03 novembro 2011

ESTÁ TUDO ESTRAGADO - João Cândido da Silva

O projecto de construção da União Europeia foi feito com muito voluntarismo e pouca democracia. O lançamento do euro foi o exemplo mais claro. Em contraste com a forma como ameaça implodir.


Foram raros os responsáveis políticos europeus que submeteram a voto as decisões que tomaram no resguardo dos gabinetes. Se o euro era um desígnio político assumido, dotado de virtudes comprovadas e atestadas pela sapiência das elites, não havia necessidade de o sujeitar ao julgamento popular, susceptível de ser distorcido por ignorantes, demagogos, nacionalistas ou outras espécies igualmente perigosas pelo simples facto de terem opiniões diversas da linha intolerante do europeísmo oficial.

Não deixa de ser irónico que o exercício da democracia seja, agora, o principal risco que paira sobre a sobrevivência da moeda única e que fragiliza os próprios alicerces da União. A Grécia que, à semelhança de Portugal, não se deu ao incómodo de consultar os eleitores quando o seu Governo decidiu pedir a integração na Zona Euro, propõe-se referendar a sua saída. Para quem manda na Europa, a democracia é um cosmético. Apenas se usa quando parece ser essencial para se melhorarem as aparências. 

A proposta de George Papandreou de colocar a referendo o novo pacote de austeridade e o perdão parcial da dívida pública da Grécia tem tanto de irresponsável, como de solução desesperada para tentar salvar a pele. É uma sugestão irresponsável porque se segue a uma cimeira em que o primeiro- -ministro grego se comprometeu perante os seus parceiros com medidas que, se doem ao povo a que se dirigem, também exigem a mobilização de recursos dos contribuintes europeus e dos credores do país. Para uma Europa que tem a pretensão de ser vista como uma entidade respeitável perante o mundo, a surpresa com que a decisão do líder grego foi recebida corresponde ao grau zero da credibilidade.

O que motiva o primeiro-ministro de um país desestruturado, falido e dependente do dinheiro que lhe emprestam a dar um passo temerário, sabendo que o preço é o de mergulhar as bolsas e a banca num "crash" global e que esta é apenas uma ínfima parte da factura? Pode ser que Papandreou não acredite na eficácia das medidas que aceitou aplicar mas que, amarrado ao facto de as ter assinado, queira agora livrar-se do ónus respectivo, passando o veredicto final para os eleitores. Colocado perante a incapacidade para honrar as sucessivas metas com que o seu Governo se comprometeu, talvez tenha concluído que chegou a um beco sem saída, em que pouco mais lhe resta senão tentar arranjar uma saída airosa para si próprio.

Ao confiar às urnas de voto o destino da ajuda acertada com os seus parceiros, o primeiro-ministro grego desafia os eleitores a alinharem na prova do fogo. Terão que escolher entre a austeridade exigida pelos credores ou o abandono do euro com o consequente afundamento num cenário de caos e miséria que fará a tempestade argentina parecer uma suave brisa de fim de tarde. Como táctica política para chamar os eleitores e a oposição grega a assumirem responsabilidades, é um golpe a que não falta qualquer pinga de veneno. Acontece, apenas, que a Grécia não é uma ilha. 

Se ninguém conseguir demover George Papandreou da sua jogada perigosa, o referendo que sugeriu só se realizará em Janeiro, o que representa dois meses de agonia na Zona Euro, com os financiadores em compasso de espera até se saber em que lado irá desaguar a loucura suicida, travestida de democracia, que tomou conta de Atenas. O naufrágio das bolsas e a subida das taxas de juro da dívida pública de países da moeda única foi, ontem, uma pequena amostra daquilo que está em jogo. O euro nasceu mal? Sem dúvida. Mas pode acabar ainda pior. 


Extraído do sítio do Jornal Negócios Online - Portugal 

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