Mostrando postagens com marcador Crise econômica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crise econômica. Mostrar todas as postagens

26 fevereiro 2013

LONDRES TAMBÉM PERDE O SEU TRIPLO A

Orlando Cue
Em 22 de fevereiro, o Reino Unido tornou-se a última nação europeia a perder a sua notação AAA, quando a agência de rating Moody’s reduziu a notação de crédito para Aa1. É embaraçoso para o primeiro-ministro, David Cameron, mas não um choque para os mercados, afirma “The Times”, que incentiva o Governo a prosseguir a política de austeridade.

A realidade da descida da notação de crédito do Reino Unido poderá revelar-se menos impressionante do que a expectativa. A retirada da notação AAA ao Reino Unido, nas próximas semanas, era aguardada por todos. A única surpresa foi a Moody’s ter tomado essa decisão antes da apresentação do orçamento, em março. A calma dos investidores quando a França e os Estados Unidos perderam as notações máximas indica que a reação dos mercados pode ser mais um encolher de ombros do que um estremecimento.

Contudo, do ponto de vista político, o facto é bastante importante, em especial porque [o ministro das Finanças] George Osborne disse que manter a notação AAA do Reino Unido seria um parâmetro de referência do sucesso da sua estratégia para a redução do défice. Alguns dos que o criticam, entre os quais o ministro sombra das Finanças, Ed Balls, afirmam que perder a notação prova que a estratégia fracassou e que Osborne deveria tentar uma nova abordagem. No entanto, este jornal acredita que o problema não reside em a estratégia elaborada pela coligação em 2010 ser errada. Reside no facto de o Governo não ter aplicado essa estratégia com a energia e a coragem política suficientes.

Economia com impostos baixos

Osborne estava absolutamente certo ao dizer que a prioridade era um plano credível para reduzir o défice orçamental e que isso deveria ser conseguido sobretudo através de cortes na despesa pública e não através de aumentos de impostos. Isso faria parte de uma passagem, a mais longo prazo, de um Estado com um montante elevado de despesa para uma economia com impostos baixos, com espaço para o florescimento do setor privado, liberto de regulamentação desnecessária. Com a ajuda da desvalorização da libra, verificar-se-ia um reequilíbrio da economia orientado para as exportações e para as regiões, e mais distante da City [centro financeiro de Londres] sobreaquecida e do resto do sudeste.

As razões de os progressos até agora realizados serem tão insatisfatórios escapam, em grande medida, ao controlo do Governo.

O crescimento não recuperou tanto quanto se esperava, em parte porque as exportações foram afetadas pela crise da zona euro. Entretanto, a queda da libra faz aumentar a inflação, o que colocou o consumo sob pressão.

Cortes abruptos

A estagnação do crescimento teve como resultado maiores prestações de desemprego e Osborne permitiu, acertadamente, que estas conduzissem a uma emissão de dívida pública mais elevada do que o previsto, de preferência a impor mais cortes noutros domínios, para compensar.

Mas, sob estes números, a verdade é que a coligação não foi suficientemente longe nem agiu suficientemente depressa na reestruturação do Estado e na reforma dos serviços públicos. Em parte, esse facto reflete a influência dos liberais democratas no seio da coligação. Estes não reconheceram que encontrar novas formas de tributar mais fortemente os ricos é irrelevante para os desafios reais que a economia britânica enfrenta.

É certo que alguns departamentos governamentais estão agora a sofrer cortes abruptos. Mas não tão abruptos como a pouco judiciosa redução do investimento público que Osborne herdou dos trabalhistas. O investimento em infraestruturas, que poderia ser um fator determinante de crescimento económico, foi ainda mais prejudicado pelo fracasso do Governo em enfrentar os obstáculos surgidos em Whitehall e no sistema de planeamento. Também não se registaram progressos suficientes no esforço mais vasto no sentido de reduzir o peso da regulamentação sobre as empresas. Demasiadas decisões difíceis, como a necessidade de identificar um novo aeroporto central no Sudeste, foram evitadas.

Redobrar o empenho governamental

A descida da notação porá pelo menos à disposição de Osborne mais munições contra os pedidos dos trabalhistas no sentido da mitigação dos planos de redução do défice, no orçamento do próximo mês. Osborne poderá continuar a basear-se na política monetária para oferecer estímulos adicionais à procura e o facto de o Comité de Política Monetária do Banco de Inglaterra estar a analisar formas mais imaginativas para pôr em prática a sua estratégia de restritividade quantitativa é encorajador.

Contudo, isto não significa que o ministro das Finanças não deva fazer nada. Deve, pelo contrário, redobrar o empenho governamental em reduzir os encargos das empresas e em levar por diante uma reforma radical do setor público. É esta a única via para a recuperação da notação de crédito do Reino Unido.

* Publicado originalmente no The Times.

Extraído do sítio Press Europe

17 fevereiro 2013

G20 REJEITA GUERRA CAMBIAL E ADIA ACORDO SOBRE DÍVIDAS

A reunião dos ministros das Finanças do G20 foi encerrada neste sábado, 16 de fevereiro de 2013, em Moscou. Reuters

G20 promete não iniciar uma guerra cambial e adia a adoção de novos objetivos de redução de dívidas. Essas foram as principais decisões tomadas pelos ministros das finanças das 20 principais economias do mundo no final da reunião de dois dias em Moscou.

No comunicado final do encontro do G20, realizado em Moscou, os representantes das 20 maiores potências econômicas mundiais se declararam contrários a qualquer tipo de guerra cambial. As declarações têm em vista o receio gerado por políticas econômicas do Japão, que recentemente desvalorizou sua moeda para socorrer seus exportadores. Desde novembro, o ien já caiu 20%. O texto, porém, não cita o país claramente, o que aumenta as chances de continuidade dessa política.

As autoridades econômicas mundiais afirmaram ainda que resistirão a toda forma de protecionismo e manterão seus mercados abertos. Os representantes também se comprometeram a efetuar reformas ambiciosas e coordenadas. Entre essas, está a reforma que deverá construir um sistema financeiro mais elástico e mudanças estruturais.

De acordo com o comunicado, as economias mais avançadas também irão desenvolver estratégias fiscais em médio-prazo que serão anunciadas em São Petersburgo durante a cúpula dos líderes do G20 em setembro.A adoção de novos objetivos de redução de dívidas também foi adiada por causa da persistência da fragilidade da conjuntura mundial.

Na presidência do grupo em 2013, a Rússia declarou entre seus principais objetivos o desenvolvimento de medidas para um crescimento global sustentável, inclusivo e balanceado, além da criação de postos de trabalho.

Extraído do sítio RFI

14 fevereiro 2013

CAPITALISMO GLOBAL BUSCA UM NOVO "PAPADO" - Saul Leblon


Passados cinco anos de implosão da ordem neoliberal, o sistema capitalista está longe de dizer 'habemus papam'. 

Entre a austeridade imposta à Europa e a liquidez contracíclica dos EUA, seus cardeais ora parecem hesitar, ora ganhar tempo. 

Nesta 4ª feira (13), os dois lados da crise transatlântica convergiram para um meio fio que os elucida mais que todas as palavras e aparências. 

A ideia é criar um grande 'nafta' europeu/norte-americano, 'equivalente à metade da produção mundial' (leia a reportagem de nosso correspondente em Londres, Marcelo Justo).

Labirínticos acordos de eliminação recíproca de tarifas e outras formas dissimuladas de protecionismo (legislações sanitárias, por exemplo) terão que ser vencidos para o desfecho da crise redundar nessa imensa 'pátria grande dos livres mercados'.

A bandeira motivacional é defender ambas as margens do avanço implacável da concorrência chinesa.

Do ponto de vista social significa algo do tipo: façamos com o emprego, a indústria, a agricultura e os serviços aquilo que a concorrência oriental faria de qualquer jeito. 

O relevante nesse aceno do consistório conservador é o fato de dobrar a aposta na mesma lógica que jogou a humanidade na pior crise desde os anos 30.

O papel reservado a governos e Estados no processo é o de sempre. E estrito: desregular, desbastar, escalpelar direitos, abrir espaços, pavimentar as free ways para o livre fluxo dos capitais e negócios. 

E seja o que Deus quiser.

O combustível da corrida é o apetite canibal dos capitais, aguçado pela dieta da crise. Fusões e aquisições pipocam diariamente nos quatro cantos do planeta. O canibalismo é induzido pelas inovações tecnológicas assadas em fogo alto nos laboratórios das corporações, que tem escala e capital para isso.

De novo: 'e seja o que Deus quiser'.

Externalidades como o custo adicional em pobreza e desigualdade, ademais da soberania dos povos, ficam a cargo do poder de ajuste e convencimento dos respectivos centuriões locais.

Aécios Neves estão, como sempre estiveram, disponíveis nas mais remotas latitudes. 

Sua caixa de ressonância midiática, idem. 

Há poucos dias a banca europeia fechou a conta de seu desempenho em 2012: 55 mil demissões. 

A pátria sem fronteiras dos acionistas aplaudiu.

Ajustes e aplausos equivalentes ocorrem em todas as áreas e nos diferentes pontos cardeais do planeta, mediante a exibição de números equivalentes.

A república dos dividendos gostaria que algo parecido acontecesse com a Petrobrás no Brasil. Cortes; redução drástica de conteúdo nacional nas encomendas; bombeamento maciço de óleo para exportação; zero de novas refinarias. E por aí afora.

Um feérico exercício de musculatura está em marcha urbi et orbi.

Dele emergirá o novo papado. A nova ordem pós-crise.

Não a dos cardeais europeus da fé ortodoxa; nem a dos discursos bonitos do cardeal Obama. 

Mas a das corporações globais embaladas em acirrada disputa pelo controle dos mercados no pós-crise. 

O efeito em cadeia dessa recomposição de massa muscular é imaginável.

Contrapor-se à modelagem unilateral do futuro requer alguns ingredientes estratégicos. 

Facilita muito dispor de um mercado interno de massa, assim como de uma base industrial capaz de competir por um naco do século 21. Aeticulaçoes regionais , como a do Mercosul e a da Unasul, idem.

Mas nada acontecerá sem um imperativo de desassombro político insubstituível: restituir algum nível de comando do Estado sobre a economia e o mercado.

A extensão dessa ordenação pública depende da equação política de cada sociedade

É o que o Brasil de Dilma, a Argentina, de Cristina, a Venezuela de Chávez e Maduro, a Bolívia e o Uruguai tentam implementar, de acordo com o acumulo de forças interno caso a caso.

Não é fácil.

Estados egressos de décadas de desmonte neoliberal não foram suficientemente regenerados.

Mesmo por que não se trata simplesmente de reeditar o estatismo autoritário.

É preciso ir além.

E criar espaços de socialização do planejamento público, possibilidade concreta sinalizada pelas conferências setoriais, realizadas no governo Lula.

Na realidade concreta, porém, improvisa-se. 

Da mão para a boca; na tentativa de manter a cabeça fora d'água. E resgatar alguma capacidade de comando sobre o destino econômico e social.

Avanços e hesitações compõem a norma nessa corrida.

Um episódio resume todos os demais.

O governo Dilma acaba de redefinir a margem de retorno dos projetos de infraestrutura oferecidos à iniciativa privada.

O capital privado tem caixa e interesse em investir e o país necessita, visceralmente, desse investimento complexo de longo prazo. 

O governo Dilma reajustou a taxa de retorno original considerada baixa pelo mercado. 

Não renunciou à prerrogativa de planejar o país e definir os projetos prioritários a serem implementadas, ademais de fixar o seu prazo, a qualidade e a taxa de retorno correspondente.

Mas cedeu um percentual maior na remuneração do investimento.

Poderia ter feito diferente?

Poderia, em tese.

Por exemplo, ter confiscado o caixa ocioso das empresas com uma brutal taxação sobre a aplicação financeira.

Em teoria. 

Na prática, a equação política permitiu outra solução: previamente o espaço de fuga do capital ocioso foi comprimido cortando-se significativamente a taxa de juros que serviria de abrigo confortável e seguro à liquidez e ao curto prazo. 

O saldo é quase o mesmo, a um custo futuro maior de tarifa pública; a fricção política, menor.

Ambas as escolhas refletem os ares do mundo.

Vive-se uma corrida contra o tempo. 

O governo Dilma não escapa ao tique-taque implacável dos ponteiros.

Ou o país desencadeia um novo ciclo de investimentos pesado com algum grau de racionalidade pública - o maior possível; ou a lógica selvagem das grandes corporações acabará modelando o futuro brasileiro no pós-crise.

A esquizofrenia midiática que acusa Dilma ora de intervencionista, ora de privatizante 'à la FHC', abstrai as variáveis estratégicas em jogo. Omite as implicações sociais distintas entre um desfecho e outro.

Na verdade, o papado de sua preferência é conhecido.

Abortado por Lula na primeira tentativa, quem sabe o país não pega o segundo bonde da 'nova grande nafta', preconizada pelos EUA e a UE como saída para a crise?

É esse o jogo de forças do consistório em marcha. 

Diante dele os países em desenvolvimento tem que articular a sua melhor resistência, no menor tempo possível.

Ou serão asfixiados pela fumaça que anunciar o 'habemus papam' do novo ciclo.

Extraído do sítio Carta Maior

13 fevereiro 2013

PORTUGAL FECHOU 2012 COM MAIS DE 923 MIL PESSOAS DESEMPREGADAS - Gilberto Costa


Lisboa – O Instituto Nacional de Estatística (INE) de Portugal contabiliza que o país fechou 2012 com 923,2 mil pessoas desempregadas, uma taxa de 16,9%. O número de desempregados relativo aos meses de outubro a dezembro é 1,1 ponto percentual superior ao do trimestre anterior e 2,9 pontos percentuais em relação ao mesmo período de 2011.

De acordo com o INE, o aumento da população desempregada se deu “essencialmente” na faixa etária dos 25 aos 44 anos, com escolaridade básica (12 anos de estudo) e egressas da indústria, construção civil, companhias de energia e de água. A taxa de desemprego é ligeiramente maior entre as mulheres (17,1% de desempregadas e 16,8% desempregados).

Segundo o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, o desemprego está “muito elevado” e é “socialmente muito doloroso”. Ele reconhece que a falta de trabalho “é a situação talvez mais dramática” que o país vive no processo de reajustamento econômico.

Portugal sofre com a crise econômica na zona do euro e por causa da perda de confiança no mercado financeiro internacional. Por causa disso, mantém um programa acordado com o Fundo Monetário Internacional; o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia para equilibrar as finanças do país.

As medidas adotadas para zerar os déficits fiscais e de transações correntes de Portugal acabaram por enxugar o crédito disponível no país (fundamental para setores com o da construção) e também afetam os gastos sociais (inclusive o seguro-desemprego).

O dado do desemprego divulgado hoje é mais um indicador da recessão econômica. Em 2012, a economia encolheu 3% e deverá continuar diminuindo este ano. Conforme projeção do Banco de Portugal, o banco central do país, o Produto Interno Bruto (PIB) entre 2009 e o fim de 2013 deve registrar queda de 7,4%.

Extraído do sítio Agência Brasil

12 fevereiro 2013

ALEMANHA ACREDITA QUE O PIOR DA CRISE ECONÔMICA GLOBAL JÁ PASSOU


Relatório do Ministério da Economia afirma que indicadores mundiais são positivos e que país recuperará crescimento em 2013.

O governo alemão acredita que a economia mundial já chegou ao fundo do poço, após analisar os sinais positivos mostrados pelos principais indicadores macroeconômicos, e confia em uma rápida recuperação do crescimento na maior economia europeia.

Assim assegura nesta segunda-feira (11/02), em seu relatório mensal, o Ministério da Economia, que assinala que o "ponto mais baixo da fase débil da economia global parece já ter sido deixado para trás", defendendo que os "indicadores conjunturais internacionais voltam a enviar sinais positivos".

O documento prevê, além disso, uma pronta recuperação da economia alemã, após ter sido superada a fase de "crescimento débil", que começou no último trimestre do ano passado.

"As possibilidades de uma recuperação do crescimento na Alemanha ao longo deste ano subiram", argumenta o texto do Ministério da Economia.

O governo da chanceler Angela Merkel estima que a economia alemã se beneficiará rapidamente "da estabilização do contexto internacional", com a melhora da situação na eurozona - ainda em uma "suave recessão" -, a resolução parcial dos problemas fiscais nos EUA e a recuperação dos países emergentes liderados pela China.

Este contexto menos turbulento, argumenta o relatório, repercute positivamente nos mercados financeiros e na economia real, devolvendo parte da confiança perdida "nas perspectivas econômicas a empresas e consumidores".

Berlim espera que o crescimento econômico nacional se sustente este ano em grande medida no consumo interno, já que as exportações, principal ponta de lança da economia nacional, vão continuar afetadas pela crise global.

A Alemanha envia 40% de suas exportações para a eurozona - e assim a crise da dívida soberana no sul do bloco econômico a afeta notavelmente -, 20% para o resto da União Europeia e 40% a terceiros países.

Extraído do sítio Opera Mundi

05 fevereiro 2013

EUROPA AINDA NÃO SUPEROU A CRISE, ALERTA EX-PRESIDENTE DO BANCO MUNDIAL - Michael Knigge


Em entrevista à DW, Robert Zoellick ressalta, durante a Conferência sobre Segurança em Munique, que os EUA precisam dar sinais mais claros aos europeus de que realmente querem um livre comércio transatlântico.

Enquanto a urgência da crise da dívida foi suavizada, a Europa ainda enfrenta desafios difíceis, avalia o ex-presidente do Banco Mundial Robert Zoellick. Em entrevista concedida à Deutsche Welle durante a Conferência sobre Segurança de Munique, Zoellick também explicou por que a crise no Mali não foi exatamente uma supresa.

Zollick foi presidente do Banco Mundial entre 2007 e 2012. Ele atuou como vice-secretário de Estado norte-americano entre 2005 e 2006 e representante para questões comerciais do governo dos Estados Unidos entre 2001 e 2005. Antes disso, havia servido como oficial dos EUA no processo chamado "Dois mais quatro" durante a reunificação alemã entre 1989-1990.

Deutsche Welle: A crise da dívida na Europa não tem estado na mídia há vários dias. Seria um sinal de que a Europa finalmente controlou a crise e superou sua pior fase?

Robert Zoellick: Claramente a boa notícia é que as condições se estabilizaram de alguma maneira e temos visto isso em algumas taxas de juros baixas em alguns países mediterrâneos. Mas concordo com Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu (BCE), que alertou contra a complacência. E os líderes alemães também fizeram isso.

Acredito que o que o que temos visto é que algumas das extrordinárias ações do BCE reduziram a pressão e eles ganharam tempo. Mas os desafios fundamentais das reformas fiscal e estrutural ainda têm que ser enfrentados. Então acho que 2013 será um ano, no qual vamos ver se o novo governo italiano prosseguirá com as reformas e se o governo espanhol, que tem dado alguns passos difíceis, persistirá nesse caminho. O primeiro-ministro grego Antonis Samaras disse recentemente, num grupo do qual eu participava estava, que ele tem basicamente este ano para mostrar alguma recuperação, pois ele enfrenta o populismo de esquerda e de direita. Então ainda não superamos isso de maneira alguma.

Uma surpresa negativa para a economia mundial veio dos Estados Unidos recentemente, quando foi divulgado que a economia norte-americana contraiu levemente no último trimestre. Isso foi apenas uma escorregada única ou o senhor vê nuvens negras no horizonte?

A maior parte dos economistas sugeriu – e acho que eles estão provavelmente certos – que isso aconteceu por causa de uma combinação de fatores voláteis, como gastos com defesa e questões de inventário. A maioria das pessoas está prevendo um crescimento de cerca de 2% – o que é, de fato, pouco usual, ter esse nível de consistência. Dito isso, acho que mais para frente haverá alguns aumentos de impostos, que foram votados no ano passado e que poderão ser um entrave na economia. E mesmo um crescimento de 2% não é o tipo de crescimento que levará a economia norte-americana para onde ela precisa estar. De forma que os EUA encaram uma série diferente de desafios.

Obama enfrentará difíceis negociações orçamentárias
Talvez o único elemento novo no discurso de Joe Biden em Munique tenha sido seu apoio à ideia de um pacto transatlântico de livre comércio, que deveria ser fechado de uma vez em uma sessão de negociação. O senhor apoia isso, acredita que isso seja possível?

Essas são duas boas perguntas. Apoio tudo que abra mercados e tente liberar o comércio. Acho que a forma certa de acordo transatlântico poderia ajudar ambos os parceiros a lidar com algumas das suas reformas estruturais, a ser mais competitivos sem gastar mais dinheiro. Então acho que isso é uma coisa boa. O que escuto do lado europeu, e acho que é uma preocupação compreensível, é a seguinte: O presidente Obama levará isso a sério?

Como ex-negociador comercial, sei que existe uma diferença entre palavras e ação. E este é um acordo complexo. Haverá questões difíceis na área da agricultura. Há questões de padronização e regulação. Há várias vozes europeias que querem dar esse passo. Mas eles querem saber que os EUA levam tudo a sério e que isso é algo a ser transmitido de maneiras variadas.

O primeiro-ministro David Cameron prometeu ao povo britânico um referendo sobre a permanência na União Europeia. A relação dos ingleses com o resto da UE, e vice-versa, vem azedando há um bom tempo. Não seria melhor para os dois lados se o Reino Unido simplesmente deixasse o bloco?

Conversas sobre saída do Reino Unido da UE: apenas ameaças?
As ligações entre ingleses e europeus são muito profundas e duradouras. Os interesses políticos, históricos, na área econômica e no comércio, são muito fortes. O que ele está tentando propor é uma maior flexibilidade na UE. O Reino Unido deve fazer parte da UE. Cameron está argumentando contra o ceticismo. Mas, segundo ele, precisamos francamente de algumas mudanças no setor de competitividade de serviços para nos tornarmos mais competitivos. Precisamos de mais flexibilidade em algumas regras trabalhistas e sociais, e assim por diante.

Agora, isso é controverso em algumas regiões da Europa, mas acredito que, neste sentido, Cameron está realmente apontando para uma questão que a Europa precisa considerar. E acho que essa é uma grande questão para a Alemanha. Porque, de alguma maneira, quando ouço os alemães conversarem sobre economia e escuto o governo britânico, noto que há muita semelhança. Eles estão tentando manter uma disciplina fiscal e obter maior competitividade no mercado. E acreditam no livre comércio. A Alemanha será o ator dominante na UE. Então a questão fica para o lado britânico: eles farão mais do que discursar?

A França sozinha, independentemente da UE, decidiu intervir militarmente no Mali. Até que ponto ponto o senhor se surpreendeu com a intervenção francesa e com o fato de que a medida tenha sido tomada sem muita assistência de parceiros europeus e dos Estados Unidos?

Intervenção no Mali era previsível, afirma Zoellick
Minha perspectiva com relação a isso é também um pouco diferente, porque, na verdade, visitei o Mali há alguns anos. No Banco Mundial, estávamos conversando sobre as dificuldades vividas no norte do país. Voltei e tentei até mesmo dizer para alguns governos, incluindo o dos Estados Unidos, para deixarem o Banco Mundial ajudar em algum área de desenvolvimento que contribui para a frustração dos tuaregues. Mas alguém também deveria ajudar no setor de segurança. Assisti ao que aconteceu na Líbia. Não acho que alguém precisava ser gênio para entender que haveria um excesso de gente e de armas vindas da Líbia. Minha maior surpresa foi que os EUA e a Europa tenham se surpreendido. Em outras palavras, acho honestamente que isso é algo cuja fermentação poderia ter sido observada antecipadamente.

Acho que os franceses ficaram surpresos e, por isso, moveram algumas forças para cessar isso. Por um lado, eu os respeito por fazerem assim, mas acho que todo mundo precisa ter uma visão clara de que isso é apenas o começo. Apesar de muitos terem "derretido na areia", na verdade isso não significa que foram embora. E como temos visto em outros lugares, você cumpre a primeira etapa e acaba com um tipo de agressão mais convencional, mas depois precisa lidar com ataques suicidas e outras coisas. Eu realmente espero que os EUA e outros países apoiem a França em seus esforços.

Extraído do sítio Deutsche Welle

02 fevereiro 2013

PORTUGAL ANSEIA PELA RECUPERAÇÃO ECONÔMICA - Ralf Bosen


Com seu retorno ao mercado de capitais, Portugal deu um exemplo positivo. O governo ganhou novo impulso e pretende arrecadar dinheiro com atividades criativas. Mas falta confiança aos jovens portugueses.

Quando os sons melancólicos do fado ecoam, os portugueses costumam sonhar com dias melhores. Nos últimos anos, os acordes menores dessa música os têm ajudado a suportar a falta de perspectiva da crise financeira. Desde que Portugal retornou com sucesso ao mercado de capitais, no final de janeiro, há um pouco mais de motivos para esperança.

Pela primeira vez desde a perda de confiança por parte dos credores, o governo em Lisboa pôde emitir, novamente, títulos da dívida com resgate em até cinco anos. Somente com vencimentos bem mais prolongados pode-se testar se os mercados de capitais confiam no país. E é isso que parece estar ocorrendo. A demanda superou significativamente a soma desejada de 2,5 bilhões de euros.

Os lances vieram principalmente do exterior. Dessa forma, não só os maltratados cofres estatais foram um pouco aliviados, como, acima de tudo, os portugueses receberam um importante impulso psicológico no combate à crise financeira.

Hans-Joachim Böhmer, da AHK em Lisboa
"A colocação bem-sucedida dos títulos públicos portugueses, na atual fase e com esse sucesso, superou as expectativas, isso está sendo visto aqui como um grande êxito da política de consolidação do governo português", disse Hans-Joachim Böhmer, da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Alemã (AHK, na sigla em alemão), em Lisboa.

Em conversa com a Deutsche Welle, ele acrescentou que o objetivo original era voltar ao mercado somente em setembro deste ano. "A decisão foi antecipada em praticamente seis meses, e se constatou que os papéis tiveram boa colocação no mercado."

Alívio em Bruxelas

O fato valeu um elogio de Berlim. O 1° Fórum Portugal-Alemanha, realizado na última semana em Lisboa, procurou ampliar o intercâmbio entre os dois países. Na ocasião, o ministro alemão do Exterior, Guido Westerwelle, parabenizou o governo português, explicando que "as notícias do mercado financeiro para Portugal são bastante encorajadoras".

Olli Rehn defende vantagens para Portugal e Irlanda
Também em Bruxelas essa nova dinâmica foi recebida com alívio. O comissário europeu de Assuntos Monetários, Olli Rehn, defendeu que Portugal e a Irlanda – o outro país-modelo da zona do euro em crise – paguem seus empréstimos de emergência após o prazo combinado. Depois que foram concedidas à Grécia condições mais favoráveis, os dois países também querem ser beneficiados.

Segundo Rehn, não seria apenas no interesse dos dois países, "mas também de toda a União Europeia que a Irlanda e Portugal possam se refinanciar novamente através do mercado de capitais." Essa questão, no entanto, só será decidida na cúpula da UE, em março próximo.

Ainda no fundo da crise

Em maio de 2011, Portugal recebeu um empréstimo de emergência da União Europeia (UE) e do Fundo Monetário Internacional (FMI) no valor de 78 bilhões de euros. Em contrapartida, Lisboa se comprometeu a implementar duras medidas de austeridade econômica e reformas para sanear o orçamento público e impulsionar sua economia.

Até o fim do ano, o país deverá reduzir seu deficit orçamentário para 4,5% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional. Hans-Joachim Böhmer, da AHK em Lisboa, disse esperar um aumento de impostos neste ano, "para que se mantenha a previsão de deficit orçamentário nos moldes acordados com a Troica". Deve-se, portanto, olhar para os dois aspectos da atual dinâmica, ressaltou Böhmer: "Por um lado, o fato positivo de Portugal poder voltar ao mercado de capitais; por outro, para os fardos das reformas e das medidas de austeridade financeira, que a população está sentindo fortemente".

As modestas previsões de crescimento econômico para este ano e o número crescente de pessoas emigrando do país mostram a fragilidade da economia portuguesa. Particularmente os jovens vislumbram um futuro sombrio. Devido a uma taxa global de desemprego de quase 16% – e quase 39% entre os jovens –, muitos procuram a sorte no exterior.

Hans-Joachim Böhmer confirma: aqueles que não veem em Portugal as chances de que necessitam, procuram oportunidades em outros países, "e não somente nos lusófonos como Angola". No ano passado, por volta de 6 mil trabalhadores portugueses foram para a Alemanha. "No ano anterior, esse número foi uns 15% menor", comenta Böhmer.

Jovens protestam contra medidas de austeridade em Lisboa
Entre os que querem deixar o país, está a jovem Helena Vieira, de 20 anos. "Eu já pensei muito em sair daqui, à procura de uma vida melhor." Ela trabalhava como cozinheira no Algarve, em meio expediente e a quatro euros por hora, chegando ao fim do mês com cerca de 500 euros. Há algumas semanas, mesmo isso chegou ao fim. Havia pouca clientela e o restaurante teve de fechar. Agora, Helena está se mudando para a antiga colônia portuguesa Angola. Se antes a força de trabalho vinha de lá, agora é o contrário.

Helena Vieira está convencida de que esse é o caminho certo. "Eu vejo que os jovens estão indo embora. E só fica aqui quem não tem nenhuma chance lá fora, por ser velho demais." Ela não é a única: há já algum tempo, longas filas se formam diante da embaixada angolana em Lisboa, toda terça e quinta-feira.

Formas criativas de arrecadar fundos

Helena Vieira quer emigrar para Angola
Visando melhorar a situação, o governo português vem tentando meios incomuns para reforçar os cofres públicos. Um deles é atrair imigrantes ricos, que tragam capital novo. Nesse sentido, em outubro passado foi aprovada uma lei que facilita a obtenção do passaporte português para os empresários estrangeiros dispostos a investir grandes somas no país.

Organizações portuguesas de direitos humanos criticam a nova lei. Segundo elas, enquanto se procura atrair investidores que pouco fazem pelo país, os imigrantes simples, que perderam seus empregos devido à crise, são deixados à própria sorte.

De qualquer forma, até agora tem sido modesta a demanda pelo assim chamado Visto Dourado. Realmente, é pouco provável que os empresários acorram a Portugal devido ao fado ou às chances de investimento: se há interesse, é antes pelo fato de um visto de residência permanente em Portugal proporcionar, automaticamente, o direito de permanência em todos os países da União Europeia.

Extraído do sítio Deutsche Welle

30 janeiro 2013

UNIÃO EUROPEIA: A CRISE É TANTO DEMOCRÁTICA COMO FINANCEIRA - Slavoj Zizek


O espírito de ditadores como Nicolae Ceausescu ganha nova vida na resposta da elite europeia à crise da zona euro, assegura o pensador esloveno Slavoj Žižek. A mesma desconfiança na democracia que outrora restringiu o desenvolvimento dos países pós-comunistas está agora a ganhar terreno na Europa. 

Numa das últimas entrevistas antes da queda do regime, um jornalista ocidental perguntava a Nicolae Ceausescu como justificava o facto de os cidadãos romenos não poderem viajar livremente para o estrangeiro, embora a liberdade de circulação estivesse garantida na Constituição.

A sua resposta fez jus à melhor tradição do raciocínio estalinista: é verdade, a Constituição garante a liberdade de circulação, mas também garante o direito a uma vida segura e próspera. Portanto, temos aqui um potencial conflito de direitos: se os cidadãos romenos fossem autorizados a deixar o país, a prosperidade da sua terra natal ficaria ameaçada. Neste conflito, há que fazer escolhas, e o direito a uma pátria próspera e segura goza de clara prioridade...

Parece que o mesmo espírito está bem vivo na Eslovénia de hoje. No mês passado, o Tribunal Constitucional considerou que fazer um referendo sobre legislação de criação de um “mau banco” e uma holding soberana seria inconstitucional, o que equivale a proibir uma votação popular sobre o assunto. O referendo foi proposto pelos sindicatos, num desafio à política económica neoliberal do Governo, e a proposta recolheu assinaturas suficientes para torná-lo obrigatório.

Bruxelas entrou em pânico

A ideia de “mau banco” consiste num lugar para transferir todo o crédito tóxico dos principais bancos, a ser recuperado com dinheiro do Estado (ou seja, à custa dos contribuintes), evitando assim qualquer investigação séria sobre quem foi responsável por esse mau crédito. Esta medida, debatida durante meses, está longe de ser consensual, mesmo para especialistas financeiros. Então, porquê proibir o referendo?

Em 2011, quando o Governo de George Papandreou, na Grécia, propôs um referendo sobre as medidas de austeridade, Bruxelas entrou em pânico, mas nem assim alguém se atreveu a proibi-lo diretamente.

Segundo o Tribunal Constitucional esloveno, o referendo “teria acarretado consequências inconstitucionais”. Como? O tribunal reconhece o direito constitucional do referendo, mas alega que a sua execução poria em perigo outros valores constitucionais que devem ter prioridade em tempos de crise económica: o eficiente funcionamento do aparelho de Estado, nomeadamente a criação de condições para o crescimento económico; e o exercício dos direitos humanos, especialmente os direitos à segurança social e à livre iniciativa económica.

Em suma, para avaliar as consequências do referendo, o tribunal aceita simplesmente como um facto que não obedecer aos ditames das instituições financeiras internacionais (ou não satisfazer as suas expectativas) pode levar a uma crise política e económica, e é, portanto, inconstitucional. Sem rodeios: como corresponder a esses ditames e expectativas é condição para manter a ordem constitucional, pelo que passam a ter prioridade sobre a Constituição (e o mesmo é dizer, a soberania do Estado).

Tendência para a limitação da democracia

A Eslovénia pode ser um país pequeno, mas esta decisão é um sintoma de uma tendência mundial para a limitação da democracia. A ideia é que, numa situação económica complexa como a de hoje, a maioria das pessoas não está qualificada para decidir – não se apercebem das consequências catastróficas que decorreriam se as suas exigências fossem atendidas.

Este tipo de argumentação não é novo. Numa entrevista na televisão há um par de anos, o sociólogo Ralf Dahrendorf associava a crescente desconfiança na democracia com o facto de, após cada mudança revolucionária, o caminho para a nova prosperidade atravessar um “vale de lágrimas”. Após o colapso do socialismo [regimes com ênfase no Estado social], não é possível passar diretamente para a abundância de uma economia de mercado livre bem-sucedida: há que desmantelar o limitado, mas real, apoio e segurança social socialistas, e esses primeiros passos são necessariamente dolorosos.

O mesmo se aplica à Europa Ocidental, onde a passagem do Estado social do pós-guerra para a nova economia global envolve renúncias dolorosas – menos segurança, menos garantias de assistência social. Para Dahrendorf, o problema restringe-se ao simples facto de esta travessia dolorosa do “vale de lágrimas” durar mais tempo do que o período médio entre eleições, pelo que há uma grande tentação em adiar as mudanças difíceis em nome de ganhos eleitorais de curto prazo.

Populismo que termina em catástrofe

Para ele, o paradigma é a deceção de amplos estratos de nações pós-comunistas em relação aos resultados económicos da nova ordem democrática: nos dias gloriosos de 1989, equiparava-se democracia com a abundância das sociedades consumistas ocidentais; 20 anos depois, a abundância continua a não chegar, e culpa-se a própria democracia.

Infelizmente, Dahrendorf concentra-se muito pouco na tentação oposta: se a maioria resiste às mudanças estruturais necessárias à economia, não seria uma conclusão lógica pensar que, durante uma década ou mais, uma elite esclarecida devia tomar o poder, até por meios não democráticos, para obrigar à aplicação das medidas necessárias e, assim, lançar as bases de uma democracia verdadeiramente estável?

Na mesma linha de pensamento, o jornalista Fareed Zakaria apontava há dias que a democracia só pode “pegar” em países economicamente desenvolvidos. Se os países em desenvolvimento forem “prematuramente democratizados”, o resultado é um populismo que termina em catástrofe económica e despotismo político – não admira que os países do Terceiro Mundo (Formosa, Coreia do Sul, Chile) hoje economicamente mais bem-sucedidos só tenham abraçado a plena democracia após um período de governo autoritário. Já agora, esta linha de pensamento não fornece o melhor argumento ao regime autoritário da China?

O que é novo hoje é que, com a crise financeira que começou em 2008, está a ganhar terreno, também no próprio Ocidente, este tipo de desconfiança na democracia – em tempos limitado ao Terceiro Mundo e aos países pós-comunistas em desenvolvimento. O que, há uma ou duas décadas, eram conselhos paternalistas para os outros, agora diz-nos respeito também a nós.

Reduzir défices rapidamente é contraproducente

O mínimo que se pode dizer é que esta crise vem provar que não é o povo, mas os especialistas que não sabem o que andam a fazer. Na Europa Ocidental, estamos efetivamente a testemunhar uma crescente incapacidade da elite dominante – sabem cada vez menos como governar. Veja-se como a Europa está a lidar com a crise grega: exercendo pressão sobre a Grécia para pagar dívidas, mas, ao mesmo tempo, arruinando-lhe a economia com imposição de medidas de austeridade, garantindo assim que a dívida grega nunca será reembolsada.

No final de outubro do ano passado, o próprio FMI publicou um relatório mostrando que os danos económicos de medidas de austeridade agressivas podem ser três vezes maiores do que inicialmente se supunha, anulando assim o seu próprio conselho sobre austeridade na crise da zona euro. Agora, o FMI admite que forçar a Grécia e outros países sobrecarregados de dívidas a reduzir os seus défices muito rapidamente é contraproducente, mas só depois de centenas de milhares de postos de trabalho terem sido perdidos devido a tais “erros de cálculo”.

E é essa a verdadeira mensagem dos protestos populares “irracionais” por toda a Europa: os manifestantes sabem muito bem o que desconhecem; não têm a pretensão de ter respostas rápidas e fáceis para dar. Mas o que o seu instinto lhes diz não deixa de ser verdade: que quem está no poder também não sabe o que anda a fazer. Na Europa de hoje, são cegos a guiar outros cegos.

* Traduzido por Ana Cardoso Pires. Artigo original – The Guardian 

Extraído do sítio Press Europ

O FUTURO ESCREVE-SE EM MANDARIM - Luís Ribeiro, Thiago Mourão e Lorena Amazonas


Um em cada quatro jovens portugueses está desempregado. Para conseguirem trabalho, não hesitam em emigrar. Alemão, russo, chinês ou árabe são as línguas que aprendem antes de partir: eis o mapa das novas terras prometidas.

Num momento como este, nenhuma empresa portuguesa contrata um especialista em programação robótica. O receio de Gonçalo Gomes, 30 anos, logo se transformou numa dolorosa certeza, a cada novo currículo enviado e invariavelmente ignorado. Para piorar a situação, também a sua mulher, Marta, enfermeira, de 25 anos, não conseguia mais do que uns trabalhos precários e a meio tempo, numa clínica ou noutra.

“Decidimos abrir os nossos horizontes e enviar currículos para o estrangeiro. E, em junho, tivemos excelente feedback de empresas alemãs. O único problema é que exigiam que soubéssemos falar a língua.” Em setembro, Gonçalo e Marta entraram para um curso intensivo na DUAL, o departamento de qualificação profissional da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Alemão, em Lisboa.

“Temos tido muitas solicitações de empresas germânicas para profissionais de diferentes áreas”, diz Elísio Silva, gestor da DUAL. “Na maior parte das profissões, é indispensável conhecer a língua, pelo que será sempre uma boa aposta aprender alemão.” Nada disto significa que o inglês está a perder importância. Ser fluente na língua universal, no entanto, não diferencia um candidato dos outros. Além disso, na maior parte das profissões é obrigatório dominar o idioma do país.
Uma língua muito procurada

Com o país em crise profunda e a apresentar taxas de desemprego recorde (sobretudo entre os jovens, quase 40% entre os que têm menos de 25 anos), muitos portugueses já se aperceberam da importância crescente de alguns países, na economia internacional. Uns no centro da Europa, como a Alemanha, que continua a crescer em contracorrente, e outros bem mais longe. Nos últimos anos, o aumento da procura de cursos de russo, árabe e mandarim mostram bem de onde vem o poderio económico.

Sem surpresas, atendendo ao crescimento imparável da China, o mandarim é o que tem atraído mais atenções.

Nos últimos anos, surgiram em Portugal vários cursos de mandarim. Entre os mais populares, destacam-se as aulas para crianças, procuradas por pais especialmente preocupados com o futuro dos filhos.

A China não é só futuro – a sua pujança em todos os setores da economia é já uma realidade. E, apesar de o inglês ser ensinado nas escolas daquele país, a falta de prática dos chineses e, acima de tudo, as diferenças culturais obrigam os forasteiros a aprenderem algumas noções básicas de mandarim.

“Quando sabem que falamos mandarim, os chineses ficam agradavelmente surpreendidos”, assegura Sara Veiga Silva, 21 anos e com um diploma em Estudos Asiáticos, além de um curso de mandarim do Instituto Confúcio. A China é a potência económica do momento, mas não está sozinha. Nos últimos anos, com a economia nacional congelada, as empresas lusas têm seguido o rasto do dinheiro dos países árabes que, por sua vez, acolhem de braços abertos o nosso know how nas mais diversas áreas.

“Já há uma centena de empresas nacionais e seis ou sete mil trabalhadores portugueses espalhados pelos países árabes, que são dos mercados mais vivos, atualmente”, adianta Allaoua Karim Bouabdellah, secretário-geral da Câmara de Comércio e Indústria Árabe-Portuguesa. “Mas saber inglês ou francês não é suficiente. Muitos empresários árabes dominam apenas a sua própria língua, e é muito mais fácil fazer negócios quando nos exprimimos na língua do cliente.” No meio da letargia empresarial do País, os portugueses parecem despertos para este cenário, indica António Dias Farinha, professor catedrático e diretor do Instituto de Estudos Árabes e Islâmicos da Faculdade de Letras de Lisboa. “Só na minha Universidade, temos mais de cem alunos a aprender árabe, e existem muitos mais cursos, aqui e noutras cidades.”

Na mira está a emigração

Após vários anos a ser ignorada, também a língua de Tolstoi e Dostoievski ganha cada vez mais adeptos – a Rússia encontra-se em ascensão económica, sustentada pelas suas reservas energéticas, de que a Europa do Norte e Centro dependem.

“Há três anos, começou a notar-se um maior interesse pela língua. Temos, atualmente, mais de duzentas inscrições nos dois semestres de russo”, sublinha Rita Marnoto, diretora do Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Os objetivos dos alunos passam, aqui e ali, pela perspetiva de conseguir emprego na área da tradução e em empresas russas a trabalhar em Portugal. Mas a emigração é outra das finalidades de muitos estudantes.

Portugal está na moda, entre a classe russa mais rica. Muitos moscovitas de carteiras recheadas fazem férias no nosso país, em detrimento de outros destinos de praia (Grécia, Egito, Espanha), precisamente por ser mais caro – dessa forma, mostram aos amigos a sua saúde financeira. Por outro lado, a comunidade de Leste, russófona, que vive em Portugal, ainda é um mercado para algumas profissões, mesmo que a maioria desses imigrantes fale português.

Nem sempre a solução está do outro lado do planeta ou da Europa. Logo a seguir a Espanha, numa crise quase tão profunda como a nossa, existe um país de finanças aparentemente saudáveis. Assim pensou Joana Rodrigues, 23 anos, licenciada em engenharia biomédica. “Como quero ir trabalhar para fora e o inglês não é suficiente, decidi melhorar o meu francês”, explica.

A quantidade de países europeus em que o francês é o idioma oficial influenciou a sua decisão. “Além de França, temos a Bélgica, o Luxemburgo e a Suíça”, enumera Joana. A França pode não ter o elã económico da Rússia, do Golfo Pérsico ou da China, mas sempre fica mais perto de casa.

Extraído do sítio Press Europ