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01 março 2013

UNIÃO EUROPEIA SUPERA BRASIL NO CONSUMO DE BIOCOMBUSTÍVEIS - Fernando Caulyt


Enquanto faltam investimentos para suprir demanda no Brasil, Europa regulou o setor e produção aumentou 16 vezes em uma década. Precursor da tecnologia, país precisa de 100 novas usinas para atender procura até 2020.

Depois dos Estados Unidos, em 2003, agora é a vez de a Europa superar o Brasil no consumo de biocombustíveis. Dados consolidados divulgados recentemente pela União Europeia mostram que o bloco econômico consumiu em 2011 cerca de 14 mil toneladas equivalentes de petróleo (TEP) – 2 mil a mais que o consumo brasileiro.

Se levada em conta a participação dos biocombustíveis na matriz de combustíveis, o Brasil se manteve em 2011 como líder mundial – com 17% contra 4,5% da UE. Mas a reviravolta no consumo total, impensável há uma década, é por si só significativa e é fruto de um conjunto de leis e medidas de fomento por parte dos governo europeus. Em dez anos, o consumo nos países do bloco aumentou 16 vezes.

Há dez anos, os produtores brasileiros começavam a ganhar fama internacional com combustível mais limpo feito à base de cana-de-açúcar. Anos mais tarde, o produto made in Brazil recebeu a comprovação de ser mais eficiente do que o concorrente americano, fabricado a partir do milho.

Também naquela época, os brasileiros faziam campanha entre os europeus para incentivar o consumo do biocombustível e, dessa maneira, se tornarem o principal fornecedor do produto.

E a Europa parece ter seguido o conselho à risca. A superação do consumo brasileiro pelos europeus se deve ao fato de o continente ter adotado, em 2003, uma legislação para promover o uso de biocombustíveis, em que foi estipulada uma meta facultativa de 5,75% de biocombustiveis no setor de transportes em 2010.

Em 2009, essa legislação foi substituída por duas novas normas, que estabeleciam uma meta obrigatória de 10% de energia renovável no setor transporte europeu até 2020, além da redução em 6% das emissões de gases do efeito estufa dos combustíveis usados no setor de transportes até 2020.

Perda de fôlego na produção

Ao mesmo tempo em que o Brasil perdeu o posto para a Europa em relação aos números absolutos de consumo – já que a população e frota de veículos europeia é maior do que a brasileira –, perdeu fôlego também na produção e no consequente consumo de biocombustível.

“O país também deu uma ‘patinada’ principalmente na questão do etanol”, destaca Waldyr Gallo, professor de engenharia mecânica da Unicamp e especialista em motores e biocombustíveis.

Veículos com motores flex correspondem a cerca de 57% da frota brasileira
Enquanto o biodiesel tem que representar, por legislação, 5% do diesel disponibilizado nos postos de combustível, o etanol pode ser escolhido ou não pelos proprietários dos carros com motores flex – que correspondem a cerca de 57% da frota nacional e têm tendência em alta, já que de 80% a 90% dos veículos vendidos saem de fábrica com esse tipo de motor.

Dessa forma, o consumidor tem a escolha de qual combustível vai usar. A decisão, naturalmente, é orientada pelo preço da gasolina e do etanol nas bombas. Quando o etanol fica mais barato, há uma migração em massa de consumidores, e o mercado não dá conta de suprir a demanda.

“O que aconteceu no Brasil foi uma dificuldade de investimento no setor produtivo. Quer dizer, o plantio da cana e as instalações industriais não cresceram para dar conta da demanda”, explica Gallo.

E no ano passado o país teve justamente que importar mais gasolina porque o setor sucroalcooleiro não conseguiu atender o mercado interno. O governo escolheu importar gasolina em vez de etanol por um único motivo: o preço. Importar gasolina é mais barato que importar etanol.

A União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica) culpa a crise financeira mundial e condições climáticas desfavoráveis. “Com isso, a produção ficou estagnada, e o consumo caiu. O consumo e a produção vão aumentar”, garante Géraldine Kutas, assessora sênior da presidência para assuntos internacionais da Unica.

Exportação de etanol

O Brasil exporta entre 10% e 15% de sua produção de biocombustível. A venda para o exterior poderia ser maior caso o mercado interno fosse atendido. Mesmo assim, existem várias barreiras para que o produto brasileiro entre na Europa: além de subsídios dados para agricultores europeus, a exportação acaba esbarrando em dificuldades técnicas, sobrepreço e discussão sobre sustentabilidade.
Etanol concorre diretamente com o preço da gasolina no Brasil

Kutas, da Unica, explica que a exportação para a Europa é mínima por causa da alta tarifa de importação imposta pelos europeus ao etanol brasileiro: 0,19 euro por litro, mesmo pelo fato de a produção brasileira atender aos critérios de sustentabilidade europeus.

"Temos 26 usinas e 2 bilhões de litros de etanol certificados neste padrão. A Europa considera que o etanol é feito de matéria-prima agrícola e deveria ser limitado. Nós achamos que os argumentos europeus não se aplicam à realidade brasileira, porque nós não temos competição com alimentos, podemos produzir os dois tranquilamente”, explicou Kutas.

Gallo concorda que a realidade brasileira é outra, mas apoia a imposição de barreiras ao etanol brasileiro, que é muito mais barato do que o produzido pelos europeus.

“Cada país precisa defender o seu próprio sistema produtivo, até porque, às vezes, as coisas são temporárias. Depois que a onda passa, a sua indústria local está sucateada e não tem mais como suprir seu próprio mercado interno”, afirma.

O etanol europeu é produzido a partir do trigo (36%), beterraba (23%), milho (23%) e outros grãos (17%), ou seja, produtos alimentícios. A União Europeia tenta mudar esse panorama e estimular o uso de outras fontes, como resíduos. É por isso que o bloco discute, atualmente, a redução da meta obrigatória de consumo de biocombustível de 10% para 5% até 2020.

Demanda

Diferentemente da Europa, o Brasil não tem metas de produção nem de consumo de biocombustíveis. Mas a demanda é basicamente projetada pelo aumento da frota de veículos flex e exportação de biocombustíveis. Em condições normais, com o aumento da frota flex e da demanda do exterior, a produção atual teria que ser duplicada até 2020 para abastecer o mercado doméstico e obter excedente para exportação.

“Para isso, precisamos construir mais de 100 novas usinas de beneficiamento de cana-de-açúcar. Temos que ver se haverá competitividade de gasolina e etanol no futuro e isso depende de políticas públicas. Isso volta à questão da decisão da matriz energética e de transportes. Depende também de inovações tecnológicas e produtividade”, disse Kutas.

Brasil precisa de 100 novas usinas de etanol para dar conta da demanda projetada para 2020
Questionada sobre aumentar a produção de etanol para fazer com que o preço seja menor no mercado, Kutas informou que o setor precisa cobrir os custos de produção, já que a matéria-prima, no caso a cana-de-açúcar, representa 60% do preço do produto final.

“O etanol no Brasil tem 40 anos e temos que dar um salto em termos de inovação agrícola, reduzir os custos de logística, entre outros. As empresas não estão paradas. Mas são investimentos que vão demorar para gerar resultados concretos no preço do produto”, conclui.

Extraído do sítio Deutsche Welle

26 fevereiro 2013

LONDRES TAMBÉM PERDE O SEU TRIPLO A

Orlando Cue
Em 22 de fevereiro, o Reino Unido tornou-se a última nação europeia a perder a sua notação AAA, quando a agência de rating Moody’s reduziu a notação de crédito para Aa1. É embaraçoso para o primeiro-ministro, David Cameron, mas não um choque para os mercados, afirma “The Times”, que incentiva o Governo a prosseguir a política de austeridade.

A realidade da descida da notação de crédito do Reino Unido poderá revelar-se menos impressionante do que a expectativa. A retirada da notação AAA ao Reino Unido, nas próximas semanas, era aguardada por todos. A única surpresa foi a Moody’s ter tomado essa decisão antes da apresentação do orçamento, em março. A calma dos investidores quando a França e os Estados Unidos perderam as notações máximas indica que a reação dos mercados pode ser mais um encolher de ombros do que um estremecimento.

Contudo, do ponto de vista político, o facto é bastante importante, em especial porque [o ministro das Finanças] George Osborne disse que manter a notação AAA do Reino Unido seria um parâmetro de referência do sucesso da sua estratégia para a redução do défice. Alguns dos que o criticam, entre os quais o ministro sombra das Finanças, Ed Balls, afirmam que perder a notação prova que a estratégia fracassou e que Osborne deveria tentar uma nova abordagem. No entanto, este jornal acredita que o problema não reside em a estratégia elaborada pela coligação em 2010 ser errada. Reside no facto de o Governo não ter aplicado essa estratégia com a energia e a coragem política suficientes.

Economia com impostos baixos

Osborne estava absolutamente certo ao dizer que a prioridade era um plano credível para reduzir o défice orçamental e que isso deveria ser conseguido sobretudo através de cortes na despesa pública e não através de aumentos de impostos. Isso faria parte de uma passagem, a mais longo prazo, de um Estado com um montante elevado de despesa para uma economia com impostos baixos, com espaço para o florescimento do setor privado, liberto de regulamentação desnecessária. Com a ajuda da desvalorização da libra, verificar-se-ia um reequilíbrio da economia orientado para as exportações e para as regiões, e mais distante da City [centro financeiro de Londres] sobreaquecida e do resto do sudeste.

As razões de os progressos até agora realizados serem tão insatisfatórios escapam, em grande medida, ao controlo do Governo.

O crescimento não recuperou tanto quanto se esperava, em parte porque as exportações foram afetadas pela crise da zona euro. Entretanto, a queda da libra faz aumentar a inflação, o que colocou o consumo sob pressão.

Cortes abruptos

A estagnação do crescimento teve como resultado maiores prestações de desemprego e Osborne permitiu, acertadamente, que estas conduzissem a uma emissão de dívida pública mais elevada do que o previsto, de preferência a impor mais cortes noutros domínios, para compensar.

Mas, sob estes números, a verdade é que a coligação não foi suficientemente longe nem agiu suficientemente depressa na reestruturação do Estado e na reforma dos serviços públicos. Em parte, esse facto reflete a influência dos liberais democratas no seio da coligação. Estes não reconheceram que encontrar novas formas de tributar mais fortemente os ricos é irrelevante para os desafios reais que a economia britânica enfrenta.

É certo que alguns departamentos governamentais estão agora a sofrer cortes abruptos. Mas não tão abruptos como a pouco judiciosa redução do investimento público que Osborne herdou dos trabalhistas. O investimento em infraestruturas, que poderia ser um fator determinante de crescimento económico, foi ainda mais prejudicado pelo fracasso do Governo em enfrentar os obstáculos surgidos em Whitehall e no sistema de planeamento. Também não se registaram progressos suficientes no esforço mais vasto no sentido de reduzir o peso da regulamentação sobre as empresas. Demasiadas decisões difíceis, como a necessidade de identificar um novo aeroporto central no Sudeste, foram evitadas.

Redobrar o empenho governamental

A descida da notação porá pelo menos à disposição de Osborne mais munições contra os pedidos dos trabalhistas no sentido da mitigação dos planos de redução do défice, no orçamento do próximo mês. Osborne poderá continuar a basear-se na política monetária para oferecer estímulos adicionais à procura e o facto de o Comité de Política Monetária do Banco de Inglaterra estar a analisar formas mais imaginativas para pôr em prática a sua estratégia de restritividade quantitativa é encorajador.

Contudo, isto não significa que o ministro das Finanças não deva fazer nada. Deve, pelo contrário, redobrar o empenho governamental em reduzir os encargos das empresas e em levar por diante uma reforma radical do setor público. É esta a única via para a recuperação da notação de crédito do Reino Unido.

* Publicado originalmente no The Times.

Extraído do sítio Press Europe

05 fevereiro 2013

EUROPA AINDA NÃO SUPEROU A CRISE, ALERTA EX-PRESIDENTE DO BANCO MUNDIAL - Michael Knigge


Em entrevista à DW, Robert Zoellick ressalta, durante a Conferência sobre Segurança em Munique, que os EUA precisam dar sinais mais claros aos europeus de que realmente querem um livre comércio transatlântico.

Enquanto a urgência da crise da dívida foi suavizada, a Europa ainda enfrenta desafios difíceis, avalia o ex-presidente do Banco Mundial Robert Zoellick. Em entrevista concedida à Deutsche Welle durante a Conferência sobre Segurança de Munique, Zoellick também explicou por que a crise no Mali não foi exatamente uma supresa.

Zollick foi presidente do Banco Mundial entre 2007 e 2012. Ele atuou como vice-secretário de Estado norte-americano entre 2005 e 2006 e representante para questões comerciais do governo dos Estados Unidos entre 2001 e 2005. Antes disso, havia servido como oficial dos EUA no processo chamado "Dois mais quatro" durante a reunificação alemã entre 1989-1990.

Deutsche Welle: A crise da dívida na Europa não tem estado na mídia há vários dias. Seria um sinal de que a Europa finalmente controlou a crise e superou sua pior fase?

Robert Zoellick: Claramente a boa notícia é que as condições se estabilizaram de alguma maneira e temos visto isso em algumas taxas de juros baixas em alguns países mediterrâneos. Mas concordo com Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu (BCE), que alertou contra a complacência. E os líderes alemães também fizeram isso.

Acredito que o que o que temos visto é que algumas das extrordinárias ações do BCE reduziram a pressão e eles ganharam tempo. Mas os desafios fundamentais das reformas fiscal e estrutural ainda têm que ser enfrentados. Então acho que 2013 será um ano, no qual vamos ver se o novo governo italiano prosseguirá com as reformas e se o governo espanhol, que tem dado alguns passos difíceis, persistirá nesse caminho. O primeiro-ministro grego Antonis Samaras disse recentemente, num grupo do qual eu participava estava, que ele tem basicamente este ano para mostrar alguma recuperação, pois ele enfrenta o populismo de esquerda e de direita. Então ainda não superamos isso de maneira alguma.

Uma surpresa negativa para a economia mundial veio dos Estados Unidos recentemente, quando foi divulgado que a economia norte-americana contraiu levemente no último trimestre. Isso foi apenas uma escorregada única ou o senhor vê nuvens negras no horizonte?

A maior parte dos economistas sugeriu – e acho que eles estão provavelmente certos – que isso aconteceu por causa de uma combinação de fatores voláteis, como gastos com defesa e questões de inventário. A maioria das pessoas está prevendo um crescimento de cerca de 2% – o que é, de fato, pouco usual, ter esse nível de consistência. Dito isso, acho que mais para frente haverá alguns aumentos de impostos, que foram votados no ano passado e que poderão ser um entrave na economia. E mesmo um crescimento de 2% não é o tipo de crescimento que levará a economia norte-americana para onde ela precisa estar. De forma que os EUA encaram uma série diferente de desafios.

Obama enfrentará difíceis negociações orçamentárias
Talvez o único elemento novo no discurso de Joe Biden em Munique tenha sido seu apoio à ideia de um pacto transatlântico de livre comércio, que deveria ser fechado de uma vez em uma sessão de negociação. O senhor apoia isso, acredita que isso seja possível?

Essas são duas boas perguntas. Apoio tudo que abra mercados e tente liberar o comércio. Acho que a forma certa de acordo transatlântico poderia ajudar ambos os parceiros a lidar com algumas das suas reformas estruturais, a ser mais competitivos sem gastar mais dinheiro. Então acho que isso é uma coisa boa. O que escuto do lado europeu, e acho que é uma preocupação compreensível, é a seguinte: O presidente Obama levará isso a sério?

Como ex-negociador comercial, sei que existe uma diferença entre palavras e ação. E este é um acordo complexo. Haverá questões difíceis na área da agricultura. Há questões de padronização e regulação. Há várias vozes europeias que querem dar esse passo. Mas eles querem saber que os EUA levam tudo a sério e que isso é algo a ser transmitido de maneiras variadas.

O primeiro-ministro David Cameron prometeu ao povo britânico um referendo sobre a permanência na União Europeia. A relação dos ingleses com o resto da UE, e vice-versa, vem azedando há um bom tempo. Não seria melhor para os dois lados se o Reino Unido simplesmente deixasse o bloco?

Conversas sobre saída do Reino Unido da UE: apenas ameaças?
As ligações entre ingleses e europeus são muito profundas e duradouras. Os interesses políticos, históricos, na área econômica e no comércio, são muito fortes. O que ele está tentando propor é uma maior flexibilidade na UE. O Reino Unido deve fazer parte da UE. Cameron está argumentando contra o ceticismo. Mas, segundo ele, precisamos francamente de algumas mudanças no setor de competitividade de serviços para nos tornarmos mais competitivos. Precisamos de mais flexibilidade em algumas regras trabalhistas e sociais, e assim por diante.

Agora, isso é controverso em algumas regiões da Europa, mas acredito que, neste sentido, Cameron está realmente apontando para uma questão que a Europa precisa considerar. E acho que essa é uma grande questão para a Alemanha. Porque, de alguma maneira, quando ouço os alemães conversarem sobre economia e escuto o governo britânico, noto que há muita semelhança. Eles estão tentando manter uma disciplina fiscal e obter maior competitividade no mercado. E acreditam no livre comércio. A Alemanha será o ator dominante na UE. Então a questão fica para o lado britânico: eles farão mais do que discursar?

A França sozinha, independentemente da UE, decidiu intervir militarmente no Mali. Até que ponto ponto o senhor se surpreendeu com a intervenção francesa e com o fato de que a medida tenha sido tomada sem muita assistência de parceiros europeus e dos Estados Unidos?

Intervenção no Mali era previsível, afirma Zoellick
Minha perspectiva com relação a isso é também um pouco diferente, porque, na verdade, visitei o Mali há alguns anos. No Banco Mundial, estávamos conversando sobre as dificuldades vividas no norte do país. Voltei e tentei até mesmo dizer para alguns governos, incluindo o dos Estados Unidos, para deixarem o Banco Mundial ajudar em algum área de desenvolvimento que contribui para a frustração dos tuaregues. Mas alguém também deveria ajudar no setor de segurança. Assisti ao que aconteceu na Líbia. Não acho que alguém precisava ser gênio para entender que haveria um excesso de gente e de armas vindas da Líbia. Minha maior surpresa foi que os EUA e a Europa tenham se surpreendido. Em outras palavras, acho honestamente que isso é algo cuja fermentação poderia ter sido observada antecipadamente.

Acho que os franceses ficaram surpresos e, por isso, moveram algumas forças para cessar isso. Por um lado, eu os respeito por fazerem assim, mas acho que todo mundo precisa ter uma visão clara de que isso é apenas o começo. Apesar de muitos terem "derretido na areia", na verdade isso não significa que foram embora. E como temos visto em outros lugares, você cumpre a primeira etapa e acaba com um tipo de agressão mais convencional, mas depois precisa lidar com ataques suicidas e outras coisas. Eu realmente espero que os EUA e outros países apoiem a França em seus esforços.

Extraído do sítio Deutsche Welle

25 janeiro 2013

GUERRA DO MALI: A MÃO INVISÍVEL DA EUROPA - Jean-Christophe Gallien


Uma semana após o lançamento das operações contra os islamitas que controlam o Norte do Mali, as tropas francesas continuam a ser as únicas forças ocidentais no terreno. Mas os Vinte e Sete, que renunciaram a uma capacidade militar comum, estão presentes mais discretamente, noutras frentes.

A União está praticamente no banco dos réus, por estar ausente, sem reação perante a crise, inútil mais uma vez e sempre, e a França estaria sozinha! A análise objetiva da situação contradiz tais afirmações, nos campos político, financeiro e humanitário, embora, entretanto, seja de assinalar um verdadeiro fracasso: o da Política Europeia de Segurança e Defesa.

O que se passou desde que se soube da operação Serval? A União organizou reuniões de crise, para ajustar o calendário e as ações do processo europeu para o Mali, decidido pelos 27, em especial a missão EUTM Mali. A reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros, que se realizou em Bruxelas, em 17 de janeiro, foi o seguimento e a demonstração desse compromisso da União Europeia, solidária com a França quanto ao Mali. Pelo menos política e simbolicamente.

No concreto, a União dará o seu apoio financeiro, designadamente à MISMA – a Missão Internacional de Apoio ao Mali, composta essencialmente por forças africanas, posicionada no Mali – da CEDEAO [Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental], para financiar os salários dos soldados africanos.

Consenso hesitante mas europeu

No entanto, o Mali vem confirmar a dificuldade de aplicação da Política Externa e de Segurança Comum. Instituída pelo Tratado de Maastricht, em 1993, a PESC poderia "conduzir, no momento oportuno, a uma defesa comum". Em 1999, a cimeira de Helsínquia precisou que a União Europeia devia, até 2003, estar em condições de posicionar até 60 mil homens, no prazo de 60 dias, graças a meios aéreos e navais.

Desde então, a União tem tido dificuldade em reunir forças operacionais dessa dimensão. Em 2004, a Conferência de Empenhamento de Capacidades no Domínio Militar apresentou o conceito de agrupamentos táticos de 1500 homens, que permitiriam à Europa responder mais rapidamente às situações de crise. Uma das principais ambições militares da UE era dispor de capacidade de reagir depressa e eficazmente, nas zonas de conflito situadas fora da União.

Portanto, é verdade que, no caso do Mali, uma força europeia teria podido intervir no terreno, estabelecendo a marca diplomática e militar da União. Estamos perante uma crise, fora do território dos Vinte e Sete, uma crise em curso num país situado a menos de seis mil quilómetros de Bruxelas, uma crise que, à partida e para a maioria da comunidade internacional, com um consenso hesitante mas europeu real, torna necessária uma intervenção rápida, antes de esta ser confiada a outra força de tipo africano e regional.

Sem rostos e sem voz própria

Não foi nada disso que aconteceu. E, como é hábito, o mundo mediático e político e os próprios cidadãos apontam o dedo acusador a Bruxelas. A França está sozinha. Não existe uma Europa da defesa, uma Europa do terreno, não há unidade diplomática real. Contudo, não é em Bruxelas que devemos procurar a razão desta divisão de tarefas: é no centro da jurisdição dos países que detinham a responsabilidade pelo agrupamento tático. Ou seja, não por ordem especial, a França, a Alemanha e a Polónia. A França decidiu agir sozinha e, segundo parece, não pediu nada a ninguém. Por outro lado, para Berlim, e mais ainda para Varsóvia, o Mali é visto como um assunto muito francês e o investimento não promete grande retorno.

O desafio é de peso. Tem a ver com força diplomática real da União e é visível que Catherine Ashton tem dificuldade em firmar o seu lugar. A Europa diplomática e militar enfrenta sérios problemas. No entanto, repita-se, a União Europeia empenha-se na crise, como já fez nos casos da Somália e da Palestina. A França não está sozinha no Mali. Demasiado discreta, com uma arquitetura institucional complexa e incompreensível, sem rostos e sem voz própria, a União encoraja os argumentos fáceis vindos dos Estados-membros.

Trabalha no terreno, financia, envolve-se, mas perde a batalha na frente mediática e não é capaz de ultrapassar as suas divisões na aplicação de uma política de segurança e de defesa comum estratégica e operacional. Uma diplomacia suave, económica, cultural, educativa, mediática, desportiva... não pode viver sem uma relação forte, totalmente integrada numa diplomacia dura, militar e financeira e na sua irmã mais nova do século XXI, a ciberdiplomacia, hoje plenamente dominada pelos EUA. A Europa unida será mais europeia também na defesa e na segurança.

Extraído do sítio Presseurop

UNIÃO EUROPEIA: "CAMERON PÔS O DEDO NA FERIDA"

Nas placas: "Fora; Dentro" - Peter Brookes

O discurso do primeiro-ministro britânico, de 23 de janeiro, sobre o futuro das relações entre o seu país e a UE, é tema de primeira página da maioria dos jornais europeus. A hipótese de saída do Reino Unido suscita reações que vão da indignação a uma certa compreensão.

São também muitos os jornais que, tal como uma boa parte da imprensa britânica, reconhecem que Cameron levantou questões legítimas e que merecem uma resposta, tanto ao nível nacional como europeu.

Em Paris, Les Echos considera que o discurso de David Cameron lança "desafios perigosos". Este diário económico não hesita em comparar o primeiro-ministro à sua distante antecessora:

Como fez no seu tempo Margaret Thatcher, David Cameron não se preocupa com o interesse comum que representa a construção de uma Europa como potência económica – e, necessariamente política. A sua visão passa por uma Europa feita por medida, da qual seja possível ser membro sem aceitar todas obrigações, estar na União sem estar no euro e em Schengen. No entanto, se a crise do euro e os planos de salvamento da Grécia serviram para alguma coisa, foi para mostrar a necessidade de uma integração mais estreita dos países europeus, designadamente em matéria orçamental, fiscal e financeira. Pelo menos entre os 17 países do euro. Não é evidentemente esse o objetivo de David Cameron.

Na Alemanha, Die Welt considera que "Cameron põe o dedo nas feridas da UE" e opina – como a esmagadora maioria dos comentadores alemães – que as dúvidas do primeiro-ministro britânico são absolutamente legítimas e até "libertadoras".

Cameron está longe de estar isolado na sua análise das mudanças que a UE enfrenta e não se pode responder a essa análise com um simples ´continuemos em frente´. […] A atitude do primeiro-ministro britânico de pôr em cima da mesa [a questão da estabilização da zona euro através de um aprofundamento da UE] não é antieuropeia. Também não é antieuropeu da parte de Cameron recordar que a competitividade da União se encontra ameaçada e atribuir a responsabilidade por isso (nomeadamente) a uma gestão esclerosada da UE – as regras e ordens exageradas que paralisam muitas forças criativas na economia. E não é de modo algum antieuropeu recordar o défice democrático humilhante e a falta de confiança dos cidadãos na UE e nas suas instituições. […] O Reino Unido segue uma abordagem ‘mais prática que emocional’, diz Cameron. Isso talvez fizesse bem a todos nós.

"O Reino Unido não sonha com uma existência confortável e isolada na orla da Europa", diz o comentador do Gazeta Wyborcza, Tomasz Bielecki, que recorda o discurso de Margaret Thatcher, de 1988, salientando que, para Cameron, que, tal como Thatcher, é um forte crítico da UE, mas defende ao mesmo tempo a continuidade da qualidade de membro da Comunidade Europeia para o Reino Unido, a Brexit seria um acidente de trabalho fatal, tal como (…) seria um duro golpe contra a união de 27 países, e a zona euro tornar-se-ia o único polo de verdadeira integração, rodeado pelas periferias da UE. Para nós [polacos], é certamente muito mais perigoso que para os britânicos. O zloti polaco não é a libra britânica e as Ilhas Britânicas não são a Polónia, que tem vizinhos que nem sempre são fáceis. O jogo de David Cameron deveria levar-nos a seguir em frente com planos concretos para aderir à zona euro.

Em Estocolmo, o Svenska Dagbladet salienta que Cameron não é o único na Europa a exprimir a ideia segundo a qual "a adesão à UE não deve ser o equivalente a comprar um bilhete para um comboio fantasma, que não para em nenhuma estação e tem destino desconhecido". As reações ao seu discurso eram previsíveis, sublinha este diário: "em toda a Europa, ouvia-se dizer que a UE não é um smörgåsbord [bufete escandinavo], onde cada um pode escolher livremente o que quer." "Mas haverá apenas um caminho possível?", pergunta o diário:

A resposta é claramente não, dado o modo como a UE já funciona hoje: a Suécia não tem o euro. O Reino Unido não faz parte do espaço Schengen. Os exemplos são muitos. […] Para os britânicos, a alternativa é fazer face a uma UE que parte em todos os sentidos, com as seguintes perguntas: ‘How? Why? To what end?’ [Como? Porquê? Em que direção?]. Perguntas que deveriam ser do interesse de todos os Estados-membros e no interesse da União.

No mesmo comprimento de onda, o România liberă considera que a União "flexível, adaptável e aberta" proposta por Cameron é uma provocação muito séria. Este diário de Bucareste salienta que, pela primeira vez, um dirigente europeu apresenta uma visão da UE diferente da visão de uma integração política mais profunda; uma visão mais modesta, mas mais liberal e mais centrada no mercado livre. Até agora, a Roménia optou pelos Estados Unidos da Europa e pelo modelo alemão da União Europeia. Agora que existe outra visão, os nossos dirigentes políticos talvez se empenhem num verdadeiro debate sobre o modelo europeu mais vantajoso para um país como o nosso, pois é certamente isso que vão fazer outros países.

"Cameron lança uma sombra sobre a UE", lamenta por seu turno o jornal De Volkskrant. Este diário de Amesterdão, a cidade onde o primeiro-ministro deveria à partida ter pronunciado o seu discurso, considera contudo que o seu projeto deve ser levado a sério pela UE, se esta quiser garantir a sua sobrevivência:

Será muito difícil responder às exigências de Cameron, sem prejudicar toda a construção europeia. Quando um Estado-membro deseja voltar atrás sobre determinados acordos, haverá sem dúvida outros países que irão exigir exceções. Mas a saída do Reino Unido não é do interesse da UE – e, designadamente, da Holanda. É por isso que a Comissão Europeia e os outros Estados-membros devem levar seriamente em consideração as propostas britânicas. Além disso, a iniciativa britânica dá a Bruxelas matéria para reflexão: seria insensato lançarmo-nos em projetos de integração, se estes puserem em perigo a unidade da União Europeia.

Em Madrid, Lluis Bassets refere, em El País, que "a Europa britânica" se assemelha mais a uma "simples zona de comércio livre", como foi "a EFTA, criada como alternativa à Comunidade Económica Europeia". Este editorialista considera que, para o primeiro-ministro, a UE é um mero instrumento e não um objetivo. Para Cameron, embora não o diga ainda com todas as letras, a questão é clara: ou a UE se converte naquilo que os eurocéticos estão dispostos a tolerar ou não haverá outro remédio senão sair. O descaramento da chantagem é espantoso […]. O sonho conservador é relacionar-se sem intermediários com o mundo global e utilizar a UE como um mero espaço de comércio livre, o mais desregulamentado possível. É uma ideia que, um dia, pode ter sido atraente à partida, mas que agora choca com uma série de obstáculos; o maior é a dificuldade de todos os países europeus, incluindo o Reino Unido, de existirem por si mesmos num mundo global, como se fossem potências emergentes e não velhas antigas potências europeias. Washington e Pequim recriminam Cameron pelas suas ambiguidades: preferem relacionar-se com Londres através de uma UE forte.

Extraído do sítio Presseurop

23 janeiro 2013

UE ABRE CAMINHO PARA IMPOSTO SOBRE TRANSAÇÕES FINANCEIRAS


Ministros das Finanças dos 27 países da UE aprovam introdução de um imposto sobre transações financeiras em 11 Estados do bloco, abrindo caminho para que setor financeiro participe mais dos custos da crise do euro.

Os ministros das Finanças da União Europeia (UE) aprovaram nesta terça-feira (22/01), em Bruxelas, a introdução de um imposto sobre transações financeiras em 11 Estados do bloco. Esse imposto sobre operações bancárias e as realizadas no mercado financeiro não conseguiu ser aprovado para toda a UE, fazendo com que 11 países decidissem avançar juntos dentro da chamada "cooperação reforçada".

Com a decisão, fica definitivamente aberto o caminho à implementação do imposto na Alemanha, França, Áustria, Bélgica, Eslovênia, Estônia, Grécia, Itália, Espanha, Eslováquia e em Portugal. A presidência irlandesa acrescentou que a próxima etapa do processo será a apresentação, pela Comissão Europeia, de um texto especificando detalhes concretos do imposto.

Schäuble elogiou aprovação do imposto por ministros europeus

Em junho de 2012, a proposta da Comissão Europeia de um imposto sobre transações financeiras para toda a UE não alcançou consenso entre os membros do bloco, tendo sido barrada sobretudo pela forte resistência de Reino Unido e Suécia. Na ocasião, alguns países decidiram avançar, então, em "cooperação reforçada".

Cooperação reforçada

A "cooperação reforçada" é um mecanismo pelo qual, diante da impossibilidade de um acordo entre os 27 integrantes do bloco, um grupo de pelo menos nove membros (mais de um terço) pode aplicar uma regra entre si em determinada matéria, podendo outros países se unirem a eles posteriormente.

O ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, afirmou que Alemanha e França prepararam, juntas, o caminho para aprovação do imposto. "O setor financeiro deve participar de forma adequada dos custos causados pela crise financeira", afirmou Schäuble.

O comissário europeu responsável pela política tributária, Algirdas Semeta, classificou a medida de "um grande marco para a política orçamentária europeia". Ele afirmou que, nas próximas semanas, apresentará uma proposta concreta sobre a taxa, que, então, precisa ser aprovada apenas pelos 11 países.

Discussão sobre uso do dinheiro

Semeta disse que apresentará proposta concreta em semanas

A base deve ser uma proposta antiga de Semeta, elaborada para toda a UE, prevendo que todas as transações financeiras fossem taxadas em 0,1% e as operações com derivativos, em 0,01%. A receita esperada era de quase 60 bilhões de euros por ano.

Semeta sublinhou que, embora apenas 11 dos 27 Estados participem, o grupo é responsável por dois terços do desempenho econômico da UE e perfaz até 90% da produção econômica da zona do euro.

Embora ainda não seja claro o quanto a taxa vai trazer aos cofres da UE, já começou a disputa sobre seu uso. O presidente francês, François Hollande, defende que uma parte seja usada na luta contra o desemprego de jovens. A Comissão Europeia propôs, num primeiro esboço, ela mesma administrar o montante arrecadado. Alguns falaram em usar o imposto para reforçar a base financeira da zona do euro.

Extraído do sítio Deutsche Welle

27 setembro 2012

ECONOMIA DA CHINA PERDE SEU BRILHO - Yang Chen & Gary Pansey

Tubulações de aço utilizadas para andaimes ficam do fora de uma construção apoiando um anúncio que mostra o horizonte da cidade de Pequim em 2 de setembro de 2012. (Mark Ralston/AFP/Getty Images)
Estatísticas recém-lançadas e tensões comerciais crescentes estão se combinando para mostrar uma economia chinesa que está amolecendo e perdendo sua atratividade pelo investimento estrangeiro. Observações recentes de investidores qualificados e exigentes apontam para a necessidade de baixas expectativas.

O investimento estrangeiro direto (IED) na China caiu em agosto 1,4%, em comparação com o mesmo período no ano anterior, tornando-se o terceiro mês consecutivo de declínio.

Outros números do comércio continuam a enfraquecer. As importações em agosto não cresceram pela primeira vez nos últimos sete meses. A taxa de crescimento das exportações também permaneceu fraca em agosto. A Reuters previu que o crescimento do PIB da China em 2012 pode cair para 7%, abaixo do todo-importante 8%, e o mais baixo desde 1999.

O Financial Times relata que a economia da China abrandou e caracteriza a demanda doméstica como insuficiente, as exportações como preocupantes, a eficiência de alocação de capital como caindo e os lucros como escorregando, enquanto a inadimplência sobe e a bolha econômica está estourando.

Investidores proeminentes, sentindo que estas estatísticas sem brilho ilustram que a perspectiva econômica chinesa sempre-vista-como-cor-de-rosa não existe mais e que o fenômeno de crescimento rápido está acabado, parecem estar dispostos a encarar a realidade.

Terceiro declínio consecutivo

O IED foi de 8,326 bilhões de dólares em agosto, uma queda de 1,4% em comparação com o mesmo mês do ano passado, segundo o Ministério do Comércio. Houve um total de 2.100 empresas estrangeiras recém-criadas na China, um declínio ano-a-ano de 12,72%.

De janeiro a agosto deste ano, 74,994 bilhões de dólares em IED chegaram à China, 3,4% a menos do que 2011. Durante este mesmo período, os investimentos da União Europeia (UE) e dos EUA na China mostraram uma queda de 4,1 e 2,9%, respectivamente. Somente o Japão contrariou a tendência, com um aumento de 16,2% em seu investimento na China.

Este terceiro mês consecutivo de declínio no IED é um mau sinal, já que maio foi o único mês deste ano que o IED mostrou um aumento positivo sobre o ano passado. O Ministério do Comércio também comentou que as perspectivas para o comércio exterior parecem sombrias, pois incertezas múltiplas e fatores instáveis estão afetando o ambiente de negócios. Para os próximos meses, o IED pode ser até pior do que o período entre janeiro e agosto.

Tensão em ebulição

Atualmente, a tensão está em ebulição entre parceiros comerciais da China, a UE, os EUA e o Japão e isso lançará uma sombra sobre as perspectivas do IED uma vez que esses são os maiores investidores estrangeiros.

Em 6 de setembro, a UE iniciou uma investigação sobre o suposto dumping de painéis solares da China “no que equivaleria a maior investigação antidumping da história por valor”, segundo o New York Times. Isso é certamente um tema espinhoso entre os dois parceiros comerciais.

O presidente Obama anunciou formalmente que os EUA apresentarão uma queixa à Organização Mundial do Comércio (OMC), que diz que o subsídio fornecido pelo governo chinês para autopeças e automóveis está prejudicando os interesses dos fabricantes estadunidenses, segundo a CNN.

As manifestações anti-Japão que engoliram a China desde a semana passada forçaram muitas grandes empresas japonesas a fecharem suas fábricas na China por medo de serem saqueadas ou danificadas. Isso tem preocupado muitos observadores que temem que o comércio sino-japonês sofrerá um impacto de longo termo.

PIB em baixa de 13 anos

Os dados do comércio global continuam a mostrar uma economia chinesa muito lenta. Dados divulgados pela Administração Geral das Alfândegas não mostram crescimento das importações no mês de agosto, mas uma queda de 2,6% em relação ao mesmo mês do ano passado, segundo a mídia estatal Xinhua.

Este valor foi muito inferior às previsões médias de ganho de 3,4% numa pesquisa da Dow Jones Newswire de 11 economistas e mostra que a demanda doméstica continua a definhar.

As exportações chinesas em agosto mostraram um crescimento anêmico de 2,7% em comparação com o mesmo mês do ano passado. Como as exportações contribuem para 25% do PIB chinês e criam 200 milhões de empregos, dados econômicos fracos são devastadores para a economia chinesa.

Os economistas previram que esta recessão econômica chinesa durará pelo menos até o terceiro trimestre e o PIB para o ano de 2012 cairá para uma taxa de crescimento de 7,7%, a mais baixa registrada desde 1999, segundo a Reuters.

Investidores despertam para a realidade

“O mundo das previsões está excessivamente fixado na taxa de crescimento da China ficar em 8%? Certamente, os bancos de investimento nos últimos dias tropeçaram em si tentando adivinhar o tamanho do pacote de estímulo da China e se ele manterá a China no caminho certo com valor de crescimento padrão”, escreveu Rahul Jacob, um colunista do Financial Times, em seu blogue.

“Fraser Howie, coautor de Capitalismo Vermelho, recomenda cautela. Ele diz que, embora as pessoas tenham despertado para muitos dos riscos de investir na China nos últimos anos, muitos ainda são muito otimistas e ‘ainda há muitas ilusões’. Um dos equívocos mais perigosos ainda prevalente, diz ele, é a ideia de que o governo chinês é ‘todo-poderoso e que de alguma forma são melhores administradores da economia do que no Ocidente’”, segundo o Financial Times.

Ray Dalio, fundador da maior empresa do mundo de fundos de cobertura, a Bridgewater, previu que o crescimento diminuirá para menos de 5% num discurso proferido na semana passada no Conselho das Relações Exteriores em Nova York.

O pior é que os fatores que têm alimentado o rápido crescimento da economia chinesa na última década estão desaparecendo. Primeiro, o Yuan chinês não é mais considerado subvalorizado. Segundo, o crescimento da população está num impasse. Terceiro, o investimento, que antes contribuiu para mais de 50% do PIB, atingiu seus limites.

Os investidores estão se conscientizando da dura realidade econômica na China. O passado glorioso de incessante e rápido crescimento econômico pode muito bem agora ser uma memória distante.

Extraído do sítio The Epoch Times

13 setembro 2012

AUSTERIDADE CONTRA A CRISE DESACELERA ECONOMIA MUNDIAL, DIZ UNCTAD - Mário Câmera

Relatório de órgão das Nações Unidas diz que medidas de austeridade não estão surtindo efeito
As medidas de austeridade adotadas por governos de países desenvolvidos para tentar conter a crise econômica mundial não estão dando o resultado esperado e ainda desaceleram a economia mundial e aumentam a desigualdade de renda. É o que afirma o relatório da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad), divulgado nesta quarta-feira.

Em seu "Relatório de Comércio e Desenvolvimento 2012", a Unctad diz que os países desenvolvidos, como os da União Europeia, insistem no erro de não realizarem investimentos domésticos. Segundo a Unctad, essas políticas são responsáveis pelo crescimento econômico vir desacelerando em "todas as regiões do mundo".

O texto afirma que a austeridade fiscal e o arrocho salarial "estão enfraquecendo ainda mais o crescimento nesses países, sem alcançar os resultados esperados de redução de déficits fiscais, criação de empregos e renovação de confiança dos mercados financeiros."

O organismo lembra que em 2010 já alertava que o desafio para a recuperação dessas economias não era o aumento da dívida dos governos, mas a falta de demanda interna nos países mais ricos.

"A demanda é o que impulsiona as economias modernas", afirma o relatório.

Medidas anticíclicas

Ao criticar as medidas de austeridade adotadas por governos de países desenvolvidos, a Unctad destaca o melhor desempenho dos países em desenvolvimento, como o Brasil.

A resposta dos países em desenvolvimento à deterioração da economia mundial é a adoçãode políticas anticíclicas, com um aumento da despesa pública, informa o relatório.

O documento cita o Brasil como exemplo desse tipo de política, ao dizer que o governo federal adotou reformas fiscais para aumentar as receitas que financiam suas despesas.

No entanto, as medidas de austeridade prejudicam a demanda nos mercados desenvolvidos e isso reduz as perspectivas de exportação dos mercados em desenvolvimento. Estes últimos "não poderão evitar uma desaceleração de suas economias e estão vulneráveis à contínua deterioração das economias desenvolvidas", garante a Unctad.

O "Relatório sobre Comércio e Desenvolvimento 2012" prevê um crescimento de 2,3% para a economia mundial, em 2012 - contra os 2,7% registrados no ano passado. Segundo as previsões do organismo da ONU, o Brasil deve crescer 2,0%.

Desigualdade de renda

Grande parte do "Relatório sobre Comércio e Desenvolvimento 2012" é dedicada à questão da desigualdade de renda no mundo, que vem aumentando, segundo o organismo da ONU.

Para os economistas da Unctad, uma das saídas para retomar o caminho do crescimento econômico é, exatamente, reverter este quadro .

Ao lembrar que famílias de baixa e média renda gastam proporções muito maiores de seus salários em consumo, o relatório volta a citar o Brasil.

"No Brasil, vários programas destinados a erradicar a pobreza extrema e melhorar as oportunidades para populações vulneráveis foram lançados ou fortalecidos", diz o relatório, que também elogiou os esforços feitos pelo governo para diminuir a desigualdade de renda entre homens e mulheres no mercado de trabalho.

A Unctad não poupou os grandes executivos e agentes financeiros, lembrando que a remuneração "extremamente elevada" que ganham é "frequentemente relacionada à tomada excessiva de riscos em busca de lucros de curto prazo e de dividendos para os acionistas".

Do outro lado da moeda, aparecem os trabalhadores assalariados, que, segundo relatório, foram "forçados a se endividar para manter seus padrões de vida."

Extraído do sítio BBC Brasil

11 setembro 2012

SOROS: ALEMANHA DEVERIA COMANDAR OU ABANDONAR O EURO

George Soros
Nova Iorque – A Europa está em crise financeira desde 2007. Quando a bancarrota do Lehman Brothers ameaçou o crédito das instituições financeiras, o crédito privado foi substituído pelo crédito do estado, revelando uma falha não reconhecida no euro. Ao transferirem seu direito a imprimir moedas ao Banco Central Europeu (BCE), os países membros se expuseram ao risco de default, como fossem países de Terceiro Mundo, pesadamente endividados em moeda estrangeira. Os bancos comerciais arcaram com os títulos da dívida pública de países mais fracos, que se tornaram potencialmente insolventes.

Há um paralelo entre a atual crise do euro e a crise bancária internacional de 1982. Naquele momento, o Fundo Monetário Internacional salvou o sistema bancário global, emprestando dinheiro o suficiente para países pesadamente endividados; evitou-se o default, mas ao custo de uma depressão duradoura. A América Latina teve uma década perdida.

A Alemanha está hoje jogando o mesmo papel que o do FMI, de então. O cenário difere, mas o efeito é o mesmo. Os credores estão jogando todo o fardo do ajuste para os países devedores e se evadindo de suas próprias responsabilidades.

A crise do euro é uma mistura complexa de problemas das dívidas soberanas e dos bancos, assim como de problemas no desempenho da economia que deram lugar aos desequilíbrios na balança de pagamentos da zona do euro. Então, eles tentaram ganhar tempo.

Em regra, isso funciona. O pânico da finança arrefece e as autoridades lucram com a sua intervenção. Mas não desta vez, porque os problemas financeiros estiveram combinados com um processo de desintegração política.

Quando a União Europeia foi criada, era a corporificação de uma sociedade aberta – uma associação voluntária de estados iguais que concederiam parte de sua soberania em benefício do bem comum. A crise do euro agora está tornando a União Europeia algo fundamentalmente diferente, dividindo países-membros em duas classes – credores e devedores – com a responsabilidade sobre os credores.

Como país credor mais forte, a Alemanha emergiu como o hegemon. Países em débito pagam prêmios de risco substanciais para o financiamento de suas dívidas públicas. Isso se reflete nos seus custos de financiamento em geral. Para tornar as coisas piores, o Bundesbank permanece comprometido com uma doutrina monetária fora de moda, enraizada na traumática experiência alemã com a inflação. Como resultado, reconhece somente a inflação como uma ameaça à estabilidade, e ignora a deflação, que é a ameaça real hoje. Mais ainda, a insistência da Alemanha na austeridade por parte dos países devedores pode facilmente se tornar contraprodutiva, com o aumento da dívida em relação ao PIB, enquanto este despenca.

Há um perigo real de que a Europa de dois níveis se torne permanente. Tanto os recursos humanos como os financeiros serão atraídos para o centro, deixando a periferia permanentemente deprimida. Mas a periferia está fervilhando em descontentamento.

A tragédia da Europa não é o resultado de uma conspiração maligna, mas reside, antes, numa falta de políticas coerentes. Como nas tragédias gregas, concepções errôneas e a mais completa falta de entendimento têm consequências fatais, mesmo que não intencionadas.

A Alemanha, como o maior credor dos países, está no comando, mas se recusa a aceitar responsabilidades adicionais. Como resultado, toda oportunidade de resolução da crise foi perdida. A crise se espalhou da Grécia para outros países com déficit, e chegou mesmo a pôr em questão a sobrevivência mesma do euro. Como uma quebra do euro causaria um estrago imenso, a Alemanha sempre faz o mínimo necessário para mantê-lo vivo.

Mais recentemente, a chanceler Angela Merkel deu suporte ao Presidente do BCE, Mario Draghi, deixando assim o presidente do Bundesbank, Jens Weidmann , isolado. Isso permitirá que o BCE abafe os custos dos empréstimos aos países que se submeteram a um programa de austeridade sob supervisão da Troika (o FMI, o BCE e a Comissão Europeia).

Os devedores estão, mais cedo ou mais tarde, comprometidos com a rejeição dessa Europa de dois níveis. Se o euro cair em desgraça, o mercado comum da União Europeia será destruído, deixando a Europa pior do que estava quando os esforços para uni-la começaram, dado o legado de desconfiança e hostilidade mútuas. Quanto mais tardio for o rompimento, pior será o resultado. Então, é chegada a hora de considerar alternativas que até recentemente seriam consideradas inconcebíveis.

A meu juízo, a melhor linha de ação consiste em persuadir a Alemanha a escolher entre liderar a criação de uma união política com um compartilhamento de responsabilidades orçamentárias, ou o abandono do euro.

Na medida em que toda a dívida acumulada é nominal em euros, faz toda a diferença quem permanece no comando da união monetária. Se a Alemanha deixá-lo, o euro será depreciado. Os países devedores poderiam retomar sua competitividade; sua dívida em valores reais diminuiria e, com o BCE sob seu controle, a ameaça de default desapareceria e o custo de seus empréstimos cairiam a níveis comparáveis aos do Reino Unido.

Os países credores, por outro lado, teriam prejuízos nos seus investimentos nominais em euros e encontrariam uma competição dura em casa, a partir de outros países membros da zona do euro. A extensão dos prejuízos dos países credores dependeria da extensão da depreciação da moeda, dados os juros sobre a manutenção da depreciação dos títulos das dívidas.

Após o deslocamento inicial, o resultado final seria a realização do sonho de John Maynard Keynes, de um sistema monetário internacional, no qual tanto credores como devedores compartilhariam responsabilidades pela manutenção da estabilidade. E a Europa evitaria a depressão iminente.

O mesmo resultado poderia ser obtido, com menos custo para a Alemanha, se a Alemanha decidir se comportar como um hegemon benevolente. Isso significaria implementar a proposta da união bancária europeia, estabelecer uma espécie de nível de negociação entre países credores e devedores, ao estabelecer um Fundo de Redução de Dívida, vindo a convertê-la toda em dívida nos eurobônus, e visando a um crescimento nominal do PIB na casa dos 5%; assim a Europa poderia fortalecer sua via de saída do endividamento excessivo.

A Alemanha pode decidir comandar a zona do euro ou deixá-la. Qualquer das alternativas seria melhor do que criar uma insustentável Europa de dois níveis.

* Publicado originalmente em Project Syndicate. Tradução: Katarina Peixoto

Extraído do sítio Carta Maior