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31 março 2013

O QUE FAZER COM EDUARDO CAMPOS? - Antonio Lassance

A candidatura de Eduardo Campos à presidência da República é um problema à espera de uma saída honrosa. Afora toda a badalação e bajulação, sua candidatura tem pés de barro. Por sua vez, a coisa mais inadvertida que a presidência Dilma e o PT podem fazer neste exato momento é enxotar o PSB de seu governo.


A candidatura de Eduardo Campos à presidência da República é um problema principalmente para o próprio Eduardo Campos. Afora toda a badalação e bajulação que o cercam, muito comuns nos casos em que o sucesso sobe à cabeça, sua candidatura tem pés de barro.

O nome de Eduardo Campos é praticamente restrito a Pernambuco. Seu partido não tem força nacional e seus políticos pretendem, antes de eleger um presidente, conquistar mais prefeituras e governos estaduais. Campos e o PSB integram o governo Dilma. Precisam arranjar um motivo para sair dele e justificar uma candidatura nacional contra um governo com níveis recordes de popularidade.

Portanto, o que fazer da candidatura Eduardo Campos se tornou um problema à espera de uma saída honrosa. Eleito em 2006 e reeleito em 2010, Campos precisa saber exatamente o que será em 2014: governo ou oposição? Candidato à presidência, ao Senado, à Câmara ou a ministro de um segundo governo Dilma?

Campos tem assumido com maestria o papel de chamar a atenção para si próprio. Porém, enquanto lançar-se candidato é fácil e não custa nada, sair candidato são outros quinhentos. Pode custar caro. Para alguém se dizer candidato, basta uma pessoa, o próprio pretendente. Para de fato ser candidato, é preciso uma retaguarda de apoio político de partidos e de forças sociais que se mobilizem a favor ou contra alguma coisa. A favor de que ou contra o que é a candidatura Eduardo Campos? Até agora não se sabe.

Por sua vez, a coisa mais inadvertida que a presidência Dilma e o PT podem fazer neste exato momento é enxotar o PSB de seu governo. Tornariam fato uma candidatura que por enquanto é só especulação precoce. Engrossariam a lista de candidatos que, mesmo com poucos percentuais, somados podem favorecer um segundo turno. Tirariam da base aliada um partido que pode fazer falta no Congresso, colaborando com obstruções e dissensões sobre projetos importantes para a agenda do Executivo.

Se o PSB for defenestrado do governo, será poupado do trabalho difícil de explicar sua saída por outras razões que não o oportunismo eleitoral. O encontro afetuoso com Serra, os elogios a FHC e as alfinetadas em Dilma foram provocações, mas também foram uma isca jogada para o PT morder. O afastamento de dirigentes do PSB das Indústria Nucleares do Brasil foi o troco, talvez na hora errada.

A turma do "deixa disso", que inclui o ex-presidente Lula e o atual governador da Bahia, Jacques Wagner, tem tratado o assunto com mais cautela e perspicácia, evitando um confronto direto que transformaria Campos e o PSB em vítimas.

Nesse contexto, a tentativa apaziguadora de Jacques Wagner parece ter sido até agora o movimento mais incisivo para debelar a candidatura do PSB e resgatar o pródigo de volta à casa. Wagner revelou, em entrevista, ter sugerido a Campos que sua melhor estratégia seria aguardar 2018 e tentar ser um candidato do campo aliado, e não se bandear para o lado adversário.

A especulação sobre uma candidatura de Campos em 2018 tem um ingrediente difícil de acreditar, quase improvável: a de que o PT, quem sabe, poderia até abdicar da cabeça de chapa. Mesmo se isso fosse verdade, haveria o problema extra do PT preterir aquele que se consolidou como seu aliado preferencial, o PMDB; partido que, aliás, já anunciou que buscará ter um candidato à presidência em 2018. Engana-se quem pensa que ele seja Sérgio Cabral, que não conta com apoio da cúpula peemedebista.

Enfim, ao que parece, a conta de 2018 não fecha. A não ser sob uma única hipótese: a de Eduardo Campos migrar para o PMDB, com o qual, em Pernambuco, não tem qualquer problema de convivência. Sob a égide de um acordo de alternância no poder entre PT e PMDB, o Brasil poderia ingressar na fórmula similar à da Concertación chilena, que sempre foi vista por muitos dirigentes do campo majoritário do PT como um bom modelo de governabilidade.

E por que cargas d'água o PT abdicaria da presidência? Existem razões fortes do ponto de vista estratégico. Dar a vez ao PMDB possibilitaria sacramentar o compromisso de longo prazo com esse partido, já reiterado em alto e bom som por vários dirigentes petistas. Permitiria dar uma nova cara à presidência da República, dessa vez com o PT como coadjuvante. Entre os petistas, existe o medo do cansaço ou fadiga do poder, aventado por Wagner na referida entrevista e que foi experimentado por inúmeras administrações petistas. O mesmo mal se abateu sobre os chilenos da Concertación, que perderam a última eleição quando repetiram o candidato Eduardo Frei, que já havia sido presidente.

Mas existe também uma razão tática importante. Abrir espaço para uma candidatura presidencial de fora do PT, com um aliado estratégico e "melhorado" em relação ao atual plantel do PMDB, ajudaria o PT a dar vazão a candidaturas estaduais que hoje estão represadas por conta da absoluta prioridade conferida pelo Partido à disputa presidencial. Um futuro time de governadores proporcionaria novo fôlego e reforçaria o retorno posterior à presidência, com ânimo renovado e candidatos de sobra. 

Ainda assim, se nada disso der certo e ninguém combinar o jogo com os "rousseff", sobraria um bom problema para os governistas: a eleição de 2018 seria palco não mais da tradicional disputa entre PT e PSDB, mas entre candidatos da atual coalizão - o PT, o PMDB e o PSB. Faz sentido.

* Antonio Lassance é cientista político e pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). As opiniões expressas neste artigo não refletem necessariamente opiniões do Ipea.

Extraído do sítio Carta Maior

12 março 2013

SOBRE TRAIÇÃO E COERÊNCIA: LIÇÕES DO AVÔ AO NETO - Saul Leblon

Miguel Arraes
Imediatamente após o golpe 1964, os militares tentaram cooptar grandes nomes da política brasileira, cuja credibilidade pudesse mitigar a violência cometida contra a democracia. 

Ao então governador de Pernambuco, Miguel Arraes, avô do atual ocupante do cargo, Eduardo Campos, foi dada a opção seca: adesão com renúncia 'espontânea', ou prisão. 

Cercado no Palácio das Princesas, o sertanejo Miguel Arraes honrou a fibra que lhe dera fama.

'Não vou trair a vontade dos que me elegeram', mandou dizer aos emissários do Exército. 

Foi preso imediatamente. Sobral Pinto, famoso jurista da época, conseguiu-lhe um habeas corpus, cujo relator foi Evandro Lins e Silva.

Em 1965, Arraes exilou-se na Argélia. Em 1967 foi condenado à revelia a 23 anos de prisão. 

Voltou ao país com a abertura, em 1979. A coerência que o transformara em legenda, impulsionou a retomada da carreira política. 

Arraes elegeu-se governador mais duas vezes em Pernabuco, em 1986 e 1994. 

Outro exemplo de retidão sertaneja foi o paraibano de Pombal, Celso Furtado. 

Decano dos economistas brasileiros, Furtado dirigia a Sudene, em Recife. 

No dia do golpe, esvaziava gavetas quando sua sala foi invadida por um grupo de oficiais de alta patente. 

A exemplo de Arraes, foi chantageado pelos que buscavam aliados vistosos. 

Sua resposta não foi menos enfática: 

'Sou um servidor da República, não me peçam para trair minha pátria', disparou sobre seus interlocutores. 

Cassado, Furtado exilou-se na França. 

O governador Eduardo Campos conhece essas histórias, conviveu com seus personagens. 

O governador tem recebido emissários frequentes das mesmas forças e interesses que em 1964 acossaram seu avô e perseguiram reservas morais da Nação, a exemplo de Furtado. 

O governador deve em boa parte a sua carreira política aos que souberam dizer não aos emissários da traição e do golpismo. 

A ver.

Extraído do sítio Carta Maior

04 março 2013

NOBLAT E O CERCO A EDUARDO CAMPOS - Altamiro Borges


A mídia demotucana já traçou a sua tática para as eleições presidenciais de 2014. De um lado, ela tentará fustigar ao máximo o atual governo, comportando-se como “mercadora do pessimismo”. Já atacou a redução das tarifas de energia elétrica, profetizou uma nova explosão inflacionária e investe no “quanto pior, melhor” na economia. De outro, ela sabe que seu dispositivo partidário, composto por PSDB, DEM e PSP, só terá alguma chance se o campo governista rachar. Isto explica o artigo de hoje de Ricardo Noblat.

Ele aposta todas as fichas na candidatura dissidente do presidente nacional do PSB e governador de Pernambuco. Ansioso, ele chega a afirmar que o “PT acua Eduardo Campos”, quando o que ocorre é exatamente a pressão e sedução da mídia para que ele se candidate. Para Noblat, que não consegue conter seu ódio de classe a Lula, as manobras para abortar o sonho do líder do PSB partem do ex-presidente. O petista peca ao agir para manter a unidade do campo governista; já a mídia é livre para estimular o racha!

O blogueiro da famiglia Marinho garante que Lula “até parece bonzinho”, mas não é. “Eduardo apoiou Lula em quase todas as eleições presidenciais disputadas por ele. Lula só apoiou Eduardo para que ele se reelegesse governador”. Para ele, a eleição para a prefeitura de Recife, na qual o PT e o PSB racharam, indica que não dá para confiar no líder petista. “De lá para cá tudo desandou. O PT apertou Lula para que ele apertasse Eduardo. Lula apertou os irmãos Gomes para que eles ameaçassem rachar o PSB”.

Diante deste cenário, próprio da luta política, Noblat insiste para que o presidente do PSB não desista da sua candidatura presidencial, apesar dos riscos que esta operação comporta – inclusive na disputa para o governo de Pernambuco. “Eduardo é da base de apoio e tira votos de Dilma. De resto, desmancha o cenário considerado ideal por Lula para ganhar outra vez: PT, apoiado por um monte de partidos x PSDB quase só... Eduardo mete muito medo no PT. A pecha de direitista, privatista e anti-Lula não gruda nele”.

Este “medo do PT” é que faria Lula tentar sufocar já no nascedouro a candidatura dissidente do líder do PSB. “Todas as armas serão usadas para isso”. Mas ele insiste: não desista! Depois, Noblat ainda tem a caradura de afirmar que o “PT acua Eduardo Campos”.

Extraído do Blog do Miro

A PROCURA DESESPERADA POR UM CANDIDATO - Rodolpho Motta Lima


Nos últimos dias, tem havido grande efervescência política com o lançamento, claro ou velado, de diversas candidaturas à Presidência da República, inclusive a da própria Presidenta. A profusão de prováveis candidatos de oposição a Dilma – estimulados pela mídia - deixa evidente, de cara, que o pessoal do PIG não acredita que Aécio ou qualquer outro tucano seja capaz de vencer a eleição. E a direita experimenta seus sonhos de consumo nas figuras de Marina Silva (nem de direita nem de esquerda, porque tudo que cai na REDE é peixe...), Eduardo Campos (cujo avô, Miguel Arraes, deve tremer no túmulo com certos entusiasmos de ocasião destinados ao neto) e até uma outra, que merece aqui observação mais atenta.

Recentemente – entre os dias 20 e 26.02 - , vimos surgir, nas charges do Chico, cartunista/chargista de presença diária no “Globo” junto a figuras de “presidenciáveis” – como Marina, Aécio e Eduardo – a do ministro, Joaquim Barbosa. Nada a objetar, se ele não estivesse aparecendo, como os outros e com os outros, no estilo “mocinho que invade o saloon”, em atitude acintosa de oposição à presidenta Dilma. Em uma delas, a que me parece mais grave, a charge vem acompanhada da mensagem/fala atribuída aos quatro personagens – Joaquim Barbosa inclusive - e dirigida à Dilma: “- Eu vou tirar você desse lugar”.

Chico costuma seguir, em suas charges, a linha editorial do jornal onde trabalha. Nada contra: ele tem todo o direito de possuir o posicionamento político-ideológico da mídia a que serve. Isso não se discute. E é igualmente óbvio que ele pode fazer humor com as coisas e pessoas que bem entender, assumindo, claro, suas responsabilidades éticas. Mas é obrigação cidadã não deixar passar em branco aquilo que – com humor ou sem ele – cheira a desvio antidemocrático.

No campo político, a charge envolvendo personagens do nosso dia a dia corresponde a uma tradição e deve ser saudada como manifestação da liberdade de comunicação e da expressão de ideias. Isso é ponto pacífico. Creio mesmo que, apesar de pouco republicana, a colocação do Presidente do Supremo ao lado de políticos oposicionistas mandando mensagens contrárias à Presidenta é um direito do chargista. Lá no fundo, ele pode estar desejando a candidatura do Ministro Joaquim Barbosa a Presidente do país. Ou pode, o que seria postura lastimável, estar torcendo pela monitoração do poder executivo pelo poder judiciário.

Sabemos todos que os humoristas são sempre os primeiros a ser perseguidos por sistemas repressores de poder. É só lembrar, na história recente do país, a turma do Pasquim... No Brasil de hoje, felizmente, é livre a comunicação. Mas é igualmente livre a interpretação que se possa fazer das intenções de quem atua na mídia, humorista ou não. O episódio das charges do Chico pode ser irrelevante para muitos. E ele pode nem ter percebido o sentido que se poderia dar à sua criação. Mas assim como “de grão em grão a galinha enche o papo”, de pequenos golpes em pequenos golpes pode-se chegar a um grande ataque às instituições.

De qualquer forma, nada tenho contra o cartunista, apenas divergindo de suas ideias. Tenho certeza de que ele não se importará nem um pouco com os meus gostos, mas, entre os diversos Chicos brasileiros, ideologicamente prefiro o Chico Buarque de Holanda – pela coerência ao longo da vida – e o Chico Mendes – morto em defesa dos seringueiros massacrados pelo poder. E quanto ao humor, minha predileção vai para o Chico Anysio, pela sua criatividade não pautada... 

Provoca estranheza, isso sim, que o Presidente do STF se deixe retratar dessa forma, sem qualquer palavra a respeito. Não é por falta de espaço na mídia, onde ele, seguidamente, vem opinando sobre diversos problemas da sociedade. Não por acaso, no dia 01.03 ele foi personagem central da coluna do Merval Pereira, com considerações do colunista sobre a possibilidade de vir a ser candidato à Presidência da República. E é claro que ele tem direito a postular o cargo, como qualquer cidadão brasileiro. Mas, em nome da independência entre os poderes constituídos, obtida a duras penas pela democracia brasileira, e considerada, fundamentalmente, a sua condição de magistrado - julgador, inclusive de feitos em que o poder executivo está envolvido -, ele deveria contestar claramente uma possível inferência, extraída da charge, de que – como presidente do Supremo que é - estaria “fazendo o jogo” da oposição ao atual Governo, eleito, diga-se, pela expressiva maioria do povo brasileiro.

No momento em que o julgamento do Mensalão, aplaudido por muitos, é considerado por outros um episódio de cartas marcadas, político em sua essência, onde terá faltado a observância a princípios básicos do direito, com casuísmos e inversões doutrinárias, Joaquim Barbosa deveria ser, no mínimo por sagacidade e prudência, o primeiro a rejeitar tal postura a ele atribuída, porque ele representa o poder maior da justiça neste país e não pode, em hipótese alguma, deixar que se sobreponha a essa posição a interpretação de que age politicamente, seja atrelado a um grupo , seja a serviço de seus interesses pessoais. A não ser, é claro, que concorde com a insinuação, hipótese em que deveria afastar-se do Supremo e dedicar-se aos projetos de um candidato oposicionista. Afinal, de todas as autoridades maiores dos poderes do país – que não valem pelo que são individualmente, mas pelo que encarnam como representantes dos interesses do povo -, esperam-se, permanentemente e sem cochilos, posturas condizentes com os ideais republicanos que se obrigam a defender.

Extraído do sítio Direto da Redação

18 fevereiro 2013

CANDIDATOS DE FANTASIA - Marcos Coimbra

Ao longo dos últimos 20 anos, a política brasileira, no fundamental, foi regida pela polarização PT-PSDB. Desde 1994, todos os nossos presidentes da República saíram de um dos dois partidos.

Eduardo Campos começou 2012 quase desconhecido fora de Pernambuco e o terminou da mesma maneira

Seria razoável imaginar que essa polaridade será rompida na próxima eleição? Parecem significativas as probabilidades de que o futuro presidente venha de outra legenda? Quem acompanha os comentaristas e analistas da “grande imprensa” deve acreditar que sim. De tanto ouvir falar em terceiros ou quartos nomes, talvez suponha que o longo ciclo se encerrará no próximo ano.

Não há, no entanto, sustentação para a hipótese, salvo especulações despropositadas. O que quer dizer que teremos mais uma eleição que culminará com o eleitorado dividido entre os candidatos de um ou outro partido.

Isso, claro, não implica que não possamos ter várias candidaturas, vindas de muitos partidos. Em 1994, foram oito. Em 1998, 12. Na primeira eleição vencida pelo PT, seis candidatos disputaram. Na segunda, oito. Em 2010, passaram a nove.

Em todas essas eleições, tivemos nomes que saíram “consagrados” das urnas, saudados como fenômenos por conseguir desempenho considerado surpreendente. Em 1994, o fato novo foi o pitoresco Enéas Carneiro, com seus quase 7,5% dos votos válidos. Em 1998, foi Ciro Gomes, que beirou os 11%. Na seguinte, Garotinho quase obtém 18%. Em 2006, Heloísa Helena chegou a 8%. Na mais recente, Marina Silva arremeteu no final e ultrapassou os 19%.

Ou seja, mesmo em uma eleição tão sui generis quanto à primeira de Fernando Henrique, costuma aparecer alguém para atrapalhar a bipolaridade. No máximo, porém, como Garotinho ou Marina, se aproximam dos 20%.

Curioso é especular a respeito dessas “surpresas” no médio prazo. Sem falar de Enéas, já morto, todos emagreceram: Ciro Gomes, que parece haver desistido da política nacional, Heloísa Helena, hoje vereadora, Garotinho, que sobrevive graças a seu feudo no Norte Fluminense.

E Marina?

Hoje, quando escrevem sobre as perspectivas da eleição, os comentaristas gostam de lembrar sua performance na disputa anterior, como se significasse uma espécie de piso. Como se tivesse formado base sólida na sociedade, tão expressiva como o quinto do eleitorado que sufragou seu nome.

Dá-se o caso que a votação que recebeu foi muito mais determinada por fatores de rejeição aos outros candidatos que por sua capacidade de atrair apoios. Se não houvesse um eleitorado incomodado com Dilma e Serra, que não os queria por motivos diferentes, Marina pouco iria além dos 7% a 8% registrados em pesquisas desde o início de 2010 e que eram genuinamente seus, motivados por sua biografia, agenda e imagem.

E Eduardo Campos?

Desde o fim da eleição do ano passado, e agora depois da escolha dos novos presidentes do Senado e da Câmara, nossa mídia anda cheia de especulações sobre o “crescimento” de sua candidatura ao Planalto. Como se não apenas fosse candidato, mas tivesse elevada possibilidade de vencer.

A tese do crescimento do governador de Pernambuco deriva de um suposto duvidoso: de que o aumento do número de prefeituras conquistadas pelo PSB em 2012 expresse um realinhamento relevante de opiniões e preferências na sociedade. De que uma parcela expressiva do eleitorado “votou no PSB”.

Nada autoriza acreditar nisso. O PSB entrou na eleição de 2012 pequeno na identificação popular e assim saiu. Aqui e ali, os eleitores votaram em seus candidatos, sem que esse comportamento possa ser considerado reflexo de qualquer mudança em suas simpatias. Como partido de massa, o PSB inexistia antes da eleição e continua a inexistir.

Tampouco faria sentido falar em “crescimento da candidatura” de Eduardo Campos como se tivesse aumentado sua visibilidade, propiciada pela exposição da campanha. Ele começou o ano de 2012 quase desconhecido fora de seu estado e o terminou da mesma maneira.

Ao contrário do PT e outros partidos ideológicos, o PSB nada mais é que um agregado de quadros políticos e lideranças que se associaram para perseguir alguns (poucos) objetivos comuns, sem, necessariamente, compartilhar convicções e projetos. Ou alguém acha que, por exemplo, Cid Gomes está engajado na candidatura do correligionário?

No fundo, o PSB tem mais semelhanças com o PMDB do que com os partidos à esquerda. A velha ideia da federação de oligarquias regionais, que tão bem descreve aquilo em que se tornou o antigo MDB, aplica-se igualmente a ele. Em cada lugar, dança conforme a música: aqui situacionista, ali de oposição.

Fantasie-se o quanto se queira, o mais provável é que tenhamos a sexta eleição polarizada por tucanos e petistas. E que, nela, o grande favorito seja o PT.

Extraído do sítio CartaCapital

09 janeiro 2013

PROCURA-SE UM CANDIDATO PARA ENFRENTAR DILMA - Ricardo Kotscho

Dilma aproveitou suas férias no litoral da Bahia

Na entressafra entre o fim do mensalão e a ameaça do apagão elétrico anunciado todos os dias pela imprensa, que marca este início de 2013, o grande desafio dos jornalistas e dos partidos aliados é encontrar um candidato viável para enfrentar a presidente Dilma Rousseff na sucessão presidencial daqui a dois anos.

O primeiro a tomar a iniciativa foi o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que lançou com pompa e circunstância Aécio Neves e se apresentou como o tutor da sua candidatura ainda no final do ano passado. Como o ex-governador mineiro refugou num primeiro momento, outros nomes começaram a entrar na dança das especulações e das pesquisas.

Em lugar de Aécio, passou a ganhar espaço o governador pernambucano Eduardo Campos, apontado como um dos vencedores das eleições municipais de 2012, a noiva mais cobiçada tanto pelo governo como pela oposição, embora ele jure fidelidade ao governo Dilma pelo menos até o final deste ano.

Enquanto Dilma e Campos se encontravam para conversar a bordo do litoral baiano em plenas férias, especuladores profissionais voltaram a falar no nome de Marina Silva, a candidata de 20 milhões de votos em 2010, que só tem um problema: não tem partido. Nem parece, pelo menos por enquanto, disposta a criar algum.

Na falta de opções no campo da oposição, na última pesquisa do Datafolha lançaram até o nome do ministro Joaquim Barbosa, o "herói nacional do STF", que alcançou surpreendentes 10% de intenções de votos, mas tem o mesmo problema de Marina: faltam-lhe um partido e disposição para entrar na disputa.

E já que ninguém quer se arriscar a ser a anti-Dilma, pelo menos nas atuais condições da vida real da economia, apesar de todos os problemas que não são poucos, que ainda asseguram à presidente altos índices de popularidade, eis que ressurge em cena o candidato permanente, ele mesmo, José Serra, que havia desaparecido desde a sua última derrota eleitoral em outubro.

No começo da semana, seu nome foi lançado para ser secretário de Saúde de Geraldo Alckmin, primeiro passo para se candidatar a senador, mas o governador logo desmentiu esta possibilidade. Seria pouca areia para o caminhão de Serra, sempre em busca de alçar vôos maiores.

A grande novidade veio no dia seguinte, em reportagem de Catia Seabra, na "Folha": "Segundo aliados, Serra ainda não desistiu do sonho de chegar ao Palácio do Planalto nem que para isso tenha de se filiar a outro partido".

Qual? O recém-criado PSD do ex-prefeito Gilberto Kassab, que chegou a ser apontado como uma opção para Serra, seu antigo aliado, está cada vez mais nos braços da presidente Dilma Rousseff, de quem deve ganhar um ministério.

Quem mais? Claro, sempre sobra o PPS de Roberto Freire, que hoje está entre as bancadas nanicas na Câmara e também não sabe para onde ir na busca por aliança com algum outro partido. "É a união da falta de fome com a vontade de não comer", como diz o ferino jornalista Carlinhos Brickmann.

Sempre em busca de uma boa onda, Roberto Freire revelou à repórter que desde o ano passado vem discutindo com Serra o projeto de criação de outro partido. "Serra ainda continua ativo", garantiu ele.

O presidente nacional do PSDB, Sergio Guerra, não gostou nada da ameaça de traição de Serra, que para alguns tucanos está apenas querendo valorizar seu passe na renovação da direção nacional do partido, em maio.

Para Guerra, a candidatura de Aécio está consolidada no partido e independe dos rumos que José Serra tomar.

O problema do PSDB e da oposição em geral não se restringe a encontrar alguém para enfrentar Dilma nas eleições, mas onde buscar candidatos competitivos para os palanques estaduais que possam sustentar a campanha presidencial.

A situação está tão difícil que no Rio de Janeiro, por exemplo, segundo maior Estado do país, começaram a pensar em soluções heterodoxas, já que na última campanha municipal seu candidato, Otavio Leite, ficou na rabeira dos nanicos.

Em reunião com Aécio, da qual participaram o ex-presidente FHC e economistas eméritos do partido (Armínio Fraga, Edmar Bacha e Gustavo Franco), chegaram a pensar até no nome de um dos três para empunhar a bandeira tucana no Rio.

Como eles não se animaram, houve um que sugeriu a "importação" de tucanos de outros Estados: Alvaro Dias, do Paraná, e quem diria, até José Serra, de São Paulo.

Por último, lembraram de um nome fora do partido, mas muito popular em certos segmentos da sociedade carioca: o do apresentador de televisão Luciano Hulk. Parece que a reunião terminou por aí. Dá para entender agora porque Aécio resiste tanto ao convite presidencial de FHC. Sem esquecer que Dilma e o PT têm Lula no banco de reservas...

Se o caro leitor tiver alguma sugestão de nome da oposição para desafiar Dilma em 2014, por favor escreva para o Balaio. Os tucanos, os especuladores e a midia aliada agradecem.

Em tempo:

um amigo me avisou agora que na última edição da "Veja", a que está nas bancas, já tem um ministério inteirinho e um programa de governo pronto para quem derrotar Dilma.

Extraído do blog Balaio do Kotscho

02 novembro 2012

OS VENCEDORES, AINDA - Mino Carta

Manda a tradição que o eleitor brasileiro vote em pessoas em lugar do ideário deste ou daquele partido. De resto, os partidos nas nossas latitudes sempre funcionaram como clubes recreativos de uma ou outra turma graúda. Se alternativa digna houve, foi o PT, mas durou pouco. No poder, portou-se como os demais.

Unidos. A maior personalidade da história política brasileira e quem lhe segue os passos. Foto: José Cruz/ABr

Deste ponto de vista, as eleições municipais recém-encerradas com o segundo turno mantiveram-se no leito antigo. Mudou, porém, o peso das lideranças capazes de influência decisiva. Lideranças autênticas, diferentes daquelas forjadas pelo populismo mais desbragado, tão frequentes no passado, mesmo recente. Refiro-me, em primeiro lugar, ao ex-metalúrgico e ex-presidente Lula, que evoluiu do palanque da Vila Euclydes para a plateia mundial.

Neste pleito, Lula confirmou o que já é do conhecimento até do mundo mineral, tirante a mídia nativa. Trata-se da personalidade mais forte da história política do País, sua popularidade, avassaladora, supera inclusive aquela de Getúlio Vargas. Dilma Rousseff segue-lhe os passos. A afirmação peremptória dos candidatos da chamada base aliada resulta antes de mais nada da boa atuação do seu governo.

Outras figuras começam a ganhar dimensão nacional, como Eduardo Campos e Cid Gomes, enquanto o momento projeta naturalmente o nome de Aécio Neves, em quem há tempo CartaCapital reconhece autoridade e tino para conduzir uma oposição moderada e responsável, conforme as conveniências da democracia.

Neste terreno o Brasil ainda engatinha. Não basta a realização periódica de eleições para provar a maioridade democrática. Outros fatores surgidos nos últimos dez anos deságuam, contudo, em importantes avanços, não somente a caminho de uma sociedade menos injusta, mas também na conquista da consciência da cidadania por um número crescente de brasileiros. É quanto transparece dos resultados deste pleito municipal, bem menos provinciano e mais significativo do que se podia imaginar.

A mídia nativa é a primeira derrotada no embate, antes que o PSDB paulista e o PT baiano. O espetáculo encenado pelos barões midiáticos e seus cortesãos na tentativa de mascarar a verdade proporcionou momentos de involuntário hu­morismo à altura do teatro do absurdo, sobretudo na linha de Ionesco, embora sem esconder a expectativa da súbita chegada de Godot, segundo Beckett. José Serra seria Godot?

Não se exclua a possibilidade, a considerar o tom de editoriais, colunas, artigos, rubricas. No sábado 27, o editorial de um jornalão estampava como título: “Resistir é preciso”. De volta de uma viagem ao exterior, ausente havia duas semanas, sofri um abalo sísmico entre o fígado e a alma. Supus que a revolução vermelha batesse às portas liderada por Fernando Haddad. Tragicômico destino de uma direita tão extremada, tão anacrônica, tão romneyana (de Romney) a ponto de soçobrar nas ondas do ridículo atroz. Espetáculo a seu modo magnífico, por obra da incapacidade dos protagonistas de perceber a enrascada patética (do Pateta de Walt Disney, herói da Editora Abril) em que se atiraram.

Dou agora com a soturna expressão dos bairros paulistanos, ditos nobres não se sabe por quê. Varridos pelo siroco de um eterno temor e pela aspiração a se instalarem, pelo menos no modus operandi, entre Coral Gables e Dubai. Abastecidos com solércia inaudita pelos evangelhos midiáticos. E agarrados à lembrança de Fernando Henrique Cardoso e à esperança vã da vitória de José Serra. Estes ninhos tucanos estão mais para aqueles das andorinhas doentes, iguaria da cozinha chinesa. Altamente recomendados para o cardápio dos barões midiáticos.

É o ocaso de um PSDB que já foi de André Franco Montoro e Mário Covas e foi entregue ao cabo a um cínico e um obsessivo e, sustentado pela fanfarra dos jornalões e revistões, passou a cuidar dos negócios dos vetustos donos do poder. O mesmo que o cínico e o obsessivo diziam combater nos seus anos verdes. É nesta moldura que a ribalta cabe a Aécio, capa desta edição.

Extraído do sítio CartaCapital

16 outubro 2012

ALÉM DE SÃO PAULO, DILMA IRÁ A SALVADOR E MANAUS - Ricardo Kotscho

Foto: Roberto Stuckert Filho/PR
Em tempo (atualizado às 20h55):

Recebi agora informações de Brasília sobre alterações nas datas do roteiro da presidente Dilma Rousseff na campanha do segundo turno, que ficou assim:

Salvador, sexta-feira, dia 19

São Paulo, sábado, dia 20

Manaus, segunda-feira, dia 22

Está definido o roteiro de viagens da presidente Dilma Rousseff para participar de comícios neste segundo turno das eleições.

Dilma irá a apenas três cidades: além de São Paulo, onde subirá no palanque de Haddad nesta sexta-feira (19), como o Balaio já havia antecipado no início da semana passada, a presidente estará em Salvador, no sábado, e em Manaus, ainda em dia a ser marcado.

Até as 16 horas desta quarta-feira (17), a assessoria de Eduardo Campos ainda não havia confirmado a participação do governador pernambucano e presidente do PSB no ato em apoio ao petista Fernando Haddad, ao lado de Lula e Dilma.

Certo é que Campos irá amanhã a Campinas, no interior de São Paulo, onde está aliado ao PSDB, para subir no palanque do candidato do seu PSB, Jonas Donizetti, que disputará o segundo turno com Márcio Pochmann, do PT.

Desde a noite de domingo passado, quando foram divulgados os resultados do primeiro turno, e Eduardo Campos despontou como um dos grandes vencedores da eleição, o governador pernambucano vem sendo cortejado tanto pelo PT como pelo PSDB.

Em entrevista de mais de quatro horas que fiz com ele no início da campanha, publicada na revista Brasileiros de setembro, Campos me disse que os rachas entre PT e PSB registrados em Recife, Fortaleza e Belo Horizonte, em nada mudavam sua posição de apoio ao governo federal e a Dilma Rousseff na sucessão presidencial em 2014.

— Hoje, 2014 é da Dilma. Se não for dela, é do Lula. Até lá, ninguém sabe o que vai acontecer. Se daqui a dois anos a situação descarrilar, se o Lula não puder ser candidato...

Já havia especulações, na época, de que o governador pernambucano estava ensaiando um voo próprio, preparando sua candidatura presidencial para 2014, mas ele negou esse projeto, sem esquecer de deixar as portas abertas nas reticências da sua fala.

Em outro trecho da entrevista, Campos foi bastante incisivo para demonstrar sua lealdade a Lula: "O PSB faz parte da frente que governa o País, e não é de hoje. Vem lá de trás, de 1989, quando Arraes apoiou a primeira candidatura presidencial de Lula. Fazemos parte desta caminhada".

Ainda para mostrar sua lealdade ao "projeto político liderado pelo presidente Lula", lembrou que o PSB foi o partido que mais fez alianças com o PT nas eleições municipais deste ano e o primeiro a apoiar Fernando Haddad em São Paulo.

Na reta final da campanha, veio a São Paulo para participar de um almoço no Centro de Tradições Nordestinas, em apoio ao candidato petista, mas quase não teve oportunidade de conversar com Lula. Os dois não se falavam desde a semana em que cada partido lançou seu próprio candidato em Recife.

Ao mesmo tempo em que falava de suas antigas relações, Campos fez questão, nesta entrevista, de ressalvar sua independência em relação ao PT e Lula:

— Em 2006, eu dediquei a minha eleição para governador a meu avô [Miguel Arraes, três vezes governador de Pernambuco] e ao Lula. O que não podemos é devolver o poder à direita. Se quiser ser candidato a presidente, vou dizer que sou candidato, não preciso pedir licença. Eu tenho 47 anos de idade e nunca mudei de lado político. Você acha que vou aderir à oposição? É isso que vou fazer?.

Conheço-o bem e sei que isso ele não fará, embora o sonho dourado de Fernando Henrique Cardoso e de Aécio Neves seja o de tê-lo como vice da chapa presidencial tucana. Podem tirar o cavalinho da chuva.

Eduardo Campos já deixou claro para seus assessores que vice ele não será de ninguém. Mais provável, a meu ver, caso o governador por algum motivo deixe a base aliada para ser candidato, é o neto de Miguel Arraes convencer o neto de Tancredo Neves a ser seu vice.

Seja como e para onde for, Campos hoje é uma peça importante no cenário sucessório de 2014 e, por isso, a sua presença ou não no comício de Haddad na sexta-feira em São Paulo pode sinalizar para que lado pende este político raro que nunca mudou de lado.

Pode ser que, a esta altura, o jovem governador nordestino esteja pensando no lado dele mesmo, medindo os próximos passos com muito cuidado.

Extraído do Blog do Balaio do Kotscho

09 agosto 2012

UMA PEQUENA NOTÍCIA QUE EXPLICA MUITA COISA - Marino Boeira


Uma pequena notícia, que ganhou pouco destaque na mídia, ajuda a explicar o furor com que os grandes veículos de comunicação, o Jornal Nacional da Rede Globo à frente, se jogaram na divulgação do julgamento do chamado “mensalão” pelo Supremo Tribunal Federal, num grande esforço para implodir a imagem do PT e com isso desestabilizar o Governo Federal.

A notícia foi a divulgação da pesquisa encomendada pela CNT – Confederação Nacional do Transporte – sobre as intenções de voto dos brasileiros na eleição presidencial de 2014. A pesquisa realizada entre os dias 18 e 22 de julho, quando o noticiário sobre o “mensalão” já ocupava grandes espaços na mídia, ouviu duas mil pessoas em 134 municípios de cinco regiões do Brasil e tem uma margem de erro de 2,2 pontos percentuais.

Caso as eleições fossem hoje, segundo a pesquisa, Lula teria 69,8% das intenções de voto, contra 11,9% do senador do PSDB, Aécio Neves e 3,5% do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, do PSB. No caso do candidato do PT fosse Dilma Rousseff, ainda assim a vitória aconteceria no primeiro turno. Dilma ficou 59% das intenções de voto, contra 14,8%, de Aécio e 6,5%, de Campos.

A mesma pesquisa revelou que a avaliação positiva do governo Dilma ficou em 56,6% em julho último, contra 49,2% em agosto de 2011. Apenas 7% dos entrevistados fizeram uma avaliação negativa do governo Dilma.

Com estes números, as perspectivas de uma volta ao poder, através das urnas do PSDB e seu projeto entreguista, parecem irremediavelmente comprometidas. Resta então a estratégia, tantas vezes usada na história do Brasil – casos de Getúlio Vargas em 1954 e João Goulart, em 1964 – de desencadear uma ampla campanha de marketing, através dos grandes veículos de comunicação, visando desestabilizar o governo com ataques diretos ao seu principal partido de sustentação. O mote é o mesmo de 54 e 64: corrupção dos políticos que dão sustentação ao governo.

Como estamos na era da comunicação, o centro das denúncias se concentra no desvio de vultosas verbas de publicidade para abastecer contas de políticos e partidos. Os altos custos dos espaços publicitários dos grandes veículos de comunicação, principalmente a televisão,fazem com que campanhas de divulgação de órgãos públicos federais, que devem ter uma cobertura nacional, sejam sempre orçadas em milhões de reais, o que desperta a cobiça de todos os envolvidos no processo, sejam agências de publicidade, fornecedores, veículos de comunicação ou políticos investidos de poder de autorizar a publicação das peças publicitárias.

As licitações feitas para a escolha das agências que vão controlar estas verbas milionárias têm itens extremamente subjetivos de avaliação, o que facilita o tráfico de interesse entre as partes envolvidas. No caso do chamado “mensalão” , uma das questões principais é definir a origem legal ou não das verbas que o publicitário Marcos Valério usava para abastecer a “caixa 2” do PT, segundo Delúbio Soares ou para subornar políticos, segundo as acusações do procurador geral da República, Roberto Gurgel.

Os veículos de comunicação, na busca de uma ampliação das verbas que disputam no bolo publicitário, oferecem a chamada a chamada “bonificação de volume”,um retorno da verba aplicada pela agência, a partir de um determinado patamar de investimento publicitário. Segundo Marco Valério, pelo contrato, esta bonificação – no caso atual, a do Banco do Brasil – pertencia à agência e serviu para irrigar o chamado “valerioduto”, iniciado em 1998, com o financiamento da campanha do atual senador do PSDB, Eduardo Azeredo ao governo de Minas e continuada depois com o governo federal do PT. Segundo os acusadores, esta bonificação devia voltar ao órgão público que autorizou a verba.

De tudo isso se depreende que a mistura de interesses entre governos e agências de publicidade, serve muitas vezes para práticas ilegais, que merecem ser punidas, mas que não começaram agora e não têm a dimensão que uma mídia facciosa pretende dar. São práticas que podem comprometer algumas figuras do governo e alguns publicitários, mas não o governo como instituição, nem os publicitários como classe.

* Marino Boeira é professor universitário. 

Extraído do sítio Sul21