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12 setembro 2012

A PERSEGUIÇÃO A JULIAN ASSANGE É UM ASSALTO À LIBERDADE E UMA PARÓDIA AO JORNALISMO - John Pilger

A ameaça, por parte do governo britânico, de invadir a embaixada do Equador em Londres e capturar Julian Assange tem um significado histórico. David Cameron, antigo relações-públicas de um negociante da indústria televisiva e vendedor de armas a emirados árabes, está bem colocado para desonrar convenções internacionais, como as que protegeram cidadãos britânicos em territórios onde se registaram sublevações. Tal como a invasão do Iraque de Tony Blair conduziu directamente aos atos de terrorismo em Londres em 7 de Julho de 2005, assim Cameron e o Secretário dos Estrangeiros William Hague comprometeram a segurança de representantes britânicos pelo mundo fora.

Ameaçando abusar de uma lei concebida para expulsar assassinos de embaixadas estrangeiras, ao mesmo tempo que difama um homem inocente como se se tratasse de um “alegado criminoso”, Hague fez da Grã-Bretanha o alvo de escárnio por todo o mundo, embora esta visão seja praticamente suprimida em solo britânico. Os mesmos bravos jornais e outros meios de comunicação que apoiaram a participação britânica em crimes épicos e sangrentos, desde o genocídio na Indonésia às invasões do Iraque e do Afeganistão, atacam agora o “registo de direitos humanos” no Equador, país cujo crime é o de fazer frente aos prepotentes em Londres e Washington.

Insociável 

É como se os alegres festins e aplausos dos Jogos Olímpicos tivessem dado lugar, da noite para o dia, a um festival de brutalidade colonial. Vejam o oficial do exército inglês, que é também repórter da BBC, Mark Urban, “entrevistar” Christopher Meyer, muito alarmista, antigo apologista de Blair em Washington, ambos fervendo de indignação reacionária, tudo porque o insociável Assange e Rafael Correa, que não se intimidou, desmascararam o ganancioso sistema ocidental de poder. Semelhante afronta está bem patente nas páginas do Guardian, que aconselhou Hague a ser “paciente” e afirmou que o assalto à embaixada traria mais “problemas do que vale a pena”. Que Assange não é um refugiado político, declarou o jornal, porque “nem a Suécia nem o Reino Unido deportariam, em qualquer caso, alguém que poderia ser submetido a tortura ou à pena de morte ”.

A irresponsabilidade desta afirmação está ao nível do papel pérfido do Guardian no caso Assange. O jornal sabe bem que há documentos divulgados pelo WikiLeaks que indicam que a Suécia tem sido consistentemente submetida à pressão dos EUA em matéria de direitos civis. Em Dezembro de 2001, o governo sueco revogou abruptamente o estatuto de refugiado político de dois Egípcios, Ahmed Agiza e Mohammed el-Zari, entregues a uma esquadra de rapto da CIA no Aeroporto de Estocolmo e “entregues” ao Egipto, onde foram torturados. Uma investigação do procurador sueco para a justiça descobriu que o governo “violou seriamente” os direitos humanos dos dois homens.

Num telegrama de 2009 da embaixada dos EUA obtido pela WikiLeaks, intitulado “WikiLeaks põe a neutralidade no caixote do lixo da história”, a muito apregoada reputação de neutralidade da elite sueca revela-se uma fraude. Outro telegrama dos EUA revela, “até que ponto se estende a cooperação [sueca com a NATO, a nível militar e de informação] não é amplamente conhecido” e, a não ser que se mantenha em segredo, “iria expor o governo à crítica interna”.

O ministro sueco dos estrangeiros, Carl Bildt, desempenhou um notável papel de primazia no Comité para a Libertação do Iraque de George W. Bush e mantém laços estreitos à extrema-direita do Partido Republicano. De acordo com o antigo Procurador-Geral sueco, Sven-Erik Alhem, a decisão sueca de procurar a extradição de Assange com base em alegações sobre abuso sexual “não é razoável nem profissional, bem como é injusta e desproporcionada”. Tendo-se entregue para ser interrogado, foi dada a Assange permissão para deixar a Suécia e partir para Londres, onde, mais uma vez, se ofereceu para ser interrogado. Em Maio, num julgamento do Supremo Tribunal Britânico no caso da sua extradição, este órgão introduziu mais farsa, referindo-se a “acusações” não existentes.

A acompanhar isto, tem-se registado uma insultuosa campanha pessoal contra Assange. Grande parte desta tem emanado do Guardian que, como se fosse um amante rejeitado, se voltou contra a sua antiga fonte de informação, cujas revelações lhe trouxeram lucros chorudos. Sem que um cêntimo tenha sido pago a Assange ou à WikiLeaks, um livro publicado pelo jornal deu origem a um lucrativo contrato para um filme em Hollywood. Os autores, David Leigh e Luke Harding, insultam gratuitamente Assange, chamando-o de “personalidade perturbada” e “insensível”. Também revelam a palavra-passe secreta que ele dera ao jornal, para proteger um ficheiro digital contendo os telegramas da embaixada dos EUA. Em 20 de Agosto, Harding, do lado de fora da Embaixada do Equador, escrevia no seu blogue que a “Scotland Yard poderá ser a última a rir”. É irónico, embora inteiramente apropriado, que um editorial do Guardian que espezinha Assange esteja tão próximo do previsível extremismo da imprensa de Murdoch, sobre o mesmo assunto. Como a glória de Leveson, Hackgate e o jornalismo honrado e independente se desvanecem.

Não se trata de um fugitivo

Os seus perseguidores esclarecem a acusação feita a Assange. Não foi acusado de nenhum crime, não é fugitivo da justiça. Documentação do caso sueco, incluindo mensagens de texto da mulher envolvida, demonstram a qualquer pessoa de mente sã o absurdo das acusações de violação; alegações que foram quase desde logo postas de parte pelo procurador em Estocolmo, Eva Finne, antes da intervenção de um político, Claes Borgström. Na instrução do processo de Bradley Manning, um investigador do Exército dos EUA confirmou que o FBI estava a espiar os “fundadores, donos ou administradores do Wikileaks”.

Há quatro anos, um documento do Pentágono que quase passou despercebido, revelado pela WikiLeaks, descrevia o modo como este e Assange seriam destruídos por uma campanha de difamação que levaria a um “processo criminal”. A 18 de Agosto, o Sydney Morning Herald revelou, numa divulgação de documentos oficiais a coberto da lei da Liberdade de Imprensa, que o Governo Australiano recebera reiterada confirmação de que os EUA estavam a levar a cabo uma perseguição a Assange “sem precedentes”, e que não levantara objeções. Entre as razões do Equador para garantir asilo político é o facto de Assange ter sido abandonado “pelo estado de que era cidadão”. Em 2010, uma investigação da Polícia Federal Australiana descobriu que Assange e a WikiLeaks não haviam cometido nenhum crime. A perseguição que lhe é movida é um assalto a todos nós e à liberdade.

Tradução de André Rodrigues P. Silva

Extraído do sítio ODiário.info

17 agosto 2012

FILHO SUECO DE GARRINCHA FALA COM ORGULHO DE PAI QUE NÃO CONHECEU - Claudia Varejão Wallin

Ulf soube que era filho de Mané Garrincha aos 8 anos
Único filho homem vivo de Garrincha, o sueco Ulf Lindberg fala com orgulho do pai que nunca viu.

"Não há ninguém como Garrincha", disse Ulf em entrevista por telefone à BBC Brasil de sua casa em Halmstad, no litoral oeste da Suécia. Seu estilo de jogar era e sempre será único", acrescentou ele.

Ulf classificou como uma "catástrofe total" a atuação da seleção brasileira na final da Olimpíada de Londres no sábado, que deu vitória ao México por 2 a 1.

"Fiquei furioso. A seleção jogou constrangedoramente mal. Foi uma catástrofe total. E apesar de Pelé ter dito que Neymar é tão bom quanto (o argentino Lionel) Messi, não foi isso que vimos no gramado", desabafou.

Ulf nasceu de uma aventura amorosa de Garrincha (1933-1983) com uma jovem sueca em 1959, durante uma excursão do Botafogo pela Suécia.

Nesta terça-feira, ele chega a Estocolmo como convidado especial da cerimônia de despedida a Råsunda, a arena em que o pai brilhou na final da Copa de 1958. Na quarta-feira, as seleções de Suécia e Brasil se enfrentam em amistoso.

"Råsunda é um símbolo marcante da história de meu pai e do futebol brasileiro. Mas para mim, o estádio mais importante é o de Umeå (cidade do Norte da Suécia): foi em Umeå que Garrincha foi jogar em 1959 com o Botafogo. E graças a isso eu existo", brinca Ulf.

Adoção

Garrincha foi com o Botafogo e
 com a Seleção para a Suécia.
A mãe o entregou em adoção para uma família sueca de classe média quando ele tinha apenas nove meses de idade. Aos sete anos, veio a revelação: os pais adotivos contaram a ele que seu pai era Mané Garrincha, que encantava multidões nos estádios de futebol.

Mas o encontro de pai e filho nunca aconteceu.

"Lamento muito nunca tê-lo encontrado. Até hoje, muitas vezes me pego pensando em como seria bom poder ter conhecido meu pai. E estar com ele agora, dizer o quanto o admiro. Mas não foi possível. Infelizmente, ele tinha problemas sérios com o álcool. Se não fosse por isso, poderia estar hoje aqui entre nós, comemorando o reencontro com os companheiros de 58", disse Ulf.

Em 1977, ele chegou a ter esperanças de ver o pai: um jornal sueco havia divulgado que Garrincha queria conhecer o filho. Chegou a ser combinado que Ulf viajaria no ano seguinte para a Argentina, na Copa de 1978, para encontrar Garrincha, que faria comentários para um canal de TV.

"Mas a viagem não aconteceu. Meu pai bebia muito, e infelizmente já não estava bem", lembra Ulf. Garrincha faleceu em 20 de janeiro de 1983, vítima de uma infecção generalizada.

Restou ao filho continuar buscando o pai em recortes de jornais, filmes de TV, na internet.

"Uma das minhas manchetes de jornal preferidas sobre meu pai aqui na Suécia, depois de um show de dribles dele em Gotemburgo contra a seleção russa, dizia que ele era um talento extraterrestre: 'De que planeta ele vem?'", conta.

Pelé

'Não há ninguém como Garrincha', diz o filho
A cerimônia de despedida de Råsunda vai ser uma oportunidade de conhecer um pouco mais sobre o pai. Ulf aguarda pelo momento de encontrar, pela primeira vez, seu ídolo Pelé:

"Quero perguntar a ele o quanto bom de bola meu pai era. Mas quero saber principalmente como Garrincha era como pessoa. Vai ser bom encontrar também seus outros amigos de 58, e ouvir suas histórias sobre meu pai. Quero ter lembranças positivas dele".

Filho de brasileiro com sueca, ele diz que vai torcer pelas duas seleções no amistoso desta quarta-feira. E revela seus favoritos:

"Neymar faz jogadas inacreditáveis, mas não é o meu jogador preferido. Sempre gostei de Robinho, é uma alegria vê-lo jogar. Mas meu grande favorito é Ronaldinho Gaúcho".

Quiosque de salsichas

Aos 52 anos, divorciado, o filho do célebre campeão mundial de 1958 na Suécia e 1962 no Chile ganha a vida trabalhando em um quiosque de salsichas de Halmstad. Nem Ulf nem os quatro filhos - Jonas, de 25 anos, Martin, de 22, e os gêmeos Hendrik e Linnea, de 14 anos – falam português. Mas a paixão pelo futebol é quase unânime.

"Só o Jonas não joga", diz Ulf, que teve sua tentativa de jogar futebol frustrada por uma doença óssea na adolescência.

Garrincha é o terceiro da direita para a esquerda

Martin sofreu lesões sérias no joelho durante um treino há dois anos e meio, e só recentemente voltou a treinar como meio-campo no Oskarströms, um pequeno clube nos arredores de Halmstad. Apesar da sua gritante semelhança física com o pai, segundo Ulf nem ele nem Martin têm as pernas tortas de Garrincha:

"São só ligeiramente tortas, não são como as de meu pai", diz ele. As lesões de Martin limitam agora sua chance de brilhar no gramado. Ulf aposta nos gêmeos – Hendrik treina no Halmstads, clube de elite local, e Linnea joga no Centern:

"Os dois são bastante talentosos. Marta é a jogadora favorita da Linnea, ela tem verdadeira adoração", conta Ulf.

Mãe

Ulf é o 14º filho reconhecido de Manuel Francisco dos Santos, o Garrincha. No Brasil, já esteve três vezes. Pouco antes da primeira viagem, quando participava de um documentário sueco em 2005, acabou descobrindo que também nunca ia conhecer a mãe biológica: ela falecera meses antes.

Daquela primeira viagem ao Brasil, ficou a lembrança da emoção forte de ter encontrado as irmãs – são dez as filhas de Garrincha, que também teve quatro filhos.

"Naquele momento, ser o filho de Garrincha tornou-se mais real para mim", relembra Ulf, que também visitou o túmulo do pai no distrito de Pau Grande, em Magé (RJ).

A nova viagem ao Brasil já tem data:"Adoro o sol, adoro o calor, adoro os quiosques de Copacabana. Daqui a dois anos estarei lá" – promete, referindo-se à Copa de 2014.

Extraído do sítio BBC Brasil