29 outubro 2011

FREI BETTO: DO CAPITAL AO SOCIAL



O economista Raul Velloso, especialista em contas públicas, calcula que, em 2010, através de programas sociais, o governo federal repassou a 31,8 milhões de brasileiros – a maioria, pobres – R$ 114 bilhões. Ao incluir programas de transferência de renda de menor escala, o montante chega a R$ 116 bilhões.


Este valor é mais que o dobro de todo o investimento feito pelo governo no mesmo ano – R$ 44,6 bilhões, incluindo construção de estradas e obras de infraestrutura.

Os R$ 116 bilhões foram destinados à rede de proteção social, que abarca aposentadoria rural, seguro-desemprego, Bolsa Família, abono salarial, Renda Mensal Vitalícia (RMV) e Benefício de Prestação Continuada (BPC). Esses programas abocanharam 3,1% do PIB.

A RMV, criada em 1974, era um benefício previdenciário destinado a maiores de 70 anos ou inválidos, definitivamente incapacitados para o trabalho, que não exerciam atividades remuneradas, nem obtinham rendimento superior a 60% do valor do salário mínimo. Também não poderiam ser mantidos por pessoas de quem dependiam, nem dispunham de outro meio de prover o próprio sustento.

Em janeiro de 1996, a RMV foi extinta ao entrar em vigor a concessão do BPC. Hoje, a RMV é mantida apenas para quem já era beneficiário até 96. Já o BPC é pago a idosos e portadores de deficiências comprovadamente desprovidos de recursos mínimos.

Há quem opine que o governo federal “gasta” demais com programas sociais, prejudicando o investimento. Ora, como afirma Lula, quando o governo canaliza recursos para empresas e bancos, isso é considerado “investimento”; quando destina aos pobres, é “gasto”…

O Brasil, por muitas décadas, foi considerado campeão mundial de desigualdade social. Hoje, graças à rede de proteção social, o desenho da pirâmide (ricos na ponta estreita e pobres na ampla base) deu lugar ao losango (cintura proeminente graças à redução do número de ricos e miseráveis, e aumento da classe média).

Segundo o Ipea, entre 2003 e 2009, 28 milhões de brasileiros deixaram a miséria. Resultado do aumento anual do salário mínimo e da redução do desemprego, somados ao Bolsa Família, às aposentadorias e ao BPC.

A lógica capitalista considera investimento o que multiplica o lucro da iniciativa privada, e não o que qualifica o capital humano. Essa lógica gera, em nosso mercado de trabalho, a disparidade entre oferta de empregos e mão de obra qualificada. Devido à baixa qualidade de nossa educação, hoje o Brasil importa profissionais para funções especializadas.

Se o nosso país resiste à crise financeira que, desde 2008, penaliza o hemisfério Norte, isso se deve ao fato de haver mais dinheiro em circulação. Aqueceu-se o mercado interno.

Há queixa de que os nossos aeroportos estão superlotados, com filas intermináveis. É verdade. Se o queixoso mudasse o foco, reconheceria que nossa população dispõe, hoje, de mais recursos para utilizar transporte aéreo, o que até pouco tempo era privilégio da elite.

Há, contudo, 16,2 milhões de brasileiros ainda na miséria. O que representa enorme desafio para o governo Dilma. Minha esperança é que o programa “Brasil sem miséria” venha resgatar propostas do Fome Zero abandonadas com o advento do Bolsa Família, como a reforma agrária.

Não basta promover distribuição de renda e facilitar o consumo dos mais pobres. É preciso erradicar as causas da pobreza, e isso significa mexer nas estruturas arcaicas que ainda perduram em nosso país, como a fundiária, a política, a tributária, e o sistema de educação e saúde.

* Frei Betto é escritor, autor de “Sinfonia Universal – a cosmovisão de Teilhard de Chardin” (Vozes), entre outros livros.

Extraído do sítio do Portal Vermelho

28 outubro 2011

A PAUTA QUE NÃO QUER CALAR - Luciano Martins Costa



A roda da História está se movendo e a imprensa tradicional parece não se dar conta. Já passa de um milhar de cidades em quase uma centena de países o total de concentrações de cidadãos indignados que produzem o movimento de movimentos cuja denominação a nomenclatura conservadora dos fatos sociais ainda não conseguiu definir.

Há muito mais a ser dito para descrever o contexto em que se produz essa manifestação planetária e mesmo nos meios digitais fica difícil elaborar um quadro do seu significado. Mas eventualmente a complexidade dos fatos exige apenas que o observador abandone certos pressupostos condicionados pela leitura linear de notícias e tente enxergar o novo.

Coloquemos, por exemplo, o fato de que os indignados pertencem, na maioria, à chamada “geração Y” – cujos valores e visão de mundo se colocam em total contraposição aos dos yuppies, que a partir do final dos anos 1980 se apossaram da liderança dos grandes negócios e da condução dos humores do mercado.

Pergunta essencial

Os indignados são essencialmente diferentes da chamada “geração X”, na qual são classificados os predadores de Wall Street, que gozaram a infância no final dos “30 anos gloriosos” e, quando jovens adultos, entenderam que precisavam cuidar pessoal e egoisticamente de seus interesses. Mas também são nascidos na “geração X” os criadores do movimento punk, originalmente uma reação às dificuldades surgidas com a primeira grande crise do petróleo, nos anos 1970.

Assim, é preciso inicialmente diferenciar os indignados de hoje dos alienados de ontem. A atual geração que chega à idade adulta após o advento da internet encontrou o mundo preparado para outros 30 anos de bem-estar e evolução: as novas tecnologias reinventam os negócios, a inovação lança ininterruptamente na rotina aparelhos e sistemas que ampliam o alcance do conhecimento, alargam-se os horizontes geográficos para a ação estimulante do capital.

Mesmo a urgência ambiental, percebida já nos anos 1980 com as ocorrências de chuvas ácidas na Europa, na Ásia, no antigo território soviético e na América do Norte, produziu reações positivas ao impactar a vida social no fim da década passada, como a rápida conscientização sobre a necessidade de novos paradigmas na indústria, no transporte, na vida privada e na organização das cidades.

O que é, então, que não está dando certo? Essa é uma pergunta essencial da pauta contemporânea.

Indignados e resignados

O que está destoando desse contexto é justamente a “geração X”, que se aquartelou no capital financeiro, entranhou-se nas instituições do poder – entre elas a imprensa tradicional – e, envelhecida precocemente, não consegue enxergar as possibilidades do novo século.

Há um mal-estar generalizado quando se olha para o futuro, mas essa percepção não parece ter relação direta com o fim da era do petróleo e o advento da era da responsabilidade pessoal pelo destino coletivo. Esse é um pressuposto explícito em todos os movimentos contemporâneos, desde a chamada “primavera árabe” até o “ocupe Wall Street”.

O mal-estar no ambiente da globalização vincula-se claramente à incompatibilidade dos interesses do setor financeiro – chamado genericamente de “o mercado” – com as necessidades e interesses da sociedade em geral.

No momento em que a inovação tecnológica oferece soluções para o desenvolvimento sustentável, a irresponsabilidade individualista dos remanescentes da “geração X” ameaça colocar tudo a perder. Eles se tornaram mais do que conservadores – são reacionários no limite da insanidade.

Podem ser claramente identificados nos conselhos de grandes conglomerados transnacionais, no comando dos gigantescos fundos de investimento e nas chefias de muitos governos importantes. Mas também estão presentes em postos de direção dos grandes grupos de mídia – valorizados como mão de obra qualificada por sua obediência cega aos cânones do chamado fundamentalismo de mercado.

Falta entender

O que diferencia essencialmente a geração dos indignados da geração dos resignados – que resistem a aceitar os novos paradigmas que se impõem ao mundo – é justamente a capacidade de alimentar uma utopia coletiva.

É quase dogma na maioria das redações a interpretação de que a queda do muro de Berlim representou o fim das utopias. É “chique” entre jornalistas adeptos dessa ideologia dizer-se “pós-moderno”, embora poucos deles saibam explicar o que isso quer significar.

Mas acontece que, ao contrário do que alardearam os jornais no fim do século passado, a História não acabou. Ela se desenrola hoje nas ruas de todo o planeta com a manifestação dos novos protagonistas. Mas a imprensa tradicional ainda não entendeu, ou não quer entender.

Extraído de:  Sítio do Observatório da Imprensa

BERLUSCONI SWINGS SOFTLY - Ivan Lessa



A Itália manteve uma discreta posição em relação aos recentes linchamentos liberadores na Líbia. Entende-se. Afinal de contas, a Líbia foi deles, italianos. Quem foi invasor e usurpador sempre será vossa mercê.

A Itália, nesta semana que passou, colaborou com a crise na eurozorra, perdão, digo eurozona, com imaginativas e concretas propostas para ferrar a Grécia em um calote de mais de 100 bilhões de euros.

Pelo pouco que entendi, foi inestimável a participação do premiê italiano, o controvertido Silvio Berlusconi, na solução do conflito financeiro. Claro que no Parlamento italiano saiu um pau entre deputados à melhor maneira dos filmes dos saudosos Totó e Alberto Sordi.

Sem Berlusconi, a Itália não seria a Itália. Viraram, mexeram, mas não derrubaram o homem que continua liderando o governo de coalizão de centro-direita com a Liga Norte do pouco divertido Umberto Bossi, uma espécie de Paolo Stoppa sem talento.

O importante é abrir meu jogo. Aqui estão minhas cartas: sou fã de carteirinha de Berlusconi. O mundo seria mais triste sem ele, a Itália menos Itália.

Em Berlusconi, admiro cada fio de cabelo implantado, cada vestígio de botox no rosto, cada marca deixada por bisturi, cada signorina que acompanha o icônico e emblemático líder em suas andanças e deitanças pela Itália e pelo mundo afora.

Sempre que ele surge nas manchetes britânicas, o que é frequente, já que os ingleses que nunca entenderam os filmes de Steno ou Dino Risi, tomam-no por um vulgar fanfarrão, vou até minha eclética discoteca e ponho no aparelho de som os dois CDs que ele gravou na primeira década deste século.

Relaxam meu sistema nervoso ligado às atualidades políticas e fazem-me esquecer Orlando Silva (nosso ex-ministro e não o ?Cantor das Multidões?).

Comprei os CDs de Berlusconi – e não adianta procurar nem na Amazon nem no YouTube que você não vai encontrar – em Roma no ano de 2008 e são um dos pontos altos de minha coleção.

Boto as bolachinhas prateadas em sua ordem cronológica. Primeiro, o de 2003, com o atraente título de Miglio ‘ne Canzone (Melhor Uma Canção), acompanhado pelo guitarrista Mariano Apicelli, que musicou os versos do próprio Silvio e que evocam a melhor tradição napolitana da arte da canção. Este CD esteve merecidamente entre os 50 mais vendidos naquela época.

Em seguida, sempre em colaboração com Apicelli, seu Umberto Bossi, no sentido de parceiro de coalizão musical, o L’ultimo Amore (O Último Amor), 14 cançonetas registradas em 2006, todas versando sobre seu segundo tema favorito: o amor, está claro, que só perde em sua pauta para a sua dedicação política.

Uma dedicação, registre-se, até em goma-laca ou vinil, que voltou a despontar quando recuperava-se de um nariz amassado e dois dentes quebrados após um elevado debate no Parlamento com um adversário político (Mario Monicelli, onde estavas tu?). Um terceiro álbum da dupla, programado para 2010, não saiu da fase do planejamento, dada as repetidas crises por que, na época, passava a Itália.

Eu disse ?voltou a despontar? e disse-o bem. Quem achar que é ousadia do premiê meter-se num estúdio de gravação está mal informado. Silvio Berlusconi foi crooner de navio de cruzeiro em sua ainda recente mocidade. Ele sabe a diferença entre uma breve e uma semínima.

Sinto apenas que Berlusconi não tenha pensado em gravar algo que fosse mais meu gênero, ou seja, músicas da idade de ouro da canção americana (1930-1950). Sinto arrepios só de pensar, e eu penso em como ficariam em sua voz melodiosa acompanhada de uma big band preciosidades como BlueMoon, Let’s Do It, You’ve Changed e por aí afora.

Se o papa gravou cantando acompanhado por filarmônica um álbum para o Natal de 2009, Berlusconi não pode ficar atrás do sacro só por ser secular e também patrimônio internacional.

O título desta coluna é a sugestão para o nome do disco. Que, além do mais, pegaria muito melhor que ele distribuísse ao invés de medalhas e comendas entre os altos dignatários com quem convive e, espero eu, continuará a conviver durante muitos e muitos anos.

Extraído de: Sítio da BBC Brasil

ANDRADE GUTIERREZ DIVULGA NOTA CONFIRMANDO AVANÇO NAS TRATATIVAS COM O INTERNACIONAL


Menos de 24 horas após o Internacional publicar em seu site oficial que os termos da minuta de parceria com a construtora Andrade Gutierrez para dar prosseguimento às reformas do Beira-Rio estavam em fase final de negociação, a empresa distribuiu um comunicado à imprensa na manhã desta sexta-feira ratificando as palavras do clube.

De acordo com a nota, a AG está a elaboração do contrato que terá duração de 20 anos está “avançada” e “o prazos da tratativas está dentro de parâmetros considerados normais”. A empreiteira garante que poderá entregar a obra de acordo com a expectativa criada e que, neste momento, está em tratativas com potenciais sócios investidores.

Leia abaixo a nota na íntegra:

"A Construtora Andrade Gutierrez foi selecionada pelo S. C. Internacional em julho último, após deliberações internas da agremiação, como sua opção preferencial de parceria para obras de preparação do Estádio José Pinheiro Borda (Gigante da Beira-Rio) para a Copa do Mundo de 2014.
Os entendimentos seguintes a essa decisão deram ensejo à elaboração conjunta da minuta do contrato que definirá as bases da parceria que perdurará pelos próximos 20 anos. O documento, que começou a tramitar em agosto, está em fase avançada de negociação. Pela dimensão e escopo da parceria, o prazo das tratativas está dentro de parâmetros considerados normais.
Para viabilizar o projeto de reforma, a proposta apresentada pela Andrade Gutierrez prevê a constituição de uma Sociedade de Propósito Específico (SPE) visando a captação de recursos para a obra. A construtora, que por esse modelo vai arcar com 20% dos investimentos, está em tratativas avançadas com potenciais sócios investidores, cujos nomes serão mantidos em sigilo em função da confidencialidade exigida durante as negociações.
A empresa confia que, uma vez formalizada a parceria, sua expertise e conhecimento técnico permitirão o desenvolvimento de um projeto digno dos anseios do S.C. Internacional, da torcida colorada e do povo rio-grandense."

Extraído de: Sítio FinalSports