01 novembro 2011

CONTRA O CAPITALISMO, BAUMAN CONVOCA À IMAGINAÇÃO - Zigmunt Bauman

Por Zygmunt Bauman
Tradução: Daniela Frabasile
Extraído do sítio Outras Palavras



Sociólogo não crê no colapso do sistema, alerta que seu parasitismo é incessante e sugere que para vencê-lo é preciso ser mais imaginativo que ele. Imagem: René Magritte - Falso espelho (1935).
As notícias sobre a morte do capitalismo são, parafraseando Mark Twain(1), um pouco exageradas. A capacidade surpreendente de ressurreição e regeneração é inerente ao capitalismo. Uma capacidade parecida com a dos parasitas – organismos que se alimentam de outros organismos, estando agregados a outras espécies. Depois de exaurir completa ou quase completamente um organismo hospedeiro, o parasita normalmente procura outro, que o nutra por mais algum tempo.

Há cem anos, Rosa Luxemburgo compreendeu o segredo da misteriosa habilidade do sistema em ressurgir das cinzas repetidamente, assim como uma fênix; uma habilidade que deixa atrás de si traços de devastação – a história do capitalismo é marcada pelos túmulos de organismos que tiveram suas vidas sugadas até a exaustão. Luxemburgo, no entanto, restringiu o conjunto dos organismos que aguardavam em fila, esperando a conhecida visita do parasita, às “economias pré-capitalistas”, cujo número era limitado e em constante regressão, sob o impacto da expansão imperialista.

A cada visita sucessiva, outra terra “intocada” era convertida em campo de pastagem para a exploração capitalista. Portanto, mais cedo ou mais tarde, não serviriam mais às necessidades da “reprodução ampliada” do sistema, já que não ofereceriam os lucros que tal expansão requeria. Pensando por essa trilha (um viés completamente compreensível, dado que a expansão há cem anos era principalmente territorial, mais extensiva que intensiva, mais lateral que vertical), Luxemburgo só poderia antecipar os limites naturais da duração concebível do sistema capitalista. Uma vez que todas as terras “intocadas” do globo fossem conquistadas e integradas à máquina de reciclagem capitalista, a ausência de novas terras de exploração iria forçar, ao fim, o colapso do sistema. O parasita morre, quando faltam organismos vivos de onde possa retirar alimento.

Hoje o capitalismo já atingiu uma dimensão global, ou está muito próximo disso – um cenário que Luxemburgo via em horizonte distante. Sua previsão estará a ponto de se concretizar? Penso que não. Nos últimos 50 anos, o capitalismo aprendeu a inimaginável e desconhecida arte de criar novas “terras intocadas”, em vez de se limitar às já existentes. Essa nova arte tornou-se possível porque o sistema viveu uma transição. A “sociedade de produtores” converteu-se numa “sociedade de consumidores”. E a fonte principal da “agregação de valor” já não está na relação capital-trabalho, mas na que há entre mercadoria e cliente. Lucro e acumulação baseiam-se principalmente na progressiva mercantilização das funções da vida; na mediação, pelo mercado, da satisfação de necessidades sucessivas; na substituição do desejo pela necessidade, como engrenagem principal da economia voltada para o lucro.

A crise atual deriva da exaustão de uma dessas “terras intocadas” criadas artificialmente. Milhões que pessoas foram obrigadas a abandonar a “cultura dos cartões de crédito” para se dedicar à “cultura das planilhas de gastos”. Por algum tempo, elas foram estimuladas a gastar o dinheiro que ainda não haviam ganhado, vivendo com crédito, falando de empréstimos e pagando juros. A exploração dessa “terra intocada” particular está, em linhas gerais, acabada. O sistema entregou para os políticos a tarefa de limpar os detritos deixados pela farra dos banqueiros. É algo que entrou na lista dos “problemas políticos”: passou de “problema econômico” para (citando a chanceler alemã, Angela Merkel) algo dependente de “vontade política”. Mas alguém poderia duvidar que estão em construção novas “terras intocadas” – as quais também terão vida bastante limitada, dada a natureza parasítica do capitalismo?

O sistema funciona por um processo contínuo de destruição criativa. O que se cria é capitalismo numa “fórmula nova e melhorada”; o que se destrói é a capacidade de auto-sustentação e vida digna nos inúmeros “organismos hospedeiros” para os quais todos somos atraídos e ou seduzidos, de uma maneira ou de outra. Suspeito que um dos recursos cruciais do capitalismo deriva do fato de que a imaginação dos economistas – incluindo os que o criticam – está muito atrasada em relação à sua invenção, a arbitrariedade do seu procedimento e crueldade com que opera.

(1) “As notícias de minha morte são exageradas”, teria dito Twain em 1897. Ele morreu em 1910.

* Zygmunt Bauman é sociólogo.

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Para uma visão distinta de de Bauman, sobre o mesmo tema, leia:


Immanuel Wallerstein, provocador: capitalismo está condenado: resta saber quê irá substituí-lo. Transição não será apocalíptica: dependerá das escolhas que fizermos agora.

QUANDO OS SEGREDOS NÃO ESTÃO SEGUROS COM OS JORNALISTAS

Artigo de 31/10/2011. Tradução de Larriza Thurler. Edição de: Leticia Nunes.

Alguns corajosos jornalistas já desafiaram ordens da corte e chegaram a ser presos para manter o compromisso ético de confidencialidade das suas fontes. No entanto, na medida em que se torna cada vez mais fácil grampear telefones e rastrear computadores, a segurança das fontes anônimas depende não apenas da ética dos profissionais de imprensa, mas de suas habilidades computacionais, observa Christopher Soghoian, especialista em privacidade e vigilância governamental da Universidade de Indiana, em artigo no New York Times [27/10/11].

Infelizmente, diz Soghoian, segurança operacional de computadores ainda não é disciplina da maior parte das faculdades de jornalismo e práticas de segurança fracas continuam a ser utilizadas nas redações. Informações confidenciais ainda são enviadas por meio de linhas telefônicas regulares, e-mails ou mensagens de texto de celulares – que são facilmente interceptáveis. Poucos jornalistas usam ferramentas de comunicação seguras, mesmo as disponíveis e fáceis de serem usadas.

Funcionários do governo geralmente tentam fazer com que jornalistas revelem suas fontes por meio de intimações. No entanto, em algumas situações isto não é sequer necessário, porque as fontes já se expuseram por conta de troca de informações sem o devido cuidado. Há, ainda, o monitoramento ilícito por parte do governo americano e de outros países. Há alguns meses, o ministro de Interior da França, Claude Guéant, admitiu que agências de inteligência obtiveram listas detalhadas de telefonemas feitos por um jornalista do Le Monde. Isto permitiu a identificação de uma fonte do governo que revelou informações confidenciais sobre uma investigação sobre a bilionária Liliane Bettencourt.

Investimento

Soghoian frequentemente conversa com jornalistas de grandes veículos, nos EUA e no exterior. Das centenas de conversas que teve nos últimos anos, são raras aquelas em que jornalistas mencionaram o uso de alguma ferramenta de comunicação encriptada. A responsabilidade por esta falha de segurança não é inteiramente dos profissionais, mas também das universidades e organizações de mídia, que não investem recursos para tecnologia em treinamento de segurança.

Em junho de 2010, Bill Keller, então editor-executivo do New York Times, e Alan Rusbridger, editor-chefe do Guardian, debateram sobre as informações confidenciais obtidas pelo WikiLeaks por meio de linhas telefônicas regulares. É preocupante que o NYTimes não tenha meio de segurança de telecomunicações, pois fontes confidenciais ajudaram, na última década, o jornalão a expor diversas operações secretas do governo – incluindo o monitoramento de telefonemas internacionais de milhares de americanos pela Agência de Segurança Nacional em nome da chamada guerra contra o terror. Em outro caso conhecido, agentes do FBI obtiveram, em 2004, de maneira imprópria, registros telefônicos de jornalistas do NYTimes na Indonésia.

WikiLeaks

Muitas organizações de mídia distanciaram-se do WikiLeaks com a justificativa de que a organização não se compromete com o jornalismo e é negligente. No entanto, se a marca de um jornalismo de qualidade é a habilidade de proteger fontes confidenciais, então o WikiLeaks deveria, diz Soghoian, ser visto como um guia de boas práticas. Ao contrário das práticas “vergonhosas” da maior parte dos veículos de comunicação tradicionais, o WikiLeaks tem uma operação de segurança espetacular: mensagens instantâneas encriptadas são usadas para todas as comunicações em tempo real, tecnologia forte de criptografia é usada para proteger arquivos quando eles são passados entre indivíduos, e servidores são escondidos usando o Tor Project, ferramenta de privacidade que permite a comunicação anônima.

Julian Assange, fundador do site, é um especialista em segurança de dados e sabe muito mais sobre o tema do que qualquer jornalista, defende o autor do artigo no Times. Sua plataforma parece ter funcionado, pois nenhuma das fontes confidenciais do WikiLeaks foi, até hoje, exposta pela organização. Bradley E. Manning, membro do Exército americano acusado de vazar informações confidenciais, foi exposto por um conhecido.

Extraído do sítio Observatório da Imprensa

NOVO MARACANÃ JÁ NASCE VELHO - André Trigueiro



O projeto do novo Maracanã confirma a exclusão de um item absolutamente importante para que qualquer projeto de engenharia do gênero possa ser chamado de “moderno e sustentável”. Apesar do variado cardápio de estádios de futebol espalhados pelo mundo com aproveitamento energético do Sol, a caríssima obra de reconstrução do Maracanã – quase R$ 1 bilhão – ignorou essa possibilidade.

Projeto do novo Maracanã
Estranho que isso tenha acontecido num país onde o Sol brilha em média 280 dias por ano. Ainda mais estranho que isso tenha acontecido na cidade que sediou a Rio-92, que vai sediar a Rio+20, e que está situada na mesma faixa de exposição solar que Sidney, na Austrália, que se notabilizou por realizar os primeiros jogos verdes da história, inteiramente abastecidos por energia solar.

Cobri como jornalista os Jogos de Sidney em 2000 e lembro-me das imensas estruturas com placas fotovoltaicas que captavam energia solar para iluminar as competições no estádio olímpico, no Superdome e em todas as instalações esportivas. A Vila Olímpica com 665 casas se transformou no maior bairro dotado de energia solar do planeta. O porta-voz do Comitê Olímpico Internacional, o australiano Michael Bland, justificou assim os investimentos em energia solar: “Queremos fazer com que a energia solar se torne popular em todos os países. É ridículo que, na Austrália, todas as casas não usem um captador de energia solar. Temos os telhados, temos o Sol, e os desperdiçamos. É um jeito estúpido de levar a vida”.

Que estupidez a nossa desperdiçar a imensa área das marquises do novo Maracanã – quase 29 mil metros quadrados – que poderiam abrigar um vistoso conjunto de placas fotovoltaicas capazes de gerar energia elétrica para até três mil domicílios. O custo varia de R$ 10 milhões a R$ 20 milhões, dependendo da tecnologia empregada. Alguém poderá dizer: “É caro demais! Não vale a pena”. Mas será que a forma usual de comprar energia está valendo a pena?

Vivemos num país onde, segundo o IBGE, a tarifa de energia elétrica subiu mais do que o dobro da inflação oficial nos últimos 15 anos. A opção pela solar – embora mais cara – oferece como vantagem a amortização do investimento em alguns poucos anos.

Alguém poderá dizer que a nova marquise – mais leve – poderia não suportar as tradicionais placas fotovoltaicas. Pois que se pensasse numa estrutura compatível. O que está em jogo é a possibilidade de tornar o estádio útil mesmo em dias que não aconteçam partidas de futebol. O Maracanã poderia ser uma usina de energia – ainda que com potência modesta – que além do benefício direto de gerar eletricidade, funcionaria também como elemento indutor de mais pesquisas e investimentos em energia solar no Brasil.

E quem disse que o custo de instalação de um projeto como esse só seria possível com recursos públicos? Se houvesse vontade política para promover inovação tecnológica no setor energético usando o novo Maracanã como garoto propaganda, seria perfeitamente possível sondar o interesse de grandes empresas com know how em energia solar que aceitassem instalar os equipamentos fotovoltaicos a custo zero, sem ônus para o governo. E o que essa empresa ganharia em troca? O direito de explorar a imagem do Maracanã como “estádio solar” graças à tecnologia oferecida pela empresa.

Alguém duvida que a imagem aérea do estádio, tanto na Copa de 2014 quanto nas Olimpíadas de 2016, alcançará bilhões de telespectadores pelo mundo? É mídia espontânea, superexposição positiva de imagem, e tudo aquilo que um bom negociador não levaria mais do que alguns minutos para convencer o investidor a botar a mão no bolso e bancar a ideia.

Com recursos públicos ou privados, o certo era fazer. Não basta instalar alguns coletores solares para aquecer a água do banho usadas pelos atletas nos vestiários. É pouco. Se os responsáveis pelo projeto do Maracanã marcaram um gol contra desprezando o Sol, os estádios de Pituaçu, em Salvador, e Mineirão, em Belo Horizonte, terão a energia solar como aliada para a produção de energia elétrica. Acorda Rio! Maracanã sem energia solar é como o Rio sem praia. Infelizmente os cariocas continuarão usando o Sol apenas para se bronzear. Símbolo da sustentabilidade por suas belezas naturais e por sediar grande conferências ambientais da ONU, o Rio de Janeiro continua com um Maracanã aquém do que merece.

* André Trigueiro é jornalista com pós-graduação em Gestão Ambiental pela Coppe/UFRJ onde hoje leciona a disciplina Geopolítica Ambiental, professor e criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC-RJ, autor do livroMundo Sustentável – Abrindo Espaço na Mídia para um Planeta em Transformação, coordenador editorial e um dos autores do livro Meio Ambiente no Século XXI, e Espiritismo e Ecologia, lançado na Bienal Internacional do Livro, no Rio, pela Editora FEB, 2009. É apresentador do Jornal das Dez e editor-chefe do programa Cidades e Soluções, da Globo News. É também comentarista da Rádio CBN e colaborador voluntário da Rádio Rio de Janeiro.

** Publicado originalmente no jornal O Globo, 27/10/11.

*** Extraído do sítio Envolverde

# NO OCCUPY LULA!

Charge do Bessinha- extraído do Blog da Dilma. 
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O PRECONCEITO COM LULA E OS RECALCADOS SOBRE O SUS - Daniela Abade (extraído do Blog @ Porra_Serra_) 

“1997 – o Ministro das Comunicações Sérgio Motta é internado no Albert Einstein. Ninguém fez campanha pra que ele usasse o sistema público de saúde ou qualquer piada.

2003 – Sérgio Amaral ex-ministro de FHC foi internado no Sírio-Libanês. Ninguém fez campanha para que ele usasse o sistema público. Ninguém fez piada.

2007 – Paulo Maluf foi internado no Sírio-Libanês. Ninguém fez campanha para que ele usasse o sistema público de saúde.

Não houve piada 2001-2010 – O ex-vice-presidente José Alencar foi internado inúmeras vezes no Sírio Libanês. Ninguém fez campanha pelo uso da rede pública ou piada.

Setembro de 2011 – Michel Temer é internado no Einstein. Ninguém fez piada. Ninguém pediu que ele usasse o sistema de saúde pública.

Resumo da ópera – se você exige que um político em especial use o sistema de saúde pública e esquece dos outros, você é um cínico. Se você faz piada com doença, você é um escroto.”

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Dilma concedeu entrevista coletiva após visitar o ex-presidente no hospital Sírio-Libanês em São Paulo e disse que ele está otimista e "com um maravilhoso humor"



Há seis anos atrás eu tive uma dor no olho. Só que a dor no olho era, na verdade, no nervo ótico, que faz parte do sistema nervoso. O meu nervo ótico estava inflamado, e era uma inflamação característica de um processo desmielinizante. Mais tarde eu descobri que a mielina é uma camada de gordura que envolve as células nervosas e que é responsável por passar os estímulos elétricos de uma célula para a outra. Eu descobri também que esta inflamação era causada pelo meu próprio sistema imunológico que, inexplicavelmente, passou a identificar a mielina como um corpo estranho e começou a atacá-la. Em poucas palavras: eu descobri, em detalhes, como se dá uma doença-auto imune no sistema nervoso central. Esta, específica, chama-se Esclerose Múltipla. É o que eu tenho. Há seis anos.

Os médicos sabem tudo sobre o coração e quase nada sobre o cérebro – na minha humilde opinião. Ninguém sabe dizer porque a Esclerose Múltipla se manifesta. Não é uma doença genética. Não tem a ver com estilo de vida, hábitos, vícios. Sabe-se, por mera observação estatística, que mulheres jovens e caucasianas estão mais propensas a desenvolver a doença. Eu tinha 26 anos. 

Mil médicos diferentes passaram pela minha vida desde então. Uma via crucis de perguntas sem respostas. O plano de saúde, caro, pago religiosamente desde sempre, não cobria os especialistas mais especialistas que os outros. Fui em todos – TODOS – os neurologistas famosos – sim, porque tem disso, médico famoso – e, um por um, eles viam meus exames, confirmavam o diagnóstico, discutiam os mesmos tratamentos e confirmavam que cura, não tem. Minha mãe é uma heroína – mãos dadas comigo o tempo todo, segurando para não chorar. Ela mesma mais destruída do que eu. E os médicos famosos viam os resultados das ressonâncias magnéticas feitas com prata contra seus quadros de luz – mas não olhavam para mim. Alguns dos exames são medievais: agulhas espetadas pelo corpo, eletrodos no córtex cerebral, “estímulos” elétricos para ver se a partes do corpo respondem. Partes do corpo. Pastas e mais pastas sobre mesas com tampos de vidro. Colunas, crânio, córneas. Nos meus olhos, mesmo, ninguém olhava.

O diagnóstico de uma doença grave e incurável é um abismo no qual você é empurrado sem aviso. E sem pára-quedas. E se você ta esperando um “mas” aqui, sinto lhe informar, não tem. Não no meu caso. Não teve revelação divina. Não teve fé súbita em alguma coisa maior. Não teve uma compreensão mais apurada das dores do mundo. O que dá, assim, de cara, é raiva. Porque a vida já caminha na beirada do insuportável sem essa foice tão perto do pescoço. Porque já é suficientemente difícil estar vivo sem esta sentença se morte lenta e degradante. Dá vontade de acreditar em Deus, sim, mas só se for para encher Ele de porrada.

O problema é que uma raiva desse tamanho cansa, e o tempo passa. A minha doença não me define, porque eu não deixo. Ela gostaria muitíssimo de fazê-lo, mas eu não deixo. Fiz um combinado comigo mesma: essa merda vai ter 30% da atenção que ela demanda. Não mais do que isso. E segue o baile. Mas segue diferente, confesso. Segue com menos energia e mais remédios. Segue com dias bons e dias ruins – e inescapáveis internações hospitalares.

A neurologista que me acompanha foi escolhida a dedo: ela tem exatamente a minha idade, olha nos meus olhos durante as minhas consultas, só ri das minhas piadas boas e já me respondeu “eu não sei” mais de uma vez. Eu acho genial um médico que diz “eu não sei, vou pesquisar”. Eu não troco a minha neurologista por figurão nenhum.

O meu tratamento custaria algo em torno de R$12.000,00 por mês. Isso mesmo: 12 mil reais. “Custaria” porque eu recebo os remédios pelo SUS. Sabe o SUS?! O Sistema Único de Saúde? Aquele lugar nefasto para onde as pessoas econômica e socialmente privilegiadas estão fazendo piada e mandando o ex-presidente Lula ir se tratar do recém descoberto câncer? Pois é, o Brasil é o único país do mundo que distribui gratuitamente o tratamento que eu faço para Esclerose Múltipla. Atenção: o ÚNICO. Se isso implica em uma carga tributária pesada, eu pago o imposto. Eu e as outras 30.000 pessoas que tem o mesmo problema que eu. É pouca gente? Não vale a pena? Todos os remédios para doenças incuráveis no Brasil são distribuídos pelo SUS. E não, corrupção não é exclusividade do Brasil.

O maior especialista em Esclerose Múltipla do Brasil atende no HC, que é do SUS, num ambulatório especial para a doença. De graça, ou melhor, pago pelos impostos que a gente reclama em pagar. Uma vez a cada seis meses, eu me consulto com ele. É no HC que eu pego minhas receitas – para o tratamento propriamente dito e para os remédios que uso para lidar com os efeitos colaterais desse tratamento, que também me são entregues pelo SUS. O que me custaria fácil uns outros R$2.000,00.

Eu acredito em poucas coisas nessa vida. Tenho certeza de que o mundo não é justo, mas é irônico. E também sei que só o humor salva. Mas a única pessoa que pode fazer piada com a minha desgraça sou eu – e faço com regularidade. Afinal, uma doença auto-imune é o cúmulo da auto-sabotagem.

Mas attention shoppers: fazer piada com a tragédia alheia não é humor, é mau gosto. É, talvez, falha de caráter. E falar do que não se conhece é coisa de gente burra. Se você nunca pisou no SUS – se a TV Globo é a referência mais próxima que você tem da saúde pública nacional, talvez esse não seja exatamente o melhor assunto para o seu, digamos, “humor”.

Quem me conhece sabe que eu não voto – não voto nem justifico. Pago lá minha multa de três reais e tals depois de cada eleição porque me nego a ser obrigada a votar. O sistema público de saúde está longe de ser o ideal. E eu adoraria não saber tanto dele quanto sei. O mundo, meus amigos, é mesmo uma merda. Mas nós estamos todos juntos nele, não tem jeito. E é bom lembrar: a ironia é uma certeza. Não comemora a desgraça do amiguinho, não.