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27 agosto 2012

NOAM CHOMSKY: "QUEREM VENCER ASSANGE PELO CANSAÇO" - José Maria León

Nesta entrevista ao site equatoriano GkillCity, o linguista e filósofo norte-americano defende que Assange não teria hipóteses de ter um julgamento justo nos Estados Unidos. Chomsky acrescenta que do ponto de vista de quem ama a democracia, o fundador do Wikileaks merecia "uma medalha de honra" em vez de um julgamento. "A sombra que paira sobre todo este assunto é a expectativa de que a Suécia envie rapidamente Assange para os EUA, onde as hipóteses de ele receber um julgamento justo são virtualmente zero".

Julian Assange
O governo norte-americano emitiu uma nota em que declara que este assunto Julian Assange é um problema de britânicos, equatorianos e suecos. Você acha esse argumento honesto? Os EUA estão interessados no destino do criador do Wikileaks?

A declaração não pode ser levada a sério. A sombra que paira sobre todo este assunto é a expectativa de que a Suécia envie rapidamente Assange para os EUA, onde as hipóteses de ele receber um julgamento justo são virtualmente zero. Tudo isso é evidente a partir do tratamento brutal e ilegal dado a Bradley Manning [o soldado norte-americano acusado de ter vazado as informações mais importantes que o Wikileaks publicou], e a histeria geral com que o governo e os media vêm tratando o caso.

Além disso, do ponto de vista de quem acredita no direito dos cidadãos a saber o que seus governos planeiam e fazem – ou seja, de quem tem afeto pela democracia – Assange não deveria receber um julgamento, mas uma medalha de honra.

Numa entrevista com Amy Goodman para o Democracy Now!, você afirmou que a principal razão para os segredos mantidos pelos Estados é protegerem-se da sua própria população. É a primeira vez na história em que o mundo vê as verdadeiras cores da diplomacia?

Qualquer um que estuda documentos cujo prazo de sigilo expirou, percebe que o segredo é, em grande parte, um esforço para proteger os políticos dos seus próprios cidadãos – e não o país dos seus inimigos. Sem dúvida o segredo é por vezes justificado, mas é raro – e no caso dos documentos expostos pelo Wikileaks, eu não vi um único exemplo disto.

Esta não é – de maneira nenhuma – a primeira vez que as verdadeiras “cores da diplomacia” foram expostas por documentos divulgados. Os Pentagon papers são um caso famoso. Mas a questão é que se trata de um tema recorrente. As informações contidas inclusive nos documentos desclassificados oficialmente são, em geral, muito impressionantes. Porém, muito raramente estas informações tornam-se conhecidas pelo público – e até pela maior parte dos académicos.

Sobre o asilo oferecido pelo Equador para Assange, aponta-se uma ambiguidade na atitude do governo de Rafael Correa. Por um lado, manteria confronto retórico constante com os media (estando em disputa judicial com o diário El Universo e o jornalista Juan Carlos Calderón e Christian Zurita, autores do livro Big Brother). Por outro, defende Julian Assange. Você também vê uma contradição nisso?

Noam Chomsky
Pessoalmente, acho que só em circunstâncias extremas o poder do Estado deveria limitar a liberdade de imprensa – não importando, a esse respeito, quão vergonhoso e corrupto seja o comportamento dos media. Não há dúvida que houve vários graves abusos – por exemplo, quando as leis de difamação inglesa foram usadas por uma grande empresa mediática para destruir um pequeno jornal dissidente, que publicou uma crítica a uma de suas notícias sobre um escândalo internacional. Ocorreu há alguns anos, e não despertou praticamente nenhuma critica.

O caso do Equador tem de ser analisado pelos seus méritos, mas qualquer que seja a conclusão, não há qualquer influência em dar asilo ao Assange; assim como a supressão vergonhosa da liberdade de imprensa, no caso que mencionei, não deveria pesar, se a Grã-Bretanha concedesse o direito de asilo a alguém que teme perseguição estatal. Nem ninguém afirmaria o contrário, no caso de um poderoso Estado ocidental.

Já que estamos falando de ambiguidade, haveria um duplo padrão na aplicação das leis pelos britânicos, já que no caso de Pinochet o pedido de extradição solicitado por Baltazar Garzón foi negado?

O padrão reinante é subordinado aos interesses de poder. Raramente há uma exceção.

Qual é, na sua opinião, o futuro imediato no caso Assange? A polícia britânica invadirá a embaixada equatoriana? Assange será capaz de deixar a Inglaterra? Mais tarde, estará em perigo, mesmo recebido pelo Equador?

Não há praticamente nenhuma possibilidade de Assange sair do Reino Unido, ou da embaixada. Duvido bastante que a Inglaterra invada o território, uma violação radical do direito internacional – mas esta hipótese não pode ser descartada. Vale a pena lembrar o ataque contra a embaixada do Vaticano, por forças norte-americanas, depois da invasão no Panamá, em 1989. As grandes potências normalmente consideram-se imunes à lei internacional; e as classes próximas ao poder costumam proteger essa postura. Ao meu ver, a Inglaterra tentará vencer Assange pelo cansaço, esperando que ele não consiga suportar o confinamento num pequeno quarto na embaixada.

Num aspecto mais amplo, Slavoj Zizek disse que não estamos a destruir o capitalismo, mas apenas a testemunhar como o sistema se destrói a si mesmo. Seriam os movimentos do Occupy, a crise financeira na Europa e nos EUA, a ascensão da América Latina e outros países marginais ou o caso Wikileaks sinais deste desmoronamento?

Longe disso. A crise financeira na Europa poderia ser resolvida, mas está a ser usada como uma alavanca para minar o contrato social europeu. É basicamente um caso de guerra de classes. A atuação do banco central dos EUA (o Federal Reserve) é melhor do que a do europeu, mas é muito limitada. Outras medidas poderiam aliviar a grave crise no EUA, principalmente o desemprego. Para a maior parte da população, o desemprego é a principal preocupação, mas para as instituições financeiras, que dominam a economia e o sistema político, o interesse está em limitar o déficit, para permitir que prossiga o pagamento de juros.

Em geral, há um enorme abismo entre a vontade pública e política. Este é apenas um caso. A ascensão da América Latina é um fenómeno de grande significado histórico, mas está longe de estremecer o sistema capitalista. Embora o Wikileaks e os movimentos Occupy sejam irritantes para os que estão no poder – e um grande apoio para o bem público –, não são uma ameaça para os poderes dominantes.

* Entrevista por José Maria León, publicada no site Gkillcity | Tradução: Cauê Ameni, para o site Outras Palavras.

Extraído do sítio Carta Maior

17 julho 2012

COMO SE MANIPULA A INFORMAÇÃO - Mário Augusto Jakobskind


Não é de hoje que vários pensadores sérios estudam o mecanismo da manipulação da informação na mídia de mercado. Um deles, o linguista Noam Chomsky, relacionou dez estratégias sobre o tema.

Na verdade, Chomsky elaborou um verdadeiro tratado que deve ser analisado por todos (jornalistas ou não) os interessados no tema tão em voga nos dias de hoje em função da importância adquirida pelos meios de comunicação na batalha diária de “fazer cabeças”.

Vale a pena transcrever o quinto tópico elaborado e que remete tranquilamente a um telejornal brasileiro de grande audiência e em especial ao apresentador.

O tópico assinala que o apresentador deve “dirigir-se ao público como criaturas de pouca idade ou deficientes mentais. A maioria da publicidade dirigida ao grande público utiliza discursos, argumentos, personagens e entonação particularmente infantil, muitas vezes próxima da debilidade, como se o espectador fosse uma pessoa de pouca idade ou um deficiente mental. Quanto mais se tenta enganar o espectador, mais se tende a adotar um tom infantil”.

E prossegue Chomsky indagando o motivo da estratégia. Ele mesmo responde: “se alguém se dirige a uma pessoa como se ela tivesse 12 anos ou menos, então, por razão da sugestão, ela tenderá, com certa probabilidade, a uma resposta ou reação também desprovida de um sentido crítico como a de uma pessoa de 12 anos ou menos”.

Alguém pode estar imaginando que Chomsky se inspirou em William Bonner, o apresentador do Jornal Nacional que utiliza exatamente a mesma estratégia assinalada pelo linguista.

Mas não necessariamente, até porque em outros países existem figuras como Bonner, que são colocados na função para fazerem exatamente o que fazem, ajudando a aprofundar o esquema do pensamento único e da infantilização do telespectador.

De qualquer forma, o que diz Chomsky remete a artigo escrito há tempos pelo professor Laurindo Leal Filho depois de ter participado de uma visita, juntamente com outros professores universitários, a uma reunião de pauta do Jornal Nacional comandada por Bonner.

Laurindo informava então que na ocasião Bonner dissera que em pesquisa realizada pela TV Globo foi identificado o perfil do telespectador médio do Jornal Nacional. Constatou-se, segundo Bonner, que “ele tem muita dificuldade para entender notícias complexas e pouca familiaridade com siglas como o BNDES, por exemplo. Na redação o personagem foi apelidado de Homer Simpson, um simpático mas obtuso personagem dos Simpsons, uma das séries estadunidenses de maior sucesso na televisão do mundo” 

E prossegue o artigo observando que Homer Simpson “é pai de família, adora ficar no sofá, comendo rosquinhas e bebendo cerveja, é preguiçoso e tem o raciocínio lento”

Para perplexidade dos professores que visitavam a redação de jornalismo da TV Globo, Bonner passou então a se referir da seguinte forma ao vetar esta ou aquela reportagem: “essa o Hommer não vai entender” e assim sucessivamente.

A tal reunião de pauta do Jornal Nacional aconteceu no final do ano de 2005. O comentário de Noam Chomsky é talvez mais recente. É possível que o linguista estadunidense não conheça o informe elaborado por Laurindo Leal Filho, até porque depois de sete anos caiu no esquecimento. Mas como se trata de um artigo histórico, que marcou época, é pertinente relembrá-lo.

De lá para cá o Jornal Nacional praticamente não mudou de estratégia e nem de editor-chefe. Continua manipulando a informação, como aconteceu recentemente em matéria sobre o desmatamento na Amazônia, elaborada exatamente para indispor a opinião pública contra os assentados.

Dizia a matéria que os assentamentos são responsáveis pelo desmatamento na região Amazônica, mas simplesmente omitiu o fato segundo o qual o desmatamento não é produzido pelos assentados e sim por grupos de madeireiros com atuação ilegal.

Bonner certamente orientou a matéria com o visível objetivo de levar o telespectador a se colocar contra a reforma agrária, já que, na concepção manipulada da TV Globo, os assentados violentam o meio ambiente.

Em suma: assim caminha o jornalismo da TV Globo. Quando questionado, a resposta dos editores é acusar os críticos de defenderem a censura. Um argumento que não se sustenta.

A propósito, o jornal O Globo está de marcação cerrada contra o governo de Rafael Correa, do Equador, acusando-o de restringir a liberdade de imprensa. A matéria mais recente, em tom crítico, citava como exemplo a não renovação da concessão de algumas emissoras de rádio que não teriam cumprido determinações do contrato.

As Organizações Globo e demais mídias filiadas à Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) raciocinam como se os canais de rádio e de televisão fossem propriedade particular e não concessões públicas com normas e procedimentos a serem respeitados.

Em outros termos: para o patronato associado à SIP quem manda são os proprietários, que podem fazer o que quiserem e bem entenderem sem obrigações contratuais.

No momento em que o Estado fiscaliza e cobra procedimentos, os proprietários de veículos eletrônicos de comunicação saem em campo para denunciar o que consideram restrição à liberdade de imprensa.

Os governos do Equador, Venezuela, Bolívia e Argentina estão no índex do baronato midiático exatamente porque cobram obrigações contratuais. Quando emissoras irregulares não têm as concessões renovadas, a chiadeira do patronato é ampla, geral e irrestrita.

Da mesma forma que O Globo no Rio de Janeiro, Clarin na Argentina, El Mercurio no Chile e outros editam matérias com o mesmo teor, como se fossem extraídas de uma mesma matriz midiática.

Extraído do sítio Direto da Redação

16 abril 2012

O ATAQUE AO ENSINO PÚBLICO - Noam Chomsky

Os cortes de financiamento, os aumentos das propinas, a empresarialização das universidades, a instituição do ensino para o teste e outros mecanismos que pretendem destruir o interesse dos estudantes e moldá-los, são exemplos deste ataque. 

Manifestação de estudantes no Canadá. Fotografia de shahk


O ensino público está sob ataque em todo o mundo e, em resposta, realizaram-se protestos estudantis recentemente na Grã-Bretanha, no Canadá, no Chile, em Taiwan e noutros países.

A Califórnia também é um campo de batalha. O The Los Angeles Times informa sobre outro capítulo da campanha para destruir o que foi o maior sistema de ensino superior público do mundo: “Funcionários da Universidade Estadual da Califórnia anunciaram planos para congelar as matrículas na próxima primavera, na maioria dos campus, e para pôr em lista de espera todos os candidatos no próximo outono, dependendo do que for decidido sobre uma iniciativa fiscal na eleição de novembro.”

Cortes de financiamento semelhantes estão a ocorrer em todo o país. “Na maioria dos estados”, diz o New York Times, “são os pagamentos de propinas, não o dinheiro do estado, que cobrem a maior parte do orçamento”, de forma que “a era dos quatro anos nas universidades públicas a preços acessíveis, pesadamente subsidiadas pelo Estado, pode ter acabado”.

As faculdades comunitárias enfrentam cada vez mais problemas semelhantes – e os cortes de financiamento chegam ao ensino secundário.

A ideia de que beneficiamos, como nação, de uma educação superior, foi substituída pela crença de que são aqueles que recebem a educação que se beneficiam dela em primeiro lugar e por isso devem pagar a conta”, conclui Ronald G. Ehrenberg, administrador do sistema da Universidade Estadual de Nova York e diretor do Cornell Higher Education Research Institute.

A descrição mais precisa, penso eu, é “Erro de projeto” [Failure by Design], o título de um estudo recente do Economic Policy Institute, que desde há muito é uma importante fonte de informação confiável e de análise do estado da economia.

O estudo do EPI reexamina as consequências da transformação da economia, há uma geração, da produção doméstica à financeirização e à transferência da produção para outros países. Por projeto; sempre houve alternativas.

Uma primeira justificação para o projeto é o que o prémio Nobel Jospeh Stiglitz chamou de “religião” que afirma que “o mercado leva a resultados eficientes”, e que recentemente enfrentou mais um revés esmagador com o colapso da bolha imobiliária, ignorada por princípios doutrinários, desencadeando a atual crise financeira.

Houve também denúncias de alegados benefícios da expansão radical das instituições financeiras desde os anos 70. Uma descrição mais convincente foi dada por Martin Wolf, correspondente económico sénior do Financial Times: “Um setor financeiro fora de controlo está a devorar a moderna economia de mercado desde dentro, tal como uma larva da marabunta come o hospedeiro onde foi depositada.”

O estudo da EPI observa que o “Erro de Projeto” tem uma base de classe. Para os projetistas, foi um clamoroso sucesso, tal como revela a espantosa concentração de riqueza no 1% de topo, de facto no 0,1%, enquanto a maioria foi reduzida à virtual estagnação ou ao declínio.

Em resumo, quando têm oportunidade, “os Senhores da Humanidade” aplicam a sua “máxima vil” – “tudo para nós e nada para os outros”, como há muito explicou Adam Smith.

O ensino público massificado é uma das grandes conquistas da sociedade americana. Teve muitas dimensões. Um objetivo foi preparar agricultores independentes para a vida de trabalhadores assalariados que tolerassem o que encaravam como virtual escravidão.

O elemento coercivo não passou despercebido. Ralph Waldo Emerson observou que os líderes políticos defendem a educação popular porque temem que “Este país está a encher-se de milhares e milhões de eleitores, e é preciso educá-los para os manter longe das nossas gargantas.” Mas educados de forma correta: limitando as suas perspetivas e compreensão, desencorajando o pensamento livre e independente e formando-os na obediência.

A “máxima vil” e a sua implementação provocaram regularmente uma forte resistência, que por seu lado despertou os mesmos temores entre a elite. Há 40 anos, houve grande temor de que a população se estivesse a libertar da apatia e da obediência.

No extremo internacionalista liberal, a Comissão Trilateral – um grupo político não governamental a partir do qual foi desenhada em grande parte a administração Carter – tornou públicas em 1975 sérias advertências de que havia demasiada democracia, em parte devido a erros das instituições responsáveis pela “doutrinação dos jovens”. Na direita, um importante memorando de 1971, assinado por Lewis Powell, dirigido à Câmara de Comércio dos EUA, o principal lóbi empresarial, lamentava que os radicais estavam a tomar tudo – universidades, média, governo, etc. – e apelava à comunidade empresarial para que usasse o seu poder económico para reverter o ataque ao nosso apreciado modo de vida – que ele bem conhecia. Como lobista da indústria do tabaco, conhecia bem o Estado paternalista para com os ricos ao qual chamava de “mercado livre”

Desde então, muitas medidas foram tomadas para restaurar a disciplina. Uma é a cruzada pela privatização – pondo o controlo em mãos confiáveis.

Outra foi o grande aumento das propinas, até perto de 600 por cento, desde 1980. Este aumento produziu um sistema de ensino superior com “muito mais estratificação económica do que em qualquer outro país”, segundo Jane Wellman, ex-diretor do Delta Cost Project, que monitoriza estas questões. Os aumentos de propinas empurram os estudantes para a armadilha das dívidas de longo prazo e, assim, a subordinação aos poderes privados.

Dão-se justificativas de base económica, mas muito pouco convincentes. Em países ricos e pobres, incluindo o vizinho México, as propinas mantêm-se gratuitas ou simbólicas. Isto era assim também nos Estados Unidos, quando eram um país muito mais pobre, depois da Segunda Guerra Mundial e muitos estudantes conseguiam entrar nas universidades sob a lei GI1 – um fator de crescimento económico singularmente alto, mesmo pondo de lado o significado em termos de melhoria de vida.

Outro dispositivo é a empresarialização das universidades. Esta levou a um dramático aumento das camadas da administração, muitas vezes recrutadas fora em vez de serem oriundos da faculdade, como antes; e a imposição de uma cultura empresarial da “eficiência” – uma noção ideológica, não apenas económica.

Um exemplo disto é a decisão das universidade estaduais de eliminar os programas de enfermagem, engenharia e ciências da computação, porque são caros – e acontece que são profissões onde há falta de mão de obra, como informa o The New York Times. A decisão prejudica a sociedade, mas está de acordo à ideologia empresarial dos ganhos de curto-prazo sem consideração pelas consequências humanas, de acordo com a máxima vil

Um dos efeitos mais insidiosos afetam os professores e monitores. O ideal das Luzes na educação era plasmado na imagem do ensino como uma corrente que os estudantes seguiam a seu modo, desenvolvendo a sua criatividade e independência de espírito.

A alternativa, a ser rejeitada, é a imagem de derramar água num vaso – muito furado, como todos sabemos da experiência. Esta última abordagem inclui o ensino para o teste e outros mecanismos para destruir o interesse dos estudantes e procurar moldá-los, de forma a melhor controlá-los. Hoje, isso é tudo muito familiar.

4 de Abril de 2012
Publicado originalmente em Truthout
Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net

1 Lei que estabelecia uma gama de benefícios para os veteranos que regressavam da II Grande Guerra (os GI's), que incluíam empréstimos à habitação bonificados, empréstimos para arrancar um negócio ou uma fazenda, pagamento de propinas e despesas para frequentar a universidade, o ensino secundário ou a educação vocacional, assim como um ano de compensação de desemprego. (N.T.)


Extraído do sítio Esquerda.net

19 outubro 2011

CHOMSKY, DE CIENTISTA PROVOCADOR A GURU - Carlos Alberto Faraco*


O intelectual norte-americano propôs outra linguística, atribuindo-lhe como objeto o saber linguístico do falante e como tarefa um modelo formal capaz de representar esse saber. 



Noam Chomsky é, certamente, um dos intelectuais mais brilhantes que o século XX. Suas ideias deram nova configuração a problemas clássicos da linguística e da psicologia. Fez importantes interferências nos debates de filosofias da mente, da linguagem e da ciência. Contribuiu significativamente para o estabelecimento dessa grande área científica a que hoje se dá o nome de Ciências Cognitivas. Envolveu-se em densos debates públicos com outros importantes intelectuais, como Piaget, Foucault, Quine e Putnam entre outros.


Foto: Sacha Schuermann/AFP
Quando suas ideias começaram a circular-, houve quem as interpretasse como uma verdadeira revolução científica, nos termos de Thomas Kuhn. Talvez uma avaliação que pecou pelo excesso, considerando que não havia (como continua não havendo) um paradigma dominante nos estudos da linguagem verbal. O que Chomsky fez foi repor no centro do cenário da investigação científica da linguagem, da cognição e do cérebro uma perspectiva racionalista e inatista. Com isso, reformulou os problemas, estimulou novas direções investigativas e se pôs como contraponto a outros arcabouços teóricos. Nada disso, obviamente, é pouca coisa.

Além de cientista brilhante e provocador, Chomsky tem sido um intelectual engajadíssimo nas questões políticas contemporâneas. Tornou-se um crítico feroz do estamento militar-industrial-governamental dos EUA e da política externa de seu país. É hoje a personalidade mais destacada da chamada esquerda estadunidense e referência algo difusa dos muitos movimentos altermundialistas. Tornou-se guru de boa parte da esquerda mundial, apesar de seu credo político não ir muito além de uma retomada dos ideais políticos do Iluminismo, com alguns temperos socialistas libertários. Suas concepções políticas se centram no indivíduo – em seus direitos fundamentais e em sua liberdade. O que Chomsky faz é um reavivamento dos ideais políticos dos fundadores dos Estados Unidos. Nesse sentido, ele é, antes de tudo, um leitor radical da Declaração de Independência e da Constituição de seu país.

Como linguista, estreou na cena pública em 1957 ao publicar um pequeno livro (Estruturas Sintáticas), com o qual desconcertou a linguística que se fazia nos Estados Unidos desde Bloomfield. Era uma tradição fortemente empiricista, cujo modelo analítico jamais ultrapassava a organização superficial dos enunciados.

Saber linguístico do falante

Chomsky demonstrou que um tal modelo não era capaz de descrever e explicar o saber que o falante tem de sua língua – um saber que lhe dá competência para produzir e entender um conjunto infinito de enunciados. Ou seja, de fazer uso infinito de meios (gramaticais) finitos, o que caracteriza a criatividade linguística: os falantes não apenas reproduzem e compreendem enunciados “velhos”, mas produzem e entendem enunciados novos.

À criatividade acrescenta-se a capacidade que o falante tem de emitir juízos de gramaticalidade, ou seja, dizer se um enunciado pertence ou não à língua que fala. Mais ainda: o falante percebe idênticas relações sintáticas em enunciados cuja organização superficial é diferente (como entre construções ativas e passivas) e percebe diferenças nas relações sintáticas entre os termos de enunciados cuja organização superficial é aparentemente idêntica (como João é fácil de enganar e João é capaz de enganar). Por fim, diante de construções ambíguas (como João viu a menina saindo da escola), o falante é capaz de reconstruir os dois quadros de relações subjacentes ao enunciado superficial.

Um modelo gramatical empiricista não conseguirá jamais representar formalmente essas características do saber linguístico do falante. Não dispõe de recursos para dar conta da criatividade e conflita com o falante: vê diferenças onde o falante percebe igualdades; e vê igualdades onde o falante vê diferenças. Por isso tudo, Chomsky descartou o modelo do chamado estruturalismo norte-americano e propôs outra linguística, atribuindo-lhe como objeto o saber linguístico do falante e como tarefa a construção de um modelo formal capaz de representar esse saber.

Nos últimos 54 anos, Chomsky e seus seguidores desenharam e redesenharam a sua sintaxe num dos mais belos exercícios de arquitetura de modelos formais que a ciência contemporânea nos oferece. Trata-se de uma engenhosa sequência de experimentos formais em duelo com dados da empiria – dados que vinham, numa primeira fase, basicamente da língua inglesa (o que foi motivo de muitas críticas) e que, posteriormente, passaram a vir também de outras várias línguas, embora nunca na perspectiva de uma linguística de corpus. Não há, na linguística chomskyana, como pressuposto epistemológico, a exigência de coletar sistematicamente uma grande quantidade de dados. Suas bases racionalistas descartam procedimentos indutivos (afinal, a língua é infinita) e, por outro lado, se confia no saber intuitivo do falante e em seus juízos de gramaticalidade.

Num balanço deste meio século, pode-se dizer que houve um aprofundamento da compreensão de fenômenos sintáticos e, em especial, de sua complexidade. Demonstrou-se a insuficiência de uma concepção empiricista para dar conta da sintaxe das línguas humanas. Descartaram-se inúmeras alternativas formais que a teoria experimentou e que se mostraram igualmente insuficientes. Apesar disso tudo, não se alcançou (ainda) um modelo suficientemente satisfatório. Continua, portanto, sem resposta a pergunta quanto às propriedades que deve ter um modelo formal capaz de representar a sintaxe das línguas humanas.

Saber inato

Depois de ter desmontado, em 1957, as bases do estruturalismo norte-americano, Chomsky provocou novo frenesi ao escrever, em 1959, uma resenha do livroComportamento Verbal, do psicólogo comportamentalista B.F. Skinner. Nela, Chomsky vai argumentar que uma teoria cognitiva de tipo comportamentalista é incapaz de dar conta do processo pelo qual uma criança passa de não falante a falante da língua de sua comunidade.

Chomsky chama a atenção para o fato de que se trata de um processo surpreendente, caso se considere a pobreza dos dados a que a criança é exposta: a quantidade é pequena (considerando que as possibilidades são infinitas, ou seja, a criança nunca será exposta à língua toda) e de qualidade relativamente baixa (fragmentários, com muitos arranques em falso, lapsos e interrupções).

Apesar da pobreza de estímulos, a criança torna-se um falante autônomo, sendo capaz de produzir e entender enunciados que ela não ouviu antes, isto é, ela passa a fazer uso infinito dos meios gramaticais finitos. E esse processo se dá de forma bastante homogênea em todas as partes do mundo, mais ou menos na mesma faixa etária (por volta dos 2 anos) e sem que haja qualquer ensino sistemático.

A conclusão é de que a criança não aprende a língua apenas por imitação nem por mecanismos de estímulo-resposta. Chomsky descarta, assim, o comportamentalismo e postula que só é possível explicar tal processo cognitivo admitindo-se a existência de um saber inato – específico da espécie humana –, que define o que é uma língua humana possível e que permite à criança, diante dos poucos e precários dados que recebe do seu ambiente, descobrir a gramática da língua que aí se fala. A esse saber inato Chomsky deu o nome de “dispositivo de aquisição da linguagem” ou, ainda, de Gramática Universal (GU).

Esta última expressão não deve ser entendida como designando propriedades que estariam presentes em todas as línguas. Diz respeito, na verdade, ao conjunto de princípios que definem uma língua humana possível. Sob outro olhar, significa dizer que as línguas humanas não variam indefinidamente. Elas são diferentes entre si, mas se configuram sob restrições gerais estritas dadas pelas características do cérebro humano.

Módulo da linguagem

É nesse sentido que Chomsky diz ser a faculdade da linguagem verbal um órgão do cérebro, um módulo específico e autônomo, claramente distinto de outros módulos que têm a seu cargo a articulação e percepção dos sons da fala e a formulação dos pensamentos em termos conceituais. O módulo da linguagem produz sequências abstratas que devem ser “legíveis” aos outros módulos, que lhe darão, na interface, uma roupagem articulatória e conceitual.

Por isso, a meta efetiva do linguista é alcançar a explicitação desses princípios da GU e do modo como eles operam no desenho de cada uma das línguas e, portanto, na descoberta que a criança faz da gramática da língua de seu ambiente.

Chomsky considera que o módulo da linguagem, em sendo um objeto natural (um órgão biológico), é a única dimensão da linguagem passível de uma abordagem científica. Todo o resto – ou seja, os usos que fazemos da linguagem (que ele reúne sob o termo pragmáticaem seu livro Novos Horizontes no Estudo da Linguagem e da Mente, de 2000, com tradução brasileira de 2006) – escapa completamente, por sua imprevisibilidade e complexidade, ao escopo de nossas capacidades científicas.

Como ele mesmo diz, numa entrevista publicada na revista Science & Technology News (1º/3/2006): “A ciência aborda coisas muito simples e faz perguntas muito complexas sobre elas. Tão logo as coisas se tornam muito complexas, a ciência não pode lidar com elas… Mas é um assunto complicado: a ciência estuda o que está no limite do entendimento e o que está no limite do entendimento é, geralmente, bastante simples. E ela raramente alcança as questões humanas. As questões humanas são muitíssimo complicadas”.

Como se vê, nada em Chomsky é pouco polêmico; tudo é muito provocativo. Não sabemos se suas hipóteses se sustentarão no futuro. Temos, porém, de admitir que ele formulou problemas que continuarão nos desafiando por muito tempo ainda.

* Carlos Alberto Faraco é Professor de Linguística da Universidade Federal do Paraná.

Extraído do sítio da Revista Carta Capital