26 julho 2012

CAPANGA DE SERRA AGRIDE JORNALISTA - Altamiro Borges


Pelo jeito, a crescente irritação do tucano José Serra – que empacou nas pesquisas eleitorais e tem insônias com os “blogs sujos” – contagiou a sua equipe. Um dos seus seguranças agrediu ontem, durante entrevista coletiva do eterno candidato, um repórter da rádio Jovem Pan FM. O jornalista levou um soco e um chute do capanga de Serra, que acabara de visitar o bairro de Parelheiros, na zona sul da capital paulista. A agressão gerou indignação entre os outros profissionais da imprensa.

Para o portal Terra, o jornalista relatou que o segurança tentou encerrar a coletiva aos gritos de “acabou, acabou” e empurrou o seu gravador. “O repórter manteve sua posição e respondeu que a entrevista ainda não acabara. ‘Então ele me deu um murro na parte esquerda das costas e chutou minha canela’, conta... Depois do ocorrido, segundo o repórter, o chefe da segurança do tucano telefonou pedindo desculpas e informou que o profissional já fora repreendido e seria transferido”.

O incidente não teve maior repercussão na seletiva mídia. Os jornalões deram apenas pequenas notinhas. Os telejornais nem se referiram ao caso. Imagine se o episódio tivesse ocorrido durante uma entrevista do petista Fernando Haddad. Seria o maior escândalo, com espaços para chamadas de capa e para comentários raivosos nas telinhas. A Associação Brasileira de Empresas de Rádio e Televisão (Abert) talvez até emitisse uma nota condenando os ataques à liberdade de expressão. Tudo normal. Segue a campanha...

Extraído do Blog do Miro 

25 julho 2012

PRÓ-SERRA, REINALDO ATACA "PISTOLAGEM DE ALUGUEL"


Blogueiro de Veja alia-se a José Serra na cruzada para estancar as fontes de financiamento de blogs como os de Paulo Henrique Amorim e Luís Nassif. Segundo ele, se nada for feito, "tudo é permitido".

247 – Era previsível. Dias atrás, José Serra, candidato tucano à prefeitura de São Paulo, disse ser alvo de uma rede nazista, financiada pelo PT, na internet. Ontem, o PSDB anunciou que entraria com uma ação para impedir a publicidade oficial em blogs como os dos jornalistas Paulo Henrique Amorim e Luís Nassif. Como a ideia mal repercutiu, hoje o porta-voz extraoficial do “serrismo”, Reinaldo Azevedo, declarou apoio à causa. E escreveu um contundente artigo contra a suposta pistolagem de aluguel dos “blogs sujos”. Não que seja contra a publicidade oficial em si em veículos como Veja, Folha e Globo – o que Reinaldo condena são anúncios de estatais na blogosfera. Leia, abaixo, seu artigo:


Há muito tempo o governo federal e as estatais são a principal fonte de financiamento (em alguns casos, a única) de um troço parecido com jornalismo, mas que é outra coisa. E que coisa é essa? Trata-se de uma central de difamação e de desqualificação de políticos da oposição, de figuras do Judiciário e da própria imprensa. O dinheiro público é usado com o objetivo de atender aos interesses do governo, mas mais particularmente de um partido: o PT.

Participam dessa rede de difamação sites, blogs, jornais, revistas e, se querem saber, até uma emissora de televisão, que é uma concessão pública. O PSDB pediu que a Procuradoria-Geral Eleitoral investigue o caso. E a turma, alimentada com o capilé oficial, saiu gritando: “Censura!” Censura uma ova! Alguns espertalhões, apostando na idiotia de seus próprios leitores, tentaram se defender: “As estatais patrocinam também páginas que apoiam outros partidos”. Eles escolhem a chicana. Nós escolhemos os fatos. Vamos lá.

Em primeiríssimo lugar, há uma grande, gigantesca mesmo!, diferença entre expressar uma opinião, um ponto de vista, um conjunto de valores — de direita, de centro, de esquerda, alinhada apenas com a estrelas — e existir com o propósito único de difamar este ou aquele. Era fatal que os mixurucas tentassem usar o meu blog como uma espécie de contraexemplo: “Vejam lá, de vez em quando, há anúncios de estatais no blog do Reinaldo Azevedo”. Há, sim! Só que não cuido disso e são anúncios da VEJA Online. Depois que fechei a revista Primeira Leitura, nunca mais falei com representantes da área de publicidade de empresas ou de agências. Mas ainda que fossem anúncios exclusivos no meu blog, será que estaríamos falando da mesma coisa?

Faço análise política segundo um ponto de vista. Recorro à ironia, sim, mas não ao deboche sob encomenda. Sou muito duro na defesa de alguns pontos de vista, mas nunca vou além dos fatos; sou judicioso a respeito deles, o que é coisa bem distinta. Argumento, argumento, argumento a mais não poder, de forma, às vezes, exaustiva. Acabo de botar o ponto final no livro “O País dos Petralhas II”, uma seleção de textos deste blog. Trata-se de um livro sobre política. Não há xingamentos ali, como não há em “O País dos Petralhas I”.

“Ah, mas você só fala mal do governo”. Ainda que fosse absolutamente legítimo alguém “só falar mal do governo” (ou da oposição, diga-se), nem isso é verdade. Elogiei há dois dias uma decisão da Advocacia Geral da União sobre as terras indígenas, que certamente contou com o apoio da presidente Dilma Rousseff. Quando começou aquela onda bucéfala contra a construção de Belo Monte, não entrei na chacrinha — porque nem tudo o que não é PT me interessa. Quando o Banco Central decidiu cortar a taxa de juros, fui dos poucos que aplaudiram a decisão — embora Guido Mantega não esteja entre as figuras públicas que excitam a minha imaginação (e, creio, a de ninguém). No caso do Código Florestal, as minhas posições não se distinguiram muito das do Planalto. Escrevi ontem um texto sobre a greve dos professores das universidades federais. Sou um crítico severo das escolhas feitas por Fernando Haddad. Mas basta ler o que escrevi para deixar claro que não aderi à pauta dos grevistas só porque, afinal, o governo está numa situação difícil… Eu não peço licença para gostar disso ou daquilo. E também não peço licença para não gostar.

À diferença do que dizem os promotores da esgotosfera — afinal, eu sou um dos seus alvos permanentes, como fica claro mais uma vez —, a área de comentários do meu blog não se confunde com a baixaria que eles promovem. Os leitores expressam, sim, o seu ponto de vista com muita clareza, mas os excessos são cortados. Se escapam uma inconveniência ou outra — é muita gente opinando —, advertido pelos próprios leitores, eu as excluo. Vocês sabem, no entanto, do que eles são capazes os leitores “deles”. Não têm limites! Patrocinados com dinheiro público, os responsáveis por aquelas páginas deixam que prosperem a calúnia, a injúria, a difamação, o deboche, o achincalhe puro e simples.

Acima, escrevo alguns parágrafos fazendo a distinção entre a sujeira e um trabalho de análise política, pautada por um conjunto de valores. É importante porque, reitero, o joio tenta se fazer trigo para igualar o vicioso ao virtuoso. Mas ainda falta uma questão essencial, definidora mesmo do que é o quê e de quem é quem. E começo a tratar dela com um princípio, um fundamento. Fosse pelo meu gosto, não haveria estatais no Brasil — nos EUA, por exemplo, esse debate seria impossível —, a não ser um ente ou outro ligados à segurança do estado e da sociedade, que dispensariam a propaganda. Nos EUA, por exemplo, esse debate seria ocioso. Também pelo meu gosto, o governo federal — neste governo ou em qualquer outro — jamais seria o maior anunciante do país, o que é uma distorção da democracia brasileira. Isso tudo, no entanto, existe.

Sendo assim, o centro do debate é outro. EXISTEM VEÍCULOS QUE TÊM ESTATAIS EM SUA CARTEIRA DE ANUNCIANTES. DADAS AS LEIS BRASILEIRAS, NÃO HÁ NADA DE ERRADO NISSO. POR QUE RENUNCIARIAM A UMA RECEITA QUE ESTÁ DISPONÍVEL E QUE É DISPUTADA POR MUITOS? Isso é da natureza do jogo. Como não dependem do governo federal ou das estatais para existir, esses veículos podem, então, fazer um jornalismo independente, que não se subordina à vontade desse ou daquele. Suas reportagens, análises e opiniões são pautadas, pelo interesse público e, claro!, pela linha editorial que adotam e pelo público com o qual querem manter o diálogo mais estreito. Dediquem-se à economia, à política, à cultura ou ao entretenimento, disputam o que chamo mercado de ideias, e ninguém lhe impõe a pauta. Quantas vezes vocês já leram na VEJA e nos demais veículos da grande imprensa críticas aos bancos ou à indústria automobilística, embora se possam ver em suas páginas anúncios dos bancos e da indústria automobilística? Esse é o mundo livre!

Mas há aqueles — e é disso que se cuida aqui — QUE SÓ EXISTEM PORQUE SÃO FINANCIADOS PELO DINHEIRO PÚBLICO. Sem a grana oficial ou sem o emprego numa estatal, não existiriam, não teriam como se financiar. SÃO, EM SUMA, DEPENDENTES DE QUEM OS FINANCIA E PASSAM A EXERCER, POIS, UM TRABALHO A SOLDO, SOB MANDO, SOB ENCOMENDA.

“Ah, Reinaldo, isso não pode ser feito também com empresas privadas? Não existem pistoleiros que estão a serviço de seus financiadores privados?” Claro que sim! E o fato é igualmente lamentável no que concerne à ética jornalística, mas mesmo aqui se note uma diferença: não estão lidando com dinheiro público. A verba de anúncio de governos e de estatais, meus caros, em última instância, pertence a todos os brasileiros — àqueles que apoiam e àqueles que não apoiam o governo; àqueles que votaram e àqueles que não votaram no PT.

Eis o caráter deletério dessa gente. Quando o governo federal e as estatais financiam páginas ou revistas que só existem em razão do dinheiro oficial; quando o governo federal e as estatais financiam páginas ou revistas que se dedicam à difamação de figuras da oposição, do Judiciário e da própria imprensa; quando o governo federal e as estatais sustentam essas redes de desqualificação, é evidente que assistimos a uma forma de privatização do estado, a serviço de um grupo.

Alguns oportunistas gritam agora: “Censura! Censura! Fulano quer censura!” É a tática de sempre! Recorrem às Santas Escrituras da liberdade de imprensa para defender o Asmodeus de todos os vícios, de todas as licenciosidades, de todas as baixarias.

Há, em suma, uma diferença entre os veículos que contam TAMBÉM com governos e estatais na sua carteira de anunciantes e aqueles que SÓ existem porque financiados por governos e estatais. Os anunciantes, minhas caras, meus caros, são o esteio da opinião livre. Sem eles, ficaríamos todos reféns do estado e de seus entes. Quanto mais, melhor! A liberdade de imprensa deve, sim, depender de todos os anunciantes para que não precise depender de nenhum em particular. É o segredo dos países livres. A subimprensa, a rede suja, não é nem quer ser livre. Existe para prestar serviço a quem paga as contas. Ocorre que estamos falando de dinheiro público. Vamos ver o que vai dizer o Ministério Público Eleitoral. Se não vir nada demais do que está em curso, então tudo é permitido.


Extraído do sítio Brasil 247

"VIREI UM LEPROSO JURÍDICO"



Com estratégia de se fazer de vítima, Carlos Cachoeira falou por apenas dez minutos à Justiça de Goiás, na tarde desta quarta-feira (25). Em lugar de contar o que sabe, preferiu fazer declaração de amor à Andressa Mendonça: "Ela me deu nova vida, te amo". Escárnio e dissimulação.

247 – Com a calçada da 11ª Vara Federal de Goiás, em Goiânia, tomada por manifestantes, o contraventor Carlinhos Cachoeira concedeu depoimento oficial ao magistrado Alderico Rocha de apenas dez minutos. Em lugar de falar o muito que sabe, porém, o maior réu apontado pela Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, preferiu se fazer de vítima."Virei um leproso jurídico. Hoje quem me deu voto foi só o desembargador Tourinho, que inclusive chamou os outros de justiceiros, mas um dia tudo vai ser esclarecido e eles vão saber quem eu sou", afirmou, referindo-se ao único desembargador que votou a fazer de um de seus pedidos de habeas corpus.

Além dessa frase, Cachoeira falou na direção da mulher Andressa Mendonça, que estava presente. Fez, então, uma declaração de amor. "Ela me deu nova vida, te amo". Entre os dois momentos de teatralidade, Cachoeira chegou a dizer que gostaria de travar um bom debate com seus acusadores do Ministério Público, mas alegou que, em razão de falhas que seu advogado Marcio Thomás Bastos vê no processo do qual é réu, preferia ficar calado. Analistas do caso acreditam que ele poderá ser condenado a 20 anos de prisão. Após depor, ele foi levado de volta à Brasília, para sua cela no presídio da Papuda.

A exemplo de Cachoeira, apontado pela PF como o chefe da organização criminosa, os outros seis réus ouvidos pela Justiça Federal optaram por depoimentos curtos. O primeiro a falar foi Lenine Araujo, por 13 minutos. Primo do contraventor, admitiu que trabalhou com ele, mas negou fazer parte de uma quadrilha. Ele se recusou a responder porque usava um rádio Nextel cuja conta era paga por Cachoeira. Gleyb Ferreira, igualmente acusado de participar da organização criminosa, negou tudo aos prantos.

O ex-vereador de Goiânia Wladmir Garcez, entre esses depoimentos, também se negou a falar sobre suas relações com Cachoeira. Disse apenas que conheceu os outros acusados por apresentação do próprio contraventor.


Extraído do sítio Brasil 247

ELEIÇÕES 2012 NA VENEZUELA: ANTECEDENTES E A ATUAL CONJUNTURA - Renata Peixoto de Oliveira



É muito provável que Chávez seja o candidato aclamado pelas urnas em outubro, mas é difícil prever as condições de seu governo nestes seis anos que o aguardariam.

O Surgimento do Fenômeno Chávez

“Compañeros: lamentablemente, por ahora, los objetivos que nos planteamos no fueron logrados en la ciudad capital; es decir, nosotros aquí en Caracas no logramos controlar el poder".
Hugo Chávez – 04 Fev.1992

O controverso presidente Venezuelano, Hugo Rafael Chávez Frías, surgiu como fenômeno político em um momento de grande convulsão política nacional. Após a substancial entrada de petrodólares na década de 1970, período em que a economia do país foi beneficiada pelas crises do Petróleo de 1973 e 1979, seguiu-se uma década de estagnação econômica, que pôs fim ao período da “bonança” em decorrência da queda dos preços do petróleo no mercado internacional, da descoberta de novas reservas em outras regiões do mundo e pela deterioração das condições de vida da população. Na década de 1980, o país que era, há décadas, conhecido pela sua condição de excepcionalidade frente aos demais vizinhos, por ser um importante Estado Petroleiro (Petro State) e por apresentar um dos mais estáveis e duradouros regimes democráticos da região1, viu ruir sua economia e suas instituições políticas.

A crise foi deflagrada em 1989, após o aumento das passagens de ônibus na cidade de Caracas, ocasionadas pelo aumento do preço da gasolina. Manifestantes e polícia se enfrentaram em uma batalha sangrenta que, além de mortos, feridos e de uma onda de saques, desestabilizou o governo de Carlos Andrés Perez (Ação Democrática), em seu segundo mandato2.

A crise se agravou com escândalos de corrupção que levaram ao processo de impedimento (impeachment) do presidente em 1993. No ano anterior, uma tentativa de golpe militar fracassada, liderada por um jovem tenente-coronel, veio ao encontro dos anseios de uma população cansada de viver à margem do Sistema Político e de não ter desfrutado dos benefícios que as elites tiveram em tempos áureos. Aquele jovem militar, que um dia sonhou em ser um jogador de beisebol, era Hugo Chávez, que apenas naquele momento, como ele mesmo disse, por ahora, desistiu de dar o tiro de misericórdia naquele regime político já em ruínas.

O Cenário eleitoral Venezuelano na última década
“Juro delante de Dios, juro delante de la Patria, juro delante de mi pueblo que sobre esta moribunda Constitución impulsaré las transformaciones democráticas necesarias para que la República nueva tenga una Carta magna adecuada a los nuevos tiempos. Lo juro". Discurso de posse de Hugo Chávez -02 de Fev. 1999
Após o malfadado golpe, Chávez passou dois anos na prisão até ser anistiado pelo então presidente Rafael Caldera3. No pleito eleitoral de 1998, incentivado a tomar a via eleitoral pelo velho líder comunista, Luis Michelena, ele lançou sua candidatura pelo Polo Patriótico, uma aliança popular formada por partidos de esquerda como Patria para todos, Partido Comunista e Movimiento al Socialismo (MAS). Chávez era o único candidato que se distanciava das velhas elites, dos partidos políticos tradicionais; era um sinal de novos tempos com seu projeto de refundação da República Venezuelana.

Em 1998, Chávez venceu seu principal oponente, Salas Romer ,que se apoiava em uma coligação que reunia os principais partidos políticos que serviram de base para o regime puntufijista, COPEI e AD. Como resultado das urnas, Hugo Chávez obteve 3.673.685 (56,20%) contra 2.613.161 (39,97%) obtidos por Romer.

No primeiro ano de governo, foi referendada uma nova constituição conhecida como constituição Bolivariana. Ademais, foram aprovadas as 49 leis habilitantes que permitiram ao presidente governar por decreto durante os primeiros meses de governo, o que facilitou a aprovação de duas importantes leis que reformaram o marco legal do setor petroleiro, em vigor desde 1943, sem consideráveis alterações4, a de hidrocarbonetos gasosos (1999) e, futuramente, a de hidrocarbonetos líquidos (2001).

Com a nova Constituição, o mandato do presidente da República passou de cinco para seis anos, instituiu-se a reeleição, o Congresso Nacional foi extinto sendo substituído pela Assembleia Nacional que passou a ser unicameral. Foram considerados nulos todos os mandatos estabelecidos pela constituição anterior, de 1961, e convocadas eleições gerais para julho de 2000. Novamente, Chávez sagrou-se vitorioso sobre seu principal oponente, dessa vez, Arias Cárdenas, obtendo cerca de 60% dos votos contra 37% do segundo colocado.

Nos dois primeiros anos de governo, o foco era o estabelecimento de uma nova constitucionalidade democrática, das bases de um novo regime político, além do alcance da estabilidade macroeconômica.

Mas com a reforma petroleira realizada em 2001, a oposição acirrou-se e a polarização política foi inevitável. Ocorreu uma disputa de interesses entre executivos da estatal petroleira PDVSA e governo, disputa esta que ganhou contornos dramáticos, gerando profunda instabilidade política. O resultado foi à tentativa fracassada de golpe contra o presidente Venezuelano, em 12 de Abril de 2002. Chávez chegou a ser mantido preso, durante dois dias, no Forte Tiúna. Mesmo retornando ao poder, com forte apoio popular, o governo Chávez não conseguia contornar a crise e os ataques vindos da oposição. Mais uma tentativa para derrubar o presidente do Palácio Miraflores, foi a greve do setor petroleiro, o chamado “paro” petroleiro de 2003.

Apenas em 2004, recobrada a estabilidade política e com uma maior margem de manobra pelas melhores condições macroeconômicas, foi realizado o chamado “recall”, uma inovação institucional que permite aos eleitores revogarem o mandato do presidente eleito. Para se revogar o mandato presidencial, precisa-se já ter passado a metade do mandato, com a obtenção da assinatura de 25% do eleitorado inscrito que participou no pleito que decidiu pela eleição da autoridade cujo mandato está sendo questionado. Ainda assim, no referendo revocatório, é necessário o comparecimento de 25% do eleitorado às urnas, e para que o mandato seja, finalmente, revogado, deve-se obter uma votação superior àquela obtida pelo mandatário quando eleito originalmente. Em 2004, a oposição conseguiu reunir o número de assinaturas necessárias, mas Chávez, novamente, confirmou mais uma vitória nas urnas, mantendo-se no cargo e com maior legitimidade para governar.

Tabela: Resultado Referendo Revogatório 2004

Alternativa                    NÃO                     SIM

Votos                       4.991.483             3.576.517 

Porcentagem              58,26%                41,74%

A alternativa NÃO significava não ao fim do mandato do presidente Chávez enquanto a alternativa SIM pelo fim do mandato de Hugo. Estes Resultados representam 94,49% do total de votos. Disponível em http://pdba.georgetown.edu/Elecdata/Venezuela/refpres2004.html

Finalmente, em 2006, Chávez confirmou sua última grande vitória eleitoral ao sagrar-se reeleito ao cargo de presidente da Republica Bolivariana da Venezuela. Novamente, com uma maioria esmagadora dos votos, Chávez venceu Manuel Rosales, do partido Un Nuevo Tiempo, que obteve apenas 36,9%, contra 62,84% dos votos.

Eleições, mídia e o futuro da Revolução Bolivariana

Eleito para o período 2007-2012, Chávez lança-se em uma nova batalha eleitoral, enfrentando a luta contra o câncer, desgastes em mais de uma década no poder e a voracidade da oposição apoiada por grandes veículos de comunicação. É importante lembrar que, em 2009, foi realizado um referendo a partir do qual o mecanismo de reeleição indefinida foi adotado e é por isto que Chávez briga pelo seu terceiro mandato consecutivo. Esta foi a última grande vitória do governo nas urnas, após ter perdido o plebiscito de 2007 para aprovação de emendas à constituição.

Nas eleições presidenciais deste ano, seu maior oponente é o jovem advogado Henrique Capriles, ex-governador do Estado de Miranda, o segundo mais populoso do país, e fundador do Partido de centro direita, Primero Justicia. Importante lembrar que Capriles foi preso em 2002 acusado de apoiar e participar do golpe contra Chávez.

O pleito eleitoral ocorrerá no dia 07 de Outubro, mas as pesquisas já apontam o favoritismo de Chávez e sua reeleição é dada como certa. A despeito das divergências e diferentes números apresentados pelos diferentes institutos de pesquisa, Chávez sempre aparece com um mínimo de 15% a mais nas pesquisas de intenção de voto, fato este que é contestado por seu oponente. Para reverter o quadro, Henrique Capriles está apostando na campanha corpo a corpo enquanto o presidente se mantém mais afastado devido a seus problemas de saúde.

A mídia Venezuelana, representada pelos canais de TV Venevisión, Televén e Globovisión, continua demonizando a figura do presidente. Enquanto isto, as redes estatais e a Telesur apoiam, claramente, a situação. O papel da mídia venezuelana tem sido fundamental na vida política do país na era Chávez, por isto mesmo, o golpe de 2002 também ficou conhecido como o “golpe midiático”, situação explorada no famoso documentário “A revolução não será televisionada”. Cabe lembrar que a RCTV, também figurou como canal opositor, apoiando o golpe de 2002 e, por este motivo, teve a renovação de sua concessão pública negada em 2007, fato que gerou duras críticas ao governo.

Outro fator importante a ser destacado é a entrada da Venezuela no Mercosul já que isso pode favorecer a campanha presidencial de Hugo Chávez, tendo em vista a postura do segundo candidato, que em um futuro próximo poderia promover uma reaproximação com os Estados Unidos e reverter o quadro de saída da Venezuela da Comunidade Andina de Nações, fato ocorrido em 2006 por divergências com a Colômbia e Peru.

Apesar do favoritismo, o cenário político Venezuelano ainda é incerto, principalmente pela doença do principal mandatário da nação e pelo próprio desgaste ou necessidade de trazer à tona novos líderes que apoiem a Revolução Bolivariana, depois de passados 12 anos no poder. É muito provável que Hugo Chávez seja o candidato aclamado pelas urnas em Outubro próximo, mas é difícil prever as condições de seu governo nestes seis anos que o aguardariam. Independentemente das futurologias acerca da permanência de Chávez no poder, é inegável o fato de que a sociedade Venezuelana passou por profundas transformações desde a sua chegada ao palácio Miraflores em 1999, tão inegável quanto o fato de que esta mesma sociedade almejava profundas mudanças quando deixou claro seu descontentamento com o Sistema Político por ocasião do Caracazo, dez anos antes. Com Chávez ou sem Chávez e mesmo com uma parcela expressiva da população apoiando a oposição, a maior parte da sociedade Venezuelana, dificilmente, aceitaria um retrocesso com relação ao investimento do governo em gastos sociais, a uma ampla participação política e a defesa da soberania do país. É por isso que Chávez segue como favorito, é por isso que a Revolução está em curso.

Renata Peixoto de Oliveira é Doutora em Ciência Política pela UFMG, professora e coordenadora do curso de Ciência Política e Sociologia da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA). Autora da tese Velhos fundamentos, novas estratégias? Petróleo, Democracia e a Política Externa de Hugo Chávez (1999-2010). UFMG. 2011.

1 O regime democrático foi estabelecido em 1958, com a assinatura do Pacto de Punto Fijo que deu origem a uma democracia pactuada cujos principais Partidos que se revezavam no poder eram a Ação Democrática e o Copei.
2 Perez foi presidente de 1974 a 1979, pela AD.
3 Fundador do COPEI, presidente por este Partido entre 1969-1974, mas eleito para um segundo mandato pelo Convergéncia (1994-1999).
4 Nem mesmo o processo de nacionalização, com a criação da Estatal PDVSA, ocorrido em 1976, mudou de maneira tão considerável o marco legal do setor petroleiro, tendo em vista que na década de 1980 esta empresa passou por um processo de internacionalização e teve início um processo de Apertura Petroleira, promovida pelo presidente Perez.

Extraído do sítio Brasil de Fato