24 janeiro 2012

IRÃ: O QUE ESTÁ POR DETRÁS DO EMBARGO EUROPEU - Anna Malm

Não só as vastas reservas de energia e recursos naturais do Irã atiçam a cobiça dos dirigentes dos países economicamente impotentes da união européia assim como do líder delas todos os Estados Unidos. Sabemos que sempre foi essa cobiça de mãos dadas com a debilidade econômica que esteve por detrás das guerras ilegais dos últimos vinte anos, a última das quais a da Líbia.

Agora temos que os caminhos que levam à Moscou e a Pequim passam por Teerã, capitais essas localizadas respectivamente na Rússia, China e Irã. O que se tem passado em relação às atitudes ocidentais agressivas dos últimos anos em relação à Síria e ao Irã enquadra-se também num ramo de maiores considerações políticas geo-estratégicas. [1] 

No estudo apresentado em [1] considera-se que os caminhos que levam à Moscou e à Pequim passam por Teerã do mesmo modo que os caminhos que levam à Teerã passam por Damasco na Síria, Bagdá no Iraque e Beirute no Líbano.

Ressalta-se que os Estados Unidos querem controlar o Irã por razões políticas e econômicas assim como para satisfazer as suas próprias necessidades de energia. Eles querem também poder controlar a forma de pagamento da exportação do petróleo do país. Querem que o pagamento das exportações de petróleo do Irã seja feita em dólares. 

Isso é para que o uso global e contínuo do dólar nas transações internacionais seja mantido e não dilapidado, como tem sido nos últimos tempos. Lembramo-nos que o uso do dólar como moeda de pagamento internacional é uma das duas pernas em que o controle americano sobre o mundo se sustenta, apesar dos pesares. Digo apesar dos pesares porque o dólar não tem valor nenhum por si mesmo. Poderia e deveria ser trocado por sistemas de pagamento mais condizentes com a realidade de 2012 e não condizente com a realidade de 1945, como é o caso. A outra perna em que o poder americano sobre o mundo se sustenta é a força militar. 

Controlando o Irã através de um regime de marionetes posto no poder através de uma guerra dirigida pelos Estados Unidos e executada pelos seus aliados (como foi o caso na Líbia e como estão ameaçando a fazer na Síria) Washington também estaria a pôr uma corda no pescoço da China. 

Essa corda deveria ser apertada ou afrouxada de acordo com os interesses norte americanos, dando a eles o controle da segurança energética da China. Se a China não se comportasse de acordo com os interesses americanos lá estariam eles a estripá-la através do estripamento do fornecimento do petróleo. Estripamento esse que seria garantido pelas marionetes estabelecidas no Irã ao custo do sangue de muitos milhares e milhares de inocentes no Irã e no Oriente Médio, assim como à custo de uma destabilização econômica no mundo inteiro, se não por uma catástrofe global. 

É fato de conhecimento geral que a ameaça de guerra aberta que vemos hoje é uma continuação dos acontecimentos desencadeados por ações encobertas há já uns anos. Essas ações encobertas incluem serviços de informação específica, ataques e vírus cibernéticos, grupos militares secretos, espiões, assassinos, agentes de provocação e sabotadores agindo contra o Irã em favor dos interesses ocidentais.

O sequestro e assassinato de cientistas iranianos e de comandantes militares é de conhecimento público. Sabe-se de diplomatas iranianos sequestrados no Iraque e de iranianos visitando a Arábia Saudita e Turquia que foram detidos e sequestrados. Sabe-se de oficiais sírios, assim como vários palestinos e representantes de Hezbolah que também foram assassinados. Ressalta-se que esses foram assassinados e não detidos e colocados perante um tribunal de justiça.

Pressupõe-se que Israel tenha atacado o Líbano não só para exterminar ou pelo menos enfraquecer Hezbolah, mas também para estrategicamente ferir a Síria. É como dito, os caminhos que ferem a Síria vão através do Líbano. Os caminhos que estrategicamente ferem Irã vão através da Síria. Os caminhos que estrategicamente ferem ou afetam a Rússia e a China vão através da Síria e do Irã.

Síria é o apoio e o eixo do bloco da resistência contra os abusos ocidentais na região. Essa resistência é apoiada pelo Irã. Há já cinco ou seis anos que os Estados Unidos seguido dos seus irmãos em armas tentam desligar a Síria do Irã. Essa tentativa vinha sido feita por esforços de seduzir a Síria. Sendo que a Síria não se deixou seduzir pelas ofertas ocidentais as tentativas de sedução já se transformaram em ameaças e preparações de guerra.

Combater a Síria é combater o Irã. Esse é um ponto central a se ter em conta no contexto atual. A balança do poder e da influência política hoje na região tende a favor do Irã, mas nada enfraqueceria mais o Irã do que a perda da Síria.

Há aqui cenários potenciais e devastadores. Iria o Irã manter-se passivo frente a um ataque à Síria, ataque esse liderado pelos interesses ocidentais? Podemos pressupor que não. Os Estados Unidos não desejam que esse potencial cenário veja a luz do dia. O que eles querem é atacar a Síria e depois atacar o Irã, não os dois juntos. Seria demais até mesmo para os EUA-EU-OTAN. Isso já para nem se mencionar a cadeia de acontecimentos a serem desencadeados imprevisivelmente.

A marcha para uma guerra total e devastadora continua enquanto os Estados Unidos intensificam a guerra política e econômica da qual a decisão de embargo da União Européia só é um passo a mais. É uma marcha fúnebre dirigida por loucos falidos e letalmente armados. 

REFERÊNCIAS E NOTAS:

[1] Mahdi Darius Nazemroaya, é sociólogo e autor consagrado especializado em questões do Oriente Médio e da Ásia Central. Tendo estudado e analisado em extenso a situação atual ele argumentou em favor do núcleo das idéias que aqui retransmitimos. Originalmente o núcleo sequencional das idéias e conclusões aqui apresentadas foram publicadas em "News"- "Obama´s Secret Letter to Tehran: Is the war against Irã on Hold? Em www.strategic-culture.org - Strategic Culture Foundation, Moscou. www.iranews.com.br

Extraído do sítio do Jornal Pravda

O PASSADO QUE A ARGENTINA ENFRENTA COM A CORAGEM QUE O BRASIL NÃO TEM - Luiz Cláudio Cunha

A frase inesperada congelou a plateia colorida de azul, branco e marrom cáqui que lotava na segunda-feira, 12 de dezembro, o Salão San Martín, o espaço nobre do Edifício Libertador, sede do comando do Exército em Buenos Aires. Perfilados diante do ministro da Defesa, Arturo Puricelli, os brigadeiros, almirantes e generais do Alto Comando das Forças Armadas argentinas ouviram, crispados, a sentença súbita e cortante da autoridade que subvertia o rígido protocolo castrense:

Forti: "Juro por la pátria, mi madre y los 30 mil desaparecidos"
— ¡ Juro por la pátria, mi madre y los 30 mil desaparecidos! — improvisou o advogado e diplomata Alfredo Waldo Forti, 61 anos, ao prestar o juramento de praxe para renovar seu mandato como Secretário de Assuntos Internacionais da Defesa. Nenhum militar aplaudiu, mas nenhum protestou. Todos respeitaram a frase atrevida de Forti, que dava ali o seu corajoso testemunho pessoal diante da corporação fardada que legou à Argentina, no período da chamada ‘guerra suja’ de 1976 a 1983, o desonroso título de ditadura mais sangrenta entre os regimes militares que sufocaram a democracia no Cone Sul do continente, na segunda metade do Século 20.

Nélida Azucena Sosa de Forti: presa no avião quando saía do país com os 6 filhos
Forti e sua mãe são símbolos dessa violência — ele como sobrevivente, ela como um nome a mais na multidão de desaparecidos políticos no período da repressão militar. A bela morena Nélida Azucena Sosa de Forti, ex-integrante dos Montoneros, o movimento guerrilheiro da esquerda peronista, tinha acabado de embarcar no voo 284 da Aerolíneas Argentinas que sairia do aeroporto de Ezeiza rumo a Caracas, na manhã de 18 de fevereiro de 1977.

Fugindo do clima político cada vez mais fechado do país, desde o golpe militar desfechado um ano antes, Azucena levava consigo os seis filhos, de 6 a 16 anos, incluindo Alfredo, o mais velho. Já com os cintos afivelados para a decolagem, tiveram que desembarcar, chamados de repente para resolver ‘problemas de documentação’. A mãe e as crianças foram recebidas por agentes armados da polícia de Buenos Aires, subordinada ao Primeiro Corpo de Exército. Com os olhos vendados, foram colocadas em dois carros e levadas para o Pozo de Quilmes, um quartel da Brigada de Investigações da polícia localizado numa cidade da região metropolitana, ao sul da capital.

Faca no voo

Forti para Bussi: "Não tenho problema nenhum em cravar a faca cinco vezes em você. Mas a formação que recebi de minha mãe me diz que esta não seria a maneira certa"
Uma semana depois, as crianças reapareceram, vendadas com lençol e amarradas na árvore de uma praça no Parque Patrícios. Azucena ainda foi vista por um prisioneiro de Quilmes na primeira semana de março, até ser transferida para a chefatura de polícia de San Miguel de Tucumán, sua cidade de origem, 1.300 km a noroeste de Buenos Aires. A ordem de prisão e transferência para Tucumán partiu do general Antonio Domingo Bussi, que comandava a repressão mais feroz à guerrilha rural mais ativa do país na menor província da Argentina.

Azucena foi vista com vida, pela última vez, no centro clandestino de detenção conhecido como Arsenales, na saída norte da cidade, onde funcionava a Companhia de Arsenais Miguel de Azcuénaga, da V Brigada de Infantaria. Era um típico campo de concentração, cercado por duas cercas de alambrado separadas por uma faixa de terra vigiada por soldados e cães e altas torres de sentinelas.

Alfredo Forti e seus cinco irmãos nunca mais tiveram notícias de Azucena. No final da década de 1990, advogado com banca em Washington e consagrado assessor político dos governos do Peru, Equador e Guatemala, ele descobriu que dividia casualmente o mesmo voo da Aerolíneas com o algoz de sua mãe, Bussi, então um septuagenário general reformado. Naqueles tempos, a refeição era servida com talheres de metal, não de plástico. Em pleno voo, Forti deixou sua poltrona e foi até onde se sentava o general. Sem se apresentar, inclinou-se sobre ele, entreabriu o paletó e lhe disse:

Até o parceiro norte-americano
 exigia explicações sobre a mãe
 de Forti
— Estás vendo esta faca? Não tenho problema nenhum em cravá-la cinco vezes em você. Mas a formação que recebi de minha mãe me diz que esta não seria a maneira certa de resolver as coisas. Eu quero te ver apodrecer no cárcere! — amaldiçoou Forti, deixando para trás, tremendo, o homem que fazia a Argentina estremecer na década de 1970.

Caso americano

O nome de Bussi fazia abalar o prestígio da Argentina até nos Estados Unidos, no auge da ditadura. O National Security Archive da Universidade George Washington revelou, em 2002, o conteúdo de 4.600 documentos secretos do Departamento de Estado que abordavam violações de direitos humanos no país. O telegrama 04997 que a Embaixada em Buenos Aires enviou a Washington, no dia 29 de junho de 1978, relacionava os nomes de 103 pessoas das quais o governo norte-americano exigia informações. Um dos “casos de direitos humanos de interesse para os Estados Unidos” era o nº 71-77-5, de Nélida Azucena Sosa de Forti, com o status de “desaparecida”.


Azucena e milhares de compatriotas começam a desaparecer quando emerge, no mapa argentino, a sinistra figura do CCD. É a sigla dos Centros Clandestinos de Detenção, instalações secretas das Forças Armadas para executar o mesmo plano que Adolf Hitler, em 1941, batizou poeticamente de Nacht und Nebel (Noite e Névoa): um projeto de Estado para o desaparecimento de opositores ao regime. Os generais argentinos, como seus confrades nazistas, programaram a eliminação física dos dissidentes numa operação que começava com os sequestros, geralmente sob o manto da noite, e depois se completava pela névoa do desaparecimento sem pistas, sem rastros.

Havia método na loucura, como bradava Hamlet. Os CCD, apesar das diferenças, tinham uma estrutura básica e eficiente: uma ou duas salas de tortura, espaço amplo e indecente para receber os presos e alojamento decente para abrigar os guardas e torturadores. Todos tinham serviço médico e, em alguns casos, até um capelão para atender a consciência pesada dos mantenedores da ordem.

Inspiração brasileira

Começaram em meados da década de 1970 como pequenas casas ou porões clandestinos e, à medida que endurecia o regime, cresciam os CCD, espalhados pelos maiores quartéis do país, todos engolfados no turbilhão da tortura. Em 1976, ano do golpe de 24 de março, 610 CCD assombravam o país. Havia 68 deles só na província de Buenos Aires, 13 apenas na capital — incluindo os temidos CCD da ESMA, a temida Escola de Mecânica da Armada, e do Campo de Mayo, o maior quartel do país.

Bussi: uma das mais terríveis faces da repressão argentina.

A província de Tucumán, onde reinaria o general Bussi, tinha 16 CCD, a metade deles apenas na capital, San Miguel, terra onde nasceu a cantora Mercedes Sosa e onde desapareceu Azucena. Era um número espantosamente grande de terror disseminado por um único país. Os CCD excediam, em número, aos DOI-CODI da ditadura no Brasil (1964-1985), um país três vezes mais extenso, quase cinco vezes mais populoso e assolado por um regime de arbítrio três vezes mais longevo do que a da ditadura na Argentina (1976-1983).

A receita brasileira surgiu bem antes, em 1969, com a modelar OBAN, a Operação Bandeirante do II Exército, em São Paulo, que inovou unindo inteligência e violência das Forças Armadas, da Polícia Militar e dos policiais mais truculentos das delegacias da capital, onde despontou a liderança do delegado Sérgio Fleury, que se tornaria o símbolo internacional da repressão brasileira como estrela maior do DOPS.

Um ano depois, a fórmula de sucesso foi definitivamente militarizada, sob o comando do Exército, com a criação dos Destacamentos de Operações de Informações, os DOI do serviço sujo, que saíam às ruas para combater, sequestrar e torturar os militantes da guerrilha urbana. Eram coordenados pelos Centros de Operações de Defesa Interna, os CODI. Nascia a marca mais letal do regime brasileiro: os DOI-CODI, parceria macabra que se estendia pelos dez mais importantes comandos militares do país, nas grandes capitais.

Essa dezena de repartições públicas do terror, na estimativa do historiador Carlos Fico, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, autor de Como eles agiam — os subterrâneos da ditadura militar: espionagem e polícia política (ed. Record, 2001), abrigava cerca de 1.000 pessoas diretamente envolvidas com a repressão e a tortura — a quinta parte do efetivo do SNI, 5.000 arapongas, no auge do Governo Figueiredo. Antecipando os CCD argentinos, os militares brasileiros ainda montaram sete centros clandestinos de tortura em cinco Estados diferentes.

Doi-Codi Hilton e CCD Sheraton, maus locais de hospedagem
Hilton e Sheraton

Um sítio em Sergipe, um apartamento em Goiânia, uma casa no Recife, três locais em São Paulo (uma casa na avenida 23 de Maio, um sítio em Atibaia e uma chácara em Parelheiros, na zona rural paulistana) e a ‘Casa da Morte’, uma residência de aspecto acolhedor, com varanda e lareira na sala, numa rua tranquila de Petrópolis, na serra fluminense. O lugar, como um superlativo dos horrores comandados pelo CODI, ganhou um cifrado apelido dos militares que o frequentavam: “Codão”.

Os DOI-CODI mais importantes estavam nas duas maiores cidades brasileiras. O do Rio de Janeiro, instalado no quartel da Polícia do Exército, na rua Barão de Mesquita, registrou 735 denúncias de torturas, segundo o projeto Brasil Nunca Mais. Num espaço de 21 meses, entre julho de 1972 e março de 1974, quando o I Exército era comandado pelo general linha-dura Sylvio Frota, morreram ali 29 presos. O maior e mais notório DOI-CODI do país era o de São Paulo, com 250 homens da PM e da polícia civil, integrado ainda por 10 oficiais do Exército, 25 sargentos e cinco cabos sob o comando de seu fundador, o major Carlos Alberto Brilhante Ustra.

Ele redesenhou o 36º Distrito Policial, uma decadente delegacia a cinco quadras do ginásio do Ibirapuera, para instalar ali o DOI-CODI que se tornou o símbolo mais sangrento do regime: passaram por lá 2.541 ‘subversivos’ e 51 ‘terroristas’ morreram trocando bala com sua equipe barra-pesada, na heroica versão do próprio Ustra. Nos 40 meses em que o major reinou ali, entre 1970 e 1974, houve 502 denúncias de tortura (uma a cada 60 horas) e 40 mortos (um por mês) nos interrogatórios, segundo levantamento da Arquidiocese de São Paulo.

O centro de torturas de Ustra ficava na esquina da rua Tutóia com Tomás Carvalhal. Quando um preso era levado para lá, os agentes do DOI-CODI brincavam com a fama do lugar: “Agora você vai conhecer o Tutóia Hilton“, diziam. O que era Hilton, no Brasil, era conhecido como Sheraton na Argentina. O CCD Sheraton funcionava na subcomissária de polícia de Villa Insuperable, em La Matanza, o mais populoso dos municípios da região metropolitana de Buenos Aires, onde vivem 13 milhões de pessoas, a maior aglomeração do continente, abaixo só de São Paulo.

Martinez de Hoz, com um CCD (Centro Clandestino de Detenção) em sua empresa
Era um prédio de dois andares, com a garagem e as celas no térreo e a sala de tortura no andar superior, situado a quatro quadras da avenida General Paz, uma movimentada via de 24 km de extensão que margeia a capital ao norte e a oeste. Um CCD chegou a funcionar em 1975 na maior siderúrgica do país, a Acindar, presidida por José Alfredo Martinez de Hoz, a versão portenha de Delfim Netto, o poderoso ministro da Economia ao longo dos cinco anos do brutal governo do general Jorge Videla.

A patota dos Falcon

Talvez para amenizar a sombra que pairava sobre os CCD, os generais da névoa argentina lhes outorgavam codinomes ou apelidos singelos, quase inocentes, que camuflavam sua lúgubre destinação: El Campito, La Perla, Los Plátanos, El Banco, El Chalecito, La Casita de Los Mártires, El Olimpo, El Motel, La Escuelita para Mudos. Como os DOI brasileiros, os CCD argentinos contavam com seus grupos de busca e apreensão, os GT (ou grupos de tarefas), conhecidos como patotas.

Milhares de retratos em branco e preto que jamais foram atualizados | Foto-montagem de Emmanuel Frezzotti / Flickr
A eles cabiam a captura dos subversivos, circulando pelas ruas das cidades nos temidos sedã Ford Falcon azul ou verde, quatro portas, que formavam a frota da repressão. Os presos eram detidos, encapuzados, algemados e levados ao CCD para a tortura, praticada pela mesma patota, durante um ou dois meses. Após este período, os detidos simplesmente desapareciam, sumiam.

Como toda ditadura, a argentina recriava o idioma para ocultar sua maldade. Ninguém era preso, apenas chupado, eufemismo militar para quem era preso. Entre os repressores, os CCD eram conhecidos comochupaderos. Da mesma forma, ninguém morria. Os detidos que eram desaparecidos passavam apenas por um translado. Não importava a forma final utilizada, fosse fuzilamento em massa, fossa comum, incineração de cadáver ou uma tumba com a lápide NN (no nombrado), todos eram apenas transladados.

Pichação num muro de Buenos Aires
Quem tivesse o azar de ser sugado por um chupadero dos CCD dificilmente escaparia do translado. No CCD El Olimpo, num bairro do lado oeste, a 100 metros da agitada avenida Rivadavia que atravessa Buenos Aires, foram chupadoscerca de 700 homens e mulheres. Menos de 50 saíram vivos dali. Na ESMA, a escola de morte da Marinha na capital argentina, passaram mais de 5.000 presos, dos quais sobreviveram pouco mais de cem. O CCDEl Campito foi instalado no coração do maior quartel argentino, o Campo de Mayo, a 30 km do centro de Buenos Aires. Ali sobreviveram apenas 43 dos 5.000 detidos chupados pela repressão. Ele tinha um requinte a mais: o hospital militar utilizado para os partos clandestinos nas prisioneiras. Após o nascimento, o bebê era chupado para famílias dos militares e a mãe, usualmente, era submetida ao translado inapelável. Cerca de 500 bebês, sequestrados de pais desaparecidos, fazem parte desta tétrica estatística argentina.

"Temos que matar e aniquilar a todos os guerrilheiros", ordenou Isabelita
O primeiro CCD do país surgiu, por ironia, na terra natal da transladada Azucena. Em 1975, ainda antes do golpe de Videla, o Exército aproveitou o prédio inacabado de uma escolinha na saída oeste da cidade de Famaillá, a 40 km da capital de Tucumán, San Miguel, para instalar o seu primeiro centro clandestino, que passou à história como La Escuelita. Das oito salas de aula, sete viraram celas e a última, o local de tortura. A menor província do país estava agitada, como foco guerrilheiro escolhido pelo grupo trotskista ‘Exército Revolucionário do Povo’ (ERP) para confrontar o regime da presidente Isabelita Perón, aproveitando a geografia montanhosa da região aos pés dos Andes.

A sanha de Isabelita

Linha duríssima superada
 por Bussi
O governo lançou a ‘Operação Independência’, para reprimir a guerrilha do ERP, sob a chefia do general Acdel Edgardo Vilas, comandante da V Brigada de Infantaria de Montanha, baseada em Tucumán. Linha duríssima, ele confiava mais na bala do que na lei: “É mais fácil passar um camelo pelo buraco da agulha do que condenar um subversivo num tribunal”, avisava Vilas. Pela agulha do CCD de Famaillá passaram, nas contas do general, 1.507 pessoas, mas cálculos mais realistas falam em mais de 2.000 pessoas.

La Escuelita já operava com força quando a presidente da República visitou o Comando Tático de Famaillá, a cinco quadras dali, para insuflar a sanha assassina dos militares: “Temos que matar e aniquilar a todos os guerrilheiros”, ordenou Isabelita, com ímpetochupadero, meses antes dela mesmo ser transladada do poder pelos companheiros de armas de Vilas.

Bussi logo encontrou o
que fazer
Uma investigação posterior de parlamentares apurou que, sob o comando do general, Tucumán assistiu a 123 sequestros de opositores — dos quais 14 foram assassinados e 77 simplesmente desapareceram,transladados. Quando o general Antonio Domingo Bussi chegou para assumir o comando, no final de 1975, lamentou-se com seu antecessor: “Vilas, você não me deixou nada por fazer!…”.

Modéstia de Bussi. Entre 1976 e 77, o general fez três vezes mais do que Vilas: aconteceram 371 desaparecimentos na província — 194 deles supostos militantes Montoneros ou meros simpatizantes. Numa comissão de investigação parlamentar, Osvaldo Humberto Pérez — que foi chupado pelo CCD Arsenales e, ao contrário de Azucena, sobreviveu — contou que ali, no espaço de um ano, foram fuziladas entre 800 e 1.000 pessoas. Em abril de 1976, o lugar ganhou o reforço de 40 soldados enviados desde Campo de Mayo.

Um deles, Omar Eduardo Torres, depondo na década de 1980 perante a Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (CONADEP), presidida pelo escritor Ernesto Sábato, contou como era a vida (e a morte) no CCD Arsenales, subordinado diretamente ao general Bussi.

— Uma vez vi como um preso desnudo era enterrado vivo, só com a cabeça fora do buraco, com a terra em volta molhada para ser compactada com os pés. O preso ficava lá 48 horas. O buraco provocava cãibras dolorosas e infecções na pele. Por duas vezes presenciei fuzilamentos ali, e quem efetuava o primeiro disparo era o general Antonio Bussi. Depois ele fazia com que todos os oficiais de maior hierarquia atirassem também. O local das execuções estava localizado a uns 300, 400 metros da Companhia de Arsenais, montanha acima. Estendiam um cordão de segurança a uma distância de 20 metros e outro a uns 100 metros do local. Os disparos eram feitos com pistolas calibre 9 mm ou 11.25 mm, sempre entre as 23h e 23h30. A cada 15 dias se assassinavam entre 15 a 20 pessoas — relatou o soldado Torres.

A coisa certa

O ex-soldado Domingo Jerez garantiu ao juiz Carlos Jiménez Montilla, em fevereiro de 2010, que testemunhou o general Bussi matar a bordoadas a dois homens em um campo de concentração em Timbó Viejo, localidade ao norte de San Miguel, na rodovia 305. “Vi quando colocaram o cano de um fuzil na vagina de uma mulher grávida”, contou o soldado.

Bussi no tribunal
Bussi trocou La Escuelita pelo CCD Nueva Baviera, um velho engenho de açúcar dotado de heliporto e vários caminhões para transporte de tropas e prisioneiros. Ele descentralizou a tortura e ampliou suas patotas. Atacou com bombas a universidade local, os partidos, os opositores. Advogados, sindicalistas e políticos foram alvo de sequestro, prisão e tortura. Bussi, como se via, ainda tinha muito que fazer. Dono de um par de olhos azuis frios como as rajadas que sopravam dos Andes, Bussi mantinha a cara fechada, casmurra, apropriada para aqueles tempos azedos. Seu braço longo cruzou a longa distância até Buenos Aires para alcançar a montonera Azucena minutos antes de alçar voo para a liberdade.

Alfredo Forti abriu processo contra o general em 2005
O secretário Alfredo Forti, o garoto sequestrado por ordem de Bussi, abriu um processo contra o general em 2005, depois que o Governo Kirchner revogou as anistias do Ponto Final e da Obediência Devida que deixavam impunes os torturadores. Assim, outros 800 processos por sequestro, tortura e morte, antes engavetados, voltaram a assombrar o velho general, que passou a frequentar os tribunais como uma caricatura de seu decrépito poder, envelhecido, enfraquecido por doenças dos pulmões e do coração, com uma sonda de oxigênio sempre enfiada no nariz.

"Não nego, nem afirmo"
Acossado também por denúncias de contas clandestinas no exterior, respondia ao melhor estilo Maluf: “Não nego, nem afirmo”. Em 2003, eleito para a prefeitura de San Miguel, a cidade que ele aterrorizou na ditadura, foi impedido de assumir o cargo, acusado pelo desaparecimento e morte do senador peronista Guillermo Vargas Aignasse.

Foi acusado de crimes de lesa humanidade e pelo desaparecimento de outras 72 pessoas, o que lhe rendeu a prisão perpétua em agosto de 2008. O chefe temido da repressão foi destituído com desonra do Exército. Não conseguiu ver as outras condenações iminentes, porque o coração enfim falhou, em novembro passado, determinando o seu translado irremediável aos 85 anos.

Um único deputado de Tucumán animou-se a pagar o anúncio de falecimento num jornal local, assim mesmo com o estrito cuidado de citar o nome do filho vivo, não do pai morto: “O deputado Alberto Colombres Garmendía participa com dor o falecimento do pai do deputado Ricardo Bussi”.

O secretário de Assuntos Internacionais da Defesa, Alfredo Waldo Forti, não viu o sequestrador de sua mãe apodrecer no cárcere, como imaginava.

O filho de Azucena viu coisa pior: o general Antônio Bussi, como acontece com os criminosos de todas as ditaduras, apodreceu em vida, chupado pela memória de seus abusos, cravado pela lâmina aguda dos tribunais e da Justiça.

Como ensinava Azucena a seus filhos, é a maneira correta de resolver as coisas num país que respeita sua história, sua memória, seu povo.


Extraído do sítio do Sul21

CRISE CAPITALISTA É UMA CRISE CIVILIZATÓRIA, DEFENDEM EDUCADORES NO FST - Vivian Veríssimo

“Um outro mundo é possível. Não estamos satisfeitos. Queremos um outro mundo com mais justiça social e ambiental”, resumiu nesta terça-feira (24) o conferencista Sérgio Haddad para uma platéia que lotava uma das salas da Reitoria da UFRGS, durante o Fórum Mundial de Educação, evento do Fórum Social Temático (FST).

Público lotou sala da Reitoria da UFRGS | Foto: André Carvalho/Sul21
“Essa crise mostra o fim do ciclo do capitalismo e do neoliberalismo que está levando a um retrocesso do processo civilizatório. Não é só uma crise econômica, é também social. Esse é um modelo que não conseguiu dar qualidade de vida para o povo”, falou o educador.

Com o tema Crise Capitalista: Causas, impactos e conseqüências para o mundo da educação, três conferencistas abriram o Fórum Mundial de Educação: o brasileiro Sergio Haddad, um dos coordenadores da Ação Educativa, a peruana Nélida Céspedes, do Conselho de Educação de Adultos da América Latina (CEAAL) e Aminata Diallo Bolu de Burkina Faso da International College of Advanced Education (ICAE).

O objetivo da conferência é fazer uma análise da conjuntura mundial de crise e do papel do mundo da educação para incentivar novos modelos de desenvolvimento. “A intenção é fazer uma reflexão do papel dos educadores frente à crise que se está desenvolvendo e os limites desse modelo que tem se mostrado insuficiente para resolver problemas sociais e ambientais”, explicou Haddad.

“O dilema é como sair dessa crise. Temos que achar luz onde está escuro", diz educador Sérgio Haddad | Foto: André Carvalho / Sul21
O contexto de análise são os recorrentes protestos anti-sistêmicos que vem ocorrendo com o movimento dos Indignados na Espanha, com os levantes da Primavera Árabe, com os acampamentos do Ocuppy Wall Street e com o movimento de estudantes no Chile. Segundo ele, esses movimentos demonstram que o modelo vigente se mostra insuficiente para a maioria dos povos, além de ser insustentável ambientalmente.

“Diversos movimentos brotaram e tratam de temas diretamente vinculados à crise. Os indignados criticam as altas taxas de desemprego e a forma com que a crise está sendo conduzida, a Primavera Árabe pede democracia e outras formas de governança, o Occupy critica a concentração de renda e os estudantes no Chile que fazem uma defesa da escola pública gratuita e de qualidade”.

Na avaliação de Haddad, todas essas convergências de movimentos internacionais não encontram eco nos movimentos populares brasileiros já que os reflexos da crise ainda não chegaram ao Brasil. “Nós educadores, que sabemos da gravidade da crise, sabemos que essa crise em algum momento vai chegar ao Brasil e temos que pensar como minimizar os impactos em relação a isso”, falou o educador.

“O dilema é como sair dessa crise. Temos que achar luz onde está escuro. Sabemos as causas, mas temos dificuldades de prever as alternativas. Esse receituário de cortar gastos, reduzir direitos não nos serve, é esticar o problema pra frente, empurrar com a barriga”, criticou Haddad.

“Uma pedagogia que combina com indignação”

Nélida Cespedes (d) e Aminata Diallo Boly participaram dos debates no Fórum Mundial de Educação | Foto: André Carvalho/Sul21
A educadora popular peruana, Nélida Céspedes, do Conselho de Educação de Adultos da América Latina (CEAAL) também destacou as lutas em nível local, regional e nacional que estão se desenvolvendo contra o sistema capitalista. “O mais perverso do sistema é que ele converte os cidadãos unicamente em consumidores. Isso deve ser combatido. Queremos lutar por uma nova humanidade, que se relacione melhor com os outros e com a natureza”, destacou.

Para colocar em prática uma democracia radical, Nélida acrescentou que o conjunto das lutas devem enfrentar a corrupção, o autoritarismo e violência de todos os tipos. “Nestes momentos de construção de um sistema democrático multicultural, precisamos de uma democracia radical que enfrente esta democracia formal. Estamos diante de uma crise de grande complexidade e ante uma crise de proporção civilizatória”.

Para uma plateia formada por educadores, Nélida também falou na necessidade de romper com esse sistema para construir novas alternativas. “Na realidade esse sistema se baseia numa irracionalidade, uma cultura patriarcal da supremacia do homem sobre a mulher, uma cultura monocultural que não assumiu a diversidade como um valor”.

Nélida reconhece que são muitas as perguntas e que as respostas ainda estão sendo construídas. “Temos que continuar aprofundando as perguntas, por exemplo, que paradigmas sustentam uma outra forma de educação? Os educadores estão construindo em nível local e nacional essas articulações necessárias para a justiça social?”, questionou Nélida, respondendo em seguida: “Parece-me que não, são ações muito parciais e fragmentadas. Os educadores estão trabalhando sem parar e desligados das lutas políticas”, criticou a peruana.

Debates no Fórum Mundial de Educação vão até a quinta-feira | Foto: André Carvalho/Sul21 
“É um momento de afirmação, estamos convencidos que todas as partes do planeta estão construindo pensamentos alternativos, com uma educação libertadora e popular. Não podemos suportar que existam grandes supressões de direitos. Não há mudança sem um contexto político de grande participação, uma pedagogia que combina com indignação, rompendo com esta educação eurocêntrica”, finalizou a peruana.

“Vivemos um novo momento na resistência global contra o capitalismo”

A educadora Aminata Diallo Boly ressaltou que se vive um período de lutas de longo prazo e que a educação tem papel central nesta nova conjuntura. “Vivemos num mundo feroz. A elite capitalista que está na linha de frente é incapaz de reagir às questões sociais que surgiram ao mesmo tempo e com graves conseqüências no norte, sul, leste e oeste”, falou Aminata que é de Burkina Fasso.

Ela analisa que a crise econômica provocou a quebra de vários contratos sociais com diferentes públicos, inclusive sindicatos e educadores. “Esses contratos sociais foram fragmentados e tudo isso resultou na busca de acúmulo financeiro por uma elite financeira, capitalistas que deixaram para trás quaisquer valores para o bem estar da população”.

Para romper com esse paradigma, Aminata destacou como fundamentais as lutas das mulheres feministas que questionam a relação patriarcal, além dos movimentos dos povos indígenas que estão na frente da luta em prol dos recursos naturais, do desenvolvimento sustentável. “Temos que aprender com a história. Os capitalistas não têm compromisso com princípios, apenas com a produção mais rápida, maior lucro, no menor tempo possível”, lembrou a educadora.

“Vivemos um novo momento na resistência global contra o capitalismo. Os educadores tem que corporificar o espírito dessa resistência para que avancem as lutas contra grandes países e ao lobby. Não vamos deixar o poder na mão do restante dos 99%.”

Extraído do sítio Sul21

O PROTESTO DOS GIGANTES - Mauro Malin

A midiática manobra de gigantes da internet como Google, Facebook, Wikipedia e Twitter contra legislação antipirataria que tramita no Congresso dos Estados Unidos foi objeto de artigo crítico de Álvaro Pereira Júnior na Folha de S. Paulo (“Nova mídia X velha mídia”, 21/1/2012).

Pereira Júnior escreveu:

“Os ‘revolucionários’ Google, Facebook, Yahoo etc. também são conglomerados bilionários, como são/foram os estúdios de Hollywood e gravadoras. Têm as mesmas aspirações monopolistas, são igualmente obcecados pelo lucro (e esta não é uma crítica, é só uma constatação).


“Já são um novo establishment, que pressiona com sucesso a Casa Branca e faz com que políticos, em um passe de mágica, mudem de opinião e posem de defensores da liberdade de expressão.

“(...) A pose adolescente das corporações do mundo on-line vive seus últimos dias. Quem manda agora são elas, e seria honesto assumirem isso”.

O argumento é inteligente, porque, sem entrar no mérito da disputa, expõe a cara de pau dos vencedores (temporários) da competição na galáxia pós-Gutenberg.

Outro ângulo, porém, também pode e deve ser explorado no debate. Usar conteúdo alheio sem pedir licença não é ético, não é honesto, não é legal, nem legítimo. Será que determinado número de usuários – por multimilionário, quase bilionário que seja esse número – adquiriu o direito de revogar a legislação vigente passando por cima das instituições?

A telemática e a digitalização introduziram mudanças irreversíveis em todo o processo da comunicação. Criaram a falsa expectativa de um acesso igualitário ao conhecimento e à cultura. Mas não alteraram os pressupostos da propriedade corporativa. Como escreveu Bernardo Carvalho (“Em defesa da obra“),

“Nenhuma empresa abrirá mão de suas patentes científicas ou industriais em nome da visibilidade, do bem comum ou do direito à informação. A começar pelas próprias corporações de mídia eletrônica – elas estão interessadas, isto sim, na adoção de um modelo flexível de licenciamento e difusão de conteúdo.

“O Google, por exemplo, não pretende tornar disponível a usuários e competidores o saber por trás de seus serviços – e não é por acaso que mantém sigilo desse saber, a ponto de nenhuma informação sobre a empresa aparecer no próprio Google, que em princípio deveria ter acesso a tudo”.

Estão expostos os traços de uma dessas situações em que o engodo tem sido aceito pela mídia, na sua cobertura de falsas rebeliões libertárias, devido à inércia, ou à desatenção. “A sorte ajuda os audazes”, sentenciou Virgílio com muita propriedade.

Crime ou luta contra a opressão?

Se piratear é crime, como ficamos: propomos a mudança da lei, para que deixe de ser crime, ou aceitamos o crime como legítimo recurso da luta contra a opressão? Mas qual opressão? No Brasil a opressão não está exatamente no campo jurídico-institucional, embora também esteja aí, mas principalmente na realidade dos Brasis tão desiguais. Ninguém que tenha juízo está propondo convocar uma Constituinte para mudar o artigo 5º da Carta de 1988.

Sempre existe descompasso entre mudança tecnológica e legislação, mas a cada momento é preciso avaliar o que fere o espírito, a finalidade da lei, da lei em vigor, na sua dimensão social e de proteção de direitos. Por mais que a tecnologia evolua, sempre é possível fazer uma exegese que permita avaliar determinada(s) prática(s) à luz de categorias básicas do direito. E incumbir a Justiça de se manifestar.

Esse desafio se coloca diante de cada geração, e mais ainda numa era em que não apenas as práticas, mas os sistemas de referência para muitas práticas parecem mudar o tempo todo.

O preço de disputar na ponta

Algo que ainda não se percebeu devidamente é que para estar na ponta da utilização das novas tecnologias é preciso dispor de um capital colossal. As empresas jornalísticas mal tinham conseguido digerir o desafio de construir edições digitais em portais convencionais – e digeriram mal, diga-se de passagem – quando se viram diante da incontornável necessidade de produzir edições destinadas a smartphones e tabletes.

Para que as novas mídias disputem em usabilidade e comodidade com o jornal impresso, e mais ainda com a televisão, as empresas produtoras de conteúdo jornalístico independente terão que comprar softwares caríssimos, ou criar seus próprios laboratórios, o que pode ser mais oneroso ainda.

Talvez em algum momento isso compense a desativação das rotativas e das frotas de distribuição, entre outras economias financeiras e ecológicas previstas. O New York Times, que tem seu próprio laboratório de inovações, parece obter resultados positivos com a política de cobrança por conteúdo online.

Mas os desenvolvimentos tecnológicos pesados requerem não só um ponto de partida conquistado anteriormente (a Universidade Stanford foi o berço do Vale do Silício). Requerem mais concentração de pessoas altamente qualificadas e maior uso do tempo delas – leia-se mais dinheiro. Não dá para entender como isso possa reduzir desigualdades.

Extraído do sítio do Observatório da Imprensa

CRISE CAPITALISTA É TEMA DO FÓRUM SOCIAL TEMÁTICO QUE COMEÇA EM PORTO ALEGRE

Evento ligado ao Fórum Social Mundial é o primeiro de uma série que acontecerá em 2012. A presidente Dilma Rousseff participará do Fórum, que tem como foco a crise no capitalismo e a justiça social e ambiental.

Capital gaúcha sedia debates
A mobilização por "outro mundo possível" é retomada nessa terça-feira (24/01), com a abertura em Porto Alegre do Fórum Social Temático (FST). O evento é ligado ao Fórum Social Mundial, que surgiu na capital gaúcha em 2001 como antítese do Fórum Mundial Econômico, que reúne a cada ano políticos e empresários na cidade suíça de Davos.

Organizado por movimentos sociais e organizações da sociedade civil, o FST, que prossegue até o próximo domingo, tem como tema a crise do capitalismo e justiça social e ambiental. Além da capital gaúcha, os debates se realizam em Canoas, São Leopoldo e Novo Hamburgo.

O FST tem como intuito ser uma prévia da Cúpula dos Povos, encontro de movimentos sociais que acontecerá paralelamente à Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, Rio+20, marcada para junho.

"Nossa preocupação é que a chamada economia verde (proposta central do Rio+20) seja apenas um novo rótulo para o mesmo modelo de desenvolvimento. Para nós, debater a Rio+20 é debater a crise capitalista", declarou Mauri Cruz, do comitê organizador do FST.

O foco será tentar influenciar os resultados da conferência Rio+20, apresentando propostas alternativas às questões levantadas pelos governos.

Pelo mundo

FST de Porto Alegre é ligado do Fórum Social Mundial
Desde 2010, as atividades do Fórum Social Mundial acontecem de forma centralizada nos anos ímpares e descentralizada nos anos pares.

Segundo Mauri Cruz, no ano de 2012 acontecerão atividades em todos os continentes e a expectativa é que a edição centralizada de 2013 seja em um país europeu. "A Europa sempre teve um papel ativo no Fórum Social Mundial, mas nunca sediou um evento", completou.

Além do FST, mais de 25 eventos devem acontecer ainda nesse ano em países como Canadá, Espanha e Tunísia. Cada um dos encontros terá um eixo temático particular, no caso de Porto Alegre é a defesa do meio ambiente, tema tradicional do fórum desde sua origem.

Presença política

Apesar do caráter não governamental e não partidário dos eventos ligados ao FST, a reunião atrairá diversos políticos. Além do governo estadual do Rio Grande do Sul, o governo federal terá uma participação ativa.

A presidente Dilma Rousseff participará nesta quinta-feira da discussão "Diálogo entre a Sociedade Civil e Governos", ao lado do presidente do Uruguai, José Mujica.

Dilma Rousseff participa do FST em Porto Alegre
Dilma segue os passos de seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, que participou de todas as edições do Fórum Social. Além da presidente, pelos menos sete ministros estão confirmados em eventos do FST. 

Entre os convidados também estão o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, o jornalista e escritor espanhol Ignacio Ramonet e ativistas que fizeram parte de movimentos como a Primavera Árabe, Occupy Wall Street e grandes manifestações que ocorreram nos últimos meses no Chile e na Espanha.

O FST começa na tarde desta terça-feira com a tradicional marcha pelas ruas de Porto Alegre. A abertura também contará com a presença do brasileiro José Graziano da Silva, novo responsável pela FAO, agência da ONU para alimentação.

A programação do FST inclui debates, oficinas, exposições e eventos culturais. As atividades são em sua maioria organizadas por movimentos sociais, centrais sindicais e ONGs.

São esperadas 30 mil pessoas até o final do FST, no próximo domingo (29/01).

Extraído do sítio da Deutsche Welle

MUNDO TEM 27 MILHÕES DE DESEMPREGADOS A MAIS DO QUE ANTES DA CRISE, DIZ OIT

O mundo tem hoje 27 milhões de trabalhadores desempregados a mais do que em 2007, quando começou a crise econômica global, segundo dados divulgados nesta terça-feira pela Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Países terão de gerar 600 milhões de vagas em dez anos, segundo a OIT
Um relatório da entidade afirma que o mundo enfrenta hoje um "desafio urgente" de criação de empregos. A OIT estima que será necessário gerar 600 milhões empregos ao longo da próxima década, para manter níveis de crescimento sustentável e coesão social.

"Depois de três anos de crise contínua em mercados mundiais de trabalho e diante das perspectivas de deterioração da atividade econômica, há um estoque de desemprego mundial de 200 milhões", afirma o documento Tendência Globais de Emprego 2012.

Entre 2007 e 2010, a proporção de pessoas empregadas no mundo, em comparação com a população total, teve a maior queda registrada nas estatísticas: de 61,2% para 60,2%.

Pobreza

A entidade estima que, ao longo da próxima década, 40 milhões de pessoas entrarão no mercado de trabalho a cada ano. Seria, portanto, necessário gerar 400 milhões de empregos novos para absorver essa massa de trabalhadores, e mais 200 milhões para lidar com o atual estoque de desempregados.

A OIT afirma que não basta apenas gerar vagas para os desempregados. É preciso também criar vagas mais dignas para pessoas que já são consideradas hoje empregadas.

O relatório indica que 900 milhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza, com renda familiar até US$ 2 por dia, a maioria delas nos países em desenvolvimento.

"Apesar de grandes esforços dos governos, a crise de empregos continua inalterada, com um em cada três trabalhadores no mundo – ou cerca de 1,1 bilhão de pessoas – ou desempregada ou vivendo na pobreza", diz o diretor-geral da OIT, o chileno Juan Somavia.

"O que se precisa fazer é transformar a geração de empregos na economia real na nossa prioridade número um."

A OIT afirma que a recuperação do mercado de trabalho mundial, esboçada em 2009, foi curta, e o mundo já voltou a um cenário negativo.

Os mais afetados são os jovens, de acordo com o relatório. Pessoas com idades entre 15 e 24 anos têm três vezes mais chances de estarem desempregadas do que pessoas da população adulta, com 25 anos ou mais.

Extraído do sítio da BBC Brasil

12 MITOS DO CAPITALISMO - Guilherme Alves Coelho

São muitos e variados os tipos e meios de manipulação em que a ideologia burguesa se foi alicerçando ao longo do tempo. Um dos tipos mais importantes são os mitos. Trata-se de um conjunto de falsas verdades, mera propaganda que, repetidas à exaustão, acriticamente, ao longo de gerações, se tornam verdades insofismáveis aos olhos de muitos. 


Um comentário amargo, e frequente após os períodos eleitorais, é o de que "cada povo tem o governo que merece". Trata-se de uma crítica errônea, que pode levar ao conformismo e à inércia e castiga os menos culpados. Não existem maus povos. Existem povos iletrados, mal informados, enganados, manipulados, iludidos por máquinas de propaganda que os atemorizam e lhes condicionam o pensamento. Todos os povos merecem sempre governos melhores.

A mentira e a manipulação são hoje armas de opressão e destruição maciça, tão eficazes e importantes como as armas de guerra tradicionais. Em muitas ocasiões são complementares destas. Tanto servem para ganhar eleições como para invadir e destruir países insubmissos. 

São muitos e variados os tipos e meios de manipulação em que a ideologia capitalista se foi alicerçando ao longo do tempo. Um dos tipos mais importantes são os mitos. Trata-se de um conjunto de falsas verdades, mera propaganda que, repetidas à exaustão, acriticamente, ao longo de gerações, se tornam verdades insofismáveis aos olhos de muitos. Foram criadas para apresentar o capitalismo de forma credível perante as massas e obter o seu apoio ou passividade. Os seus veículos mais importantes são a informação mediática, a educação escolar, as tradições familiares, a doutrina das igrejas, etc. (*)

Apresentam-se neste texto, sucintamente, alguns dos mitos mais comuns da mitologia capitalista.

1- NO CAPITALISMO QUALQUER PESSOA PODE ENRIQUECER À CUSTA DO SEU TRABALHO.

Pretende-se fazer crer que o regime capitalista conduz automaticamente qualquer pessoa a ser rica desde que se esforce muito. 

O objetivo oculto é obter o apoio acrítico dos trabalhadores no sistema e a sua submissão, na esperança ilusória e culpabilizante em caso de fracasso, de um dia virem a ser também, patrões de sucesso.

Na verdade, a probabilidade de sucesso no sistema capitalista para o cidadão comum é igual à de lhe sair a lotaria. O "sucesso capitalista" é, com raras excepções, fruto da manipulação e falta de escrúpulos dos que dispõem de mais poder e influência. As fortunas em geral derivam diretamente de formas fraudulentas de atuação. 

Este mito de que o sucesso é fruto de uma mistura de trabalho afincado, alguma sorte, uma boa dose de fé e depende apenas da capacidade empreendedora e competitiva de cada um, é um dos mitos que têm levado mais gente a acreditar no sistema e a apoiá-lo. Mas também, após as tentativas falhadas, a resignarem-se pelo aparente falhanço pessoal e a esconderem a sua credulidade na indiferença. Trata-se dos tão apregoados empreendedorismo e competitividade.

2- O CAPITALISMO GERA RIQUEZA E BEM-ESTAR PARA TODOS

Pretende-se fazer crer que a fórmula capitalista de acumulação de riqueza por uma minoria dará lugar, mais tarde ou mais cedo, à redistribuição da mesma. 

O objectivo é permitir que os patrões acumulem indefinidamente sem serem questionados sobre a forma como o fizeram, nomeadamente sobre a exploração dos trabalhadores. Ao mesmo tempo mantêm nestes a esperança de mais tarde serem recompensados pelo seu esforço e dedicação. 

Na verdade, já Marx tinha concluído nos seus estudos que o objectivo final do capitalismo não é a distribuição da riqueza, mas a sua acumulação e concentração. O agravamento das diferenças entre ricos e pobres nas últimas décadas, nomeadamente após o neoliberalismo, provou isso claramente. 

Este mito foi um dos mais difundidos durante a fase de "bem-estar social" pós-guerra, para superar os estados socialistas. Com a queda do émulo soviético, o capitalismo deixou também cair a máscara e perdeu credibilidade.

3- ESTAMOS TODOS NO MESMO BARCO.

Pretende-se fazer crer que não há classes na sociedade, pelo que as responsabilidades pelos fracassos e crises são igualmente atribuídas a todos e, portanto pagas por todos.

O objetivo é criar um complexo de culpa junto dos trabalhadores que permita aos capitalistas arrecadar os lucros enquanto distribuem as despesas por todo o povo.

Na verdade, o pequeno número de multimilionários, porque detém o poder, é sempre autobeneficiado em relação à imensa maioria do povo, quer em impostos, quer em tráfico de influências, quer na especulação financeira, quer em off-shores, quer na corrupção e nepotismo etc. Esse núcleo, que constitui a classe dominante, pretende assim escamotear que é o único e exclusivo responsável pela situação de penúria dos povos e que deve pagar por isso. 

Este é um dos mitos mais ideológicos do capitalismo ao negar a existência de classes.

4- LIBERDADE É IGUAL A CAPITALISMO.

Pretende-se fazer crer que a verdadeira liberdade só se atinge com o capitalismo, através da chamada autorregulação proporcionada pelo mercado. 

O objetivo é tornar o capitalismo uma espécie de religião em que tudo se organiza em seu redor e assim afastar os povos das grandes decisões macro-económicas, indiscutíveis. A liberdade de negociar sem peias seria o máximo da liberdade.

Na verdade, sabe-se que as estratégias político-económicas, muitas delas planeadas com grande antecipação, são quase sempre tomadas por um pequeno número de pessoas poderosas, à revelia dos povos e dos poderes instituídos, a quem ditam as suas orientações. Nessas reuniões, em cimeiras restritas e mesmo secretas, são definidas as grandes decisões financeiras e económicas conjunturais ou estratégicas de longo prazo. Todas, ou quase todas essas resoluções, são fruto de negociações e acordos mais ou menos secretos entre os maiores empresas e multinacionais mundiais. O mercado é, pois, manipulado e não autorregulado. A liberdade plena no capitalismo existe de facto, mas apenas para os ricos e poderosos.

Este mito tem sido utilizado pelos dirigentes capitalistas para justificar, por exemplo, intervenções em outros países não submissos ao capitalismo, argumentando não haver neles liberdade, porque há regras. 

5- CAPITALISMO IGUAL A DEMOCRACIA.

Pretende-se fazer crer que apenas no capitalismo há democracia. 

O objetivo deste mito, que é complementar do anterior, é impedir a discussão de outros modelos de sociedade, afirmando não haver alternativas a esse modelo e todos os outros serem ditaduras. Trata-se mais uma vez da apropriação pelo capitalismo, falseando-lhes o sentido, de conceitos caros aos povos, tais como liberdade e democracia.

Na realidade, estando a sociedade dividida em classes, a classe mais rica, embora seja ultraminoritária, domina sobre todas as outras. Trata-se da negação da democracia que, por definição, é o governo do povo, logo da maioria. Esta "democracia" não passa, pois de uma ditadura disfarçada. As "reformas democráticas" não são mais que retrocessos, reacções ao progresso. Daí deriva o termo reaccionário, o que anda para trás.

Tal como o anterior, este mito também serve de pretexto para criticar e atacar os regimes de países não-capitalistas. 

6- ELEIÇÕES IGUAL A DEMOCRACIA.

Pretende-se fazer crer que o acto eleitoral é o sinônimo da democracia e esta se esgota nele.

O objetivo é denegrir ou diabolizar e impedir a discussão de outros sistemas político-eleitorais em que os dirigentes são estabelecidos por formas diversas das eleições burguesas, como por exemplo, pela idade, experiência, aceitação popular etc. 

Na verdade, é no sistema capitalista, que tudo manipula e corrompe, que o voto é condicionado e as eleições são actos meramente formais. O simples facto da classe burguesa minoritária vencer sempre as eleições demonstra o seu carácter não-representativo. 

O mito de que, onde há eleições há democracia, é um dos mais enraizados, mesmo em algumas forças de esquerda.

7- PARTIDOS ALTERNANTES IGUAL A ALTERNATIVOS.

Pretende-se fazer crer que os partidos burgueses que se alternam periodicamente no poder têm políticas alternativas. 

O objetivo deste mito é perpetuar o sistema dentro dos limites da classe dominante, alimentando o mito de que a democracia está reduzida ao ato eleitoral.

Na verdade, este aparente sistema pluri ou bipartidário é um sistema monopartidário. Duas ou mais facções da mesma organização política, partilhando políticas capitalistas idênticas e complementares, alternam-se no poder, simulando partidos independentes, com políticas alternativas. O que é dado escolher aos povos não é o sistema que é sempre o capitalismo, mas apenas os agentes partidários que estão de turno como seus guardiões e continuadores. 

O mito de que os partidos burgueses têm políticas independentes da classe dominante, chegando até a ser opostas, é um dos mais propagandeados e importantes para manter o sistema a funcionar.

8- O ELEITO REPRESENTA O POVO E POR ISSO PODE DECIDIR TUDO POR ELE.

Pretende-se fazer crer que o político, uma vez eleito, adquire plenos poderes e pode governar como quiser.

O objetivo deste mito é iludir o povo com promessas vãs e escamotear as verdadeiras medidas que serão levadas à prática.

Na verdade, uma vez no poder, o eleito autoassume novos poderes. Não cumpre o que prometeu e, o que é ainda mais grave, põe em prática medidas não enunciadas antes, muitas vezes em sentido oposto e até inconstitucionais. Frequentemente, são eleitos por minorias de votantes. A meio dos mandatos já atingiram índices de popularidade mínimos. Nestes casos de ausência ou perda progressiva de representatividade, o sistema não contempla quaisquer formas constitucionais de destituição. Esta perda de representatividade é uma das razões que impede as "democracias" capitalistas de serem verdadeiras democracias, tornando-se ditaduras disfarçadas. 

A prática sistemática deste processo de falsificação da democracia tornou este mito um dos mais desacreditados, sendo uma das causas principais da crescente abstenção eleitoral.

9- NÃO HÁ ALTERNATIVAS À POLÍTICA CAPITALISTA.

Pretende-se fazer crer que o capitalismo, embora não sendo perfeito, é o único regime político-econômico possível e, portanto, o mais adequado.

O objetivo é impedir que outros sistemas sejam conhecidos e comparados, usando todos os meios, incluindo a força, para afastar a competição.

Na realidade, existem outros sistemas político-económicos, sendo o mais conhecido o socialismo cientifico. Mesmo dentro do capitalismo, há modalidades que vão desde o actual neoliberalismo aos reformistas do "socialismo democrático" ou socialdemocrata. 

Este mito faz parte da tentativa de intimidação dos povos de impedir a discussão de alternativas ao capitalismo, a que se convencionou chamar o pensamento único.

10- A AUSTERIDADE GERA RIQUEZA

Pretende-se fazer crer que a culpa das crises económicas é originada pelo excesso de regalias dos trabalhadores. Se estas forem retiradas, o Estado poupa e o país enriquece. 

O objetivo é fundamentalmente transferir para o sector público, para o povo em geral e para os trabalhadores, a responsabilidade do pagamento das dividas dos capitalistas. Fazer o povo aceitar a pilhagem dos seus bens na crença de que dias melhores virão mais tarde. Destina-se também a facilitar a privatização dos bens públicos, "emagrecendo" o Estado, logo "poupando", sem referir que esses sectores eram os mais rentáveis do Estado, cujos lucros futuros se perdem desta forma.

Na verdade, constata-se que estas políticas conduzem, ano após ano, a um empobrecimento das receitas do Estado e a uma diminuição das regalias, direitos e do nível de vida dos povos, que antes estavam assegurados por elas.

11- MENOS ESTADO, MELHOR ESTADO.

Pretende-se fazer crer que o sector privado administra melhor o Estado que o sector público.

O objetivo dos capitalistas é "dourar a pílula" para facilitar a apropriação do património, das funções e dos bens rentáveis dos estados. É complementar do anterior.

Na verdade o que acontece em geral é o contrário: os serviços públicos privatizados não só se tornam piores, como as tributações e as prestações são agravadas. O balanço dos resultados dos serviços prestados após passarem a privados é quase sempre pior que o anterior. Na óptica capitalista, a prestação de serviços públicos não passa de mera oportunidade de negócio. Este mito é um dos mais "ideológicos" do capitalismo neoliberal. Nele está subjacente a filosofia de que quem deve governar são os privados e o Estado apenas dá apoio. 

12- A ATUAL CRISE É PASSAGEIRA E SERÁ RESOLVIDA PARA O BEM DOS POVOS.

Pretende-se fazer crer que a atual crise económico-financeira é mais uma crise cíclica habitual do capitalismo e não uma crise sistêmica ou final.

O objetivo dos capitalistas, com destaque para os financeiros, é continuarem a pilhagem dos Estados e a exploração dos povos enquanto puderem. Tem servido ainda para alguns políticos se manterem no poder, alimentando a esperança junto dos povos de que melhores dias virão se continuarem a votar neles.

Na verdade, tal como previu Marx, do que se trata é da crise final do sistema capitalista, com o crescente aumento da contradição entre o carácter social da produção e o lucro privado até se tornar insolúvel.

Alguns, entre os quais os "socialistas" e sociais-democratas, que afirmam poder manter o capitalismo, embora de forma mitigada, afirmam que a crise deriva apenas de erros dos políticos, da ganância dos banqueiros e especuladores ou da falta de ideias dos dirigentes ou mecanismos que ainda falta resolver. No entanto, aquilo a que assistimos é ao agravamento permanente do nível de vida dos povos sem que esteja à vista qualquer esperança de melhoria. Dentro do sistema capitalista já nada mais há a esperar de bom.

NOTA FINAL: 

O capitalismo há de acabar, mas só por si tal decorrerá muito lentamente e com imensos sacrifícios dos povos. Terá que ser empurrado. Devem ser combatidas as ilusões, quer daqueles que julgam o capitalismo reformável, quer daqueles que acham que quanto pior melhor, para o capitalismo cair de podre. O capitalismo tudo fará para vender cara a derrota. Por isso, quanto mais rápido os povos se libertarem desse sistema injusto e cruel, mais sacrifícios inúteis se poderão evitar. 

Hoje, mais do que nunca, é necessário criar barreiras ao assalto final da barbárie capitalista, e inverter a situação, quer apresentando claramente outras soluções políticas, quer combatendo o obscurantismo pelo esclarecimento, quer mobilizando e organizando os povos. 

(*) Os mitos criados pelas religiões cristãs têm muito peso no pensamento único capitalista e são avidamente apropriados por ele para facilitar a aceitação do sistema pelos mais crédulos.

Exemplos: "A pobreza é uma situação passageira da vida terrena." "Sempre houve ricos e pobres." "O rico será castigado no juízo final." "Deve-se aguentar o sofrimento sem revolta para mais tarde ser recompensado." 


Extraído do sítio do Pravda