01 dezembro 2011

AS ESPÉCIES INVASORAS REPRESENTAM UM PERIGO À BIODIVERSIDADE - Vininha F. Carvalho


As espécies exóticas invasoras estão presentes em pelo menos 103 unidades de conservação do Brasil, espalhadas por 17 Estados e pelo Distrito Federal. São consideradas como a segunda causa de redução da biodiversidade no mundo, atrás apenas da perda de habitats por intervenção humana.

Conífera
Apropriam-se do espaço, da água e dos alimentos das espécies nativas, numa competição pérfida, silenciosa e sem fronteiras.

As espécies exóticas invasoras são organismos (fungos, plantas e animais, assim como seres vivos microscópicos) que se encontram fora da sua área natural de distribuição, por dispersão acidental ou intencional.

Eucaliptos
Por meio do processo denominado contaminação biológica, elas se naturalizam e passam a alterar o funcionamento dos ecossistemas nativos. Historicamente, o maior responsável por seu aparecimento é a colonização européia nos demais continentes.

As campeãs de invasões, são as plantas coníferas do gênero Pinus, introduzidas no Brasil para produção de madeira de reflorestamento. Identificadas em 35 UCs – Unidades de Conservação das regiões Sul e Sudeste, são espécies que podem alterar a acidez dos solos e inviabilizar a sobrevivência de animais, entre outros impactos.

Jaca
As outras líderes do ranking de invasões são o capim braquiária e o cachorro (15 UCs), o capim gordura e o eucalipto (13 UCs), o lírio-do-brejo (10 UCs), a jaca (8 UCs) e a uva-do-japão (8 UCs). Também figuram na lista animais como búfalo (6 UCs), caramujo-gigante-africano (5 UCS) e javali (4 UCs).

Javali
No caso do javali, principal ancestral do porco doméstico, a invasão foi pela fronteira sudoeste do Rio Grande do Sul com o Uruguai, para onde ele foi levado por europeus. Uma hipótese é que a introdução tenha ocorrido em 1989, após estiagem que baixou muito o leito do rio Jaguarão, que delimita a fronteira. Entre os principais prejuízos causados pelo javali estão danos a culturas agrícolas, ataque a animais de criação e transmissão de doenças (leptospirose, febre aftosa).

Caramujo-gigante-africano
O caramujo-gigante-africano, molusco terrestre do nordeste da África, entrou ilegalmente no Brasil na década de 1980, como alternativa à criação de escargot e se transformou numa praga. Ele destrói plantações e também pode transmitir moléstias, como a angiostrongilíase (infecção causada por parasita e que pode levar crianças à morte).

A marinha esta elaborando uma Norma de Autoridade Marítima (Normam), determinando que todos os navios que se destinarem aos portos brasileiros troquem a água de lastro, ao menos, a 200 milhas da costa e 200 metros de profundidade, para proteger o País das espécies aquáticas invasoras. Mas, para entrar em vigor a convenção precisa da adesão de 30 países, o que pode demorar até 20 anos.

Estima-se que pelo menos 7 mil espécies aquáticas são transportadas, diariamente, entre diferentes regiões do mundo por meio de água de lastro dos navios. O plano de ação visa dar continuidade ao trabalho desenvolvido há seis anos pelo Programa Globallast, executado pela IMO, com recursos do Fundo Global para o Meio Ambiente.

Raia Dasyatis colarensis
Por outro lado, a equipe do Laboratório de Tubarões e Raias da UERJ, identificou duas novas espécies de raias-manteiga no litoral brasileiro. A primeira raia foi denominada Dasyatis colarensis, em homenagem á região onde foi encontrada, o município de Colares, em Belém do Pará. Ela representa uma espécie totalmente desconhecida pela ciência. A outra raia, batizada Dasyatis hypostigma, já era conhecida dos pesquisadores, mas se acreditava que só poderia ser encontrada no Atlântico Norte.

Raia Dasyatis hypostigma
A preocupação com as espécies invasoras levaram a Organização das Nações Unidas a criar o Programa Global de Espécies Invasoras (GISP), em 1997, com participação de mais de 100 países, inclusive do Brasil. Durante a Rio-92, quando foi aprovada a Convenção da Diversidade Biológica, foi também feito um alerta sobre o perigo que elas representam para o equilíbrio ecológico.

O desinteresse em relação ao problema e a demora nas ações de combate, permitiram que as espécies invasoras prosperassem até no exterior. Um sapo comum no Brasil está aterrorizando os habitantes da cidade de Darwin, no norte da Austrália .

Sapo da cana
O sapo-da-cana, como é conhecido lá , foi introduzido no país em 1935, para combater duas espécies de besouros que eram uma praga para a indústria do açúcar. Infelizmente, ele falhou em sua missão, e ao invés de ser controlador de pragas, se transformou num perigo incontrolável, pois ficou venenoso.

O maior e mais feroz dos marsupiais carnívoros corre o risco de desaparecer da Austrália, por causa de um misterioso câncer facial. Desde 1997, metade da população dos diabos da tasmânia, cerca de 75 mil bichos, morreu por causa do problema, cuja causa não foi elucidada.

Diabo da Tasmânia
Segundo Alistair Cotter, chefe de uma força-tarefa designada pelo governo para enfrentar o problema, a competição com raposas, uma espécie invasora que chegou á ilha da Tasmânia há quatro anos, pode agravar o problema e decretar o fim da espécie. Supõe-se que os animais transmitam a doença quando se mordem disputando a comida.

O Brasil deveria ter o maior interesse em elaborar uma legislação nacional sobre o assunto, pois é considerado o mais rico país em diversidade de espécies animais e um dos mais importantes bancos de biodiversidade do planeta.

A fauna e a flora tem importância vital para a manutenção da biosfera e conseqüentemente para o ser humano, vamos salvá-la enquanto ainda é tempo.

Vininha F. Carvalho é graduada em Administração de Empresas e Economia, especializada em Marketing Turístico, com aptidão para produzir reportagens que envolvam questões na área ambiental (incluindo ecoturismo) e relativas a animais, para veículos da mídia impressa e eletrônica. Atuante em entidades e projetos com enfoques social e ambiental.

Extraído do sítio Ecodebates

LACERDA VS. WAINER: ONDE TUDO COMEÇOU - Alberto Dines

A primeira disputa pública entre os dois ex-amigos e ex-camaradas, Samuel Wainer (1910-1980) e Carlos Lacerda (1914-1977), teve como pivô a decisão da ONU que na terça-feira (29/11) completa 63 anos: a partilha da Palestina em dois Estados, um árabe e outro judeu.

Já curado do seu inflamado comunismo e agora no campo oposto, Lacerda escrevia uma coluna política diária na última página do Correio da Manhã denominada “Tribuna da Imprensa” (a partir de 1949, adotada como título do seu próprio vespertino).

Samuel Wainer
Samuel Wainer deixou o seu semanário Diretrizes (1938-1944) e foi trabalhar para O Jornal, carro-chefe dos Diários Associados de Assis Chateaubriand, como seu repórter-estrela. Uma de suas primeiras coberturas, em seguida ao fim da Segunda Guerra (1945), foi o julgamento de Nuremberg, onde os carrascos nazistas foram punidos por seus crimes.

Carlos Lacerda, muito ligado aos interesses americanos, sobretudo das petroleiras (por intermédio do antigo escritório de advocacia Momsen), tentava criar uma clima antipartilha, pró-árabe. Com a vitória dos aliados sobre o nazifascismo, Chateaubriand foi obrigado a rever suas antigas simpatias pelo integralismo e o salazarismo e despachou Wainer para cobrir os sangrentos distúrbios entre árabes e judeus antes do fim do mandato britânico.

Perdas mútuas

Carlos Lacerda
O confronto jornalístico entre os dois ex-amigos não foi direto nem contínuo. Wainer atuava como repórter, descrevendo acontecimentos; Lacerda exercitava-se na arte retórica, na qual se tornou um peso-pesado. A opinião pública brasileira ficou com Samuel, a favor da partilha. A atuação do chanceler Oswaldo Aranha como presidente da Assembléia Geral da ONU foi decisiva naquele 29 de novembro de 1947, sobretudo porque as duas superpotências, EUA e URSS, cada uma atendendo aos seus interesses, favoreciam a tese da divisão da Palestina em dois Estados.

[Na condição de governador da Guanabara e depois como editor de livros, Carlos Lacerda reviu sua posição com relação a partilha da Palestina.]

O confronto final Wainer-Lacerda deu-se a partir da criação da Ultima Hora, em 1951. Sangrento: levou Vargas ao suicídio e empurrou a grande imprensa para o beco do monolitismo do qual jamais saiu.

Ambos perderam: enredado nas dívidas, o então governador da Guanabara foi obrigado a vender a sua Tribuna da Imprensa para o Jornal do Brasil, em 1961 (que depois a revendeu ao jornalista Hélio Fernandes).

Depois da bonança da Era JK, Wainer foi sitiado pelo regime militar e obrigado a vender a sua UH em 1971 para a empresa “Folha da Manhã”, de Octávio Frias de Oliveira. Foi um dos três colunistas que estrearam a novíssima Página Dois, onde assinava com as iniciais S.W.

O primeiro

No programa televisivo do Observatório da Imprensa de 22/11 (ver “Revolução azul”), pouco se falou no início da carreira de Samuel Wainer. A primeira publicação profissional onde o nome de Wainer figurava no expediente foi a Revista Acadêmica, mensário de idéias, “Syntese do Momento Contemporâneo”, “Resumo claro, imparcial e detalhado de Política, Economia, Letras, Sciências, Arte e Variedades”.

Em formato de livro, capa verde com letras brancas em relevo, era editado pela Livraria José Olympio (que agora completa 80 anos). O primeiro número foi lançado em maio de 1934, o diretor era o jornalista Batista Pereira (genro de Rui Barbosa), Samuel era o secretário de Redação.

Entre os colaboradores de altíssimo nível, uma figura fundamental na vida de S.W.: o catedrático de geometria Inácio de Azevedo Amaral, mais tarde reitor da avançada Universidade do Distrito Federal (logo fechada por pressão da extrema direita e da igreja católica). A Revista Acadêmica circulou até dezembro de 1934.

Logo depois, o mesmo Azevedo Amaral aparece ao lado de Samuel Wainer no cabeçalho do Almanack Israelita, lançado em 1937, iniciativa da assustada comunidade judaica para contrabalançar a poderosa máquina de propaganda a serviço da Ação Integralista Brasileira, financiada pelas embaixadas da Alemanha e Itália. Este observador só conseguiu encontrar uma edição (a de 1937).

Não se interrompeu a parceria com Azevedo Amaral: o acadêmico foi escolhido como diretor-responsável de Diretrizes. Filosemita: durante a guerra presidiu o Comitê de Ajuda às Vítimas da Guerra e logo em seguida aceitou participar da direção do Comitê Pró-Palestina.

O resgate desses dados tem uma função: mostrar que Samuel Wainer foi o primeiro judeu (nascido aqui ou na Bessarábia, dá no mesmo) a destacar-se no cenário intelectual brasileiro.

Isto tem um preço.

Extraído do sítio Observatório da Imprensa

OS DESAFIOS DA ALTERNATIVA ENERGÉTICA - Luciano Basto Oliveira

A produção de biomassa no Brasil ainda está concentrada nos resíduos da cana-de-açúcar, e os investimentos para gerar energia a partir dos resíduos de milho e soja ainda são baixos. O pouco interesse, de acordo com Luciano Basto Oliveira, justifica-se pelo alto custo para retirar os resíduos de milho e soja das áreas de plantio. O pesquisador esclarece que o bagaço de produto é recolhido do campo porque ele “é um resíduo agroindustrial, cujo transporte é pago pelos produtos principais da cana-de-açúcar: açúcar e etanol”.


Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Luciano Basto Oliveira também comenta a proposta de incineração do lixo, prevista no Plano Nacional de Resíduos Sólidos – PNRS. Apesar de esta ser uma das tecnologias mais utilizadas no mundo, assegura, a queima de plásticos e borrachas gera gases de efeito estufa. “A solução para os resíduos sólidos urbanos brasileiros requer a implantação e funcionamento do sistema de gestão integrada. Neste, a segregação dos materiais recicláveis na fonte conviverá com um equipamento de triagem (caso o engajamento popular seja pequeno, para melhorar o rendimento), sendo associados à instalação de biodigestores e a sistemas de incineração – cujas dimensões decorrerão da eficiência de cada etapa anterior –, contando com aterros sanitários para o material inerte, os rejeitos e os casos fortuitos, como prevê a PNRS”, aponta.

Luciano Basto Oliveira é graduado em Ciências com habilitação em Matemática pela Universidade Estácio de Sá, especialista em Análise Ambiental e Gestão do Território pela Escola Nacional de Ciências Estatísticas – Ence/IBGE, e mestre e doutor em Planejamento Energético pelo Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia – Coppe/UFRJ. Atualmente é pesquisador do Instituto Alberto Luiz Coimbra/Coppe/UFRJ

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O senhor menciona que os resíduos vegetais têm potencial de gerar um terço de toda a energia consumida no país. O que tem dificultado o investimento em biomassa no Brasil?

Luciano Basto Oliveira – O país é muito rico em fontes energéticas, o que remete a algumas poderem, pela natural limitação do consumo, acabar sendo inviáveis para o mercado interno. Mas também existem casos em que fontes mais baratas são desperdiçadas por conta de seu caráter inovador naquele mercado, o que, até certo ponto, é compreensível.

IHU On-Line – Como estão os investimentos em biomassa no Brasil?

Luciano Basto Oliveira – Vêm evoluindo, mas ainda estão concentrados na cana-de-açúcar e seus derivados – que são excelentes representantes do setor; ajudaram a demonstrar a viabilidade desta alternativa e a competência técnica e empresarial no setor. Mas é necessário diversificar para aproveitar o potencial existente.

IHU On-Line – Por que a geração de energia a partir dos resíduos de milho e soja são mais caros se comparados ao uso do bagaço da cana-de-açúcar?

Luciano Basto Oliveira – Porque o bagaço é um resíduo agroindustrial, cujo transporte é pago pelos produtos principais da cana-de-çúcar: açúcar e etanol, enquanto os resíduos de soja e milho atualmente ficam no campo, o que remete a um custo para coletá-lo. Assim, utilizando a mesma tecnologia para geração elétrica (ciclo Rankine), o bagaço disponibilizará eletricidade mais barata.

Além disto, parte da energia disponível na forma de calor não é convertida em eletricidade e, no caso do bagaço, há o aproveitamento deste para fazer a usina de cana funcionar (cogeração), mercado complementar que inexiste nos demais casos.

Considerando que o preço solicitado pelas usinas ao bagaço nos leilões não seja especulativo – uma vez que seu interesse é obter a garantia de receita, o que pode ser comprometido com o aumento artificial do preço e a competição com outras fontes –, o fato de parte da oferta não ter sido vendida significa que as alternativas mais caras, provenientes dos demais resíduos, também não conseguirão.

IHU On-Line – Qual tem sido o papel das fontes alternativas de energia no Brasil?

Luciano Basto Oliveira – O conceito de “alternativa” depende da localização e da tecnologia. No Brasil, a maior parte da eletricidade provém de fontes renováveis e, assim, já não é alternativa. O próprio etanol, tão conhecido aqui, é uma alternativa no exterior. Parece-me mais adequado falar de fontes renováveis não convencionais e discutirmos como aproveitar nossas potencialidades, mesmo que o mercado interno tenha alternativas mais baratas e o caminho seja a exportação. É importante ressaltar que existe um mercado internacional de biomassa para fins energéticos, do qual o Brasil, com uma das maiores aptidões para esse setor, não participa de maneira significativa.

IHU On-Line – Qual o potencial do Brasil em investir em biomassa?

Luciano Basto Oliveira – Apesar do significativo potencial, o conveniente é, a meu ver, identificar como aproveitar as dezenas de milhões de toneladas anuais que acabam sendo decompostas sem aproveitamento: a utilização local, para geração elétrica ou combustível veicular (biogás tratado ou produção de etanol de segunda geração), ou para exportação (briquetes ou pellets).

IHU On-Line – Em que países o uso da biomassa para geração de energia é mais desenvolvido? Quais são os países que dominam, hoje, essa tecnologia?

Luciano Basto Oliveira – O Brasil é um dos principais, para geração elétrica e uso veicular. Mas o consumo de biomassa é expressivo para aquecimento no hemisfério Norte.

IHU On-Line – Qual o potencial energético do uso de dejetos de aves, suínos e bovinos? Há no Brasil investimento nessa área?

Luciano Basto Oliveira – Considerando somente os rebanhos confinados, o potencial atinge 17,5 Mm³ de metano/dia – aproximadamente a metade do que importamos da Bolívia. Esse gás pode ser convertido em eletricidade, abastecer veículos, indústrias, residências, como o gás natural – desde que tratado. Adicionando o potencial dos resíduos agrícolas e dos urbanos, todos convertidos em gás, o potencial atinge 50 Mm³/d, em média, uma vez que esta oferta é sazonal.

Sim, há alguns empreendimentos em funcionamento e outros sendo implantados. É importantíssimo lembrar que o descarte inadequado causa muitos danos ambientais e à saúde pública. Por outro lado, o sistema de tratamento é caro. Então, o aproveitamento energético atrelado ao tratamento ambiental transfere o custo para o combustível, que consegue competir com outras fontes.

IHU On-Line – É possível gerar energia a partir do aproveitamento do lixo? Qual é o potencial de aproveitamento energético dos resíduos sólidos urbanos?

Luciano Basto Oliveira – Sim, é possível. Há diversas rotas tecnológicas em funcionamento no mundo, desde a queima do biogás recuperado de aterros até o arco de plasma, passando pelo gás de biodigestores e a incineração. É preciso ressaltar que a reciclagem é uma medida de conservação de energia, pois economiza o consumo industrial da conversão dos recursos naturais em bens – ou seja, mesmo não gerando diretamente, permite que a oferta seja ampliada de maneira maior que se o lixo fosse utilizado para geração. O potencial atual, considerando a reciclagem máxima associada à biodigestão da fração orgânica, atinge 60 TWh/a, equivalente a 15% do consumo nacional ou 65% do setor residencial.

IHU On-Line – Entre as propostas do Plano Nacional de Resíduos Sólidos – PNRS, discute-se a incineração do lixo. Como o senhor vê essa alternativa? Há implicações ambientais nesse processo?

Luciano Basto Oliveira – É uma das tecnologias mais utilizadas no mundo, dispondo de 650 usinas termelétricas, inclusive novas, funcionando no centro das cidades de Londres e Paris, por exemplo. Do ponto de vista técnico, aplica-se quando a participação de plástico e papel seco supera 30% do resíduo – o que é comum nos países mais ricos, onde a maioria dos alimentos é comprada em embalagens. Sua eficiência quanto à geração líquida (produzido menos consumido) local é a melhor dentre as alternativas. Mas, por queimar plásticos e borrachas, seu balanço de gases responsáveispelo efeito estufa não é o melhor. Além disso, emite poluentes orgânicos persistentes – ainda que em teores controlados e em quantidades inferiores a diversas outras fontes emissoras, como usinas a carvão, veículos a diesel, combustão de lixo a céu aberto, queimadas, etc.

Minha visão é de que a solução para os resíduos sólidos urbanos brasileiros requer a implantação e funcionamento do sistema de gestão integrada. Neste, a segregação dos materiais recicláveis na fonte conviverá com um equipamento de triagem (caso o engajamento popular seja pequeno, para melhorar o rendimento), sendo associados à instalação de biodigestores e a sistemas de incineração – cujas dimensões decorrerão da eficiência de cada etapa anterior –, contando com aterros sanitários para o material inerte, os rejeitos e os casos fortuitos, como prevê a PNRS.

Esse tipo de aproveitamento requer tecnologia disponível no país e é capaz de gerar oportunidades de trabalho aqui, além de contribuir para a mitigação de emissões – mesmo que a biomassa seja exportada.

Extraído do sítio do IDH - Unisinos

PRECISAMOS ULTRAPASSAR A ECONOMIA E SAIR DELA

Para Serge Latouche, o capitalismo sempre esteve em crise, e é preciso abandonar com urgência o modelo econômico do crescimento infinito colocando em seu lugar a abundância frugal. Por: Gilberto Faggion, Graziela Wolfart, Lucas Luz e Márcia Junges. Tradução: Susana Rocca

“A palavra decrescimento está sendo tomada literalmente. Não se trata de um conceito, mas um slogan”. A advertência é do filósofo e economista Serge Latouche na mesa redonda promovida pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU por ocasião de sua vinda ao campus, em uma série de atividades ligadas ao Ciclo Economia de Baixo Carbono – Limites e possibilidades. Segundo ele, um dos slogans mais nocivos e perversos do sistema capitalista é o desenvolvimento sustentável. “Para nos opormos a ele, cunhamos o termo decrescimento sustentável”, encarado quase como uma blasfêmia, provoca. A ideia é criar uma sociedade de prosperidade sem crescimento, de abundância frugal. O pensador francês pondera que nossa sociedade individualista está fundada sobre o mercado.

Serge Latouche, além de economista, é sociólogo, antropólogo, professor emérito de Ciências Econômicas na Universidade de Paris-Sul (1984). É presidente da Associação dos Amigos da Entropia e presidente de honra da Associação Linha do Horizonte. É doutor em Filosofia, pela Universidade de Lille III (1975), e em Ciências Econômicas, pela Universidade de Paris (1966), diplomado em Estudos Superiores em Ciências Políticas pela Universidade de Paris (1963). Latouche é um dos históricos colaboradores da Revue Du MAUSS (Movimiento Antiutilitarista em Ciências Sociais), além de ser Professor emérito também da Faculdade de Direito, Economia e Gestão Jean Monnet (Paris-Sul), no Instituto de Estudos do Desenvolvimento Econômico e Social (IEDs) de Paris. De suas obras, destacamos A ocidentalização do mundo (Petrópolis : Vozes, 1992) ; La déraison de la raison économique(Paris: Albin Michel, 2001); Justice sans limites – Le défi de l’éthique dans une économie mondialisée (Paris: Fayard, 2003); La pensée créative contre l’économie de l’absurde (Paris: Parangon, 2003), Le Pari de la décorissance (A aposta pelo decrescimento), 2006 e Pequeno tratado do decrescimento sereno (São Paulo : WMF, Martins Fontes, 2009) e Vers un societé d’abondance frugale. Contresens et controverses sur la décroissance (Paris : Mille.et.une.nuits, 2011 – Por uma sociedade da abundância frugal. Cotracenso e controvérsias sobre o decrescimento).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Em que sentido o decrescimento é viável em sociedades em desenvolvimento como o Brasil e a China, por exemplo? O conceito de decrescimento pode ser aplicado a países emergentes?

Serge Latouche - O fato de formular essa pergunta demonstra que o termo decrescimento não foi compreendido. A palavra decrescimento está sendo tomada literalmente. Não se trata de um conceito, mas um slogan. Esse slogan foi necessário porque estamos numa sociedade da comunicação, onde tudo passa por slogans e manipulação midiática. Um dos slogans mais nocivos e perversos do sistema é o desenvolvimento sustentável. Para nos opormos a ele, cunhamos o termo decrescimento sustentável. Esse slogan nasceu na França, numa sociedade muito desenvolvida, com sentido provocador, porque vivemos na religião do crescimento. Sua ideia é romper com a ideologia do crescimento. Assim, quando utilizamos a palavra decrescimento soa como uma blasfêmia. Isso leva as pessoas a se perguntarem como é possível dizer algo desse tipo.

Por trás do decrescimento há um projeto de um outro paradigma, de uma verdadeira sociedade alternativa à sociedade de crescimento. Trata-se de um projeto para romper com uma sociedade e construir outra que não esteja voltada para a religião do crescimento. Se quisermos ser rigorosos, teríamos que falar em acrescimento, assim como falamos em ateísmo. Evidentemente, é preciso falar no projeto de uma outra sociedade que deve crescer com a felicidade, qualidade do ar, da água, da alimentação. Queremos construir uma sociedade que chamo, agora, da abundância frugal, uma sociedade de prosperidade sem crescimento. Retomo, por isso, a ideia de Ivan Illich de sobriedade feliz. O projeto é construir uma sociedade ecossocialista, algo já formulado por André Gorz . Ele próprio aderiu à palavra decrescimento.

Projetos iguais

Se as sociedades hiperdesenvolvidas precisam sair da sociedade do desenvolvimento para reencontrarem o limite, as sociedades não desenvolvidas, que não é o caso do Brasil, têm interesse em não entrar nessa piada. Isso não quer dizer que não deva crescer uma certa produção para satisfazer as necessidades, mas não devem entrar nessa ideia da produção infinita. O problema do Brasil está exatamente na lógica do crescimento infinito e na fase onde essa fé tem efeitos positivos, e não somente negativos. Na França já não há mais efeitos positivos, mas no Brasil, ainda sim. 
Em muitos países a palavra decrescimento não é a mais apropriada. No contexto da África, por exemplo, eu não falaria de decrescimento, mas quando nós encontramos representantes da Conferência Nacional de Educação (CONAE) do Equador e Bolívia, em Bilbao, na Espanha, num congresso chamado de Decrescimento e bem-viver , imediatamente eles nos falaram que o projeto deve ser o mesmo do que o nosso.

IHU On-Line - É possível haver decrescimento numa época de tamanho crescimento e consumo tecnológico?

Serge Latouche - Esse é o grande desafio. Estamos em uma situação de esquizofrenia total, como dizem os psicólogos. Trata-se de uma dissonância cognitiva. Bastaria ver que ao mesmo tempo os responsáveis do planeta vão a Copenhagen e Cancun dizendo que temos que parar o crescimento. Reúnem-se em Toronto afirmando que a economia deve ser relançada.

IHU On-Line - Como o conceito do decrescimento é recebido pela Europa em crise econômica e sedenta por recuperar-se e continuar consumindo?

Serge Latouche - Mesmo sendo uma ideia importante e fortalecida pelo movimento do decrescimento, frente ao todo essa é uma parte infinitesimal. Mesmo os ecologistas e verdes, que normalmente deveriam aderir, estão muito divididos nesse ponto. Trata-se de uma minoria dentro dos verdes que apoiam com esse projeto do decrescimento. Há iniciativas locais na Itália, sobretudo, que tem obtido êxito e sucesso. Na França isso também pode ser observado, mas somente em nível de algumas cidades e projetos. Há um grande movimento na Europa contra a privatização da água. Não se chama movimento do decrescimento, mas movimento contra o capitalismo e a privatização.

IHU On-Line - Quais os caminhos para “deseconomizar o imaginário” das pessoas no século XXI?

Serge Latouche - As vias do Senhor são impenetráveis. Penso que o trabalho intelectual e de difusão dessas ideias tem um papel. Mas o mais importante para a transformação do imaginário são as vivências. O bom seria ver os exemplos pequenos que temos e que são interessantes, e que quase sempre obedecem à pedagogia das catástrofes. Percebemos que na Europa a vaca louca levou as pessoas a modificar seus hábitos alimentares. Quando eu estava no Japão, ficou claro que o fenômeno do tsunami, que ocasionou a ruptura dos reatores em Fukushima , provocou uma verdadeira efervescência para que as pessoas se interrogassem sobre a energia nuclear. Foi interessante porque a sociedade japonesa é tradicionalmente muito passiva. Como as catástrofes acontecem cada vez mais, infelizmente, vemos estiagem, enchentes, pandemias e doenças novas aparecerem. Tudo isso leva as pessoas a mudarem sua maneira de pensar.

IHU On-Line - A construção de uma sociedade do decrescimento aconteceria, então, através de atitudes individuais e um movimento através de rede? Isso aconteceria institucionalizado ou trata-se de um movimento aberto que depende da atitude individual?

Serge Latouche - Há de tudo. Sou um intelectual e não estou comprometido ou engajado em qualquer partido político. Não tenho nem intenção em criar partido político. Há gente que tentou me “empurrar” para isso, mas não aceitei. É verdade que nos próximos anos pode haver um incremento desse tipo de movimento. Precisamos dizer que os principais movimentos de decrescimento são compostos de jovens. Eles não gostam de que alguém diga-lhes o que deve ser feito. Organizam-se espontaneamente, como os indignados, por exemplo. A primeira ação que fazem é, quase sempre, marchas grandes atravessando países, a fim de sensibilizar as pessoas. Realizam acampamentos durante os encontros (meetings). Na França há dois partidos cujo decrescimento é sua bandeira fundamental, mas sua representatividade é ínfima. Não podemos impedir isso, e irmos contra a criação de tais iniciativas. Haverá, sempre, alguém que se motive a fazer tais ações. Tentamos aprofundar a reflexão sobre o decrescimento através da revista Entropia (www.entropia-la-revue.org).

IHU On-Line - Apostando que o decrescimento depende de uma construção de sujeitos diversos, e que o neoliberalismo, o desenvolvimento infinito lembra uma antropologia egoísta, qual seriam as antropologias que dariam base a uma sociedade do decrescimento?

Serge Latouche - O importante da lógica da sociedade do decrescimento é que, efetivamente, saímos da antropologia do homo economicus e vamos cair naturalmente na antropologia com a tradição de Marcel Mauss , na lógica do vínculo social fundado sobre a tripla obrigação de dar, receber e devolver. Nesse ponto de vista, o movimento de decrescimento se encontra em continuidade com o pensamento de Mauss, um movimento antiutilitarista nas ciências sociais, que está bem representado no Brasil no Recife por Paulo Henrique Martins . 

IHU On-Line - O que é uma sociedade convivial? A partir de Ivan Illich, qual é a relação entre convivialidade e felicidade? 

Serge Latouche - Illich não intitulou seu livro sociedade convivial, mas convivialidade. Começou definindo o que ele chamava de instrumento convivial, oposto à técnica heteronômica que nos expropria de nossa capacidade de gerir nossa vida e que não podemos administrar, como é o caso das usinas atômicas ou da junção de autoestradas, que não são nunca coisas conviviais. Pelo contrário, uma bicicleta é algo convivial porque podemos consertá-la, ela não precisa de combustível, mas só do movimento gerado pelas pessoas. A bicicleta tem autonomia. As técnicas conviviais são inventadas não pela vontade de poder, mas por uma forma de amor para tornar mais fácil a vida dos outros, como a máquina de costurar, por exemplo.

Ivan Illich escolheu o termo de convivialidade porque Aristóteles disse que a sociedade descansa sobre a philia, a amizade. Para os gregos esse é um sentimento muito forte e nós não o conhecemos mais. Esse vínculo de amizade aludido por Aristóteles e também Platão pressupunha que entre amigos tudo é em comum. Ocorre que hoje, entre nossos amigos, as coisas não são mais comuns. Vivemos numa sociedade que, a partir da modernidade, iniciou uma revolução individualista. Damos mais importância à vida privada do que à vida comum. O outro não é tão importante. Ao menos estamos bem conscientes de que o mercado não cria vínculos sociais. Trata-se de uma sociedade individualista fundada sobre o mercado que é quase um oxímoro, um paradoxo. 

Ele tenta encontrar o que poderia substituir a philia num contexto moderno. Então ele teve essa ideia de convivialidade. Seria de alguma maneira uma philia de um grão inferior. Poderíamos definir a convivialidade como simpatia no sentido forte do termo, ou a empatia, ou para dizer de outro modo, podemos falar no termo de George Orwell , sociedade decente. Uma sociedade decente é uma sociedade que não humilha seus membros. Especialmente as pessoas do povo têm essa mentalidade, que Orwell chama de decência comum. Espontaneamente há coisas que essas pessoas não fazem. Basta lembrar do período de guerras, quando pessoas comuns tomaram atitudes extraordinárias e que salvaram vidas. Isso é decência comum. Uma sociedade onde isso não existe mais não é uma sociedade, e sim uma selva.

IHU On-Line - Considerando o cenário de crise financeira e econômica, muitos estudiosos falam na crise do capitalismo. O senhor concorda que o capitalismo está em crise e corre o risco de acabar, dando lugar a um sistema alternativo? 

Serge Latouche - Sempre se diz que os jesuítas respondem uma pergunta com outra. Então, pergunto: o que é mesmo o capitalismo? A questão fundamental é que o capitalismo, como dizia Max Weber , é primeiro de tudo, um espírito. Sair do capitalismo não se trata de fazer uma revolução e tomar os palácios, mas, antes de tudo, sair do seu espírito. Isso é uma coisa que não se pode decidir assim, tão facilmente. Estou convencido de que o capitalismo sempre esteve em crise. O dia em que entramos no capitalismo, data que é impossível de precisar, começamos também a sair dele. Um dia teremos saído dele e não teremos percebido. 

IHU On-Line - Quais suas expectativas para a Rio + 20? Que temas não podem deixar de ser discutidos? Quais as prioridades? 

Serge Latouche - Os temas importantes são sempre os mesmos: o desregulamento climático, o fim do uso do petróleo, a destruição da biodiversidade, as enfermidades geradas pela poluição. O decrescimento, contudo, nunca entra na pauta, mas é fundamental, porque impacta em todos os setores da sociedade, como agricultura, indústria, a tecnociência e a ciência.

IHU On-Line - O senhor menciona convergências e divergência em relação ao resgate do conceito de economia civil, principalmente na Itália. Essa economia civil fala, inclusive, em civilizar o mercado, de bens relacionais. Poderia falar um pouco mais sobre essa ideia?

Serge Latouche - Há muitas convergências a partir da crítica à lógica da economia do mercado e da economia tal como ela se configurou. A divergência é, sobretudo, pelo fato que os adeptos dessa economia civil pensam que, de algum jeito, podemos voltar às origens da economia política, e não particularmente a Adam Smith , mas a antes, na Escola do Iluminismo Napolitana. Penso que na época da economia civil napolitana isso era importante, mas evoluiu na economia liberal inglesa. Penso que agora precisamos ultrapassar essa economia e pensar seriamente em sair dela. Isso é a principal divergência na medida em que isso lhes leva a assumir uma posição muito reformista. Eles querem desenvolver uma economia solidária, ética, que são coisas muito boas mas incompatíveis com a lógica do mercado. Nós favorecemos essa ética mas na ótica de não abolir somente, mas de reduzir o espírito do mercado. O que tem que ser abolido é o mercado como um todo. Voltando à escola italiana, menciono Stefano Bartolini, da Universidade de Siena. Ele escreveu um livro muito interessante chamado Manifesto da felicidade que segue totalmente a linha do decrescimento, diferente do que outros autores, como Zamagni , por exemplo.

IHU On-Line - No Brasil existe o termo economia de baixo carbono. Nesse contexto surgem ideias de Georgescu Roegen. Que convergências e divergências há entre tais ideias e o decrescimento? 

Serge Latouche - Não conheço essa ideia. O que se fala é em economia pós-carbono. Então, penso que... não penso. De fato a utilização desse termo provém de Georgescu . Por coincidência, um discípulo seu, Jacques Grinevald, seu assistente, fez conhecer na França seu trabalho e conseguiu publicar lá obras suas como O decrescimento. Creio que a primeira edição é de 1995. Ele não utiliza o termo “decrescimento”, mas “declining”. Contudo, ele disse que o decrescimento correspondia exatamente ao seu pensamento. Porém, é verdade que Georgescu Roegen não considerava a ideia de sair da economia, como eu.

IHU On-Line - Que método de pesquisa utiliza como pesquisador? Que pesquisas têm conduzido agora?

Serge Latouche - Antigamente consagrei-me à epistemologia através de meu primeiro livro, Epistemologia e economia, de 1973, um grosso volume que não se encontra mais. Parti do freudo-marxismo e cheguei a uma posição mais crítica, mais perto do marxismo que do freudismo. Depois lancei o Processo da ciência social e me ocupei bem mais de Habermas e dos conceitos da Escola de Frankfurt, a teoria crítica, além de Umberto Eco com a crítica da linguagem e A estrutura ausente. Minha caminhada foi uma crítica da economia política e de acesso ao real através da crítica do discurso.

IHU On-Line - Tem alguma sugestão de pesquisas que poderiam ser trabalhadas no Brasil?

Serge Latouche - A ideia de construir um futuro sustentável para o Brasil é um tema muito importante a ser trabalhado. Não podemos dissociar os problemas ecológicos dos problemas sociais.

Extraído do sítio do IDH - Unisinos