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12 abril 2013

OBAMA PROPÕE AUMENTO DE VERBAS PARA MODERNIZAR ARMAS NUCLEARES


O polêmico orçamento dos Estados Unidos para o próximo ano fiscal, entregue ao Congresso pelo presidente Barack Obama na última quarta-feira (10), tem como um dos pontos de destaque o aumento dos fundos para o Departamento de Energia (DOE, na sigla em inglês), cujo propósito é a modernização das armas nucleares existentes.

Nesse sentido, o mandatário norte-americano e prêmio Nobel da Paz de 2009, Barack Obama, propôs aos legisladores de seu país reduzir o orçamento dedicado à não proliferação nuclear com o contraditório objetivo de destinar esses fundos à modernização do armamento nuclear dos Estados Unidos.

De acordo com alguns meios de comunicação, com este fato, Obama, galardoado pelo Prêmio Nobel pela luta contra a proliferação nuclear, vai solapar o acordo que os Estados Unidos subscreveram com a Rússia, chamado Novo Start, segundo o qual ambos os países puseram fim à denominada Guerra Fria, e nesse sentido se comprometeram a reduzir seu arsenal atômico em dois terços até o ano de 2018.

Segundo esta proposta, os programas nucleares do citado departamento aumentarão em ao menos 7%, o que equivaleria a cerca de US$ 500 milhões sobre a quantia atual de US$ 7,227 bilhões.

Os novos recursos atribuídos pelo presidente, que ainda não passaram pelo trâmite legal para ser aplicados, ampliam os esforços de modernização de ogivas para ser usadas tanto em bombardeiros como mísseis, ao que se deve somar um apoio financeiro para a edificação de uma nova usina de processamento de urânio no Tennessee, no sul dos EUA.

Por outro lado, os fundos para os programas de não proliferação serão reduzidos em 20% (US$ 460 milhões) abaixo da cifra atual de US$ 2,45 bilhões, uma mudança nas prioridades de gastos que reflete a decisão do governo de que os trabalhos do DOE em matéria nuclear levados a cabo com objetivos militares devem ser acelerados e ampliados.

Cabe recordar que o próprio governo norte-americano revelou no ano de 2010 que possui um arsenal nuclear de 5.113 ogivas ativas e instaladas e outros milhares não ativos.

Extraído do sítio Portal Vermelho

05 fevereiro 2013

COMO OS MUITO RICOS ESTÃO DESTRUINDO A ECONOMIA DOS EUA

Obama acertou quando disse, na posse, que a América não pode ter sucesso quando poucos vão muito bem enquanto muitos mal sobrevivem.


O artigo abaixo foi publicado originalmente no site Common Dreams. O autor, Robert Reich, é um dos comentaristas econômicos e políticos mais influentes dos Estados Unidos. Reich foi integrante do gabinete de três presidentes americanos, o último dos quais Bill Clinton.

Como o presidente Obama disse em seu discurso de posse, os Estados Unidos “não podem ter sucesso quando poucos enriquecem cada vez mais e muitos mal sobrevivem”.

No entanto, essa continua sendo a direção que seguimos.

Uma análise recém-divulgada pelo Instituto de Política Econômica mostra que os super-ricos têm tido um bom desempenho na recuperação econômica, enquanto quase todos os outros vão mal. Um por cento dos assalariados viu seu salário crescer 8,2 por cento de 2009 a 2011, mas os salários anuais de 90% dos americanos continuaram a declinar na recuperação.

Em outras palavras, estamos de volta à desigualdade anterior à bolha que explodiu em 2008.

Mas o presidente está certo. Nem mesmo os muito ricos podem continuar a ter êxito sem uma prosperidade mais ampla. Isso porque 70% da atividade econômica nos Estados Unidos é o consumo. Se os 90% estão cada vez mais pobres, eles são menos capazes de gastar. Sem seus gastos, a economia não sai da primeira marcha.

Essa é uma grande razão pela qual a recuperação continua a ser anêmica, e por que o Fundo Monetário Internacional reduziu sua estimativa para o crescimento dos EUA em 2013 para apenas 2%.

Quase um quarto de todos os empregos nos Estados Unidos pagam salários abaixo da linha de pobreza para uma família de quatro pessoas. O Bureau of Labor Statistics estima que o crescimento para a próxima década será de baixos salários – como servir clientes em grandes redes varejistas e cadeias de fast food.

Americanos ricos estariam melhores com partes menores de uma economia em rápido crescimento, do que com os grandes pedaços que agora possuem de uma economia que está mal se movendo.

Neste ritmo, quem é que vai comprar todos os bens e serviços que a América é capaz de produzir? Nós não podemos voltar para o tipo do débito financiado que causou a bolha, em primeiro lugar.

Se fossem racionais, os ricos iriam apoiar investimentos públicos em educação e formação profissional, uma infra-estrutura de classe mundial (transporte, água e esgoto, energia, internet), e pesquisa básica – que faria a força de trabalho americana mais produtiva.

Se fossem racionais, eles até mesmo apoiariam os sindicatos. Mas os sindicatos estão quase extintos.

O declínio dos sindicatos na América segue exatamente o declínio da classe média.

Na década de 1950, quando a economia dos EUA estava crescendo mais rápido do que 3% ao ano, mais de um terço de todas as pessoas que trabalham pertencia a um sindicato. Isso lhes deu cacife de negociação suficiente para obter salários que lhes permitiram comprar o que a economia foi capaz de produzir.

Desde o final de 1970, os sindicatos têm corroído – como corroeu o poder de compra da maioria dos americanos, e não por coincidência, o crescimento médio anual da economia.

De quem é a culpa? Parcialmente da globalização e das mudanças tecnológicas. A globalização enviou muitos trabalhadores para o exterior.

A fabricação está começando a voltar para a América, mas está retornando sem muitos empregos. A linha de montagem foi substituída pela robótica e por máquinas-ferramentas de comando digital.

As tecnologias também substituíram muitos ex-trabalhadores sindicalizados em telecomunicações (lembra-se das operadoras de telefonia?).

Mas espere um pouco. Outras nações sujeitas às mesmas forças têm níveis muito mais elevados de sindicalização do que a América. 28% da força de trabalho do Canadá é sindicalizada, como mais de 25% na Grã-Bretanha e quase 20% na Alemanha.

Os sindicatos estão quase extintos na América porque nós escolhemos isso.

Ao contrário de outros países ricos, nossas leis trabalhistas permitem que os empregadores possam substituir trabalhadores em greve. Nós também tornamos extremamente difícil para os trabalhadores se organizarem e mal penalizamos as empresas que violam as leis trabalhistas.

O salário médio de um trabalhador do Walmart é de 8,81 dólares por hora. Um terço dos empregados do Walmart trabalham menos de 28 horas por semana e não se qualificam para os benefícios.

O Walmart é um microcosmo da economia americana, que descaradamente lutou contra os sindicatos. Mas poderia facilmente pagar mais a seus funcionários. Ganhou 16 bilhões de dólares no ano passado. Grande parte dessa quantia foi para os acionistas do Walmart, incluindo a família de seu fundador, Sam Walton.

A riqueza da família Walton agora excede a riqueza de 40% das famílias americanas combinadas, de acordo com uma análise do Instituto de Política Econômica.

Mas como o Walmart espera continuar lucrando quando a maioria de seus clientes está descendo uma escada rolante econômica?

O Walmart deve ser sindicalizado. Assim como o McDonalds. Assim como cada varejista e rede de fast-food do país. Assim como todos os hospitais nos Estados Unidos.

Dessa forma, mais americanos terão bastante dinheiro em seus bolsos para colocar a economia em movimento. E todos – mesmo os muito ricos – serão beneficiados.

Como disse Obama, a América não pode ter sucesso quando alguns poucos vão muito bem enquanto muitos mal sobrevivem.

Extraído do sítio Diário do Centro do Mundo

12 janeiro 2013

RELATÓRIO AFIRMA QUE EM 6 ANOS A CHINA VAI SUPERAR A ECONOMIA DOS EUA

Capa do jornal chinês Global Times, edição de 9 de janeiro de 2013. http://www.globaltimes.cn

Em seis anos a China vai superar os Estados Unidos e se tornar a primeira economia mundial. É o que prevê um relatório produzido pela Academia Chinesa de Ciências divulgado hoje em Pequim. As conclusões do relatório são citadas nesta quarta-feira no jornal Global Times, próximo do Partido Comunista Chinês. O jornal não dá detalhes sobre os critérios utilizados nas projeções.

Além de superar a economia americana em 2019, tornando-se a potência n° 1 do mundo, a China conservará esse "status internacional" por 30 anos, até 2049, data do centésimo aniversário de fundação da República Popular, diz o documento.

A China também seria o 11° país com melhor saúde econômica do mundo em um ranking de cem nações liderado pela Suécia, logo atrás da Costa Rica. Estados Unidos, Japão e Grã-Bretanha aparecem com saúde econômica deficiente, segundo a agência oficial Xinhua, que também divulgou o relatório.

Um especialista em denunciar fraudes no meio científico chinês, Fang Zhouzi, acha que este estudo é um indicativo do sentimento anti-americano na sociedade chinesa. O relatório trata os Estados Unidos como uma ameaça potencial à China e reforça as ambições nacionalistas do país para superar os Estados Unidos, avalia o especialista consultado pelo Global Times.

Outras projeções internacionais estimam que o PIB da China vai ultrapassar o dos Estados Unidos em algum momento até 2050, porém será difícil os chineses alcançarem a renda per capta dos americanos com uma população de 1,3 bilhão, contra 315 milhões nos Estados Unidos.

Extraído do sítio RFI

09 janeiro 2013

2013 E ALÉM: GUERRAS DE DRONES E UM APOCALIPSE ANUNCIADO - Tom Engelhardt


Pense nisso como uma fórmula simples: Se você foi contratado (e bem pago) para proteger o que for, você vai estar congenitamente mal equipado para imaginar o que quer que seja. E ainda, o desejo não apenas de conhecer os contornos do futuro, mas de implantar sua bandeira nesse futuro, tem mantido a Comunidade de Inteligência (CI) americana em seus domínios desde meados da década de 1990. Essa foi a primeira vez que ocorreu para alguns em Washington, que o poder dos EUA pode ser capaz de controlar quase tudo que valha a pena globalmente por, se não uma eternidade, então por tempo suficiente para tornar o futuro uma propriedade Americana.

Desde então, de anos em anos o Conselho Nacional de Inteligência, o ‘centro de análises estratégicas a longo-prazo’ da CI planeja produzir um documento lançado em série chamado Tendências Globais [a se consolidarem nos anos seguintes]. A última edição, lançada a tempo para o segundo mandato de Barack Obama, é a Tendências Globais 2030. Algo totalmente previsível sobre isso: é maior e mais elaborada que a edição Tendências Globais 2025. E aqui vai uma previsão que, por mais difícil que seja acertar algo sobre o futuro, tem 99,9% de chance de estar correta: quando o Tendências Globais 2035 for lançado, será ainda maior e mais elaborado. Vai custar mais caro e ainda, como seu antecessor, será evasivo, restringindo qualquer possibilidade levemente ousada, como uma porta de alçapão para fugir de qualquer previsão que talvez não funcione.

Nada disso deveria ser surpreendente. Nos últimos anos, com um orçamento coletivo de 75 bilhões de dólares, a CI, labirinto historicamente inédito de 17 agências de inteligência e equipamentos, tem sido uma das indústrias de Washington com maior crescimento. Em troca de financiamento quase ilimitado e uma expansão de mais de uma década de duração dos seus poderes, foi prometida uma coisa para o povo americano: a segurança, especialmente em relação ao terrorismo. Como parte de um complexo de segurança nacional que se beneficiou enormemente de um bloqueio do país e criação de um estado de guerra permanente pós 11 de setembro, também sofre com a clássica doença burocrática.

Portanto, ninguém deveria ficar chocado ao descobrir que suas investidas em um futuro produtor de ansiedade, que começou relativamente modesto em 1997, transformaram-se em operações cada vez mais maciças. Nesta quinta iteração da série, os autores deram origem a livro que representa um hino do futuro e seus perigos.

[Na edição Tendências Globais 2030] Você vai ler muito sobre os problemas de recursos e das guerras de recursos potenciais, mas não sobre os empresários que utilizam o poder para esmagar seus possíveis concorrentes no mundo corporativo. A única crise que ameaça o bem-estar do planeta, a mudança climática, embora seja certamente discutida de passagem, está ainda mergulhada nos fundamentos, e ao que parece, em 2030 não vai ter sido atingida ainda.

Para isso, eles reuniram grupos de “especialistas" em universidades americanas (demais para serem contadas), consultaram muitos acadêmicos individuais (demais para citar os nomes) apesar de páginas de agradecimentos, e fizeram "reuniões sobre o projeto inicial em cerca de 20 países." Em outras palavras, um esforço monumental foi feito para preparar o futuro e tranquilizar Washington que, enquanto um "relativo declínio econômico em face dos estados em ascensão é inevitável", as próximas décadas ainda podem revelar uma brincadeira americana (mesmo que compartilhada, em certa medida, com a China e essas potências emergentes).

Frack é o novo Crack

Tendo crescido a um tamanho exorbitante, as "tendências" no título do projeto não estavam mais sendo vagas o suficiente. Em vez disso, a linguagem da Tendências Globais 2030 tem inflado à altura das suas grandes pretensões. Atualmente para determinar o futuro para políticos americanos, são necessárias Megatendências ("Fortalecimento Individual", "Difusão do Poder"), Viradores de Jogo ("Economia Global propensa a crises”, “lacunas de governo", "Potencial para o aumento da violência"), Cisnes Negros ("pandemia grave", "Mudanças Climáticas muito mais rápidas", "Um Irã reformado"), e Mudanças Tectônicas ("O crescimento da classe média global", "O envelhecimento sem precedentes e generalizado"), para não falar de Mundos Potenciais ou cenários futuristas de ficção em que essas Megatendências, esses Viradores de Jogo, Cisnes negros, e Mudanças Tectônicas se misturam e se combinam em futuros possíveis.

Fora disto, o que exatamente os especialistas da Inteligência Americana, os representantes da última superpotência global remanescente, concluíram? Aqui vai o meu resumo parcial: que devemos esperar o surgimento de nada além do que já não sabemos; que várias versões do presente conhecível podem ser precisamente projetadas para o futuro; que muita coisa depende do que acontece com maior Estado da Terra (com a China beliscando seus calcanhares) - Se, isto é, com a sua "preponderância em todas as áreas, na maioria das dimensões do poder, seja ‘duro’ ou ‘suave’”, os EUA continuarão a ser um benevolente "provedor de segurança global" ou "polícia global" de estabilidade planetária ou - catástrofe das catástrofes - puxar sobre si mesmo, criando uma América-fortaleza-decadente; que a verdadeira crise americana pode ser uma redução dos gastos militares; que as probabilidades indicam que a economia global, com mais de um bilhão de novos "consumidores de classe média", poderia ser um pouco melhor ou pior; que o Irã pode (ou não) construir armas nucleares; que os conflitos globais poderiam aumentar um pouco (com ênfase nas guerras por recursos naturais) - ou diminuir; que o Estado nacional poderia aumentar seu poder atual ou perdê-lo para os órgãos não governamentais e "cidades inteligentes", e assim por diante.

Há, no entanto, alguns tópicos que parecem ter desaparecido na versão de nosso mundo futuro feita pelo Conselho Nacional de Inteligência. Você não vai, por exemplo, encontrar estas palavras enfatizadas no Global Trends 2030: empresas - elas parecem não ter papel importante no mundo do futuro; depressão – sim, “recessão” ou até mesmo “colapso”, mas nunca “depressão global”, nem mesmo quando os EUA são comparados ao grande poder imperial do planeta, ao século 19 britânico, e uma era em que depressões eram comuns (uma possível “grande depressão” só é mencionada com um “pouca probabilidade”); imperial – uma vez que são o único...errr... grande você-sabe-o-que de esquerda, que não é uma palavra apropriada para o mundo de 2030; revolução – oh, teve uma dessas em 1848 e pode ser mencionada, mas apesar do fato de que o mundo foi convulsionada por revoltas inesperadas e movimentos imprevistos nos últimos anos, em 2030, a revolução é inimaginável; capitalismo - não precisa sequer dizer isso em um mundo em que não existe nada além disso, e usar essa palavra poderia implicar que em 2030 um outro sistema de qualquer tipo poderia surgir e desafiá-lo, o que é, claro, inconcebível; Armas nucleares israelenses - por que exibir o arsenal nuclear israelense, o qual realmente existe e assumidamente estará lá em 2030, quando você pode se concentrar no fabuloso cisne negro do Irã e seu (ainda) inexistente arsenal nuclear.

Finalmente base militar -, sem dúvida, um termo perfeitamente aceitável para a CI nas Tendências Globais 2040, uma vez que os chineses estabelecerão algumas delas no exterior. Enquanto isso, em um mundo em que os EUA ainda têm cerca de 1.000 bases espalhadas, não há razão em trazer o assunto à tona ou em discutir o destino historicamente sem precedentes das ocupações americanas pelo planeta. Nem em Tendências Globais 2030 você vai encontrar uma consideração séria do poderio militar americano ou da propensão de Washington nos últimos anos não para garantir a estabilidade, mas garantindo instabilidade, desordem e caos em terras distantes.

Você vai encontrar uma seção sobre drones - aviões não tripulados -, mas não sobre nossas guerras de drones e como elas podem terminar em 2030. (Outro conjunto de palavras agora proibido associados a essas guerras são assassinato, assassinato seletivo, lista de mortes.) Você vai encontrar a Primavera Árabe sendo discutida de passagem, mas não Primavera da Índia. (Você sabe, a que ocorreu em 2023, em que a juventude saliente de uma nação com expectativas crescentes encontrarou-se com a frustração econômica). 

Você vai ler muito sobre os problemas dos recursos naturais e das guerras de recursos potenciais, mas não sobre mas não sobre os empresários que utilizam o poder para esmagar seus possíveis concorrentes no mundo corporativo no cenário global. A única crise que ameaça o bem-estar do planeta, a mudança climática, embora seja certamente discutida de passagem, está ainda mergulhada nos fundamentos, e ao que parece, em 2030 não vai ter sido atingida ainda. (Assumidamente, nenhum dos encontros do grupo CI foram realizados no árido sudoeste dos EUA, no Centro-Oeste assolado pela seca, ou na costa Jersey desde que o furacão Sandy a atingiu.).

Você vai notar que a única coisa que faz nossos futurólogos de inteligência pular de alegria e lhes causa o equivalente a um êxtase de drogas é o fraturamento hidráulico para obtenção de gás, ou fracking, ao qual sempre voltam de novo e de novo. Eu não estou brincando. Para eles, frack é o novo crack e se este documento (deus nos acuda!) fosse transformado em um filme, ele poderia ser chamado de Frack para o Futuro. Sim, na maioria dos seus cenários futuros, fracking, liberando toda aquela "energia extrema", torna os EUA independente de energia, um exportador de gás natural, e praticamente garante que 2030 será mais uma vez um ano americano! Yippee!

Democracia do Tempo

Acima de tudo, os analistas do Conselho Nacional de Inteligência conseguiram em grande parte banir o único aspecto mais essencial, inevitável, e estimulante do futuro: surpresa. Isso diz muito mais sobre o mundo Washington que os autores habitam do que sobre o que pode acontecer em 2030. Mas antes de eu chegar a esse ponto, me dê apenas um segundo para eu me dar uns tapinhas nas costas.

Afinal, eu te fiz um favor enorme. Eu realmente li as Tendências Globais 2030, desde a página número dois, da carta “Caro leitor” do presidente e o "sumário executivo" do relatório além de suas 136 páginas com colunas duplas, e até mesmo os seus agradecimentos intermináveis. E deixe-me assegurá-lo, isso é colocado por pessoas perfeitamente inteligentes e tem algumas pepitas de coisas interessantes nele. A equipe montada até tentou escrever pedaços de ficção futurista e pelo menos um desses trechos, uma análise "marxista" "atualizada" para o século XXI, tem um valor de entretenimento aceitável.

No final, porém, o documento, como o CI em si, é um artefato exagerado das próprias limitações e medos de Washington. Também é tediosamente, devastadoramente maçante e repetitivo, com gráficos elaborados sobre o que você acabou de ler como se fosse simplesmente muito pesado para informá-lo em parágrafos. É exatamente o tipo de coisa que nenhum coletivo burocrático deveria ser autorizado a infligir ao grande desconhecido, e que ninguém acostumado com H.G. Wells, Arthur Clarke, Isaac Asimov, Ray Bradbury, Philip Dick, Ursula le Guin, George Orwell, William Gibson , ou Suzanne Collins, deveria ter de suportar.

E, no entanto, a estranheza deste projeto, historicamente falando, deve chamar sua atenção. Pare por um momento e pense sobre o tempo e o estado. Estados têm tido tradicionalmente um desejo de controlar o passado (algumas vezes trabalhando duro para ganhar um monopólio sobre a escrita da história). E - nenhuma surpresa aqui - a maioria dos estados tem o desejo de controlar o presente. Mas o futuro? O futuro é a democracia do tempo. Nenhum governo pode prendê-lo. Nenhum militar pode invadi-lo. Nenhuma agência de inteligência pode inserir seus agentes no mesmo.

É por isso que a série de tendências globais que originalmente surgiu do mundo cada vez mais auto-confiante da "única superpotência" tem um certo fascínio. Ela representa uma incursão do estado único para o futuro, uma tentativa singular para encurralar e possuí-lo. Certa vez, o futuro distante foi a província de pensadores utópicos ou distópicos, escritores de Pulp Fiction, excêntricos, visionários, mesmo loucos, mas não os serviços de inteligência do governo. Olhando para o que era, no seu auge, uma aventura com estranha emoção individual imaginativa, independente se você estivesse lendo Edward Bellamy ou Charlotte Perkins Gilman, Yevgeny Zamyatin ou HG Wells, George Orwell ou Aldous Huxley.

Isso foi, é claro, antes de o Pentágono começar a planejar o arsenal de 2020, 2035 e 2050, antes da guerra virar nuclear e assim, com a exceção de duas cidades em 1945, só poderia ser "travada" em ideias através de cenário futurista na escrita. Foi antes de os líderes da única superpotência serem tão dominados pela arrogância a ponto de começaram a suspeitar que o futuro, como o presente, pode realmente ser deles.

E ainda assim o futuro é, e continua sendo, de todos, sempre. Até que isso realmente venha a acontecer, o seu palpite é tão bom quanto o da CIA ou a do CNI. Provavelmente melhor. Eles podem, de fato, ser os piores candidatos possíveis para escrever sobre o futuro. Mesmo quando conhecem que o castigo contra eles - como previsto no Tendências Globais 2030, a sua incapacidade de abandonar "continuidades" para "descontinuidades e crises" - isso não importa.

Como um retrato do poder americano, se mostrou incrivelmente cego, surdo e mudo em um mundo rugindo em direção a 2030 e forneceu ao resto de nós a definição funcional do grupo de pessoas que têm a menor probabilidade de oferecer segurança em longo prazo aos americanos.

Eles simplesmente não conseguem pensar fora da caixa. Eles não se atrevem a surpreender-se nem ao menos dar ao futuro a sua surpresa natural, ainda que – palpite próprio - o nosso mundo esteja cada vez mais cheio dessas descontinuidades. A ascensão da China, o colapso do Lehman Brothers, a Primavera Árabe, a erupção de Tea Party e do Movimento Occuppy, mesmo o mais ínfimo dos “alçapões inesperados” da história - como Paula Broadwell ao derrubar o "maior" general da América - são conceitualmente muito além deles. A surpresa é um veneno para eles. Preferem empalmar algumas cartas e jogar a partir do fim do baralho, em vez de reconhecer que o futuro não pertence a eles.

Apocalipse Quando?

Os primeiros anos da era George W. Bush revelaram-se visionários, se não loucos. Foi quando Washington abriu um buraco nos redutos de petróleo do planeta e pode ter iniciado a Primavera Árabe. Mais recentemente, a formulação de políticas tem sido firmemente restaurada para uma administração de gestores, e a imaginação imperial norte-americana, tal como era, começou a atrofiar. Tendências Globais 2030 reflete aquela realidade “toda Americana”, por isso é menos provável entrar no futuro, do que ganhar um tour pelos corredores sem ar da mente coletiva de Washington assim que 2013 começar. 

É claro, o futuro é uma coisa incrivelmente complicada para guiar alguém. Veja a China, por exemplo. Ninguém diria que seu crescimento não é um fato de importância histórica mundial. Ainda assim, eu acho que seria justo dizer que, desde o início do século XIX até o final do século XX, um indivíduo que previu com precisão a próxima bizarra e espetacular torção no caminho da China para o futuro, teria sido humilhado em qualquer sala cheia de especialistas: o colapso da China imperial, a ascensão improvável de movimento comunista de Mao Zedong sob o caos da invasão e da guerra civil, ou - o mais improvável de todos - a criação pelo Partido Comunista da China, depois de uma década de radicalismo surpreendente e extremismo, de uma potência sem precedentes capitalista (programado, como Tendências Globais 2030 aponta, para passar os EUA como a principal economia do mundo até 2030, se não antes).

Então, por que alguém deveria imaginar que, se tratando da China, as tendências atuais poderiam simplesmente ser extrapolados no futuro? E ainda assim por diante para a gente da Tendências Globais 2030, que projetam uma série mais ousada do que o habitual de cenários para o país, que vão desde a cooperação com os EUA em harmonia regional hegemônica de crescente nacionalismo e "aventureirismo" no exterior (uma improbabilidade extrema, como se vê) a um "colapso" econômico, cenário de que choca a economia global.

Ainda assim, vamos examinar um fato importante da história chinesa, que os analistas do Conselho Nacional de Inteligência ignoram (embora os líderes chineses estejam profundamente conscientes disso ou não teriam se mexido para suprimir a seita Falun Gong ou, mais recentemente, um culto cristão do apocalipse maia). Sob estresse, a China tem uma tradição única revolucionária. Por pelo menos alguns milhares de anos, em tempos ruins rebeliões camponesas enormes, muitas vezes alimentadas por cultos religiosos sincréticos, têm abandonado o interior chinês para ameaçar a país: os Turbantes Amarelos, os Lótus Brancos, o Taiping de meados do século XIX e, mais recentemente, o próprio movimento de Mao, entre outros. 

Já hoje, em tempos economicamente otimistas, a China tem dezenas de milhares de "incidentes de massa", cidadãos protestam contra fábricas poluidoras, camponeses assumem o controle de aldeias locais, e assim por diante. Se a economia chinesa já obtém um grande sucesso entre agora e 2030, em meio à crescente corrupção econômica e crescente desigualdade, quem sabe o que pode realmente acontecer?

Com a mais rara das exceções, no entanto, os autores do Global Trends 2030 desprezam o choque do futuro para "cisnes negros forasteiros", como uma pandemia que poderia matar milhões de pessoas ou tempestades solares geomagnéticas que podem nocautear sistemas de satélite e a rede elétrica global. Caso contrário, quando se trata de um mundo verdadeiramente disjuntivo, para melhor ou pior, esqueça as Tendências Globais 2030.

Eu não acho que eu sou anormal e ainda consigo imaginar coisas piores do que eles parecem capazes de descrever, sem sequer piscar, começando com uma grande depressão em ampla escala, que seria um tapa na cara mundial. De fato, se você temum modo de pensar apocalíptico, tudo que você precisa fazer é olhar para as informações que eles fornecem - algumas das quais seus analistas consideram uma boa notícia - e é fácil compreender o mundo verdadeiramente extremo que podemos estar entrando.

Eles nos dizem, por exemplo, que "o mundo consumiu mais alimentos do que produziu em sete dos últimos oito anos" (uma tendência que esperamos que venha a ser revertida pela modificação genética de culturas alimentares); que a água está acabando ("Até 2030, quase metade da população mundial viverá em áreas com severa escassez de água"); que a demanda por energia vai aumentar em cerca de 50% nos próximos 15 a 20 anos, e que os gases de efeito estufa, entrando na atmosfera como se não houvesse amanhã, deverão dobrar até meados do século.

Por sua estimativa, em 2030 haverá 8,3 bilhões de onívoros chocalhando ao redor do planeta e mais de um bilhão de pessoas, possivelmente dois bilhões, deverão entrar em alguma versão abissalmente degradada da "classe média". Isto é, haverá mais motoristas de carro, mais comedores de carne, mais compradores de produtos.

Adicione ainda o bônus da mudança climática - e o "sucesso" do fracking em nos manter em uma dieta de combustíveis fósseis durante as próximas décadas - e me diga se você também não consegue imaginar o cenário apocalíptico e algumas surpresas chocantes também.

Desejos no Shopping Mundial

Pense nas Tendências Globais 2030 como um retrato de uma Comunidade de Inteligência (e dos acadêmicos parasitas que trabalham com eles) envelhecida e obesa, incapaz de ver o mundo como ele é, e muito menos como poderia ser. O Conselho Nacional de Inteligência evidentemente nunca conheceu um apocalíptico ou um sonhador que não quisessem evitar. Seus motores e pessoas influentes aparentemente nunca consideraram montar um grupo de escritores de ficção científica, e em todas as suas viagens eles nunca pararam, evidentemente, no Uruguai e fizeram uma visita ao radical escritor Eduardo Galeano, ou até mesmo consultou o seu livro de 1998 De Pernas Pro Ar - A Escola do Mundo ao Avesso.

Em um certo ponto, discutindo o consumismo global - e lembre-se que este foi o ano após o lançamento do primeiro relatório Tendências Globais - ele escreveu:

"A sociedade de consumo é uma armadilha. Aqueles que estão no controle fingem ignorância, mas qualquer pessoa com olhos em sua cabeça pode ver que a grande maioria das pessoas, necessariamente, deve consumir pouco, muito pouco, ou nada, a fim de salvar o pouco de natureza que nos resta. A injustiça social não é um erro a ser corrigido, nem é um defeito a ser superado, é um requisito essencial do sistema. O mundo natural não é capaz de suportar um shopping do tamanho do planeta... [Se] todos nós consumíssemos como aqueles que estão espremendo a terra à secura, não teríamos mais mundo.” .

Com as potências emergentes do "Sul" e do “Oriente", agora vamos ter a chance de ver com nossos próprios olhos, talvez em 2030, o quão preciso Galeano pode ter sido sobre o destino deste cada vez mais lotado, com recursos cada vez mais pressionados, mais quente e cada vez mais tumultuado planeta que vivemos. Podemos aprender de perto e pessoalmente exatamente o que significa adicionar um ou dois bilhões de pessoas extras aos “consumidores de classe média” em tal momento. Até lá, talvez nós seremos capazes de fazer a nossa escolha a partir de extremidades de todos os tipos, que vão desde episódios antigos como revolução ou fascismo até os novos que não podemos sequer imaginar hoje. 

Mas não leia Tendências Globais 2030 para descobrir sobre isso. Afinal, o pesadelo de todo burocrata é a surpresa. Nós não vamos gastar 75 bilhões de dólares em "inteligência" e desistir do que uma vez foram os clássicos direitos e liberdades americanas para encontrar um monte de surpresas perturbadoras. Não é de se admirar que o pessoal do Conselho não pode suportar a imaginar uma gama mais ampla do que pode estar por vir. A bolha de Washington é muito confortável, e o resto demasiadamente assustador. Eles podem estar vivendo às custas de nosso medo, mas não se engane nem por um segundo, eles estão com medo também, ou eles jamais poderiam produzir um documento como Tendências Globais 2030.

Como um retrato do poder americano, se mostrou incrivelmente cego, surdo e mudo em um mundo rugindo em direção a 2030 e forneceu ao resto de nós a definição funcional do grupo de pessoas que têm a menor probabilidade de oferecer segurança em longo prazo aos americanos.

Resuma tudo isso, e você terá um único e demasiadamente claro desejo de Ano Novo da Comunidade de Inteligência dos EUA: por favor, por favor, por favor, faça 2013, 2014, 2015 ... e 2030 não serem muito diferentes de 2012!

Extraído do sítio Carta Maior

19 setembro 2012

O PULMÃO DO CAPITALISMO NORTE-AMERICANO - Serge Halimi

Em 1992, o presidente dos Estados Unidos fez a seguinte declaração: “O sucesso do Walmart é o sucesso da América”. Agora, a multinacional de distribuição é a maior empresa do mundo. E o dumping social que pratica – baixos salários, pressão sobre os fornecedores etc. – contamina a economia ocidental. 

Ilustração: Mello
Nalargada, uma pequena loja num dos estados (Arkansas) mais pobres do país. Na chegada, um volume de negócios girando em torno de US$ 421 bilhões em 2010, uma família com quatro de seus filhos entre as dez pessoas mais ricas do planeta, uma cadeia de hipermercados que se tornou ao mesmo tempo a maior empresa – ultrapassou a Exxon Mobil em 2003 – e o maior empregador privado do mundo. Em 2005, as vendas do Walmart sozinhas respondiam por um em cada cinco CDs comprados nos Estados Unidos, um em cada quatro tubos de pasta de dente, uma em cada três fraldas. E, ainda mais significativo, 2,5% de todo o PIB norte-americano!1 Mais rica e influente que 150 países, a empresa deve às regras estabelecidas o poder que exerce hoje.

Com esse nível de poder, não é de surpreender que a maioria das transformações (econômicas, sociais, políticas) do planeta tenham tido sequência – e às vezes também origem, transmissão, aceleração –em Bentonville, Arkansas, sede da companhia. Combate aos sindicatos, transferências para outros países, uso de uma mão de obra superexplorada que a desregulamentação do trabalho e os acordos de livre-comércio tornam a cada ano mais prolífica: esse é o modelo Walmart. Pressão sobre os fornecedores para obrigá-los a diminuir os preços arrochando os salários (ou mudando para o exterior); flexibilização das tarefas para favorecer seu encadeamento e eliminar qualquer tempo morto, qualquer mínima pausa: esse é o modelo Walmart. Construção de prédios hediondos (“caixas de sapatos”), abastecidos pela frota de 7.100 caminhões gigantes da empresa, que rodam e poluem 24 horas por dia a fim de entupir sem atraso os porta-malas dos milhões de automóveis alinhados nos imensos estacionamentos de cada uma das quase 5 mil lojas que a multinacional explora: esse é o modelo Walmart.

“Especialistas em comunicação”

E então, quando os sindicatos contra-atacam, quando os ambientalistas despertam, quando os clientes finalmente fazem a conta de que “o menor preço” é um roubo, quando artistas se esquecem por um instante de se vender para apoiar o movimento popular, quando cidadãos impedem a instalação de novos cubos de concreto em seus territórios, é ainda o Walmart que, agora, recruta antigos “especialistas em comunicação” da Casa Branca, democratas ou republicanos, e pede que limpem a imagem da empresa, inundando os meios de comunicação.2 Eles dirão: agora o Walmart é “ético” e só pensa em criar postos de trabalho – verdade que são mal pagos, mas melhor pouco do que nada, e os clientes gostam tanto dos preços baixos... Eles acrescentarão que a busca obstinada pelo lucro ajudou a melhorar a produtividade nacional. E que doravante a empresa defenderá o meio ambiente, assim como resgatou as vítimas do furacão Katrina. Exploração, comunicação: sempre um modelo...

Nenhuma empresa vira a maior do mundo por acaso, só porque, cinquenta anos atrás, seu fundador, Sam Walton (falecido em abril de 1992, poucos dias após receber das mãos do ex-presidente George Herbert Bush uma das mais altas honrarias norte-americanas), teve a brilhante ideia de vender melancias na calçada da loja e oferecer aos filhos dos clientes um passeio de burro no estacionamento.3

Nascimento e crescimento

O primeiro Walmart foi aberto em 1962, em Rogers, Arkansas, numa área rural e abandonada. Nove anos depois, a empresa tinha ampliado sua esfera de influência a cinco estados. Seus primeiros mercados, de fraca densidade, eram ignorados pelos grandes varejistas: o Walmart assentaria aí seu monopólio, antes de estender-se para outros lugares. A empresa privilegia a periferia dos centros urbanos para aproveitar, ao mesmo tempo, a clientela das cidades e o preço baixo dos terrenos. Antecipando em 1991 o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (Nafta), que o presidente Bill Clinton, ex-governador do Arkansas, ratificou dois anos depois, o Pequeno Polegar de Bentonville internacionalizou-se e desembarcou no México. Seguiu-se o Canadá, em 1994. Depois vieram Brasil e Argentina (1995), China (1996), Alemanha (1998), Reino Unido (1999). Em 2001, as receitas do Walmart ultrapassaram o PIB da maioria dos países, incluindo a Suécia. O Carrefour, número dois do setor (101 bilhões de euros em volume de negócios em 2010), que o Walmart pensava em comprar em 2004, está internacionalmente mais presente. Mas a empresa fundada por Sam Walton conta com um trunfo: os 100 milhões de norte-americanos que passariam a procurar os everyday low prices (“preço baixo todo dia”) que ela oferece.

Baixos eles são. Em média, 14%.4 Mas a que preço? A questão é essa. A resposta, contudo, difere se a preocupação é com o indivíduo-cliente em busca das melhores ofertas ou com os funcionários dos fornecedores de uma empresa suficientemente poderosa para forçar todo mundo a manter – e reduzir – seus custos. Para que o cliente do Walmart se abasteça, o trabalhador tem de sofrer... Para que o preço do Walmart e de seus fornecedores sejam sempre os mais baixos, é necessário também que as condições sociais se deteriorem ao seu redor. Portanto, é melhor que os sindicatos não existam. Ou que os produtos venham da China.5

Arrocho salarial

A esquizofrenia do cliente que economiza com tamanha determinação a ponto de ajudar a empobrecer o produtor que ele próprio é pode parecer teórica e longínqua. Considerando o poder que o Walmart exerce (cerca de 8% das vendas no varejo dos Estados Unidos, fora o setor automobilístico), a contradição logo se torna real e imediata. Assim, a empresa de Bentonville orgulha-se dos “US$ 2.329 por ano” que ela “permite que as famílias trabalhadoras economizem”; a companhia afirma que em 2004 aumentou o poder de compra de cada norte-americano em US$ 401 em média e, no mesmo ano, levou à criação, direta ou indireta, de 210 mil postos de trabalho (é a ideia de que o dinheiro economizado pelos clientes foi dirigido a outros consumos, impulsionando, portanto, as atividades econômicas em outros lugares).

Os adversários da multinacional têm em mente cifras menos sedutoras. O preço baixo não cai do céu: ele se explica, em parte, pelo declínio de 2,5% a 4,8% do rendimento médio dos empregados de cada condado norte-americano em que a multinacional se instalou. A empresa deprime os salários nos locais onde é instalada. Ela cria as condições para oseveryday low prices. Consequentemente, multiplica o número de clientes que logo não poderão fazer outra coisa a não ser economizar em suas prateleiras.

Isso porque, entre o pote de ferro dos distribuidores e os potes de barro dos terceirizados, funcionários da multinacional e grandes supermercados rivais, o “jogo do mercado” opera um triplo efeito de deflação salarial. Primeiro, em razão do domínio de uma empresa pouco pródiga em relação a seus “associados” (termo usado para se referir aos trabalhadores). Depois, por conta da destruição da maior parte da concorrência ou de sua obrigação, para sobreviver, de alinhar-se à desvalorização social. Por fim, e principalmente, em consequência dos contratos autoritários que o Walmart impõe aos fornecedores, inclusive Estados, frequentemente determinando os preços (em 2002, por exemplo, a empresa comprou 14% dos US$ 1,9 bilhão de produtos têxteis exportados aos Estados Unidos por Bangladesh).

Aversão aos sindicatos

Ao longo de suas peregrinações, a empresa de Bentonville nunca abriu mão de duas de suas características originais: o paternalismo e a aversão aos sindicatos. As coisas são realmente simples para o 1,3 milhão de “associados” do Walmart nos Estados Unidos: não há sindicatos. Mona Williams, porta-voz da empresa, explicou o fato: “Nossa filosofia é que somente associados infelizes querem fazer parte de um sindicato. Mas o Walmart faz tudo o que está em seu poder para oferecer-lhes o que querem e precisam”. Desde que, bem entendido, não “precisem” demais: “É verdadeiramente realista”, pergunta Mona, “pagar US$ 15 ou US$ 17 por hora para alguém abastecer prateleiras?”.6 O CEO da empresa, Lee Scott Jr., não abastece prateleiras. Desse modo, ele pôde, na mesma época, receber US$ 17,5 milhões.

Para melhor se proteger dos sindicatos, cada gerente de loja tem um “conjunto de ferramentas”. Ao primeiro germe de descontentamento organizado, ele aciona um alerta que despacha de Bentonville um jatinho trazendo um quadro do alto escalão da companhia. Em seguida, aplica-se durante vários dias a pedagogia da casa, infligida aos “associados” para expurgar as más tentações. Em 2005, porém, não foi isso que aconteceu: os “associados” de uma filial do Quebec [Canadá] quiseram ser representados por um sindicato. O Walmart fechou a loja, e explica: “Essa loja não teria sido viável. Avaliamos que o sindicato queria alterar de cabo a rabo nosso sistema de operação habitual”.7 Um ano depois, a empresa foi condenada a US$ 172 milhões de multa por ter se recusado a dar aos empregados uma pausa para o almoço. Forçando um pouco, Jesse Jackson, candidato democrata à Casa Branca em 1984 e 1988, chegou a comparar as prateleiras da multinacional às plantations, lembrando as condições de trabalho dos campos de algodão do Sul dos Estados Unidos.

Quando o Walmart chega, o pequeno comércio fecha as portas. Desde que a empresa se instalou em Iowa, em meados dos anos 1980, o estado perdeu metade de suas mercearias, 45% das lojas de ferramentas e 70% das confecções masculinas. Utilizando o registro habitual do “populismo de mercado” da direita norte-americana, a empresa garante, no entanto, que não faz nada além de defender os consumidores sem dinheiro que, legitimamente, reivindicam “o menor preço” a grupos de produtores glutões ou varejistas detentores de remunerações indefensáveis. Já a multinacional tem a vantagem de ser “eleita” diariamente pelos dólares de clientes organizados em pacientes filas diante das caixas registradoras de suas lojas...

* Serge Halimi é o diretor de redação de Le Monde Diplomatique (França).

1 The Wall Street Journal, Nova York, 3 dez. 2005.
2 Por exemplo, Michael Deaver, que assessorou o presidente republicano Ronald Reagan, e Thomas McLarty, que fez o mesmo para Bill Clinton. Sobre as técnicas que usaram e ainda usam, ver “Faiseurs d’élections made in USA” [Fabricantes de eleições made in USA], Le Monde Diplomatique, ago. 1999.
3 História contada por George H. Bush em março de 1992, quando ofereceu a Sam Walton a Medalha Presidencial da Liberdade.
4 Steven Greenhouse, “Walmart, driving workers and supermarkets crazy” [Walmart, enlouquecendo trabalhadores e supermercados], The New York Times, 19 out. 2003.
5 Ver Jean-Christophe Servant, “Petites mains du Sud pour firme du Nord” [Mãozinhas do Sul para empresa do Norte], Le Monde Diplomatique, jan. 2006.
6 The Wall Street Journal Europe, 7-9 nov. 2003.
7 International Herald Tribune, Neuilly-sur-Seine, 11 mar. 2005.

Extraído do sítio Le Monde Diplomatique Brasil

16 setembro 2012

A LONGA AGONIA DA CRISE E A FAMA DOS ECONOMISTAS - Paulo Kliass

Uma das grandes tarefas para a mudança é desconstruir a imagem que o chamado “mainstream” ajudou a solidificar no ideário do senso comum: a economia não é uma ciência neutra, dotada de um arsenal de instrumentos e tecnicalidades que sempre pode conduzir a um único resultado certo e seguro.


Infelizmente, algumas das previsões mais pessimistas a respeito dos desdobramentos da crise econômico-financeira, que teve início há 4 anos, parecem estar se confirmando no horizonte. De um lado, à época, ouvíamos os analistas que subestimavam os riscos de encadeamento generalizado de um problema menor, que diziam eles estar bem localizado nos desequilíbrios e nas imperfeições do mercado bancário norte-americano. De outro, havia um conjunto de especialistas que caracterizavam a crise estado-unidense como sendo apenas a ponta de um iceberg, bem mais volumoso e profundo, que poderia provocar um efeito de contágio negativo de dimensões globais.

Assim, aquilo que fora apresentado por alguns como sendo apenas o efeito de um desarranjo no sistema das hipotecas imobiliárias do sistema financeiro dos Estados Unidos, na verdade operou como um catalisador de uma crise potencial bem mais ampla, de proporções internacionais. A chamada “bolha” do mercado de imóveis havia espalhado seus efeitos para os outros setores. Para além dos bancos tradicionais, os demais agentes do sistema financeiro foram rapidamente afetados, a exemplo dos fundos de investimento, das seguradoras, dos fundos de pensão. A maior parte de tais instituições revelaram-se totalmente a descoberto em suas operações, uma vez que as crenças ultra-liberais levadas ao paroxismo permitiram ao sistema bancário alavancar suas operações e eternizar o repasse dos riscos evidentes de seus empréstimos e de suas concessões de crédito. A desregulamentação, tão apregoada como a panacéia para que fosse alcançada a suposta eficiência do mercado, passou a apresentar a sua pesada fatura.

Dado o elevado nível de internacionalização dos mercados financeiros e a grande interdependência de suas diversas praças em todos os continentes, não tardou muito para que o espaço da União Européia também passasse a sofrer os efeitos perversos do contágio epidêmico. A crise atravessou as águas atlânticas e suas conseqüências atingiram um conjunto de países, que - diga-se de passagem - já sofriam bastante com as políticas de ajuste severo patrocinadas pela troika composta pelo Banco Central Europeu (BCE), pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e pela Comissão Européia (CE).

Apesar da crise, o pensamento neoliberal persiste e resiste

As dificuldades enfrentadas pelo receituário neoliberal em dar conta da conjuntura, após a deflagração da “inesperada” hecatombe, contribuiu para a criação de um certo otimismo, no que se refere à eventual possibilidade de vivermos uma oxigenação e uma renovação da hegemonia desse pensamento ortodoxo, que vem orientando o universo dos tomadores de decisão na área econômica pública e privada desde o final dos anos 1970 e início dos 1980. Tal perspectiva, um tanto imbuída de certa dose de ingenuidade e de voluntarismo, imaginava que o fato de se ter lançado mão de medidas caracterizadas por um profundo pragmatismo para sair da crise, teria sido o reflexo de uma reviravolta nas bases ideológicas do conservadorismo econômico. Mas, na verdade, a questão é bem mais complexa do que aparenta.

É verdade que o pensamento heterodoxo passou a ganhar mais espaço nos meios de comunicação e mesmo no discurso de alguns importantes dirigentes políticos. Vários economistas de renome internacional passaram a reconhecer a incapacidade da usada cartilha, pela qual haviam rezado até anteontem, em resolver os problemas da crise. Isso significava admitir que o excesso de desregulamentação e a liberalização desenfreada da economia haviam operado como elemento prejudicial para a maioria da população e para a maior parte dos países. Isso significava se render às evidências de que a ação do Estado seria essencial para atuar no sentido de atenuar os efeitos perversos da crise. Alguns dos conceitos e das proposições associadas ao economista John Maynard Keynes voltaram ao centro da cena, perdendo um pouco de força a conduta preconceituosa contra eles adotada até então pelos principais formadores de opinião. Afinal de contas, se não fosse a presença ativa do Estado, intervindo com seus fundos de salvamento generalizado, o sistema financeiro transcontinental teria sofrido perdas muito mais significativas.

Porém, esse recuo tático do pensamento conservador não foi acompanhado por nada parecido com uma eventual substituição da cultura hegemônica neoliberal. Houve sim um choque inicial, é importante reconhecer. Talvez até mesmo para os indivíduos mais sinceros, para os menos ideologizados e para os menos comprometidos com o sistema financeiro, o universo do fenômeno econômico pós crise venha realmente a ser explicado por outros conceitos e por diferentes pressupostos teóricos. 

Mas o que não se pode perder de vista é o processo de consolidação do enfoque neoliberal. Afinal, foram mais de 3 décadas de esmagamento ideológico conservador, construído e fortalecido pela implementação de políticas econômicas ensandecidas pelo mundo afora. As principais instituições multilaterais encarregaram-se da tarefa e não por acaso alguns de seus ideários eram conhecidos pela alcunha de “Consenso de Washington”, em razão das sedes de Banco Mundial (BM), do Federal Reserve (FED - Banco Central norte-americano) e do FMI. As principais faculdades de economia em todos os continentes tiveram seus currículos moldados segundo esses princípios, seja nos cursos de graduação, seja nos centros de pesquisa de mestrado e doutorado. A grande maioria dos órgãos de comunicação também foi contaminada por tal visão, reproduzindo indiscriminadamente a concepção unilateral da supremacia dos mercados, em detrimento da suposta ineficiência da ação do Estado. 

Mudança para novo paradigma é processo lento

Ora, parece razoável admitir que tal mudança hipotética na hegemonia ideológica é um processo lento e não se produz assim tão rapidamente. Daí porque o mais correto é compreendermos esse movimento como um recuo tático e não como alteração no padrão de compreensão do fenômeno econômico. Há toda uma geração que foi formada nas bases do conservadorismo liberal e que precisa de muito tempo e de muita pressão gritante da realidade objetiva para que se disponha a enxergar o mundo através de outras lentes. O tempo requerido para a consolidação efetiva de uma visão alternativa é longo, também numa perspectiva geracional.

Apesar da lenta agonia da crise, a fama dos economistas continua a ser muito negativa junto à maioria da população. Os poucos exemplos de conversão sincera, por parte de economistas mais conhecidos, a uma visão menos comprometida com os interesses do capital financeiro são o melhor retrato de tal dificuldade. A troika continua a propor suas receitas ortodoxas para os países da União Européia, recusando-se a reconhecer a dureza dos ajustes frios e que não levam em conta os aspectos sociais da crise. O saldo do primeiro mandato do Presidente Obama também funcionou como uma espécie de ducha de água fria naqueles que depositavam esperança numa possibilidade de mudança efetiva, depois do lema vitorioso do “Yes, we can!”. Até mesmo a vitória mais recente de François Hollande nas eleições francesas ainda tarda a apresentar resultados palpáveis em termos de saída da recessão em seu próprio país e de implementação de políticas econômicas alternativas à sua rival alemã, Ângela Merkel, nas instâncias da União Européia.

Como uma parte considerável dos meios de comunicação cria na população a expectativa de que os economistas sabem tudo e têm respostas para tudo, ocorre uma curiosa conjunção de interesses a esse respeito. O fenômeno econômico deixa de ser pensado como parte integrante do universo das ciências sociais. Aquilo que as diversas correntes das escolas clássicas (Adam Smith, David Ricardo, Karl Marx, entre outros) consideravam como “economia política” (“political economy”) foi sub-repticiamente convertido a simplesmente “economia” (“economics”), com a perda evidente de muito mais substância do que o simples adjetivo da política.

Economia não é técnica neutra; é integrante das ciências sociais

Uma das grandes tarefas para a mudança é desconstruir a imagem que o chamado “mainstream” ajudou a solidificar no ideário do senso comum: a economia não é uma ciência neutra, dotada de um arsenal de instrumentos e tecnicalidades que sempre pode conduzir a um único resultado certo e seguro. Exatamente em razão de suas relações com elementos da história, da sociologia, da ciência política, da antropologia, das relações internacionais, entre tantos outros, a economia tem por objeto de estudo um fenômeno ultra complexo e que responde a múltiplas causas. O que dizer então das perguntas encaminhadas aos “oráculos” das consultorias financeiras – como se fossem seres super dotados – a respeito de itens como crescimento do PIB para o ano que vem, taxa de inflação para o próximo biênio, evolução futura do mercado de “commodities”? 

Os modelos utilizados pelos “especialistas” baseiam-se em instrumental da chamada econometria para tentar chegar a tais respostas. Trata-se de uma sofisticação de elementos da estatística para explicar o comportamento de variáveis da economia. O problema é que sempre são utilizados os dados do passado para tentar fazer as projeções para o futuro. E como a dinâmica econômica responde a fatores de natureza histórica, política e social, nem sempre o futuro reproduz as linhas de comportamento do passado. Na verdade, tais modelos deveriam ser utilizados com muito mais cautela e menos certeza. 

Às vésperas da crise bancária de 2008, a absoluta maioria das empresas de consultoria econômica ignorava a possibilidade de emergência de uma crise sistêmica. As chamadas agências de risco ofereciam ótima notação para os bancos que quebraram logo a seguir, sempre na linha do AAA. No final de 2010, as previsões dos “especialistas” para o crescimento do PIB brasileiro de 2011 situavam-se na faixa de 4% - o resultado final foi de apenas 2,7%. Situação análoga ocorre para o PIB do presente ano: os “modelos” diziam que após a baixa de 2011, a economia só poderia se recuperar, com algo em torno de 4,5%. Porém os dados do setor real nos informam que dificilmente cresceremos mais de 2%. Mas então, e os modelos? Ora, os modelos...

Assim, a má fama que geralmente se atribui aos economistas é derivada desse tipo de comportamento. Mas não se trata de um problema associado à profissão em si. A questão reside na maneira como uma parcela dos responsáveis, formados de acordo com os pressupostos conservadores e defensores dos interesses do “establishment”, se apresentam para o conjunto da sociedade. Agem como se fossem portadores de um saber inquestionável e se consideram capazes de realizar todo o tipo de previsão econômica infalível para o futuro. Seus modelos são implacáveis na defesa de soluções duras, com conseqüências sociais e políticas catastróficas – e que não chegam nem mesmo a alcançar os objetivos pretendidos no início. Salários, desemprego, gastos sociais, desindustrialização? Ora, trata-se de variáveis pouco significativas, quando o importante é assegurar equilíbrio de mercado, atratividade do capital externo, concessão de fundos públicos para as empresas privadas, ajuda orçamentária para instituições financeiras com problemas de solvência.

A absoluta maioria dos órgãos de imprensa abre espaço apenas para os “especialistas” e “analistas” que compartilham essa mesma visão. A cada novo fenômeno a explicar ou a cada nova medida anunciada pelo governo, são ouvidos os profissionais de sempre e o público é contemplado com uma suposta “opinião inquestionável” dos economistas a respeito do tema, como se fosse uma espécie de consenso construído de forma artificial e casuística. Apesar das novidades trazidas pela crise, a sociedade permanece sendo informada a respeito apenas das bases da mesmice para o seu enfrentamento.

* Paulo Kliass é Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental, carreira do governo federal e doutor em Economia pela Universidade de Paris 10.

Extraído do sítio Carta Maior

02 setembro 2012

O CAPITALISMO AMERICANO - José Luis Fiori

Nos cerca de 250 anos de história independente, os EUA iniciaram - em média - uma guerra a cada três anos, exatamente como a Inglaterra. Contando com a vantagem de ser “membro por nascimento”, da pequena comunidade dos estados produtores da “ética internacional” que arbitram as “guerras justas” e o “livre comércio”.


“Years before the Declaration of Independence…Benjamin Franklin, George Washington and Thomas Jefferson, as well as a considerable ratio of New England´s most proeminent Congregationalist ministers already talked of America reaching the Mississippi or even the Pacific to become the next century great empire”
Kevin Phillips, “The Cousins´ Wars”, Basic Books, New York, 1999, P:116

A publicação - em 1894 - do livro do economista inglês, John A. Hobson (1858-1940) - “A Evolução do Capitalismo Moderno” - transformou-se numa referencia obrigatória para a interpretação do desenvolvimento econômico dos Estados Unidos. Depois de Hobson, vários historiadores e economistas retomaram sua tese sobre a originalidade radical do capitalismo americano, vis a vis o desenvolvimento europeu. Em particular, depois da Guerra de Secessão (1861-1865), com o surgimento das grandes corporações e do capital financeiro que teriam revolucionado a organização microeconômica, e mudado a face do capitalismo mundial. Do nosso ponto de vista, entretanto, estas transformações ajudam a entender o “milagre econômico” americano do início do século XX, mas não explicam as próprias transformações.

Os Estados Unidos foram o primeiro estado nacional que nasceu fora da Europa, mas não fora do sistema geopolítico e econômico europeu. Pode-se dizer inclusive, que a “Guerra da Independência” americana foi, em grande parte, um capítulo da disputa entre a Inglaterra e a França pela supremacia mundial. E sua conquista definitiva ocorreu entre as duas grandes guerras (“Dos 7 Anos” e “Bonapartista”) que definiram a hierarquia de poder internacional, e a supremacia inglesa, dentro e fora da Europa, a partir de 1815. 

Durante este período de guerras, os Estados Unidos sempre se sentiram “cercados” e ameaçados - simultânea ou sucessivamente - pela Inglaterra, França e Espanha, e tiveram que negociar seu reconhecimento e suas fronteiras com o “núcleo duro” das Grandes Potências europeias. 

Assim mesmo, os EUA acabaram se transformando no único estado nacional extra-europeu que nasceu de um império e de uma economia em plena expansão vitoriosa. Mais do que isto, durante a chamada “revolução industrial” que transformou os Estados Unidos – imediatamente - na primeira periferia “primário-exportadora” de sucesso da economia industrial inglesa. Situação econômica privilegiada que se consolidou e expandiu durante todo o século XIX, antes e depois da Guerra de Secessão, enquanto a Inglaterra abria espaços de expansão comercial para sua ex-colônia, e assumia a responsabilidade – em alguns momentos - por cerca de 60% do investimento direto dentro de todo o território norte-americano, que passou a fazer parte de uma espécie de “zona de co-prosperidade” anglo-saxônica , ou mesmo, num caso avant la lettre, de “desenvolvimento a convite”, da Inglaterra.

Por outro lado, desde sua independência, os Estados Unidos foram governados por uma elite coesa e com um intense commitment imperial, e mantiveram um ritmo de expansão política e territorial contínua, através da guerra, da diplomacia e do comércio. Antes da Guerra Civil, foram 37 “guerras indígenas”, e mais as Guerras do Texas e do México, em 1837 e 1846, responsáveis pela duplicação do território americano. Mais a frente, vieram a Guerra Civil e a Guerra Hispano-Americana, e uma sucessão de intervenções militares no Caribe, num movimento de expansão que se acelerou no século XX, alcançando Europa, Ásia, Oriente Médio e África. De forma que nos cerca de 250 anos de história independente, os EUA iniciaram - em média - uma guerra a cada três anos, exatamente igual como a Inglaterra. Contando com a vantagem de ser “membro por nascimento”, da pequena comunidade dos estados produtores da “ética internacional” que arbitram as “guerras justas” e o “livre comercio”.

A história segue e é extensa, mas já se pode dizer que ela fornece fortes indícios de que:

- o desenvolvimento econômico dos EUA não foi uma exceção, pelo contrário, foi uma parte essencial da expansão e das contradições do sistema inter-estatal e do capitalismo europeu;

- o sucesso do capitalismo americano não foi puramente endógeno, nem foi apenas uma obra das grandes corporações e do capital financeiro que nasceram à sombra da Guerra Civil;

- o “apoio externo” foi decisivo para o sucesso da economia americana, que foi sempre a principal “fronteira de expansão” do capital financeiro inglês;

- a “guerra contínua” teve um papel estratégico no desenho da política industrial e agrícola, e no desenvolvimento científico e tecnológico dos EUA;

- e por fim, a expansão política, territorial e bélica dos EUA foi na frente do processo de internacionalização das grandes corporações, do capital financeiro e da moeda norte-americana.

Uma história de desenvolvimento econômico como a das demais potências do sistema mundial, mas muito diferente da interpretação economicista de Hobson e seus discípulos.

* José Luís Fiori, cientista político, é professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Extraído do sítio Carta Maior