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29 agosto 2012

DA EUFORIA À DEPRESSÃO CAPITALISTA - Emir Sader

A euforia capitalista dos anos 1990 levou à teoria da “new economics”. O capitalismo, marcado por suas crises cíclicas, deixaria de sofrê-las, para passar a uma fase sem crises.

Os novos desenvolvimentos tecnológicos impulsionariam um ciclo contínuo de desenvolvimento econômico, com a computação tendo o duplo papel de puxar uma demanda que se igualaria a do automóvel no século passado – incluindo um modelo novo anual -, ao mesmo tempo que permitiria prever antecipadamente os gargalos que permitiriam prever e solucionar preventivamente as crises.

A própria possibilidade de quaisquer garotos abrirem uma empresa na garagem de casa e a transformarem em uma empresa de sucesso mundial, quase sem capital inicial, seria a demonstração da pujança econômica do capitalismo e do caráter de “sociedades abertas” das sociedades capitalistas.

Essa festança acabou logo, com a crise de 2000, que desmentiu as teses e fez com que os teóricos da “new economics” partissem para outra moda, também de curta duração. As crises voltaram, com ela as recessões, até que se desembocou na prolongada e profunda crise atual, iniciada em 2007.

Tal como a bomba de tempo da febre de internet, desta vez a bolha de consumo girou em torno do setor imobiliário. Para tentar suprir, pelo menos temporariamente, o desequilíbrio entre produção e consumo, o sistema bancário foi ampliando os créditos, sabendo que não correspondiam a capacidade real de pagamento por parte dos que os contratavam. Até que a pirâmide explodiu, todo o sistema imobiliário, ruiu, com milhões de pessoas sem conseguir pagar suas hipotecas, devolvendo os imóveis aos bancos, perdendo tudo, mas preferindo isso a continuar aumentando suas dividas.

As ruas da Califórnia se encheram de famílias morando nos seus carros, os bancos ficaram abarrotados de imóveis devolvidos, o sistema bancário chegou à beira do colapso, a recessão, através deste se propagou para o conjunto da economia. Os governos correram a salvar os bancos, com a ilusão de que os bancos salvariam os países. Os bancos se salvaram e no segundo ciclo da crise, a partir de 2011, os que quebraram foram os países.

A crise segue, sem horizonte de término, levando praticamente toda a economia europeia à recessão, enquanto países como os EUA e o Japão permanecem entre crescimento zero e recessão.

Mas quando o capitalismo escancara suas contradições, seus limites, seu esgotamento, não surge no mundo ainda um modelo que o supere. A América Latina é a região que expressamente resiste – na maioria dos seus países – à hegemonia neoliberal, com Estados ativos que induzem o crescimento econômico e seguem ampliando suas políticas sociais, baseados em alianças regionais e com o Sul do mundo. Mas não tem o continente força própria para desenvolver um modelo alternativo ao neoliberalismo em escala mundial. Resiste, o que faz da América Latina a região de resistência ao polo neoliberal que ainda domina o centro do sistema.

Vivemos por isso um tempo de turbulências, mais ou menos prolongadas, até que um modelo e forças alternativas – que certamente terão a América Latina como um de seus protagonistas essenciais – possam conseguir construir uma alternativa ao capitalismo decadente.

Extraído do sítio Carta Maior

20 agosto 2012

MERCOSUL VERSUS A NOVA ALCA VERSUS A CHINA - Samuel Pinheiro Guimarães

Hoje, o embate político, econômico e ideológico na América do Sul se trava entre os Estados Unidos, a maior potência do mundo; a crescente presença chinesa, com suas investidas para garantir acesso a recursos naturais, ao suprimento de alimentos e de suas exportações de manufaturas; e as políticas dos países do Mercosul, que ainda entretém aspirações de desenvolvimento soberano, pretendem atingir níveis de desenvolvimento social elevado e que sabem que, para alcançar estes objetivos, a ação do Estado, é indispensável. O artigo é de Samuel Pinheiro Guimarães.


1. Todo o noticiário sobre Mercosul, Aliança do Pacífico, Parceria Transpacífica e China tem a ver com um embate ideológico entre duas concepções de política de desenvolvimento econômico e social. 

2. A primeira dessas concepções afirma que o principal obstáculo ao crescimento e ao desenvolvimento é a ação do Estado na economia.

3. A ação direta do Estado na economia, através de empresas estatais, como a Petrobrás, ou indireta, através de políticas tributárias e creditícias para estimular empresas consideradas estratégicas, como a ação de financiamento do BNDES, distorceria as forças de mercado e prejudicaria a alocação eficiente de recursos.

4. Nesta visão privatista e individualista, uma política de eliminação dos obstáculos ao comércio e à circulação de capitais; de não discriminação entre empresas nacionais e estrangeiras; de eliminação de reservas de mercado; de mínima regulamentação da atividade empresarial, inclusive financeira; e de privatização de empresas estatais conduziria a uma eficiente divisão internacional do trabalho em que todas as sociedades participariam de forma equânime e atingiriam os mais elevados níveis de crescimento e desenvolvimento.

5. Esta visão da economia se fundamenta em premissas equivocadas. Primeiro, de que todos os Estados partem de um mesmo nível de desenvolvimento, de que não há Estados mais e menos desenvolvidos. Segundo, de que as empresas são todas iguais ou pelo menos muito semelhantes em dimensão de produção, de capacidade financeira e tecnológica e de que não são capazes de influir sobre os preços. Terceiro, de que há plena liberdade de movimento da mão de obra entre os Estados. Quarto, de que há pleno acesso à tecnologia que pode ser adquirida livremente no mercado. Quinto, de que todos os Estados, inclusive aqueles mais desenvolvidos, seguem hoje e teriam seguido passado esse tipo de políticas.

6. Como é obvio, estas premissas não correspondem nem à realidade da economia mundial, que é muito, muito mais complexa, nem ao desenvolvimento histórico do capitalismo.

7. Historicamente, as nações hoje altamente desenvolvidas utilizaram uma gama de instrumentos de política econômica que permitiram o fortalecimento de suas empresas, de suas economias e de seus Estados nacionais. Isto ocorreu mesmo na Inglaterra, que foi a nação líder do desenvolvimento capitalista industrial, com a Lei de Navegação, que obrigava o transporte em navios ingleses de todo o seu comércio de importação e exportação; com a política de restrição às exportações de lã em bruto e às importações de tecidos de lã; com as restrições à exportação de máquinas e à imigração de “técnicos”.

8. Políticas semelhantes utilizaram a França, a Alemanha, os Estados Unidos e o Japão. Países que não o fizeram naquela época, tais como Portugal e Espanha, não se desenvolveram industrialmente e, portanto, não se desenvolveram.

9. Se assim foi historicamente, a realidade da economia atual é a de mercados financeiros e industriais oligopolizados em nível global por megaempresas multinacionais, cujas sedes se encontram nos países altamente desenvolvidos. A lista das maiores empresas do mundo, publicada pela revista Forbes, apresenta dados sobre essas empresas cujo faturamento é superior ao PIB de muitos países. Das 500 maiores empresas, 400 se encontram operando na China. Os países altamente desenvolvidos protegem da competição estrangeira setores de sua economia como a agricultura e outros de alta tecnologia. Através de seus gigantescos orçamentos de defesa, todos, inclusive a Alemanha e o Japão, que não poderiam legalmente ter forças armadas, subsidiam as suas empresas e estimulam o desenvolvimento cientifico e tecnológico. Com os programas do tipo “Buy American” e outros semelhantes, privilegiam as empresas nacionais de seus países; através da legislação e de acordos cada vez mais restritivos de proteção à propriedade intelectual, dificultam e até impedem a difusão do conhecimento tecnológico. Através de agressivas políticas de “abertura de mercados” obtém acesso aos recursos naturais (petróleo, minérios etc) e aos mercados dos países periféricos, em troca de uma falsa reciprocidade, e conseguem garantir para suas megaempresas um tratamento privilegiado em relação às empresas locais, inclusive no campo jurídico, com os acordos de proteção e promoção de investimentos, pelos quais obtém a extraterritorialidade. Como é sabido, protegem seus mercados de trabalho através de todo tipo de restrição à imigração, favorecendo, porém, a de pessoal altamente qualificado, atraindo cientistas e engenheiros, colhendo as melhores “flores” dos jardins periféricos.

10. A segunda concepção de desenvolvimento econômico e social afirma que, dada a realidade da economia mundial e de sua dinâmica, e a realidade das economias subdesenvolvidas, é essencial a ação do Estado para superar os três desafios que tem de enfrentar os países periféricos, ex-colônias, algumas mais outras menos recentes, mas todas vítimas da exploração colonial direta ou indireta. Esses desafios são a redução das disparidades sociais, a eliminação das vulnerabilidades externas e o pleno desenvolvimento de seu potencial de recursos naturais, de sua mão de obra e de seu capital.

11. As extremas disparidades sociais, as graves vulnerabilidades externas, o potencial não desenvolvido caracterizam o Brasil, mas também todas as economias sul-americanas. A superação desses desafios não poderá ocorrer sem a ação do Estado, pela simples aplicação ingênua dos princípios do neoliberalismo, de liberdade absoluta para as empresas as quais, aliás, levaram o mundo à maior crise econômica e social de sua História: a crise de 2007. E agora, Estados europeus, pela política de austeridade (naturalmente, não para os bancos) que ressuscita o neoliberalismo, atacam vigorosamente a legislação social, propagam o desemprego e agravam as disparidades de renda e de riqueza. Mas isto é tema para outro artigo.

12. Assim, neste embate entre duas visões, concepções, de política econômica, a aplicação da primeira política, a do neoliberalismo, levou à ampliação da diferença de renda entre os países da América do Sul e os países altamente desenvolvidos nos últimos vinte anos até a crise de 2007. Por outro lado, é a aplicação de políticas econômicas semelhantes, que preveem explicitamente a ação do Estado, que permitiu à China crescer à taxa média de 10% a/a desde 1979 e que farão que a China venha a ultrapassar os EUA até 2020. Ainda assim, há aqueles que na periferia não querem ver, por interesse ou ideologia, a verdadeira natureza da economia internacional e a necessidade da ação do Estado para promover o desenvolvimento. Nesta economia internacional real, e não mitológica, é preciso considerar a ação da maior Potência.

13. A política econômica externa dos Estados Unidos, a partir do momento em que o país se tornou a principal potência industrial do mundo no final do século XIX e em especial a partir de 1945, com a vitória na Segunda Guerra Mundial, e confiante na enorme superioridade de suas empresas, tem tido como principal objetivo liberalizar o comércio internacional de bens e promover a livre circulação de capitais, de investimento ou financeiro, através de acordos multilaterais como o GATT, mais tarde OMC, e o FMI; de acordos regionais, como era a proposta da ALCA e de acordos bilaterais, como são os tratados de livre comércio com a Colômbia, o Chile, o Peru, a América Central e com outros países como a Coréia do Sul. E agora as negociações, altamente reservadas, da chamada Trans-Pacific Partnership - TPP, a Parceria Transpacífica, iniciativa americana extremamente ambiciosa, que envolve a Austrália, Brunei, Chile, Malásia, Nova Zelândia, Peru, Singapura, Vietnã, e eventualmente Canadá, México e Japão, e que, nas palavras de Bernard Gordon, Professor Emérito de Ciência Política, da Universidade de New Hampshire, “adicionaria bilhões de dólares à economia americana e consolidaria o compromisso político, financeiro e militar dos Estados Unidos no Pacifico por décadas”. O compromisso, a presença, a influência dos Estados Unidos no Pacifico isto é, na Ásia, no contexto de sua disputa com a China. A TPP merece um artigo à parte.

14. Através daqueles acordos bilaterais, procuram os EUA consagrar juridicamente a abertura de mercados e obter o compromisso dos países de não utilizar políticas de desenvolvimento industrial e de proteção do capital nacional. Não desejam os Estados Unidos ver o desenvolvimento de economias nacionais, com fortes empresas, capazes de competir com as megaempresas americanas, por razões óbvias, entre elas a consequente redução das remessas de lucros das regiões periféricas para a economia americana. Os lucros no exterior são cerca de 20% do total anual dos lucros das empresas americanas!

15. Nas Américas, a política econômica dos Estados Unidos teve sempre como objetivo a formação de uma área continental integrada à economia americana e liderada pelos Estados Unidos que, inclusive, contribuísse para o alinhamento político de cada Estado da região com a política externa americana em seus eventuais embates com outros centros de poder, como a União Européia, a Rússia e hoje a China.

16. Assim, já no século XIX, em 1889 , no mesmo ano em que Deodoro da Fonseca proclamou a República, na Conferência Internacional Americana, em Washington, os Estados Unidos propuseram a criação de uma união aduaneira continental. Esta proposta, que recebeu acolhida favorável do Brasil, no entusiasmo pan-americano da recém-nascida república, foi rejeitada pela Argentina e outros países.

17. Com a I Guerra Mundial, a Grande Depressão, a ascensão do nazismo e a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos procuraram estreitar seus laços econômicos com a América Latina, aproveitando, inclusive, a derrota alemã e o retraimento francês e inglês, influências históricas tradicionais.

18. Em 1948, na IX Conferência Internacional Americana, em Bogotá, propuseram novamente a negociação de uma área de livre comércio nas Américas; mais tarde, em 1988, negociaram o acordo de livre comércio com o Canadá, que seria transformado em Nafta com a inclusão do México, em 1994; e propuseram a negociação de uma Área de Livre Comércio das Américas, a ALCA, em 1994.

19. A negociação da ALCA fracassou em parte pela oposição do Brasil e da Argentina, a partir da eleição de Lula, em 2002 e de Kirchner, em 2003 e, em parte, devido à recusa americana de negociar os temas de agricultura e de defesa comercial, o que permitiu enviar os temas de propriedade intelectual, compras governamentais e investimentos para a esfera da OMC, o que esvaziou as negociações.

20. O objetivo estratégico americano, todavia, passou a ser executado, agora com redobrada ênfase, através da negociação de tratados bilaterais de livre comércio, que concluíram com o Chile, a Colômbia, o Peru, a América Central e República Dominicana, só não conseguindo o mesmo com o Equador e a Venezuela devido à eleição de Rafael Correa e de Hugo Chávez e à resistência do Mercosul às investidas feitas junto ao Uruguai.

21. Assim, a estratégia americana tem tido como resultado, senão como objetivo expresso, impedir a integração da América do Sul e desintegrar o Mercosul através da negociação de acordos bilaterais, incorporando Estado por Estado na área econômica americana, sem barreiras às exportações e capitais americanos e com a consolidação legal de políticas econômicas internas, em cada país, nas áreas de propriedade intelectual, compras governamentais, defesa comercial, investimentos, em geral com dispositivos chamados de OMC – Plus, mais favoráveis aos Estados Unidos do que aqueles que conseguiram incluir na OMC, que, sob o manto de ilusória reciprocidade, beneficiam as megaempresas americanas, em especial neste momento de crise e de início da competição sino-americana na América Latina.

22. Na execução deste objetivo, de alinhar econômica, e por consequência politicamente, toda a América Latina sob a sua bandeira contam com o auxílio dos grupos internos de interesse em cada país que, tendo apoiado a ALCA no passado, agora apoiam a negociação de acordos bilaterais ou a aproximação com associações de países, tais como a Aliança do Pacífico, que reúne países sul-americanos e mais o México, que celebraram acordos de livre comércio com os EUA.

23. Hoje, o embate político, econômico e ideológico na América do Sul se trava entre os Estados Unidos da América, a maior potência econômica, política, militar, tecnológica, cultural e de mídia do mundo; a crescente presença chinesa, com suas investidas para garantir acesso a recursos naturais, ao suprimento de alimentos e de suas exportações de manufaturas e que, para isto, procuram seduzir os países da América do Sul e em especial do Mercosul com propostas de acordos de livre comércio; e as políticas dos países do Mercosul, Argentina, Brasil, Venezuela, Uruguai e Paraguai que ainda entretém aspirações de desenvolvimento soberano, pretendem atingir níveis de desenvolvimento social elevado e que sabem que, para alcançar estes objetivos, a ação do Estado, i.e. da coletividade organizada, é essencial, é indispensável.

Extraído do sítio Carta Maior

01 julho 2012

MUITO ALÉM DO PARAGUAI - Washington Araújo



A imprensa brasileira parece já completamente ‘desfamiliarizada’ com golpes de Estado. E, no entanto, não faz tanto tempo assim que tivemos o 1º de abril de 1964, golpe que se estendeu por duas décadas e somente se encerrando com a posse do vice-presidente civil José Sarney, uma vez que morreu, justo no dia da posse, o civil eleito Tancredo Neves.

É, tenho como pano de fundo mental o rito sumaríssimo que depôs no Paraguai, Fernando Lugo, presidente democraticamente eleito em 2009. É um país peculiar, não, peculiaríssimo. No Paraguai um motorista multado tem cinco dias para apresentar sua defesa, já um presidente eleito por maioria da vontade popular, não precisa mais que duas horas – 120 minutos – para ter o mandato cassado. 

Os grandes jornais brasileiros – a Folha de S.Paulo, o Estado de São Paulo e o Globo – ainda pouco refeito da pífia cobertura da Conferência das Nações Unidas, conhecida como Rio+20, desperdiçaram uma boa oportunidade para pesquisar sobre o estatuto do impeachment em países ao sul do Equador.

Se tivessem feito o dever de casa, poderiam explicar aos seus leitores coisas simples, triviais mesmo: como funciona a democracia paraguaia? Qual o papel dos Colorados na política paraguaia? Qual a diferença entre golpe parlamentarista e impedimento constitucional? 

Na falta de profundidade das análises, optou por ser linha de transmissão das reações de países da região à deposição de Lugo: Argentina, com Cristina de Kirchner, aumentando a retórica agressiva contra o que logo chamou de golpe contra a democracia no continente; Venezuela, com Hugo Chávez criticando fortemente a deposição de Lugo, chamando o que houve de golpe, fechando a embaixada em Assunción e, ainda por cima, proibindo a exportação de petróleo para o Paraguai; Bolívia, com Evo Morales fazendo eco a todas as ações do presidente venezuelano; Equador, ecoando Evo Morales; Costa Rica, oferecendo o país para possível asilo do deposto Lugo; Peru, Uruguai e Colômbia, condenando a rapidez com que o processo de deposição do presidente ocorreu.

Os jornais brasileiros, em um primeiro momento, evitaram rotular como legítimo o processo de impeachment de Fernando Lugo, mas logo nos dias seguintes começou a abraçar teses, no mínimo questionáveis: 

(1) O Paraguai é soberano e tudo transcorreu dentro da lei; 

(2) O Brasil faria bem se invocasse o princípio de “não-ingerência em assuntos internos” de outro país, a exemplo de seu não-alinhamento com as potências ocidentais que clamam pela deposição do ditador sírio Bashar Al-Assad ou exigem que o Brasil isole por completo o país dos aiatolás e seu crescente risco de acesso a artefatos bélicos de natureza nuclear e contundência crônica na violação sistemática dos direitos humanos no país;

(3) O Paraguai seguia no mesmo caminho esquerdista trilhado por Chávez, Kirchner, Morales, Correa, em sendo assim, a democracia ficaria preservada com o alijamento do poder do bispo vermelho, pai de filhos vários, que ousou logo nos primeiros meses de mandato rasgar o contrato que o país mantinha com o Brasil em torno da construção, manutenção, geração e transmissão de energia elétrica da gigante Itaipu Binacional e só voltando atrás após dobrar o valor financeiro a ser recebido anualmente do Brasil.

Sintomático nisso tudo é que um dos primeiros três países a reconhecer a deposição de Lugo foi o Estados Unidos da América, o mesmo que anos passados, foi célere em aceitar as condições em que o presidente Zelaya de Honduras foi deposto. Não seria o caso de a imprensa pesquisar os motivos que levam um país como o gigante norte-americano a ser tão rápido a conceder ares de legitimidade a uma mudança de comando tão pouco comum, tão célere e ao mesmo tempo tão distante – geográfica e economicamente – de seu país? O que está por trás da decisão vocalizada por Hillary Clinton e tomada – voltamos a frisar – em tempo recorde pelo presidente Obama?

Não custa nada dar tratos à imaginação e imaginar outro cenário. O que aconteceria se, em menos de 30 horas, fosse instaurado, debatido e aprovado pelo Parlamento Mexicano o processo de impeachment do presidente do país Felipe Calderón? E, nesse caso, se o Brasil estivesse dentre os primeiros a legitimar, com seu apoio político, a posse do vice de Calderón, como seria visto o ‘gesto’ pelos irmãos do Norte? Isso tudo acontecendo, antes mesmo, de os Estados Unidos, país que mantém com o México, além de extensa fronteira geográfica, enorme parceria econômico-financeira e, além de tudo, partilha de delicadas teias de políticas públicas de imigração e de combate ao contrabando e ao tráfico de drogas? Quanto a essas questões, nenhuma palavra na dita grande imprensa. (Para nossa grande imprensa, o Departamento de Estado norteamericano assume ares de semiinfalibilidade e fracasso mesmo, ah, isso é marca recorrente de nosso ora ousado Itamaraty.)

Passados mais alguns dias e começamos a ler editoriais e donos de colunas fixas dos jornais já citados em defesa da posse de Federico Franco, então vice-presidente do Paraguai e a considerar o impeachment paraguaio absolutamente dentro das leis, de acordo com o que rege as relações de temperatura e pressão tão próprias de um país em que vige em sua plenitude o sempre invocado estado democrático de direito. Será o Paraguai uma espécie de país-laboratório para o exercício de golpes de estado reais, mas que são apresentados à população como “processos democráticos legítimos”? E, se a moda pega, todo presidente de país eleito pelo sufrágio universal do voto secreto, deverá se manter refém dos integrantes de seus parlamentos, pois do contrário poderiam ser apeados do poder de acordo com os humores do seu parlamento ou das manobras que lhe dão ou lhe negam maioria em sua base de apoio?

Estas questões estão todas ainda em aberto. A imprensa poderia arregaçar as mangas, analisar as reações de organismos multilaterais como a UNASUL e o MERCOSUL, esboçar os desdobramentos econômicos que uma mudança de poder tão pouco usual em um país fronteiriço pode engendrar e, ainda, apresentar possíveis soluções para a manutenção de um mínimo de respeito aos ritos democráticos mais comezinhos, como o direito de ampla defesa que deve ser concedido a quem é acusado de crime comum, como aqueles ocorridos de cabeça quente no trânsito engarrafado, como para quem exerce o mandato de Presidente da República conquistado nas urnas pelos cidadãos e cidadãs de todo o país.

* Washington Araújo é jornalista e escritor. Mestre em Comunicação pela UNB, tem livros sobre mídia, direitos humanos e ética publicados no Brasil, Argentina, Espanha, México. Tem o blog http://www.cidadaodomundo.org
Email - wlaraujo9@gmail.com

Extraído do sítio Carta Maior

08 junho 2012

COLAPSO DA ESPANHA PODERIA CAUSAR "DESINVESTIMENTO" NA AMÉRICA LATINA - Ruth Costas

Banco Santander: vendas de ativos no Chile e Colômbia e rumores no Brasil
A Espanha é o segundo país que mais investe na América Latina e o retorno desses investimentos têm dado fôlego a empresas espanholas que enfrentam dificuldades em casa. Com o aprofundamento da crise financeira no país, porém, a dúvida é se algumas companhias espanholas seriam obrigadas a se desfazer dessas "joias da coroa".

Para o analista Wilber Colmerauer, diretor da consultoria Brasil Funding, em Londres, a possibilidade de que empresas espanholas tenham de reduzir seus investimentos e vender ativos na América Latina não pode ser ignorada.

"Ninguém quer se desfazer de ativos lucrativos na região, mas esse é um cenário provável se a crise na Espanha descambar para um colapso financeiro. Primeiro porque a União Europeia deve pressionar por uma reestruturação das instituições financeiras espanholas antes de ajudar o país. Segundo, porque deve ficar cada vez mais caro para empresas espanholas rolarem suas dívidas."

A Espanha conseguiu vender com êxito 2,6 bilhões de euros em bônus do governo nesta quinta-feira, com juros de 6%. No mês passado, o Bankia, quarto maior banco do país, pediu uma ajuda de 19 bilhões de euros ao governo, o que tem gerado incertezas entre investidores sobre a solidez do sistema financeiro espanhol.

Recentemente, rumores de uma possível venda de 30% a 40% do Santander no Brasil para o Banco do Brasil, em um primeiro momento, e para o Bradesco, logo em seguida, repercutiram em jornais e sites brasileiros – apesar de as negociações terem sido negadas por executivos dessas instituições financeiras.

O Santander já vendeu uma parte de seus ativos no Chile e se desfez de sua filial colombiana, conseguindo cerca de US$ 2 bilhões para reforçar sua posição na Espanha - onde a inadimplência está crescendo. O banco BBVA anunciou no mês passado que pretende liquidar total ou parcialmente seus fundos de pensão no Chile, Colômbia, Peru e México.

Para Colmerauer, tais iniciativas indicam que a América Latina e o Brasil, em especial, podem ser afetados por um possível acirramento da crise espanhola, não só por uma redução do comércio bilateral, como já vem sendo alardeado, mas também pela saída de divisas.

"É razoável esperar um aumento da remessa de lucros para as matrizes e uma venda de ativos na América Latina como resultado da reestruturação das empresas espanholas", diz o analista, identificando o setor bancário e o de construção como os mais vulneráveis.

"Para complicar, tal movimento de capitais poderia levar a desvalorização do câmbio"”

Último recurso

Na realidade, ainda há muita incerteza sobre como uma crise mais séria na Espanha - com uma corrida aos bancos e a necessidade de um pacote de ajuda europeia, por exemplo - poderia afetar investimentos no Brasil.

Miguel Pérez, da Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL), acredita que esses casos de "desinvestimento" ainda são marginais - e não deve haver uma tendência acentuada nessa direção, a menos no caso de um cenário extremo.

Segundo Pérez, em relação aos investimentos espanhóis na região o que existe hoje são duas tendências opostas. Enquanto em alguns setores, como o bancário, a reestruturação de empresas espanholas de fato já tem levado à venda de ativos e a um freio nos investimentos, em outros há uma concentração dos novos projetos na América Latina, como um reflexo da falta de oportunidades em mercados de países ricos.

Para o economista espanhol Ramon Pacheco Pardo, professor do King's College, em Londres, antes de reduzir o perfil das operações na América Latina, as espanholas deverão cortar investimentos em outras regiões. "Algumas empresas investiram no Leste Europeu, por exemplo, e vender esses ativos parece hoje uma melhor opção", afirma Pardo.

Arahuetes García, professor de economia da Universidade Pontifícia Comillas, em Madri, concorda. Para ele, a ideia de que as empresas espanholas começaram a reverter mais lucro para as matrizes tem sido "explorada politicamente" na América Latina.

A falta de investimentos foi um dos motivos usados pela Argentina para justificar a nacionalização de projetos da petrolífera espanhola Repsol no país.

Tábua de salvação

Nos últimos anos, investimentos em setores como bancos, energia, telecomunicações e construção na América Latina ajudaram muitas das empresas espanholas a contornarem o estancamento do mercado doméstico.

Mais da metade do lucro do BBVA nesse primeiro trimestre, por exemplo, foi proveniente do mercado latino-americano. Na Telefônica, a parcela representada pelos lucros na região é semelhante. No caso do Santander, só o Brasil é responsável por quase 30% do lucro do banco.

O BBVA está presente no México, na Argentina e no Chile. O Santander, no México, na Argentina e no Chile, além de no Brasil. A construtora Obrascon Huarte Lain (OHL) e a seguradora Mapfre estão entre empresas de outros setores que tentaram driblar a crise na Espanha diversificando seus investimentos no Brasil.


Extraído do sítio BBC Brasil

15 maio 2012

FHC DEBATE NOSTALGIA DA MÍDIA ARISTOCRÁTICA

FHC debate nostalgia da mídia aristocrática
Foto: Edição/247

“Você, com o seu computador, pode ser um Roberto Marinho, se tiver algo dizer”. A frase, do escritor Fernando Morais, foi dita no ano passado, em Recife, num evento que comemorou a história do jornal Movimento, um dos mais importantes durante a ditadura. “A expressão individual é o entretenimento do século XXI”, disse a jornalista Arianna Huffington, dona do site americano Huffington Post, um ano atrás no Brasil. O mundo vive hoje uma plenitude da liberdade de expressão. Na América Latina, que já conviveu com a censura e onde a inclusão digital avança a passos largos, o fenômeno é ainda mais pronunciado. A influência migra do papel para o online, blogueiros amadores se tornam muitas vezes mais relevantes do que jornalistas de veículos tradicionais e os leitores se expressam com veemência nos sites e redes sociais.

Nesse ambiente de plena liberdade, com muito mais vozes do que no passado, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso promove nesta terça-feira em seu instituto, em São Paulo, o debate “Meios de Comunicação e Democracia na América Latina”. A temática subliminar é o risco que governos de esquerda no continente representariam para a liberdade no continente. Tanto que, entre os debatedores, estão Carlos Mesa, ex-presidente da Bolívia, que deixou o cargo em 2005, diante de uma convulsão social, e Osvaldo Hurtado, que presidiu o Equador entre 1981 e 1984 – um país onde o atual presidente, Rafael Correa, é frequentemente apontado como inimigo da liberdade de expressão.

Nostalgia aristocrática

O que ocorre nos meios de comunicação, na verdade, é a soma de duas transformações simultâneas: a tecnológica, do papel para o online, e a cultural, do pago para o gratuito. A elas, se acrescenta uma terceira, na América Latina, que é a mudança no eixo político, com maior inclusão social e participação popular – o que já se reflete em vários setores da sociedade, menos nos meios de comunicação tradicionais.

Um exemplo claro desse choque entre o velho e o novo mundo ocorreu no fim de semana, quando a revista Veja atribuiu a “insetos” e “robôs” os protestos de que tem sido alvo, com frequência, nas redes sociais. Na verdade, os “insetos” e “robôs” são pessoas de carne e osso que passaram a se expressar e decidiram ter voz num mundo que, no Brasil, antes era dominado por quatro famílias. E que ainda confundem nostalgia aristocrática com liberdade de expressão.

(PS: para acompanhar as transformações em curso nos meios de comunicação, uma das melhores referências não é o iFHC, mas o Blog da Cidadania, de Eduardo Guimarães. Leia, ainda, reportagem anterior do 247 sobre o medo da mídia na América Latina).

Extraído do sítio Brasil 247

14 maio 2012

AMÉRICA LATINA VIVE MELHOR MOMENTO DE SUA HISTÓRIA - Ignácio Ramonet

A América Latina está vivendo o melhor momento de sua história, ao retirar da pobreza 80 milhões de pessoas pelas políticas de governos progressistas, afirmou aqui o diretor do jornal francês Le Monde Diplomatique, Ignacio Ramonet.

Depois de dois séculos de história, a região está celebrando o bicentenário das independências e quiçá nestes dois últimos séculos nunca tem tido democracia tão estendida nos países latino-americanos e paz, com exceção do que ocorre em Colômbia, agregou.

Ramonet apresentará hoje nesta capital seu último livro "A explosão da comunicação" que trata da explosão do jornalismo mediante uma reflexão de quais são os efeitos do impacto de internet nesse âmbito, e daí está mudando.

Em entrevista ao jornal digital oficial O Cidadão, o escritor, jornalista e acadêmico destacou que no contexto regional nunca teve tanto interesse pela integração.

Em particular referiu-se à União de Nações Sul-americanas (Unasul), a Aliança Bolivariana dos Povos de Nossa América (ALBA) e a Comunidade de Estados da América Latina e Caribe (Celac), como importantes mecanismos em desenvolvimento.

Tudo isto, agregou, mostra uma vontade latino-americana de trabalhar em comum e considerou que esse esforço que estão fazendo os governos progressistas, que são maioritários nesta região, é um esforço em defesa da justiça, da igualdade.

Comentou a existência de uma terrível desigualdade com o monopólio do setor privado sobre os meios de comunicação, e muitos destes governos propuseram-se a necessidade de voltar a equilibrar esse monopólio e estão criando serviços públicos de informação e comunicação, acrescentou.

Isto é bastante mal tolerado pelos grupos privados de comunicação e por isso hoje, quando um se passeia por América Latina, há a mesma batalha que no Equador onde os meios privados reprovam o governo democraticamente eleito, disse Ramonet.

Rejeitam estes governos, assinalou, por supostamente atacar à liberdade de expressão ou praticar a censura, quando na realidade o problema é que não querem perder o monopólio da propriedade dos meios que tinham.

29 abril 2012

HEGEMONIA NEOLIBERAL É ANTES DE TUDO MIDIÁTICA - Denílson Botelho


Não faz muito tempo que Francis Fukuyama proclamou o “fim da história”. Com o neoliberalismo, teríamos chegado ao ápice do desenvolvimento capitalista. E desta etapa, muitos acreditam que não passaremos. A crença neste modelo tornou-se dogmática. Juntando-se a isso o relativismo radical imposto pela pós-modernidade – ou seria pelos pós-modernos? –, chegamos a uma espécie de beco sem saída. Será?

Pelo visto, a América Latina insiste em nos ensinar que talvez não seja bem assim. Tomemos o caso da Argentina, alçada à condição de bola da vez na imprensa ao reestatizar a sua empresa petroleira YPF, que foi parar nas mãos da espanhola Repsol depois de privatizada nos anos 1990 por Carlos Menem.

Como se não bastassem as lições portenhas sobre como lidar com a herança maldita de uma ditadura militar, temos agora a chance de aprender um pouco mais com as notícias que chegam do sul do continente. Lá não houve anistia ampla, geral e irrestrita. Os militares que, em nome do Estado, prenderam, torturaram e mataram, responderam judicialmente pelos seus atos. A justiça foi chamada a cumprir o seu papel republicano. Aqui, muitos dos que lutaram contra o regime militar iniciado em 1964 foram presos – inclusive nossa atual presidenta –, torturados e assassinados. Já os que torturaram e mataram jamais foram levados às barras dos tribunais. E parte da imprensa cumpre um papel obscuro quando procura confundir a opinião pública associando justiça com vingança, de forma propositalmente equivocada. A anistia pode e deve ser revista, apesar dos oligopólios midiáticos difundirem a ideia de que isso não é possível.

Da mesma forma, privatizações podem e devem ser revistas, sobretudo quando isso se torna urgente e necessário. E de novo a Argentina pode se configurar como um interessante precedente. Basta observar as condições a que grande parte da população brasileira está submetida atualmente: tornou-se refém de empresas que deveriam prestar serviços públicos de qualidade e não o fazem. Exemplos não faltam.

Por que se recusam a pautar a discussão?

Daqui de onde escrevo, estudantes e trabalhadores vêm desde o ano passado parando de tempos em tempos a capital do Piauí, em protesto contra um sistema de transporte caro, precário, ineficiente e incapaz de assegurar um direito básico e fundamental: o de ir e vir livremente. E o que dizer dos serviços de distribuição de energia elétrica pelo país afora? Em Teresina, por exemplo, as interrupções são frequentes e danosas. O cenário não é muito diferente fora do eixo sul-sudeste. Distribuição de energia elétrica é um serviço que nem mesmo alguns países europeus ousaram privatizar no processo de desmonte do Estado de bem-estar (welfare state). Ou seja, nesse aspecto, nós levamos ao extremo uma iniciativa típica do modelo neoliberal de Estado mínimo que nem na sua matriz europeia foi concretizada.

No Rio de Janeiro, o caso das barcas que atendem a população que precisa cruzar a baía de Guanabara cotidianamente é uma evidência inconteste dos malefícios de um processo de privatização que só foi bom para empresas e empresários gananciosos por mais e mais lucros. Ora, então, por que não podemos rever as privatizações? Por que os grandes grupos de mídia se recusam a pautar a discussão desse modo?

Bons ventos

Miriam Leitão, escudeira-mor das Organizações Globo, diante da iniciativa de Cristina Kirchner, rapidamente bradou o velho argumento de sempre: não se pode ferir direitos e rasgar contratos. Direitos de quem? Dos empresários? E contratos não podem ser desfeitos mesmo quando se mostram lesivos à maioria da população? O medo maior é que, ao rever anistia e privatizações, cheguemos também às concessões públicas de radiodifusão no Brasil – cujas renovações deveriam ser submetidas ao debate e ao interesse público, mas não são. Se um dia o forem, estaremos derrubando um dos principais pilares de sustentação da hegemonia neoliberal, que é antes de tudo midiática.

Mas a história continua, ao contrário do que defendeu Fukuyama. E enquanto eu escrevo estas linhas, você as lê e cada um segue na sua labuta cotidiana, há todo um campo de possibilidades se descortinando no horizonte, bem diferente de um beco sem saída. Que bons ventos continuem a soprar da Argentina…

* Denílson Botelho é historiador e professor da Universidade Federal do Piauí, autor do livro A pátria que quisera ter era um mito – O Rio de Janeiro e a militância literária de Lima Barreto.

Extraído do sítio Correio do Brasil

22 outubro 2011

GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ: TODA GUERRA É BURRA - Marcos Aurélio Ruy*

Livro recém-lançado do Nobel de Literatura traz discursos anti-bélicos que o escritor colombiano fez desde os 17 aos 80 anos, embasados por sua luta em defesa da unidade e soberania da parte latina e submetida do continente americano.

O livro “Eu não vim fazer um discurso” (Editora Record, 2011), de Gabriel García Márquez, apresenta os discursos do autor desde sua formatura no equivalente ao nosso ensino médio, a tantos eventos literários, culturais e políticos por onde passou, sempre denunciando o imperialismo norte-americano e a submissão dos regimes ditatoriais latino-americanos. Sempre um grito em favor da liberdade e dos oprimidos.

García Márquez nasceu em 06 de março de 1927 e enfrentou diversas dificuldades, inclusive financeiras, até consagrar-se como escritor. Justamente por sua opção política na defesa dos interesses nacionais e do povo de seu país e contra toda forma de opressão, transformou-se em um dos maiores representantes latino-americanos do chamado “realismo mágico”, uma escola literária que usa do absurdo para mostrar a realidade, numa maneira de driblar a censura existente na maioria dos países na parte sul do continente. Para alguns, uma resposta latino-americana à literatura fantástica europeia, só que diferentemente, aqui, não apresenta teor niilista em seu conteúdo. Pelo contrário, vislumbra um futuro melhor. Márquez sempre acreditou na necessidade de unidade dos países latino-americanos e de uma luta conjunta, permanente, contra a sombra do imperialismo e do fascismo no continente.

Grandes nomes escolheram o caminho do fantástico para escrever seus livros, entre eles os argentinos Julio Cortázar e Jorge Luis Borges, o venezuelano Arturo Uslar Pietri, considerado o pai do realismo mágico no continente, o cubano Alejo Carpentier e, mais recentemente, a chilena Isabel Allende, filha de Salvador Allende e a mexicana Laura Esquivel, entre outros. Alguns autores brasileiros também enveredaram por esse caminho, como Murilo Rubião e José J. Veiga, ou o dramaturgo Dias Gomes nas novelas que escreveu para a televisão.

Já aos 17 anos, ao pronunciar discurso de despedida na escola em que estudou, o colombiano mostrava ao que veio. “Toda esta série de acontecimentos cotidianos que nos uniram através de laços inquebrantáveis com este grupo de rapazes que hoje abrirá caminho na vida”. E seu caminho foi se abrindo a duras penas, porque ele escolheu um rumo de luta e de soberania contra a classe dominante ditatorial, elitista e antinacional. Num outro discurso sobre literatura ele explica como e por que começou a escrever. “Comecei a ser escritor da mesma forma que subi neste palco: à força”, afirma, e complementa, ao contar o motivo que o levou a escrever seu primeiro conto e enviá-lo para o jornal publicá-lo: “Eduardo Zalamea Borda, diretor do suplemento literário do ‘El Spectador’ de Bogotá, publicou um artigo no qual dizia que as novas gerações de escritores não ofereciam nada, que não se via em lugar algum um novo contista ou um novo romancista”. Provocado, Márquez escreveu um conto e o editor reconheceu o engano e pediu desculpas.

Em seus discursos. o escritor sempre colocava sua posição política em favor da liberdade, da igualdade, da soberania dos povos e da justiça social. Mesmo em 1982, quando recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, ele denunciou o preconceito com o qual éramos vistos pelos europeus, assim como a situação de penúria e opressão vivenciada na América Latina de então, diferente de hoje, quando vislumbramos luzes no fim do túnel em todos os aspectos da vida. 

No discurso de agradecimento pelo Nobel, diz que “a independência do domínio espanhol não nos pôs a salvo da demência”, porque “os desaparecidos pela repressão somam quase 120 mil” e ainda porque “20 milhões de crianças latino-americanas morreram antes de fazer dois anos” e complementa com as denúncias ao afirmar que “é compreensível que insistam em nos medir com a mesma vara com que se medem, sem recordar que os estragos da vida não são iguais para todos, e que a busca da identidade própria é tão árdua e sangrenta para nós como foi para eles”, ao falar sobre a atitude dos europeus e norte-americanos em relação a nós. No discurso “A América Latina existe”, Márquez afirma que “tudo o que não parece com eles parece um erro, e fazem tudo para a sua maneira, corrigir isso, como, aliás, fazem os Estados Unidos”.

Pela paz e pela cultura

Diversas vezes o autor colombiano pronunciou-se em favor da paz ao defender a autodeterminação dos povos, contra as guerras imperialistas. Num discurso para militares disse aos soldados que “a vida de todos nós seria melhor se cada um dos senhores levasse sempre um livro na mochila”. Da mesma forma afirmou também que “as crianças que hoje estão na escola primária preparando-se para reger nossos destinos continuam condenadas a contar com os dedos da mão, como os contadores da mais remota antiguidade, enquanto já existem computadores capazes de fazer cem mil operações aritméticas por segundo”, ao denunciar o descaso coma educação nos países da América Latina. Noutro discurso contra o armamento e contra a guerra afirma Márquez que “diante deste descomunal desperdício econômico, é ainda mais inquietante e doloroso o desperdício humano: a indústria da guerra mantém em cativeiro o maior contingente de sábios jamais reunidos para tarefa alguma na história da humanidade” e continua dizendo que a libertação deles é fundamental “para que nos ajudem a criar, no âmbito da educação e da justiça, a única coisa que pode nos salvar da barbárie: a cultura da paz”. 

Foi uma crítica direta à indústria bélica e a opressão que impedia os países do Terceiro Mundo de se libertar e progredir. Em um evento, Márquez afirmou que “estamos aqui para tentar que um encontro de intelectuais tenha aquilo que a imensa maioria deles não teve: utilidade prática e continuidade” defenderam ainda que “a cultura é a força totalizadora da criação: o aproveitamento social da inteligência humana” e “como disse Jack Lang sem maiores rodeios: ‘a cultura é tudo’”.

Para Gabriel García Márquez “a corrida das armas vai ao sentido contrário da inteligência”, ele diz ainda “a educação privada, boa ou ruim, é a forma mais efetiva da discriminação social”. Ao debater a necessidade de se investir na educação pública, no incentivo à leitura e na defesa da cultura nacional dos países, respeitando-se as formas populares de expressão. 

O escritor e jornalista também falou de jornalismo. “Alguém teria que ensinar aos jornalistas que o gravador não é um substituto da memória e, sim, uma evolução da humilde caderneta de anotações”, ao criticar o uso excessivo da tecnologia em detrimento da inteligência e da argúcia no jornalismo. Diz também com razão que para o exercício do bom jornalismo “ninguém que não tenha nascido para isso e esteja disposto a morrer por isso poderia persistir num ofício tão incompreensível e voraz, cuja obra termina depois de cada notícia, como se fosse para sempre, e não concede um instante de paz enquanto não torne a começar com mais ardor que nunca no minuto seguinte”, numa visão do que seja a função de jornalista, terrivelmente abandonada nestes tempos de tentativas de arrombamento de apartamentos, de paparazzi, de invasão de privacidade, de diz-que-diz, de submissão à empresa, de falta de escrúpulos e de falta de ética no jornalismo.

Uma voz da América Latina

O escritor diz com segurança que “maltratada e dispersa, e ainda sem acabar, e sempre à procura de uma ética da vida, a América Latina existe. A prova disso? Nestes dois dias tivemos essa prova: pensamos logo existimos”, sobre encontro de intelectuais sobre a cultura na América Latina. Mas também critica com veemência ao afirmar que “minha impressão é que o tráfico de drogas se tornou u problema que escapou das mãos da humanidade. Isso não quer dizer que devemos ser pessimistas e declarar-nos derrotados, mas que é preciso continuar combatendo o problema” para tirar a juventude das garras do tráfico ele acredita ser necessário mover-se esforços de educação e de ocupar-se os jovens, mas também com a solução das questões sociais que extinguem a miséria e sobre o seu país ele acredita que “é impossível imaginar o fim da violência na Colômbia sem a eliminação do narcotráfico”. 

Parece que inclusive o Brasil hoje vive situação semelhante onde perdemos inúmeras vidas de jovens da periferia dos grandes centros para os traficantes e para a violência policial.
Ainda sobre a necessidade de unidade da América Latina Márquez afirma, em 1990, que vivemos num continente “no qual a morte há de ser derrotada pela felicidade e haverá mais paz para sempre, mais tempo e melhor saúde, mais comida quente, mais rumbas saborosas, mais de tudo de bom para todos. Em duas palavras: mais amor”. Um tempo, diz o escritor colombiano, “que cada um possa fazer apenas aquilo que goste do berço à tumba”.

Como um dos grandes escritores em língua espanhola de todos os tempos, Gabriel García Márquez revela em sua obra a obstinação por um mundo melhor através de sua literatura e de livros fundamentais para a leitura de todos, como “Cem anos de solidão”, “O amor nos tempos do cólera” e muitos outros livros que o colocam como um dos grandes escritores mundiais e uma voz constante em defesa da América Latina. García Márquez teve inúmeras obras adaptadas para o cinema e aposentou-se em 2009 deste ofício do qual diz ser falta de escolha na vida. Que bom se todos tivessem tamanha falta de escolha!

*Marcos Aurélio Ruy é colaborador do Vermelho.

Algumas obras de Gabriel García Márquez:

Cem anos de solidão (1967)
Como contar um conto (1947-1972)
O amor nos tempos do cólera (1985)
Doze contos peregrinos (1992)
Do amor e outros demônios (1994)
Memórias de minhas putas tristes (2004)

Fonte: Sítio do Portal Vermelho