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17 setembro 2012

"É IMPOSSÍVEL PENSAR SISTEMA CAPITALISTA INTERNACIONAL SEM O DINHEIRO DO NARCOTRÁFICO" - Isabel Harari

"É impossível pensar o sistema capitalista internacional sem pensar no dinheiro do narcotráfico", denunciou o jornalista José Arbex Jr. em Simpósio sobre Esquerda na América Latina. O tráfico de drogas movimenta cerca de 500 bilhões de dólares por ano, segundo dados indiretos. Algumas cifras chegam a 1 trilhão. "O dinheiro não está nas favelas nem nos morros, faz parte do sistema financeiro e sustenta grandes bancos", disse Arbex.


São Paulo - "É impossível pensar o sistema capitalista internacional sem pensar no dinheiro do narcotráfico", denunciou o jornalista José Arbex Jr. em Simpósio sobre Esquerda na América Latina, realizado na USP. A mesa também contou com a presença do historiador Henrique Carneiro, a especialista em História da Cultura Rosana Schwartz e Julio Delmanto, mestrando em História Social e membro do coletivo DAR (Desentorpecendo a Razão). O fio condutor do debate foi a relação de simbiose entre o proibicionismo e o sistema financeiro capitalista.

O tráfico de drogas movimenta cerca de U$500 bilhões de dólares por ano, segundo dados indiretos, algumas cifras chegam a quantia de U$ 1 trilhão. "O dinheiro não está nas favelas nem nos morros, faz parte do sistema financeiro e sustenta os grandes bancos", continuou Arbex. Para ele, o discurso da guerra ao narcotráfico é vazio, pois os países que se colocam como combatentes às drogas fazem parte da corrente altamente rentável do tráfico, logo, resistem tanto à legalização.

O jornalista explicitou a relação do tráfico de drogas com o de armas. Jogou luz ao fato de que as cifras acerca do comércio de armas no Brasil são desconhecidas, e mantidas em segredo "por questões de segurança", segundo a Taurus, uma das maiores fabricantes de armas no Brasil."Ninguém controla o dinheiro que movimenta o narcotráfico, assim como ninguém controla o dinheiro que controla o tráfico de armas. Isso serve aos interesses do capitalismo", continuou.

Carneiro explicou que o critério utilizado para determinar se uma determinada droga é ilícita ou não, é ligada a constituição da Ordem Internacional. Ou seja, um grupo de países determina, por unanimidade, quais drogas devem ou não serem aniquiladas. "Não existe fundamento científico", disse. Segundo ele, "a esquerda é cúmplice e agente da Ordem, cenário que aparentemente está de modificando", completou.

Julio Delmanto trouxe à tona as consequências da política proibicionista implantada na denominada "guerra as drogas". A proibição não só não resolve a questão, como promove o desenvolvimento das indústrias farmacêuticas e das clínicas particulares, a criminalização da pobreza, o encarceiramento em massa e as internações compulsórias. Para ele, a "delinquência útil", forma taxativa pela qual os usuários são denominados, é um instrumento para gerar a ilegalidade, altamente lucrativa e instrumento de controle da população.

O mote da fala de Rosana Schwartz foi a presença das mulheres frente ao tráfico de drogas, "não se fala tanto, não existem trabalhos sobre o assunto", disse. Segundo ela, há uma visão de que a mulher "é um ser que deveria ficar dentro de casa, mais propenso a ser degenerado". Sua pesquisa consiste, entre outras vertentes, em ouvir as mulheres que se envolveram no tráfico e entender suas posições como sujeitos sociais em uma realidade proibicionista e higienista. "O amor e o medo de perder o marido, na maioria das vezes, é apresentado como o principal motivo da entrada para o tráfico, e a função subalterna na mulher no meio disso tudo é evidenciado", completou.

O Brasil é um dos maiores exportadores de tabaco, de álcool e com uma indústria farmacêutica altamente lucrativa (alimentada pela indústria dos agrotóxicos e trangênicos), também é um dos países com a política de drogas mais ferrenha. "As razões do proibicionismo embasam-se no puritanismo e no controle social da força produtiva. O mercado clandestino é essencial para a sobrevivência do capitalismo, a proibição agrega valor à droga e é um prêmio para os traficantes", explicou Carneiro.

Extraído do sítio Carta Maior

27 agosto 2012

CACETADAS (INTELECTUAIS, BEM ENTENDIDO) NAS FRASES FEITAS - José Dirceu

A entrevista que o Fernando Nogueira da Costa concedeu a Eleonora de Lucena, da Folha (“Concentração está no DNA dos bancos, diz economista”), é uma mostra do que está no livro lançado por ele sobre a história dos bancos no Brasil, com o sugestivo (e irônico, segundo o autor) título “Brasil dos Bancos”.

Fernando, que é um dos nossos clunistas fixos aqui do blog, já foi professor da presidenta Dilma Rousseff, ex-dirigente da Caixa Econômica Federal e da FEBRABAN (federação dos bancos) e atualmente é professor da UNICAMP, dá umas boas cacetadas no pensamento baseado em frases feitas, por exemplo de que os bancos não podem ser grandes demais.

“É uma ingenuidade histórica essa discussão nos EUA de que é preciso fragmentar os bancos para que eles não sejam grandes demais para quebrar. Os clientes querem bancos grandes demais que não possam quebrar”, diz, em uma das respostas.

Porém, ter grandes bancos não quer dizer deixá-los ao deus dará. Veja: “A lógica da liberalização anterior, quando a fiscalização se afrouxou, deixando a autorregulação para o mercado [é que gerou o escândalo da Libor, do dinheiro sujo no HSBC, as perdas do JP Morgan...]. Se não há limite, há maximização dos ganhos, bônus, levando a fraudes e manipulações”. E ainda: “Bancos precisam ser fiscalizados, regulados. A concentração não significa diminuição de competição”.

Continuando, no mesmo diapasão: “Eu me considero de esquerda, mas nunca demonizei banqueiro. As razões para a demonização não são justas. Há razões históricas - a crítica da igreja católica aos juros. Há um desconhecimento da população, que acha que o banqueiro é um explorador porque paga menos juros do que cobra. Qualquer negócio tem que dar lucro. É preciso cobrar uma regulação, não fazer crítica ao banqueiro”.

Desnacionalizar ajuda?

Segundo Fernando Costa, não: “Não é fragmentando o sistema bancário e abrindo as fronteiras que se aumenta a competição. Essa foi a tentativa dos anos 1990 e deu em nada. Nos anos 1980 deu em crise bancária e a desnacionalização. Os bancos vieram e poucos ficaram. Banco precisa de fiscalização. No Brasil, 45% do crédito está nos bancos públicos - os privados têm 38%, e os estrangeiros, 17%.”.

Ao contrário, a desnacionalização foi ruim: “Não trouxe nenhuma inovação, os juros não caíram. Mas a entrada do Santander fomentou a reação dos grandes nacionais. A aquisição do Real pelo Santander levou o Itaú a negociar com o Unibanco. A competição fomentou a concentração”.

Fomentar competição via bancos públicos é bom

Já as medidas adotadas pelo governo Dilma Rousseff de usar o poder de fogo dos bancos públicos para fomentar a competição foram positivas, no seu entender. Para ele, “é um avanço histórico fomentar a competição via Banco do Brasil e Caixa”.

Vamos ler e refletir sobre o que nos conta Fernando Nogueira da Costa em seu livro “O Brasil dos Bancos”. 

Em tempo: à ironia do título o autor contrapõe sua interpretação, a ‘moral da história’ da sua obra, vamos dizer assim, de que “a historia bancária não pode ser segregada da de seu povo. Não pode ser voltada para essa elite diminuta [que ele chama da ‘elite branca’ do país], que foi o erro estratégico dos bancos estrangeiros”.

Extraído do blog do José Dirceu