27 fevereiro 2012

YOANI SÁNCHEZ É UMA FRAUDE

Por Iroel Sánchez, no blog cubano La Pupila Insomne:

O influente diário mexicano La Jornada publica um texto do professor e jornalista francês Salim Lamrani, que demonstra a falsa liderança da blogueira Yoani Sánchez na rede social twitter, alcançado não por seguimento natural de audiência, mas pela intervenção de tecnologias e grandes somas de dinheiro.

A quarta parte dos partidários de Yoani no twitter são fantasmas sem seguidores ou “mudos” que jamais escreveram um tuiter. Em junho de 2010, a blogueira chegou a ter, em um único dia, 700 novos adeptos, o que só é possível através de robôs de software – já que ela diz que tem acesso à internet apenas via celular ou a por uma conexão semanal em um hotel.

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Quem está por trás de Yoani Sánchez?Salim Lamrani

Yoani Sánchez, famosa blogueira cubana, é uma personagem peculiar no universo da dissidência cubana. Nenhum opositor foi beneficiado a exposição midiática tão massiva, nem de um reconhecimento internacional semelhante em tão pouco tempo. Após emigrar para a Suíça em 2002, ela decidiu retornar a Cuba dois anos depois, em 2004. Em 2007, integrou o universo de opositores a Cuba ao criar seu blog “Generación Y”, e se torna uma crítica feroz ao governo de Havana.

Nunca um dissidente cubano – muito menos no mundo – conseguiu tantos prêmios internacionais em tão pouco tempo e com uma característica particular: deram a Yoani Sánchez dinheiro suficiente para viver tranquilamente em Cuba até o resto de sua vida. Na realidade, a blogueira tem retribuído à altura os 250 mil euros que recebeu, o que equivale a mais de 20 anos do salário mínimo em um país como a França, a quinta potência mundial. O salário mínimo em Cuba é de 420 pesos, o equivalente a 18 dólares ou 14 euros. Isto é, Yoani Sánchez recebeu 1.488 anos de salários mínimos cubanos por sua atividade opositora.


Yoani Sánchez tem estreita relação com a diplomacia estadunidense em Cuba, como demonstra um documento “secreto”, por seu conteúdo sensível, emitido pela Seção de Interesses Norteamericanos (Sina). Michael Parmly, ex-chefe da Sina em Havana, que se reunia regularmente com Yoani Sánchez em sua residência diplomática pessoal como indicam os documentos confidenciais da Sina, manifestou a sua preocupação em relação à publicação dos documentos diplomáticos dos EUA pelo WikiLeaks: “Ficaria muito incomodado se as numerosas conversações que tive com Yoani Sánchez fossem publicadas. Ela poderia pagar as consequências por toda a sua vida”. A pergunta que vem imediatamente à mente é a seguinte: por quais razões Yoani Sánchez estaria em perigo se a sua atuação, como afirma, respeita o marco da legalidade?

Em 2009, a imprensa ocidental divulgou massivamente a entrevista que o presidente Barack Obama havia concedido à Yoani Sánchez, e que foi considerado um fato excepcional. Yoani também afirmou que enviou um questionário similar ao presidente cubano Raúl Castro e que o mesmo não se dignou a respondê-lo. No entanto, os documentos confidenciais da Sina, publicados por WikiLeaks contradizem essas declarações. Foi descoberto que foi um funcionário da representação diplomática estadunidense, em Havana, quem, de fato, redigiu as respostas à dissidente e não o presidente Obama.

Mais grave ainda, Wikileaks revelou que Yoani, diferente de suas afirmações, jamais enviou um questionário a Raúl Castro. O chefe da Sina, Jonathan D. Farrar, confirmou a informação através de um e-mail enviado ao Departamento de Estado: “Ela não esperava uma resposta dele, pois confessou que nunca enviou (as perguntas) ao presidente cubano”.

A conta de Yoani Sánchez no twitter

Além do sítio Generación Y, Yoani Sánchez tem uma conta no twitter com mais de 214 mil seguidores (registrados até 12 de fevereiro de 2012). Somente 32 deles moram em Cuba. Por outro lado, a dissidente cubana segue a mais de 80 mil pessoas. Em seu perfil, Yoani se apresenta da seguinte maneira: “Blogger, moro em Havana e conto a minha realidade através de 140 caracteres. Tuito, via sms sem acesso à web”. No entanto, a versão de Yoani Sánchez merece pouco crédito. Na realidade é absolutamente impossível seguir mais de 80 mil pessoas apenas por sms, a partir de uma conexão semanal em um hotel. É indispensável um acesso diário para isso na rede.

A popularidade na rede social twitter depende do número de seguidores. Quanto mais numerosos, maior a exposição da conta. Da mesma maneira, existe uma correlação entre o número de pessoas seguidas e a visibilidade da própria conta. A técnica que consiste em seguir diversas contas é utilizada para fins comerciais, assim como para a política durante as campanhas eleitorais.

O sítio www.followerwonk.com permite analisar o perfil dos seguidores de qualquer membro da comunidade do twitter. O estudo do caso Yoani Sánchez é revelador em vários aspectos. Uma análise dos dados da conta do twitter da blogueira cubana, realizada através de seu sítio, revela que a partir de 2010 houve uma atividade impressionante de sua conta. A partir de junho de 2010, ela se inscreveu em mais de 200 contas por dia, em uma velocidade que poderia alcançar até 700 contas em 24 horas. Isto é, passar 24 horas diretas fazendo isto – o que parece improvável. O resultado é que é impossível ter acesso a tantas contas em tão pouco tempo. Então, parece que isto só é possível através de um robô.

Da mesma maneira, descobrimos que cerca de 50 mil seguidores de Yoani são, na realidade, contas fantasmas ou inativas, que criam a ilusão de que a blogueira cubana goza de uma grande popularidade nas redes sociais. Na realidade, dos 214.062 perfis da conta @yoanisanchez, 27.012 são novos (e sem fotos) e 20.600 são de características de contas fantasmas com atividades inexistentes na rede (de 0 a 3 mensagens enviadas desde a criação da conta). Entre estes fantasmas que seguem Yoani no twitter, 3.363 não têm nenhum seguidor e somente 2.897 seguem a blogueira, assim como a uma ou duas contas. Algumas apresentam características bastante estranhas: não têm nenhum seguidor, seguem apenas Yoani e emitiram mais de duas mil mensagens. 

Esta operação destinada a criar uma popularidade fictícia, via twitter, é impossível de ser realizada sem acesso à internet. Necessita de um apoio tecnológico e um orçamento consequente. Segundo uma investigação realizada pelo diário La Jornada, com o título “El ciberacarreo, la nueva estrategia de los políticos en Twitter”, sobre operações que envolviam os presidenciáveis mexicanos, diversas empresas dos Estados Unidos, Ásia e América Latina oferecem este serviço de popularidade fictícia (“ciberacarreo” ou em português ciber transporte) por elevados preços. “Por um exército de 25 mil seguidores inventados no twitter , escreveu o jornal, pagam até dois mil dólares, e por 500 perfis manejados para 50 pessoas é possível gastar entre 12 mil a 15 mil dólares”.

Yoani Sánchez emite, em média, 9,3 mensagens por dia. Em 2011, a blogueira publicou uma média de 400 mensagens por mês, O preço de uma mensagem em Cuba é de um peso convertido (CUC), o que representa um total de 400 CUC mensais. O salário mínimo em Cuba é de 420 pesos cubanos, ao redor de 16 CUC. Yoani Sánchez gasta, por mês, o equivalente a dois anos de salários mínimos em Cuba. Assim, a blogueira gasta em Cuba com o twitter, um valor correspondente, caso fosse francesa, a 25 mil euros mensais ou 300 mil euros por ano. Qual a procedência desses recursos para estas atividades?

Outras perguntas surgem de maneiras inevitáveis. Como Yoani Sánchez pode seguir a mais de 80 mil contas sem acesso permanente a internet? Como conseguiu se inscrever em 200 contas diferentes por dia, desde de junho de 2010, com índices que superam até 700 contas/dia? Quantas pessoas seguem realmente as atividades da opositora cubana na rede social? Quem financia a criação das contas fictícias? Qual o objetivo? Quais os interesses escusos detrás na figura de Yoani Sánchez?

* Salim Lamrani é graduado na Universidade de Sorbone, professor encarregado dos cursos da Universidade Paris-Descartes e da Universidade Paris-Est Marne-la-Vallée e jornalista francês, especialista nas relacões entre Cuba e Estados Unidos. Autor de Fidel Castro, Cuba y Estados Unidos (2007) e Doble Moral. Cuba, la Unión Europea y los derechos humanos (2008), entre outros livros.

** Tradução de Sandra Luiz Alves


La Jornada: ¿Quién está detrás de Yoani Sánchez? - Salim Lamrani

Extraído do Blog do Miro, de Altamiro Borges

O HORÁRIO DE VERÃO TERMINOU: VALEU A PENA? - Donarte Nunes dos Santos*

Embora a ideia de Horário de Verão (HV) tenha sido especulada por Benjamin Franklin (1706-1790), que propunha que as pessoas se levantassem mais cedo durante o verão, e, muito embora o astrônomo neozelandês George Hudson (1867-1946) tenha apresentado, em 1895, por escrito, uma proposta à Royal Society da Nova Zelândia, o verdadeiro pai da ideia foi o construtor inglês William Willett (1856-1915).

Os argumentos utilizados por Willett eram os seguintes: (i) mais tempo para o lazer, (ii) menor criminalidade e (iii) redução no consumo de luz artificial. William não chegou a ver a sua ideia sendo posta em prática, e o primeiro país a efetivá-la foi a Alemanha, em 1916. Muitos países seguiram os germânicos, pois a economia de carvão, principal fonte de energia da época, era necessária em virtude da Primeira Guerra Mundial.

O Brasil adotou a então chamada “Hora de Economia de Luz no Verão” em 1931. Em 1963 ela viria a ser chamada de “Hora de Verão”, e, finalmente, de “Horário de Verão” em 1964, passando a ter caráter permanente após o decreto no 6.558 de 8 de setembro de 2008. 

Tanto Hudson quanto Willett tinham razões geográficas para acreditar em suas ideias. Londres tem latitude norte de 51° 30? 28?, enquanto Wellington tem latitude sul de 43° 31' 48". Ambas as capitais, respectivamente, estão em latitudes superiores aos Trópicos de Câncer e Capricórnio (23º 27').

Ora, por razões também geográficas, a economia de energia com a troca de horário se dá de forma mais efetiva em áreas que estejam totalmente ao norte do Trópico de Câncer ou ao sul do Trópico de Capricórnio, o que, no caso do Brasil, não se aplica inteiramente aos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Bahia. Em nível de Brasil, portanto, o terceiro argumento de Willett está em xeque.

Vejamos isso na prática e em termos comparativos: segundo o Atlas Sócioeconômico do Rio Grande do Sul, a capital gaúcha consome em média um mínimo de 2.739,72 e um máximo de 8.779,31 MWh por dia (2008). Conforme o “Resultado Preliminar da Implantação do HV 2011/2012”, publicado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), o HV, que durou 133 dias e atingiu 10 Estados, poupou, somente na Região Sul, 153.000 MWh. Ou seja, economizou uma média de 1.150,37 MWh por dia. Ocorre que o Estado do RS despende 40% daquilo que é produzido de energia para a Região Sul, e, levando-se em conta isso, a energia economizada durante a vigência do HV contribuiu para abastecer Porto Alegre apenas por breves 9h.

Mais um exemplo: com vinte unidades geradoras, Itaipu produz 92.245.539 megawatts-hora (MWh), abastecendo somente 16,99% da energia consumida no Brasil. Com apenas uma unidade geradora um município de 1,5 milhão de habitantes poderia ser abastecido – Porto Alegre possui 1.413.094 hab. (IBGE 2011). Assumindo-se o que informa o ONS, no mesmo relatório, somente para o Rio Grande do Sul, era esperada uma economia de 232 megawatt (MW). Isso equivale a apenas 33,14% de uma das vinte unidades geradoras de Itaipu. Os 10 Estados (das Regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste, além de Distrito Federal e Bahia) somados deveriam ter poupado 2.717 MW, o que representa escassos 4,66% do total anual nacional, que, em 2011, foi de 58.238 MW. Considerando-se os mencionados dados oficiais, pode-se dizer que o HV é bastante questionável.

Valeria muito mais investir nas Fontes de Energia Renováveis, preconizadas fortemente, pelo menos, desde a década de 1970. O Parque Eólico de Osório/RS, por exemplo, apenas para se citar o benefício energético (deixando-se de lado, portanto, os benefícios tecnológicos, ambientais e sócio-econômicos) gera uma energia anual capaz de abastecer o consumo residencial de cerca de 650.000 pessoas, ou seja, pouco menos da metade da população da capital gaúcha.

Assim, se considerarmos ainda que, desde 2004, a demanda de energia do RS cresceu cerca de 33,21% e que, na prática, as lojas, empresas, shoppings, órgãos públicos e estabelecimentos mantêm luzes acesas e aparelhos ligados durante boa parte do dia, mesmo durante o HV – o que gerou, por exemplo, o novo recorde de demanda no RS (5.906 MW, às 14h42min do último dia 15) – veremos que é urgente o real investimento no Setor de Energia. Do contrário, parece ser mais adequado que fiquemos com o primeiro argumento de Willett: o do lazer. Este sim, com seus gastos associados, é genuíno, real e verdadeiro quando estamos a falar de HV.

* Professor de Geografia da Prefeitura Municipal de Porto Alegre/RS.

Extraído do sítio do Jornal do Brasil

SERRA E AS PRIVATIZAÇÕES. E A FILHA? - Altamiro Borges

Em sua coluna no Estadão, o eterno candidato José Serra, que agora aceitou o “enterro” na disputa para a prefeitura paulistana, finalmente resolveu falar sobre as privatizações. Não sobre o livro “A privataria tucana”, que ele considera um “lixo” – realmente houve muita sujeira naquele processo entreguista. Mas sobre o leilão dos aeroportos patrocinado pela presidenta Dilma Rousseff.


De cara, o tucano aproveita para tirar uma casquinha. “As manobras retóricas do petismo são toscas... Assegura que não houve ‘privatização’ de aeroportos, mas ‘concessão’. Ora, no passado e no presente, os petistas chamavam e chamam as ‘concessões’ tucanas (estradas em São Paulo, telefonia, energia elétrica, ferrovias, etc.) de ‘privatização’”.

O cinismo do vende-pátria

Na sequência, Serra elogia os leilões em que ele batia o martelo e afirma que as concessões atuais são de péssima qualidade. “O padrão petista de privatização chega ao dinheiro público”, blefa, na maior caradura. E mais: as concessões do governo Dilma não garantiriam a eficiência dos serviços e teriam prejudicado as melhores empresas nacionais e internacionais.

É muito cinismo! A marca da privatização no reinado tucano foi exatamente a do uso de bilhões do BNDES. A grana foi usada para entregar o patrimônio público a preço de banana. Um crime de lesa-pátria. Para piorar, parte deste dinheiro foi desviada para as contas de alguns expoentes do tucanato, como documenta o livro de Amaury Ribeiro. A privatização converteu-se em privataria!

Cadê a CPI da Privataria?

Quanto à eficiência das privatizações tucanas, basta analisar quem são as empresas recordistas de reclamações no Procon. Como já postei neste blog, discordo do recente leilão dos três aeroportos. Considero um grave erro político, com duvidosos resultados econômicos. Mas não dá para comparar com a ofensiva privatista promovida pelo governo neoliberal e entreguista de FHC/Serra.

Entre outros efeitos negativos, o leilão serve para os tucanos desviarem o foco sobre as criminosas privatizações na era tucana – principalmente no momento em que se tenta instalar a CPI da Privataria. Não é para menos que Serra ousou tratar do tema no Estadão. Ele acha que sua filha, genro e ex-tesoureiro, acusados de desviar a grana da privataria para os paraísos fiscais, já foram absolvidos!

Extraído do Blog do Miro, de Altamiro Borges

A FALTA DA VOZ BRASILEIRA NA GLOBO - Urariano Mota

Recife (PE) - Mais de uma vez eu já havia notado que os apresentadores de telejornalismo têm uma língua diferente da falada no Brasil. Mas a coisa se tornou mais séria quando percebi que, mesmo fora do trator absoluto do Jornal Nacional, os apresentadores locais, de cada região, também falavam uma outra língua. O que me despertou foi uma reportagem sobre o trânsito na Avenida Beberibe, no bairro de Água Fria, que tão bem conheço. E não sei se foi um despertar ou um escândalo. Olhem Clique aqui



Na ocasião, o repórter, o apresentador, as chamadas, somente chamavam Beberibe de Bê-Bê-ribe. O que era aquilo? É histórico, desde a mais tenra infância, que essa avenida sempre tenha sido chamada de Bibiribe, ainda que se escrevesse e se escreva Beberibe. 

Ligo para a redação da Globo Nordeste. Um jornalista me atende. Falo, na minha forma errada de falar, como aprenderia depois:

- Amigo, por que vocês falam bê-bê-ribe, em vez de bibiribe?

- Porque é o certo, senhor. Bé-Bé é Bebê.

- Sério? Quem ensina isso é algum mestre da língua portuguesa?

- Não, senhor. O certo quem nos ensina é uma fonoaudióloga.

Ah, bom. Para o certo erram de mestre. Mas daí pude ver que a fonoaudióloga como autoridade da língua portuguesa é uma ignorância que vem da matriz, lá no Rio. Ou seja, assim me falou a pesquisa: 

“Em 1974, a Rede Globo iniciou um treinamento dos repórteres de vídeo... Nesse período a fonoaudióloga Glorinha Beuttenmüller começou a trabalhar na Globo. Como conta Alice-Maria, uma das idealizadoras do Jornal Nacional: “sentimos a necessidade de alguém que orientasse sua formação para que falassem com naturalidade”.

Foi nesta época, que Beuttenmüller, começou a uniformizar a fala dos repórteres e locutores espalhados pelo país, amenizando os sotaques regionais. No seu trabalho de definição de um padrão nacional, a fonoaudióloga se pautou nas decisões de um congresso de filologia realizado em Salvador, em 1956, no qual ficou acertado que a pronúncia-padrão do português falado no Brasil seria do Rio de Janeiro”. (Destaque meu.)

Mas isso é a morte da língua. É um extermínio das falas regionais, na voz dos repórteres e apresentadores. Os falares diversos, certos/errados aos quais Manuel Bandeira já se referia no verso “Vinha da boca do povo na língua errada do povo/ Língua certa do povo”, ganha aqui um status de anulação da identidade, em que os apresentadores nativos se envergonham da própria fala. Assim, repórteres locais, “nativos”, se referem ao pequi do Ceará como “pê-qui”, enquanto os agricultores respondem com um piqui.

De um modo geral, as vogais abertas, uma característica do Nordeste, passaram a se pronunciar fechadas: nosso é, de “E”, virou ê. E defunto (difunto, em nossa fala “errada”) se transformou em dê-funto. Coração não é mais córa-ção, é côra-ção. Olinda, que o prefeito da cidade e todo olindense chamam de Ó-linda, nos telejornais virou Ô-linda. Diabo, falar Ó-linda é histórico, desde Duarte Coelho. Coisa mais bela não há que a juventude gritando no carnaval “Ó-linda, quero cantar a ti esta canção”. Já Ô-linda é de uma língua artificial, que nem é do sudeste nem, muito menos, do Nordeste. É uma outra coisa, um ridículo sem fim, tão risível quanto os nordestinos de telenovela, com os sotaques caricaturais em tipos de físicos europeus.

Esse ar “civilizado”de apresentadores regionais mereceria um Molière. Enunciam, sempre sob orientação do fonoaudiólogo, “mê-ninô”, “bô-necÔ”, enquanto o povo, na história viva da língua, continua com miní-nu e buneco. O que antes era uma transformação do sotaque, pois na telinha da sala os apresentadores falariam o português “correto”, atingiu algo mais grave: na sua imensa e inesgotável ignorância, eles passaram a mudar os nomes dos lugares naturais da região.

O tão natural Pernambuco, que dizemos Pér-nambuco, se pronuncia agora como Pêr-nambuco. E Petrolina, Pé-tró-lina, uma cidade de referência do desenvolvimento local, virou outra coisa: Pê-trô-lina. E mais este “Nóbel” da ortoépia televisiva: de tal maneira mudaram e mudam até os nomes das cidades nordestinas, que, acreditem, amigos, eu vi: sabedores que são da tendência regional de transformar o “o” em “u”, um repórter rebatizou a cidade de Juazeiro na Bahia. Virou JÔ-azeiro! O que tem lá a sua lógica: se o povo fala jUazeiro, só podia mesmo ser Jô-azeiro.

Extraído do sítio Direto da Redação