24 novembro 2011

CRISTINA KIRCHNER: "RESPEITO OS MERCADOS, MAS OS QUE GOVERNAM SÃO OS ELEITOS PELO POVO"

A presidenta Cristina Fernández de Kirchner afirmou hoje que os políticos devem "respeitar os mercados", mas também deve saber que "os que governam são os que foram eleitos pelo voto popular”.


"Os políticos vão ter que decidir, Eu já tomei a decisão há muito tempo. Respeitar os mercados, mas os governantes são os que foram eleitos pelo voto popular", disse a presidenta durante o encerramento da 17ª Conferência Anual da União Industrial Argentina (UIA).

Ao falar no ato realizado no Hotel Hilton de Puerto Madero, a Presidenta fez referência à "bofetada" que representou a queda da bolsa espanhola depois das eleições que determinaram o triunfo de Mariano Rajoy, do conservador Partido Popular.

Cristina esteve acompanhada pelo Ministro da Economia e Vice-Presidente eleito, Amado Boudou; o Governador da Província de Buenos Aires, Daniel Scioli; o Ministro do Planejamento Federal, Julio De Vido; e a Ministra da Indústria, Débora Giorgi.

Também estiveram presentes o Secretário Geral da Presidência, Oscar Parrilli; o Ministro da Ciência e Tecnologia, Lino Barañao; o representante da União Industrial Argentina (UIA), José Ignacio De Mendiguren, e o ex-embaixador argentino na França, Luis Ureta Sáenz Peña, entre outros.

Em seu discurso, a presidenta mencionou a ideia do pêndulo e da inovação, ambas utilizadas pelo representante da UIA, José Ignacio de Mendiguren em seu discurso, para mostrar o que foi a crise de 2001, "na que o pêndulo se converteu em martelo e arrasou a Argentina", e o que devia ser o futuro do país.

A chefe do Estado fez uma revisão da história argentina e seu contexto internacional desde 2003, quando assumiu a presidência Néstor Kirchner, e disse ainda que "a situação no mundo foi em alguns momentos muito complexa e difícil" pelas crises financeiras internacionais, desde o governo nacional sempre se achou que "o problema radica em que se trata de aplicar velhas ideias para resolver novos problemas".

Para ilustrar esta afirmação recordou que na última reunião do G-20, em Cannes (França), onde expôs, havia um cartaz que dizia "Novo mundo - Novas ideias", sem que durante o encontro tenha sido escutada "alguma nova ideia, nem dentro nem fora", também “ninguém sugeriu uma teoria sobre o que está acontecendo que permita decodificar para onde vamos”.

A Presidenta reiterou sua definição sobre o "anarco-capitalismo financeiro" de agora, que faz com que o estoque financeiro supere quatro vezes o estoque de bens e serviços, e disse que com situações assim, "a crise cedo ou tarde vem e o mundo implode".

Cristina deu uma visão geral de referenciais teóricos que definiram cada etapa da história mundial, e disse que "as grandes transformações econômicas finalmente são sociais".

Neste contexto mencionou a queda da monarquia e a chegada da burguesia, o surgimento do capitalismo e, como reação, o marxismo, o mundo bipolar e mais tarde com a queda do Muro de Berlim a hegemonia de um só país.

Mais tarde, ao voltar à situação na Argentina disse que "o modelo é o de crescimento, com cerca de 9% nos últimos 12 meses, com geração de emprego que fez que o desemprego caísse para 7,2%, e inclusão social", através de políticas dirigidas aos setores mais vulneráveis.

Depois, a Presidenta referiu-se a “como continuamos", e neste sentido enfatizou na "inovação" e no que chamou "uma etapa de sintonia fina", onde se deve "estudar a cada um dos setores sob a lente da competitividade".

Neste ponto, a chefe do Estado disse que essa competitividade é "com inclusão social", e não "às custas de salários, de pagar impostos, ou de subsídios".

Cristina também falou de “inovação” em termos de comportamento de cada um dos três setores fundamentais na vida do país, que são "os empresários, os trabalhadores e o Estado" e que "foram as chaves do crescimento destes anos".

"Já não importa se são pequenas, médias ou grandes empresas, há que começar a falar com sintonia fina de investimento, salários, inflação, subsídios, e utilidades", consignou.
A Presidenta deixou claro que o modelo argentino "é de crescimento e não de metas de inflação", e enfatizou que "nessa linha" seguirá sua gestão.

Disse também que o superávit comercial da balança com os Estados Unidos se deve a que "em 2006, com a etapa de reindustrialização do país, as empresas começaram a comprar maquinarias", e se perguntou como um país ao que se lhe compra valor agregado não deixa à Argentina "entrar limões, ou carne".

"Podem-se ter boas maneiras também, mas primeiro força e firmeza, com sorrisos, mas sem ingenuidade", disse em referência às relações bilaterais.

Em outra ordem, a Presidenta mencionou o pedido de participação dos trabalhadores nos lucros das empresas e disse que "não pode ser pela força".

A presidenta também falou das “conquistas de trabalho”, e disse que sempre esteve do lado dos trabalhadores, e que por isso quando foi legisladora esteve “contra a lei de flexibilização de trabalho”.

"Vieram me visitar, menos do Vaticano, todos. Dirigentes políticos, cônjuges de dirigentes políticos, telefonemas, para que fossemos dar quórum, que faz favor, que se cai o mundo, mas durante um mês não baixamos para dar quórum", recordou a mandatária em referência à época em que Antonio Erman González era Ministro da Economia.

Depois, referindo-se ao escândalo do Senado do governo da Aliança, recordou que "em Deputados houve um setor importante" que se opôs, e do qual ela foi "uma das espadas mais fortes".

"Ninguém pode dizer que não defendi os trabalhadores. Tenho, sem ser dirigente sindical pergaminhos suficientes para dizer que sempre defendi os trabalhadores e que não sou neutra, que sempre estive do lado dos mais vulneráveis", consignou a Presidenta.

Agregou que teve que chegar este Governo "para restituir a negociação coletiva, o salário mínimo vital e móvel, melhorar a situação dos aposentados, e incorporar trabalhadores".

Com relação ao conflito trabalhista, reivindicou o direito de greve, mas assinalou que “ultimamente” se assiste a práticas onde os conflitos não são entre a patronal e os sindicatos, senão pelo “enquadramento" sindical.

"Isto não é conflito de trabalho, isto é conflito sindical", disse, e assinalou que a vocação do Governo é solucionar estes conflitos e que "a razão e a justiça estejam juntas, e a unidas com a legalidade e a legitimidade".

Pediu para que "esta partitura", tal como a chamou De Mendiguren em seu discurso, "seja tocada por todos, empresários, trabalhadores, sindicatos e toda a República Argentina", e que o façam "desde a inteligência, para seguir sustentando o mesmo modelo".

A Presidenta também se referiu ao traspasso do metrô da Nação à Capital Federal, e recordou que "a Cidade de Buenos Aires é a de maior renda per capita do país" e que o que se está tratando de conseguir "é o cumprimento da lei", mas assinalou que o prazo não pode ser até 2017.

"Criticaram os subsídios e hoje pedem estendê-los até 2017", disse, ao mesmo tempo em que pediu "inovação nos comportamentos, nas mentes", já que "de nada serve que os carros voem ou os trens vão ao espaço" como inovação tecnológica.

Em referência à economia das empresas, disse que é necessária a reinversão de utilidades no país, já que "quando tentam preservar as utilidades, principalmente do setor financeiro, as crises chegam e pagam os que menos têm, e o martelo acaba batendo a parede, e a Argentina fica como em 2001".

Deu a indústria automotriz como exemplo, que "utiliza mão de obra intensiva e qualificada, não é monopólica, compete e também reinveste suas utilidades na Argentina".

Cristina classificou como “bobos” os que acreditam em boatos em vez de ver "a totalidade do que vem fazendo este Governo nos últimos oito anos, com quatro ou cinco crises internacionais, e muitíssimas menos reservas".

"Meu interesse não é discutir nem brigar com ninguém, senão que entendamos as coisas que temos que fazer para que o crescimento continue",disse a chefe de Estado.

Antecipou que "estas são as coisas que temos que discutir: investimento, inflação", e expressou sua disposição e a de sua equipe "para abordar a cada um destes problemas".

“Não temos que falar pelos jornais. Quando se quer resolver um problema, peguem um telefone e falem com um funcionário. Nunca vi resolver nenhum problema por jornais, pelo contrário, sempre se complicam", alertou. 

Disse que as soluções vão vir do mercado interno e do mercado regional, e criticou às grandes empresas de serviços e produção que tinham comprado grande quantidade de dólares, pelo mesmo valor aos "créditos do Bicentenário tomados a taxa negativa".

Manifestou que "eles são os que movem a economia, alguns poucos, não os aposentados, não os milhões de argentinos, senão os que acumulam notas em portfólios".

"Vamos falar sem nos irritar, já aprendi a não me irritar, depois do que aconteceu com ele (em referência a seu marido e ex-presidente Néstor Kirchner) não me irrita mais nada, só o dele me irritou", reflexionou a Presidenta.

Neste contexto, fez questão de expressar sua abertura a todas "as ideias que permitam seguir sustentando a demanda agregada e a quem não têm capacidade de poupar".

Disse também que muitas empresas na Argentina têm seus lucros "acima do padrão internacional", e afirmou que não lhe “incomoda” na medida em que "não provoquem uma situação de forte endividamento do resto da sociedade".

Recordou a diminuição da dívida externa, à que chamou a "mancha" de nossa história, e disse que hoje é de 32% em relação ao PIB.

Finalmente, em outra referência ao triunfo de Rajoy na Espanha, e depois de contar que se comunicou com ele para felicitá-lo por seu triunfo, recordou que "todos os jornais qualificaram de contundente seu triunfo com 44%" e disse que "tomara" houvessem dedicado a ela "capas iguais", quando foi reeleita com 54% dos votos.

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