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26 abril 2013

GREVE DE FOME E PRISÃO SEM FIM: O QUE ESTÁ ACONTECENDO EM GUANTÁNAMO? - Cora Currier

Obama disse que iria fechar a penitenciária de segurança máxima no primeiro mandato, mas ainda não cumpriu a promessa.

A greve de fome começou em fevereiro deste ano, após guardas revistarem exemplares do Alcorão durante uma inspeção nas celas. No entanto, o ato se tornou algo bem maior do que um protesto contra o desrespeito ao livro sagrado.


Prisioneiros em Guantánamo são escoltados para suas celas por militares. Já são mais de 90 em greve de fome desde fevereiro

Na ação, militares norte-americanos disseram que os detentos haviam escondido “armas improvisadas, comida e remédios não-autorizados” na lombada dos exemplares. Segundo eles, a revista foi feita seguindo o padrão, por tradutores muçulmanos.

No entanto, de acordo com os advogados, os presos chegaram a propor que os livros fossem jogados no lixo, tamanho o desrespeito. Inicialmente, os militares não aceitaram descartar os alcorões, mas agora dizem que é opcional.

Outras revistas a exemplares do Alcorão já haviam desengatilhado greves de fome em 2005. Desta vez, é unânime – desde a Cruz Vermelha até o comandante do Comando-Sul do Pentágono – a opinião de que a greve foi causada pela crescente frustração e desespero dos presos.

São mínimas as chances de a prisão de Guantánamo ser fechada ou que os detentos sejam transferidos para outro lugar em um futuro próximo. O último a deixar a prisão, no ano passado, saiu de lá morto.

O general John Kelly, chefe do Comando Sul norte-americano, disse em março que os presos ouviram o discurso de posse do presidente Barack Obama e perceberam que não houve nenhuma menção a eles. “Isso provocou frustração e eles querem aumentar a temperatura, voltar à mídia”, disse Kelly.

Em um relato publicado no New York Times, Samir Moqbel, detento do Iêmen em greve de fome, afirmou esperar que “por causa do nosso sofrimento, os olhos do mundo se virem novamente para Guantánamo antes que seja tarde.”

Outro preso, o saudita Shaker Aamer, também escreveu um artigo, dizendo que a greve de fome é diferente das anteriores que já fez. Segundo os advogados, o jejum foi adotado por muito mais detentos do que os militares admitem. Nesta sexta-feira (26/04), o número de grevistas chegou a 97, mais da metade do total. Dois presos tentaram cometer suicídio.

Leia detalhes sobre o caso:

HOUVE CONFLITOS ENTRE OS GUARDAS E OS PRESOS?

Sim. Na manhã de 13 de abril, soldados com equipamentos antimotim transferiram 60 detentos da cela de convivência conjunta para celas individuais. Os guardas atiraram com balas não-letais, após dizerem que os prisioneiros tinham armas improvisadas, como garrafas de plástico cheias de pedras e cabos de vassoura.

Comandantes afirmaram ao jornal Miami Herald que os detentos estavam ignorando as ordens. Eles supostamente estariam cobrindo as câmeras de monitoramento, cutucando guardas através das grades, jogando urina nos militares e se recusando a se trancar nas celas para inspeções durante a noite.

Em janeiro, houve um conflito no campo de futebol da prisão, no qual os guardas também atiraram balas “não-letais” nos presos.

Em comunicado essa semana, os militares afirmaram que os detentos foram presos para serem monitorados 24 horas por dia. Em anos recentes, a cela comum foi transformada em dormitório. Agora, segundo o Miami Herald, os presos estão de novo mantidos em celas individuais, sem TV e sem seus documentos pessoais.

Os advogados dos detentos afirmam que os guardas endureceram o tratamento nos últimos meses, confiscando cartas e itens pessoais.

Omar Farah, do Centro de Direitos Constitucionais, contou que ele e outros advogados temem que a transferência para celas individuais os impeça de saber o que está acontecendo com a greve de fome. “Temos obtido informações principalmente através do relato de outros presos”, afirmou.

OS DETENTOS EM GREVE DE FOME ESTÃO SENDO PUNIDOS?

Pelo menos um afirmou que os grevistas estão sendo forçados a tomar água da torneira, além de a administração ter abaixado a temperatura das celas. Os militares negam.

MAS E A ALIMENTAÇÃO FORÇADA?

Até meados de abril, 15 detentos estavam sendo alimentados à força com suplementos nutricionais, por meio de tubos no nariz. Militares alegam que os presos se apresentam voluntariamente para as sessões, mesmo aqueles que desmaiam durante as sessões. Outros presos são amarrados durante o procedimento.


Moqbel escreveu no NYT que em março ele chegou a passar 26 horas amarrado. “Duas vezes por dia eles me amarram a uma cadeira na minha cela. Meus braços, minhas pernas e minha cabeça são amarrados. Eu nunca sei que horas eles vão chegar”, relatou.

A Cruz Vermelha e outros grupos de direitos humanos são contra a alimentação forçada, justificando que os prisioneiros têm o direito de escolha. Já os militares sustentam que seria desumano deixa-los morrer de fome.

QUANTOS PRISIONEIROS AINDA ESTÃO EM GUANTANAMO?

166. Desde 2002, 779 pessoas passaram pela prisão. Nenhum novo detento foi trazido pela administração Obama, e os penúltimos a sair foram dois muçulmanos chineses, transferidos para El Salvador no ano passado. Adnan Latif, um iemenita, suicidou-se em setembro. Foi o nono detento a morrer na prisão.

OS EUA CONSIDERAM OS PRISIONEIROS TERRORISTAS PERIGOSOS?

Não. Na verdade, cerca de metade dos detentos atualmente em Guantánamo teve a libertação aprovada. Veja como está a situação legal dos presos:

56 deles receberam permissão para serem devolvidos aos seus países ou transferidos para outros. Aqui estão os nomes.

30 iemenitas também foram liberados, mas continuam na prisão por causa da situação de insegurança no país, segundo os EUA.

24 pessoas ainda “podem ser julgadas”.

46 estão sendo mantidos indefinidamente presos por serem considerados “muito perigosos para serem soltos”, mas não estão sendo devidamente julgados.

Sete estão sendo julgados por comissões militares, ente eles cinco acusados de organizar os ataques de 11 de setembro.

Três foram condenados por comissões militares e estão cumprindo a sentença. Outros quatro foram condenados e depois transferidos para seus países.

Os EUA não publicaram os nomes dos detentos em greve de fome, mas alguns estão na lista dos que já foram liberados, porém, continuam presos.

POR QUE OS PRESOS LIBERADOS AINDA NÃO FORAM SOLTOS?

Nos últimos anos o Congresso dos EUA proibiu a transferência de prisioneiros para o país, o que tornou mais difícil o envio deles a outros países. Grupos de direitos humanos estão pressionando Obama, sem sucesso. Desde que a lei entrou em vigor, quatro detentos foram enviados para o exterior, mas em todos os casos as transferências foram ordenadas pela justiça ou resultado de um acordo com a comissão militar – o que é permitido pelo Congresso norte-americano.

Quanto aos iemenitas presos, Obama anunciou a suspensão das transferências para o Iêmen depois de um atentado fracassado no Natal de 2009. Há também temor de reincidência – segundo um relatório do Diretor de Inteligência Nacional, cerca de 16% dos detentos libertados haviam voltado a atividades de militância.

Mesmo assim, o presidente do Iêmen, que tem trabalhado proximamente com os EUA em ações de contraterrorismo – inclusive em uma campanha com drones dentro do território do país – recentemente se referiu a Guantánamo como uma “tirania”.

O Reino Unido também fez lobby pela libertação de um detento em greve de fome, Shaker Aamer, que tem residência no país. O comissário para Direitos Humanos da ONU afirmou que a detenção por tempo indefinido em Guantánamo “é uma clara violação da legislação internacional”.

POR QUE OBAMA AINDA NÃO FECHOU GUANTÁNAMO?

A Casa Branca diz que “permanece comprometida” em fechar Guantánamo, mas seus planos foram paralisados pela oposição do Congresso. Um dos primeiros atos de Obama quando se tornou presidente foi uma ordem executiva para desativar a prisão no prazo de um ano. Ele não descartou a detenção militar contínua ou o julgamento em comissões militares, mas suspendeu temporariamente as comissões e exigiu uma revisão da situação dos detentos.

Em um discurso poucos meses depois, Obama disse que “a existência de Guantánamo provavelmente criou mais terroristas ao redor do mundo do que jamais deteve” e provocou “um retrocesso na autoridade moral que é a moeda mais forte dos EUA no mundo”. A partir daí, o Congresso aprovou restrições – e a administração abandonou muitos de seus esforços para fechar Guantánamo.

Em janeiro, o Departamento de Estado desativou o escritório responsável por realocar os detentos. Mesmo que as restrições de transferência fossem flexibilizadas, ainda não é claro o que aconteceria com os prisioneiros que estão detidos por tempo indefinido. Uma nova revisão periódica dos processos dos detidos foi criada em 2011, mas ainda não começou de fato.

O QUE OS OBSERVADORES INTERNACIONAIS PODEM SABER SOBRE GUANTÁNAMO?

Não muito além daquilo que os militares querem. As reclamações sobre a qualidade da água, o número de grevistas e as revistas ao Alcorão ressaltam as limitadas – e por vezes unilaterais – informações que saem da prisão.

Os detentos se comunicam principalmente através de seus advogados. Os militares controlam o acesso à prisão. Recentemente, repórteres foram expulsos da prisão por algumas semanas.

Há pouco tempo, um fotógrafo da Reuters relatou como foi sua visita. Segundo ele, o passeio foi extremamente monitorado, incluindo restrições do que se podia ou não fotografar. Carol Rosenberg, do Miami Herald, também descreveu recentemente as restrições a repórteres que cobrem Guantánamo, como ela faz há 11 anos. Ela, por exemplo, nunca obteve permissão para conversar com um preso.

A Cruz Vermelha tem acesso aos prisioneiros e está em Guantánamo desde o início da greve, mas suas descobertas raramente são publicadas. Na semana passada, o presidente do grupo classificou a situação dos prisioneiros como “insustentável”.

* Texto da Agência Pública baseado em reportagem do ProPublica. Leia aqui o original em inglês.

Extraído do sítio Opera Mundi

12 fevereiro 2013

ASSANGE DESAFIA EUA A TORNAR PÚBLICA POLÍTICA SOBRE O USO DE DRONES

Para jornalista australiano, não há sinal mais claro de decadência de uma nação quando seu governo mata arbitrariamente seus cidadãos.


Em uma rara aparição na televisão, o fundador do site WikiLeaks, Julian Assange, desafiou as autoridades dos Estados Unidos e o presidente Barack Obama a permitir a consulta pública ao documentos secreto sobre os ataques com drones (aviões militares não-tripulados) contra cidadãos norte-americanos suspeitos de pertencerem à rede terrorista Al Qaeda. Para o jornalista, trata-se de uma decisão arbitrária que evidencia a decadência dos Estados Unidos.

Julian Assange, australiano de 41 anos que desatou a fúria do governo Obama ao revelar milhares de mensagens secretas, condenou a controvertida autorização do presidente Barack Obama de matar cidadãos americanos que tenham conspirado com a rede terrorista Al Qaeda.

"Não vejo um queda maior (de um sistema) quando o Poder Executivo pode matar arbitrariamente seus próprios cidadãos, em segredo, sem que se difunda publicamente nenhuma decisão", declarou Assange durante o programa Real Time de Bill Maher, no canal HBO.

"É por isso que precisamos de organizações como o WikiLeaks. Eu peço a qualquer um na Casa Branca que tenha acesso a esses documentos e procedimentos que faça o que for necessário para que os recebamos. Seu anonimato será respeitado", enfatizou.

Assange falou com Bill Maher, jornalista defensor do WikiLeaks, por videoconferência da embaixada do Equador em Londres, onde se encontra refugiado há seis meses para escapar de uma extradição para a Suécia, onde é acusado em um caso de estupro, no qual alega inocência.

Extraído do sítio Opera Mundi

03 janeiro 2013

O GRANDE IRMÃO E SEU OLHO - Mauro Santayana

Estamos no universo orwelliano de “1984”. É quase impossível a alguém andar sem ser monitorado por alguma câmera; vigiado, passo a passo, onde quer esteja, pelos satélites; localizado quando usa o aparelho telefônico celular, e assassinado por controle remoto. Todo esse sistema, que deixa anacrônica a ficção, é dominado, em escala mundial, pelo grande irmão, o governo norte-americano. O sistema financeiro, industrial e militar, que manipula o poder, conta com as maiores empresas internacionais de comunicação eletrônica, por ele controladas. 

Contra o voto de pequena minoria, o Congresso dos Estados Unidos acaba de renovar lei do Governo Bush, autorizando a escuta telefônica e o monitoramento de comunicação eletrônica sem autorização judicial, incluindo emails, de cidadãos estrangeiros de todo o mundo, por parte dos serviços secretos norte-americanos – sobrepondo-se à soberania de todas as outras nações.

Embora a desculpa seja a luta contra o terrorismo, não há como saber onde acaba a preocupação com a “segurança nacional” dos Estados Unidos e começa a espionagem comercial e tecnológica, ou a coleta de informações que sirvam para pressionar ou chantagear “inimigos” dos EUA, como os ativistas da democracia ou da transparência, como Julian Assange.

Todos nós, a começar pelos nossos líderes políticos, podemos ser espionados pelos vários serviços norte-americanos, como a CIA e o NSA. Dentro da paranóia ianque, qualquer estrangeiro, que não for seu vassalo e assalariado, é inimigo potencial de seu país.

O monitoramento de “inimigos” dos EUA pelos seus serviços de informação não é novidade. Ao longo do século XX, jornalistas, políticos, lideranças sindicais e sociais de todos os continentes foram monitoradas, perseguidas, e, em muitos casos, diretamente seqüestradas e assassinadas por agentes da CIA, ou matadores por ela contratados – conforme vários livros de ex-agentes, que deixaram suas atividades.

Essa legislação de exceção, aprovada logo após 11 de setembro, foi agora incorporada às leis norte-americanas ordinárias. O que os Estados Unidos estão dizendo ao mundo é que, ao aprovar essa lei, colocam sob a proteção de seu poderio militar qualquer assassino a soldo de seus interesses que seja identificado e detido, em qualquer lugar do mundo. É a velha prepotência, denunciada pelos seus pensadores mais eminentes, como o Senador Fullbright – que foi contra a guerra do Vietnã, e se opunha a toda ingerência de seu governo nos assuntos internos de qualquer outra nação – em seu livro Arrogance of Power:

“O Poder se confunde com a virtude e tende também a ver-se como onipotente. Uma vez imbuído da idéia de missão, uma grande nação facilmente assume que ela possui todos os meios para usá-los como um dever, no serviço de Deus”.

Extraído do sítio Conversa Afiada

10 novembro 2012

RACISMO EXPLÍCITO - Leila Cordeiro


Durante meses de campanha eleitoral para presidente nos EUA, falou-se em disputa acirrada entre os dois candidatos, o democrata Barack Obama e o republicano Mitt Romney. Hoje, entretanto, depois da reeleição de Obama, começo a pensar se além da rivalidade não existiu, latente e implícito nas atitudes dos conservadores, o velho e enferrujado preconceito que por séculos tomou conta do país de Tio Sam.

Se não, como explicar tantas ofensas ao presidente da república, como se ele fosse alguém sem nenhuma importância e que estivesse ali de favor, como nos velhos tempos em que brancos concediam pequenas regalias aos escravos negros por terem se comportado bem. Algo empoeirado, cheirando a ódio e ressentimento.

Por isso, depois da derrota, houve, além da decepção da perda por parte dos republicanos, uma reação que não combina com as regras da democracia tão exaltadas neste país. Enfurecidos, eles tentaram de todo jeito explicar porque seu candidato Mitt Romney, aquele que só tinha pensado no discurso da vitória, perdeu de longe no colégio eleitoral.

No dia seguinte, políticos e articulistas conservadores já estavam na TV procurando uma explicação para a inesperada derrota. Como um candidato com o perfil da tradicional família americana, rico e bem sucedido, poderia ter sido derrotado por um candidato que gastou seus quatro anos tentanto taxar a fortuna dos milionários?

Pois foi aí que morou o erro do partido republicano. Eles produziram uma campanha massificante e agressiva nos comerciais na TV, insinuando até que Obama tinha ideias comunistas, por querer taxar mais os ricos e defender os pobres e a classe média, com o objetivo de pintá-lo com as piores cores possíveis, já que ele também tem na pele a cor negra que os racistas brancos não conseguem suportar.

Como ressaltou Eliakim Araujo “enquanto os democratas se aliaram às minorias, formando uma corrente virtual entre negros, latinos, asiáticos, pobres e remediados, gays e mulheres, os republicanos continuaram presos a um passado conservador e completamente fora de sintonia com as necessidades de um país que se renovou”.

O enraivecido megaempresário Donald Trump, republicano da ala mais extremista do partido, chegou a pregar em seu Twitter uma “revolução” no país para tirar Obama da Casa Branca, o que foi combatido por um âncora americano, Brian Williams, que se levantou contra o comentário, considerando as declarações de Trump como “irresponsáveis”. Acuado, o empresário deletou a polêmica mensagem do twitter e prometeu abrir guerra contra o jornalista.

Como Trump, a turma de apresentadores da conservadora Fox News jogou pesado contra o presidente durante toda a campanha e, revoltados com o resultado, fizeram comentários como esse, de Bill O’Reilly: “a ideologia branca da sociedade americana hoje é minoria”.

Foram muitas as demonstrações de preconceito racial explícito, como a dos estudantes da Universidade do Mississipi, que saíram às ruas assim que o resultado foi anunciado gritando ofensas contra o presidente e queimando seus cartazes de propaganda (foto).

Dia primeiro de janeiro Obama será empossado para mais quatro anos de governo. Os cães vão continuar ladrando, enquanto a carruagem vai seguir em frente.

Extraído do sítio Direto da Redação

07 novembro 2012

NORTE-AMERICANOS ESTÃO VOTANDO NOSSO DESTINO, DIZ JORNALISTA ISRAELENSE - Yitzhak Laor


No final de seu livro, o historiador Tony Judt responde à questão sobre o que impediria que a invasão do Iraque liderada pelos EUA se tornasse um outro caso Dreyfus, na medida que a guerra estava baseada numa mentira escancarada. Em “Pensando o Século Vinte: Intelectuais e Política no Século Vinte”, escrito por Timothy Snyder, ele discursa sobre a complexidade da questão da mentira e da guerra, e do papel dessas coisas no esforço de tornar isso objeto de protesto, dizendo: “Quando a democracia faz a guerra, ela primeiro cria uma psicose da guerra...você tem de mentir, tem de exagerar, tem de distorcer e por aí....”.

Mais do que isso, parte do problema da democracia norte-americana no que concerne à guerra está conectado ao fato de que, como escreve Judt, “no século vinte, a América fez guerras sem custo para si mesma, em comparação ao custo para os outros países. Na Batalha de Stalingrado, o Exército Vermelho perdeu mais soldados do que a América já perdeu – soldados e civis juntos – em todas as guerras norte-americanas ao longo do século vinte. É difícil para os norte-americanos entenderem o que a guerra significa, e portanto é evidentemente fácil para um político enganar o seu povo ao levar a democracia para a guerra”.

Então, de onde vem a falsa imagem do sofrimento e do preço que os norte-americanos têm pagado em seus guerras? Dos filmes e programas de televisão. E nós adotamos a fantasia americana como ela fosse nossa.

Quem assistiu ao noticiário na semana passada deve ter pensado que era nosso (israelense) litoral que estava sendo inundado pelo Furacão Sandy. 

É verdade, essa fantasia tem claramente fontes reais. As entrevistas no rádio e na tevê com os israelenses que vivem nos Estados Unidos foram suficientes para demonstrar a extensão em que a classe média israelense pode ter um pé aqui e outro nos Estados Unidos: pessoas de negócios, professores trabalhando como convidados ou em ano sabático, experts em computadores, artistas, colegas estudantes, imigrantes, turistas. E aqueles de nós que ainda estão aqui? O que veem em suas telas de tevê é o que nós vemos em nossas, salvo pelas legendas que aparecem nas nossas.

Não há outro país ocidental no qual uma população inteira esteja exposta à cultura popular norte-americana por meio de sua televisão como Israel. Podemos lidar como isso com o lamento pela americanização de nossas vidas, e ainda assim é o caso prestar atenção ao que não é geralmente discutido como sintoma de nossas simbioses. 

Deixemos de lado a pauta trivial dos israelenses que vivem em Nova York e prestemos atenção em nossos protagonistas: o Primeiro Ministro Benjamin Netanyahu, que fez o ensino médio e a universidade nos Estados Unidos; Stanley Fischer, que nasceu no Zambia e estudou e ensinou nos EUA, tornou-se dirigente do Banco de Israel depois de trabalhar no Fundo Monetário Internacional e no Banco Mundial e fala um maravilhoso hebraico; Arthur Finkelstein, o consultor republicano baseado em Nova York que faz incitações contra os árabes para o ministro Avigdor Lieberman; Sheldon Adelson, o magnata dono de cassino e dono do mais patriótico jornal de Israel; Eli Tabib, que compra e vende times de futebol aqui e viaja para os Estados Unidos para fazer dinheiro lá. E esses são apenas alguns dos mais proeminentes exemplos de trocas entre múltiplas nacionalidades possíveis.

Mas há um conceito que permanece estrangeiro para os norte-americanos. Lá, sem entender o custo da guerra, os norteamericanos elegerão um presidente hoje – um líder que provavelmente afetará as vidas e as mortes de centenas de milhares de pessoas aqui. As milhões de pessoas no Oriente Médio assistem à devastação do Furacão Sandy (mesmo que não prestem em regra tanta atenção aos desastres naturais que devastaram o Haiti ou Bangladesh) não podem fazer nada nessa eleição importante, mesmo que ela venha a ter um efeito significativo em suas vidas. 

Tradução: Katarina Peixoto.

Extraído do sítio Carta Maior

05 novembro 2012

A SINUCA AMERICANA - Mauro Santayana


Os Estados Unidos advertiram o governo de Israel contra seu projeto de ataque preventivo às instalações nucleares do Irã, conforme noticiou The Guardian, em sua edição de 4ª feira. O aviso não foi das autoridades civis de Washington, e, sim, dos comandantes das tropas militares norte-americanas em operação na região do Golfo – o que, ao contrário do que se pode pensar, é ainda mais sério. O argumento dos militares é o de que esse ataque, além de não produzir os efeitos desejados – porque o Irã teria como retomar o seu programa nuclear – traria dificuldades políticas graves aos aliados ocidentais na região, sobretudo a Arábia Saudita e os Emirados Árabes – de cujo abastecimento direto depende a 5ª Frota e as bases das forças terrestres e aéreas que ali operam.

Embora as dinastias árabes pró-ocidentais temam o poderio militar do Irã, temem mais a insurreição de seus súditos, no caso de que se façam cúmplices de novo ataque a outro país muçulmano. Nunca é demais lembrar que os Estados Unidos e a Europa dependem também do petróleo que passa pelo golfo e atravessa o Canal de Suez, controlado pelo Egito.

Há, nos Estados Unidos – e, entre eles, alguns estrategistas do Pentágono – os que pensam ser hora de ver em Israel um país como os outros, sem a aura mitológica que o envolve, pelo fato de servir como lar a um povo milenarmente perseguido e trucidado pela brutalidade do nacional-socialismo. Uma coisa é o povo – e todos os povos têm, em sua história, tempos de sacrifício e de heroísmo, embora poucos com tanta intensidade quanto o judeu e, hoje, o palestino – e outra o Estado, com as elites e os interesses que o controlam.

Nenhum outro governo – nem mesmo o dos Estados Unidos – são tão dominados pelos seus militares quanto o de Israel. Eminente pensador judeu resumiu o problema com a frase forte: todos os estados têm um exército; em Israel é o exército que tem um Estado. 

O Pentágono acredita que uma guerra total contra o Irã seria apoiada pelos seus aliados da região, mas os observadores europeus mais sensatos não compartilham o mesmo otimismo. A ofensiva diplomática de Israel na Europa, em busca de apoio para - em seguida às eleições norte-americanas - uma ação imediata contra Teerã, não tem surtido efeito. Londres avisou que não só é contrária a qualquer ação armada, mas, também, se nega a permitir o uso das ilhas de Diego Garcia e Ascenção (cedidas pela Inglaterra para as bases ianques no Oceano Índico), como plataforma para qualquer hostilidade contra o país muçulmano.

Negativa da mesma natureza foi feita pela França, que, conforme disse François Hollande a Netanyahu, não participará, nem apoiará, qualquer iniciativa nesse sentido. É possível, embora não muito provável, que Israel conte com Ângela Merkel. Israel tem esperança na vitória de Romney, e a comunidade israelita dos Estados Unidos se encontra dividida. Os banqueiros e grandes industriais de armamento, de origem judaica, trabalham com afã para a derrota de Obama. E há o temor de que, no caso da vitória republicana, os israelitas venham a aproveitar o esvaziamento do poder democrata para o ataque planejado.

Além disso, Netanyahu não tem o apoio unânime entre os militares de seu país para esse projeto. Amy Ayalon, antigo comandante da Marinha, e dos serviços internos de segurança, o Shin Bet, disse que Israel não pode negar a nova realidade nos países islâmicos: “Nós vivemos – avisa – em novo Meio Oriente, onde as ruas se fortalecem e os governantes se debilitam”. E vai ao problema fundamental: se Israel quer a ajuda dos governos pragmáticos da região, terá que encontrar uma saída para a questão palestina. É esta também a opinião, embora não manifestada com clareza, do governo de Obama, de altos chefes militares americanos, e dos círculos mais sensatos da comunidade judaica naquele país.

O fato é que os Estados Unidos se encontram em uma situação complicada. Eles não têm condições militares objetivas para entrar em nova guerra na região, sem resolver antes o problema do Iraque e do Afeganistão. Seus pensadores mais lúcidos sabem que invadir o Irã poderá significar a Terceira Guerra Mundial, com o envolvimento do Paquistão no conflito e, em movimento posterior, da China e da Rússia. Washington, na defesa de seus interesses geopolíticos, deu autonomia demasiada a Israel, armando seu exército e o ajudando a desenvolver armas atômicas. Já não conseguem controlar Tel-Avive.

Estarão dispostos, mesmo com o insensato Romney, a partir para uma terceira guerra mundial? No tabuleiro de xadrez, se trata de “xeque ao Rei”; na mesa de bilhar, de sinuca de bico.

Extraído do sítio Mauro Santayana

27 setembro 2012

RELATÓRIO MOSTRA EFEITOS DO BLOQUEIO ESTADUNIENSE E PEDE SUSPENSÃO DA MEDIDA, QUE JÁ DURA 53 ANOS - Natasha Pitts


Na última quinta-feira (20), o ministro de Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez, apresentou um relatório com informações sobre o impacto do bloqueio que os Estados Unidos mantêm contra Cuba desde a histórica Revolução de 1959. Além de assegurar que o bloqueio já não tem sentido algum, o ministro destacou que o fim da medida traria benefícios não só para Cuba, mas também para os EUA.

O relatório relembra que o bloqueio persiste há 53 anos e que durante este tempo foi se institucionalizando mediante a aprovação de sucessivos presidentes e a instituição de medidas legislativas que o tornaram mais "férreo e abarcador”.

"Desde este momento [Revolução Cubana], a política de asfixia econômica que representa não cessou um só instante, o que reflete claramente a obsessão de sucessivos governos dos Estados Unidos de destruir o sistema político, econômico e social eleito pelo povo cubano no exercício de seus direitos à livre determinação e à soberania. Durante todos estes anos se recrudesceu e reforçou os mecanismos políticos, legais e administrativos de tal política com o objetivo de procurar sua instrumentação mais eficaz”, denuncia o relatório.

Por conta do bloqueio, Cuba não pode exportar e importar livremente produtos e serviços para os Estados Unidos; não pode utilizar o dólar norte-americano em suas transações financeiras internacionais ou ter contas nesta moeda em bancos de outros países; não pode ter acesso a crédito de bancos nos Estados Unidos, de suas filiais em outros países e de instituições internacionais como o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Interamericano de Desenvolvimento.

O reflexo financeiro disto, até dezembro de 2011, passa de 108 bilhões de dólares em cálculos atuais, levando-se em consideração a depreciação do dólar frente ao valor do ouro no mercado internacional. O relatório também aponta que a perseguição às transnacionais financeiras internacionais cubanas é um dos traços mais significativos do bloqueio. De acordo com o relatório anual publicado pelo Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (Ofac), do Departamento do Tesouro, a cifra dos fundos congelados pelos EUA a Cuba no final de 2011 fechou em mais de 245 milhões de dólares, situação que barra o desenvolvimento econômico, social e científico-técnico da Ilha.

A comunidade internacional já fez inúmeros apelos aos governos dos Estados Unidos. Inclusive no âmbito da Assembleia Geral das Nações Unidas já foi expressa em 20 resoluções este apoio ao fim do bloqueio. Apesar disso, a medida se mantém como uma "ferramenta de pressão” e não há indícios de que possa ser suspensa pelo governo do atual presidente estadunidense, Barack Obama.

"O bloqueio continua sendo uma política absurda obsoleta, ilegal e moralmente insustentável, que não cumpriu, nem cumprirá o propósito de dobrar a decisão patriótica do povo cubano de preservar sua soberania, independência e direito à livre determinação; mas gera carências e sofrimentos à população, limita e retarda o desenvolvimento do país e danifica seriamente a economia de Cuba. É o principal obstáculo ao desenvolvimento econômico e social da Ilha”, aponta o relatório.

Por isso, cientes de que o bloqueio econômico, comercial e financeiro é uma transgressão ao direito à paz, ao desenvolvimento e à segurança de um Estado soberano - segundo afirma a Carta das Nações Unidas - é que as autoridades e a população cubana reivindicam o fim desta medida de austeridade que afeta não só a economia, mas também causa prejuízos à saúde e à alimentação do povo cubano.

Extraído do sítio Adital

19 setembro 2012

UMA TEMPESTADE NO HORIZONTE - Eduardo Guimarães


Se os republicanos voltarem ao poder nos EUA, a América Latina será varrida por uma onda de tentativas de golpes (“constitucionais” ou não) de Estado que buscará eliminar a independência política e econômica que, ao fim do século XX, fechou aos norte-americanos a porta do “quintal” onde colhiam boa parte dos lucros astronômicos que aprofundaram a desigualdade entre aquela nação e o resto do mundo.

Com Obama no poder, há hoje certo recato dos EUA em promover derrubada de governos em democracias mais estáveis como a brasileira, a venezuelana ou a argentina, ainda que democracias em estágio menos adiantado, como a paraguaia ou a hondurenha, já tenham tombado por ação ou omissão dos setores ultraconservadores que os democratas norte-americanos mantém na inteligência e nas forças armadas, entre outros setores.

Ao golpismo brasileiro ainda falta o apoio decidido e garantido do grande irmão nortista. Agora, porém, imagine, leitor, se os setores que estão tentando criminalizar centenas de milhares de adversários políticos com o julgamento do mensalão pudessem contar com o incentivo e o apoio propagandístico e diplomático dos Estados Unidos…

O último fim de semana marcou uma nova etapa do processo desencadeado a partir da subida do julgamento do mensalão à agenda política do país. A acusação da revista Veja a Lula através de uma matéria obscura, cheia de furos e desmentidos – e, ainda assim, comprada acriticamente, até aqui, pelos maiores jornais do país e pela oposição demo-tucana – mostra que uma tempestade político-institucional se avizinha.

Os setores politizados da cidadania que simpatizam com o projeto político-administrativo que venceu eleições em 2002 e não parou mais – e que, hoje, conta com o apoio decidido da esmagadora maioria dos brasileiros, conforme as pesquisas de opinião – estão sendo literalmente acusados por um dos muitos casos de corrupção que envolvem a qualquer grupo político.

Este blogueiro, bem como milhares de leitores desta página, em algum momento certamente já foram acusados pelo que pesa contra algumas dezenas de réus do julgamento do mensalão. Um dos pistoleiros recrutados pelos impérios de comunicação alinhados ao projeto conservador escreve, sem parar, livros que disseminam a tese da corrupção coletiva dos seus adversários políticos.

O maior líder político brasileiro, agora mesmo, é acusado de crimes gravíssimos por grandes meios de comunicação sem que nenhuma prova seja apresentada além da palavra dos acusadores, e um julgamento complexo na Suprema Corte, até aqui maculado por decisões inéditas em termos de severidade e de critérios, é vendido como julgamento de mais de um milhão de militantes políticos.

O julgamento do mensalão está muito longe de ser apenas um processo judicial. É um processo absolutamente político que, para inquietação da democracia brasileira, conta com a conivência da mais alta magistratura nacional, pois seu uso político, inclusive no processo eleitoral, vem crescendo junto a um noticiário formatado para estender a candidatos que nada têm que ver com o julgamento a responsabilidade que pesa sobre os réus oficiais.

Só para não ficar sem exemplo: o candidato a prefeito de São Paulo José Serra está acusando formalmente seu principal adversário hoje, Fernando Haddad, pelo que pesa contra o mal-chamado “núcleo político” do processo do mensalão. Ou seja: com o apoio de grandes meios de comunicação, entre os quais concessões públicas de rádio e televisão, Haddad se torna o 39º réu daquele processo.

Haddad, pois, é apenas um exemplo de todos os outros candidatos do PT que estão sendo relacionados pela mídia e pelos partidos de direita a um escândalo com o qual não têm relação alguma.

Em uma democracia que funcionasse normalmente, a peça de Serra envolvendo o adversário político em um processo com o qual nada tem que ver seria motivo, ao menos, de suspensão e de concessão de direito de resposta do atingido no horário eleitoral do agressor. Em vez disso, a Justiça Eleitoral pune a campanha de Haddad por contar a verdade, que o tucano descumpriu promessa de não deixar o cargo de prefeito para o qual se elegeu em 2004.

Ainda que, de uns tempos para cá, militares de alta patente não tenham mais dado declarações de viés golpista – que, até há pouco, davam sem parar – ameaçando derrubar o governo, um eventual “sinal verde” da máquina de guerra norte-americana, nos moldes do sinal que foi dado em 1964, bastaria para desencadear um golpe a partir de alguma chicana jurídica como a do mensalão.

A permeabilidade da Justiça brasileira à pressão dos meios de comunicação, por sua vez, permite acreditar que qualquer iniciativa que vise derrubar o governo a partir de alguma denúncia sem provas pode prosperar naquele Poder. Não se pode esquecer que é da Procuradoria-Geral da República a atribuição de processar o presidente – ou a presidenta – da República no Supremo Tribunal Federal…

As forças políticas que se opõem a rupturas institucionais, por sua vez, estão divididas, como sói acontecer com a esquerda desde sempre. Os setores mais ideológicos, como PSOL ou PSTU, formaram um núcleo que não faz distinção entre a centro-esquerda e a direita, atuando, muitas vezes, como linha auxiliar desta. Os sindicatos, há pouco, quase chegaram às vias de fato com o governo petista.

O principal aliado do PT no Congresso, o PMDB, comporta-se, muitas vezes, como adversário. Na CPI do Cachoeira, o partido do vice-presidente Michel Temer serviu de blindagem do esquema Veja-Cachoeira, cujas evidências já chegam a gravações de propostas criminosas de jornalista daquela publicação ao chefe criminoso goiano.

O conluio que vai se formando contra o Partido dos Trabalhadores e o governo Dilma Rousseff, pois, é composto pelo que há de mais experimentado em termos de violação da democracia. Os meios de comunicação que se aliaram à direita têm longa trajetória de atentados contra a vontade popular expressa por eleições, e se mostram dispostos a usar know-how que o país bem conheceu nos idos de 1964.

Extraído do Blog da Cidadania

18 setembro 2012

QUEM SEMEIA VENTO COLHE TEMPESTADE - Mário Augusto Jakobskind


E de repente, talvez não mais do que de repente, a Líbia voltou às manchetes dos jornais e telejornais. Madame Hillary Clinton, num misto de cinismo e charlatanice, disse estar surpresa com o acontecido em Benghazi que resultou na morte do embaixador Christopher Stevens e mais três funcionários do consulado estadunidense.

Clinton insiste na tese segundo a qual os EUA ajudaram a Líbia a se transformar num país democrático. Tal afirmação não corresponde à realidade.

Depois dos bombardeios da OTAN, que resultaram no estabelecimento de um novo governo, a Líbia na prática deixou de existir como nação. E isso apesar de o governo pró-ocidental ter estabelecido a bandeira da monarquia como símbolo do país fictício.

O país norte africano, que até bem pouco tempo era considerado o mais adiantado da região, hoje vive em situação de caos com bandos armados se digladiando entre si. Realizaram uma eleição fajuta e há um número incalculável de presos políticos, sendo a tortura uma prática rotineira. Hillary Clinton, claro, não deve ignorar tudo isso.

As autoridades líbias, na prática impostas pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), podem ser consideradas no mínimo suspeitas. O chefe do Exército (o certo é mencionar a corporação como suposta) é um agente da CIA de nome Hiflter. O presidente do Parlamento, um tal de Al-Magaryef, também não passa de um agente dos serviços de Inteligência ocidentais, segundo informações de fontes independentes.

Já o primeiro Ministro, Adelrahim AL-Kib é um empregado da Exxon, provavelmente licenciado para ocupar o cargo e defender os interesses da empresa a que serve. Ele cumpre também a missão de fazer com que a Líbia influencie na Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP).

É neste contexto que navegava Christopher Stevens, o embaixador morto pelos extremistas salafistas, grupo que também recebeu financiamento do emirado de Catar e da Arábia Saudita para reforçar o esquema da derrubada do antigo regime capitaneado por Muammar Khadafi. Não se pode ignorar que os salafistas participam ativamente da oposição contra o atual governo da Síria e recebem a proteção dos serviços de inteligência ocidentais. E como diz o dito popular, quem semeia vento colhe tempestade...

Claro que a ação é condenável, tendo sido Cuba o primeiro país a se posicionar nesse sentido. O ato é de interesse da extrema direita estadunidense que quer eleger um candidato. Nos Estados Unidos, segundo informes de agências internacionais, um grupo de 100 sionistas norte-americanos extremistas ajudou a financiar a tal película, divulgada pelo também extremista de direita Pastor Terry James, satanizando o islamismo e que acabou servindo de pretexto para a investida contra o consulado estadunidense em Benghazi e mais tarde em outras representações diplomáticas estadunidenses em capitais de países de religião muçulmana.

Apenas serviu de pretexto, pois o ódio aos EUA por uma série de circunstâncias, é fato histórico.

O hediondo republicano Mitt Romney tentou aproveitar o embalo para angariar votos à sua candidatura, levantando a suspeita de que o acontecimento foi armado pela própria direita extremada. Há quem pergunte como sabiam que o embaixador estava em Benghazi e porque só depois de dois meses o tal documentário provocou toda essa ira?

Teoria da conspiração ou não, o certo é que o candidato republicano é realmente um perigo para o mundo, mas como é pouco dotado, escorregou feio em suas declarações idiotas sobre os acontecimentos.

O diplomata norte-americano morto pelos salafistas não foi um inocente na história que resultou na derrubada do antigo regime líbio e levou à situação atual. Teve culpa no cartório mesmo.

Para entender melhor os atuais acontecimentos da política externa estadunidense, vale recuar no tempo. Na verdade, desde há pelo menos cinco décadas as embaixadas estadunidenses pelo mundo afora se tornaram instrumento de ajuda prioritária às ações da CIA. O referido serviço de inteligência sempre insistiu que a cobertura das embaixadas é essencial a seu trabalho, porque inclusive sem a imunidade de que goza a propriedade diplomática, os códigos, arquivos e comunicações da central de inteligência estadunidense não estariam em segurança.

Houve um tempo em que diplomatas estadunidenses não queriam servir de biombo para a ação dos agentes da CIA. Os atritos tornaram-se tão constantes e agudos que no fim do longínquo governo de Dwight Eisenhower, em novembro de 1960, o então Presidente dos EUA acabou expedindo uma ordem executiva em que afirmava:

“Os chefes de missões diplomáticas dos Estados Unidos no exterior, como representantes do Presidente e agindo em seu nome, deverão possuir e exercer, na medida em que permitam as leis e de acordo com as instruções que o Presidente venha promulgar, a responsabilidade direta pela coordenação e supervisão das atividades das várias agências que sirvam nos diferentes países”.

A determinação, que segue em vigor até hoje e foi inicialmente reforçada por John Kennedy, teve de ser seguida obrigatoriamente por todos os embaixadores em missão no exterior. E quem não aceitasse a ordem ou mesmo apenas a questionasse verbalmente era exonerado.

Por estas e muitas outras, as embaixadas norte-americanas tornaram-se linha auxiliar da CIA.

Madame Clinton sabe muito melhor do que qualquer um de tudo isso e as representações diplomáticas estadunidenses se intrometeram mais ainda nas últimas décadas em assuntos internos dos mais variados países.

No Brasil mesmo, segundo confirmam documentos do Departamento de Estado tornados públicos, o golpe de abril de 1964 teve apoio ostensivo do governo dos EUA, tendo a mobilização nesse sentido começado no governo de John Kennedy, em 1962, num encontro com o então embaixador Lincoln Gordon, e continuado posteriormente pelo então Presidente Lyndon Johnson.

Muita grana para eleger congressistas pró-EUA com o objetivo de desestabilizar o governo João Goulart e até envio de navios de guerra nas costas brasileiras em 64 (Operação Brother Sun) para respaldar, se fosse necessário, a derrubada do governo constitucional brasileiro, confirmam a participação da CIA no golpe civil militar que levou o país a uma longa noite escura.

Por estas e muitas outras, a surpresa de Madame Clinton não passa de dissimulação com base na mentira e charlatanice.

Extraído do sítio Direto da Redação

13 setembro 2012

REVOLTA CONTRA FILME QUE SATIRIZA ISLÃ SE ESPALHA PARA EMBAIXADA DOS EUA NO IÊMEN

Em resposta ao ataque na Líbia, o governo norte-americano enviou oficiais do FBI e do exército e navios de guerra.

Manifestantes tentam invadir a Embaixada dos Estados Unidos em Sana, capital do Iêmen. Foto: Agência EFE

Os protestos de muçulmanos contra um filme norte-americano que denigre e satiriza a religião islâmica chegaram nesta quinta-feira (13/09) ao Iêmen, onde centenas de jovens invadiram a Embaixada dos Estados Unidos em Sana, capital do país. 

As manifestações contra a produção cinematográfica A Inocência dos Muçulmanos já ocorreram no Egito e na Líbia, onde um embaixador e três funcionários norte-americanos acabaram mortos na terça (11/09), o que deflagrou uma crise internacional.

O governo de Barack Obama enviou oficiais do FBI e do exército para a Líbia para “fazer justiça” após a morte dos funcionários diplomáticos. Jornais internacionais reportaram que navios de guerra norte-americanos já foram vistos na costa do país norte-africano nesta quinta-feira (13/09).

Manifestantes gritam em protesto contra filme norte-americano que satiriza religião islâmica e seus seguidores. Foto: Agência EFE

Segundo a agência de notícias France Press, hoje centenas de iranianos também protestaram contra o filme em frente à Embaixada da Suíça no país, que não possui representação oficial dos EUA. Dezenas de policiais cercaram o edifício para manter a segurança e funcionários suíços deixaram o local por precaução. Não existem relatos de incidentes nem de confronto, como informou o jornal New York Times.

Já no Iêmen, os manifestantes foram reprimidos pelos seguranças da embaixada norte-americana, que fizeram disparos para o ar, e pela polícia local, que lançou bombas de gás lacrimogêneo e canhões da água. Em comunicado oficial para a agência de notícias Reuters, diplomatas iemenitas em Washington asseguraram que não houve vítimas. Veículos de notícias, citando fontes anônimas de segurança, relatam que pelo menos 15 pessoas ficaram feridas.

Os manifestantes conseguiram invadir a embaixada por cerca de 50 minutos, mas permaneceram na parte de fora dos edifícios. Algumas janelas foram quebradas e um grupo de jovens queimou a bandeira dos EUA, informou o jornal norte-americano Huffington Post. O presidente iemenita Abd Rabbo Mansour Hadi condenou o protesto e responsabilizou “grupos demagógicos”.

Egito 

A polícia egípcia também reprimiu manifestantes que continuavam a protestar em um local próximo a Embaixada dos EUA na noite desta quarta-feira (12/09) com bombas de gás lacrimogêneo. A Mena, agência de notícias estatal, disse que 29 pessoas ficaram feridas e 12 foram detidas durante a madrugada. 

O confronto teve início depois que os oficiais egípcios tentaram dispersar um acampamento de manifestantes próximo à sede diplomática norte-americana. Dezenas de jovens permaneciam no local desde a manifestação de terça (11/09) em protesto pacífico contra o filme.

Mohammed Mursi, presidente do país, garantiu nesta quinta (13/09) ao governo dos EUA que garantirá a segurança dos funcionários e diplomatas norte-americanos. As ruas de acesso à embaixada no Cairo amanheceram fechadas e repletas de forças de segurança.

Líbia

Enquanto isso, autoridades líbias anunciaram a criação de uma comissão independente para apurar a morte do embaixador e dos três funcionários norte-americanos durante manifestação no consulado dos EUA na terça-feira (11/09). O grupo será constituído por um juiz e vários especialistas dos ministérios do Interior e da Justiça, informou o porta-voz da Alta Comissão de Segurança do Ministério do Interior, Abdelmonem Al Horr. 

Segundo Al Horr, a investigação é “muito complicada”. "Houve tiros provenientes de uma propriedade nas proximidades. Precisamos de tempo para determinar as responsabilidades”, disse ele.

A Inocência dos Muçulmanos

As manifestações ao redor do mundo árabe e islâmico tiveram início nesta semana depois que o trailer do filme A Inocência dos Muçulmanos ganhou legendas em árabe em conta no YouTube. Desde então, milhares de pessoas assistiram à versão, aprovada pelo diretor, e uma emissora egípcia chegou a reproduzi-la.

O filme mostra muçulmanos atacando uma cidade e todos aqueles que possuem religião diferente, incluindo uma bela garota com uma cruz no peito que é morta. Em outras cenas, o profeta Maomé é chamado de “bastardo”, briga por um pedaço de carne com uma de suas esposas, aparece sem cuecas e faz sexo oral em uma mulher. 

Para Sam Bacile, o diretor da produção milionária, “O Islã é um câncer e ponto final”. O norte-americano, que prefere se identificar como um israelense judeu, acredita que o filme vai ajudar o Estado judeu a dominar o território da Palestina por mostrar as falhas do Islã ao mundo.

“É um filme político”, disse ele ao descrever a sátira islamofóbica, que foi financiada por mais de 100 doadores judeus e custou 5 milhões de dólares.

Extraído do sítio Opera Mundi

MUNDO ÁRABE EM PÉ DE GUERRA - Eliakim Araújo


A população e a mídia estadunidense ainda não absorveram totalmente o golpe que representou a morte do embaixador Christopher Stevens e seus três auxiliares, no consulado estadunidense em Benghazi, exatamente no dia em que o país celebrava os mortos nos atentados de 11 de setembro de 2001.

É claro que os atentados de 2001 foram muito mais graves, não só pelas perdas humanas e materiais, mas, sobretudo, porque escancaram a vulnerabilidade da nação apregoada então como a mais forte e poderosa do mundo. 

O ataque ao consulado em Benghazi, entretanto, tem componentes internos que não existiam há 11 anos, quando Bush estava começando seu primeiro mandato e até saiu politicamente fortalecido do episódio. Desta vez, o país vive uma feroz campanha eleitoral que divide o país entre o conservadorismo radical da direita e o pensamento liberal de um presidente que não conseguiu cumprir a maioria das promessas de campanha.

Enquanto em 2001 o país se uniu em torno da tragédia, independente de partidarismos, desta vez o republicano Mitt Romney, com o apoio da mídia conservadora, se aproveitou da situação para transformar o ataque ao consulado e a morte do embaixador em um fato político, numa evidente estratégia de conquistar dividendos eleitorais. Romney criticou a política externa da Casa Branca, classificando-a como fraca em relação aos países muçulmanos e de não proteger adequadamente escritórios e funcionários estadunidenses no exterior. As urnas dirão em novembro se a estratégia foi correta. Penso que não.

Na guerra de palavras que se seguiu, Obama cutucou o adversário – em entrevista ao “60 Minutes” - ao afirmar que Romney “tem a tendência de atirar primeiro para mirar o alvo depois”. Em seguida, deitou cátedra em cima do rival: “no exercício da presidência, aprendi que as declarações devem se basear em fatos e devem ser pensadas antes de serem ditas”.

Mas a verdade é que, política interna à parte, os Estados Unidos estão num beco sem saída. Não podem sair atirando e ameaçando deus e o mundo com seu poderio militar, como fez Bush. Ao contrário, na terça-feira, dia seguinte ao ataque, Obama e Hillary condenaram vigorosamente os assassinatos mas fizeram questão de afirmar que a Líbia continua sendo parceira e que o atentado não foi praticado pelo povo líbio, mas por alguns extremistas que serão apanhados com a cooperação do governo local.

Numa espécie de pedido de desculpas, a secretária Clinton foi à TV na manhã desta quinta-feira para dizer que os Estados Unidos não têm nada a ver com o vídeo anti-Islã e não concorda com seu conteúdo em nome do respeito e da liberdade de cultos religiosos prevista na Constituição do país.

O que se especula hoje, quinta-feira, é se o atentado foi ou não planejado. O fato de ter acontecido exatamente no aniversário da derrubada das torres gêmeas dá uma pista, pois o filme que deu motivo à revolta estava postado na internet desde julho. Nesse caso, especulam analistas militares, a Al Qaeda estaria por trás da ação.

Outra hipótese é de ter sido praticado por simpatizantes do ex-presidente Muammar Khadafi, cuja derrubada teve a forte participação da chamada “aviação aliada”, apoiada pela Casa Branca.

Certamente nenhum presidente gostaria de estar neste momento na pele de Barack Obama, que combate em duas frentes. Internamente, tendo que enfrentar a irresponsabilidade e o perigoso desconhecimento de Romney, que teve que encerrar uma entrevista às pressas porque se enrolou nas respostas aos repórteres, e externamente tendo que cobrar providências dos aliados do mundo árabe para a proteção de seu pessoal diplomático e de suas instalações.

Nesta quinta-feira, dois navios de guerra estadunidenses estão se deslocando para a costa da Líbia e um contigente de marines já foi despachado para dar proteção à embaixada naquele país. E as informações que circulam dizem que, pelo menos em sete países, há manifestações anti-americanas em torno das embaixadas dos EUA.

Extraído do sítio Direto da Redação