uma das principais fontes da revista, o senador Demóstenes Torres (ex-DEM) e um ministro do STF. A PF comprovou depois que o suposto grampo nunca existiu, mas os danos já estavam feitos. Criou-se uma grave instabilidade institucional, em 2008, e chamuscou-se a biografia de pessoas honradas.

Com o histórico do semanário e as interceptações telefônicas feitas ao longo das operações Vegas e Monte Carlo, da PF, fica evidente a necessidade de convocação do diretor da sucursal de Veja em Brasília, Policarpo Júnior, interlocutor assíduo de Cachoeira e outros integrantes de seu esquema criminoso. O jornalista, chamado pelos criminosos, em alguns momentos, como PJ, Poli ou Caneta, é testemunha-chave nos trabalhos da CPI Mista que procura ampliar as investigações da PF sobre as ligações de Cachoeira com agentes públicos e privados.

Uma das dúvidas refere-se aos limites das relações entre jornalista e fonte. Escutas telefônicas feitas pela PF na Operação Monte Carlo revelam a troca de duzentos telefonemas entre o contraventor e Policarpo, para a discussão de pautas favoráveis ao esquema do criminoso. Essas gravações exigem esclarecimentos do funcionário da Editora Abril, que edita a Veja. Não virá como réu, mas na condição de convocado. O fato de ser jornalista não o coloca acima dos interesses da sociedade, que exige transparência também da imprensa.

Além do mais, é preciso lembrar que Policarpo já testemunhou a favor de Cachoeira, em uma representação que envolvia o nome do bicheiro no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados, em janeiro de 2005. Na ocasião, Cachoeira acusava um parlamentar de tentar extorqui-lo, por causa das investigações da CPI da Loterj, da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Policarpo foi depôr a favor do bicheiro na Câmara dos Deputados, mas naquela época – ao contrário de hoje – ninguém questionou e afirmou que se tratava de uma “ameaça” à liberdade de imprensa. Por que, agora que se mostram vínculos obscuros entre ele e o bicheiro, haveria problema em ouvi-lo na CPI Mista? Ou será que outros meios de comunicação também teriam vínculos com a mesma organização criminosa?

Na semana passada, o depoimento, na CPI, do delegado federal Matheus Mela Rodrigues, coordenador da Operação Monte Carlo, jogou luzes sobre o caso e complicou a situação da revista, embora a cobertura da mídia diária tenha tentado salvar a pele da publicação dos Civita. Segundo o policial, Policarpo Junior tinha conhecimento da relação entre o bicheiro Carlinhos Cachoeira e o senador Demóstenes Torres. O depoimento contraria a versão de que o repórter e a publicação, assim como muitos eleitores, foram enganados pelo senador, alçado em suas páginas a “mosqueteiro da ética” e paladino da moralidade. Como lembra Carta Capital: “Veja não só não denunciou um parlamentar envolvido até o último fio de cabelo com um contraventor como o promoveu a ídolo da fatia conservadora do eleitorado brasileiro. Ao promover Torres, a revista manteve um meliante no Parlamento”.

A revista avançou o sinal em várias ocasiões e terá que se explicar. O delegado Rodrigues revelou também que as câmeras que filmaram os corredores do Hotel Naoum, em Brasília, para a reportagem “O poderoso chefão”, na qual Veja lança suspeitas sobre o encontros do ex-chefe da Casa Civil José Dirceu com integrantes do governo, não eram as do circuito interno. O delegado afirmou que as câmeras teriam sido trocadas a pretexto de levar as originais ao conserto. Em resumo: as gravações que serviram de base para a reportagem foram flagrantemente ilegais, o que configura invasão de privacidade, direito assegurado na Constituição brasileira.

Um debate que se faz necessário é sobre a liberdade de imprensa. O PT surgiu tendo como bandeira a liberdade de imprensa. Hoje, veículos que querem nos impingir a pecha de censores ou cerceadores da liberdade de imprensa, esquecem-se que, durante a ditadura militar (1964-85), apoiaram os golpistas que durante 21 anos usurparam o poder e vilipendiaram a democracia no Brasil.

Na Inglaterra, há sete jornalistas presos por terem usado grampos ilegais para fazer matérias que mancharam a honra alheia. O Parlamento inglês empreende uma investigação para apurar métodos criminosos das organizações do magnata das comunicações Rupert Murdoch. O objetivo é coibir essas práticas e fortalecer a liberdade de imprensa e a democracia. Em nenhum momento se questiona o Parlamento inglês por supostamente ameaçar os pilares da democracia. No Brasil, entretanto, o assunto parece tabu e os barões da mídia se colocam como os donos da liberdade de imprensa e verdadeiros arautos do que seria o verdadeiro interesse público.

Para a Veja, aparentemente, liberdade de imprensa resume-se ao que faz desde 2003, com ataques, mentiras e invenções contra o PT, movimentos sociais e setores progressistas. A revista agora ataca os blogs de esquerda por veicularem material em que o jornalismo marrom da editora Abril é desmascarado. A mesma revista que sempre condenou a proposta do PT de democratizar os meios de comunicação – incluindo a descentralização na distribuição de verbas publicitárias públicas e estatais – agora passou a atacar os blogs de esquerda e a internet. Isso porque, na semana passada, sofreu um “tuitaço” que a colocou pela terceira vez nos termos mais citados do Twitter mundial, com a hashtag #vejapodrenoar. A revista, agora, como nas ditaduras, prega uma “governança mundial” para a internet, já que se sente atacada na rede. Na realidade, deixa claro que faz um movimento de autodefesa diante da eventual convocação de Policarpo Junior.

Os trabalhos da CPI do Cachoeira poderão dar um basta a relações promiscuas entre alguns jornalistas brasileiros e criminosos. Liberdade de imprensa não é manter relações íntimas com o crime organizado e contraventores como Cachoeira.

Lamentavelmente, até o momento, parte da grande mídia tem ignorado as consequências perversas, para o jornalismo brasileiro, dos métodos operados por Veja e a quadrilha de Cachoeira para a fabricação de matérias. A democracia brasileira merece muito mais do que um jornalismo pautado por criminosos. E a sociedade espera os esclarecimentos necessários de quem usou expedientes obscuros, com ajuda do submundo do crime, para fazer “reportagens” para favorecer interesses políticos, econômicos e ideológicos.

Jilmar Tatto é deputado federal (PT-SP) e líder do partido na Câmara Federal.

Extraído do sítio Teoria e Debate

04 maio 2012

TREVAS AO MEIO-DIA - Mino Carta

Momento épico. Um daqueles atingidos pela Veja. E onde ficam os porões, caras-pálidas?
Por que a mídia nativa fecha-se em copas diante das relações entre Carlinhos Cachoeira e a revista Veja? O que a induz ao silêncio? O espírito de corpo? Não é o que acontece nos países onde o jornalismo não se confunde com o poder e em vez de servir a este serve ao seu público. Ali os órgãos midiáticos estão atentos aos deslizes deste ou daquele entre seus pares e não hesitam em denunciar a traição aos valores indispensáveis à prática do jornalismo. Trata-se de combater o mal para preservar a saúde de todos. Ou seja, a dignidade da profissão.

O Reino Unido é excelente e atualíssimo exemplo. Estabelecida com absoluta nitidez a diferença entre o sensacionalismo desvairado dos tabloides e o arraigado senso de responsabilidade da mídia tradicional, foi esta que precipitou a CPI habilitada a demolir o castelo britânico de Rupert Murdoch. Isto é, a revelar o comportamento da tropa murdoquiana com o mesmo empenho investigativo reservado à elucidação de qualquer gênero de crime. Não pode haver condão para figuras da laia do magnata midiático australiano e ele está sujeito à expulsão da ilha para o seu bunker nova-iorquino, declarado incapaz de gerir sua empresa.

O Brasil não é o Reino Unido, a gente sabe. A mídia britânica, aberta em leque, representa todas as correntes de pensamento. Aqui, terra dos herdeiros da casa-grande e da senzala, padecemos a presença maciça da mídia do pensamento único. Na hora em que vislumbram a chance, por mais remota, de algum risco, os senhores da casa-grande unem-se na mesma margem, de sorte a manter seu reduto intocado. Nada de mudanças, e que o deus da marcha da família nos abençoe. A corporação é o próprio poder, de sorte a entender liberdade de imprensa como a sua liberdade de divulgar o que bem lhe aprouver. A distorcer, a inventar, a omitir, a mentir. Neste enredo vale acentuar o desempenho da revista Veja. De puríssima marca murdoquiana.

Não que os demais não mandem às favas os princípios mais elementares do jornalismo quando lhes convém. Neste momento, haja vista, omitem a parceria Cachoeira-Policarpo Jr., diretor da sucursal de Veja em Brasília e autor de algumas das mais fantasmagóricas páginas da semanal da Editora Abril, inspiradas e adubadas pelo criminoso, quando não se entregam a alguma pena inspirada à tarefa de tomar-lhe as dores. Veja, entretanto, superou-se em uma série de situações que, em matéria de jornalismo onírico, bateram todos os recordes nacionais e levariam o espelho de Murdoch a murmurar a possibilidade da existência de alguém tão inclinado à mazela quanto ele. E até mais inclinado, quem sabe.

O jornalismo brasileiro sempre serviu à casa-grande, mesmo porque seus donos moravam e moram nela. Roberto Civita, patrão abriliano, é relativamente novo na corporação. Sua editora, fundada pelo pai Victor, nasceu em 1951 e Veja foi lançada em setembro de 1968. De todo modo, a se considerarem suas intermináveis certezas, trata-se de alguém que não se percebe como intruso, e sim como mestre desbravador, divisor de águas, pastor da grei. O sábio que ilumina o caminho. Roberto Civita não se permite dúvidas, mas um companheiro meu na Vejacensurada pela ditadura o definia como inventor da lâmpada Skuromatic, aquela que produz a treva ao meio-dia.

Indiscutível é que a Veja tem assumido a dianteira na arte de ignorar princípios. A revista exibe um currículo excepcional neste campo e cabe perguntar qual seria seu momento mais torpe. Talvez aquele em que divulgou uma lista de figurões encabeçada pelo então presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, apontados como donos de contas em paraísos fiscais.

Lista fornecida pelo banqueiro Daniel Dantas, especialista no assunto, conforme informação divulgada pela própria Veja. O orelhudo logo desmentiu a revista, a qual, em revide, relatou seus contatos com DD, sem deixar de declinar-lhes hora e local. A questão, como era previsível, dissolveu-se no ar do trópico. Miúda observação: Dantas conta entre seus advogados, ou contou, com Luiz Eduardo Greenhalgh e Márcio Thomaz Bastos, e este é agora defensor de Cachoeira. É o caso de dizer que nenhuma bala seria perdida?

Sim, sim, mesmo os mais eminentes criminosos merecem defesa em juízo, assim como se admite que jornalistas conversem com contraventores. Tudo depende do uso das informações recebidas. Inaceitável é o conluio. A societas sceleris. A bandidagem em comum.


Extraído do sítio CartaCapital

CIVITA, O NOSSO MURDOCH - Gianne Carta

Rupert Murdoch, o magnata mais poderoso da mídia do Reino Unido, 81 anos, é interrogado horas a fio pela comissão parlamentar do Inquérito Leveson. Isso seria possível no Brasil de Roberto Civita? Foto: Pool/AFP
Policarpo Jr., diretor da sucursal da revista Veja em Brasília, trocou 200 ligações com Carlinhos Cachoeira. O bicheiro goiano, escreveu o correspondente de CartaCapital em Brasília, Leandro Fortes, alega ser o pai de “todos os furos” da revista. E Cachoeira disse estar pronto a detalhar as histórias que contou para Policarpo Jr. na CPI.

O patrão da Editora Abril, Roberto Civita, 75 anos, sabia quem era a fonte de todos aqueles “furos” da semanal mais lucrativa de sua empresa? Se for convocado para depor na CPI do Cachoeira, Civita reconhecerá que a Veja não respeitou a ética jornalística? Usar como parceiro de reportagem um criminoso com estreitos elos (às vezes acompanhados de subornos) com um senador, deputados, governadores e uma empreiteira foge à regra essencial do jornalismo: a de apurar as duas ou mais versões da mesma história.

Mas o patrão da Abril provavelmente não dará o ar da graça na CPI. Isso porque os jornalões e a tevê Globo agem em bloco para que isso não aconteça. São dois os motivos. O bicheiro, atualmente atrás das grades, favorecia os “furos” a envolver os inimigos “esquerdistas” da mídia tucana, principalmente petistas e ministros. Segundo motivo: jornalistas de outros orgãos da mídia também obtinham seus “furos” de Cachoeira.

Por essas e outras, Policarpo Jr. e a recomendável convocação de Civita para a CPI nunca estiveram no noticiário.

Enquanto isso, Rupert Murdoch, o magnata mais poderoso da mídia do Reino Unido, 81 anos, é interrogado horas a fio pela comissão parlamentar do Inquérito Leveson, que teve início em novembro de 2011. E na quarta-feira 2 até o Senado dos EUA entrou em contato com os investigadores britânicos para avaliar se abrirão um inquérito com o objetivo de investigar se a News Corporation passou a perna em leis norte-americanas.

Através de seus jornais – Times, Sunday Times, Sun e News of the World – Murdoch teve grande influência nas eleições dos primeiros-ministros conservadores Margaret Thatcher, John Major, David Cameron e Tony Blair. Até aí nada de errado. Publicações europeias apoiam candidatos políticos em seus editoriais, coisa que no Brasil acontece raramente. A mídia canarinho gosta de ficar em cima do muro enquanto distorce e manipula o noticiário a favor dos candidatos conservadores preferidos pelas elites. Enfim, prima a ambiguidade e a desinformação na mídia brasileira enquanto a mídia europeia se posiciona ideologicamente, o que lhe confere credibilidade. O leitor do vespertino francês Le Monde, por exemplo, sabe ter em mãos um diário de centro-esquerda que apoia o socialista François Hollande no segundo turno da presidencial, em 6 de maio.

O problema da mídia murdochiana foram os métodos por ela usados: escutas telefônicas ilegais e suborno de policiais por informações privilegiadas foram as mais graves. De fato, o tabloide News of the World foi fechado porque a acusações acima foram provadas. Jornalistas e um detetive contratado pelo jornal foram presos.

Agora o Inquérito Leveson quer se aprofundar mais na relação da mídia com políticos e funcionários públicos. Nesse contexto, investiga o grupo de Murdoch e outras empresas de comunicação. Ao mesmo tempo, pretende avaliar se o regime regulatório da imprensa da britânica falhou. Em suma, lá no reinado fazem o que não é feito aqui: uma CPI da mídia.

Murdoch admitiu no Inquérito Leveson ter sido “lento e defensivo” em relação às escutas telefônicas ilegais. Reconheceu ter falhado ao negar o conhecimento sobre a verdadeira escala dos grampos telefônicos até 2010 devido à conduta de subordinados que o deixaram sem informações. Ou será que Murdoch fingia que não sabia de nada?

São várias as semelhanças entre Roberto Civita e Rupert Murdoch. Ambos têm fascínio pelo “American Dream”, ou seja, a possibilidade de ganhar na vida na terra do Tio Sam, onde todos – eis aí um mito – podem fazer fortuna. E, por vezes, como se vê, a qualquer custo. Civita nasceu na Itália, mas aos dois anos, em 1938, foi com a família para os EUA, onde viveu por pouco mais de uma década. Depois de passar algum tempo no Brasil foi fazer universidade na Filadélfia.

Murdoch nasceu na Austrália, onde teve início sua carreira de empresário da mídia. Depois passou vários anos no Reino Unido, onde amealhou sua fortuna. E, finalmente, foi morar nos EUA para realizar seu sonho, o de obter a cidadania norte-americana e ser dono de um grande diário, no caso o Wall Street Journal.

Segundo o Inquérito Leveson, o patrão da News Corp. não tem “capacidade” para dirigir um grupo internacional. Isso seria possível no Brasil de Roberto Civita?

26 abril 2012

GLOBO, ABRIL E FOLHA SE UNEM CONTRA CPI DA MÍDIA


Principais grupos de comunicação fecham pacto de não agressão e transmitem ao Planalto a mensagem de que pretendem retaliar o governo se houver qualquer convocação de jornalistas ou de empresários do setor. Porta-voz do grupo na comissão é o deputado Miro Teixeira. Na Inglaterra, um país livre, o magnata Rupert Murdoch depôs ontem.

Há exatamente uma semana, o 247 revelou com exclusividade que o executivo Fábio Barbosa, presidente do grupo Abril e ex-presidente da Febraban, foi a Brasília com uma missão: impedir a convocação do chefe Roberto Civita pela CPI sobre as atividades de Carlos Cachoeira. Jeitoso e muito querido em Brasília, Barbosa foi bem-sucedido, até agora. Dos mais de 170 requerimentos já apresentados, não constam o nome de Civita nem do jornalista Policarpo Júnior, ponto de ligação entre a revista Veja e o contraventor Carlos Cachoeira. O silêncio do PT em relação ao tema também impressiona.

Surgem, aos poucos, novas informações sobre o engavetamento da chamada “CPI da Veja” ou “CPI da mídia”. João Roberto Marinho, da Globo, fez chegar ao Palácio do Planalto a mensagem de que o governo seria retaliado se fossem convocados jornalistas ou empresários de comunicação. Otávio Frias Filho, da Folha de S. Paulo, também aderiu ao pacto de não agressão. E este grupo já tem até um representante na CPI. Trata-se do deputado Miro Teixeira (PDT-RJ).

Na edição de hoje da Folha, há até uma nota emblemática na coluna Painel, da jornalista Vera Magalhães. Chama-se “Vacina” e diz o que segue abaixo:

“O deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) vai argumentar na CPI, com base no artigo 207 do Código de Processo Penal, que é vedado o depoimento de testemunha que por ofício tenha de manter sigilo, como jornalistas. O PT tenta levar parte da mídia para o foco da investigação”.

O argumento de Miro Teixeira é o de que jornalistas não poderão ser forçados a quebrar o sigilo da fonte, uma garantia constitucional. Ocorre que este sigilo já foi quebrado pelas investigações da Polícia Federal, que revelaram mais de 200 ligações entre Policarpo Júnior e Carlos Cachoeira. Além disso, vários países discutem se o sigilo da fonte pode ser usado como biombo para a proteção de crimes, como a realização de grampos ilegais.

Inglaterra, um país livre

Pessoas que acompanham o caso de perto estão convencidas de que Civita e Policarpo só serão convocados se algum veículo da mídia tradicional decidir publicar detalhes do relacionamento entre Veja e Cachoeira. Avalia-se, nos grandes veículos, que a chamada blogosfera ainda não tem força suficiente para mover a opinião pública e pressionar os parlamentares. Talvez seja verdade, mas, dias atrás, a hashtag #vejabandida se tornou o assunto mais comentado do Twitter no mundo.

Um indício do pacto de não agressão diz respeito à forma como veículos tradicionais de comunicação noticiaram nesta manhã o depoimento de Rupert Murdoch, no parlamento inglês. Sim, Murdoch foi forçado a depor numa CPI na Inglaterra – não na Venezuela – para se explicar sobre a prática de grampos ilegais publicados pelo jornal News of the World. Nenhum jornalista, nem mesmo funcionário de Murdoch, levantou argumentos de um possível cerceamento à liberdade de expressão. Afinal, como todos sabem, a Inglaterra é um país livre.

O Brasil se vê hoje diante de uma encruzilhada: ou opta pela liberdade ou se submete ao coronelismo midiático.


Extraído do sítio Brasil 247

25 abril 2012

PIMENTA NOS CHÁS INGLESES: MURDOCH FILHO FAZ NOVAS REVELAÇÕES - José Dirceu


A influência da imprensa no alto escalão da política britânica tornou-se o grande gossip, a pauta preferida dos chás ingleses desta semana. O magnata Rupert Murdoch depôs e foi a grande estrela da comissão de inquérito presidida pelo juiz Brian Leveson. Instaurada após a eclosão do escândalo de espionagem de centenas de caixas postais telefônicas feita pelo News of the World (fechado em 2011, após o escândalo), ela investiga os padrões éticos da mídia na Inglaterra e a relação entre jornalistas e políticos.

O premier David Cameron, do Partido Conservador, já esquentara a pauta ao afirmar em sessão no Parlamento: "Todos nós tivemos contato com Rupert Murdoch". Murdoch, porém, no depoimento minimizou sua influência sobre os jornais britânicos. Calmo, bem humorado, sustentou nunca ter pedido nada a um primeiro-ministro: "É natural que políticos busquem editores e às vezes proprietários, se eles estiverem disponíveis, para explicar o que estão fazendo. Mas, eu era apenas um entre muitos."

Nesta 3ª, porém, novas revelações foram feitas por seu filho, James Murdoch. Este confirmou ter estreitos contatos com os ministros do Reino Unido. Em especial, o de Cultura, Jeremy Hunt, ministro sob suspeita de ter passado informações ao grupo Murdoch para a compra da totalidade da operadora de TV a cabo “BSkyB”, da qual a News Corp. já possuía 39% das ações. A oferta para obter o total de ações da operadora foi atropelada pelo escândalo das escutas telefônicas.

Barões da mídia não admitem discutir jornalismo bandido

Murdoch filho nega que Hunt fosse um “grande aliado” na operação, mas confirmou ter tido “inúmeras conversas sobre diferentes assuntos relativos aos negócios e a indústria dos meios de comunicação em geral”. O filho do magnata disse, também, ter estado nada menos que em 12 oportunidades com o premiê Cameron.

Um desses encontros foi em 2010, quando o premier ainda estava na oposição. E mais, Murdoch filho contou que pelo menos em quatro desta uma dúzia de vezes em que esteve com Cameron, Rebekah Brooks, ex-diretora da News International e antiga diretora do “The Sun” e do “The News of the World”, também estava presente. Ela também é investigada por seu papel no escândalo.

Pois é, enquanto a mídia britânica topa discutir seus podres e o principal magnata dela chega quase ao banco dos réus, nós aqui no Brasil, nada de regulamentarmos a nossa imprensa, hein? É discutir o assunto aqui, levantar uma palavra a respeito, e os barões da mídia já vêm com tudo em sua velha história de que é censura, ameaça à liberdade de imprensa...E assim, continuam senhores absolutos de seus monopólios de comunicação e informação usando-os de acordo com seus interesses políticos e econômicos.

Fazem cara de paisagem, fingem que não é com eles e nem em suas empresas, e não discutem o assunto nem agora, que o episódio Carlos Cachoeira desnudou a prática de jornalismo bandido no Brasil, as relações promíscuas da mídia com o crime organizado na produção de notícias contra seus adversários.

Extraído do Blog do Zé Dirceu