28 maio 2012

PELO LIVRE ACESSO AOS ARQUIVOS DE TELEJORNAIS - Antonio Brasil*


Nas últimas semanas, a sociedade brasileira tem discutido a importância de abrir os arquivos da ditadura para conhecermos a “verdade”. É uma ótima iniciativa que já chega tarde. Tenho dúvidas se algum dia teremos acesso a essa tal “verdade”, mas revelar os segredos contidos nesses arquivos será certamente útil para conhecer um pouco mais da nossa história recente. Para revelar quem nós somos.

E já que estamos discutindo o acesso aos arquivos do governo sobre a ditadura, convém relembrar a necessidade de libertarmos os arquivos de telejornais. Eles ainda continuam reféns de alguns poucos gatekeepers – ou “paladinos da verdade” – que controlam os centros de documentação de nossas emissoras de televisão.

Ninguém pesquisa telejornais brasileiros do passado e do presente sem o aval desses poderosos “controladores” de arquivos. Perdemos muito do conteúdo do passado em incêndios e reutilização de fitas gravadas. O que foi perdido não tem mais como recuperar. Mas ainda há milhares de horas de telejornais gravados em centros de documentação de nossas emissoras e precisamos garantir o acesso livre para os pesquisadores da história do futuro.

E por que você deve se importar com isso? Porque os telejornais ainda são a principal e, muitas vezes, a única fonte de informações para a maioria dos brasileiros. Esses noticiários também são documentos fundamentais para pesquisarmos nosso passado. E quem não aprende com o passado comete os mesmos erros no presente e no futuro. Telejornal é fonte primária para os estudos históricos.

Questões ideológicas

Afinal, por que podemos ler todos os jornais brasileiros de qualquer época em nossas bibliotecas públicas e não podemos assistir aos telejornais brasileiros? Nossos noticiários, enquanto memória histórica fundamental para compreensão do nosso passado e presente, ainda não foram libertados do controle dos arquivos das emissoras brasileiras.

O acesso livre à nossa memória televisiva é questão fundamental e estratégica para a preservação da história e da democracia no Brasil. Mas como garantir ao público um acesso livre e irrestrito aos conteúdos dos telejornais brasileiros? Como o pesquisador deve proceder para saber o que aconteceu na televisão brasileira nos últimos anos?

As novas tecnologias podem nos auxiliar a remediar essa situação de descaso e injustiça. Com a evolução dos recursos audiovisuais, o aumento da capacidade de armazenamento digitalizado e sobretudo com a facilidade de transmissão via internet, é possível propor o acesso público eficiente e de baixo custo aos arquivos de telejornalismo. Os conteúdos dos telejornais devem ser acessíveis, da mesma maneira que a informação textual – livros, jornais e revistas – está disponível em bibliotecas.

Alguns centros de documentação em nossas emissoras de TV fazem um trabalho excelente de preservação de acervos audiovisuais preciosos. Apesar da falta de reconhecimento, das limitações financeiras e tecnológicas, os profissionais da documentação fazem um trabalho heroico na preservação e recuperação desses documentos.

O problema é que esses arquivos não são públicos. A sociedade e o governo brasileiros ainda não garantem um direito de qualquer cidadão: o acesso livre e democrático aos acervos jornalísticos das televisões brasileiras para qualquer tipo de pesquisa, independentemente de questões ideológicas, econômicas ou de interesses empresariais. Não deveria haver a necessidade de “autorizações especiais” para o acesso aos arquivos do jornalismo televisivo.

Arquivos e mentiras

Nossa proposta é indicar alternativas, como a utilização de redes digitais e o incentivo para que instituições públicas independentes – como as universidades – venham a garantir o livre acesso aos arquivos de telejornais brasileiros.

E assim como é urgente revelar os segredos da ditadura, não podemos adiar a libertação dos telejornais. Para isso já contamos com tecnologias digitais para o armazenamento livre e gratuito de vídeos em redes telemáticas como o YouTube ou o I Cloud. A Biblioteca Nacional, com o apoio do governo, poderia patrocinar um “YouTube brasileiro” para o armazenamento e difusão dos nossos telejornais.

Arquivos preservam documentos e garantem acesso à nossa história. Mas quando não estão disponíveis para todos de forma democrática podem ser perigosos. Não se pode “reconstruir” ou “manipular” o passado pelo acesso restrito aos arquivos, principalmente de telejornais. Precisamos evitar que haja distorções do passado e mudanças no presente com pesquisas “filtradas” e direcionadas. Somente alguns poucos pesquisadores brasileiros conseguem o acesso aos arquivos das televisões brasileiras. Eles precisam garantir aos paladinos da verdade que não revelarão nossos segredos.

Afinal, com o acesso livre aos arquivos de telejornais brasileiros, podemos não encontrar a tal “verdade”, mas certamente evitaremos a divulgação de mentiras.

*Antonio Brasil é jornalista e professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Extraído do sítio Portal Vermelho

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