11 junho 2012

JOSEPH STIGLITZ SOBRE EL RESCATE: "ES LA ECONOMÍA DEL VUDÚ, NO FUNCIONARÁ"

El Premio Nobel apuesta por una autoridad bancaria europea y políticas de crecimiento.

El premio Nobel de Economía, Joseph Stiglitz.ÁNGEL NAVARRETE
"El plan es: el Gobierno español rescata a los bancos y los bancos rescatan al Gobierno. Es la economía del Vudú, no funcionará, no está funcionando". Es la opinión del premio Nobel de Economía,Joseph Stiglitz, sobre el rescate de hasta 100.000 millones a los bancos españoles.

Si el Gobierno de Rajoy decide pedir el rescate completo, esta ayuda de Europa supondría un 10% del PIB español, lo que podría hacer más complicado y menos rentable la venta de deuda al mercado internacional. La teoría del premio Nobel es que siendo los bancos españoles los principales compradores de deuda soberana, el Ejecutivo de Rajoy se podría ver obligado a pedir ayuda a las mismas entidades que ahora se dispone a sanear con el dinero de los socios europeos.

Para el Nobel de Economía, Bruselas debería acelerar el debate sobre una autoridad bancaria común para la Eurozona. "En un contexto de economía en crisis no hay forma de impulsar políticas de crecimiento si no hay un sistema bancario europeo", asegura Stiglitz. El ex asesor económico del presidente Bill Clinton es un convencido de la importancia del crecimiento para salir de la crisis. "Alemania sigue en el discurso de reforzar la disciplina fiscal, pero ése es un diagnóstico totalmente erróneo", avisa. En su opinión, Merkel "tendrá que preguntarse si quieren pagar el precio de una eventual desaparición del Euro o prefiere mantenerlo con vida".


Extraído do sítio Público.es

"ISTO É UM CASTELO DE CARTAS, A SEGUIR A ESPANHA MAIS ALGUÉM VIRÁ", DIZ JARDIM

Alberto João Jardim diz que a crise mundial só vai parar quando o poder político controlar os mercados financeiros. O presidente do Governo Regional da Madeira adverte que depois do resgate de Espanha será uma questão de tempo até outro país ser vítima do sistema capitalista.


Extraído do sítio SIC Notícias

KÁTIA ABREU ATACA SALÁRIO MÍNIMO - Altamiro Borges


Pior do que um neoliberal, só mesmo um ruralista neoliberal. Se dependesse dos barões do agronegócio, o Brasil retornaria ao período da escravidão. Talvez isto explique porque a bancada ruralista resista tanto à aprovação da PEC contra o trabalho escravo. Em seu artigo na Folha do dia 9, a senadora Kátia Abreu não vacila em pregar o fim dos aumentos “tão generosos” do salário mínimo.

Para a presidente da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), que representa os interesses dos velhos latifundiários – hoje travestidos de modernos empresários do agronegócio –, a crise econômica está se agravando rapidamente e exige que o governo Dilma adote “medidas ousadas”. No seu receituário, o ônus da grave crise, lógico, deve ser despejado no lombo dos trabalhadores.

As velhas teses neoliberais

Para a vice-presidente do PSD, sigla fundada pelo ex-demo Gilberto Kassab para agregar as forças de centro-direita, a economia brasileira “vive um momento preocupante”. A queda no crescimento do PIB decorreria de um modelo econômico já esgotado, baseado na alta dos preços internacionais das commodities, no “ativismo creditício” e no estimulo ao consumo interno.

Diante deste diagnóstico, Kátia Abreu propõe basicamente o retorno às velhas teses ortodoxas, neoliberais, de retração do crédito e do consumo. “Os aumentos do salário mínimo não podem mais ser tão generosos sem elevar o risco de inflação. E aumentar o crédito já não funciona porque a renda da população está muito comprometida com o pagamento de dívidas acumuladas”.

Chibatada no lombo do trabalhador

Ela também propõe reduzir a carga tributária e “flexibilizar o mercado de trabalho, privilegiando o entendimento direto entre empresários e trabalhadores”. Para viabilizar esta agenda regressiva, a senadora do PSD – que “não é de esquerda, de direita ou de centro” - afirma que é preciso “apoiar a presidente nessa urgência de reformar o Brasil, colocando-se acima das disputas entre governo e oposição”.

Lógico que Kátia Abreu não propõe nenhuma “medida ousada” contra o capital financeiro – hoje solidamente associado aos barões do agronegócio. A ruralista também não defende o fim dos subsídios e das “generosas” anistias aos grandes produtores rurais. Para ela, só há um jeito de conter os efeitos da grave crise econômica mundial. Chibatada nas costas dos trabalhadores.


Extraído do Blog do Miro

RELATÓRIO DA ONU APONTA FRACASSO DE METAS AMBIENTAIS GLOBAIS



O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente analisou 90 de um total de 500 metas ambientais: em só quatro houve avanço significativo. Retrocesso na pesca excessiva e nas mudanças climáticas.

Os autores do estudo intitulado "Geo-5" alertam enfaticamente para o perigo do colapso dos ecossistemas. "Isto é uma denúncia", declarou o diretor executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), Achim Steiner, numa coletiva de imprensa no Rio de Janeiro.

Achim Steiner
"Precisamos reconhecer os fatos e enfrentar os desafios à humanidade. É urgente uma mudança de curso na política ambiental, e a cúpula de sustentabilidade das Nações Unidas Rio+20, a se realizar em breve, é uma chance que só ocorre uma vez em cada geração", pressionou Steiner.

Em mais de 500 páginas, o estudo critica com veemência a lentidão na implementação das metas ambientais acordadas em nível internacional. Os pesquisadores analisaram as 90 mais importantes, entre 500 metas internacionais, e em só quatro constataram um progresso significativo. Atualmente, são emitidos na atmosfera bem menos gases nocivos à camada de ozônio; os mares estão menos poluídos; há menos chumbo nos combustíveis; e mais seres humanos têm acesso a água limpa.

"Prioridade pessoal"

Houve vitórias em certos pontos, como no desmatamento, porém em vastas regiões do planeta a situação no tocante ao meio ambiente até mesmo piorou. O relatório menciona a pesca descontrolada, as secas e as mudanças climáticas.

"Se a tendência prosseguir, e os padrões de conduta na produção e consumo de recursos naturais não puderem ser revertidos, então os governos vivenciarão perdas e danos numa dimensão inusitada", advertiu o diretor teuto-brasileiro do Pnuma.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, declarou em Nova York que ainda há muito a se fazer, para que tenha sucesso a conferência internacional, realizada no Rio de Janeiro de 20 a 22 de junho. Ele acredita que os líderes mundiais precisam transformar a Rio+20 em sua "prioridade pessoal".

Mais de 100 chefes de governo e de Estado estão convidados para o encontro, que ocorrerá 20 anos após a conferência do meio ambiente de 1992, na metrópole brasileira. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, não participará, e tampouco os chefes de governo da Alemanha, Angela Merkel, e do Reino Unido, David Cameron.


Extraído do sítio Deutsche Welle

ESQUERDA TEM MAIORIA EM PRIMEIRO TURNO DAS ELEIÇÕES LEGISLATIVAS FRANCESAS



Comparecimento às urnas nas eleições legislativas na França foi menor do que no último pleito. Esquerda saiu vitoriosa neste primeiro turno. Resultado final garantirá a Hollande apoio para governar.

Segundo estimativas na noite deste domingo (10/06), os partidos de esquerda que sustentam François Hollande (o Partido Socialista, ao qual pertence o presidente, o Partido Verde e a Frente de Esquerda) alçancaram um total de 47% dos votos nas eleições legislativas francesas. A conservadora UMP, do ex-presidente Nicolas Sarkozy, ficou com 35%. O partido populista de extrema direita Frente Nacional recebeu cerca de 14% dos votos.

O comparecimento às urnas foi de 60% dos votantes – um percentual menor que em 2007. Tradicionalmente, as eleições legislativas atraem no país menos eleitores que as presidenciais. Cerca de 45 milhões de franceses foram às urnas para eleger os 577 deputados da Assembleia Nacional.

O resultado final das eleições legislativas só será definitivo, contudo, depois do segundo turno do pleito, que acontece em uma semana. Para serem eleitos já no primeiro turno, os candidatos precisam de uma maioria absoluta – algo que poucos deles conseguem.

A troca de poder na Assembleia Nacional dará à esquerda francesa poderes para definir a política do país. Na segunda câmera do Parlamento (Senado), ela já conta desde o ano passado com esta maioria.

Alemanha observa

Hollande não apoia Merkel em sua política de austeridade como seu antecessor
Quando um presidente não conta no Parlamento com uma maioria, os franceses definem a situação como "governo de coabitação". Isso seria para Hollande extremamente difícil. Com uma maioria de direita conservadora, ele teria que frear seus planos de reformas. Mas as pesquisas de opinião apontam para uma vitória certa de esquerda no segundo turno, não creditando ao UMP de Nicolas Sarkozy nenhuma chance de sucesso nas urnas. Até agora, o partido conservador do ex-presidente compunha uma maioria na Assembleia Nacional.

As eleições na França são também observadas com atenção na Alemanha. Depois que a premiê Angela Merkel perdeu, com a saída de Sarkozy do poder, seu mais fiel aliado na Europa, ela ficou praticamente sozinha na defesa de sua política linha-dura de austeridade.

Se a política de Hollande for corfirmada com uma maioria no Parlamento francês no segundo turno, o socialista terá maior aval internacional. Dentro da Alemanha, Merkel enfrenta também a resistência da oposição: com uma severidade até então nunca demonstrada, os social-democratas alemães criticam a política europeia de austeridade da premiê e defendem, como Hollande, um pacote de incentivo ao crescimento econômico com maiores investimentos por parte do Estado.


Extraído do sítio Deutsche Welle

ENTENDA O EMPRÉSTIMO PARA SALVAR OS BANCOS DA ESPANHA

Crise bancária vinha secando créditos para hipotecas, construções e para o consumo

Os países da zona do euro ajudarão a Espanha com um empréstimo de até 100 bilhões de euros (cerca de R$ 251,5 bilhões) para a recapitalização do setor bancário do país. Mas o governo do país faz questão de dizer que não se trata de um pacote de resgate, como os que receberam Grécia, Irlanda e Portugal, mas um empréstimo.

Diante da cifra milionária, muitos se perdem na discussão semântica, mas será que importa como a ajuda é chamada?

Após idas e vindas nas últimas semanas, o ministro da Economia da Espanha, Luis de Guindos, confirmou no final da tarde de sábado o que já se comentava há tempos nos bastidores.

A Espanha pediu ajuda financeira para sanear seu sistema bancário. Os países da zona do euro (que têm o euro como moeda comum) aceitam colocar à disposição do governo espanhol uma quantidade de até 100 bilhões de euros, sem impôr condições macroeconômicas nem fiscais à Espanha.

Essa diferença de conceito entre o que ocorreu neste sábado e o que passou anteriormente com Grécia, Irlanda e Portugal é o que faz com que o governo do primeiro-ministro conservador Mariano Rajoy diga que isso é um empréstimo, ajuda ou apoio financeiro, enquanto a oposição afirma que se trata claramente de um resgate.

Cenário previsto

Uma equipe formada por representantes da Comissão Europeia, do Banco Central Europeu (BCE) e do Fundo Monetário Internacional (FMI) viajará a Madri para avaliar as necessidades do setor bancário espanhol, segundo confirmou um porta-voz da zona do euro à BBC.

Ainda não se sabe qual é a quantidade exata que a Espanha receberá. Isso será decidido após serem conhecidos os resultados de várias análises especializadas.

As primeiras cifras serão divulgadas no dia 21 de junho, quando serão publicadas as conclusões do relatório das consultorias independentes Roland Berger e Oliver Wyman, contratadas para levantar os dados sobre as necessidades de capitalização do sistema bancário espanhol. Cada uma das consultorias emitirá um relatório.

Ambas as empresas usarão dois cenários para seus cálculos - o primeiro com base na situação "mais provável" e o segundo, uma previsão com um cenário mais "pressionado", em que se assume uma conjuntura econômica pior e uma queda mais significativa dos preços dos ativos imobiliários.

Além disso, quatro empresas auditoras, PwC, Deloitte, Ernst & Young e KPMG, estão avaliando as carteiras de crédito dos bancos espanhóis, não somente as imobiliárias, mas também as de crédito ao consumo, às empresas e às famílias, para avaliar os ajustes necessários.

A previsão é que essas empresas terminem seu trabalho no dia 31 de julho. Esse será o momento em que o governo espanhol terá que decidir sobre o volume de recursos que pedirá à Europa.

Como os bancos de debilitaram

Ministro Luis Guindos admitiu que empréstimo será contabilizado como dívida pública
O dinheiro servirá para dar um impulso às finanças dos bancos espanhóis com mais dificuldades, que sofreram perdas de bilhões de euros com os chamados "créditos podres" resultantes do estouro da bolha imobiliária e à recessão que se seguiu.

Alguns desses bancos pediram emprestadas grandes quantidades de dinheiro aos mercados internacionais para, por sua vez, poder conceder créditos a construtores e compradores de imóveis, uma estratégia que era mais arriscada do que financiar os empréstimos com depósitos de poupanças.

Quando chegou a crise de crédito, o setor financeiro espanhol se viu envolvido no que o FMI descreveu como "uma crise sem precedentes".

Os bancos precisavam se desfazer de cerca de 200 mil propriedades hipotecadas em um momento em que os preços dos imóveis haviam caído, em média, 25%.

O governo já injetou mais de 33 bilhões de euros no sistema bancário para tentar reforçá-lo, segundo o FMI. Além disso, nacionalizou o Bankia, o quarto maior banco do país, que no mês passado solicitou uma ajuda de mais de 18 bilhões de euros.

De onde vem o dinheiro

O governo espanhol vem se esforçando para assegurar que qualquer ajuda externa seja direcionada aos bancos, e não ao governo central.

Como resultado, os empréstimos serão feitos à agência de reestruturação bancária, o chamado Fundo de Reestruturação Ordenada Bancária (FROB), que funciona como agente intermediário do governo. Ainda assim, o crédito será considerado de todas as formas como dívida pública, segundo afirmou o ministro Luis de Guindos.

Em seu comunicado, o grupo de países da zona do euro declarou: "O FROB, que atua como agente do governo espanhol, poderia receber os fundos e repassá-los às instituições financeiras envolvidas. O governo espanhol manterá a total responsabilidade pela ajuda financeira".

O dinheiro virá de dois fundos criados para ajudar os membros da zona do euro que se encontram em dificuldades financeiras: o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF), já em funcionamento, e o Mecanismo de Estabilidade Europeu (MEE), que entra em vigor no mês que vem.

O ministro da Economia espanhol não soube afirmar que proporção será coberta por cada um desses fundos, já que alguns parlamentos de países da zona do euro ainda não ratificaram a criação do MEE.

O fato de que o empréstimo será repassado através do FROB faz com que as taxas de juros e os prazos de devolução do dinheiro sejam extremamente favoráveis, segundo o ministro.

Resgate?

Segundo observa o correspondente da BBC em Madri Tom Burridge, a maior parte dos analistas e especialistas qualificariam o anunciado neste sábado como um resgate financeiro.

Burridge reconhece, porém, que é um resgate diferente do que receberam Grécia, Portugal e Irlanda, já que a Espanha não será submetida a condições tão duras e o dinheiro será gerenciado pelo FROB.

Mas, considerando que o FROB é uma instituição pública, a dívida contraída por esse empréstimo acabará contabilizada nas contas do governo espanhol.

As autoridades espanholas recusavam comentar a possibilidade do empréstimo até o último momento. Alguns ministros, inclusive, negaram no próprio sábado que a Espanha fosse pedir ajuda.

"A impressão que temos é que a Espanha é conduzida por uma mão externa para acelerar o processo de pedido de ajuda internacional", conclui Burridge.


Extraído do sítio BBC Brasil

NÃO SERÁ JULGADO O MENSALÃO, MAS JOSÉ DIRCEU - Eduardo Guimarães

A definição da data inicial do julgamento do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal teve um gostinho de vitória para as famílias Marinho, Civita, Frias e Mesquita, bem como para o PSDB e o DEM. A aliança entre esses impérios de comunicação e partidos políticos tateia, há quase uma década, em busca de um feitiço que lhe permita recuperar o poder perdido.

De 2002 para cá, ainda que tenha conservado o poder de interferir na agenda pública, a direita midiática perdeu o poder sobre a definição de políticas públicas e de utilização de verbas. Com isso, apesar da manutenção da influência, na prática o que partidos e órgãos de imprensa perderam foi, simplesmente, dinheiro.

Em termos eleitorais, o julgamento do mensalão é uma benção para essa força política decadente. É possível sonhar com uma devastação eleitoral e de imagem não só do PT, mas, sobretudo, de Luiz Inácio Lula da Silva, que, nos últimos dez anos, converteu-se no carrasco das forças conservadoras ao, não se limitando a vencer eleições, gerar vitórias eleitorais de seus correligionários.

Contudo, por mais que a marcação da data do julgamento do mensalão revele suscetibilidade do STF às pressões midiáticas, existe uma possibilidade imensa de a vitória de hoje se transformar em derrota amanhã. Isso porque o julgamento inteiro do mensalão depende da condenação inequívoca de um só dos seus 38 acusados: José Dirceu.

Se os outros 37 réus forem condenados e Dirceu for absolvido, mídia, PSDB e DEM terão sido derrotados. E o que é pior: ressurgirá no cenário político aquele que deveria ser hoje o presidente da República se não tivesse tido os seus direitos políticos cassados.

Por alguma razão que ainda não ficou muito clara, a direita considera Dirceu muito “pior” do que Lula para si. Guerrilheiro de décadas atrás, treinado em combates físicos em Cuba, era e continua sendo considerado o grande artífice da remodelação ideológica que levou o PT ao poder.

Um José Dirceu reabilitado politicamente aos 66 anos significaria, também, possibilidade concreta de ele assumir algum importante cargo público no governo Dilma Rousseff ou, por exemplo, eleger-se senador por São Paulo em 2014, voltando a influir decisivamente na política.

Não se engane, leitor: poder para Dirceu significaria, sem sombra de dúvida, uma ameaça às famílias midiáticas. Conforme o ex-ministro de Lula declarou mais de uma vez, a grande agenda do Brasil nos próximos anos será a diluição da concentração de poder em mãos de meia dúzia de famílias controladoras de impérios de comunicação. Essa declaração jamais será esquecida.

Dirceu, hoje, é tratado como culpado pela mídia e pelos adversários políticos declarados. Não se encontrará um só texto jornalístico da grande imprensa em que se conceda a ele a realidade, ou seja, de que continua inocente até que seu processo tenha transitado em julgado. O que seus inimigos políticos fariam da vida se ele fosse absolvido?

Podem condenar os outros 37 réus, portanto. Se Dirceu for absolvido, o que Globo, Folha, Estadão e Veja disseram antes será alvo de desmoralização e a sensação de vitória do PT e de Lula será inevitável. Caso contrário, o maior partido e o maior líder político brasileiros dividirão a derrota com os condenados e os prejuízos político-eleitorais entre si.

A boa notícia para Lula, para o PT e para o próprio Dirceu é a de que, à luz do melhor direito, inexiste uma só prova contra esse político controverso. Mesmo se for culpado – o que ninguém pode confirmar ou negar –, se houver um julgamento justo ele terá que ser absolvido.

Se isso não ocorrer, José Dirceu terá sofrido condenação política por um tribunal que deveria se pautar estritamente por critérios técnicos.

Eis, portanto, o dilema em que se debaterá o Brasil em pleno processo eleitoral. A condenação de Dirceu seria um verdadeiro estupro do Estado de Direito que transformaria o Brasil em uma ditadura midiática em que inimigos de meia dúzia de famílias podem ser linchados. Já sua absolvição contra todas as pressões, consolidará a democracia no Brasil.

Não é pouco o que está em jogo neste ano.


Extraído do Blog da Cidadania

10 junho 2012

MENSALÃO TUCANO E O SILÊNCIO DA MÍDIA - Altamiro Borges


Na quarta-feira passada (6), finalmente o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu incluir na pauta o debate sobre o “mensalão tucano”, o esquema utilizado para alimentar a campanha pela reeleição do governador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) em 1998. A mídia, porém, não deu qualquer destaque ao assunto. Algumas notinhas informaram apenas que o “mensalão mineiro” também deverá ser julgado em breve – a imprensa demotucana evita, por razões óbvias, falar em “mensalão tucano”.

O caso é bastante emblemático. Ele serve para comprovar a seletividade da chamada grande imprensa. O escândalo surgiu bem antes das denúncias contra o PT. A própria Procuradoria-Geral da República, ao encaminhar o caso ao STF em novembro de 2007, afirmou que o esquema foi “a origem e o laboratório” do “mensalão do PT”. Ele teria sido armado pelo mesmo publicitário Marcos Valério, que montou o famoso “valerioduto” para financiar campanhas eleitorais com recursos públicos e doações de empresas privadas.

"Problemas na prestação de contas"

Segundo o Ministério Público Federal, o esquema usado na campanha frustrada pela reeleição de Eduardo Azeredo, derrotado na época por Itamar Franco, foi financiado com recursos da Copasa (Companhia de Saneamento de Minas Gerais), Comig (Companhia Mineradora de Minas Gerais) e Bemge (Banco do Estado de Minas Gerais). Cerca de R$ 3,5 milhões foram repassados à agência de publicidade de Marcos Valério, a SMP&B, e depois serviram para irrigar o caixa dois da campanha do tucano mineiro.

Numa entrevista à Folha, em setembro de 2007, o próprio Eduardo Azeredo, hoje deputado federal do PSDB, confirmou que teve “problemas na prestação de contas da campanha”. Mas, diante das denúncias, ele fez questão de dizer que os recursos “não contabilizados” não eram apenas para a sua campanha, “mas dos partidos coligados e que envolvia outros cargos, até mesmo de presidente da República”. E confirmou que “parte dos custos” da campanha pela reeleição de FHC foi bancada por seu comitê eleitoral.

Os corredores lúgubres do Judiciário

Apesar das inúmeras provas documentais sobre a existência do esquema ilegal, até hoje o STF protelava o seu julgamento e a mídia fazia de conta que ele não existia. A “faca no pescoço”, utilizada para acelerar o julgamento do “mensalão do PT”, nunca foi usada para apressar o julgamento do “mensalão tucano”, bem mais antigo. Será que agora os ministros do STF vão finalmente julgar o caso? Ou ele permanecerá “passeando pelos corredores lúgubres do Judiciário”, como indaga o blogueiro Antônio Mello.

Extraído do Blog do Miro

09 junho 2012

O CAIXA-2 DOS DEMOS NO RN - Daniel Dantas Lemos

Por Daniel Dantas Lemos, no blog De olho no discurso:


As eleições de 2006 foram realizadas sob a égide do controle das contas de campanha e dos seus gastos. No ano anterior, o chamado escândalo do Mensalão expôs as vísceras dos vícios e indícios de crimes de financiamento de campanha em cena no país.

Era de se esperar que os partidos tomassem mais cuidado naquela eleição com as práticas vedadas pela legislação eleitoral. O PFL no RN não teve esse cuidado. É o que se depreende dos 42 áudios de interceptações telefônicas a que o blog teve acesso e publicou entre a segunda-feira (21) e o domingo (27).

No âmbito de uma investigação do Ministério Público estadual, o telefone celular de Francisco Galbi Saldanha, atualmente secretário-adjunto da Casa Civil do governo Rosalba Ciarlini (DEM), foi grampeado. E trouxe à luz conversas muito elucidativas, principalmente entre Galbi e Carlos Augusto Rosado, marido da atual governadora e então candidata ao Senado Federal. Rosalba foi eleita em 2006, mas os telefonemas mostram esquemas de compra de apoio de políticos, compra de votos, fraude em prestação de contas com uso de notas fiscais frias e uma complexa rede de Caixa 2.

Por envolverem políticos com o conhecido foro especial (o senador José Agripino, a então senadora Rosalba Ciarlini e o deputado federal Betinho Rosado), a investigação foi encaminhada pelo Ministério Público estadual e também pelo Ministério Público eleitoral para a Procuradoria Geral da República. Em janeiro de 2009.

Muitas conversas explicitam, por exemplo, o uso de dinheiro vivo para pagamento de gastos de campanha - enquanto a lei exigia o uso de cheques vinculados às contas. Por exemplo, em 05 de setembro de 2006, Carlos Augusto e Galbi conversam sobre o saque de um dinheiro a ser feito na conta, com cartão, para pagamento de despesas de campanha.

Alguns nomes são muito frequentes nas interceptações do telefone de Francisco Galbi Saldanha. Aliás, o próprio Galbi trabalha com Carlos Augusto Rosado desde os tempos em que o atual primeiro-cavalheiro era presidente da Assembleia Legislativa (1981-1983).

A pessoa que aparece mais frequentemente nas ligações é a então secretária do PFL em Mossoró, "Neves". Neves é irmã do diretor-proprietário do Jornal de Fato, César Santos.

Já "Valentim" é Valentim Marinho, diretor do ITEP em Mossoró. Antônio de Castro é ex-secretário de Serviços Urbanos da prefeitura de Mossoró na gestão de Rosalba Ciarlini.

Outra personagem, "Alcineide", citada numa gravação é Alcineide Andrade, gerente da RPC (rádio Tapuyo), tesoureira do deputado federal Betinho Rosado, de absoluta confiança dele. Betinho é irmão de Carlos Augusto Rosado e atualmente ocupa o cargo de secretário de agricultura.

Até indícios do envolvimento com a máfia dos sanguessugas aparecem nessas ligações. Albert Nobrega, atual secretário de administração do estado, pede ajuda imediatamente a Galbi por causa de umas ambulâncias compradas pela prefeitura de Mossoró à época da máfia dos sanguessugas. Em 2006, Nobrega era presidente da Comissão de Licitação da prefeitura de Mossoró e é ele que diz que, sem ajuda de Galbi, “vai lascar Rosalba”, já senadora eleita.

Por fim, o proprietário do posto Leste-Oeste, usado na emissão de notas frias para justificar a movimentação de dinheiro da campanha, é Dix-sept Rosado, irmão caçula de Carlos Augusto, Betinho e Isaura Rosado, secretária de cultura do estado.

A rede é densa e muitas vezes eu tenho levado um tempo para entender as relações. Que são todas eminentemente familiares. Exemplo disso é a informação sobre os cheques da prefeita de Messias Targino, Francisca Shirley Targino. Inicialmente um comentarista disse que Shirley seria cunhada de Ruth e Rosalba Ciarlini, sendo casada com um irmão das duas, Clovis. Depois, outro comentário esclareceu que Shirley e Clóvis tiveram um relacionamento, mas não foram casados.

No caso de Ruth Ciarlini, que à época perdeu a reeleição para deputada estadual, é atual vice-prefeita de Mossoró. A prefeita é Fafá Rosado, do DEM. Sobre ela, Ruth diz que ia viver para trabalhar contra Fafá. Na mesma gravação, Ruth Ciarlini chama seu gabinete na Assembleia Legislativa de "cabide de empregos". São muitos nomes relacionados como cargos em comissão no gabinete - na verdade, a maior parte cabos eleitorais. Ruth terminou a eleição quebrada e suas conversas sempre giram em torno desse tema.




Outro grave crime foi confessado nos áudios: Carlos Augusto Rosado informou à tesoureira da campanha do irmão que iria cair R$ 100 mil na conta de campanha de Betinho. Mas o dinheiro era de Rosalba. Depois, Carlos e Galbi tentam articular uma forma de, com uso de notas frias, justificar a retirada do dinheiro da conta de Betinho. Utilizam-se, inclusive, de notas frias do posto de combustível Leste-Oeste, de propriedade do irmão caçula de Carlos Augusto e Betinho.

O pequeno relato não dá conta de tudo o que está nos áudios. Mas você ouvir tudo nos links a seguir:



3) Gravações em 08 de setembro de 2006
4) Gravações em 15 de setembro de 2006



7) Gravações em 03 de outubro de 2006
8) Gravações em 04 de outubro de 2006





14) Gravações em 16 de outubro de 2006


17) Gravações em 26 de outubro de 2006
18) Gravações com datas não identificadas

O SUICÍDIO PELA PALAVRA - Lúcio Flávio Pinto



Veja, uma das cinco revistas semanais de informações mais importantes do mundo, levou 2.272 edições, em 44 anos de circulação, para cometer o maior “nariz de cera” da sua história, do jornalismo brasileiro em muitos anos e talvez da imprensa mundial. Sua matéria de capa do último número, com data de 6/56/2012, abre com 98 linhas da mais medíocre “encheção de linguiça”, como se diz “no popular”.

Se tivessem mesmo que sair, esses quatro enormes parágrafos, numa matéria de apenas oito períodos, tirando boxes e penduricalhos outros para descansar a vista (e relaxar a cabeça), caberiam na Carta ao Leitor, espaço reservado à opinião do dono. Mas lá já estava o devido editorial da “casa”, repleto de adjetivações e subjetividades, conforme o estilo.

A tarefa do repórter Daniel Pereira não era competir em fúria acusatória com a voz do dono, mas dar-lhe – se fosse o caso – suporte informativo. Sua matéria devia conter fatos, que constituem a arma de combate do repórter, infalível diante de qualquer assunto sob sua investigação.

Ao invés disso, metade da sua falsa reportagem, com presunção de trazer novidades e gravidades suficientes para merecer a capa da edição, é um rosário de imprecações opiniáticas, no mais grosseiro e primário estilo, num desabamento de qualidade em relação à Carta ao Leitor.

História desrespeitada

Em tom professoral digno de um sábio de almanaque Capivarol, o editor da sucursal de Brasília, distinto e ilustre desconhecido (ainda, claro), faz gracejo insosso com o fracasso da estratégia de Lula de usar a “CPI do Cachoeira” como manobra diversionista para tirar o foco do julgamento dos integrantes da “quadrilha do mensalão”.

Tentando reparar o efeito inverso gerado pela iniciativa, Lula procurou o ministro Gilmar Mendes, do STF, para um acerto, “movimento tão indecoroso que, ao contrário do imaginado pela falconaria petista, se voltou contra o partido”, sentencia o jornalista.

Não sou petista. Nunca fui. Também não sou nem nunca serei filado a qualquer partido político, enquanto minha profissão me conceder um espaço para opinar e interpretar. É onde faço política: tentando armar o meu leitor para ter sua agenda atualizada aos grandes temas ao alcance da sua vontade.

Votei uma única vez em Lula para presidente da República, na primeira tentativa dele, contra Collor, em 1989. Ninguém encontrará um artigo de louvor a ele no meu Jornal Pessoal. Como não moro em Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro ou Belo Horizonte, mas em Belém do Pará, distante dois mil quilômetros da capital federal, não me atrevo a escrever reportagens a respeito dele.

Para isso, precisaria estar em contato com pessoas do centro do poder, testemunhar acontecimentos, criar fontes com acesso às informações diretas. Mas minhas análises, feitas à distância, não ultrapassam o limite da possibilidade de demonstrar com fatos o que digo. E só digo o que os fatos me autorizam.

Ao autorizar um repórter, encarregado de produzir uma reportagem, que requer tudo que está fora do meu alcance, justamente porque não disponho dos recursos ao alcance de Daniel Pereira, Veja mostra que não respeita a si, aos seus jornalistas e ao leitor. Desrespeita a própria história, que a fez ocupar um lugar tão destacado na imprensa mundial e ter-se estabilizado há muitos anos em 1,2 milhão de exemplares de tiragem.

Alma vendida

O respeito e a admiração que as pessoas têm hoje pelos jornalistas da TV Globo era o mesmo, com outra substância, do início dos anos 1970, quando Veja se consolidou como a mais importante novidade na imprensa brasileira. Antes de passar a trabalhar na revista, via-me diante de humilhação partilhada por repórteres das outras publicações, como as minhas. Depois de dar entrevista coletiva, o personagem da reunião se desculpava e atendia à parte o representante de Veja, que costumava assistir calado ao pingue-pongue de perguntas e respostas entre os colegas e o entrevistado.

Mas não ficávamos furiosos ou nos revoltávamos pelo privilégio dado ao concorrente. Veríamos, quando a revista circulasse, que o tratamento diferenciado tinha uma motivação fundamentada na qualidade do trabalho da revista. Por opção editorial, as matérias não eram assinadas. Mas tanto os profissionais que iam às ruas atrás das notícias eram bons como ótimos eram aqueles que reescreviam tudo na redação, estabelecendo uma homogeneidade de alto nível em todos os textos, do primeiro ao último.

Essa boa novidade levou ao exagero da padronização, logo corrigido pela liberação dos freios da centralização: cada jornalista pode desenvolver seu estilo e as matérias começaram a sair assinadas.

Muitas das matérias que forniram as páginas da revista eram do melhor jornalismo, vizinho dos textos de autores da melhor literatura. Tanto pelo domínio do vernáculo como pela consciência de que jornalismo é a vida pulsando todos os dias em sua materialização factual, sempre sujeita ao humano, demasiado humano (o que serviu de halo para o “novo jornalismo” americano).

Com a sucessão de textos do tipo que agride a essência do jornalismo já há bastante tempo, Veja está prestando um grave desserviço ao Brasil, a pretexto de brecar o avanço do “lulismo” tirânico e irresponsável. Está fazendo o país retroceder a um jornalismo praticado até seis décadas atrás, quando o Diário Carioca introduziu o lide no manual de redação jornalística. Sucederam-se a partir daí os aperfeiçoamentos que Veja consolidou.

A começar pelo curso de formação que deu aos seus futuros integrantes antes de começar a circular, uma revolução em matéria de recrutamento de quadros. E pelo elevado padrão de profissionalismo que estabeleceu, tornando-se uma meta para todos aqueles que queriam avançar no seu ofício e ter uma vida digna, decente e confortável – conquistas das quais só a última era frequente, à custa da venda da alma ao diabo; até Veja demonstrar que jornalista também pode ganhar bem sem se prostituir.

Efeito Jim Jones

É profundamente lamentável que essa mesma revista esteja agora, num paroxismo editorial difícil de explicar e mais difícil ainda de entender, renunciando a todas essas conquistas para se entregar a uma voragem de apoplexia palavrosa, se a tipologia cabe nessa forma surpreendente de patologia. Lula pode sobreviver a esse tipo de vírus. O jornalismo, não.

Querendo ser a coveira de um líder político esquivo e ambíguo, Veja está, na verdade, cometendo um haraquiri patético, capaz de arrastar consigo muito mais gente do que a que sucumbiu sob outro desses líderes em transe: Jim Jones.

Lúcio Flávio Pinto é jornalista, editor do Jornal Pessoal (Belém, PA).

Extraído do sítio Observatório da Imprensa

UM MODO INCOERENTE DE FAZER JORNALISMO - Tamires Coêlho



Os profissionais de Comunicação, sobretudo os jornalistas, estão sendo cada vez mais vistos com olhos de desconfiança por boa parcela da população. Diante de notícias e comentários estereotipados e (muitas vezes) de mau gosto, o jornalismo já não é mais visto como um lugar de construção e desconstrução de fatos, mas como legitimador de um senso comum superficial. É possível encontrar distorções (sutis e escrachadas) nos mais variados meios de comunicação, nas abordagens de incontáveis temas.

Como seria impossível relatar todas as falhas éticas (sejam de ethos jornalístico ou relativas a um código de moralidade da profissão) que – infelizmente – encontramos publicadas cotidianamente em diversas interfaces, este artigo tem seu foco voltado à cobertura da Marcha das Vadias de Porto Alegre em 2012 pela Rede Brasil Sul de Televisão (RBS – distribuidora da Rede Globo para os estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina).

A Marcha das Vadias é um manifesto que ocorre desde 2011 em várias partes do mundo, inclusive em várias cidades do Brasil. A onda de protestos começou quando foi constatado um número bastante alto de estupros na Universidade de Toronto (Canadá) e um policial tentou “conscientizar” as mulheres dizendo-lhes que “não se vestissem como vadias” se não quisessem ser estupradas – como se (absurdamente) as mulheres abusadas pudessem ser culpadas por seu estupro. A manifestação em Porto Alegre aconteceu no dia 27 de maio (domingo) e atraiu pelo menos 1.500 pessoas à Praça da Redenção (Praça Farroupilha).

Roupas curtas

O evento ativista reuniu mulheres, homens, homossexuais, idosos e crianças que reivindicaram igualdade de direitos, clamaram pelo fim do machismo, do abuso sexual e da violência contra as mulheres – independentemente da roupa que elas estejam usando. O movimento pacífico não era partidarizado, embora houvessem algumas pessoas com símbolos e bandeiras de partidos políticos, e não pretendia visibilizar nenhuma organização ou instituição em específico. Apesar de frases e gritos de crítica à Igreja católica (que é totalmente contra o aborto) e ao sistema capitalista (iniciativas mais isoladas), foi uma marcha voltada à sociedade em seus mais diversos âmbitos.

Desde o início, durante a confecção de cartazes, muitos ativistas já comentavam os possíveis desdobramentos midiáticos que a marcha – organizada com a ajuda imprescindível de redes sociais virtuais – poderia causar e especulavam quais seriam os discursos e críticas ao protesto por parte da RBS, que concentra boa parte dos meios de comunicação do estado e da região Sul do país. Mas a empresa surpreendeu. E não foi de maneira positiva.

Distorcer entrevistas e minimizar a participação popular da marcha foi apenas o começo. Afirmar que um movimento que parou uma importante via da capital com mais de mil manifestantes tinha “dezenas de pessoas” no jornal impresso Zero Hora foi uma piadinha bem rápida, perto da stand up comedy que se desenrolaria na segunda-feira subsequente (28 de maio). Logo no Bom Dia Rio Grande, telejornal matinal da emissora no estado, gritos e frases de efeito contra a violência sexual e pela igualdade de gênero foram simplesmente igualados às escolhas de vestuário das mulheres – com direito a comparações com personagens caricaturais de novelas. Mensagens como “Meu corpo, minhas regras”, “Estupro não tem justificativa”, “Pelo fim da violência contra a mulher”, “Menos violência + orgasmo”, “Se ser livre é ser vadia, somos todas vadias”, “Estupro = Machismo”, “Eu não vim da tua costela, tu que vieste do meu útero”, “Basta! Não somos estupráveis”, “Mulher bonita é a que luta”, foram simplesmente ignoradas em parte da matéria, que mostrou a Marcha das Vadias como um protesto para que as mulheres usem roupas curtas ou chamativas. E só.

Participação “oportuna”

Parece óbvio que se a marcha tivesse um motivo eminentemente estético, de aparência, relativo à moda, não haveria o por quê de marchar e de mobilizar tantas pessoas em torno de uma causa. Mas o discurso da RBS deixou claro que o grupo ativista lutava pelo direito de usar roupas consideradas “vulgares” quando as mulheres bem entendessem. Visão reducionista que transfere o valor do poder político das mulheres a uma discussão sobre moda, consumo e corpo físico.

Apesar de a matéria televisiva ter mencionado que a organização do protesto defendia que “[...] a mulher deve ser respeitada, independente (sic) da forma de se vestir”, imediatamente depois a repórter Dayanne Rodrigues diz que as mulheres estavam lutando (pasmem!) para que as roupas justas não fossem consideradas vulgares. O foco da matéria foi nas roupas das mulheres, e não no manifesto pacífico contra o machismo e a violência sexual. E como já não fosse suficientemente incoerente, exibe um trecho de entrevista (que contradiz a fala da própria repórter) com uma das organizadoras da marcha explicando que, não importa a roupa que a mulher use, nada confere a um homem o direito de abusar sexualmente dela.

Até aí, talvez algum leitor pense que esta análise é totalmente feminista, radical e que não considera eventuais deslizes que ocorrem naturalmente na profissão de jornalista, na correria das redações etc. Mas a reportagem é fechada com “chave de ouro” com a participação bastante “oportuna” de uma consultora de moda. Sim, porque uma consultora de moda obviamente iria revelar dados importantes correlacionados a uma marcha contra a violência sexual (quanta coerência!). Deturpando o objetivo principal da Marcha das Vadias, a matéria passa a discutir o que uma mulher pode vestir (ou não) e quando vestir, ratificando assim os padrões impostos às mulheres quanto ao estereótipo e ao comportamento – aspectos ironicamente questionados na marcha.

“Voz do povo”

Quando a repórter diz que “vale o bom senso” em relação às roupas a serem usadas por mulheres, ela deve ter esquecido (ironicamente) sobre como esse é também um elemento primordial na produção de conteúdo jornalístico. O direito de sair de shortinho ou de minissaia defendido na marcha não é um apelo comercial para que se compre mais dessas peças de roupas, mas um pedido de respeito para que, muito vestida ou pouco vestida, nada dê o direito a qualquer homem de considerá-la fácil, vulgar ou “estuprável”. A impressão que ficou é a de que, se não houvesse imagens, facilmente acreditaríamos que a repórter nem teria se dado ao trabalho de ir à manifestação para ouvir a versão dos ativistas.

E as incoerências supracitadas no impresso e na TV do grupo RBS foram apenas uma preparação ao que viria a ser dito em um programa da Rádio Atlântida (pertencente ao mesmo conglomerado comunicacional) horas mais tarde. O locutor Alexandre Fetter, em total desrespeito às manifestantes, disse: “Vão lavar uma louça. Como vou respeitar quem se auto-intitula de vadia?” O comentário gerou revolta por parte de muita gente e gerou uma série de réplicas ao “comunicador” (se é que é possível utilizar essa denominação), a ponto de ele escrever debochadamente em sua conta de Twitter as seguintes mensagens: “Sofrendo ataque de vadias e variações sobre o gênero, a tarde inteira” e “Daí quem se auto intitula vadia fica braba por que a chamo pelo título. Não consigo entender, daí, gurias. Relaxem e, eventualmente, gozem.”

Surge, então, o questionamento: seria essa a “voz do povo” do Rio Grande do Sul? De uma pessoa que utiliza um programa de rádio para debochar de causas ativistas e claramente corrobora com agressões simbólicas machistas? De alguém que sequer foi capaz de pesquisar no Google sobre os motivos do nome da Marcha das Vadias? O já referido “bom senso” citado pela repórter do Bom Dia Rio Grande espera que não.

“Aprodução e transmissão do saber”

Percebe-se que, se a sociedade e a cultura do brasileiro estão tendendo (mesmo que lentamente) à não aceitação de estereótipos e ao não conformismo, o profissional de comunicação das grandes empresas (talvez imposto por seus editores, ou não) deturpa critérios de noticiabilidade, modifica narrativas e sentidos, desconsidera denúncias importantes. E um jornalismo que não acompanha esse processo está fadado a ser tão desacreditado quanto a política eleitoral no país.

Levando em conta a noção de ethos, que seria “a imagem de si que o locutor constrói em seu discurso para exercer uma influência sobre seu alocutário” (CHARAUDEAU & MAINGUENEAU, 2004, p.220), qual é a imagem de si que os comunicadores estão construindo? Será que os jornalistas e o locutor do grupo RBS tentam ser objetivos à medida do possível, ou seria esse um jornalismo híbrido deformado no qual “nem temos um jornalismo opinativo consistente, pluralista; nem temos um jornalismo noticioso habilitado a exercer a grande reportagem de aprofundamento e investigação dos problemas sociais” (MEDINA, 1988, p. 140)?

Se, como diz Pena (2005), “a notícia nunca esteve tão carregada de opinião”, por que travestir de informativo o que não é? Se o mesmo teórico diz que o jornalismo é uma “prática discursiva especializada de produção e transmissão de saber”, não seria esse saber orientado e direcionado previamente? Se “a percepção individual, para ser ampliada, necessita da assistência de intérpretes munidos com dados não amplamente disponíveis à experiência individual” (BAUMAN, 2004), como proceder quando os intérpretes não estão devidamente informados e bradam o que primeiro lhes vier à cabeça?

Pretensa objetividade

Este artigo não tem a intenção de incitar o boicote à RBS, ou de propor alternativas de comunicação aos produtos do grupo. Mas questionamos como dar credibilidade a uma empresa de comunicação que age da forma supracitada e que, muito irônica e incoerentemente, recém publicou um “guia de ética” que prega que “o primeiro dever do jornalismo é a busca da verdade”, que considera como seu objetivo “assegurar ao público seu direito à informação independente, à opinião plural, às respostas e às correções sempre que estas se fizerem necessárias” e que se diz “uma empresa ética e que se orgulha do que faz”. É difícil encontrar na prática um “bom senso” da RBS que seja tão lindo e transparente como é o guia utópico.

A Marcha das Vadias de Porto Alegre conseguiu o que queria: gerar debates, discussões, dissabores, polêmica e visibilidade ao movimento pelo fim da violência sexual. Junto com um novo pensamento em termos de sociedade e de educação (voltadas à diversidade), o que deve ser repensado no fazer jornalístico e na sua pretensa objetividade?

Referências bibliográficas:
BAUMAN, Zigmunt. Entrevista com Zygmunt Bauman. Entrevista concedida a Maria Lúcia Garcia Pallares-Burke. São Paulo: Tempo Social, 2004. Disponível aqui, acesso em 28 de maio de 2012.
CHARAUDEAU, Patrick; MAINGUENAU, Dominique. Dicionário de análise do discurso. São Paulo: Contexto, 2004.
GRUPO RBS. Guia de Ética e autorregulamentação jornalística. PortoAlegre: RBS Publicações, 2011. Disponível aqui, acesso em 28 de maio de 2012.
GRUPO RBS. Marcha das vadias pede mais respeito às mulheres, em Porto Alegre. 28 de maio de 2012. Disponível aqui, acesso em 28 de maio de 2012.
MEDINA, Cremilda. Notícia um produto à venda: Jornalismo na sociedade urbana e industrial. 2ª ed. São Paulo: Summus, 1988.
PENA, Felipe.Teoria do jornalismo. São Paulo: Contexto, 2005.

Tamires Coêlho é jornalista, mestranda em Ciências da Comunicação e pesquisadora de Tecnologias da Comunicação, Cultura e Identidade.


Extraído do sítio Observatório da Imprensa