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22 agosto 2012

O QUE O IRÃ PENSA DO OCIDENTE E DE SUA FEBRE DE GUERRA - Pepe Escobar

Dado que não é possível acompanhar pessoalmente o robô Curiosity em suas andanças em Marte, não há como escapar da histeria do “Bombardeiem o Irã” que emana, incansável, de Telaviv e dos sentinelas avançados de Telaviv em Washington. Agora já há até opinionismo de terceira classe, a sugerir que o presidente Barack Obama dos EUA voe pessoalmente a Israel, para acalmar o duo pirado Bibi-Barak [1]. 

Por Pepe Escobar, em Asia Times Online

Assim sendo, é hora de tomar rumo completamente diferente – e totalmente ausente das páginas da mídia-empresa ocidental – e ouvir o pensamento iraniano qualificado que se dedica a analisar o que realmente fermenta por baixo do rugido dos tambores de guerra – no que diga respeito a Irã, Turquia, mundo árabe e toda a Eurásia. 

Pode-se começar com o embaixador Hossein Mousavian, pesquisador do Woodrow Wilson School of Public and International Affairs da Universidade de Princeton; ex-porta-voz da equipe de negociadores iranianos para a questão nuclear de 2003 a 2005; e autor de The Iranian Nuclear Crisis: A Memoir. 

Escrevendo na página da internet da Arms Control Association [2], Mousavian vai diretamente ao ponto: “A história do programa nuclear do Irã sugere que o ocidente, inadvertidamente, está empurrando o Irã na direção de armas nucleares.” 

Em sete passos chaves, Mousavian mostra didaticamente como o processo se desenrolou – começando pela “entrada do Irã no campo nuclear”, possibilitada, aliás, por Washington: “nos anos 1970s, o Xá [do Irã] tinha planos ambiciosos para explicar o programa nuclear, prevendo 23 usinas nucleares até 1994, com apoio dos EUA.” 

Mousavian mostra como, de 2003 a 2005, durante o primeiro governo Bush, o Irã apresentou várias propostas [nucleares], que incluíram o compromisso declarado de que limitariam o enriquecimento no nível de 5%; de que exportariam todo o urânio baixo-enriquecido [orig. low-enriched uranium (LEU)] ou bastões de combustível nuclear que produzissem; de que assinariam um protocolo adicional aos acordos de salvaguardas com a AIEA e com o Código 3.1 dos arranjos subsidiários, que assegurariam nível máximo de transparência; e autorizavam a AIEA a inspecionar instalações não declaradas. Essas propostas visavam a superar as preocupações do ocidente sobre a natureza do programa nuclear iraniano, garantindo que nenhum urânio enriquecido seria desviado para algum programa de armas atômicas. A proposta iraniana também teria facilitado o reconhecimento, pela comunidade internacional, do direito de o Irã enriquecer urânio, nos termos do Tratado de Não Proliferação. Em troca desses compromissos que o Irã assumia, o dossiê iraniano na AIEA seria normalizado e o Irã teria acesso a uma mais ampla cooperação política, econômica e de segurança com a União Europeia. Além disso, também interessava ao Irã garantir o suprimento de combustível para o reator nuclear de pesquisas em Teerã, motivo pelo qual estava disposto a enviar o urânio enriquecido para algum outro país onde pudesse ser convertido em bastonetes/combustível.

O governo Bush recusou todos os oferecimentos do Irã. Mousavian recorda “encontro que tive naquele momento com o embaixador francês no Irã, Francois Nicoullaud, que me disse: ‘Para os EUA, o Irã enriquecer urânio no próprio país é a linha vermelha que a União Europeia não pode ultrapassar’.” 

De onde se pôde concluir que “o ocidente não está interessado em resolver a questão nuclear. A única coisa que o ocidente deseja é obrigar o Irã a abandonar completamente seu programa de enriquecimento.” Efeito disso foi, como não poderia deixar de ser, que o Irã foi compelido a “modificar sua diplomacia nuclear e a acelerar o programa de enriquecimento, para assegurar-se a autossuficiência na produção do combustível nuclear.” 

‘Estoque zero’, quem se candidata?

Rode o filme para a frente, até fevereiro de 2010. Teerã propôs “manter o enriquecimento abaixo de 5%, desde que o ocidente assegurasse o combustível necessário para manter em atividade o reator de Teerã. O ocidente recusou essa proposta.” 

Então, em maio de 2010, “o Irã construiu um acordo com Brasil e Turquia para trocar seu estoque de urânio baixo-enriquecido por combustível para o reator de pesquisas. O acordo baseou-se em proposta esboçada inicialmente pelo governo Obama com funcionários dos governo de Brasil e Turquia, em clima de entendimento que os fez crer que teriam as bênçãos de Washington para negociar com o Irã. Lamentavelmente, os EUA boicotaram o sucesso da negociação, ao rejeitar o acordo; e o Conselho de Segurança da ONU, em seguida, aprovou novas sanções contra o Irã.” Qualquer observador objetivo que acompanhe a história do dossiê nuclear iraniano conhece todos esses fatos. 

Novamente, rodem o filme à frente, até setembro de 2011, “quando o Irã já dominava a tecnologia de enriquecimento a 20% e já acumulava estoque considerável; foi quando o Irã propôs suspender as atividades de enriquecimento a 20% e aceitar que o ocidente fornecesse os bastonetes-combustível para o reator de Teerã. Mais uma vez, o ocidente rejeitou a proposta; o que obrigou os iranianos a dar um passo adiante e passar a produzir seus próprios bastonetes-combustível.” 

Sobre as conversações desse ano em Istanbul e Bagdá, Mousavian destaca que “depois de cada bloqueio, de cada ação ocidental punitiva, o Irã fez avançar o seu programa nuclear.” 

E a coisa ainda piora: “Comparação entre a declaração de 19 de junho, em Moscou, feita por Catherine Ashton, chefe da política externa da União Europeia e principal negociadora no grupo P5+1, e a declaração da mesma Ashton dia 14 de abril em Istanbul mostra uma grande diferença. O P5+1, em junho, dá mais importância ao Irã cumprir suas obrigações internacionais, a saber, obedecer a resoluções do Conselho de Segurança da ONU, do que a que cumpra os deveres a que se obriga por ser signatário do Tratado de Não Proliferação. Vê-se hoje claro retrocesso em relação à posição em Istanbul. Indica que o foco volta, agora, a ser a suspensão das atividades iranianas de enriquecimento, demanda que sempre aparece para interromper quaisquer negociações, desde 2003.” 

O resumo é que “não só o ocidente empurrou o Irã a buscar a autossuficiência, mas, em todas as circunstâncias, tentou privar o Irã de seu inalienável direito de enriquecer urânio. Esse movimento impulsionou o Irã a buscar, a todo galope, controlar toda a tecnologia nuclear.” 

A conclusão é inevitável: “Os progressos que o Irã obteve em seu programa nuclear é produto dos esforços do ocidente para isolar o Irã, ao mesmo tempo em que se recusou a reconhecer os direitos do Irã.” 

Washington e seus seguidores europeus simplesmente não conseguem entender que “sanções, isolamento e ameaças não obrigarão o Irã a ajoelhar-se. Ao contrário, essas políticas só levaram a avanços no programa nuclear iraniano.” Mesmo sob as mais devastadoras sanções e a febre de “Bombardeiem o Irã” já chegando ao surto convulsivo, só uma consequência é garantida, diz Mousavian: “o Irã tende hoje a retirar-se do Tratado de Não Proliferação e a buscar sua bomba atômica.” 

O que torna tudo isso ainda mais absurdo é que há solução que pode por fim a toda essa loucura:

Para atender às preocupações do ocidente sobre o estoque iraniano de urânio enriquecido a 20%, solução mutuamente aceitável para o longo prazo implicaria “estoque zero”. Sob essa abordagem, um comitê conjunto (Irã e P5+1) quantificaria as carências domésticas do Irã, em termos do quanto de urânio 20% o país carece para finalidades de pesquisa; e tudo que ultrapassasse essa quantia seria vendido no mercado internacional, ou imediatamente ‘empobrecido’ até voltar ao nível de 3,5%. Assim se asseguraria que o Irã não pudesse formar estoque permanente de urânio enriquecido a 20%, o que atenderia às preocupações internacionais sobre a possibilidade de o Irã construir bombas atômicas. Seria solução que salvaria as posições de todos, ao mesmo tempo em que reconheceria o direito dos iranianos de enriquecer seu urânio, assegurando ao país meios para negar qualquer interesse em construir armas atômicas.

Washington – e Telaviv – algum dia aceitarão? Claro que não. Os cães da guerra continuarão a ladrar. 

Um novo jogo de segurança 

Também é reconfortante examinar a análise iraniana da situação síria. 

Mehdi Mohammadi, na página internet IranNuc.IR [3] escreve: “o medo que a maioria sunita tem, de uma minoria salafista, não é fator a desprezar; e é realidade muito frequentemente censurada, relevante para entender a situação em campo na Síria. É a mesma realidade que impediu a oposição de aceitar qualquer forma de negociações e, até, eleições livres”. Esse fato é absoluto anátema na cobertura que a imprensa-empresa ocidental tem dado à situação na Síria. 

Mohammadi avalia corretamente as discrepâncias entre várias facções da Fraternidade Muçulmana (FM) dentro da Síria: há uma facção linha-dura que quer ver implantada a lei da Xaria; e outra, convencida de que o futuro de toda a região está, seja como for, nas mãos da FM – a qual está em missão de caráter divino; mas a maioria quer, isso sim, extrair a maior quantidade de dinheiro que consigam extrair da Arábia Saudita, aliando-se para isso com a França, os EUA, os sunitas no Líbano e na Jordânia: “esses são a espinha dorsal da oposição armada na Síria”. 

O xis da questão é que, mesmo no melhor cenário, a FM “está cometendo gravíssimo erro estratégico (...). Ainda que o governo de Assad seja deposto, os EUA jamais permitirão que o governo sírio caia nas mãos da parte da Fraternidade Muçulmana que aspira a manter e, se possível, aprofundar ainda mais o atual conflito com Israel.” 

Mohammadi observa, também corretamente, como EUA, Israel, Arábia Saudita e Turquia “chegaram à conclusão de que o melhor modo de impedir que desenvolvimentos da Primavera Árabe ajudassem a aumentar o poder do Irã na região seria converter todo o real conflito em luta entre xiitas e sunitas.” 

No fundo, como o Irã interpreta tudo isso? Segundo Mohammadi, “há alto grau de confiança em que o governo sírio não se deixará depor, no mínimo num prazo médio.” Além disso, “é muito pouco provável que Rússia e China cheguem a algum acordo com o ocidente sobre a Síria” e inclusive “sobre o dossiê nuclear iraniano.” 

Teerã, pois, está apostando na possibilidade de que “Rússia e China consigam construir um front estratégico confiável, anti-ocidente”. E o autor conclui: “A equação estratégica da região, como resultado dos eventos hoje em curso na Síria, absolutamente não mudou em qualquer direção que possa prejudicar o Irã.” 

Em entrevista à página da internet “Iranian Diplomacy (IRD)” [4], Mohammad Farhad – ex-embaixador e analista de estratégia – comenta o modo como “alguns países árabes, que têm currículos muito sujos no campo dos direitos humanos, deram as mãos aos EUA, na atual correlação de forças na Síria, com vistas a definir um novo jogo de segurança. Mas esse jogo de segurança está sendo mal administrado e, com certeza, maculará a imagem internacional dos EUA.” 

Koleini observa que, “enquanto o ocidente busca criar novo arranjo de segurança no Mediterrâneo, Moscou tenta “não deixar que o ocidente imponha ali seu monopólio geopolítico.” Por isso, a abordagem russa “não está necessariamente focada no que realmente esteja ocorrendo dentro da Síria, mas tem em vista um pacote regional e o projeto de Moscou para regular esse pacote nas suas interações com o ocidente.” 

Isso explica por que a Rússia “jamais permitirá que estados ocidentais imponham qualquer tipo de zona aérea de exclusão sobre a Síria”. É atitude de confronto? Não, de modo algum: “A Rússia está fazendo o máximo possível para evitar, a qualquer preço, qualquer tipo de confrontação. A China sempre demonstrou, em todos os seus movimentos, que segue a mesma política.” 

Mehdi Sanaei, diretor do Grupo de Estudos sobre a Rússia na Universidade de Teerã e diretor do Iran and Eurasia Research Center (IRAS), escrevendo na página internet do jornal Tabnak News [5] vai ainda mais fundo: Moscou trabalha agora sob “nível sem precedentes de desconfiança quanto aos objetivos e intenções dos EUA no Oriente Médio e Eurásia.” 

Quer dizer: podem todos esquecer o famoso “reset” das relações entre Washington e Moscou. 

Sanaei refere-se ao famoso artigo sobre política externa que Putin publicou [6] às vésperas da eleição presidencial na Rússia: “Putin visou diretamente os EUA, acusando Washington de mentir e manipular a estrutura e as resoluções da ONU, servindo-se de dois pesos e duas medidas em inúmeras questões globais em diferentes países, além de perseguir interesses só seus, enquanto prega democracia.” 

Sanaei descreve, também corretamente, o modo como os analistas russos veem a política externa do governo Obama, como “resultado de dois tipos de teorias: ‘realismo de última moda’ e ‘neoliberalismo’. Por causa disso, os EUA realmente creem que todos os países do mundo possam ser classificados ou como “amigos” ou como “inimigos” dos EUA. Países hostis, portanto, têm de ser enfraquecidos, e a presença deles nas arenas estratégicas regional e global deve ser contida e, se possível, suprimida, em termos políticos, econômicos e culturais”. 

Portanto, para Moscou, “uma nova onda da ordem do mundo foi iniciada pelos EUA para criar nova versão do velho sistema unipolar. Os principais alvos dessa onda, Moscou insiste, incluem o Norte da África, o Oriente Médio, o Irã, a Eurásia e, finalmente, China e Rússia.” 

Koleini, dessa vez em artigo para o jornal Emrooz de Teerã [7], introduz o tema do Oleogasodutostão no relacionamento Irã-Rússia: “Apesar da cooperação com o programa de energia nuclear iraniano, a Rússia sempre desejou cortar a mão do Irã no mercado europeu de gás natural. Nessa direção, a Rússia interagiu com Turquia e alguns países do Leste Europeu no projeto Blue Stream. Isso prova, acima de qualquer dúvida, que a Rússia tenta alcançar a liderança na engenharia da estrutura de segurança na Europa, mediante sua política de energia, e reduzir a dependência da Europa de outras fontes de energia.” 

Tudo isso, enquanto “tenta desempenhar papel de equilíbrio no caso nuclear do Irã.” 

Koleini também oferece esboço do principal desafio para a “política eurasiana” que Putin explicitou antes de eleito: “O ponto é que o ocidente está projetando novos jogos políticos, sobretudo na Ásia Central, para criar problemas novos para a Rússia e afastar da Eurásia a atenção de Moscou, atraindo-a para esferas tradicionais da extinta União Soviética.” 

Egito e Irã trocam beijos 

Intelectuais iranianos têm monitorado atentamente a vizinha Turquia. Especialista em Turquia e Cáucaso, Elyas Vahedi observa como “o governo turco surgiu com conceitos como ‘nem religião de estado, nem estado religioso’, ‘governo secular, não homem secular’, ‘civilizar a Constituição’, ‘abertura democrática/abertura curda/abertura alawita’ e ‘controle e supervisão civis sobre o exército’, e tem-nos usado para fortalecer e manter o controle político sobre o Partido Justiça e Desenvolvimento (AKP).”

E, claro, antes da Primavera Árabe, toda a conversa girava em torno de “zero problemas com nossos vizinhos” e a doutrina da “profundidade estratégica” da Turquia. 

Mas agora que a Turquia está metida na Síria, o governo do AKP “tenta justificar o próprio fracasso, declarando que a política de minimizar os problemas com países vizinhos teria entrado na segunda fase (...). A Turquia acredita que o principal traço da segunda versão de sua política é interação com povos de países vizinhos, não mais com governos vizinhos.” 

Simplesmente não se sustenta, diz Vahedi: “Esse ponto de vista, apesar de algumas limitações, seria ainda, de certo modo, justificável em alguns países como Líbia, Egito e Tunísia; mas absolutamente não se aplica à Síria.” Além disso, Ankara “manteve-se em silêncio ante o suplício do povo do Bahrain, sob o pretexto de que os protestos políticos no Bahrain não seriam populares.” 

Sobretudo, a política exterior da Turquia “também alimentou especulações de que Ankara participava do conflito xiita-sunita provocado e encenado pelo ocidente. O dano que essa ideia causará à posição e ao prestígio regionais e internacionais da Turquia custará caro demais a Ankara.” 

Vahedi vê a Turquia, bem como a Arábia Saudita e o Qatar, como seguidores do ocidente, que lidera da retaguarda, no estilo típico de Obama. A Turquia “parece ter lido a mente do ocidente e tenta aceitar o papel que entende como o seu, a serviço do ocidente, à espera de obter algumas concessões do ocidente.” Mas não funcionará – por exemplo, a entrada da Turquia na União Europeia não acontecerá, ante a gigantesca oposição de França e Alemanha. 

Para não falar que Ankara “enfrenta graves críticas que lhe vêm de figuras nacionalistas. Dizem que, o governo da Turquia fala da defesa dos direitos do povo sírio como sua primeira e principal prioridade, ao mesmo tempo em que direitos dos turcos são ignorados em Karabakh e nos Bálcãs, com a conivência das potências ocidentais.” 

Ali Akbar Asadi, do Departamento de Relações Internacionais da University of Allameh Tabatabaei, discorre sobre os eventos chaves das semanas vindouras: o renovado relacionamento diplomático entre Irã e Egito – objeto da mais furiosa ira de Washington; o Departamento de Estado, em movimento infantilóide, insiste que o Irã “não merece” ser anfitrião da reunião do Movimento de Não Alinhados em Teerã, do qual participará o presidente Mohamed Mursi do Egito [8]. 

Asadi vai direto à jugular – as petromonoarquias do Conselho de Cooperação do Golfo (CCG) estão aterrorizadas ante a possibilidade de que “o Egito retome suas relações com a República Islâmica do Irã, ou, mesmo, de que estabeleça relações estratégicas com a Turquia, minando o poder e a influência do próprio CCG no novo equilíbrio do poder regional.” 

Assim sendo, o GCC está fazendo o que costuma fazer: deixando jorrar um pouco de dinheiro. “Querem manter o Egito, como ator político grande e importante no mundo árabe, do lado deles.” 

Estão também exigindo de Mursi e da FM que “não tomem qualquer medida para exportar sua revolução ou para ativar outros afiliados” da FM no GCC. E esperam que “o Cairo evite adotar nova abordagem para fortalecer o Hamas contra o Fatah, ajudando a população palestina e de Gaza, e mostrando-se em aberta e firme oposição contra o regime israelense.” 

A política do GCC, apoiada pelo ocidente e por Israel, é “manter o Egito estrangulado em seus desafios domésticos” e, assim, incapaz de exercer “a liderança histórica que aspira a recuperar, no mundo árabe.” 

Eis, então, apenas uma amostra da discussão intelectual em curso hoje no Irã. Comparada à histeria bombardeante de que Telaviv e Washington estão acometidas, soa como se esses analistas pensassem e escrevessem em Marte. 

Notas

1. An Obama Visit to Israel Could Stall Iran Attack, Bloomberg, August 21. 
2. Ver armscontrol.org/
3. Ver www.irannuc.ir/
4. Ver www.irdiplomacy.ir/
5. Ver www.tabnak.ir/
6. Ver Russia and the changing world, RIANOVOSTI. Sobre esse artigo e a “volta de Putin” ao poder na Rússia, ver também PEPE ESCOBAR, “Agora é encarar: o czar voltou”, 6/3/2012, em port. em http://redecastorphoto.blogspot.com.br/2012/03/pepe-escobar-agora-e-encarar-1-o-czar.html [NTs].
7. Ver www.tehrooz.com
8. EUA says Iran doesn’t deserve to host summit of Non Aligned Movement, Washington Post, August 21.

Tradução: Vila Vudu.

Extraído do sítio Portal Vermelho

09 junho 2012

FEDERAÇÕES APOSTAM EM JOGO LIMPO - Simon Bradley

O lateral-esquerdo da Itália Domenico Criscito protesta durante a primeira rodada do Grupo F da Copa do Mundo 2010 em Nelspruit, na África do Sul (Keystone)

Quais são as chances do campeonato europeu de futebol 2012, organizado em conjunto pela Polônia e pela Ucrânia, atingido por escândalos de doping e de manipulação de resultados por apostadores?

Funcionários da Uefa e de outras federações esportivas internacionais reunidos recentemente na cidade suíça de Neuchâtel disseram que estavam confiantes que a Eurocopa 2012 não seria marcada por escândalos. Mas alguns especialistas dizem que as federações estão "cegas" para a realidade.

A União Europeia de Futebol controla os milhões de apostas realizadas pelas 300 a 400 operadoras credenciadas através de um chamado “sistema de alerta precoce para detectar anomalias nos padrões de apostas”.

Todos os anos, cerca 31.000 partidas são examinadas - 1.900 jogos do campeonato europeu da primeira e segunda divisões de suas 53 federações nacionais. Nos últimos dois anos, foram detectadas cerca de 250 partidas com irregularidades nas apostas; 31 partidas da Eurocopa 2012 serão fiscalizadas.

"Claro que estamos acompanhando o que está acontecendo com muita atenção. Mas a Eurocopa 2012 não é uma competição com alto risco de manipulação de resultados, já que será vista por cerca de 200 milhões de pessoas, que acabam sendo 200 milhões de árbitros", declarou Pierre Cornu, responsável do departamento jurídico da Uefa, em uma mesa redonda sobre manipulação de resultados.

"A manipulação de resultados é um problema sério, mas 99,99% de todos os jogos que você assiste são limpos. O 0,01% é certamente preocupante, mas não devemos ficar muito obcecados."

A Interpol estima que cerca de 300 a 500 bilhões de dólares são apostados por ano no esporte. A proliferação de tecnologias que permitem que as apostas sejam feitas em todos os tipos de eventos esportivos, em todo o mundo, através da internet e de celulares, e o crescimento dos mercados ilegais, principalmente na Ásia, tem intensificado a ameaça de manipulação de jogos.

Apesar do otimismo de Cornu, a UEFA continua preocupada. O presidente da organização, Michel Platini, alertou recentemente que a manipulação de resultados estaria "matando o jogo".

Denis Oswald, membro do conselho executivo do Comitê Olímpico Internacional (o COI, sediado em Lausanne) e especialista em manipulação de resultados, concorda com Cornu: "Com tantas pessoas assistindo, não acho que seja algo provável de acontecer. Se eu quisesse manipular uma partida, não seria no Euro 2012".
"A manipulação de resultados é um problema sério, mas 99,99% de todos os jogos que você assiste são limpos" - Pierre Cornu, Uefa
Risco potencial

Mas Hervé Martin Delpierre, diretor do documentário “Sport, Mafia et Corruption”, que passou 18 meses investigando resultados combinados, acha que há um "risco potencial real" que o Euro 2012 seja alvo de irregularidades.

Segundo o cineasta, Cornu foi "excessivamente otimista", já que o sistema de alerta precoce controla apenas sites credenciados.

"Infelizmente, eles estão cegos com relação a 80 a 90% das apostas realizadas em todo o mundo, principalmente na Ásia", disse Delpierre à swissinfo.ch.

O número de apostadores e de modalidades de apostas explodiu. Há uma estimativa de 15.000 sites de jogos online e agora é possível fazer até 300 tipos diferentes de apostas durante o jogo. Dos cinco minutos antes do final, ao número de escanteios durante o primeiro tempo, até quem marca o primeiro gol.

E a ideia de que apenas jogos de pequeno porte são manipulados é falsa, acrescentou Delpierre.

"Se você falar com o pessoal da Early Warning System GmbH ou da Sportradar, que supervisionam a maioria das apostas na Europa, eles vão te dizer que a Champions League e eliminatórias da Copa do Mundo também estão em risco e que já existem fortes suspeitas", observou.

E jogos eliminatórios da Eurocopa não estão livres de qualquer suspeita. A Uefa está investigando alegações de que a eliminatória entre Noruega e Malta para a Eurocopa de 2008 tenha sido fraudada.

Salários não pagos e corrupção

No entanto, o jornalista investigativo Declan Hill, que tem escrito muito sobre manipulações de resultados, foi mais cauteloso. Segundo Hill, os manipuladores de partidas devem provavelmente estar presentes na Ucrânia e na Polônia, mas ele duvida que eles tenham sucesso.

"Há apenas 16 equipes no torneio, nove das quais têm uma boa chance de ganhar e há também algumas zebras. Mas o mais importante é que a maioria das federações de futebol envolvidas pagam seus jogadores ", disse à swissinfo.ch.

"É 'a' questão que o COI e a Fifa vêm se esquivando. Muitas de suas federações nacionais convocam os jogadores para a Copa do Mundo, por exemplo, sem pagar nada, o que abre a porta para os manipuladores."

Em fevereiro, FIFPro, o sindicato mundial de jogadores profissionais, publicou um levantamento de 3.400 jogadores, principalmente da Europa Oriental, revelando que 12% deles haviam sido abordados para forçar os resultados e 23,6% estavam cientes da manipulação de resultados em sua liga. O sindicato concluiu que havia uma ligação clara entre salários não pagos e corrupção.

Manipuladores asiáticos

Segundo Hill, 60 investigações abertas contra manipuladores de jogos estariam relacionadas a uma gangue de 20 a 30 asiáticos de Cingapura, Malásia, Indonésia e Tailândia, que teriam se aliado a outros grupos criminosos no mundo, em lugares como Alemanha, Finlândia e Itália. Mil dirigentes esportivos e jogadores foram presos e 100 pessoas condenadas, acrescentou.

Na Itália, 50 suspeitos foram presos no ano passado em um enorme escândalo de manipulação revelado por promotores em Cremona, que envolve 22 clubes e 33 jogos. Muitas outras pessoas continuam sob investigação.

O primeiro-ministro italiano Mario Monti sugeriu na semana passada que o futebol italiano fosse suspenso por dois a três anos. O técnico italiano Cesare Prandelli disse que não teria nada contra em retirar sua equipe do Eurocopa deste ano.

Organismos esportivos internacionais dizem que têm uma abordagem de tolerância zero com relação à corrupção no esporte e introduziram uma série de medidas, como linhas de denúncia e programas de prevenção.

Mas sem mais apoio do governo e um quadro jurídico harmonizado, vai ser difícil conter o crescente fenômeno.

"No momento, a manipulação de resultados não é uma prioridade para os governos. É realmente uma luta de longo prazo que é muito mais resistente do que a luta contra o doping, dada a escala do problema, os montantes envolvidos e à complexidade das investigações", declarou na mesa-redonda de Neuchâtel o diretor-geral do COI Christophe De Kepper.

Extraído do sítio Swissinfo.ch

08 junho 2012

EUROCOPA 2012: ENTRE POLÍTICA E ESPORTE - Stefan Nestler



Críticas à situação dos direitos humanos na Ucrânia, coanfitriã da UEFA Euro 2012, dominaram os jornais na contagem regressiva para o torneio. Espanha e Alemanha são principais favoritas este ano.

É a primeira vez em 36 anos que a Eurocopa volta a se realizar no Leste da Europa. A última vez foi em 1976, quando os melhores times de futebol do continente competiram pelo título na Iugoslávia.

Mas o futebol não é o único tema, quando se fala sobre o torneio da UEFA na Polônia e na Ucrânia. Nos últimos meses, o esporte ficou muitas vezes à sombra da política. A detenção da líder da oposição ucraniana, Yulia Tymoshenko, por alegações de abuso de poder enquanto primeira-ministra, dominou as manchetes dos jornais.

Muitos líderes políticos europeus, entre eles o novo presidente francês, François Hollande, não vão viajar para a Ucrânia em protesto contra as violações dos direitos humanos no país. "Amo futebol, mas o que se passa na Ucrânia é um problema", disse Hollande.

Custos explosivos

Ao entregar a realização da Euro 2012 a um Estado da antiga União Soviética, a União das Federações Europeias de Futebol (UEFA) esperava acelerar a democratização do país. Mas a Ucrânia tornou-se um caso problemático, não só no que diz respeito à política.

A UEFA ameaçou retirar a Eurocopa do país várias vezes, devido à lentidão dos preparativos. Além disso, os custos explodiram. Economistas preveem que a Ucrânia saia do torneio com um saldo negativo de bilhões de euros. As perspectivas para a coanfitriã, a Polônia, são bastante melhores, ainda que tenham diminuído as esperanças de um boom econômico depois da Eurocopa.

Promoção para a Euro em Kharkiv, Ucrânia
Espanha e Alemanha são favoritas

Em nível esportivo, os países anfitriões não estão entre os times favoritos ao título europeu. Tanto a equipe polaca como a ucraniana já ficariam contentes se passassem além da primeira rodada do torneio.

A Espanha e a Alemanha são novamente apontadas como favoritas. A equipe espanhola, atual campeã europeia e mundial, dominou o futebol nos últimos anos e lidera os rankings mundiais com margem de vantagem. Ainda assim, estarão ausentes dois jogadores fundamentais: o zagueiro Carles Puyol e o atacante David Villa não vão poder jogar devido a lesões.

A Alemanha é o time mais jovem da UEFA Euro 2012, com uma média etária de 24,4 anos. A maior parte dos comentadores diz que o time tem mais vantagens que a Espanha – ainda que os últimos jogos de preparação tenham passado outra ideia. "Definitivamente, não creio que haverá falhas", disse o treinador da equipe alemã Joachim Löw. A Alemanha não vence a Eurocopa desde 1996.

Time alemão (de camiseta branca) está entre favoritos
No entanto, uma vitória alemã não será fácil. O time vai enfrentar logo na primeira rodada vários ossos duros de roer: Portugal, Holanda (vice-campeã mundial) e Dinamarca. Muitos olham também para a Holanda como possível vencedora da Euro. Neste segundo grupo de favoritos estão também a França e a Itália. Ambas as equipes se recuperaram do mau desempenho na primeira rodada da Copa do Mundo de 2010. A França está incansável: já não perde há 20 jogos. Também a Inglaterra poderá ter algo a dizer na hora da entrega do título.

O jogo de abertura entre os anfitriões da Polônia e a Grécia transcorrerá esta sexta-feira (08/06) na capital Varsóvia. A final se realiza em 1º de julho em Kiev, capital da Ucrânia. Também haverá jogos em Danzig, Breslau e Posen, na Polônia, bem como em Donetsk, Kharkiv e Lviv na Ucrânia.

Grande dispositivo policial

Ambos os países anfitriões estão bastante preocupados com a questão segurança. A Polônia anunciou controles apertados nas fronteiras. Os hooligans deverão ser interceptados logo à entrada no país. Cerca de 10 mil agentes de segurança estarão de serviço durante a Eurocopa.

A Ucrânia terá 7 mil oficiais vigiando as grandes cidades nos dias dos jogos. O governo em Kiev sublinhou que não haverá qualquer tolerância para infratores violentos.

A organização internacional de defesa dos direitos humanos Anistia Internacional aponta que as forças de segurança ucranianas ultrapassam com frequência os limites legais, ao intervir mais duramente – não só contra elementos da oposição, mas também contra torcedores de futebol.

Extraído do sítio Deutsche Welle

29 maio 2012

PARTIDAS COMBINADAS AMEAÇAM O FUTURO DO FUTEBOL - Alexandra Zakharova

© Foto: «Vesti.Ru»
A Europa afunda em escândalos com partidas combinadas. Um após outro são revelados fatos de falcatrua em campeonatos nacionais de futebol.

Na Itália já foram presas cerca de 20 pessoas, entre as quais alguns jogadores da seleção, que deveriam jogar na Euro 2012, e o clube Fenerbahçe de Istambul foi afastado da participação na liga dos campeões.

Marcar gol contra em troca de alguns milhares de dólares é uma coisa comum para alguns futebolistas. Assim agiu, por exemplo, o jogador do Atalanta de Bérgamo, Itália, Andrea Masielo. Recentemente ele foi preso sob a acusação de participar de jogos combinados e poderá ser condenado à prisão.

Apesar das punições rigorosas não diminui o número de fraudadores. Trata-se de valores astronômicos de renda, - salienta o perito da comissão russa de investigação de jogos combinados, Alexander Bubnov.

“Participam deste processo casas de apostas. São feitas apostas. Se alguém sabe o resultado fixado da partida combinada, ele ganha muito dinheiro. Nas casas de aposta pode-se ganhar centenas de milhões de dólares com os jogos combinados.

O atual escândalo pode debilitar a seleção italiana, que é considerada uma das favoritas da Euro-2012. Poderão não ir ao campeonato os participantes do jogo entre Lázio e Genoa no ano passado. Então a Lazio romana, relativamente fraca, venceu o adversário com a contagem de 4 a 2. Nesta partida jogou o lateral esquerdo do Zenit e da seleção italiana Domenico Criscito, que por enquanto é testemunha no processo. Ele, como também os futebolistas presos, pode não ter permissão de participar no campeonato continental.

Entretanto o mais provável é que ninguém atrapalhe os astros de defender a honra de seu país – assinala o jornalista esportivo Artiom Lokalov.

“É perfeitamente possível que os processos judiciais sejam adiados. Pelo menos não irão tocar os futebolistas da seleção da Itália durante a Euro, somente depois do campeonato. Temos o exemplo do campeonato mundial de 2006, quando na Itália também estourou o escândalo de partidas combinadas. Entretanto isto não impediu que a seleção se tornasse a melhor do mundo. Não acho que esta situação irá se refletir sobre a seleção que irá disputar a Copa da Europa.”

Na Turquia prosseguem, há mais de dois meses. as audiências judiciais sobre o envolvimento do dirigente do clube mais promissor do país, em jogos combinados. O presidente do Fenerbahçe de Istambul, Aziz Yildirim, poderá ser condenado a 150 anos de prisão por subornar equipes de adversários e criar um esquema de lavagem de dinheiro. A federação nacional de futebol afastou o clube Fenerbahçe da participação na liga dos campeões..

Na Hungria um escândalo de corrupção terminou em tragédia. O dirigente do clube húngaro PEAK, Robert Kutas, suicidou-se logo após a acusação de envolvimento de sua equipe, considerada a mais honesta, em jogos combinados.

O problema é atual não apenas para a Europa. No início do ano na China foram condenados os dirigentes da Associação Chinesa de Futebol e também juízes e árbitros. Cada um deles organizou partidas com resultados previamente conhecidos em troca de centenas de milhares de dólares.

Na Rússia em breve será introduzida responsabilidade penal por “influência sobre o resultado de competições”. Agora uma comissão especial trabalha no projeto de lei sobre os jogos “encomendados”.


Extraído do sítio Voz da Rússia

13 maio 2012

DEZENAS DE MILHARES VÃO ÀS RUAS EM PROTESTO PELO MUNDO

Milhares continuaram na praça Puerta del Sol, em Madri, durante a noite
Dezenas de milhares de manifestantes foram às ruas de vários países do mundo para protestar contra medidas de austeridade e a crise econômica.

Os protestos ocorreram em várias cidades da Espanha, em Nova York, Moscou, na Rússia, Atenas, na Grécia, Frankfurt, na Alemanha, e Londres.

Na Espanha, dezenas de milhares de pessoas foram às ruas em várias cidades para marcar o aniversário de um ano do Movimento Indignados.

No centro da capital, Madri, os manifestantes continuaram na praça Puerta del Sol durante a noite de sábado, apesar do prazo dado pela polícia, até a meia-noite, para a desocupação da praça.

Em 2011, o Movimento Indignados estabeleceu um acampamento na praça, mas as autoridades afirmaram que, neste sábado, iriam impedir que os manifestantes passassem a noite no local. Cerca de 2 mil policiais da tropa de choque foram para a praça, mas até o fim da noite de sábado, não tinham feito nenhum movimento para dispersar os manifestantes.

Segundo o correspondente da BBC em Madri Guy Hedgecoe, o clima era festivo e, além de jovens, aposentados e famílias também participaram da manifestação.

"O objetivo de hoje é recuperar os espaços públicos", disse a manifestante Sofia Ruiz à agência de notícias Reuters.

"Também é uma forma de celebrar o fato de existirmos há um ano e que vamos estar aqui até que o sistema mude, que sejamos ouvidos ou que eles levem em conta nossas reivindicações", acrescentou.

Em Barcelona cerca de 45 mil pessoas foram às ruas, segundo a polícia. Os organizadores do protesto afirmam que o número de manifestantes chegou a centenas de milhares.

Um dos manifestantes de Barcelona, Jose Helmandez, disse à BBC que é doutor em genética e biologia molecular, mas não conseguiu encontrar emprego em sua área.

"Muitas pessoas estão saindo do país para procurar trabalho, mesmo se elas acabam não fazendo algo para o qual são qualificadas. Eu estava na França, mas voltei para a Espanha há quase dois anos e tudo o que encontrei foram empregos temporários", disse.

Crise e críticas

Protestos ocuparam parques e praças de Moscou
O Movimento Indignados foi formado devido ao impacto da pior crise econômica das últimas décadas na Espanha.

De acordo com Guy Hedgecoe o desemprego na Espanha é de mais de 24% e a economia do país está em recessão.

Alguns setores da sociedade espanhola criticaram os Indignados devido ao fato de os protestos terem tido pouco impacto na política espanhola no último ano.

O governo do primeiro-ministro conservador Mariano Rajoy, eleito em novembro de 2011, introduziu cortes orçamentários e aumentos de impostos.

Rajoy também anunciou a desregulamentação do mercado de trabalho, o que gerou insatisfação entre os sindicatos do país.

O correspondente da BBC em Madri afirma que os Indignados são contra o programa de austeridade do governo e vão passar os próximos dias debatendo formas de fazer com que os líderes econômicos e políticos da Espanha sejam mais responsáveis por suas medidas.

Outras cidades

Manifestantes tentaram chegar até o Banco da Inglaterra
Protestos parecidos com os ocorridos na Espanha também foram realizados neste sábado em várias cidades do mundo, como parte de um dia de ação global. Alguns destes protestos foram organizados pelo movimento Occupy.

Em Londres, centenas de manifestantes se reuniram em frente à catedral de St. Paul, onde um acampamento de manifestantes foi removido em fevereiro. O protesto então se dirigiu para o distrito financeiro da capital britânica.

A polícia prendeu mais de dez pessoas que tentaram ir até o Banco da Inglaterra.

Dezenas de milhares de pessoas tomaram as ruas de Moscou, na Rússia, Nova York e Atenas, na Grécia.

Protestos menores também ocorreram em Lisboa e no centro financeiro da Alemanha, Frankfurt.

Cerca de mil pessoas também fizeram uma manifestação em Tel Aviv, Israel, contra o aumento do custo de vida. Outras cidades israelenses também teriam tido protestos.


Extraído do sítio BBC Brasil

02 maio 2012

EXTREMA-DIREITA CRESCE EM QUASE TODA A EUROPA - Eduardo Febbro



A extrema-direita vai subindo ano após ano os degraus do poder e poucos são os países que estão a salvo da influência que o partido de ultradireita francês Frente Nacional exerce desde a década de 80: França, Itália, Inglaterra, Bélgica, Grécia, Holanda, Hungria, Suécia, Dinamarca, Finlândia, a bandeira ultradireitista recorre como uma doença incurável as democracias europeias. A extrema direita francesa fez escola em quase toda a União Europeia. O artigo é de Eduardo Febbro.

Paris - O último filho nasceu na Grécia. A extrema direita, abraçada na crise que flagela este país há três anos, volta ao primeiro plano 38 anos depois da queda da ditadura dos coronéis (1967-1974). O Partido LAOS e o Aurora Dourada (Chrissi Avigi) somam mais de 8% de intenções de voto para as próximas eleições legislativas de seis de maio. Não é uma exceção na Europa. A ultradireita vai subindo ano após ano os degraus do poder e poucos são os países que estão a salvo da influência que o partido de ultradireita francês Frente Nacional exerce desde a década de 80: França, Itália, Inglaterra, Bélgica, Grécia, Holanda, Hungria, Suécia, Dinamarca, Finlândia, a bandeira ultradireitista recorre como uma doença incurável as democracias europeias. 

A extrema direita francesa fez escola em quase toda a União Europeia. O partido ultradireitista Frente Nacional surgiu na França a partir dos anos 80, justamente depois da eleição do socialista François Mitterrand à presidência da República (maio de 1981). O FN já existia, mas sua participação era secreta. As táticas eleitorais de Mitterrand destinadas a debilitar a direita clássica foram um dos fatores que levaram a ultradireita francesa a se converter, com o passar dos anos, em um partido poderoso, capaz de perturbar o equilíbrio político clássico e contaminar com suas ideias todos os debates, da esquerda à direita. 

Três décadas mais tarde, o Frente Nacional, agora dirigido pela filha de seu fundador, Marine Le Pen, obteve o maior resultado eleitoralde sua história: quase 18% dos votos no primeiro turno das eleições presidenciais do dia 22 de abril passado. A ultradireita xenófoba e populista é um míssil político tóxico com suficiente força como para desfazer maiorias, precipitar a queda de governos e conseguir que suas ideias impregnem a ação política dos partidos conservadores. A extrema direita tem, de fato, duas fases históricas; a que vai de 1945 ao ano 2000, onde o antissemitismo foi norma, e a que se inicia com o século XXI, onde a islamofobia é o atrativo das urnas.

Depois da França, o segundo marco da ultradireita teve lugar na Áustria, entre os anos 80 e 2000. O FPÖ, Partido Austríaco da Liberdade, fundado no começo dos anos 50 pela ala nacionalista e populista da extrema direita, é ainda um dos mais sólidos da União Europeia. O FPÖ teve sua hora de glória na década de 80, quando formou uma coalizão governamental com os socialdemocratas do SPÖ. Depois, sob a influência de seu carismático líder, Jörg Haider, a ultradireita nacionalista austríaca regressou ao poder em 1999 após obter 27% dos votos nas eleições legislativas desse ano. 

Playboy e negacionista, Haider prosseguiu a obra de Jean Marie Le Pen, o fundador do Frente Nacional Francês. Transcorreu um quarto de século e a ultradireita é agora um movimento normalizado, admitido e legitimado. Esta corrente mudou suas ideias e passou de um antissemitismo secular à islamofobia delirante e à crítica violenta contra Bruxelas. O exemplo mais moderno e devastador desta reencarnação é o líder populista holandês Geert Wilders e o Partido pela Liberdade, PVV. Desde as eleições de 2010, onde obteve 24% dos votos, o PVV é um aliado da coalizão de direita-conservadora que governou a Holanda até que o próprio Wilders fizesse balançar os alicerces do primeiro-ministro Mark Rutte forçando eleições antecipadas. Um desacordo no seio da coalizão sobre os planos de austeridade demonstrou a capacidade destrutora da ultradireita. Wilders é um islamófobo notório, defensor do fechamento por completo as fronteiras à imigração. Em 2008 o chefe do PVV assinou um panfleto infecto contra o Islã e em seguida realizou um documentário, Ftina (A Discórdia), no qual combinou imagens dos versos do Corão com atentados terroristas. 

Nos países escandinavos, o retrocesso dos partidos socialdemocratas deu lugar ao surgimento de partidos de ultradireita. Muitos destes passaram da marginalidade a formar alianças de governo. Esse é o caso da Dinamarca entre 2009 e 2011: em 2009, na Noruega, o Partido do Progresso alcançou 22% dos votos nas eleições: na Finlândia, a coalizão formada pela esquerda e a direita impediu in extremis que o Partido dos Verdadeiros Finlandeses integrasse o governo logo que, após as eleições legislativas de 2011, esta agrupação da extrema direita obtivera 19% dos votos e passara a ser a terceira força política do país: na Suécia, a extrema direita do partido Democratas da Suécia levou 5,8% dos votos nas eleições legislativas e entrou pela primeira vez no Parlamento. 

A Itália é uma exceção. Tem uma ovelha negra, a regionalista e fascistóide, Liga do Norte, de Umberto Bossi, mas o movimento ultra mais poderoso que existia sofreu uma transformação inédita até hoje. O neofascista Movimento Sociale Italiano, de Gianfranco Fini, se transformou, a partir de 1994, em um sólido partido de direita, a Alianza Nazionale. Essa transmutação foi muito além do mero nome: Fini, que depois formou aliança com Silvio Berlusconi, condenou o antissemitismo, reconheceu como válidos os valores da Resistência e os termos da Constituição. Entretanto, em dezembro passado, um militante do movimento de extrema direita italiano CasaPound, assassinou dois imigrantes senegaleses. 

Na Hungria, as milícias do partido neofascista Gobi, "A Guarda Húngara”, praticam com toda impunidade sua brincadeira predileta: sair à caça dos ciganos, muito numerosos no nordeste do país.

Uma depois da outra, em maior ou menor medida, as sociedades do Velho Continente sucumbem ao canto da sereia do ultradireitismo. A receita do êxito é sempre a mesma: a globalização e suas inúmeras e reais consequências, entre elas as deslocalizações, o desemprego, a imigração, a chama do confronto do “povo” contra as elites “corruptas”, a ameaça do Islã e a identidade nacional em perigo pelo multiculturalismo. 

Dominique Reynié, autor do ensaio “Populismes”, destaca o duplo impulso dos valores que a extrema direita apregoa hoje: “por um lado está a proteção dos chamados interesses materiais, ou seja, o nível de vida ou do emprego, e, pelo outro, o patrimônio imaterial, a reivindicação de determinado estilo de vida ameaçado pela imigração e a globalização”. A força da extrema direita consiste em apresentar-se como uma resposta “anti-sistema” frente a uma arquitetura formada pelas elites corrompidas e “ofuscadas” pela globalização e o multiculturalismo. O partido de ultradireita britânico British National Party se nutre desse discurso. Os ultranacionalistas e ultradireitistas do partido Vlaams Belang conseguiram pesar de maneira decisiva no tabuleiro político com uma linha política similar. 

Este coquetel de discursos remete diretamente aos anos da Alemanha Nazista. Hitler havia irrompido com um acerbo ataque às elites industriais e bancárias, além de seu criminoso e exterminador discurso sobre a pureza da raça. A repercussão deste discurso sobre as construções políticas dos países é considerável. A partir de 14 ou 15% de votos obtidos pela extrema direita, os partidos conservadores tradicionais caem na tentação de imitar seus princípios. A mutação é assim considerável e o transtorno dos valores termina em uma grande confusão da qual sai sempre o mesmo ganhador: a ultradireita. 

As eleições presidenciais francesas são um exemplo espetacular dessa corrida protagonizada pelos conservadores liberais para subtrair à extrema direita seu saldo eleitoral. O presidente francês, Nicolas Sarkozy, saiu em busca dos votos que lhe faltavam para ser reeleito com um argumentário digno da mais pura extrema direita: logo após perder o primeiro turno, Sarkozy considerou, entre outras delicadezas, que Marine Le Pen era “compatível com a República”. 

O caso grego mostra até o absurdo como a crise apaga a memória. Dos dois partidos de extrema direita, LAOS e Aurora Dourada (Chrissi Avigi), o primeiro passou a formar parte da coalizão governamental criada no ano passado em meio à crise. O segundo, Chrissi Avigi, está se convertendo em um ator importante. O Chrissi Avigi é um partido pró-nazista, cujo emblema se parece com uma suástica. A recuperação do medo ao Islã, a agressão verbal contra os imigrados são hoje, nas sociedades europeias, uma das sementes mais frutíferas da conquista do poder.


Extraído do sítio Carta Maior