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18 setembro 2012

QUEM SEMEIA VENTO COLHE TEMPESTADE - Mário Augusto Jakobskind


E de repente, talvez não mais do que de repente, a Líbia voltou às manchetes dos jornais e telejornais. Madame Hillary Clinton, num misto de cinismo e charlatanice, disse estar surpresa com o acontecido em Benghazi que resultou na morte do embaixador Christopher Stevens e mais três funcionários do consulado estadunidense.

Clinton insiste na tese segundo a qual os EUA ajudaram a Líbia a se transformar num país democrático. Tal afirmação não corresponde à realidade.

Depois dos bombardeios da OTAN, que resultaram no estabelecimento de um novo governo, a Líbia na prática deixou de existir como nação. E isso apesar de o governo pró-ocidental ter estabelecido a bandeira da monarquia como símbolo do país fictício.

O país norte africano, que até bem pouco tempo era considerado o mais adiantado da região, hoje vive em situação de caos com bandos armados se digladiando entre si. Realizaram uma eleição fajuta e há um número incalculável de presos políticos, sendo a tortura uma prática rotineira. Hillary Clinton, claro, não deve ignorar tudo isso.

As autoridades líbias, na prática impostas pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), podem ser consideradas no mínimo suspeitas. O chefe do Exército (o certo é mencionar a corporação como suposta) é um agente da CIA de nome Hiflter. O presidente do Parlamento, um tal de Al-Magaryef, também não passa de um agente dos serviços de Inteligência ocidentais, segundo informações de fontes independentes.

Já o primeiro Ministro, Adelrahim AL-Kib é um empregado da Exxon, provavelmente licenciado para ocupar o cargo e defender os interesses da empresa a que serve. Ele cumpre também a missão de fazer com que a Líbia influencie na Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP).

É neste contexto que navegava Christopher Stevens, o embaixador morto pelos extremistas salafistas, grupo que também recebeu financiamento do emirado de Catar e da Arábia Saudita para reforçar o esquema da derrubada do antigo regime capitaneado por Muammar Khadafi. Não se pode ignorar que os salafistas participam ativamente da oposição contra o atual governo da Síria e recebem a proteção dos serviços de inteligência ocidentais. E como diz o dito popular, quem semeia vento colhe tempestade...

Claro que a ação é condenável, tendo sido Cuba o primeiro país a se posicionar nesse sentido. O ato é de interesse da extrema direita estadunidense que quer eleger um candidato. Nos Estados Unidos, segundo informes de agências internacionais, um grupo de 100 sionistas norte-americanos extremistas ajudou a financiar a tal película, divulgada pelo também extremista de direita Pastor Terry James, satanizando o islamismo e que acabou servindo de pretexto para a investida contra o consulado estadunidense em Benghazi e mais tarde em outras representações diplomáticas estadunidenses em capitais de países de religião muçulmana.

Apenas serviu de pretexto, pois o ódio aos EUA por uma série de circunstâncias, é fato histórico.

O hediondo republicano Mitt Romney tentou aproveitar o embalo para angariar votos à sua candidatura, levantando a suspeita de que o acontecimento foi armado pela própria direita extremada. Há quem pergunte como sabiam que o embaixador estava em Benghazi e porque só depois de dois meses o tal documentário provocou toda essa ira?

Teoria da conspiração ou não, o certo é que o candidato republicano é realmente um perigo para o mundo, mas como é pouco dotado, escorregou feio em suas declarações idiotas sobre os acontecimentos.

O diplomata norte-americano morto pelos salafistas não foi um inocente na história que resultou na derrubada do antigo regime líbio e levou à situação atual. Teve culpa no cartório mesmo.

Para entender melhor os atuais acontecimentos da política externa estadunidense, vale recuar no tempo. Na verdade, desde há pelo menos cinco décadas as embaixadas estadunidenses pelo mundo afora se tornaram instrumento de ajuda prioritária às ações da CIA. O referido serviço de inteligência sempre insistiu que a cobertura das embaixadas é essencial a seu trabalho, porque inclusive sem a imunidade de que goza a propriedade diplomática, os códigos, arquivos e comunicações da central de inteligência estadunidense não estariam em segurança.

Houve um tempo em que diplomatas estadunidenses não queriam servir de biombo para a ação dos agentes da CIA. Os atritos tornaram-se tão constantes e agudos que no fim do longínquo governo de Dwight Eisenhower, em novembro de 1960, o então Presidente dos EUA acabou expedindo uma ordem executiva em que afirmava:

“Os chefes de missões diplomáticas dos Estados Unidos no exterior, como representantes do Presidente e agindo em seu nome, deverão possuir e exercer, na medida em que permitam as leis e de acordo com as instruções que o Presidente venha promulgar, a responsabilidade direta pela coordenação e supervisão das atividades das várias agências que sirvam nos diferentes países”.

A determinação, que segue em vigor até hoje e foi inicialmente reforçada por John Kennedy, teve de ser seguida obrigatoriamente por todos os embaixadores em missão no exterior. E quem não aceitasse a ordem ou mesmo apenas a questionasse verbalmente era exonerado.

Por estas e muitas outras, as embaixadas norte-americanas tornaram-se linha auxiliar da CIA.

Madame Clinton sabe muito melhor do que qualquer um de tudo isso e as representações diplomáticas estadunidenses se intrometeram mais ainda nas últimas décadas em assuntos internos dos mais variados países.

No Brasil mesmo, segundo confirmam documentos do Departamento de Estado tornados públicos, o golpe de abril de 1964 teve apoio ostensivo do governo dos EUA, tendo a mobilização nesse sentido começado no governo de John Kennedy, em 1962, num encontro com o então embaixador Lincoln Gordon, e continuado posteriormente pelo então Presidente Lyndon Johnson.

Muita grana para eleger congressistas pró-EUA com o objetivo de desestabilizar o governo João Goulart e até envio de navios de guerra nas costas brasileiras em 64 (Operação Brother Sun) para respaldar, se fosse necessário, a derrubada do governo constitucional brasileiro, confirmam a participação da CIA no golpe civil militar que levou o país a uma longa noite escura.

Por estas e muitas outras, a surpresa de Madame Clinton não passa de dissimulação com base na mentira e charlatanice.

Extraído do sítio Direto da Redação

13 julho 2012

PARAGUAI DIVIDE BRASIL E EUA POR HEGEMONIA NA AMÉRICA LATINA



Quem manda no Cone Sul afinal? Essa é a pergunta por detrás das diferenças entre Brasil e Estados Unidos sobre o impeachment que apeou Fernando Lugo e instalou Federico Franco no poder do país vizinho. Pressão do chanceler Patriota sobre OEA pode sucumbir a enxurrada de votos para americanos de Hillary Clinton.

Agora, quando a questão paraguaia toma a agenda da Organização dos Estados Americanos (OEA), fica ainda mais claro porque o Brasil tem firmado posição tão intransigente a respeito da condenção do processo de impeachment do presidente do Paraguai, Fernando Lugo. Um dos principais motivos é o fato de os Estados Unidos estarem do outro lado, posicionados a favor da subida ao poder do atual presidente Federico Franco. Com interesses que incluem a instalação de uma base militar no país vizinho, os americanos já deram mostraram de que mobilizarão todos os seus votos na OEA, onde detém forte influência sobre os países centrais e caribenhos, pela aprovação da mudança política.

De olho nesse movimento, liderado pelo chanceler Antonio Patriota o Brasil tenta cabalar votos até mesmo entre países pequenos, como Santa Lúcia, uma discreta ilha no mar do Caribe. Nesta quinta-feira 12, em Brasília, Patriota aproveitou a visita do chanceler Alva Baptiste para mandar recados à OEA, pedindo o alinhamento da organização aos vetos adotados pelo Mercosul e a Unasul, organismos nos quais o Brasil é a voz mais forte.

O Estados Unidos, no entanto, sabem bem o querem. Em resposta à crítica do chanceler brasileiro ao posicionamento do secretário-geral da OEA, José Miguel Insulza, de que a virada no poder do Paraguai atendeu às regras democráticas do país – ele não estaria falando em nome da Organização, disse Patriota –, a secretária de Estado adjunta para a América Latina, Roberta Jacbson, rebateu que, ao contrário, Insulza tem sim respaldo da Organização para falar. Essa queda de braço irá durar, sem dúvida, até mesmo depois de a OEA votar uma resolução a respeito do assunto.

Abaixo, notícia da Agência Brasil sobre a disputa Brasil-Estados Unidos em torno da questão paraguaia:

Mariana Branco _Agência Brasil, Brasília - O ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, disse ter expectativa de que a Organização dos Estados Americanos (OEA) leve em conta a postura adotada pela União de Nações Sul-Americanas (Unasul) e pelo Mercado Comum do Sul (Mercosul) quando for se posicionar oficialmente sobre a atual situação do Paraguai.

Os dois blocos internacionais suspenderam o Paraguai de seus quadros até a convocação de novas eleições, por discordarem de como foi conduzido o processo de impeachment do ex-presidente Fernando Lugo. De acordo com Antonio Patriota, não há data prevista para uma reunião em que a OEA decida sobre o assunto.

Patriota deu a declaração em coletiva de imprensa após encontro com o chanceler da ilha caribenha de Santa Lúcia, Alva Baptiste. "O Mercosul e a Unasul tomaram uma postura importante. Esperamos que os órgãos mais amplos levem em consideração o que esses subgrupos decidiram", afirmou o ministro.

No início da semana, o secretário-geral da organização, José Miguel Insulza, sugeriu que seja feito um plano de ação para facilitar o diálogo entre os países americanos e que defendeu que o Paraguai não sofra suspensão. No entanto, Patriota disse ontem (11) que as afirmações de Insulza não constituem a posição oficial da Organização dos Estados Americanos.

Antonio Patriota comentou ainda as declarações da secretária de Estado adjunta para América Latina dos Estados Unidos, Roberta Jacobson, que elogiou a postura do secretário-geral da OEA e defendeu equilíbrio e diálogo nas relações com o Paraguai. "Na conversa que tive com a secretária de Estado, Hillary Clinton, houve manifestação de séria preocupação com o respeito ao direito de ampla defesa no processo [contra Fernando Lugo]", disse.

O chanceler Alva Baptiste também se manifestou sobre o Paraguai. "Quero deixar claro que Santa Lúcia acredita na democracia. Santa Lúcia não apoia nem apoiará qualquer coisa que coloque em cheque os valores que abraçamos. Todo esforço será feito para garantir que o hemisfério continue nesse caminho [da democracia]", declarou.


Extraído do sítio Brasil 247